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TVs PÚBLICAS
Crítica, participação e mediação
(*)

 

Alberto Dines

(*) Íntegra de conferência "Crítica e participação: a TV pública como mediadora do interesse público", proferida pelo editor do Observatório da Imprensa no seminário "Modelos de televisón pública en el siglo 21", promovido pela Universidade Internacional Menéndez Pelayo, em Pontevedra (Galícia), Espanha, de 13 a 17 de setembro de 1999.

Quero começar com algumas vinhetas. A primeira delas trata justamente de como se começa uma intervenção, palestra ou conferência. E como os norte-americanos inventam tudo, eles também conceberam uma maneira de iniciar uma preleção. Trata-se do opening joke, o chiste inicial. Eternas crianças, acreditam que uma anedota preliminar é infalível para garantir o êxito do que vai ser dito em seguida.

O meu opening joke é apenas um gracejo e tem a ver com o idioma que escolhi para vos falar. É um caso verdadeiro. Quase 30 anos atrás eu era o editor-chefe do Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro, e tínhamos um colega, excelente redator, grande expert do folclore brasileiro. Conhecia a cultura nativa mas não falava qualquer idioma estrangeiro, sequer entendia espanhol. Como era um empedernido celibatário, não tinha coragem de sozinho viajar ao exterior. Um dia, de repente, pediu férias e desapareceu. Quando voltou, uma surpresa: feliz, sorridente, mostrou o seu grande feito – percorrera a Europa inteira de trem. Impossível, não acreditamos... Então ele mostrou fotografias. Efetivamente, nosso companheiro estivera em Paris, Londres, Berlim e, pasmem, chegou até Moscou! Foi um alvoroço na redação. Então lhe perguntamos como é que ele, que não conhecia qualquer outro idioma conseguira viajar durante um mês inteiro pela Europa e, ainda mais, desacompanhado. Com um ar superior, onisciente e irônico, olhou-nos todos e respondeu: "Foi muito simples", disse. "Todos me entendiam em português, bastava que eu falasse BEM ALTO e bem de-va-gar."

É exatamente isso que pretendo fazer para que me entendam perfeitamente: falarei alto e muy despacio. O espanhol e o galego são idiomas tão belos e tão sonoros que não ouso danificá-los com o meu portunhol. E quando tiverem dúvidas, por favor interrompam – falarei ainda mais alto e muito mais devagar.

Ainda nesta coleção de vinhetas quero dizer-vos quão honrado me sinto em participar de um evento organizado pela Universidade Internacional Menéndez Pelayo. Neste momento, quando tanto se fala em globalização e mundialização mas tão pouco se faz pela efetiva aproximação dos espíritos e pela solidariedade, a figura e a obra de Marcelino Menéndez y Pelayo impõem-se como paradigmas do verdadeiro internacionalismo. O cosmopolita legítimo é um humanista e o humanismo constrói-se com refinamento cultural, com sentido ético, com devoção à tolerância e, sobretudo, com compromisso com a liberdade. Sua monumental História de los heterodóxos españoles foi decisiva para a minha formação como investigador da Inquisição portuguesa nos anos em que vivi em Lisboa.

E inspirado em Pelayo ouso afirmar bem alto e despacio para que todos me entendam: nós, jornalistas, ou somos humanistas ou somos falsos jornalistas. E com base nessa afirmação menciono o caso de Timor Oriental para, aos poucos, acercar-me do tema que me trouxe até aqui.

O caso de Timor é um caso de estudo não apenas sobre a barbárie e a violência etno-religiosa. É também um caso de estudo sobre a negligência da mídia em acompanhar e denunciar a violação dos direitos humanos num mundo cada vez menor.

Noam Chomsky, o famoso lingüista-don quixote, foi um dos primeiros a defender o povo maubere. Chomsky é um dos mais implacáveis críticos do jornalismo mercantilista. Quando a Indonésia ainda era considerada como um dos flamantes tigres asiáticos e Suharto era respeitado como autor do seu milagre econômico, Chomsky repetia: "Por causa de vocês, jornalistas, ninguém sabe o que realmente se passa em Timor". Agora, infelizmente, todos sabemos o que se passa em Timor Oriental. Porque nos últimos dez ou doze anos, com exceção de alguns poucos como Max Stahl e John Pilger, o sistema mediático internacional foi complacente com a Indonésia. E omisso com a desgraça do Timor Oriental.

Estamos aqui para refletir sobre os caminhos e oportunidades que se abrem para a TV Pública. Mas não podemos fazê-lo sem antes analisar as deficiências do sistema mediático nesta Era da Informação. Quando uso o neologismo de origem francesa "sistema mediático" estou generalizando por um motivo principal que é a própria definição da palavra sistema:

Sistema é uma "disposição das partes ou dos elementos de um todo, coordenados entre si, e que funcionam como estrutura organizada". Gostaria de acrescentar que essa coordenação das partes ou elementos de um sistema pode ser imanente, espontânea. O sistema mediático não é uma conspiração mundial para dominar os corações ou mentes. Ele articulou-se de forma natural em decorrência das circunstâncias do momento.

Não vamos aqui entrar em detalhes de como e porque organizou-se este sistema mediático. Vamos tomá-lo como uma premissa visível e concreta, fato consumado. O sistema existe em função de uma realidade econômica que favorece a concentração e de uma realidade político-cultural que não favorece a criação de alternativas.

