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DOSSIÊ ELEIÇÕES
Atualização em 8 de outubro de 1998

ÍNDICE

Pesquisas perdem aura
de infalibidade, mídia
perde credibilidade

Alberto Dines

‘Quem forma a
agenda pública é a mídia’

Entrevista de Orjan Olsén
Por Mauro Malin

O mistério das urnas e
das cabeças dos juízes

Almyr Gajardoni

Serviço e desserviço no rádio
A.G.

Pacto de silêncio
Sylvio Costa

Leitor
Pesquisa e mídia:
parceria nefasta

Aspas
Folha de S Paulo

Renata Lo Prete

Tutty Vasques

Pesquisas perdem aura
de infalibidade, mídia
perde credibilidade

 

(Editorial de Alberto Dines no programa OBSERVATÓRIO NA TV, da TV Educativa do Rio de Janeiro, em 6 de outubro de 1998.)

"O presidente do TSE, ministro Ilmar Galvão, disse ontem, segunda-feira [5 de outubro], que foi um dia negro para as pesquisas eleitorais.

Este OBSERVATÓRIO acrescenta: hoje, terça-feira, está sendo o dia negro da mídia. Basta ver os jornais. A mídia está querendo desvincular-se de algo com que está organicamente comprometida. Se as prévias eventualmente induziram os eleitores é preciso não esquecer quem as divulgou e de que forma isso foi feito.

Todos os grandes veículos jornalísticos brasileiros contrataram pesquisas exclusivas. Todos. Em alguns casos realizadas por empresas do mesmo grupo. Portanto é falacioso senão cínico colocar sob suspeição quem produziu as informações esquecendo quem as martelou de forma tão obsessiva.

Desde a sua criação, há dois anos e meio, este OBSERVATÓRIO vem procurando alertar para os perigos da "pesquisite", a infecção que atrofia o exercício do jornalismo e o converte num mero divulgador de dados que outros produzem. Prévias são prévias. Não podem ser apresentadas, como a mídia o faz, na forma de sentença definitiva. Amostragens momentâneas, se forem repetidas, tendem a realimentar-se e a auto-confirmar-se.

A utilização abusiva de sondagens pela mídia esvaziou o confronto de programas e concentrou o pleito nas disputas majoritárias, minimizando as escolhas para o Legislativo. Manchetes dramatizadas ignoraram as margens de erro. Alterações de dois pontos foram alardeadas como se fossem goleada. Sobretudo nos dias finais, induzindo os indecisos e os inseguros.

O atual código eleitoral preparado pelo Legislativo e posto em vigor pelo Judiciário é permissivo no tocante à divulgação das prévias. E a mídia o arrombou por todos os lados num açodamento pelo furo que não se justifica em matéria tão importante. Quando ficou evidente que o fim da votação ultrapassaria o limite das 19 horas e o TSE não se mexia para adiar a liberação das prévias de boca de urna, deveria ter entrado em ação o senso de responsabilidade das empresas jornalísticas, atrasando a divulgação. A grande verdade é que se as pesquisas perderam a aura de infalibilidade, a mídia perdeu a mística da credibilidade, substâncias essenciais para o exercício pleno das respectivas funções.

Este programa não discute política, discute o desempenho da imprensa. Este programa não discute o teor das informações mas o modo de apresentá-las. Este programa não endossa suspeições sobre a lisura do pleito mas estimula o debate para que os próximos sejam aperfeiçoados."

 

"Quem forma a agenda pública
não são as campanhas, é a mídia"

Entrevista de Orjan Olsén

Por Mauro Malin

 

Discutir a relação entre imprensa, pesquisas e eleições na reta final das campanhas é necessário, mas insuficiente. Há algo que antecede todo o processo, molda-o e opera poderosamente em seu curso: a formação da agenda pública, basicamente a cargo da mídia.

Segundo Orjan Olsén, veterano de muitas campanhas eleitorais, "o conceito de agenda pública e ‘controle da agenda’ é central em toda estratégia de campanha. A imprensa não diz, necessariamente, o que as pessoas devem pensar a respeito dos vários temas, mas estabelece quais são os temas importantes sobre os quais devemos pensar. Os temas que recebem maior cobertura da imprensa tendem a, em seguida, aparecer nas pesquisas de opinião como os mais importantes para o eleitorado." O conceito de agenda pública é baseado numa teoria sobre efeitos da imprensa formulada em 1972 por dois pesquisadores do processo de comunicação e formação da opinião pública, Maxwell McCombs e Donald Shaw. Embora pouquíssimo debatido no Brasil, em outros países o assunto é cada vez mais estudado. Os próprios McCombs e Shaw são dois dos editores (com David Weaver) do livro Communication and Democracy : Exploring the Intellectual Frontiers in Agenda-Setting Theory, lançado em 1997 nos Estados Unidos. (Ver abaixo remissão para texto de Orjan Olsén.)

Conhecendo ou não a teoria – é provável que o presidente conheça -, foi isso que Fernando Henrique e aliados influentes na campanha perceberam em maio deste ano: a agenda estampada na mídia ("seca/saques descontrolados, desemprego, violência", para simplificar) era muito negativa para a candidatura à reeleição.

"Foi o momento em que as intenções de voto em Fernando Henrique e Lula se aproximaram mais", aponta Olsen.

