Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

OBSERVATÓRIO LITERÁRIO

José Mindlin e a alegria da leitura

Carlos Vogt

 

Se a famosa tirada de efeito, entre tantas outras, de Nelson Rodrigues - Toda unanimidade é burra - fosse ela própria unânime, então ela seria burra. Mas a verdade é que ela é inteligente, pelo simples fato de que existe ao menos uma unanimidade inteligente que muitos conhecemos, aquela que, ao longo dos anos, foi se formando em torno da personalidade e do caráter de José Mindlin.

Advogado, empresário, intelectual, bibliófilo, colecionador, artista do gosto, Mindlin sintetiza bem este elo indispensável do circuito literário que é o leitor que todo autor e toda grande obra almejam ter para a sua fortuna social e estética.

Todos sabemos da importância de Mindlin, de sua retidão de caráter, de sua capacidade de trabalho e de decisões acertadas, de sua generosidade, de sua vasta e sólida cultura, de sua admiração pela vida e, em especial, pela construção da existência feita do sol da criatividade e da beleza. Todos admiramos Mindlin, e aí está uma unanimidade inteligente.

Entre todas as boas famas que ele carrega, uma delas é a que se liga à sua paixão pelos livros - objetos e conteúdos - e à sua famosa biblioteca de livros raros. E foram esses predicados, entre outros, que atraíram recentemente a atenção de nossa imprensa fazendo com que a Veja de 12 de agosto de 1998 lhe dedicasse uma ampla reportagem assinada por Paulo Moreira Leite e intitulada pertinentemente Tesouro da vida, e levando a revista Época, de 23 de novembro de 1988, a propósito da bela mostra de gravuras de sua propriedade na Galeria do Sesi - Os Colecionadores - a voltar ao tema de sua grande afeição humana e profissional pela arte e pela cultura.

Nada mais justo e nada mais acertado.

As reportagens são boas e, a não ser por um ou outro escorregão, cumprem a tarefa de dar o merecido destaque ao que Mindlin significa para a vida cultural e institucional do país.

Entre esses pequenos tropeços, a matéria de Veja comete a mesma obsessão com números e quantidades que, de um modo geral, tanto fascínio exerce sobre nossa imprensa, obrigada que está - é assim que se julga - a medir a importância de uma personalidade, de um fato ou de um evento pela quantidade de dólares neles envolvidos. Aqui, a revista não foge à regra e, por insistir demais no valor material da biblioteca de Mindlin, acaba deixando de lado aspectos importantes da sua constituição e de seu constituidor.

A reportagem de Época vai melhor, nesse sentido, mas não escapa totalmente do fascínio contabilístico, cometendo ainda, a propósito do CD gravado por Mindlin, juntamente com Davi Arrigucci Junior, com trechos do Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, a imprudente informação de que o crítico e historiador da literatura Antonio Candido - o outro parceiro da narração do CD - é filósofo.

A revista noticia também o lançamento de outro CD. Trata-se agora de O prazer da poesia na voz de José Mindlin, contendo 28 poemas de grandes autores brasileiros, entre eles Olavo Bilac, Cecília Meireles, Carlos Drumond de Andrade, Manoel Bandeira e Vinícius de Moraes.

A esse propósito vale registrar que Mindlin, cujo Ex libris, buscado em Montaigne, é "Je ne fay rien sans gayeté" ("Não faço nada sem alegria"), dá uma pista importante para que possamos, ouvindo sua voz e suas entonações, aproximarmo-nos das miríades de tonalidades guardadas no silêncio das vozes seculares colecionadas em sua biblioteca, através das motivações do colecionador.

Emily Dickinson em uma carta datada de 1876 que dirige a Thomas Wentworth Higginton escreve que "A pena tem muitas inflexões, mas a voz, apenas uma" e com isso não só faz a defesa do ato de escrever e da leitura silenciosa, mas também nos leva, seus leitores, a indagar qual, entre todas as entonações possíveis da leitura de um texto literário, é a que mais se aproxima da representação de todo o potencial de significações que a pena do autor conseguiu produzir, ao escrevê-lo.

