|
OBSERVATÓRIO LITERÁRIO
A leitura no Século 21
Esdras do Nascimento
Idéias e Prosa e Verso, cadernos culturais do Jornal do Brasil e do Globo, publicaram no mesmo dia, 24 de outubro, longas entrevistas do professor francês Roger Chartier, a propósito do lançamento da tradução brasileira do livro História da leitura no mundo ocidental, antologia de textos que ele organizou com a colaboração do italiano Guglielmo Cavallo.
Nessas entrevistas, Roger Chartier fala sobre as leituras silenciosa e em voz alta. Na Idade Média era difícil compreender os textos latinos porque eles vinham em escrita contínua, sem nenhuma separação entre as palavras, nem pontuação. A leitura se tornou um ato coletivo, compartilhado.
No passado, ler significava, de certa forma, ser sodomizado, ser possuído por aquilo que era lido. Os nobres se deleitavam com o que ouviam, mas, prudentes, preferiam deixar para os escravos os riscos da prática da leitura.
No porto de Alexandria, os navios eram revistados e os livros, confiscados. Os proprietários recebiam uma cópia. Os originais iam para a Biblioteca de Alexandria, que pretendia ter em seu acervo todos os livros até então publicados no mundo inteiro.
Com os computadores, a Internet, a transmissão eletrônica, os CDs que armazenam textos de dezenas de livros completos num só disco, e outros recursos que tendem a se multiplicar, estaria em risco a prática da leitura? Roger Chartier acha que não: "Não é a mesma coisa ler o texto de D. Quixote num CD-Rom e na sua primeira edição de 1605. Manusear o livro é reconstruir a experiência dos leitores do passado. A forma do texto sempre participa da produção do seu sentido".
Em conclusão, ele faz um exercício de futurologia, ao dizer que no Século 21 haverá convivência pacífica entre três formas de texto: o manuscrito, o impresso e o eletrônico. E conclui que a apocalíptica profecia de McLuhan não se confirmou, pois a idéia de uma substituição do mundo textual dos livros pelo mundo eletrônico das imagens não corresponde à situação atual.
As entrevistas publicadas pelo Jornal do Brasil e pelo Globo são excelentes, levam à reflexão, induzem ao debate. A torcida, agora, é para que outras igualmente bem-feitas sejam divulgadas. E por que não com autores brasileiros? Afinal de contas, o país vive no momento um dos seus mais ricos períodos literários, apesar dos pesares. E os nossos escritores precisam de espaço para dizer o que pensam. Se isso não viver a acontecer, o processo de colonização - já acelerado sob o disfarce da chamada globalização, ideologicamente estimulada pelo chamado neoliberalismo - se tornará irreversível.
CARTAS
O comentário do escritor Esdras do Nascimento é precioso pela síntese e rápidos indicadores sobre a obra do primeiro prêmio Nobel para a Literatura de Língua Portuguesa. Muito bem observada a falha geológica dos cadernos culturais de nossos (?) jornais que até o presente não deram ao fato a atenção que faz por merecer. Falta de espaço não é. Um grande jornal chegou a traduzir a resenha de um livro norte-americano que ainda não foi publicado no Brasil! E semana sim, semana também, o Haroldo de Campos ganha página inteira, ora no Estadão, ora na Folha, para falar de suas trans..., que ele chama de transcriações. Esse senhor, nos anos 80, depois de estudar hebraico durante um mês, traduziu o Eclesisastes, o que mereceu do então editor do Caderno 2 um artigo memorável.
Como lembra o jornalista Zuenir Ventura em seu recém-lançado livro sobre a inveja (um dos sete pecados cpaitais), é de Tom Jobim a frase: "no Brasil o êxito é imperdoável". Senti isso na própria carne: até hoje os leitores da Folha de S. Paulo não sabem que eu ganhei o Prêmio Casa de las Américas por meu romance Avante, Soldados: Para Trás, já publicado também em outros países e com contratos assinados para ser publicado em vários outros, em comissão julgadora presidida por José Saramago, em 1992. A revista Veja, quando recebi o prêmio, escreveu o seguinte: "O Casa de las Américas, instituído em Havana em abril de 1959, poucos meses depois da Revolução Cubana. já não tem o brilho do passado, quando entre os premiados estavam Gabriel García Márquez e Vargas Llosa. Mesmo assim entre os jurados deste ano, que leram uma centa de romances inéditos, estava o português José Saramago, autor do sucesso Evangelho Segundo Jesus Cristo".