Em função disso, a campanha da reeleição procurou não só buscar respostas, no discurso político, para esses problemas, mas conseguiu "pautar a mídia" para o período que se seguiria à Copa do Mundo. E a agenda mudou. Mais do que pura e simplesmente apoiar a candidatura à reeleição, a mídia apoiou Fernando Henrique porque ele se colocou corretamente em resposta a problemas levantados (aparentemente) pela própria mídia.

Orjan Olsén foi, durante anos, diretor técnico do Ibope, depois sócio de um instituto de pesquisa, a CBPA. Agora é diretor executivo da empresa Mori Brasil, que fez e faz pesquisa nesta eleição para a campanha de Mário Covas. O que o torna diferente de outros pesquisadores de opinião não é apenas o título de PhD em Comunicação Pública pela Universidade de Syracuse (EUA). É que ele fala institucionalmente não apenas em defesa dos institutos, ou de seu ganha-pão, mas em defesa do aprimoramento do processo democrático.

Faz muitas críticas às pesquisas, desde a escolha da amostra de entrevistados à ordem das perguntas nos questionários, passando pela maneira como é apresentada a chamada "margem de erro". "Acho que seria preciso falar mais da relação entre pesquisa espontânea e induzida", alerta ainda.

O pesquisador também critica a maneira como os números são tratados nos meios de comunicação. Aponta a novidade óbvia do voto eletrônico, que desorientou não apenas a cobertura jornalística dos resultados da votação, mas também da própria votação ("Roriz, em Brasília, perdeu votos porque seus eleitores, da periferia, erraram mais ao votar do que os eleitores de Cristóvam").

São explicações algo complexas para se apresentar numa reportagem de combate, destinada a atualizar o presente dossiê. Voltarão em outras edições do OBSERVATÓRIO.

Aqui é preciso dizer ainda que Olsén repele as teorias conspiratórias ("a conspiração só existe na cabeça dos que formulam essas teorias"). E acha bobagem qualquer idéia de proibição das pesquisas ("fiquei vendo a eleição alemã pela CNN; foram apresentadas quatro diferentes pesquisas no dia da votação"). Na verdade, prefere que se deixe de proibir algumas coisas, como a possibilidade de se organizar debates na televisão entre os candidatos principais - hoje, é obrigatório que todos os inscritos sejam convidados, e só se pode fazer um debate com os que realmente disputam o pleito se os outros derem sua concordância, o que quase nunca acontece.

"O resultado é que não há debate, mas um simulacro de debate em que toda preocupação consiste em constranger o adversário de modo a usar a situação no programa de televisão, ou produzir uma frase de efeito com a mesma finalidade. E, colocadas na defensiva diante da obrigação de tratar igualmente candidatos desiguais, as emissoras de televisão acabam recuando completamente. Cirurgicamente, extirpam de sua programação a cobertura da campanha eleitoral. É pior."

Sem teoria conspiratória, o pesquisador encerra com uma pergunta provocativa:

"Nos Estados Unidos, a imprensa não usa informações de instituto que trabalhe com candidato. Por que não existe esse cuidado no Brasil?"

 

O mistério das urnas e
das cabeças dos juízes

Almyr Gajardoni

 

Diziam aqueles mitológicos políticos mineiros de antigamente: "De cabeça de juiz, barriga de mulher e urna de eleição só se sabe o que vai sair depois da apuração". A tecnologia já tirou as mulheres dessa trilogia pitoresca, mas urna e cabeça de juiz continuam lá. Estivesse o versinho mimoso colado nos quadros de avisos das redações que se empenharam na cobertura da apuração das eleições e com certeza não estaríamos agora na iminência de uma cruzada medieval contra as pesquisas.

Estas, como se sabe, são uma aplicação de um ramo da Matemática chamado Estatística. Seu sucesso depende sobretudo de uma correta escolha da amostra do universo a ser vasculhado. Os diversos institutos que se dedicam a esse trabalho, no Brasil, há muitas eleições demonstram eficiência ao fazer essa escolha. A pesquisa, por ser pequena, tem a vantagem de ser instantânea, e a desvantagem de não ser exata; a eleição, ao contrário, por ser grande, tem a vantagem de ser exata, e a desvantagem de não ser instantânea. Foi onde se perderam os jornalistas.

Repórteres, editores, âncoras, apresentadores demonstraram, de maneira geral, notável indiferença pelos cuidados necessários para a correta leitura das pesquisas e, sobretudo, interpretar corretamente seu significado. Logo no primeiro dia da apuração, de posse de uma pequena amostra do que estava nas urnas, denunciaram-se com estardalhaço erros grosseiros que teriam sido cometidos quase que em toda parte – no Rio Grande do Sul, em Goiás, no Amazonas, em São Paulo, aqui sobretudo na definição do segundo lugar entre Mário Covas e Marta Suplicy. E até na eleição presidencial, onde se identificava uma grande diferença entre o que fora prometido e o que realmente aparecia. Políticos experientes, como os antigos mineiros, sabem que essa primeira amostra é inexata, por ser colhida ao acaso, nas primeiras urnas a serem abertas. E nesta eleição ainda mais, por estarem os votos divididos entre urnas eletrônicas e urnas convencionais, estas de apuração muito mais demorada. No primeiro momento, ela foi recebida como se fosse o veredicto final. Com o passar dos dias e das urnas, entretanto, os números da apuração foram se aproximando dos das pesquisas, também quase que em toda parte, e aí estão os diversos institutos interessados publicando relatórios para atestar sua competência.