A mesma pergunta poderia ser formulada ao colecionador e amante dos livros que ao escolhê-los, selecioná-los, organizá-los em biblioteca, abrir-lhes as páginas envelhecidas para a leitura nova, apresentá-los e disponibilizá-los para outrem, faz como que uma composição que antes lhes era estranha e, desse modo, ao lê-los os reescreve. Com que voz, com que inflexão de pena, com que acento, com que ritmo de enunciação? Certamente os CDs gravados por Mindlin-leitor nos ajudarão muito a compreender melhor o Mindlin-autor dessa obra raríssima que é a sua biblioteca. Outro guia indispensável para essa compreensão é o seu Uma vida entre livros que traz, não por acaso, o subtítulo sugestivamente proustiano Reencontros com o tempo.

Não é também por acaso que o Ex Libris de Mindlin tenha sido buscado em Montaigne. Borges, este amante inveterado dos livros, leitor contumaz que boa parte de sua vida teve, devido à cegueira, de ler pela voz de outrem, professa também esta forma de alegria e de felicidade que é a leitura. "Emerson, diz ele numa conferência proferida na Universidade de Belgrano em 1978, coincide com Montaigne quanto ao fato de que devemos ler unicamente o que nos agrada, que um livro tem que ser uma forma de felicidade. Devemos tanto às letras. Sempre reli mais do que li. Creio que reler é mais importante do que ler, embora para se reler seja necessário já se haver lido".

Mindlin, além do bibliófilo competente e do leitor feliz, à Montaigne, à Emerson, ou à Borges, todos grandes leitores, é também um releitor fiel. Uma de suas fidelidades é a constante releitura de Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, ele mesmo um leitor tão apaixonado que nos dá sempre a sensação, ao lê-lo, de que o que lemos no que escreve é o caudal de riquezas literárias de suas leituras.

Em 1905, Proust escreveu e publicou um prefácio para a sua tradução do livro Sésame et les lys, de John Ruskin. Intitulado Sobre a leitura, o prefácio é tão mais importante que o prefaciado que acabou sendo publicado à parte, tendo também uma edição brasileira cuja tradução tive a felicidade de fazer. É um texto magnífico, um elogio fino da leitura e um estilo que antecipa em muito o que depois conheceríamos nos volumes de Em busca do tempo perdido.

Na abertura do texto lê-se: "Talvez não haja na nossa infância dias que tenhamos vivido tão plenamente como aqueles que pensamos ter deixado passar sem vivê-los, aqueles que passamos na companhia de um livro preferido".

No final, tomando como referência as duas colunas de granito cinza e rosa, na Piazzeta, em Veneza, que trazem sobre seus capitéis gregos uma o Leão de São Marcos e a outra São Teodoro calcando com os pés o crocodilo, o autor anota: "Em torno das colunas rosas, voltadas para os seus grandes capitéis, os dias se agitam e zumbem. Mas neles interpostas, elas os afastam, preservando de sua fina espessura o lugar inviolável do Passado: - do Passado surgido familiarmente no meio do presente, com esta cor um pouco irreal das coisas que uma espécie de ilusão nos faz ver a alguns passos, e que, na verdade, estão a séculos de distância; orientando-se em todo seu aspecto um pouco diretamente demais ao espírito, exaltando-o um pouco como, sem surpresa, um espectro de um tempo sepultado; no entanto, ali, no meio de nós, próximo, tangível, palpável, imóvel ao sol."

Entre essas duas pontas, toda a rica reflexão do autor sobre a importância da leitura na formação e no desenvolvimento do espírito humano.

Assim, a biblioteca de Mindlin. Assim, a sensação que se experimenta quando nela se entra.

Faltou apenas nas belas imagens de Proust estar registrada a imensa e contagiante felicidade que irradia de seu organizador para o gabinete mágico que resultou, ao longo dos anos, de sua dedicada e paciente organização. Em outra clave, faltou à reportagem das revistas anotar, como diz Borges, que nesse gabinete mágico, que é uma biblioteca, "encontram-se, encantados, os melhores espíritos da humanidade, mas que esperam nossa palavra para sair de sua mudez. Temos que abrir o livro; aí, eles despertam".

