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AOL – TIME WARNER
Fus@o e étic@ – I
A internet na hor@ da verd@de
Alberto Dines
A sociedade brasileira teve uma visão privilegiada da mega-fusão America OnLine – Time-Warner. Porque coincidiu aqui com o espetacular lançamento de uma série de ofertas de acesso gratuito à web e com a reação dos provedores em defesa da reserva de mercado.
Nos últimos dias do milênio, assistimos a um espetáculo duplo que marcará nossos tempos:
* A capitulação de um gigante quase octogenário (Time-Warner-CNN) diante de um fenômeno virtual com pouco mais de 10 anos de existência. O fato configura-se basicamente assim: um fornecedor de conteúdo entregou-se a um fornecedor de acessos.
A equação não é retilínea: AOL está montado em cima de um extraordinário acervo de "enchimento" e a Warner é a proprietária da segunda maior rede de TV a cabo, cuja banda-larga é a via ideal para a Internet do ano 2000 [veja abaixo].
* No Brasil, como sempre, o fenômeno tem menos nuances: os donos do acesso (a associação de provedores), verdadeiros gatekeepers, estão tentando impedir a democratização deste acesso a partir do momento em que grandes bancos e portentosos portais começaram a oferecer acesso gratuito à rede.
Não tenhamos dúvidas: AOL e outros grandes provedores internacionais iniciaram a montagem dos respectivos impérios com as taxas de acesso à rede. Agora, com a fusão, a fonte dos lucros virá do fabuloso acervo de conteúdo que o grupo passa a dispor. E também da possibilidade de oferecer, junto com a TV a cabo, um acesso ultra-rápido e de grande definição (propício a filmes, games etc). As possibilidades de veiculação de publicidade e e-commerce triplicam.
O acesso por via telefônica é coisa do passado . Inevitável que os EUA sigam o exemplo europeu oferecendo acesso livre não apenas à internet mas ao correio eletrônico.
A pressão dos provedores nativos contra a Internet gratuita é comandada por aqueles que não conseguiram oferecer conteúdo algum – ganhavam dinheiro fácil investindo apenas em tecnologia sem se preocupar com o recheio (gente, talento, idéias etc.).
Quando começou a Era do Rádio, o cidadão pagava uma taxa que lhe dava o direito de usar o receptor (e os recursos destinavam-se às emissoras, em geral estatais). Logo em seguida, com a competição entre emissoras, os recursos passaram a vir da publicidade. E o rádio explodiu.
O exemplo vale para a internet: sem a cobrança das taxas de acesso na Fase 1 não teríamos o espetacular avanço. Mas se os provedores nacionais dormiram no ponto, deixando de preocupar-se com conteúdo, e imaginaram que poderiam continuar indefinidamente oferecendo apenas a ligação com a rede não é problema nosso.
A sociedade tem o direito de querer o melhor e o mais barato . É isso que as autoridades do CADE e do Comitê Gestor devem levar em conta. As autoridades controladoras são os agentes da cidadania e não dos interesses corporativos.
Os que desejarem continuar cobrando pelo acesso que cobrem. Mas não se pode proibir a evolução do processo. Aqueles que têm condição de oferecer acesso e correio eletrônico não podem ser impedidos de fazê-lo. É inconsistente a alegação de autoridades de que o acesso à rede, irrestrito e anônimo, incentivará e multiplicará os hackers.
O malfeitor cibernético precisa de uma base para agir – sua caixa postal. Esta base representa também a possibilidade de ser identificado e punido. Razão pela qual é preciso, além de democratizar a conexão à web, tornar gratuito o correio eletrônico [abaixo, o debate].
Fus@o e Étic@ – II
Megaconflito de interesses
A.D.
A capitulação de um produtor de conteúdo a um provedor de acessos nas dimensões do AOL e Time-Warner-CNN é extremamente preocupante. Mas é tendência inevitável e incontrolável. O único antídoto será a capacidade da sociedade de espernear. E estabelecer agências reguladoras e regulamentos.
A própria evolução interna do novo megagrupo é também preocupante. Time-Life era uma empresa eminentemente jornalística. Ao fundir-se com a Warner subordinou-se a uma empresa consagrada ao entretenimento. Quando os dois absorveram a CNN evidenciou-se a ligação incestuosa entre notícia e espetáculo.
O poder de fogo conjunto dos três já era formidável. Com a chegada dos novos-bárbaros –AOL –, criou-se um pólo de informações ainda mais forte, talvez imbatível. E sem o menor compromisso com a lisura. Daí a advertência de Howard Kurtz, repórter e crítico de mídia do Washington Post que já no dia seguinte ao anúncio da megafusão alertava para os tremendos perigos que comportava [veja abaixo]. Howard Kurtz é autor de diversos livros de crítica à mídia, sendo que o mais famoso é Media Circus – The Trouble with America’s Newspapers (Times Books, 2ª edição, 1994, 435 pp.).
Quando o repórter-fofoqueiro Matt Drudge foi questionado por ter colocado em seu site informações sobre Mônica Lewinsky sem dar-se ao trabalho de comprová-las, confessou candidamente: "Sou repórter não sou jornalista" [veja remissões abaixo].
Isto foi há exatamente dois anos, em janeiro de 98 – uma eternidade. Ao estabelecer a impensável separação entre atividades até então organicamente iguais, o fofoqueiro, sem o saber, desenhava dois padrões opostos: o jornalismo responsável, ético, investigativo, moralmente crítico e o jornalismo sensacionalista, denuncista, leviano, acrítico. O primeiro será exercido pelos veículos tradicionais, empresas homogêneas voltadas exclusivamente à produção de informações – jornalismo. O outro padrão será exercido por megagrupos heterogêneos dedicados tanto à informação como ao entretenimento, esportes, telecomunicações, telemarketing, e-commerce etc.
Nos EUA apenas o Washington Post e o New York Times – expoentes do jornalismo qualitativo – foram capazes de reagir nos primeiros dias, chamando a atenção para os aspectos morais desta megafusão que vai converter a informação em artigo de consumo. São jornais editados por empresas que dedicam-se exclusivamente ao jornalismo.
No Brasil, o Estado de S.Paulo foi o único dos jornalões a preocupar-se ostensivamente com os desdobramentos morais da operação, embora pertença a um grupo que diversificou suas atividades inclusive na área de telecomunicações e, portanto, sujeito a conflitos de interesse (o número de matérias que publicou pode ser comprovado abaixo). A cobertura da megafusão pela Folha de S.Paulo foi acrítica. Mas no caso da histeria dos provedores de acesso brasileiros manteve um distanciamento ostensivo [veja nota abaixo].
Época, do conglomerado Globo (o único que no Brasil se assemelha ao megagrupo) e Veja (da Abril, que ainda não desenhou suas grandes opções) publicaram eufóricas matérias de capa sobre a nova era passando ao largo da mutação que vai acontecer na imprensa.
A revista Time, do grupo Warner, comportou-se discretamente no anúncio da fusão: a capa da edição americana exibida na rede no domingo (16/1/00) ocupava-se do menino cubano Elián Gonzalez.
The Economist destacou a fusão. Mas a gozação, sob a forma de um cartaz de cinema, resumiu-se à capa: a matéria manteve-se no âmbito dos negócios ignorando os aspectos conceituais.
Fus@o e Étic@ – III
Nem tudo está perdido
A . D.
Uma empresa de internet gasta aproximadamente 70% de qualquer ação em marketing & publicidade. Isto é, anúncios. E, de preferência, impressos – os únicos capazes de fixar uma argumentação mais consistente.
Significa que a cibermídia só pode sustentar-se se estiver ancorada na veiculação tradicional – o papel.
O grande faturamento dos quatro jornalões brasileiros nesta metade de janeiro veio dos lançamentos na internet. A tendência aponta para um aumento significativo no segmento. Portanto, a empresa jornalística homogênea e clássica tem o seu lugar garantido no processo mediático. Desde que mantenha sua identidade e sua fidelidade ao modelo de empresa eminentemente jornalística.
Uma nota pitoresca: antes de assumir a direção do Los Angeles Times, onde produziu um dos maiores vexames da segunda metade do século [veja Monitor da Imprensa, nesta edição], o executivo Mark Willes trabalhava num grande fabricante de cereais matinais. Antes de montar a AOL, Steve Case era diretor de marketing da Pizza Hut.
Trabalhar com matinais e pizzas parece ser o treinamento obrigatório para os novos barões da mídia. Melhor do que salsichas.
Nota da Redação : Este Observatório oferece abaixo um debate sobre as duas novidades dos últimos dias na área da Internet, sobretudo no tocante aos seus desdobramentos em nosso país. O Universo Online, maior provedor brasileiro de acessos e conteúdo, convidado a oferecer seus argumentos preferiu não se manifestar.
Internet a custo zero
Leão Serva (*)
Hoje a maior parte dos usuários de internet em todo o mundo são jovens. Uma parte preponderante desse grupo tem no uso interativo de computadores o principal meio de comunicação (media é a palavra da moda desde que o avô desses garotos leu McLuhan pela primeira vez, nos anos 60).
Esses jovens não têm a memória da história dos meios de comunicação na cabeça e portanto poderiam até mesmo se deixar enganar por malandros mais velhos que, apesar de saberem dessa história, se recusam a admitir que a internet seguirá o caminho inexorável rumo ao acesso gratuito. As simple as that (não é assim, em inglês, que as pessoas ligadas à internet gostam de falar, mesmo aquelas coisas que podem ser ditas em bom português?).
Os jornais nasceram como meios caros, para assinantes ricos, e depois seu preço foi caindo até chegar a zero, em alguns lugares e títulos, ou pelo menos a preços acessíveis até mesmo a pobres (em muitos lugares e títulos).
Depois veio o rádio, que se constituiu como meio popular a partir do estabelecimento de rádio-clubes, associações de pessoas endinheiradas que podiam financiar o prazer de ouvir aquela maquineta diabólica. Depois, com a audiência crescendo, o pagamento das mensalidades caiu em desuso simplesmente porque as receitas de publicidade superavam a contribuição dos associados e garantiam a atividade das emissoras.