Pode parecer que estou aqui a apregoar que os jornalistas não entendem de eleição. Na verdade, acredito que apenas foram descuidados e, como está na moda, preocuparam-se em destacar o que parecia ser o lado sensacional do acontecimento. Quem, com certeza, não entende nada é esse inacreditável presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Ilmar Galvão. Poucos dias antes da votação ele declarou considerar indispensável a reeleição de FHC, deslize que teve repercussão inteiramente desproporcional à sua gravidade; agora, embarcou apressadamente na cruzada contra as pesquisas, sugerindo que elas deveriam ser previamente submetidas ao seu Tribunal, que se ocuparia de conferir os dados recolhidos. Como diziam aqueles antigos políticos mineiros, urna e cabeça de juiz são mesmo coisas misteriosas. Pelo retrospecto do desempenho da burocracia eleitoral, cairíamos no ridículo de conhecer o resultado da pesquisa alguns meses depois de conhecido o resultado da eleição.

Quanto às pesquisas em si, não há por que temê-las nem bani-las. Será preciso, apenas, voltar a incluí-las no rol de coisas proibidas pela lei para as 48 horas que antecedem a votação. O eleitor tem direito a um período sossegado para refletir, amadurecer sua decisão e agir com segurança. Se tivesse sido assim, o PT não teria motivos para reclamar, com razão, do que aconteceu em São Paulo. Sua candidata não foi prejudicada pela pesquisa, mas pelo uso indevido que dela foi feito.

 

Serviço e desserviço no rádio

A.G.

 

Emissoras de rádio e televisão – aquelas mais do que estas – não gostam da propaganda eleitoral gratuita. Têm respeitáveis razões para não gostar, mas reagem de formas diferentes ao dever de transmiti-la. Apenas dois exemplos paulistas.

A Rádio Jovem Pan anuncia o início do programa eleitoral com estas palavras:

"A partir deste momento a Jovem Pan é obrigada a interromper sua programação de informação e prestação de serviços para transmitir o horário eleitoral de acordo com a lei 9.504, de 30 de setembro de 1997. Dentro de cinqüenta minutos reiniciaremos a programação normal da Jovem Pan."

Um aviso simples e eficiente para evitar que o ouvinte pense estar a emissora afirmando que foi o Maluf quem fez ou o Quércia quem fará.

Encerrado o falatório, o locutor avisa mais uma vez:

"O horário político obrigatório no rádio e na televisão está cheio de promessas com soluções para os mais diversos problemas do país. Porém é preciso tomar muito cuidado com as promessas feitas durante a campanha eleitoral. Antes de votar, procure saber se os candidatos que receberam seu voto nas últimas eleições cumpriram o que prometeram e se prestaram contas do seu mandato. Procure saber que tipo de interesse os candidatos representam e o que eles pensam sobre os problemas do país que afetam sua vida. O voto exige reflexão e responsabilidade." Impecável.

Já a Rádio Eldorado adverte assim o seu ouvinte, no início da propaganda:

"A lei eleitoral nos obriga a ceder os próximos cinqüenta minutos de programação à propaganda gratuita. A Rádio Eldorado não tem opção mas você não é obrigado a ouvir. Se preferir, desligue o rádio, ouça uma fita ou um CD. Às 7h50 minutos estaremos de volta trazendo informação e prestação de serviços. Rádio Eldorado AM contra a arbitrariedade eleitoral."

Encerrado o falatório, mais mau humor:

"Mais uma vez o rádio foi obrigado a interromper a programação normal para entrar em rede nacional obrigatória. Chamamos a atenção para o fato de que o Brasil é o único país no mundo em que as pessoas são colocadas de uma forma inapelável diante de uma situação consumada por causa das redes obrigatórias. Ou se admite o programa imposto, ou se desliga o rádio ou a tevê. Antes de tudo, em nossa visão, a liberdade de escolha do cidadão deve ser preservada. Liberdade que, neste momento, foi mais uma vez desrespeitada."

Ao anunciar que está sendo obrigada por lei a interromper sua atividade de informação e prestação de serviços, e depois com a advertência aos eleitores sobre os cuidados a serem tomados na hora de votar, a Jovem Pan, na verdade presta um magnifico serviço, não apenas ao seu ouvinte, mas ao país e ao regime democrático cuja restauração, ainda recentemente, custou-nos sangue, suor e lágrimas. A Eldorado, ao contrário, apenas exibe uma grosseira ignorância que começa no dicionário. Arbitrariedade, ensina o Aurélio, é o ato "que independe de lei ou regra e só resulta do arbítrio, ou mesmo capricho de alguém". Não pode haver, portanto, arbitrariedade decorrente do respeito a lei votada pelo Congresso, sancionada pelo presidente da República e posta sob a vigilância do Judiciário. Induzir o público a afastar-se do processo eleitoral é contribuir para sua degradação. Qualquer forma de constituir governos para o exercício do poder que dispense a presença dos eleitores será, ela sim, uma arbitrariedade.

 

Pacto de silêncio

Sylvio Costa (*)

 

Na campanha presidencial de 89, houve, às vésperas da eleição, a famosa edição "collorida" do último debate dos candidatos no Jornal Nacional e a tentativa de parte da mídia de associar o seqüestro do empresário Abílio Diniz ao PT.

As eleições de 1994 transcorreram num clima de assumido entusiasmo dos meios de comunicação com o Plano Real e as perspectivas de estabilização da economia. O então candidato Fernando Henrique Cardoso foi ainda ajudado pelo erro de avaliação da oposição, que optou por tratar o programa antiinflacionário como um desprezível pacotinho eleitoreiro.