É isso o que faz Mindlin, para o seu prazer de leitor e para a alegria da cultura nacional.

 

PRÊMIO

Lição da noite, do nosso Esdras do Nascimento, foi premiado como o melhor romance do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte. Ver abaixo - além do artigo quinzenal do autor -, no Aspas, resenha publicada em O Globo sobre o romance e uma entrevista com Esdras.

O prêmio Revelação foi para Levi Bucalen Ferrari, com o romance-reportagem Seqüestro do senhor empresário. E o caderno Prosa e verso, de O Globo, ganhou o prêmio de melhor divulgação cultural do ano.

 

Mortalidade infantil chega à literatura

Esdras do Nascimento

 

O que aconteceria se um autor brasileiro ganhasse o Prêmio Nobel?

É tão grande a má vontade de certa parte da mídia para com o que acontece no país na área cultural, que talvez viesse a se repetir o que houve quando Deonísio da Silva ganhou o Prêmio Casa de las Américas, com o romance Avante, soldados: para trás, em 1992.

A revista Veja assim noticiou a premiação: "O Casa de las Américas, instituído em Havana em abril de 1959, poucos meses depois da Revolução Cubana, já não tem o brilho do passado, quando entre os premiados estavam Gabriel Garcia Márquez e Vargas Llosa. Mesmo assim, entre os jurados deste ano, que leram uma centena de romances inéditos, estava José Saramago, autor do sucesso Evangelho segundo Jesus Cristo".

Até hoje, os leitores da maioria dos jornais e revistas brasileiros, inclusive o Estadão, ainda não foram informados da vitória de Deonísio da Silva, ao contrário do que aconteceu na Europa e nos Estados Unidos, onde o fato foi amplamente noticiado, tanto na chamada grande imprensa, como nas pequenas publicações universitárias.

Num artigo intitulado "A mortalidade infantil atinge também os livros" - recusado por vários jornais brasileiros e finalmente publicado na Alemanha -, Deonísio da Silva afirma que não temos tido quase nenhum cuidado com os nossos autores. Nem mesmo com os clássicos e muito menos com os contemporâneos.

Nas universidades, os estudos literários estão enredados em espartilhos metodológicos que visam apenas a obtenção de títulos como os de mestre e de doutor. Raros são aqueles que ousam interpretar a obra de um autor em formação.

Na imprensa, os comentários, além de raríssimos, ocupam-se de livros de celebridades ou bestsellers. Por isso, são freqüentes os juízos equivocados nas poucas resenhas feitas hoje em nossa imprensa e ainda mais grave é o desconhecimento, da parte dos professores de muitas escolas e universidades, do que se vem fazendo em literatura brasileira.

Pagos pelo Estado ou por empresas privadas - de qualquer forma sempre pagos pela sociedade que deveriam beneficiar - muitos são os professores que ignoram importantes escritores e obras nesta segunda metade do século.

Diz Deonísio da Silva, e eu assino embaixo, que uma geração inteira de docentes está contribuindo, sem querer, para o apagamento das obras surgidas depois dos anos 30.

É como se, naqueles anos, quando nossa universidade dava seus primeiros passos e tropeços, a inteligência brasileira, encarregada de ensinar os filhos das elites, ignorasse a produção literária dos 60 anos anteriores, e deixasse, por exemplo, de se ocupar da formação do romance brasileiro, o principal fruto de nossa independência política.

"Se tivesse ocorrido o mesmo descaso nos anos 30 deste século, autores de obras decisivas na formação da literatura brasileira teriam sido esquecidos. Pois os estudos literários somente teriam examinado obras surgidas antes da Guerra do Paraguai".

Deonísio da Silva acaba de publicar, pela Editora Mandarim, o romance Teresa, sobre Teresa d’Ávila, a formosa, sábia e doce madre espanhola, que, isolada no claustro, misturava o místico e o erótico nas suas fantasias e devaneios. Nesse romance, ele fala sobre o cheirinho bom da primeira professora, reconstitui - como Joyce, no Retrato do artista quando jovem - dramas, alegrias, frustrações e tragédias de seus tempos de internato, elogia o perfume de todas as mulheres e disseca aquele doce tipo de amor, que alguns de nós desconhecem, contido e cheio de pudores. É, Teresa, um belo romance.