Revistas européias e norte-americanas, mesmo as universitárias, noticiam e comentam mais autores e livros brasileiros do que todos os nossos periódicos reunidos. E para os estrangeiros nós somos uma curiosidade, já que escrevemos em português, um dialeto na Galáxia Gutenberg. Para o Brasil, porém, fazemos a única literatura do mundo que nos expressa, já que somos brasileiros. Ou já teremos sido reduzidos a súditos dos poderosos donos do mundo que estão comprando o Brasil?
Deonísio da Silva
Nota do O.I.: O conteúdo desta carta foi entregue a Haroldo de Campos, que até o fechamento da edição não nos havia encaminhado resposta.
xxx
Parabéns pelo artigo sobre a entrega do Prêmio Nobel ao escritor José Saramago. E por lembrar-nos de que os julgadores, afinal, lêem jornais - e provavelmente, só jornais. Coloca-nos (a nós e ao país) no devido lugar, isto é, o local exótico para onde vão, se perseguidos pela lei e pela ordem, os bandidos...
Saramago é muito bom, mas deixou de sê-lo um tantinho no exato momento em que se convenceu disso...
Ricardo Lyra, SP
xxx
É com prazer que tenho acompanhado os artigos e comentários que saem publicados no OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, notadamente no Observatório Literário.
Dá prazer, e por que não dizer, um certo alívio, perceber que existem pessoas preocupadas com a informação séria e objetiva, como, por exemplo, a do escritor Esdras do Nascimento sobre José Saramago.
Percebe-se que o autor da matéria conhece realmente o assunto, emite sem constrangimentos sua opinião pessoal abrindo espaço para críticas que em nada desmerecem a obra do vencedor do prêmio Nobel. Considero fundamental a desmitificação, a mostragem respeitosa e profunda, livre de preconceitos de qualquer ordem.
A responsabilidade dos meios de comunicação é enorme para a formação intelectual (e política) de nossos jovens. E dessa informação vai depender o futuro (e presente) de nosso país.
O OBSERVATÓRIO vem cumprindo suas propostas.
E que mais espaços sejam abertos para pessoas gabaritadas e descompromissadas que, com seus comentários e opiniões, venham enriquecer nossa vida cultural.
Parabéns!
Angela Adnet
xxx
Instigante e curiosa a posição de Esdras do Nascimento. Realmente o português é tão desconhecido que dificilmente haverá interesse em traduzir a obra de Saramago, a respeito do qual peço vênia para divergir, pois acho super chato e ininteligível.
Mas o prêmio Nobel sempre é uma publicidade benfazeja. Para os autores dotados realmente de poder para sensibilizar o público. Como Gabriel Garcia Marques e até Fuad Mahfuz (que escreve em árabe e foi vítima de recente atentado de extremistas, embora esteja com mais de 80 anos) e Isaac Singer (que escrevia em ídiche e foi traduzido para o inglês e outras línguas de erudição). Para os demais (na sua grande maioria o Nobel é uma ação entre amigos, com preponderância de premiados escandinavos), é uma comenda, um diploma e uma grana super respeitável. Será que o Brasil um dia chega lá?
Carlos Araujo
Só para complementar o comentário do Esdras, diria que quem "descobriu", para os leitores brasileiros, o Saramago genial de Memorial do Convento, Levantado do Chão e A Jangada de Pedra foi o nosso também genial Millôr Fernandes, em crônica do JB à época do lançamento, no Brasil, de Memorial do Convento. Merecidíssimo o prêmio. Não sei se o mundo agora vai dar mais atenção à literatura portuguesa, mas certamente Herculano, Eça e Pessoa estão recebendo, por tabela, a homenagem que também mereceriam, gênios que foram na arte de escrever.
José Rosa Filho
|
|