Em 98, a situação era outra. Refém da irresponsabilidade fiscal do governo, a política econômica foi posta em cheque por uma profunda crise de credibilidade, agravada por uma conjuntura internacional adversa. Mas, dessa vez, as grandes redes nacionais de TV decidiram simplesmente ignorar a disputa eleitoral.

Dos jornais, pode-se dizer em geral que douraram a pílula das fragilidades do real e fizeram uma cobertura sem graça, onde a prática da reportagem e a discussão das propostas dos concorrentes foram substituídas pelo disse-me-disse e pelas atenções predominantes para com pesquisas nem sempre críveis e para com os marqueteiros em atividade e as suas criações.

No caso das grandes redes de TV, fez-se mais. Pior do que deixarem de promover debates ou de oferecerem uma cobertura de qualidade, elas, na maioria dos casos, não divulgaram nem a agenda dos candidatos. Era como se não houvesse eleição. Especialmente na Rede Globo, praticamente só o presidente-candidato apareceu na telinha, mas – sutil diferença das regras do jogo da reeleição – em geral como presidente, não como candidato.

Se é cada vez maior o reconhecimento acadêmico da capacidade da mídia de construir agendas, as eleições deste ano trouxeram uma nova lição. Quando querem, os meios de comunicação também podem ser muito eficientes para destruí-las.

(*) Mestre em Comunicações pela Universidade de Westminster (Londres), jornalista profissional e consultor das Nações Unidas em Brasília.

 

LEITOR

Edição de Marinilda Carvalho

Pesquisa e mídia:
parceria nefasta

O leitor põe as pesquisas eleitorais sob suspeita e aproveita para condenar a mídia, que lhes atribui caráter científico e as usa segundo os interesses do poder.

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Não sou petista, e nunca votei em qualquer candidato do PT. Mas é lamentável ver o destempero verbal e ideológico do Sr. Montenegro, diretor do Ibope, quando fala a respeito da "performance" dos institutos de pesquisa nestas últimas eleições.

Como engenheiro, sempre respeitei e admirei o caráter científico deste instrumento altamente democrático. O que se viu este ano, porém, atenta contra a boa fé do mais bem intencionado dos cidadãos. Somente candidatos não-aliados às forças conservadoras foram prejudicados pelas pesquisas.

Veja alguns exemplos:

Mato Grosso do Sul - pelas pesquisas, Zeca do PT estava fora; está no 2º turno; São Paulo - pelas pesquisas, Marta Suplicy (PT) estava em 4º lugar; estava correndo o risco de ir para o 2º turno; Goiânia - pelas pesquisas, Íris Rezende teria mais de 10% de vantagem sobre o 2º colocado; Perillo pode ganhar ainda no 1º turno; Distrito Federal - pelas pesquisas, Roriz teria mais de 10% sobre Cristovam; Cristovam teve 42%, e Roriz, 39%; Rio Grande do Sul - pelas pesquisas, Britto chegaria bem à frente de Olívio Dutra; não aconteceu. Estes são só alguns exemplos dos "erros" (intencionais?????) dos institutos.

E mesmo assim, o Sr. Montenegro se acha no direito de rechaçar as críticas, taxando-as de "reclamações de perdedores"! Quando é que a mídia vai assumir uma posição clara e madura em defesa da sociedade?

José Américo Cajado de Azevedo, Brasília, DF

xxx

Absolutamente certa e objetiva a análise dos fatos relacionados à interferência da televisão nos resultados das eleições. Apenas para corroborar: num mesmo dia (último dia para divulgação de pesquisas), utilizando dados da mesma pesquisa, do mesmo instituto, os dois jornais comentavam:

Jornal da Record: "Empate técnico entre os três candidatos: Marta, Covas e Rossi".

Jornal Nacional: "Empate entre os dois candidatos: Covas e Rossi. Marta em terceiro lugar..."

Cláudio Da Prato F. Valeiro

xxx

Sou comerciante, cidadão comum, não sou jornalista, não tenho poder, não tenho acesso à mídia. Pergunto até quando nós, brasileiros, inclusive vocês, jornalistas, iremos agüentar o poder absoluto da Rede Globo, que elege os candidatos que melhor se encaixam em seus interesses, ao mesmo tempo em que derruba aqueles que ficam em seu caminho? A Globo sempre se beneficiou, da melhor maneira possível, ao longo dos últimos 30 anos, acumulando fortuna, prestígio, respaldo social e cultural, quando na verdade o que vemos hoje em dia é um jornalismo fraco e covarde, transformando os fatos em espetáculo, dando um tratamento superficial à notícia, sem profundidade alguma. Ao mesmo tempo, devido à sua fantástica audiência, destrói outras emissoras e veículos de comunicação. Até quando vocês jornalistas vão agüentar isso tudo, sem protestar e sem esclarecer a população?

Geraldo Lima, Rio de Janeiro

xxx

O PT vem reclamando muito das pesquisas. Será que tem algum fundo de verdade? Sugiro um levantamento dos "enganos" dos institutos de pesquisa, verificando - caso a caso - quem foi favorecido e quem foi prejudicado.

Entendo que ainda existe uma sensação de "não vou jogar meu voto fora, votando em quem vai perder" na grande maioria da população. E as pesquisas da véspera da eleição? Tipo: fulano já ganhou!!!!!!! O que dizer delas, se a propaganda política já estava encerrada?