Deonísio da Silva tem obras traduzidas em francês, espanhol, sueco e alemão. Algumas das suas histórias já foram transpostas para teatro e televisão. Se encontrar nas livrarias, não deixe de dar uma olhada em A mulher silenciosa, A cidade dos padres e Orelhas de aluguel. Valerá a pena.

 

ASPAS

Lição da noite, de Esdras do Nascimento. Editora Record, 384 páginas, R$ 28.

Dylza Freitas

Em seu novo romance, Lição da noite, o escritor Esdras do Nascimento cria sete personagens principais femininos e masculinos Amorim, Dos Anjos, David, Sarita, Carla, Cláudia e Adélia que se agitam no vazio da conturbada vida social do Rio de Janeiro. Romance, sexo, dramas, conflitos, alegrias, fugas individuais ou coletivas do cotidiano são divididos em oito partes na forma de capítulos curtos que levam os nomes dos personagens, entremeados de intensos diálogos.

É através dos diálogos, aliás, que Esdras encaminha o romance, dá continuidade à trama e veicula os mais íntimos sentimentos e conflitos de seus personagens.

Incisivos, inusitados ou críticos ao extremo, os diálogos evidenciam as características dos protagonistas da narrativa, sendo marcados por um verdadeiro achado estilístico: para surpresa do leitor, eles transitam com rara agilidade lingüística da primeira à terceira pessoa, funcionando como um espelho do que se passa ao redor e no interior de cada um deles. Ou seja, a voz exteriorizada subitamente se transforma numa voz interna, sem a ruptura da passagem, revelando o pensamento das mulheres e dos homens aos quais Esdras deu vida em seu livro.

Vidas dos personagens se cruzam numa intrincada rede

Amorim, professor universitário da fictícia UniBarra, apaixonado pelos gregos, com destaque para as tragédias e a personalidade de Eurípides, não sabe o que fazer com tantas mulheres que giram ao seu redor e se sente insatisfeito com a mesmice acadêmica. Adélia, que de publicitária se transforma em mulher de negócios, se angustia no mundo dos empreendimentos imobiliários. Cláudia defende tese sobre a obra do escritor Roberto de Aquino e acaba apaixonada por um cantor grosseiro de boleros medíocres, encantada inicialmente com inusitadas experiências sexuais. David, arquiteto famoso com projetos em Paris, guarda um crime na memória. Dos Anjos é bela, desejável e infeliz. Sarita, dona de bumbum invejável, está separada, mas ainda sente seu coração pulsar pelo ex-marido Amorim. Da Matta é gerente do Banco do Leblon, não dispensa mulheres, faz pequenos negócios ilícitos e tem um fim trágico sem explicação. Zulminha vive de festa em festa em busca de afeto. A intrincada rede que se forma a partir do cruzamento das relações amorosas e conflituosas entre os personagens compõe o pano de fundo dessa parcela da classe média alta carioca.

No seu 12º romance, sob uma aparência formal simples, Esdras do Nascimento revela uma construção elaborada e minuciosa da linguagem. E talvez aí esteja o elemento envolvente que percorre todo o livro. O discurso é o que importa. A emaranhada teia de relacionamentos humanos corre paralela à construção do enredo que vai associando, de um lado, sujeitos e situações e, de outro, exterioridade e forma.

Assim os personagens afloram mostrando mais que estereótipos sociais de uma cidade bela e perdida. Eles são constituídos de alma - e nos acompanham como velhos conhecidos depois do romance lido - e construídos com destreza e recursos da língua. Gestos, falas, olhares e silêncios pinçam para a realidade da linguagem o imaginário de situações que atestam o desencanto, aflição e fragilidade das estruturas vigentes nas sociedades modernas. A constatação desesperada de que a vida é, antes de tudo, solidão doída."

"A constatação de que a vida é feita de solidão doída", copyright O Globo, 21/11/98.