Aí veio a TV, que já nasceu no tempo em que rádio-clubes eram modelos em pleno processo de extinção. Então, a TV viveu sempre entre dois modelos: um europeu, extinto nos anos 80, em que as emissoras eram estatais, sem anúncios mas com dinheiro público, e outro modelo, americano, de empresas explorando a publicidade para pagar as emissões.
O Brasil adotou o segundo, com algumas emissoras estatais procurando praticar o modelo europeu. Na Inglaterra, onde o modelo tradicional ainda predomina (a maior audiência do país é da emissora BBC 1) apesar da concorrência de duas redes nacionais privadas e de uma TV por satélite muito dinâmica, a população que tem TV paga uma taxa anual de cerca de 300 reais para financiar as operações da TV estatal e garantir que ela não precise ter "intervalos comerciais".
Mas essa fórmula é uma exceção, mesmo nas terras da Rainha Elizabeth II. Na maior parte do mundo, TV é coisa aberta, que todo mundo vê sem pagar nada, já que as emissoras enchem a burra com receitas de publicidade.
Alguém poderá perguntar: mas e a TV paga? Ela surgiu depois da TV aberta, oferecendo serviços mais sofisticados, aqueles que podem interessar apenas a uma minoria que, no entanto, não se importa de pagar para tê-los.
Com a internet a história se repete. Quando ela chegou no Brasil, os "provedores de acesso" (que em alguma medida correspondem às emissoras de rádio e TV) não tinham qualquer fonte de receita. Tinham que captar dinheiro dos poucos interessados em entrar na rede. Rateavam os seus custos entre esses usuários, chamados assinantes.
Com os anos, que hoje já perfazem meia década, os usuários cresceram, hoje são muitos (algo entre 4 e 8 milhões, no Brasil) e tudo indica que serão muitos mais em pouco tempo.
Reserva de mercado
Em busca do poder de consumo desses milhões de brasileiros, a publicidade mergulhou ávida nesse novo meio. É difícil encontrar uma página da web, produzida em qualquer lugar do mundo, inclusive no Brasil, que não tenha no seu topo, na lateral ou embaixo um anúncio qualquer.
Ou seja: a publicidade chegou e vai tornar o acesso à internet gratuito. Não é uma relação causal. Mas tem um quê de ético: não é possível ter o melhor de todos os mundos o tempo todo; não se pode imaginar que os provedores de acesso ganhem três vezes com o mesmo usuário.
Sim, três vezes, porque (1) no modelo de provimento pago, quanto maior o número de usuários-assinantes, mais o provedor ganha; (2) ao mesmo tempo, tendo em vista sua carteira de clientes, ele cobrará pelo preço da exposição dos anúncios a esses usuários-assinantes (e então já está ganhando duas vezes sobre o mesmo usuário). Ocorre ainda que (3) de uns anos para cá entrou em cena um outro agente: as bolsas de valores dos Estados Unidos, com investidores ávidos por comprar ações de empresas que possam ter no futuro presença marcante na "nova economia".
Os provedores brasileiros, como os de todo o mundo, levam à bolsa americana suas carteiras de clientes e com base nelas são avaliados (e então fazem daquele mesmo usuário uma terceira fonte de receita).
A reação de alguns setores da internet contra o acesso gratuito oferecido pelos bancos – e, depois, ao surgimento do portal iG (Internet Grátis) no Brasil – é apenas uma tentativa de conseguir uma reserva de mercado para garantir seus níveis de rentabilidade. Trata-se de usar o poder público para impedir o surgimento, no país, de um modelo econômico de exploração da internet que se afirma em todos os países onde a internet chegou antes do Brasil (e onde, por isso, ela já tem uma massa crítica de usuários que sustenta um mercado publicitário).
Isso não quer dizer que provedores pagos são empresas em extinção: o maior provedor do mundo é pago (America Online, AOL) e mantém seu vigor apesar do crescimento da internet gratuita nos EUA. Sua estratégia, até agora bem sucedida, é a de oferecer serviços e conteúdos que um grande número de pessoas paga para ter. Estratégia semelhante é usada no Brasil pelo Universo Online, UOL. As duas acreditam no poder aquisitivo de seus usuários, em seus conteúdos exclusivos, fechados a usuários de outros provedores.
Assim, as duas se deixam expor à concorrência dos provedores gratuitos e procuram garantir no mercado suas posições, sem tentar lançar mão de reservas de mercado que significariam subsídios indiretos. São diferentes, portanto, dos provedores brasileiros que apelaram para o poder público contra o acesso gratuito oferecido pelos bancos, procurando garantir um regulamento que obriga o usuário a gastar um dinheiro que tecnicamente já não precisa mais gastar. Comparando uma vez mais com o caso das TVs, a ação desses provedores corresponderia a ver as TV a cabo pedindo à Anatel ou ao Cade que proibisse as TVs abertas de operar.
(*) Jornalista, editor do jornal digital Último Segundo (do portal iG, Internet Grátis), mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, autor de Babel, A Mídia Antes do Dilúvio (Mandarim).
Convergência e novos serviços
Ethevaldo Siqueira (*)
Não é apenas o tamanho da fusão que impressiona, mas seu significado como mudança de paradigmas. A nova empresa que nasce – com um patrimônio de 350 bilhões de dólares (ou o PIB do México) – resulta da convergência de três mundos tecnológicos e econômicos que até recentemente eram estanques, distantes, separados:
a) Indústria do conteúdo, abrangendo atividades editoriais, jornalismo, entretenimento, cinema, shows, TV por assinatura, música etc.;
b) infra-estrutura de cabo, ou seja, meios de transmissão de banda larga; e
c) internet (indústria de provedores de acesso e de serviço).
Tudo indica que esse tipo de fusão venha a ocorrer em número crescente não apenas nos Estados Unidos, mas também nos países em desenvolvimento. É um sinal dos novos tempos, é a marca inegável do triunfo da Sociedade da Informação. A Time Warner entra, basicamente, com dois elementos básicos do tripé:
1. Os meios físicos de transmissão e o conteúdo, ambos essenciais para o próximo salto qualitativo rumo à Internet 2, ou seja, a internet de alta velocidade;
2. sua enorme experiência como indústria da informação e seu gigantesco estoque ou arquivo do conteúdos.
A infra-estrutura de cabos que, no caso da Time-Warner já atinge 30 milhões de domicílios, passará a ser utilizada como meio de transmissão de banda larga para dezenas de novas aplicações no mundo da economia digital, da indústria da informação e do entretenimento.
A grande revolução que deverá ocorrer será no campo da fusão de mídias, quer dizer, a convergência de jornal, revista, rádio, TV, telefonia, serviços interativos de banda larga (como videoconferência) e aplicações de grande impacto econômico (e.commerce, e.business, e.services) e social (teletrabalho, teleducação, telemedicina – há tanto tempo previstos e anunciados, mas que nunca decolavam).
A América On Line, por seu turno, embora uma empresa jovem comparada com a septugenária Time, desenvolveu ao máximo sua competência nesse mundo novo da internet, descobrindo – antes que seus concorrentes – a estratégia e os caminhos mais rentáveis para o provimento de acesso e de novos serviços via Web.
Num horizonte de um a dois anos, milhões de assinantes da América On Line passarão a dispor de uma nova gama de serviços tais como internet de alta velocidade (de 2, 4 ou 8 Megabits por segundo), em paralelo com todas as aplicações possíveis de vídeo de alta qualidade proporcionados pela banda larga e, principalmente, pela TV digital e pela TV de alta definição.
Uma frase de Steve Case, o presidente da América On Line, sintetiza tudo: "Esta fusão lançará a próxima revolução de arranhar a superfície desse gigantesco iceberg que serão os ciberserviços e os produtos da economia em rede (internetworked economy)".
Sobre o acesso gratuito à internet – Não há como ser contra, em defesa do interesse do consumidor, do cidadão, do cliente. O que se deve, no entanto, é evitar formas de competição injusta, monopólios ou oligopolios – com práticas comerciais ilícitas. Tudo isso se faz com a vigilância de agências reguladoras sérias, profissionais, apoiadas exclusivamente em leis modernas e bem concebidas, como a nossa Lei Geral de Telecomunicações.
Chega de reservas de mercado e de protecionismos. Já pagamos muito caro por tudo isso, em nome de soberanias, nacionalismos e outras ficções. O que deve pesar é eficiência, competitividade, bons serviços, agilidade, atenção máxima ao cliente.
(*) Jornalista, diretor da Revista Nacional de Telecomunicações
A fus@o nas revistas americanas
Desde que foi anunciada a fusão AOL-Time Warner, seus críticos estão de olhos arregalados na mídia para tentar fisgar qualquer pista de "conflito de interesses" ou falta de independência das redações. As principais revistas norte-americanas, especialmente as que estão ligadas ao acordo, foram mais do que cuidadosas e procuraram deixar claro sua independência e integridade.
De acordo com matéria do New York Post (16/1/00), a maior revista do país, Time (da Time Warner), fez questão de mostrar que sua redação não sofrerá conflitos de interesses – e estampou Steve Case, da AOL, e Jerry Levin, da Time Warner, na capa. A revista publicou ainda um editorial no estilo "tudo que é grande é ruim" assinado por um de seus publishers e um artigo sobre as várias tentativas da Time Warner de chegar à internet.
A concorrente Newsweek insistiu no fato de que AOL vinha tentando firmar um acordo com uma companhia de mídia havia um ano. Além da Time Warner, a empresa manteve os olhos abertos para a gigante alemã Bertelsmann e para a News Corporation (controladora do Post).
A Business Week (também da Time Warner) deu praticamente a mesma capa da Time, mas sua cobertura foi mais recatada. Ela tratou dos erros e acertos da AOL nos serviço básicos de internet, dos esforços de Alan Greenspan para um suave pouso da economia norte-americana e, quem diria, das últimas novidades de casas especializadas em tratamento de animais.
Liberdade em pauta
Os analistas que ainda discutem a fusão Time Warner e AOL sob a perspectiva do fim da independência editorial e conflito de interesses são no mínimo "antiquados". A opinião é de Tom Rosenstiel, diretor do projeto de Excelência em Jornalismo, em Washington, e de Bill Kovach, curador da Fundação Nieman em Jornalismo, de Havard.
Em matéria para The New York Times (14/1/00), ambos defendem que as preocupações com a independência jornalística depois das megafusões são desnecessárias, e que o verdadeiro estrago que elas podem trazer está relacionado à liberdade de imprensa.
