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MÍDIA VS. CRIANÇAS
Como ser explorado
desde criancinha

Vera Silva (*)

 

Uma amiga estava indignada com o Raul Gil pela exploração da ingenuidade das crianças pequenas no seu programa de sábado na TV. Ela não podia admitir que se fizesse crianças pequenas rebolarem eroticamente ao som dos novos pagodes.

Compartilhei com ela a indignação e resolvi observar melhor a TV. Não era apenas o Raul Gil: até a Hebe Camargo entrevistava criança de 4 anos, perguntando-lhe se tinha namorado!!!!

A propaganda na TV durante o dia é dedicada a vender todo o tipo de bugiganga para as crianças. São propagandas que pedem "peça para a mamãe ligar para 0900..."; ou que mandam "dê danoninho para o seu filho crescer inteligente", enquanto um pobre menino faz macaquices para que a mãe lhe dê iogurte. Ou ainda, espantem-se, uma professora que diz a uma criança "você melhorou muito, dessa vez não foi o papai que fez o dever para você", e uma voz de fundo que diz que comprando o jornal tal você ganha um suplemento e aprende mais, para não cometer erros no dever do filho.

Aí resolvi olhar o que acontecia nos jornais. Tragédia: toda vez que se queria ênfase, põe uma criança aí gente. A coisa está tão séria que a ombudsman da Folha (13/6/99, pág.. 1-6) criticou o jornal por isto: usar fotos de criança para acentuar problemas, sem explicar o contexto em que os fatos ocorrem.

Então, as crianças viraram a bola da vez? Não contentes em nos tornar consumidores em vez de cidadãos, resolvemos ensinar desde o berço aos nossos infantes a consumirem por consumir, mesmo que isso os torne doentes. O Correio Braziliense (13/6/99) fala de uma pobre criança de 3 anos que fez duas cirurgias sérias de abdômen pelo excesso de ingestão de salgadinhos de pacote!!!

Caramba, a ética foi mesmo para o espaço. Tratamos uma criança em idade de desenvolvimento como se fosse um adulto em miniatura. Tal qual nos primórdios da humanidade. Um retrocesso em educação para favorecer a mídia.

Assim, antes de estar em pleno gozo do uso de seu raciocínio, a criança é exposta a escolhas que ela não pode ajuizar por falta de elementos e de experiência. Acostumamos a criança a substituir o raciocínio pelo comando da mídia: o que é bom é aquilo que se diz que é bom; emoção é algo que se bebe e que se veste. Passamos a ensinar a criança que aquilo que é consumido é sempre melhor do que aquilo que é vivido: não são os sonhos que impulsionam o ser humano, o que nos impulsiona é o consumo.

Querem mais? Sexo também é consumo: se você dança na boquinha da garrafa, mexendo bem a bundinha, você vai conseguir um parceiro que lhe dará muito prazer. Se você mostrar muito o seu corpo, começar a namorar bem cedo e tiver muitos namorado(a)s, com certeza será muito feliz, porque ser criança e fazer coisas de criança é para bobocas; gente inteligente está sempre procurando se superar.

Ah, esqueci do mais importante. Tenha filhos bem cedo, porque isso é sinal de maturidade. Mesmo que você não saiba o que fazer com eles, nem para eles, o governo decerto saberá. Ou os seus pais: afinal, eles adoram ter netos para dizer que cumpriram bem sua missão de pais.

E a mídia, onde ela entra? Ora, onde é que vocês acham que ela (ou ele?) vai arranjar um exército de miseráveis para convencer você de que quem consome é cidadão do primeiro mundo?

(*) Psicóloga

 

‘Júri’ da Folhinha
‘inocenta’ Jason

Spacca (*)

 

Saiu um artigo na Folhinha, suplemento infantil da Folha de S.Paulo, sobre o lançamento do boneco Jason, inspirado na série de filmes de terror Sexta-Feira 13. É comum o suplemento divulgar novos brinquedos, parques temáticos e outros produtos. Existe mesmo uma seção chamada "shopping" destinada a isso. Nesse caso, o boneco psicopata mereceu matéria, encabeçada pela vinheta Polêmica. Com isto, já se anuncia que a Folhinha não está apenas divulgando um brinquedo, mas trazendo ao leitor inteligente e maduro um choque de opiniões, visando formar a geração democrática de amanhã desde as fraldas.