Suzana Vargas

Neste fim de século, sob o rótulo da modernidade, a literatura brasileira vive um momento confuso em que vale quase tudo: desde microtextos, onde uma história é contada em menos de um parágrafo, até relatos que se estendem indefinidamente, registrando ações em seus mínimos detalhes, e deixando em segundo plano a fabulação e o apuro formal. Contrapondo-se a essa tendência, Esdras do Nascimento surpreende os leitores e a crítica, ao publicar Lição da noite, seu décimo segundo romance, onde, com enganosa simplicidade, num texto altamente sofisticado e imprevisível, persegue temas e formas com uma competência

admirável, desenvolve complexas tramas e apresenta personagens que se agitam, aflitos, no vazio e na angústia típicos do nosso tempo.

Em Lição da noite, ele trabalha com sete personagens - quatro mulheres e três homens - alguns dos quais já haviam aparecido em seus romances anteriores. A vida particular e social da classe média carioca surge e se multiplica em sete universos, histórias paralelas que se entrecruzam numa formidável partida de xadrez sem vencedores nem vencidos. Cada grupo de sete capítulos aprofunda os conflitos íntimos dos sete personagens, numa narrativa que transita habilmente da terceira para a primeira pessoa, mostrando o que se passa no complexo ambiente em que vivem e refletindo as suas inquietações, sobressaindo-se a oralidade através do uso continuado de diálogos extremamente bem feitos.

Os conflitos existenciais, de difícil diagnóstico, dos personagens, quase todos de classe média alta, em busca de sucesso profissional, amor, sexo e prestígio na grande cidade se evidenciam de maneira sutil. Amorim, por exemplo, o professor universitário, não sabe o que fazer com suas conquistas tão estranhamente fáceis, e com seu cotidiano acadêmico e sem maiores vôos. Dos Anjos, embora continue atraente, sofre porque não sabe conviver com a bela mulher que já não é mais. Adélia se angustia com seus projetos de enriquecimento no mercado imobiliário. E Zulminha borboleteia de festa em festa em busca desesperada de carinho e compreensão.

É, portanto, em meio a dramas emblemáticos contemporâneos que esse belo autor se movimenta, construindo, na sua obra, um grande painel da nossa sociedade, e fazendo uma espécie de psicanálise às avessas da trágica banalidade diária em que se transformou nossa vida. Tudo isso sem amargura, sem obviedade, envolto apenas no talento que sua notável e comprovada experiência de ficcionista lhe proporciona.

É só ler e conferir.

"Sete vezes Esdras", copyright Planeta Terra, número 28 <http://www.pobox.com/~seomario> Editor: Rodrigo de Souza Leão

xxx

Entrevista de Esdras do Nascimento sobre o romance Lição da noite.

Balacobaco - Qual a temádica do seu mais novo romance, Lição da noite?

Esdras do Nascimento - O tema de Lição da noite é o drama espiritual de um jovem e bem sucedido professor universitário alucinado pelo teatro grego, sobretudo por Eurípides. Ele é casado, pai de duas filhas, gosta de dar aulas, vive cercado de mulheres atraentes, não tem grandes problemas financeiros, mas de repente, inexplicavelmente, se sente caindo dentro de um vazio insuportável. Abandona emprego e família, larga tudo, parte em busca de sua essencialidade, que não sabe exatamente em que consiste, e vai parar em Genipabu, uma praia exótica do Rio Grande do Norte, onde não conhece ninguém e pretende descobrir um sentido para a sua existência.

B - Quanto tempo dedicou à feitura do romance?

EN - Passei quatro anos trabalhando em Lição da noite. Cerca de quatro horas por dia, de agosto de 1993 a setembro de 1997, na parte da tarde, ouvindo música, de preferência Bach. Ele é a única pessoa de quem confesso ter inveja. Ano após ano, como se fosse a primeira vez, ouço as suas composições, que me surpreendem sempre, e me estimulam como criador, pela perfeição formal e, sobretudo, pela emoção que transmitem. Diante da grandiosidade de Bach, eu me sinto o mais pobre e o mais humilde dos escritores que o Piauí já viu nascer.

B - O que há de novo neste novo romance?