Almir Guimarães, Rio de Janeiro

xxx

Gostaria que o Dr. Carlos Alberto de Salles [ver abaixo remissão para artigo sobre a imprensa e a Justiça Eleitoral] nos dissesse alguma sobre o desejo do presidente do TSE de ver o presidente Fernando Henrique Cardoso vitorioso já no primeiro turno.

José Rosa Filho

xxx

Acredite, se quiser

A atual eleição mostrou a força decisiva da revista Veja para a falta de discussão séria dos problemas graves do país (o que de resto nunca foi propriamente sua intenção, embora não precisasse atrapalhar tanto com falsas questões, como o maniqueísmo míope do "privado X estatal", ou com categorias ordinárias e gastas de séculos tipo "atraso X modernidade"); mas também indica que 1998 pode ter sido o momento em que Veja iniciou sua curva decrescente no que é seu ponto de apoio mais precioso: a credibilidade. Trocada, a partir de agora, pela credulidade pura e simples. Um Acredite, se quiser.

A capa desta semana expressa bem o espírito dos próximos meses: euforia com uma vitória pífia (aliás por que não se detiveram nos estados principais, como sempre fizeram, preferindo passear pelos "grotões"? Será porque FHC só teve vitória folgada lá?), cobrança a um presidente enfraquecido, juras de crença no estelionato eleitoral, demonização de quem não concordar com o oba-oba ("É guerra", diz a capa).

Não temos para a mídia impressa controle remoto, mas em compensação temos nossas armas. Não é bem o Bofors de Veja, mas posso com a minha Schmeisser (quem se lembra da Lurdinha?) mirá-los bem na testa nesta briga corpo-a-corpo. Por absoluta falta de tempo para ler bobagens, estou transferindo minha assinatura para outra que, espero, não seja lídima representante da famosa "imprensa livre". Que, para ser igual a esta aí, já nem faço mais questão que seja.

Após este período eleitoral, a revista Veja (assim como os institutos de opinião e a mídia em geral) terá sempre um dedo acusador apontado para ela, do mesmo modo que a Globo carregará para sempre sua falta nos episódios Diretas Já/Eleição de Collor. Afinal, o que vem acontecendo com os índices históricos de audiência do JN depois disso?

Acácio

xxx

Irretocável o texto do Gentilli "Uma eleição presidencial sem reportagem" [ver remissão abaixo]. Quem não leu, leia agora. Essa eleição foi uma vergonha em matéria de cobertura jornalística. Parece que todos os jornalões estavam unidos num só pensamento: não gostamos do que estamos assistindo, mas deixa ficar assim mesmo, afinal esses viciados em leitura não podem passar sem a gente, morrem se não tiverem o que ler em nossas desavergonhadas páginas. Foi o silêncio dos culpados.

Mas um dia a casa pode cair e aí os jornalões vão reclamar da censura. Censura é não dar ao leitor a notícia que ele paga para ler. Censura é "interpretar" pesquisa em interesse próprio. Censura é levantar temas em véspera de eleição com prejuízo do candidato adversário. Censura é não exigir dos governantes as respostas que o leitor/eleitor quer saber. Censura é só noticiar o que lhe interessa. Censura é ter o cinismo de fingir diversidade de opiniões. De que adianta democracia para estes jornalões se o que eles gostam mesmo é de fazer negócio usando o jornal como escudo?

Jornalões do Brasil, os jornais do futuro vão expor em praça pública o silêncio sem censura de suas vergonhas!

José Rosa Filho

xxx

Vocês estão de parabéns! Muito boas as matérias sobre as eleições [ver remissão abaixo]. Que bom que existem revistas como o OBSERVATÓRIO. Sucesso!

Fabricio Franco

xxx

Em minha opinião, os institutos de pesquisa de opinião são empresas privadas, e por isso visam o lucro, vedem seu produto a empresas jornalísticas, a partidos e candidatos ou a qualquer empresa que queira vender um produto ou serviço; donde eu concluo que não têm nada a ver com verdade ou com virtudes. São "apenas" ferramentas de marketing. No processo eleitoral são manipulados pelos interesses.

Como quase sempre a imprensa está atrelada ao poder - quando a seus donos não pertence -, dá um caráter científico a manipulações grosseiras. Exemplos desta grande mentira pudemos ver em vários estados, como RS, SP, DF.

As pesquisas têm algo em comum: seus beneficiados são sempre os candidatos ligados ao poder econômico e político deste país; os prejudicados, os candidatos da oposição, em especial do PT.

Gilberto Suavi

xxx

É revoltante saber que nossos meios de comunicação estão todos a serviço de poucos políticos inescrupulosos, e que pouco têm a oferecer aos cidadãos trabalhadores que vêem seus impostos aumentados a cada dia, enquanto os banqueiros vêem seus cofres cada vez mais abarrotados. Infelizmente, não resta alternativa que não seja o cancelamento de todas as assinaturas de jornais, que no máximo estão servindo para embrulhar pão velho.

Marcos Cavalieri

Sr. Alberto Dines

Parabéns pelo OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA, uma iniciativa das mais relevantes para nosso aperfeiçoamento democrático, canal para que o "consumidor" da imprensa possa também externar sua opinião.

A propósito de seu artigo "Notas sobre a cobertura eleitoral" sobre a declaração do presidente do TSE, aqui aconteceu ontem o seguinte fato: uma emissora de TV regional divulgou a informação de que o "TSE-MS se reunirá na próxima terça feira para proclamar os resultados da eleição no estado, sendo que a propaganda eleitoral gratuita começará dois dias depois, isto é na quinta-feira da próxima semana".