Os autores explicam que a teoria norte-americana de imprensa livre parte do preceito de que uma voz independente deveria monitorar a influência de instituições poderosas na sociedade. "Nós podemos confiar em uma pequena célula de uma gigantesca corporação para se automonitorar?", perguntam Rosenstiel e Kovach.
"As interdependências dentro da AOL-Time Warner serão tão grandes que qualquer reivindicação de seus jornalistas por independência – e portanto preocupações sobre conflitos – poderão não ser mais reais. O problema está em não cobrir apenas AOL, mas toda a web, comércio eletrônico, entretenimento, TV a cabo, telecomunicações e tudo mais."
Os autores acreditam que quando as grandes companhias de mídia se fundem, elas não tendem a somar seus veículos, mas a diluí-los Eles apostam que a sinergia não funciona em organizações de notícias. Um exemplo de maus resultados foi a tentativa de veicular a revista Time pela rede de televisão CNN (ambos produtos da Time Warner) no horário nobre. A tentativa de misturar a velocidade da TV com a periodicidade da revista foi um estrago. "A lição de sinergia entre Time e CNN é que ela não funciona", admitiu um executivo da Time Warner para um grupo da Columbia School of Journalism.
A opção da AOL-Time Warner, segundo Rosenstiel e Kovach, seria diminuir o número de veículos. "AOL pode estar gastando bilhões de dólares para adquirir marcas que no processo de combinação ela pode destruir", afirmam os autores.
Últimas lasquinhas
Victor Gentilli
O anúncio de acesso gratuito à Internet no Brasil veio poucos dias antes do anúncio da fusão do AOL com a Time-Warner. Em São Paulo, o Estado de S.Paulo abriu manchete (7/1/00), numa clara provocação à Folha, concorrente que controla o UOL, o maior provedor do país, cuja tarifa efetiva de tempo ilimitado é de 35 reais ao mês. No dia seguinte, o anúncio do lançamento do portal iG pelo grupo Opportunity reforçou o argumento do Estadão.
A discrição da Folha não podia ser maior.
E quando foi divulgada a informação da fusão AOL-Time-Warner, de novo o Estadão trouxe uma análise interessantíssima, abordando a questão central do conflito de interesses (13/1/00, página B16). O título já diz tudo: "Fusão AOL-Time Warner levanta questão ética." Vale a pena ler o texto de Howard Kurtz, do Washington Post [veja íntegra abaixo].
Mas o conflito de interesses não atinge apenas provedores. A Folha parece ter voltado aos bons tempos pré-Globolha, e sapecou, no dia 7 de janeiro, uma crítica à TV Globo – que estaria boicotando jornalisticamente o Mundial da Fifa, porque os direitos de transmissão ficaram com a Bandeirantes.
A matéria da Folha é esclarecedora, mostrando os interesses que ligam o HMTF, fundo de investimentos americano que controla o departamento de futebol do Corinthians e é sócio da Traffic, empresa de J. Hawilla, que participa da TV Bandeirantes.
Aproveitemos estes espasmos de matérias elucidativas.
ASPAS
Howard Kurtz
The Washington Post
"O repórter Marc Gunther, da revista Fortune, foi pautado para entrevistar o presidente do conselho da America Online, em Dulles, no Estado da Virgínia, na segunda-feira, para uma matéria cuja manchete estava programada para ser ‘Steve Case quer assumir o controle do mundo’.
Às 6 horas da manhã, uma executiva da AOL telefonou a Gunther para cancelar a entrevista. ‘Estamos comprando sua empresa’, disse ela.
O impressionante acordo pelo qual a gigante do ciberespaço está comprando as revistas da Time Inc. e a CNN, entre outros ativos, levantou questões do tamanho de um gigabite sobre a possibilidade de eles poderem cobrir com honestidade, não apenas a AOL, mas o setor econômico explosivo da Internet, no qual têm um papel dominante.
‘Eles estão competindo em todos os aspectos dos negócios da Internet que se possa imaginar’, disse James Ledbetter, chefe de setor da revista Industry Standard, falando sobre as empresas que operam com notícias. ‘Virtualmente, todas as companhias sobre as quais poderiam noticiar são agora ou sócias ou concorrentes.’
Tom Tosenstiel, diretor do Projeto para Excelência em Jornalismo, lembrou os problemas da ABC para publicar notícias sobre a Disney – incluindo a derrubada de uma matéria sobre um parque temático da Disney – depois que o conglomerado de entretenimento adquiriu a rede. ‘Basta multiplicar isso para além da compreensão e se verá quantos conflitos haverá’, disse Tosenstiel a respeito da fusão AOL-Time Warner. ‘É um problema sério: alguém vai acreditar neles?’
Gunther, que viajou de avião para Nova York para cobrir o comunicado oficial sobre a fusão, apresentou a questão da seguinte maneira: ‘Quando escrevia antes sobre a AOL, fazia-o decentemente. Agora, estamos cobrindo a companhia que controla nossa empresa. Os leitores e telespectadores devem encarar essas grandes companhias com um alto grau de ceticismo.’
A fusão significa que Case, cuja única experiência jornalística foi no jornal da escola secundária, tornou-se de repente um mandachuva da mídia. Da mesma forma que ocorreu com Jack Welch, da General Electric, com Summer Redstone, da Viacom, e com Michael Eisner, da Disney, os novos controladores vão encarregá-lo de algumas das organizações noticiosas mais conhecidas do mundo.
George Vradenburg, vice-presidente sênior da AOL para a política global e estratégica, disse que a Time e a CNN terão o mesmo grau de independência que possuem hoje. ‘Têm permissão para escrever o que acharem adequado’, mesmo que isso implique crítica à AOL. Case, disse Vradenburg, entende ‘a necessidade de manter a integridade de nosso produto e isso não aconteceria caso uma publicação seja editada para os propósitos da imagem corporativa’.
Num nível mais fundamental, segundo disseram vários analistas esta semana, a criação da maior companhia mundial de mídia e do ciberespaço parece que vai turvar o sonho de uma Internet como força democratizante, capaz de habilitar milhares de vozes individuais a competirem com órgãos importantes da mídia. Mas a rápida expansão de sites de jornais, revistas e redes de TV na Web deu-lhe decididamente um matiz corporativo.
‘É vantagem para quem é um dos seus acionistas’, disse Mark Crispon Miller, diretor do Projeto sobre Propriedade da Mídia, da Universidade Nova York. ‘Mas existe algo bom no fato de uma entidade muito grande ser capaz de atingir todo o mundo?’
‘As maravilhas da era da informação estão nas mãos de muito poucas companhias’, diz Ledbetter.
Há apenas uma década, a Time Inc., companhia fundada por Henry Luce em 1923, foi engolida pela Warner Bros. Desde então, disparado contra a revista Time quando ela tratou com especial destaque projetos cinematográficos e livros de sua controladora – da capa com uma prévia sobre o filme De Olhos Bem Fechados, da Warner Bros. (‘assombrosa e definitiva obra-prima de Stanley Kubrick’), à capa com Bill Gates, da Microsoft, tratando com sarcasmo seu novo livro, publicado pela Warner Books.
‘Temos uma longa história cobrindo essas coisas, fazemos isso com integridade jornalística e temos as melhores intenções de continuar fazendo assim’, diz o diretor-gerente da Time, Walter Isaacson. ‘Temos muita prática.’
O editor da revista SmartMoney, Teve Swartz, disse que qualquer crítica deve ser temperada pela reputação do editor-chefe da Time Inc., Norman Pearlstine, e seus adjuntos, porque ‘a ética deles é até agora irrepreensível’.
‘Há tantas inter-relações nos negócios da mídia que todos têm de expor alguma coisa.’ Como para sublinhar o argumento, Swartz observou que a revista, uma joint venture da Dow Jones com a Hearst, têm um acordo para fornecer material para a AOL.
Questões semelhantes giraram em torno de outras megatransações, como a compra da CBS, no outono passado, pela Viacom, que é dona da MTV e da Simon & Schuster. Em escala menor, o jornal The Washington Post anunciou recentemente uma aliança noticiosa com a NBC, que pertence à GE, e a MSNBS, que pertence em parte à Microsoft.
Um dos episódios mais desconcertantes da sinergia corporativa ocorreu após a compra da CNN pela Time Warner, quatro anos atrás. Quando a CNN e a Time lançaram juntas um programa para TV a cabo chamado NewsStand, tiveram que desmentir acusações feitas na estréia, segundo as quais tropas norte-americanas, durante a guerra no Vietnam, fizeram uso de gás asfixiante que afeta o sistema nervoso.
A série de conflitos possíveis para as companhias que fizeram a fusão recentemente atravessa todo tipo de temas: a AOL vai abster-se do conteúdo de outros serviços on-line em favor da Time.com, Entertainment Weekly ou Sports Illustrated? Pode a revista Fortune e o programa CNN Financial News cobrir agressivamente o sobe-desce das ações da AOL? Pode a Time informar honestamente sobre concorrentes da AOL como a Yahoo e a Amazon.com?
‘A probabilidade de eles cobrirem a Web criticamente não é maior do que a formular questões sobre os efeitos da violência na mídia nas crianças’, disse Miller. ‘Não se pode cobrir a si mesmo.’
O presidente do conselho da CNN, Tom Johnson, declarou, por intermédio de sua assessoria, que a rede cobrirá a nova AOL Time Warner ‘dentro dos mesmos padrões de jornalismo empregados na cobertura de outras companhias’.
Durante vários anos, o explosivo crescimento da America Online, deu à companhia cerrada cobertura de imprensa. Em 1997, na matéria de capa, a Time afirmava que as recentes aquisições ‘poderiam fazer a estratégia do presidente da AOL, Steve Case, parecer brilhante’. Em outubro, a revista Money disse que as ações da AOL ‘não podiam ser ignoradas’ e elogiou a ‘visão’ de Case. Essas matéria foram consideradas de rotina – mas, se fossem publicadas hoje, podiam ser vistas como suspeitas.
Os jornalistas da Time Warner estão atualmente profundamente conscientes do dilema. Josh Quittner, articulista de tecnologia da Time e editor da Time Digital, disse: ‘Estou esperançoso de que, quando os serviços da AOL apresentarem problemas, sejamos capazes de escrever sobre esses problemas da mesma forma que faríamos em relação tudo o mais.’