EN - Lição da noite gira em torno da magia do número 7. Tem 7 personagens, 4 mulheres e 3 homens, e os capítulos se organizam em grupos de 7, sendo também 7 os núcleos narrativos. A ação se passa basicamente na Zona Sul do Rio de Janeiro. Homens e mulheres angustiados, em busca de sucesso profissional, amor, sexo e prestígio no vazio da grande cidade. Amorim, por exemplo, o professor universitário, não sabe o que fazer com suas conquistas estranhamente fáceis, e com seu cotidiano acadêmico e sem maiores vôos. Dos Anjos, embora continue atraente, sofre porque não sabe conviver com a bela mulher que já não é mais. Adélia se angustia com seus projetos de enriquecimento no mercado imobiliário. E Zulminha borboleteia de festa em festa em busca desesperada de carinho e compreensão. Há também um famoso cantor de boleros, sem nenhuma consciência de sua própria mediocridade, que deixa alucinadas as mulheres "que não têm vergonha de chorar por causa das suas paixões irrealizadas".

B - Qual o objetivo do livro?

EN - Lição da noite pretende ser um painel da nossa sociedade, uma espécie de psicanálise às avessas da trágica banalidade em que se transformou a nossa vida, tudo isso sem amargura e sem obviedade. É o meu décimo segundo romance publicado. Liga- se aos anteriores, faz parte de um conjunto ainda não concluído, um mural feito de mosaicos, que se ajustam uns aos outros, numa tentativa de totalidade ficcional, a exemplo do que fez Balzac, em A comédia humana, no século passado, e William Faulkner, na sua série de romances passados no Sul dos Estados Unidos, no século XX.

B - Como está construindo o seu caminho, espaço na literatura?

EN - Um crítico americano definiu certa vez os escritores em dois grupos: "caras pálidas" (os que passaram pelas universidades) e "peles vermelhas" (os que aprenderam no dia-a-dia tudo o que sabem). Sou meio cara pálida e meio pele vermelha. Aprendi a céu aberto, caindo, me levantando, lendo feito um desesperado, tomando porres homéricos por causa das frustrações, enfrentando momentos de desânimo, batalhando em diversas profissões pela sobrevivência, mas nunca me afastando do projeto de fazer literatura, atividade que sempre deu sentido e orientou a minha vida. E também passei pela universidade. Fiz curso de Filosofia, mestrado em Comunicação e doutorado em Letras.

Como tese de doutorado, apresentei Variante Gotemburgo , um romance. Foi um escândalo. Para mim, parecia natural um compositor apresentar um sinfonia como tese de doutoramento em música, um artista plástico apresentar uma tela, um diretor de cinema, um filme. Cada um na sua área. Eu achava que isso seria o óbvio. Mas a academia pensava, e continua pensando, de maneira diferente. Machado de Assis, por exemplo, teria dificuldade em ser doutor em Letras, com base nos seus contos e romances. A universidade daria preferência a um texto sobre os contos e romances de Machado de Assis. Parece piada, mas é verdade.

B - Como é o seu processo criativo?

EN - Quando começo a escrever um romance, eu não tenho nenhum plano estabelecido. Vou botando no papel tudo aquilo que me vem à cabeça. Depois de trezentas, quatrocentas páginas, paro, dou uma olhada e vejo se ali dentro há ou não um romance. Se houver, eu reescrevo desde a página inicial até a última. Se der certo, eu recomeço tudo. Aí, sim, procurando descobrir a forma mais adequada à narrativa, num processo que eu chamaria de construção. É nessa etapa que surgem os grandes problemas de harmonia, composição e ritmo. Resolvê-los é tarefa que me fascina. Tenho pavor de textos mal estruturados, mal escritos, com palavras sobrando. Odeio adjetivos, gerúndios e advérbios de modo. As palavras existem para dizer, e não para enfeitar. Nisso, estou com Graciliano Ramos e não abro.

B - Eu sei que você gosta de jogar tênis e xadrez. O que este esportes acrescentam à sua vida?

EN - Ah, sim, eu gosto de jogar tênis e xadrez. Se o tênis é a minha terapia, o xadrez é a minha religião, o meu exercício espiritual. O tênis e o xadrez me ajudam a compreender o mundo, me dão consciência dos meus limites e possibilidades - e, sobretudo, me ensinam que superar a mediocridade alheia é fácil, até demais; o difícil é enfrentar a própria mediocridade, que se evidencia quando a gente está diante da tela em branco do computador, pensando na criação de grandes romances e constatando que, infelizmente, os recursos disponíveis não são tão vastos assim.