A apuração aqui terminou na noite de segunda-feira e como teremos o 2º turno no estado e não se fez nenhum comentário adicional, ou entrevista como os candidatos, sobre o incompreensível atraso de mais de uma semana para a tal proclamação dos resultados. A emissora não estaria assim sendo conivente com o TSE-MS, que está claramente contrariando o espirito da lei que estabelece 48 horas como prazo para o reinício da propaganda gratuita, numa manipulação clara do processo eleitoral, prejudicando pelo menos um dos candidatos?

Cesar Augusto

xxx

Meus cumprimentos pelo belo trabalho. Vale por um curso completo de bom jornalismo. Sou jornalista, 25 anos de batente, e aguardava com o maior interesse a publicação desse dossiê. Peço permissão para distribuir com todos os concluintes do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e com as redações do Diário de Natal, Tribuna do Norte e Jornal de Hoje.

Vocês têm razão. Esta foi a cobertura mais burocrática de que se tem notícia. Lamentável notícia...

Aluisio Lacerda

Nota dos Observadores: Permissão concedida! (Sempre, desde que citada a fonte e evitada qualquer distorção de sentido.)

xxx

Dines, parabéns !

Como de costume, o seu editorial sobre Mídia & Pesquisa no programa de ontem foi brilhante.

É muito bom saber que a imprensa brasileira tem gente do seu calibre, profissionalismo e ética, embora, infelizmente, nos últimos tempos, você pareça representar quase uma "subclasse" em extinção. Mas se falta em quantidade, pelo menos a qualidade é enorme.

Ainda bem que temos gente assim "fiscalizando" a imprensa em seus exageros e omissões.

Sou sua fã desde que o vi há um tempo atrás participando de um Roda Viva.

Descobri acidentalmente seu programa nas férias de julho último. Desde então, sempre que o sono me deixa, assisto ao programa (aqui em BH ele é apresentado +/- às 23h15) e só tenho elogios a fazer, tanto ao programa como um todo, que cumpre muito bem o papel a que se propõe e com louvor, me permita completar.

A minha admiração pelo jornalista cresceu mais ainda quando deu aquela resposta ao jornalista (não me lembro o nome, mas foi logo depois da Copa do Mundo) quando perguntado o que faria se seu fotógrafo tivesse socorrido a Diana e ao final não tivesse tirado uma única foto. Realmente, a grandeza de seu caráter e seu lado humano são louváveis e admiráveis.

Sucesso na sua árdua tarefa e necessária tarefa.

Mara L.Vieira

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Sou estudante de Comunicação na UFRGS e leitor regular do OBSERVATÓRIO. Na manhã de segunda fiquei abismado com as manchetes dos jornais do país e do mundo, onde se liam coisas como "FH Reeleito" (ZH), "FH é o primeiro presidente reeleito do país" etc. Até mesmo no New York Times e no site da MSNBC era alardeada a vitória de FH no primeiro turno. Detalhe: naquela altura da manhã, quando li tudo isso, a contagem dos votos para presidente no país não tinha alcançado 50% do total.

Todo o alarde era obviamente baseado em pesquisas de boca-de-urna (isso só se descobria nas páginas internas do jornal). Achei tudo isso absurdo e irresponsável. Será que é mesmo? Ou levar pesquisas de boca-de-urna tão a sério e tomá-las como resultado final da eleição é uma coisa absolutamente normal e apenas eu estou indignado?

O único comentário a respeito que vi durante aquele dia foi no programa Teleguiado, da MTV, que vai ao ar às 20h, onde o apresentador Cazé comentou e criticou a atitude dos jornais ao afirmar resultados eleitorais com base em amostragens.

Hoje vi anunciado que amanhã haverá uma nova edição do Dossiê Eleição no OBSERVATÓRIO. Espero me esclarecer um pouco mais sobre tudo isso acessando o site amanhã. Parabenizo o trabalho de vocês e espero ter colaborado.

Daniel Galera

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Leio diariamente o JB há mais de 20 anos. Apesar de verificar nos últimos anos cada vez mais reportagens tendenciosas e editoriais cada vez mais lastimáveis, subservientes aos governantes do momento, etc, fiquei absolutamente chocada com o editorial dos últimos dias antes das eleições de 98 (não lembro o dia exato). Este editorial indicava explicitamente o voto para Roberto Campos ao Senado, enchendo este sujeito de elogios, ao passo que criticava todos os demais concorrentes, sobretudo Saturnino Braga.

Triste papel do outrora corajoso JB, um dos poucos órgãos da imprensa que enfrentava a censura e os desmandos da ditadura ! Ditadura esta que teve como ativo colaborador, na esfera econômica, o mesmo Roberto Campos!

Adorei este site! Há tempo estou revoltada com a imprensa brasileira - leia-se aí JB, O Globo, Tvs em geral. Ainda bem que existe resistência e pensamento crítico, e posso ficar aliviada de não ser a única doida que enxerga distorções, manipulação e interesses escusos na maioria da cobertura jornalística. Recomendarei aos amigos! Valeu!

Claudia Jack

 

ASPAS

Carlos Plácido Teixeira

"De hoje até o dia 24 de setembro, os consultores e professores da Universidade Federal de Minas Gerais Roberto da Costa Quinino, mestre em Pesquisa Operacional, e Aldyr Fernandes da Silva, mestre em estatística, realizarão no Instituto de Ciências Exatas o curso "Como realizar e questionar pesquisas eleitorais". Destinado a um público variado, inclusive jornalistas, políticos, administradores e outros interessados por pesquisas, o evento tem como uma das atrações a possibilidade de gerar polêmicas e desenvolver uma visão crítica em relação aos resultados que serão apresentados na reta final das eleições para a presidência e governos estaduais.