Porém, já no título o veredicto está dado: "Boneco Jason é inofensivo". E o articulista (que conheço e é um cara leve e divertido), depois de dizer que muita gente ia chiar por causa da suposta má influência sobre a petizada, conclui: "Isso é bobagem. Esses alunos que vão para a escola dar tiros nos outros têm problemas sérios, são doentes. Ninguém sai matando os outros porque viu filme de terror".

Esta é uma afirmação taxativa e inconseqüente. Qual o psicólogo que pode afirmar, sem medo de errar, que o banho de sangue a que as crianças são submetidas diariamente não deixará seqüelas de diversos tipos, ainda que não gere necessariamente clones do Jason? Que educador sério seria capaz de dizer que "um brinquedo é apenas um brinquedo", e não um instrumento simbólico poderoso?

Psicopata de plástico

Se é uma "polêmica" (e não acredito que o leitor da Folhinha esteja preparado para julgar por si só se deve ou não comprar um boneco assassino), o artigo não a apresenta como tal. A vinheta acaba servindo apenas como apelo publicitário para o monstrinho, que "já está nas lojas e custa R$ 45".

A Folha (cujas regras gerais a Folhinha apenas aplica) teria três alternativas de posicionar-se frente ao boneco Jason:

a) Não divulgar – porque propaganda não é notícia, e pior ainda se apimentada com o rótulo de polêmica.

b) Divulgar sem comentários – porque informar lançamento de produtos é serviço.

c) Divulgar contextualizando.

O jornal optou pela última. Divulgou, definiu quem são os chatos que chiam e quem são as crianças inteligentes que sabem que "aquele sangue todo é só tinta vermelha".

Nem vou entrar na questão, mais terrível e abrangente, de se criar, vender e divulgar um psicopata de brinquedo (que, segundo o jornalista, não é mais violento do que o Taz, personagem que subiu de coadjuvante dos filmes do Pernalonga a estrela de primeira grandeza, o que não deixa de carregar a marca sombria dos novos tempos).

Considerando apenas o aspecto jornalístico, observo que:

1) publicou-se apenas um lado de uma suposta polêmica;

2) fez-se afirmações levianas sobre comportamento infantil sem consulta a especialistas;

3) o leitor infantil está sendo equiparado ao leitor adulto do resto do jornal.

Não que as crianças se limitem à Folhinha; elas devem dar uma olhada nos quadrinhos da Ilustrada e na barbárie de Los Tres Amigos, no Folhateen. Mas penso que um jornal infantil deveria seguir uma linha editorial diferenciada (considerando que seus leitores-mirins são o que são, isto é, crianças e seres humanos em formação) e assumir algum tipo de responsabilidade por seu conteúdo. Não dá para escrever artigos feitos por gente sensata para gente sensata, e fingir que só as crianças "inteligentes" vão ler o jornal. Quem tem nas mãos um instrumento educativo poderoso não pode se dar ao luxo de escolher o caminho fácil de não contrariar o leitorzinho, de bancar o permissivo simpático que deixa a criança escolher à vontade entre o psicopata de plástico e o boneco do Ratinho.

Talvez, no fundo, o título esteja certo. Vai ver o boneco Jason é inofensivo mesmo. De tão corrompido o universo de entretenimento que cerca a criança, não vai ser um reles monstrengo que vai piorar as coisas...

(*) Chargista

 

IMPRENSA NA ESCOLA
O jornal como
material educativo

Antonio Alberto Trindade (*)

 

A utilização do jornal na escola não é algo novo. Com os programas "Jornal na Educação", porém, esta prática tem se transformado de informal e eventual em permanente e sistemática. Empresas jornalísticas distribuem jornais nas escolas (assinatura ou encalhe) e orientam os professores sobre como utilizar o material em sala de aula. No Brasil, há 28 jornais desenvolvendo programas desse tipo em 13 estados e no Distrito Federal. Anualmente são atingidos 2,2 milhões de alunos, em 6.500 escolas do ensino fundamental e ensino médio das redes pública (municipal e estadual) e privada.