Copyright Planeta Terra, número 28 <http://www.pobox.com/~seomario> Editor: Rodrigo de Souza Leão

CARTAS

Viva a palavra! Abaixo a ficção!

Interessantíssimo o comentário de Esdras do Nascimento sobre o romance Os Seios de Pandora, de Sônia Coutinho. Não tanto pelas observações sobre o livro em si, muito pertinentes, como por ter-me permitido, após quarenta anos de vida literária, solucionar um mistério muito mais profundo que o investigado no livro: por que eu e outros escritores parecemos não nos entender em certas análises do fenômeno literário. Meu grande amigo Esdras, conhecedor inconteste e professor do metiê, me deu uma lição, solucionou o enigma para mim: a literatura de imaginação é a arte da palavra. E eu aqui, em minha santa ignorância, pensando que a arte da palavra fosse a retórica, uma designação que nos tempos recentes veio a assumir a conotação de coisa bombástica, vazia. "E só retórica", "É pura retórica", diz-se. Era por isso que não nos entendíamos, quando só uma palavra (três, na verdade) bastariam. Agora, devidamente contrito e esclarecido, percebo por que tantos romances "modernos" me parecem tão chatos, tão sem conteúdo. Está explicado: seus autores exercem a arte da palavra, são retóricos. Em minha parvoíce, eu achava que a literatura era a arte da ficção; quer dizer, da invenção, da fantasia. Deus do céu, que vergonha, que horror! Nem eu mesmo acredito que durante esse tempo todo estive venerando escribas menores como Cervantes, Dostoiévski, Tolstoi, Balzac, Eça de Queiroz, Lima Barreto, Jorge Amado, José Lins do Rego, Lúcio Cardoso. Esses pobres desorientados sem dúvida dominaram magnificamente a arte da ficção, mas da retórica, que é o que deviam ter feito? Pelo amor de Deus! Com aquelas frases tronchas, atropeladas, aquela vulgaridade, chulice mesmo, aqueles pequenos assassinatos de seus respectivos idiomas? Ah, que bom renascer de novo para a verdadeira fé. Viva a palavra! Abaixo a ficção!

Marcos Santarrita

Lições da noite

Não posso deixar de mencionar a proficiente análise da crítica Angela Adnet à excelente obra de Esdras do Nascimento, Lições da noite, na qual a autora demonstra profundo conhecimento acerca das obras do escritor, explanando de maneira hábil e com amplitude de visão em que contexto se insere a referida obra. Sem dúvida, e parafraseando a digníssima crítica, "... um convite à leitura."

Cláudio Silva, Brasília, DF

Planeta Mídia

É com prazer que participamos o lançamento do livro O Planeta Mídia: tendências da comunicação na era global, de Dênis de Moraes, professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Imagem e Informação da Universidade Federal Fluminense e autor, entre outras obras, de O Velho Graça - uma biografia de Graciliano Ramos, O rebelde do traço - a vida de Henfil, O imaginário vigiado: a imprensa comunista e o realismo socialista no Brasil e Globalização, mídia e cultura contemporânea (org.).

No prefácio da obra, o professor Muniz Sodré assinala: "O Planeta Mídia apresenta ao público leitor as dimensões reais do hipercrescimento dos setores de mídia, entretenimento e telecomunicações. Trata-se da descrição visceral do sistema imperial ou unipolar que vem caracterizando a presença do poder americano no mundo depois da derrocada do bloco soviético. A partir do impressionante volume de dados levantado e exposto com precisão por Dênis de Moraes, os conglomerados de mídia ficam definitivamente identificados como atores de primeira linha no processo de reprodução do capital em dimensão planetária".

O livro pode ser comprado pela Internet e entregue em casa, sem qualquer despesa postal, por bastando enviar e-mail para o endereço eletrônico <webmaster@letralivre.com.br>.

Henrique de Medeiros, Letra Livre Editora



Início da página





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você