"Fusão AOL-Time Warner levanta questão ética", copyright O Estado de S.Paulo, 13/1/00
Paul Krugman
The New York Times
"Como ex-colunista da revista Fortune, sou provavelmente uma das poucas pessoas que visitavam freqüentemente o malsucedido portal Pathfinder. E posso endossar a alegação de que a Time Warner precisava da perícia de outra empresa para desenvolver seu perfil na Internet. O site da Fortune, que faz parte do Pathfinder, era profundamente defeituoso em duas maneiras: grande parte dele era escrito em ilegíveis letras amarelas (quando indaguei a respeito disso, fui informado que aparecia melhor no Macintosh, indicando uma leve falta de orientação a respeito do consumidor) e falhava em incluir o tipo de conteúdo que provavelmente atrairia leitores, isto é, não publicava as minhas colunas.
Bem, presumivelmente, o conteúdo da AOL Time Warner não será mais em amarelo pálido. Mas isso não explica porque a Time Warner estava disposta a ser comprada por uma empresa que, por todas as medidas, exceto valor de mercado, é uma mera fração de seu tamanho. Então deixe-me tentar responder à grande pergunta suscitada por esse negócio.
Em primeiro lugar, é uma boa idéia por parte da Time Warner? A resposta, que podemos afirmar com bastante certeza, é que ninguém sabe.
Por um lado, é necessário lembrar que mesmo a Time Warner está basicamente vendendo entretenimento e o que Nathanael West declarou ser o princípio fundamental de Hollywood ainda vale para a multimídia: ‘Ninguém sabe nada’. Nunca esqueça que entre as propriedades-chave da metade supostamente sólida desse casamento está – você acertou – o Looney Tunes.
Às incertezas do entretenimento, comprovadas pelo tempo, devemos acrescentar a novíssima incerteza envolvida na avaliação das empresas de Internet. Para esse tipo de empresa, a AOL tem uma solidez rara: é mais prestadora de serviço do que site de Internet, tem genuína lealdade dos consumidores, uma marca reconhecida universalmente e até lucra. Mas isso justifica um valor de mercado de mais de US$ 10 milhões por empregado? Ou a AOL vai acabar como a Polaroid em 1972 – uma empresa tão famosa, tão amada que seu nome terminou tornando-se um substantivo comum, porém um desastre para os investidores, que pensaram que isso com certeza faria dela uma vencedora no mercado. Não sei, mas Gerald Levin também não.
É uma boa idéia para a AOL? Julgando estritamente por valor de mercado, a AOL pagou demais pela Time Warner – isto é, sua fatia da empresa depois da fusão é menor que o valor de sua propriedade acionária antes do negócio. A teoria de Steve Case é que a aquisição da Time Warner criará sinergias valiosas. Novamente, talvez – se daqui a cinco anos não estivermos todos dependendo de acessos sem fio e o cabo parecendo perdidamente antiquado. Também tenho de admitir que sou velho (só) o suficiente para lembrar a era das construções dos conglomerados nos anos 60, uma época que terminou tão mal que muitos pensaram que a palavra ‘sinergia’ seria permanentemente varrida do léxico dos negócios. (Mas então eu achava que ‘empowerment’, conceito que envolve aumentar a produtividade estimulando o comprometimento dos funcionários, também seria descartada aos risos.) Está bem, eu sei: pareço um professor, não um homem de negócios.
Empresas têm de fazer apostas no futuro, queiram ou não; Hamlet não daria um bom presidente de empresa. Mas a incerteza realista envolvendo esse negócio influencia diretamente a próxima pergunta: essa fusão, na qual a empresa de e-business da nova era é claramente o parceiro preponderante, dissipa de uma vez por todas quaisquer dúvidas que tivermos sobre a solidez das cotações extraordinárias que o mercado atualmente atribui a tais companhias?
E a resposta é ‘claro que não’: o negócio foi baseado nesses valores de mercado e não oferece evidências reais sobre se eles fazem ou não sentido. Só o tempo, com ‘t’ minúsculo, nos dirá se empresas como a AOL serão algum dia capazes de apresentar o tipo de lucro que justificaria seus atuais preços.
E agora, à questão final: a fusão implica o fim do sonho da Internet como um lugar aberto, democrático, onde a voz de qualquer um pode ser ouvida? Não, porque as expectativas que impulsionaram essa fusão podem estar erradas. Mas o negócio é baseado na crença de que um grande lote de pradaria eletrônica pode sim ser cercado, que uma grande empresa pode criar uma zona de influência na qual pessoas escutam ou assistem ao seu conteúdo, transmitido por sua rede, pagando pelo privilégio. Se o sonho ciberlibertário da Internet como um mundo sem fronteiras estiver correto, alguns importantes homens de negócios acabam de cometer um grande erro.
"‘Media mania’: fusão entre AOL e Time Warner deixa sem resposta a dúvida sobre empresas de Internet", copyright O Estado de S.Paulo, 13/1/00
Norman Horowitz
Los Angeles Times
Los Angeles – A expansão da News Corp. e da Fox, as fusões dos Estúdios Disney com a rede ABC e da Time Warner com a Turner Broadcasting, bem como a iminente fusão da CBS com a Viacom não são do interesse dos cidadãos americanos.
Se não é permitido que uma entidade seja proprietária de um jornal e de uma emissora de rádio no mesmo mercado, por que é permitido que essas gigantescas companhias de mídia falem com tantas vozes, em tantas situações, nos Estados Unidos? Isso não faz sentido. A verdade é que quanto maior o poder dessas organizações, tanto maior é a sua predisposição ao abuso.
Será uma boa idéia permitir que Rupert Murdoch controle a Fox Network, 15 canais de TV, Fox News, Fox Sports, Fox Family Channel, 20th Century Fox, Fox Animation, Fox Searchlight, The New York Post, The Times de Londres, HarperCollins, Weekly Standart, Mushroom e muitos outros veículos de mídia?
Será uma boa idéia permitir que o presidente da Time Warner, Gerald Levin, controle a WB Network, HBO, TNT, TBS, CNN, CNNfn, Cinemax, Warner Bros., New Line Cinema, Hanna-Barbera, Castle Rock, Time, People, Sports Illustrated, Fortune, outras 28 revistas, Warner Bros. Records, Atlantic, Elektra, Sire, Rhino, Time Warner Cable e muito mais?
Será bom que Michael Eisner, da Disney, controle a ABC-TV e ABC Rádio, 10 canais de TV e 30 emissoras de rádio, ESPN, Disney Channel, A&E,E!, Lifetime, Miramax, Walt Disney Pictures, Touchstone Pictures, Hollywood Pictures, Hyperion Press, ESPN Magazine, Walt Disney Records, Lyric Street Records, os sites Go Network da internet e muito mais?
É uma boa idéia permitir que Summer Redstone, da CBS, controle 163 emissoras, 34 canais de TV e outros veículos de mídia?
As companhias importantes que permaneceram sós são a Seagram/Universal, MGM, Sony/Columbia Pictures, Pearson e Carsey-Warner. Até a poderosa Motion Picture Association of America silenciou suas críticas ao poder das redes na mídia: seus membros mais poderosos agora controlam outlets de redes. Mais uma voz que silenciou.
Naturalmente, alguns veículos de mídia foram muito influentes no século 20. Entretanto, os magnatas da mídia do século 20 foram suplantados pelos tiranos da mídia do século 21, que controlam a grande maioria de que vemos na TV, do que aprendemos sobre o nosso processo eleitoral, apresentando ou deixado de apresentar os candidatos ao eleitorado de um modo nunca imaginado pela Comissão Federal de Comunicações, pelo Departamento de Justiça ou por quaisquer órgãos que tentam, ostensivamente, regulamentar os monopólios de informações.
"Especialista adverte para monopólio de redes nos EUA", copyright O Estado de S.Paulo, 7/1/00
Laurence Zuckerman
The New York Times
"Nova York – Em 1983, Ben H. Bagdikian, jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer, escreveu em seu livro The Media Monopoly (Beacon Press) que apenas 50 companhias controlavam a maior parte do que os norte-americanos liam em livros, revistas e jornais e assistiam na televisão e nos cinemas.
Para a sexta edição do livro, a sair em março, esse número encolheu para seis. ‘Cada edição foi considerada alarmista por alguns’, disse Bagdikian, na segunda-feira, de sua casa em Berkeley, na Califórnia, ‘e cada edição acaba sendo conservadora, também’.
Paradoxalmente, o debate público sobre a Grande Mídia parece ter-se acalmado desde os anos 80, apesar de o setor estar ficando cada vez mais concentrado. Os críticos citam o poder das próprias companhias de mídia para moldar o debate público sobre a questão, ignorando-a solenemente.
Os críticos dizem também que Wall Street provavelmente não vai barrar a tendência, já que, juntamente com os altos executivos de mídia, ela lucra esplendidamente com os negócios corporativos. Também é pouco provável que os políticos em Washington ajam temendo afastar grandes proprietários de mídia e perder polpudas contribuições para suas campanhas.
Mas a questão também está cheia de ambigüidades que podem ter minado o senso de ultraje de muita gente, pois, além do aumento da concentração na mídia, as duas últimas décadas introduziram uma proliferação sem precedente de novas fontes de informação, das dezenas de redes por cabo às possibilidades aparentemente ilimitadas da Internet.
Enquanto alguns críticos deploram que a Grande Mídia vai suprimir vozes novas, outros passaram boa parte do ano passado se preocupando com o fato de pequenos fornecedores de fofocas na Internet e em tablóides estarem definindo a agenda de grandes organizações noticiosas.
Recursos – Será o grande sempre, e necessariamente, ruim quando se trata da mídia? Para Bagdikian e outros críticos, a resposta é sim. Mas pode-se argumentar também que as gigantes têm os recursos para criar novas vozes e preservar outras. Muitos dos melhores sites de notícias e informações na Web dão altos prejuízos, mas são subsidiados por grandes conglomerados de mídia.
É difícil imaginar muitas companhias além da Gannett Co., a gigantesca cadeia de jornais, gastando os milhões de dólares que ela gastou para criar o USA Today, o maior jornal do país atualmente. O New York 1, canal de notícias a cabo 24 horas de Nova York, amplamente considerado uma nova e bem-vinda fonte de notícias de assuntos municipais, exigiu um grande investimento de sua proprietária, a Time Warner.