Os especialistas identificam situações em que os institutos de pesquisas erraram radicalmente resultados importantes. Dois casos, ambos ocorridos em São Paulo, são apontados por eles como os mais notórios. O primeiro, envolvendo o atual presidente Fernando Henrique Cardoso que, proclamado vencedor pelas pesquisas, sentou na cadeira de prefeito de São Paulo. No dia seguinte, Jânio Quadros, o vencedor das urnas, mandou desinfetar a cadeira. A vitória de Luiza Erundina sobre Paulo Maluf foi outra, em que as pesquisas indicaram o vencedor errado. "Para sorte dos institutos, o resultado de grande parte das eleições brasileiras pode ser vaticinado em qualquer botequim, em acaloradas discussões", afirma Roberto Quinino, salientando que o favoritismo dos candidatos desvia a atenção de qualquer questionamento sobre os resultados e sobre a metodologia aplicada no levantamento das informações. Para o especialista, os erros são provocados pela insistência dos institutos de pesquisas na utilização de amostragem por quota, técnica que trabalha com um sistema em que se tentar escolher uma miniatura do universo pesquisado. Os institutos alegam que o procedimento é adotado por uma questão de viabilidade econômica e operacional, o que, segundo Roberto Quinino, pode levar a enganos grosseiros. Mantendo a linha de críticas, ele questiona o tamanho das amostras utilizadas pelos institutos brasileiros, "que utilizam fórmula que só pode ser aplicada em situações dicotômicas, envolvendo duas categorias". Em uma pesquisa de intenções de votos existem, no mínimo quatro categorias - dois candidatos, branco e nulos.

Os professores universitários assinalam que a existência de muitos erros, provocados por estimativas fora do intervalo de previsibilidade especificado, apontam para a existência de problemas de caráter metodológico. Segundo eles, os equívocos mais graves cometidos pelos institutos brasileiros concentram-se na inviabilidade do uso de técnicas estatísticas para quantificação do erro em planos de amostragem por quotas e cálculo do tamanho amostral realizado de forma incorreta. "A justificativa de que se trata de uma aproximação não é sustentável", afirmam, defendendo que os custos dos métodos sejam assumidos e que a população seja devidamente esclarecida."

"Estatísticos questionam métodos de pesquisas eleitorais", copyright Gazeta Mercantil - Caderno Belo Horizonte - 21/09.

Folha de S Paulo

"A manchete Anúncio de ajuste não tira voto de FHC, publicada na Folha de domingo, 27/9, está tecnicamente errada sob vários aspectos:

1) FHC perdeu dois pontos no período de uma semana. Portanto, perdeu votos.

2) O pronunciamento de Fernando Henrique sobre a crise foi feito no dia 23/9, pela manhã. A pesquisa do DataFolha foi a campo nos dias 24 e 25/9. Não houve, portanto, tempo para captar a repercussão do pronunciamento.

3) Obtivemos, junto ao DataFolha, a íntegra dos relatórios da pesquisa, inclusive do questionário utilizado. Nele não consta nenhuma pergunta de controle para checar o fato de o entrevistado ter ouvido ou tomado conhecimento do pronunciamento do presidente da República. Portanto, não é possível medir, com objetividade, o impacto das declarações de FHC.

Assim, a interpretação editorial da pesquisa vai além do que seus resultados objetivos realmente permitem, transformando-se num desserviço aos leitores e à democracia.

José Dirceu, presidente da coligação União do Povo - Muda Brasil e presidente nacional do PT (São Paulo, SP)

Resposta do jornalista José Roberto de Toledo - 1) A oscilação de FHC ocorreu dentro da margem de erro da pesquisa, que é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Não é possível dizer que ele perdeu votos. 2) A pesquisa foi a campo a partir de 24 horas depois do pronunciamento do presidente e de sua repetição exaustiva pelo noticiário. 3) Se, considerando a margem de erro, FHC continua com a mesma intenção de voto que tinha na pesquisa anterior ao discurso, seu pronunciamento não lhe tirou votos."

Painel do Leitor, copyright Folha de S. Paulo, 3/9/98.

Renata Lo Prete

Há duas maneiras de avaliar o desempenho da Folha na campanha que chega hoje ao primeiro turno da votação.

A primeira consiste em compará-la com seus concorrentes. Resulta em saldo positivo.

Entre erros e acertos, o jornal realizou nessa cobertura um investimento bastante superior ao do Estado, por exemplo. Tratou a sucessão como assunto prioritário.

Foi por demais benevolente consigo mesmo ao concluir, com base em levantamento interno, que teria havido equilíbrio na distribuição de espaço entre os principais candidatos.

Na segunda rodada desse auto-exame, cujos resultados foram publicados na edição de ontem, teve o bom senso de reconhecer que o instituto da reeleição comprometeu seriamente essa alegada igualdade.

De todo modo, em uma cobertura na qual a opção da mídia pela candidatura do presidente Fernando Henrique Cardoso reduziu drasticamente o espaço para vozes dissonantes, a busca de algum parâmetro merece crédito.

Para citar apenas dois momentos, esta foi uma campanha em que o Estado chegou ao ponto de banir de sua capa o principal gesto oposicionista da reta final - o manifesto de Lula e Ciro Gomes.