Esta realidade motivou nossa pesquisa sobre o tema e neste artigo pretendo expor de forma sintética algumas das reflexões que apresentei como dissertação de mestrado no programa de Ciências Sociais da PUC-SP. O trabalho foi desenvolvido a partir da análise do programa "Folha Educação", do jornal Folha de S.Paulo, mas traz reflexões que nos possibilitam pensar e analisar qualquer programa do gênero.

A finalidade da educação escolar tem sido, cada vez mais, pensada para além dos parâmetros representados pelo conjunto dos conhecimentos sistematizados que, na escola, são apresentados aos educandos a partir de livros didáticos e paradidáticos. As rápidas evoluções no campo da ciência e a intenção de "formar" cidadãos têm introduzido no espaço escolar o debate sobre a necessidade de encontrar e (ou) desenvolver novos materiais pedagógicos e metodologias que ofereçam possibilidades mais amplas de colocar o educando em contato com a realidade de seu tempo; neste sentido, o jornal impresso começa a ganhar peso.

Como meio de informação, o jornal pode proporcionar ao leitor a cobertura de assuntos dos campos mais variados do conhecimento, e isto ocorre sem que o veículo busque corresponder a qualquer intenção educativa ou pedagógica. O fato é que sua forma mesma propicia àquele que o utiliza uma gama de assuntos abordados a partir de diversos recursos de comunicação, o que favorece o desenvolvimento de trabalho educativo numa perspectiva interdisciplinar – algo que, cada dia mais, é entendido como necessidade. A linguagem jornalística pode garantir lances de inovação na forma como o conhecimento sistematizado é abordado na escola, e o jornal, utilizado de maneira adequada, traz para o universo do aluno a informação organizada, algo fundamental para o uso significativo desta. O jornal também contribui para introduzir conteúdos novos na escola, com matérias que possibilitam exercitar com informação atual – algo que tem se revelado estimulante – muito daquilo que é trabalhado como conteúdo do currículo escolar. Trabalhar com o jornal pode favorecer a que o leitor/estudante entenda as vantagens de fazer uso permanente desse material, que lhe possibilita informar-se, conhecer o percurso e o desdobramento dos fatos e acompanhar as diversas leituras, intenções e ações que se desenvolvem sobre determinada questão. Essas são algumas das conclusões a que chegamos e que nos dão a segurança de afirmar que o jornal é válido como material pedagógico.

Exigência social

Certamente o leitor deve estar se perguntando: não estaria a questão da validade ou não do jornal como material educativo vinculada à qualidade e característica editorial do produto jornalístico? E a questão ideológica? Como pode o jornal ser um material pedagógico se, entre suas intenções, está a de formar opinião? Os programas "Jornal na Educação" desenvolvem um trabalho de qualidade? O jornal deve modificar-se em algum sentido para servir como material pedagógico?

Utilizando o jornal de maneira crítica, professores e alunos podem encontrar maneiras bastante fecundas de desenvolver processos educativos amplos, que tragam para a reflexão cotidiana da sala de aula, dos corredores e das ruas os elementos da realidade que encontram pouco espaço na escola. O que é oferecido pelas diversas empresas editoriais pode ser conhecido, consumido e criticado, positiva ou negativamente, sendo que, para tanto, o consumidor deve dispor – e aqui entra a escola – de seu método de análise para que possa submeter a ele os diversos materiais. É este método, que carrega sua visão de mundo e sua capacidade de compreensão e reflexão, o que lhe dá base para fazer sua crítica. O exercício de apropriar-se dos diversos conteúdos expressos nos jornais, fazendo a leitura crítica do material, é perfeitamente desejável do ponto de vista educativo. Dessa forma, podemos afirmar que todos os jornais servem como material educativo, independentemente do que publicam.