E há ainda o The New York Post, em que os prejuízos têm sido estimados em US$ 20 milhões anuais e era considerado à beira da morte até Rupert Murdoch, o principal executivo da News Corp., entrar em cena e comprá-lo, uma segunda vez, em 1993, preservando assim uma linha editorial conservadora na cidade.
Os críticos argumentam que as companhias maiores, quanto mais conseguem impor sua agenda comercial ao público, mais tendem a afugentar as vozes independentes e a colocar os interesses da empresa controladora sobre o jornalismo que elas praticam.
‘A Time Warner vai pensar duas vezes antes de criticar a AOL se ela pertencer à Time Warner,’ disse Ralph Nader, o advogado defensor dos interesses do consumidor, crítico em relação ao negócio.
Exemplos – Na verdade, são muitos os exemplos de grandes companhias de mídia que adaptam seu jornalismo adequando-o a suas necessidades corporativas. Alguns anos atrás, a News Corp. aceitou interromper as transmissões da BBC World Service Television para a China pela Star TV, sua rede via satélites asiática, depois de críticas recebidas do governo chinês. O braço editorial da companhia posteriormente pagou uma quantia substancial à filha do líder chinês Deng Xiaoping por uma biografia de seu pai.
No auge do debate sobre uma importante lei das telecomunicações, em 1995, a CNN, pertencente à Time Warner – e, por sua vez, a segunda maior operação de televisão a cabo do país –, recusou-se a transmitir um comercial pago por companhias telefônicas de longa distância, alegando que as tarifas da TV a cabo subiriam se a lei fosse aprovada.
Mas é evidente que a razão para sabermos desse e de outros episódios embaraçosos do gênero é que eles foram ventilados por competidores pertencentes, em geral, a conglomerados rivais. E, em várias ocasiões, certas publicações trouxeram críticas a suas primas corporativas. A revista People, da Time Warner, publicou um artigo altamente crítico à American Family Enterprises, a companhia de loterias associadas a corridas de cavalos, hoje falida, da qual a Time Warner era dona de 50%. E depois de a Time Warner e a Turner Broadcasting anunciarem sua fusão, em 1995, a revista Time publicou um artigo referindo-se a Gerald Levin como ‘o pai inseguro’ e a Ted Turner como ‘o filho rebelde’.
Por outro lado, é impossível saber quantos artigos deixaram de ser escritos porque os jornalistas sentiram que poriam em risco sua carreira desafiando a controladora da corporação.
Para Norman Pearlstine, editor-chefe da Time Inc., a independência editorial estava relacionada menos com o porte da companhia do que com o fato de proprietários e editores estarem comprometidos com a integridade editorial. ‘Se o principal executivo estiver decidido a ter editores que não cubram suas atividades, ou as cubram como um house organ, então teremos um mau jornalismo,’ disse ele.
‘A revista Forbes é de capital fechado’, acrescentou, ‘mas ela ainda não fez um artigo sério sobre Malcom Forbes, ou sobre Steve, que está concorrendo à Presidência. Não se trata de negócios ou concentração. Trata-se da mentalidade do executivo principal.’
Procurado na quarta-feira à noite, o editor-executivo da Forbes, Lewis D'Vorkin, disse que não tinha certeza sobre o quanto de cobertura a família Forbes havia recebido. Mas informou que um tributo a Malcom Forbes foi dado com destaque na capa da revista por ocasião de sua morte, em 1990.
Os críticos argumentam que o interesse corporativo sempre distorcerá o julgamento de diretores corporativos, sobretudo quando provoca o surgimento de conglomerados de mídia cada vez maiores, dirigidos por pequenos grupos de pessoas que podem ou não acreditar no jornalismo honesto."
"Fusões aumentam e debate público sobre monopólio diminui nos EUA", copyright O Estado de S.Paulo, 14/1/00
Alberto Dines
"Qual a natureza do nosso negócio ? Em que ramo estamos metidos?
Este par de perguntas ‘existenciais’ está em vias de converter-se na chave do sucesso empresarial numa época em que a velocidade das mudanças econômicas e tecnológicas torna imperioso a psicanálise em movimento – definir no meio da corrida a sua identidade antes mesmo de estipular a estratégia para desenvolvê-la.
Este questionamento deu-se com as ferrovias americanas quando escaparam do abismo ao perceber que o seu negócio não se resumia a operar trens mas envolvia algo maior, o transporte. As empresas de aviação também descobriram que o seu ramo não era apenas transportar pessoas e cargas por avião, mas abarcava o negócio de viagens que inclui cartões de crédito e turismo (algumas ampliaram seu escopo de tal forma que chegaram ao negócio do jogo, através de caça-níqueis instalados nos aviões que fazem a rota do Atlantico Norte).
Para alguns, o processo chamado genericamente de globalização não passa de um conjunto de velozes avaliações ‘ontológicas’ (referentes ao ser e não ser) onde os grandes são fatalmente empurrados para extrapolar das suas configurações originais enquanto os pequenos e médios são compelidos a confinar-se às segmentações de objetivos e escala. O destino de uma empresa muitas vezes independe dos recursos de que dispõe mas das opções e da hora em que as faz.
Até o Fim da ‘Time’ seria uma trepidante reportagem sobre o mundo da reportagem não fosse o movimento interno do próprio assunto – está mais para um filme sobre o mundo do cinema. Ou da especulação financeira.
É o retrato da vertiginosa metamorfose do império jornalístico Time & Life no gigantesco conglomerado de entretenimento chamado Time Warner Inc. O protagonista deveria ser Henry Robinson Luce, considerado em seu tempo o homem mais poderoso dos EUA depois dos presidentes, jornalista puritano e inovador, filho de um pastor evangélico que passou parte da sua vida na China e, na volta, depois de Yale, concebeu e/ou celebrizou três pilares da imprensa contemporânea – a revista semanal de informações (Time), o quinzenário fotográfico acompanhado de grandes textos (Life) e o mensário refinado sobre economia e negócios (Fortune).
No livro, o legendário Luce é apenas um retrato na parede, lembrança dos velhos e bons tempos. A cena é roubada pelo esfuziante novaiorquino Steven J. Ross, (‘um E.T. com 1,90 de altura’, diz dele o amigo e ex-vizinho Steven Spielberg) e cuja carreira começou na empresa do sogro – agência funerária.
Depois, tal e qual o emblemático personagem hollywoodiano criado por Budd Schulberg What Makes Sammy Run? saltou para o aluguel de limusines, estacionamentos, limpeza de prédios, segurança, construção, revistas em quadrinhos, distribuição em bancas, aluguel de câmaras profissionais de filmagem, banco, livros de bolso, informática, agência de talentos em Hollywood e, finalmente, o sonho dourado, a produção de filmes.
O alucinado conglomerado tinha 160 empresas de prestação de serviços até o momento em que Ross, the Boss, comprou a então decadente Warner e restaurou a sua glória.
A mais conhecida empresa jornalística dos EUA (outro emblema americano desta vez no campo dos distintos) e cujo negócio sempre foi news, notícias e informação – matérias-primas altamente sofisticadas – depois da morte de Luce fez a dramática opção pela verticalização, deu o salto para o alto. Mudou de ramo e de quilate. Seduzida pela miragem da quantidade, abriu mão do selo de qualidade – entrou no negócio do circo.
E no picadeiro valem apenas as leis do picadeiro. Circus Maximus, foi como designaram a fabulosa fusão, operação jurídica, financeira e psicológica alimentada pela fogueira de vaidades e vulcões de cobiça que se acendem por combustão própria quando se juntam o poder da mídia com os cifrões do entretenimento.
Tudo ao som da dança macabra da falta de escrúpulos. Inevitável em jogadas deste porte. Aconteceu de tudo: fulminantes ascensões, humilhantes defenestrações e, sobretudo, comissões e prêmios de milhões de dólares cobrados pelos altos executivos envolvidos na transação e arbitradas pelos próprios sem consulta aos acionistas. Momento supremo do capitalismo sem capitalistas, friforó empresarial à altura de um velho western classe B da própria Warner.
O espetáculo ainda não terminou, continua hoje nas manchetes e, certamente, por muito tempo ainda, porque banquete com tais ingredientes só pode atrair comensais da estirpe de Murdoch, Turner e Mike Milken, o inventor dos junk bonds.
A fusão da Warner com a Time-Life converteu-se num caso clássico de despersonalização empresarial: a empresa adquirida (Warner) dominou os adquirentes (Time). Todos cresceram e todos ficaram um pouco piores. A diversificação incontrolada afetou a matriz, corrompeu a sua griffe e alterou a natureza dos seus produtos.
Se ocorresse no ramo de biscoitos, salsichas ou no funerário as conseqüências seriam limitadas. A General Motors já se aproximou da Volkswagen e, em seguida, se afastou. A Ford já produziu pneus, deixou de produzí-los e isto não afetou a maneira como a sociedade americana era formada e informada. Aqui, o negócio jornalístico (com responsabilidades políticas, função social e garantias constitucionais) foi tragado por um dos assuntos da pauta jornalística. E, seguramente, não o mais puro.
Vale a pena aventurar-se pelos meandros desta história. Algumas das suas consequências breve nos afetarão embora estejamos na outra ponta do processo – graças ao artigo 222 da nossa Constituição, condenados à concentração da mídia em empresas familiares, impossibilitadas de se capitalizar e expandir-se como o fazem seus anunciantes (salvo aquelas que entraram no circuito eletrônico).
Texto ágil (o autor, Richard M. Clurman, do grupo Time-Life, depois do que testemunhou, tornou-se um dos vigilantes dos padrões jornalísticos americanos). O título em português é infeliz, repousa na remissão gráfica ao logotipo da revista e num enorme sub-título. Tradução competente, faltou compatibilizar para o jargão profissional brasileiro alguns termos americanos – editoração, por exemplo, usa-se para o ato de preparação de um texto ou livro, não se aplica à razão social de uma empresa. Um índice remissivo – em geral abominado por nossos editores pelo custo extra – faz falta num livro que além de fascinar será certamente fonte de consulta."
