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OBSERVATÓRIO LITERÁRIO
TV GLOBO
Punhaladas na língua
Joaquim Moura
Nossa sociedade não conseguirá mesmo se desenvolver se os meios de comunicação continuarem impedindo que as pessoas possam interligar os fatos e perceber melhor o panorama geral dos absurdos que nos vitimam. Tal jogo de fragmentação e descontinuidade, de desconstrução da percepção da realidade social, foi muito bem ilustrado pela TV Globo na sexta-feira, 12/5. Primeiro, no telejornal Hoje, veiculou extensa matéria sobre projeto de lei do deputado federal Aldo Rebelo (PC do B-SP) visando reduzir a invasão absurda de palavras em inglês (principalmente) em nosso espaço sócio-cultural.
A matéria constatava que tal invasão é sintoma óbvio de baixa auto-estima e ao mesmo tempo uma agressão à população que mal sabe ler em português.
Pois bem: na noite do mesmo dia o Jornal Nacional, em longa matéria sobre os novos estagiários universitários que trabalham em empresas que se pretendem muito modernas, insistia em chamá-los de trainee. Em nenhuma hora comentou a pobreza e a vilania de se inserir mais um anglicismo, como um punhal, em nossa língua.
Aliás, na mesma noite, no Conversa Afiada, com Paulo Henrique Amorim, uma "consultora" de uma empresa da "nova economia" se referia ao "budget" das empresas e aos talentos dos modernos "entrepreneurs". Paulo Henrique nem lhe chamou a atenção nem informou, a seus espectadores brasileiros, o que significavam tais vocábulos.
Também ninguém explica (nem pergunta) por que o portal <www.globo.com> omite o final .br... Quer se passar por americano? Vergonha de ser brasileiro? Ninguém nem achou estranho, nenhum editor de caderno de informática quis saber o porquê da omissão...
Às vezes penso que se há 70 anos, quando chegaram ao Brasil os primeiros carros, já imperasse no país (e nos meios de comunicação) a mesma lassidão cultural e cívica, estaríamos chamando vela de "spark" e macaco de "jack".
CARTAS
Ainda os dicionários
Acabo de ler no sítio do Observatório da Imprensa mais algumas linhas sobre o caso dos dicionários. Acompanhei a polêmica, ouvi e ouvi; houve besteiras de todos os lados e houve coisas aproveitáveis, aqui e ali. Poucas, mas houve. Aí, de repente, lembrei-me de uma coisinha: tive aulas, durante dois semestres inteirinhos, na USP, há alguns anos, de uma matéria que se chamava... pasmem! Lexicografia! Idéia puxa idéia... lembrei-me que há mestres, doutores, pós-doutores, livre-docentes e coisa e loisa... em Lexicografia! Um pessoal que, há anos, vive do que lhes pagam as universidades, só para estudar... dicionários!
Será que nenhum deles soube do que os jornais andaram dizendo? Se não souberam, por que não souberam? Se souberam e não responderam, por que não responderam? Se não falaram porque não foram consultados, por que não foram consultados?
Afinal, por que não temos, no Brasil, nem um bom dicionário de língua?! Só mistérios...
Caia Fittipaldi, lingüista e tradutora
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