O Globo fez o mesmo com o aumento de impostos mencionado por FHC em seu discurso sobre a crise econômica.

Frente a esses métodos primitivos de favorecimento ao governo, não é tão difícil para a Folha considerar que se saiu relativamente bem.

No entanto, quando se avalia a atuação do jornal sem levar em conta os demais, o resultado decepciona.

A Folha não poderá dizer que passou ao largo da boa vontade excessiva que marca as relações da imprensa com o candidato-presidente.

Quando o jornal bateu duro em Francisco Rossi por ter fugido do debate na TV Cultura, leitores perguntaram à ombudsman por que a recusa de FHC em participar de qualquer evento desse gênero não provocou reação semelhante.

Embora considere agravante o fato de Rossi ter inicialmente aceitado comparecer, enxergo no protesto desses leitores uma boa dose de razão.

A preocupação em garantir certa equidade na distribuição do espaço pouco se traduziu em discussão política.

Alguém poderá argumentar que isso ocorreu devido à fragilidade das propostas apresentadas, quando não de sua inexistência.

Mas, se a Folha critica a transformação da campanha na venda de criaturas inventadas pelos publicitários, não deveria abdicar do papel de estimular debate verdadeiro.

É certo que o amplo favoritismo de FHC, uma única vez abalado, contribuiu para reduzir o interesse pela disputa.

Mas, se o jornal se entrega ao diagnóstico de que a eleição é morna, nada tem a oferecer além do senso comum.

Os resultados de pesquisas, que em eleições anteriores haviam proporcionado ao jornal a antecipação de tendências, renderam menos desta vez.

O cronograma de publicação dos levantamentos de intenção de voto fez com que a Folha não fosse a primeira a identificar os dois únicos turning points do eleitorado na sucessão presidencial - o empate técnico entre FHC e Lula e, em seguida, o descolamento do presidente.

O DataFolha foi o primeiro instituto a detectar dois movimentos importantes na disputa paulista: o empate do governador Mário Covas com Rossi e, logo depois, a subida de Marta Suplicy e o embolamento do segundo lugar.

Mas esta é uma outra história, que não se encerra hoje e ainda renderá pesquisas e comentários da ombudsman.

A Folha inovou no uso de pesquisas qualitativas e de levantamentos instantâneos que monitoram a reação dos telespectadores a esse mundo de fantasia conhecido como horário eleitoral gratuito.

Não quero parecer ranzinza, pois, em princípio, acho positiva a utilização desses instrumentos para enriquecer a investigação jornalística.

Mas me pergunto se eles não acabaram supervalorizados. ‘Eleitor de fulano gosta mais do programa de TV de beltrano’. E daí?

Em meio a um punhado de boas reportagens, especialmente sobre a sucessão nos Estados, muita coisa recebeu mais destaque do que merecia no Eleições. Sobrou lugar até para a receita do pastel favorito de Covas.

Na verdade, o caderno foi um pouco atropelado pelo agravamento da crise econômica, que deixou fora de suas páginas o noticiário mais importante do momento.

Na sexta-feira, por exemplo, enquanto Dinheiro trazia o economista Paul Krugman prevendo anos de recessão terrível para o Brasil, a manchete do Eleições registrava que termina a campanha do primeiro turno.

Com o circo pegando fogo no caderno vizinho, o Eleições tem se alimentado basicamente de jornalismo declaratório.

Este jamais deixará de existir na cobertura política, mas ainda aparece muito mais do que seria adequado.

Em seu melhor momento, permitiu à Folha registrar a frase infeliz do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ilmar Galvão, a respeito da reeleição de FHC.

Contrariando alguns leitores que me procuraram para comentar o caso, penso que a Folha acertou ao destacar a declaração. Ouvi a fita da entrevista e não houve distorção por parte do jornal. O fundamental nesse episódio é que Ilmar Galvão jamais poderia ter dito o que disse.

Nos seus piores momentos, esse tipo tradicional de cobertura política rendeu reportagens como a que dizia que o presidente do Congresso relatara a aliados o temor de que a fala desastrada do presidente do TSE pudesse prejudicar FHC, empurrando a eleição para o segundo turno.

A informação foi contestada por Antônio Carlos Magalhães, em carta no Painel do Leitor, e o jornal não se pronunciou nem para sustentar a reportagem, nem para corrigi-la.

Fiz o exercício de imaginar o que será lembrado da atual cobertura eleitoral da Folha. A meu ver, até o momento duas coisas: a manchete errada acusando Lula e o escorregão do presidente do TSE.

O primeiro episódio constrangeu o jornal. O segundo foi um acerto, mas de peso bastante relativo.

Novamente, é possível dizer que não havia mesmo muito assunto. Com a situação do país que começa a ser descortinada para o público, fica difícil de aceitar essa desculpa.

"A campanha que não houve", Coluna do ombudsman, copyright Folha de S. Paulo, 4/10/98.

Tutty Vasques

"Procurado pela imprensa no início da semana para esclarecer o descompasso entre as pesquisas de boca-de-urna e a marcha das apurações, o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, foi taxativo:

- Só me pronunciarei a respeito após a divulgação do resultado final pelo TSE!

Diga o mesmo ao pesquisador que lhe pedir intenção de voto para o segundo turno das eleições!

Se ele insistir, dê-lhe uns tapas!

"Casa de ferreiro...", coluna Tutty Vasques, copyright Jornal do Brasil, 8/10/98.

 

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