"Todos cresceram e ficaram piores", resenha do livro Até o Fim da ‘Time’ (Sedução e Conquista de um Império da Mídia), de Richard M. Clurman, tradução de Elena Gaidano, Civilização Brasileira, 1996, Rio, 474 pp., copyright Exame, 623, de 20/11/96
Malu Gaspar
"O América Online comprou a Time Warner, num negócio que deverá resultar na maior fusão já registrada até hoje. Depois de cerca de três meses de negociação, o AOL decidiu comprar a Time Warner por US$ 166 bilhões.
O negócio, que vai unir o maior provedor de Internet do mundo e o gigante de mídia Time Warner, dará origem ao maior conglomerado de comunicação do país, a AOL Time Warner, com um valor de mercado avaliado em US$ 350 bilhões.
‘É um momento histórico, um momento em que estaremos transformando a paisagem das comunicações’, afirmou Steve Case, presidente da AOL, que será também o presidente da nova empresa.
Gerald Levin, diretor-executivo da Time Warner, será o diretor-executivo da nova empresa. O negócio ainda precisa ser aprovado pelos órgãos regulatórios norte-americanos e pelos acionistas das empresas. As cifras da fusão anunciada ontem superam os US$ 150 bilhões que a empresa alemã de telecomunicações Mannesman está oferecendo pela companhia de telefonia celular Vodaphone. Também deixam para trás os US$ 122 bilhões que a operadora de longa distância MCI concordou em pagar pela Sprint, sua concorrente, em outubro do ano passado.
Com a compra, o AOL passará a ter 55% do total das ações da nova empresa, e a Time Warner, 45%. Por causa disso, cada acionista da Time Warner terá sua ação comprada por 1,5 vezes o valor. Ontem, o valor das ações da Time Warner dispararam na Bolsa. Subiram até 43%. Já as ações da AOL caíram 1% no pregão de ontem.
Com a compra, o AOL também concordou em assumir uma dívida de US$ 17,8 bilhões da Time Warner. Quando estiver constituída, a nova empresa deverá gerar uma receita de cerca de US$ 40 bilhões anuais. Entre os produtos que a nova empresa irá reunir estão 36 revistas, entre elas a ‘Time’, os canais de TV a cabo CNN, HBO e Warner Group e as marcas Netscape, People e Looney Tunes, além da própria AOL.com e uma série de outros produtos.
Os efeitos da fusão sobre o consumidor foram o assunto do dia no mercado e em todos os meios de comunicação. A maioria dos analistas achava que o negócio seria bom para os consumidores, prevendo acesso mais rápido à Internet, acesso aos canais que são transmitidos a cabo por frequência de bandas largas e uma integração mais rápida entre Internet e TV.
Entre as principais questões levantadas sobre o negócio estava a dúvida sobre se os órgãos jornalísticos que estarão sob a administração do grupo serão capazes de manter a independência quando tratarem de assuntos relacionados ao setor.
De imediato, já foi anunciado que alguns dos canais e revistas da Time Warner terão links entre os sites da AOL. Também passará a ser possível transmitir músicas e clipes que hoje são propriedade da Time Warner pela AOL.
Gerald Levin, que será o diretor-executivo da nova empresa, fez questão de ressaltar durante o anúncio da fusão que a maior preocupação do grupo é com ‘os 120 milhões de leitores das revistas, os 35 milhões de assinantes do HBO e com as 13 milhões de casas’ atingidas pelos cabos da corporação. Já a AOL tem mais de 20 milhões de assinantes.
Novas fusões
O próprio Levin adiantou a expectativa que os analistas de mercado passaram a divulgar durante a tarde: a de que novas fusões do gênero estejam a caminho, movidas pela grande competitividade no setor. (...) Alguns analistas acreditam que o negócio AOL-Time Warner vai obrigar a Yahoo!, por exemplo, a buscar parcerias no mercado de telecomunicações. Justamente por causa disso, os valores das ações das empresas de tecnologia subiram durante todo o dia.
O Nasdaq, índice que reflete o movimento das ações na Bolsa de tecnologia, teve uma alta recorde de 167 pontos, depois de uma semana turbulenta."
"AOL compra Time por US$ 166 bi, copyright Folha de S.Paulo, 11/1/00
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"Para se concretizar, o novo negócio ainda terá de ser avaliado pelas agências de regulamentação FCC (Federal Communications Committee) -a agência do setor de telecomunicações-, pela FTC (Federal Trade Comission, de comércio), ou pela divisão antitruste do Departamento de Justiça dos EUA. O Departamento de Justiça ainda estuda a que comissão deverá remeter a avaliação do negócio, que também depende da aprovação dos acionistas das duas empresas.
Mesmo assim, os órgãos reguladores já deram sinais de que o negócio será aprovado e os próprios presidentes da Time Warner e da AOL declararam que esperam concretizar a fusão no final deste ano.
A aprovação estaria baseada no fato de que, mesmo formando um conglomerado gigante, a nova empresa ainda teria rivais em condições de concorrer.
No entanto, analistas do mercado não descartam a possibilidade de que as agências reguladoras possam colocar algumas condições para aprovar o negócio.
‘É um negócio completamente novo, sobre o qual não há precedentes. Portanto, não consigo prever problemas de regulamentação’, afirmou Gerald Levin, que será o novo diretor-executivo da AOL Time Warner. Entre as condições que poderiam ser colocadas seria a de o conteúdo das revistas e canais do grupo Time Warner estar disponível a outros provedores de Internet.
O processo será apenas mais um na história da Time Warner, que nasceu de uma fusão, em 1990, da Time Inc. com a Warner Inc, avaliada em US$ 15,1 bilhões. Em 1996, a Time Warner comprou a Turner broadcasting, do milionário Ted Turner, por US$ 9,1 bilhões."
"Companhia deve sair até final do ano", copyright Folha de S.Paulo, 11/1/00
The New York Times
"O anúncio de ontem sobre o America Online ter comprado a Time Warner cria as condições para que a mídia tradicional do século 20 dê suas primeiras passadas em direção a um mundo que será dominado pela mídia ligada à Internet nos próximos cem anos.
A Time Warner, que estava se afogando em dívidas no final dos anos 80, construiu uma impressionante estabilidade na imprensa tradicional como nas revistas ‘Time’, ‘Sports Ilustrated’ e ‘People’, nas TVs por assinatura CNN e HBO, no estúdio de cinema e gravadora Warner e emergiu no final do século com vendas mundiais de mais de US$ 12 bilhões.
Mas no entardecer do novo milênio, se tornou parte de uma companhia que tem construído sua reputação na chamada ‘nova mídia’ da era do computador. O diretor-executivo da Time Warner, Gerald Levin, sucessor de Steve Ross, que morreu em 1992, será o presidente da nova AOL Time Warner. O aviso que algo iria mudar estava evidente no ano passado, quando os diretores Bob Daly e Terry Semel deixaram os estúdios Warner Bros depois de 20 anos.
A saída deles levou à transição da Time Warner de uma empresa baseada em entretenimento para uma companhia da era digital e do cabo, escreveu Peter Bart, da revista ‘Variety’. ‘O balanço de poder, que uma vez esteve no escritório de Daly, agora descansa no escritório de Levin, em Nova York’. Sob o comando de Levin, Time Warner poderia se autoproclamar o líder mundial de mídia múltipla (filmes, produções de TV, sistemas de cabo e programação via cabo, como a Turner Entertainment). Ela também possui o time de beisebol Atlanta Braves e o Campeonato Mundial de Luta Livre, muito popular nos EUA.
Quase 50% das vendas são geradas por meio da Warner Bros., que produz e distribui programação com filmes, séries de TV, e fitas de vídeo. Time Warner também administra o maior sistema a cabo dos Estados Unidos, que serve quase 13 milhões de assinantes. O serviço que dispõe, o Home Box Office, é o mais popular da TV paga nos Estados Unidos, que, com a afiliada Cinemax, tem cerca de 35 milhões de assinantes.
Além disso, a Time Warner é dona da ‘The WB Television Network’, que foca em audiências jovens com programas como ‘Dawson's Creek’ e ‘Pokemon’, e tem participação nos canais a cabo ‘Comedy Central’ e ‘Court TV’. Isso tudo está a uma longa distância de 1989, quando Time Inc. e Warner Comunications se fundiram. Para gerar recursos e aumentar os sistemas a cabo, Time Warner Inc. criou TWE em 1992, como uma parceria para englobar a maior parte de sua produção cinematográfica e operações de TV por assinatura.
Agora o problema vai ser jurídico: grandes empresas como a Microsoft estão respondendo por formação de monopólio."
"Time Warner viveu crise nos anos 80", copyright Folha de S.Paulo/The New York Times, 11/1/00
O Globo
"O maior provedor de acesso à Internet do mundo, America Online (AOL), anunciou ontem a compra do grupo Time Warner – líder do setor de comunicação e entretenimento – por US$ 184 bilhões. Será a maior fusão da História e a primeira vez que uma empresa de serviços da Internet absorve um megagrupo de mídia tradicional. A nova empresa valerá cerca de US$ 346 bilhões (cifra calculada com base no valor de mercado da AOL mais o preço oferecido pela Time Warner). A AOL Time Warner deverá fornecer uma variada programação pelo chamado sistema de banda larga, que une TV e Internet, por rede de cabos, entre outros serviços.
O faturamento anual conjunto deverá girar em torno de US$ 30 bilhões. O negócio ainda depende de aprovação do Departamento de Comércio dos EUA, o que deve demorar um ano, mas a AOL Time Warner já nasce como a quarta maior empresa do país, atrás apenas dos gigantes Microsoft, General Electric e Cisco Systems. Em 1999, a America Online acumulou lucros de US$ 762 milhões – quatro vezes os da Time Warner, cujo faturamento foi de US$ 26,8 bilhões, contra US$ 4,8 bilhões da AOL.
Ontem, o anúncio do negócio – que criará um império que vai de revistas, livros, canais por cabo e um dos maiores estúdios de Hollywood ao comércio no ciberespaço – mexeu com os papéis de ambas as empresas. Enquanto os da America Online caíram 1,53%, os da Time Warner ganharam 40% e puxaram a alta das principais bolsas de valores do mundo. Com a valorização, Ted Turner, o principal acionista da Time Warner, ganhou no dia US$ 2,5 bilhões. Pelos termos do acordo firmado ontem, a AOL terá direito a 55% do capital da nova empresa e assumirá US$ 17,8 bilhões em dívidas. Os acionistas da Time Warner receberão 1,5 ação para cada uma que detêm hoje. Os da AOL trocarão seus papéis na proporção de um por um.