O jornal, além de opiniões próprias (da equipe editorial), veicula matérias de investigação e grande quantidade de informação que lhe chega, dado seu status de instituição cujo papel na sociedade é o de levar os fatos ao conhecimento do público. Divulgar o que quer que seja em jornal é uma atitude cultural e este produto é reconhecido culturalmente como veículo de informação. O fato de os diferentes jornais defenderem posições e interesses na sociedade nos mostra que o produto jornal representa, ele próprio, um instrumento no campo das disputas pela hegemonia. No entanto, os mais diversos grupos sociais entendem a importância de tornar públicas idéias, defesas, críticas e denúncias e, desta forma, todos buscam espaço nos jornais, mesmo tendo clareza de que isso não se dá em condições de igualdade.

Cabe dizer que o debate sobre a credibilidade dos meios de comunicação assume dimensões cada vez mais amplas e profundas. A exigência social por imparcialidade no tratamento dos fatos tem um peso político e cultural que se expressa no esforço da imprensa em ser reconhecida em sua função de informar, de gerar o debate, de esclarecer. Ainda que se possa fazer uso ideológico do jornal – algo que também pode ser feito com os conteúdos dos livros didáticos –, não se pode dizer que esse produto cultural é instrumento ideológico.

Ampliar o público

Se, por um lado, podemos afirmar que o jornal serve como material educativo, não havendo nada que possa desqualificá-lo em comparação a outros materiais conhecidos e utilizados na escola, por outro devemos dizer que ainda é bastante incipiente o acúmulo das empresas jornalísticas no que se refere aos resultados pedagógicos dos programas "Jornal na Educação". A estrutura dos programas – ao menos os brasileiros – pode ser considerada relativamente simples, sem grandes custos para o jornal, sem muito investimento na formação dos professores que deverão trabalhar com o jornal em sala de aula, e sem um acompanhamento mais rigoroso dos resultados gerais das iniciativas.

Assim como todos os materiais e práticas pedagógicas da escola são alvo de permanente avaliação, também deve ser o trabalho com jornal. É fundamental o acompanhamento dos efeitos e resultados do uso desse material na escola; e, se a empresa jornalística ainda não tem acúmulos nesta área, pode contar com as experiências dos profissionais das escolas que, certamente, muito têm a dizer sobre o uso de recursos pedagógicos de diferentes tipos. Dessa forma, o jornal, antes de ser proposto como válido, importante e adequado, como ocorre hoje, deve ser proposto como objeto a ser usado e avaliado. Não será possível às empresas jornalísticas, contudo, sensibilizar professores e alunos para o uso significativo do jornal na sala de aula se a proposta não lhes puder ser apresentada – principalmente aos professores – pela via da reflexão pedagógica e filosófica, o campo das concepções de educação. Não basta apresentar aos professores cadernos com sugestões de atividades, pois estes pouco oferecem além de modelos.

Se há interesse das empresas jornalísticas em colocar o jornal na escola, devem estar sensíveis à dinâmica do mundo da educação e abertas a mudanças e reformulações em seus produtos e propostas, em benefício da estruturação desse tipo de interferência. O jornal pode dedicar-se a elevar o nível cultural do público; sua união com o leitor pode ser pensada a partir de uma relação que traga benefícios mútuos. Os leitores, que são para o jornal "elementos econômicos, capazes de adquirir as publicações e de fazê-las adquirir por outros", devem receber em troca algo de que têm necessidade. O trabalho do jornal, neste sentido, está em identificar tais necessidades e corresponder a elas. O retorno deverá ser o desenvolvimento do leitor e a conquista e a ampliação do público do jornal.

Os programas "Jornal na Educação" devem ser elaborados mediante profunda reflexão, por parte dos organizadores/coordenadores do jornal, sobre educação – algo que parece não ocorrer satisfatoriamente. Além disso, é fundamental que os programas sejam assistidos por profissionais dos vários setores do jornal, e não apenas por aqueles ligados ao setor de marketing, como ocorre na maioria dos programas. É imprescindível, também, criar espaço para que professores reflitam com as empresas jornalísticas as melhores maneiras de utilizar o produto em sala de aula.

(*) Mestre em Ciências Sociais e integrante do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da PUC/SP



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