O presidente e diretor-executivo do AOL, Steve Case, de 41 anos, será o presidente da nova empresa e seu correspondente na Time Warner, Gerald Levin, será o diretor-executivo.
– As possibilidades são ilimitadas. Nós nos beneficiaremos com a força um do outro – disse Case num comunicado.
Especialistas em legislação antitruste apostam que a fusão será aprovada sem problemas. Atualmente, os grandes grupos de comunicação se movem para ganhar espaço na Internet, enquanto os provedores tentam melhorar o conteúdo de entretenimento em seus sites para atrair usuários. Ontem, especulava-se que outras aquisições do gênero se seguirão e possíveis parceiros incluem GE, Yahoo, CBS-Viacom e o grupo Disney, o segundo maior em comunicação e entretenimento.
– Todos terão que repensar suas estratégias – explicava ontem um analista da PaineWebber, em Nova York.
Um dos grandes alvos da nova empresa deverá ser o acesso conjunto à Internet e TV por cabo, na chamada banda larga. O serviço é cem vezes mais rápido do que as conexões normais, por modem, e espera-se que nove milhões de usuários, só nos EUA, o utilizem em 2003."
"Uma fusão com a cara do futuro", copyright O Globo, 11/1/00
Marcelo Aguiar
"A união de Time Warner e AOL provocou uma disparada nas ações ligadas à Internet e ao entretenimento em todo o mundo. Os investidores saíram em busca de ações de outras empresas que poderão passar por fusões e aquisições parecidas e, com isso, fizeram os preços saltar. A Nasdaq, que concentra ações do setor nos EUA, avançou 4,3%, mesmo depois de ter subido 4,2% na sexta-feira. O Dow Jones, da Bolsa de Nova York, subiu 0,4% e bateu recorde de pontuação, a 11.572 pontos.
A fusão foi recebida como a primeira prova definitiva de que as empresas da Internet têm de fato um papel importante no futuro da economia americana. A disparada das ações do setor nos últimos anos era fruto da estimativa de lucros futuros, mas o momento em que as previsões virariam realidade era adiado.
– É uma validação monumental do setor de Internet. Significa que as empresas são necessárias para o futuro da mídia – disse Barry Hyman, da Ehrenkrantz King Nussbaum, de Nova York.
A venda da Time Warner, maior empresa americana de entretenimento, valorizou todo o setor. As ações da segunda maior, a Disney, subiram nada menos que 15,9%.
– Nós ainda veremos mais dessas fusões – aposta Noah Blackstein, gestor de fundos da Dynamic, de Toronto.
O efeito da fusão contagiou também as bolsas européias. Subiram os principais índices, como o de Londres (1,5%) e o de Frankfurt (2,1%). As empresas de Internet e as de mídia, impulsionadas pela fusão, foram também as que mais pesaram na alta. A Pearson’s, em Londres, teve alta de 15,3%; já a Canal Plus, maior empresa de televisão paga da Europa, deu um salto de 17%."
"Ações de companhias de tecnologia disparam e puxam bolsas de valores", copyright O Globo, 11/1/00
José Meirelles Passos
"Washington – Steve Case era um jovem executivo da PepsiCo. Inc., em 1983, quando decidiu abrir um negócio próprio. Sua função, naquela época, era a de testar novos molhos de pizza para uma subsidiária, a Pizza Hut. Ele, porém, achava que o futuro estava na Internet e acabou, de fato, descobrindo o caminho da mina de ouro.
Ontem, a pequena empresa de serviços online criada por ele e um amigo em 1985 – a Quantum Computer Services, rebatizada como America Online em 1991 – adquiriu a maior empresa de mídia do mundo, a Time Warner. E Case passou a ser o presidente da nova firma, já calculando em fechar este ano com um faturamento de US$ 30 bilhões.
– A fusão da AOL com a Time Warner vai lançar a próxima revolução da Internet –prometeu ele ontem.
Nos últimos 15 anos, Case e seu amigo Jim Kimsey, que passa a ser o executivo-chefe da nova empresa, construíram um mecanismo poderoso: um meio de transmissão de dados, sons e imagens. Ontem, além de expandir esse meio via TV a cabo, eles obtiveram o que faltava: o conteúdo.
O anúncio demonstrou, na prática, o poder que as provedoras de serviços via Internet vêm adquirindo. A AOL, apesar de ser a menor das duas firmas, foi quem fez a aquisição. Ela é a mais lucrativa. Ao deixar a Pizza Hut, Case foi trabalhar na Control Video, que operava um serviço de Internet só para os aficionados dos jogos Atari. A firma fracassou financeiramente. Case contratou Kimsey e ambos a reinventaram: sob o nome de Quantum Computer Services, ela passou a ser um serviço online para usuários de computadores Commodore. Era um simples BBS.
Depois de entrar em outros tipos de computadores, a firma lançou um serviço novo em 1989. Dois anos depois trocou de nome, para America Online, e, no seguinte, começou a vender ações na bolsa (Nasdaq). Diferentemente de várias outras, ela foi lucrativa desde o começo.
Os lucros foram sempre aplicados no desenvolvimento da empresa. E ela, para crescer rapidamente, adquiriu outras do ramo – como a rival Compuserve, em 1998, e a Netscape em 1999. Em 1994, a AOL tinha um milhão de assinantes. Hoje são 22 milhões. Por isso, a aquisição da Time Warner é tida por seus executivos não como o ápice de seu crescimento, mas como a base para algo maior – que Case simplesmente define como ‘uma revolução na mídia’."
"Um ex-vendedor de pizza é o dono da nova empresa", copyright O Globo, 11/1/00
Silvia Faria e Mariângela Gallucci
"O presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Gesner Oliveira, disse ontem que o órgão poderá tomar alguma medida preventiva contra os bancos que oferecem a seus clientes acesso gratuito à Internet, caso haja risco de dano irreversível para as outras provedoras. Falando hipoteticamente, Gesner disse que o Cade poderá determinar às empresas que cessem a prática até que o órgão julgue os processos abertos com base em denúncias de provedores.
Essa tática de aplicar uma medida preventiva é bastante adotada pelo Cade. Em um dos casos mais rumorosos do momento, a fusão entre a Brahma e a Antarctica, o Cade impôs uma série de proibições às empresas. Até que o órgão julgue a operação que resultou na criação da Companhia de Bebidas das Américas (AmBev), as empresas não poderão tomar algumas atitudes que representem mudanças na estrutura do mercado de bebidas. Elas não poderão, por exemplo, demitir funcionários como conseqüência da fusão ou fechar fábricas.
O presidente do Cade disse que, na avaliação do processo sobre o acesso gratuito à Internet, será necessário verificar se o caso envolve concorrência desleal e prática de preços predatórios, condutas que são vedadas pela lei de defesa da concorrência. Mas Gesner Oliveira ressaltou que será preciso analisar se há condições de a empresas prestarem o serviço de acesso à Internet a um custo inferior do cobrado atualmente, entre R$ 20 e R$ 40, o que traria benefícios para os consumidores.
Para exemplificar esse pensamento, ele citou a venda de pães por supermercados a preços inferiores dos cobrados pelas padarias. ‘Para a padaria que funciona perto do supermercado é ruim, mas para o consumidor é bom’, avaliou. Ele ressaltou que nos Estados Unidos o preço cobrado atualmente para o usuário ter acesso à Internet está próximo de zero. Se o Cade concluir que é possível oferecer o serviço a um custo inferior do atual, os provedores que somente oferecem o acesso à Internet terão de apresentar algum diferencial capaz de conquistar os consumidores, concluiu Gesner Oliveira.
Na análise do acesso gratuito à Internet, o Cade também deverá verificar a possibilidade de a oferta pelos bancos do acesso gratuito à Internet provocar a inviabilidade do funcionamento dos outros provedores. O órgão também terá de analisar se, após uma eventual ‘quebra’ dos provedores, os bancos poderiam exercer uma posição de dominação com prejuízos para o mercado e para os consumidores.
Se o Cade concluir que os bancos adotaram práticas contrárias à concorrência, as instituições financeiras podem ser obrigadas a cessar essas condutas e ainda serem multadas em até 30% sobre o seu faturamento. Essa punição financeira está prevista na legislação brasileira de defesa da concorrência."
"Cade pode adotar medida contra Internet grátis", copyright O Estado de S.Paulo, 13/1/00
Folha de S.Paulo
"O superintendente de Serviços Públicos da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), Edmundo Matarazzo, disse ontem [14/1/00] que os bancos podem prover acesso gratuito à Internet, pois não há impedimentos na legislação. ‘Não está acontecendo nada fora da regulamentação’, disse Matarazzo, após se reunir com representantes da Abranet (Associação Brasileira de Provedores de Acesso de Internet) e das operadoras de telefonia, que fornecem a rede de telecomunicações para os bancos proverem o acesso.
Segundo o presidente da Abranet, Antônio Tavares, a associação enviou ontem dois pedidos de consulta, um para a Anatel e outro para o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), questionando a atuação do Bradesco e do Unibanco, dois dos bancos que oferecem o acesso gratuito à Internet a seus clientes.
Os pedidos de consulta não fazem referência ao Ig.com (Internet de Graça), provedor gratuito do Banco Opportunity e GP Investimentos, pois o serviço ainda é muito recente. Tavares afirmou que pretende conseguir do Cade uma liminar para suspender o acesso gratuito. Segundo ele, o serviço oferecido pelos bancos ameaça a ordem econômica e quebrará os provedoras de acesso. ‘Interessa saber se o consumidor sairá ganhando com as promoções que estão em curso’, disse o presidente do Cade, Gesner Oliveira.
A Abranet também quer que a Anatel analise a relação entre os bancos e as operadoras de telefonia, que fornecem a rede de telecomunicações aos bancos. Se for constatado que as operadoras estão fornecendo as redes a preços subsidiados, elas poderão ser punidas. A Telefónica, que vende o serviço de suas redes para o Unibanco e Bradesco, comunicou à Anatel que as condições oferecidas aos bancos para o uso das linhas são as mesmas disponíveis para os provedores, como prevê a lei de telecomunicações, disse Matarazzo."
"Acesso gratuito é legal, afirma Anatel", copyright Folha de S.Paulo, 15/1/00
BALANÇO 1999
36 jornalistas
mortos, 446 detidos (*)
Repórteres Sem Fronteiras
Um total de 36 jornalistas foram mortos durante seu trabalho ou por causa de suas opiniões em 1999, 446 foram presos e 653 atacados ou ameaçados. Um total de 357 mídias foram vítimas de proibições e suspensões. Em 28 de dezembro de 1999, 85 jornalistas estavam na prisão porque haviam tentado desempenhar seu trabalho e informar o público. A liberdade de imprensa é inexistente em aproximadamente 20 países, onde vivem dois bilhões de pessoas. Em 70 outras nações, o respeito pela liberdade de imprensa é incerto.
O número de mortos em 99 foi quase o dobro que em 98, quando morreram 19 profissionais. O crescente número de conflitos armados pelo mundo foi a razão principal para esse aumento. Vinte e oito jornalistas morreram em zonas de guerra: Serra Leoa (10), República Federativa da Iugoslávia (6), Colômbia (6), Tchetchênia (3), Timor Leste (2) e Líbano (1). Em Serra Leoa, rebeldes da Frente de Revolucionária Unida (RUF) organizaram, de 6 a 12 de janeiro, uma operação deliberada para eliminar jornalistas partidários do governo. Nove dos que morreram foram sumariamente executados pelos rebeldes – como Paul Abu Mansaray, editor do diário privado Standard Times. O jornalista de 41 anos estava rezando em uma igreja com sua esposa e suas três crianças quando o RUF entrou para buscá-los e matá-los. Os rebeldes também não hesitaram em assassinar representantes da mídia internacional. Myles Tierney, cameraman da agência de notícias norte-americana Associated Press, foi morto por membros do RUF encobertos por máscara azuis. Soldados da Força de Paz do Oeste Africano (Ecomog) também foram responsáveis por um assassinato. Eles mataram Abdul Juma Jalloh, editor de notícias da revista African Champion porque os soldados suspeitaram que ele fosse rebelde da RUF.
Na Colômbia, seis jornalistas foram assassinados, vítimas de organizações armadas e grupos paramilitares. Este número inclui o humorista Jaime Garzón, uma figura simbólica no jornalismo colombiano e um defensor ardente da paz, morto a tiros por dois homens em uma motocicleta em Bogotá, em 13 de agosto. Em Kosovo, Gabriel Grüner e Volker Krämer, correspondentes especiais da revista alemã Dura, foram assassinados em circunstâncias que ainda são obscuras, logo depois das tropas de paz da ONU terem entrado na província. De acordo com as investigações, eles foram mortos por um grupo de paramilitares que fugiam da província. Em Timor Leste foi aparentemente o exército indonésio que estava por trás do assassinato de dois jornalistas. A recente ofensiva russa na Tchetchênia causou a morte de três repórteres locais. Jornalistas estão ainda alvo de grupos extremistas no Sri Lanka (3), Índia (1) e na Turquia (1). Na Nigéria, três jornalistas foram mortos enquanto cobriam choques entre diferentes grupos étnicos.
85 jornalistas encarcerados
O número de jornalistas encarcerados caiu ligeiramente em 99. Um total de 85 estava na prisão em 28 de dezembro de 1999, enquanto 93 jornalistas estavam presos na mesma data em 98. Mas estes números não refletem necessariamente a verdade sobre a repressão em alguns países. Na República Democrática do Congo, 40 jornalistas foram presos em celas solitárias pelo serviço de segurança durante 1999, mas apenas três ainda estavam atrás das grades no fim do ano. Desde que Laurent-Désiré Kabila chegou ao poder em 1997, mais ou menos 100 jornalistas foram encarcerados por pequenos ou longos períodos. Em Cuba, 46 jornalistas foram detidos ou presos durante 1999 – alguns deles várias vezes – mas só quatro estavam ainda na prisão no fim do ano. A situação é semelhante na Turquia, onde pelo menos 19 jornalistas viram as celas das prisões do país por dentro em 1999 e 87 outros foram detidos.
No fim de 1999, o país com o maior número de jornalistas presos era Myanma, no sudeste asiático, onde 13 estão presos, Síria (10), China (9) e a Etiópia (9). Nas prisões da Myanma e da Síria, jornalistas estão sujeitos a tratamento degradante e nem sempre recebem tratamento médico. A jornalista birmanesa San San Nweh, vencedora do prêmio francês de 1999 da Fundação Repórteres Sem Fronteiras, está presa desde 94. Ela está sofrendo de doenças de fígado e problemas de visão. Amigos e familiares que tentam enviar comida e medicamentos são ameaçados por agentes do serviço secreto. O jornalista sírio Nizar Nayyuf, sentenciado a dez anos de prisão, está sofrendo efeitos da tortura, como paralisia, infecções de pele e hemorragia. Ele tem também câncer e as autoridades se recusaram a lhe fornecer o tratamento. Na Turquia, país candidato para integrar a União Européia, quatro jornalistas foram torturados por funcionários do Estado. Dentre eles inclui-se Aydogan Inal, do semanal Hêvi, pró-curdo. Depois de despi-lo, forçá-lo a cantar o hino nacional turco e pulverizá-lo com água quase congelada, seus torturadores o golpearam nos testículos e tentaram sufocá-lo. Vinte e seis jornalistas foram atacados na Turquia em 1999. Apesar de alguns passos positivos tomados pelas autoridades, inclusive uma anistia que permitiu a sete jornalistas deixarem a prisão, a Turquia ainda tem um longo caminho para percorrer até atingir os padrões europeus de liberdade de imprensa.
Jornalistas ainda são vítimas de maus tratos na África Subsaariana. Na República de Democrática do Congo, agentes do serviço de segurança chicotearam jornalistas, com o número de chibatadas sendo "proporcional a sua idade e peso", segundo as próprias palavras dos torturadores. Em Serra Leoa, muitos jornalistas têm sido maltratados e até torturados por membros do RUF. Mustapha Sesay, repórter do Standard Times, foi torturado sob acusação de ser um espião do governo. Ele foi violentamente espancado por membros do RUF, que cegaram um de seus olhos com machetes.
34 jornalistas seqüestrados
O número crescente de conflitos armados mundiais resultou também em uma onda de seqüestro de jornalistas: 34 foram tomados como reféns em 1999. Em Serra Leoa, o RUF deteve 15 jornalistas, inclusive Khalifu Fofanah, editor do quinzenal Pioneer, que foi ameaçado de morte se não trabalhasse para os rebeldes. Na Colômbia, 16 jornalistas foram seqüestrados e então soltos por vários grupos armados. Na Tchetchênia, onde o seqüestro de jornalistas adquiriu o status de indústria, três jornalistas ainda estão presos por quadrilhas armadas que exigem muito dinheiro por seu resgates. Um deles, o fotógrafo francês Brice Fleutiaux, capturado em 1o de outubro, está sendo mantido em um porão e sendo provavelmente mal tratado. Mais ou menos 20 jornalistas foram seqüestrados no Cáucaso desde 1997. Lutas e pressões das autoridades em alguns países forçaram jornalistas ao exílio. Em 1999, nove jornalistas colombianos tiveram que deixar seu país por causa das ameaças de paramilitares, enquanto quatro cubanos decidiram deixar a ilha por causa de maus tratos ininterruptos de agentes do Estado. Pelo menos dez jornalistas africanos em países como Camarões e a República Democrática do Congo se exilaram por temerem por suas vidas.
A declaração de estado de guerra ou emergência é freqüentemente um pretexto utilizado pelos governos para restringirem a liberdade de imprensa. Na Iugoslávia de Slobodan Milosevic, a mídia independente era forçada a seguir uma linha editorial que sustentava o "patriotismo" e a resistência sérvia contra a OTAN. O assassinato de Slavko Curuvija, editor de um diário independente, que foi acusado de "traição" pelo governo, serviu como um aviso para aqueles que resistiam em concordar com Milosevic. No Sri Lanka o exército impôs uma censura rígida nas notícias sobre zonas de conflito no norte do país. Muitos jornalistas foram condenados na República Democrática do Congo por "revelar segredos oficiais" ou "atacar a integridade territorial". Na Angola, jornalistas são sistematicamente hostilizados pelo exército quando publicam matérias sobre áreas do controle da Unita. Desde que a ofensiva do exército russo na Tchechênia começou, as autoridades freqüentemente acusam membros da mídia internacional de trabalharem como agentes de inteligência para os poderes ocidentais.
Inimigos da internet
Além de censura militar, muitos países castigam também ofensas como a "publicação informações falsas" e o "insulto ao Estado" com prisões. Em outros países, governos processam sistematicamente jornalistas por calúnia como um modo de sufocar a liberdade de imprensa. Esse é o caso de muitos países africanos e de alguns países da Europa, particularmente a Croácia e o Belarus. Os governos de muitos países ainda mantém o controle do rádio e da televisão, mídias que são consideradas as de maior impacto na opinião pública. Cerca de 75 nações têm o monopólio em radiodifusão e 45 delas tentaram pôr também um freio na revolução das comunicações, restringindo acesso de seus cidadãos à internet. No fim de 1999, vinte países poderiam ser considerados como "inimigos da internet", inclusive a Birmânia, Cuba, Tunísia e o Vietnã. Seus governos controlam um ou mais provedores de acesso à rede, instalam filtros que bloqueiam o acesso a websites considerados inadequados e castigam severamente usuários que tentam encontrar modos de se desviar destes obstáculos para proporcionar fluxo livre de informações. Dois usuários chineses, Lin Hai e Qi Yanchen, foram presos por "subversão" porque eles tentaram alertar, por meio da internet, a opinião pública internacional para violações de direitos humanos em seu país.
(*) Copyright Reporters sans frontières, 28/12/99
5, rue Geoffroy Marie - 75009 Paris France – Tél : (33) 1 44 83 84 84 – Fax : (33) 1 45 23 11 51 # E-mail: rsf@rsf.fr # ULR: http://www.rsf.fr

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