Se não há tempo para examinar com mais detalhes os mecanismos que permitiram o florescimento deste tipo de sistema, podemos perfeitamente examinar sua principal conseqüência: a substituição da sociedade pelos mercados.

O fenômeno é grave. Aquelas entidades permanentes que os pensadores alemães do século passado chamaram de Gesellshaft e que, posteriormente, foi entendida também como Gemeinshaft, comunidade, hoje foram trocadas por fluxos voláteis, muitas vezes artificiais que receberam o nome genérico de Mercado, Market, Marché, Markt. Não estamos aqui para ignorar as forças econômicas, nem revogar as leis que as condicionam. Mas não podemos esquecer os seguintes dados:

  • A Sociedade deve ser maior do que os mercados.
  • A Sociedade é permanente. Os mercados são fluídos.
  • A Sociedade é democrática e autônoma. Os mercados são controlados.
  • Mercado é constituído por consumidores enquanto a Sociedade é constituída por Cidadãos.
  • Mercado pode desviar e comprometer os reais interesses da Sociedade.

Quais os resultados dessa substituição da sociedade pelos Mercados nos meios de comunicação? São muitos, fixo-me em três:

1) A banalização. Quando digo banalização ou frivolização não me refiro apenas ao culto do fait-divers ou a fixação na vida privada das celebridades. Banalização de tudo. Refiro-me em especial à banalização da violência a um ponto tal que a própria violência passa despercebida; banalização de valores (exemplo: nunca se falou tanto em ética e nunca ela foi tão menosprezada); banalização de palavras a ponto delas perderem o seu valor intrínseco (exemplo: o ressentimento contra o neoliberalismo econômico acabou por criar um sentimento contra o liberalismo político, esse que permitiu o triunfo da democracia);

2) Segundo resultado: a fragmentação e descontinuidade. A competição e a exagerada dramatização do noticiário estão desenvolvendo atitudes e procedimentos jornalísticos que impedem o acompanhamento de fatos ou fenômenos até o seu desfecho. A cobertura está voltada para o inesperado – a falsa novidade. Com isso, produz-se um jornalismo superficial e incompleto. Estamos narrando histórias sem epílogos, inconclusas. Nada chega ao fim, nada se define ou se esclarece. A superposição de tantas informações incompletas cria no público uma frustração, sensação de que o mundo não funciona, as leis não servem e o ser humano inconfiável.

Este gênero de jornalismo fragmentado e fragmentário não estabelece referências, não produz conhecimento. Não é o fim do milênio que está gerando a sensação de vazio e nihilismo. Responsável por um certo clima apocalíptico é a Civilização dos Espasmos, errática, construída com promessas que não se cumprem, de novidades que não se confirmam, de satisfações não satisfeitas. A mídia e aqueles que a controlam – o marketing e os grupos de pressão – têm grande parte das responsabilidades.

O jornalismo converteu-se numa sucessão de flashes, seja nos meios impressos como eletrônicos. Aliás, não há diferenças porque os meios impressos esmeram-se em reproduzir as normas dos meios eletrônicos. Textos curtos, subdivididos, acabam por fraturar qualquer episódio ou acontecimento. Os diários e as revistas parecem que são escritos por quem não gosta de escrever. E por isso são concebidos para quem não gosta de ler. Estamos desprezando as remissões e a contextualização. Estamos entronizando o zapping como um estilo de vida e opção espiritual.

3) Terceiro resultado: o nivelamento por baixo. A busca de escala e de grandes audiências leva necessariamente a uma perda da qualidade. O alinhamento faz-se por baixo tomando como paradigma os níveis inferiores. Não se busca aumentar os padrões de exigência. Todos apostam na incapacidade do ser humano de buscar o aperfeiçoamento.

Se duvidam, comparem uma edição de hoje com outra do mesmo veículo de dez anos atrás. Verão as diferenças sem grande esforço. É um bom exercício para os estudantes de jornalismo, para os pesquisadores de comunicação e os sociólogos. Essa desqualificação uniforme é a melhor demonstração de que existe um sistema, espontâneo, sem comando, mas perseverante, contínuo. Essa desqualificação do padrão periodístico não é irrelevante, tem um preço social muito grande. Por sujeitar-se aos mercados, o sistema prejudica a sociedade e ao prejudicar a sociedade termina por afetar o próprio mercado.

A esta altura, imagino, as senhoras e os senhores estão me considerado um tipo jurássico que abomina o lucro e defende a presença do Estado nos meios de comunicação. Nada mais falso. O lucro é legítimo, o lucro permite a expansão, o lucro permite a inovação. O diário novaiorquino The New York Times é um modelo de excelência e uma das empresas jornalísticas mais lucrativas dos Estados Unidos. Também não acredito na presença do Estado como patrão da informação. O Estado pode e deve informar, comunicar-se e prestar contas. Mas o Estado não deve ser detentor de meios de informação. Também acredito na competição e na concorrência.

Mas não posso esquecer e ninguém pode esquecer que, nas democracias, o exercício da atividade jornalística é protegido e garantido em diversos capítulos das Constituições. Na verdade, é a única atividade comercial que goza de tais privilégios legais. Por essa razão, o negócio do jornalismo deve oferecer contrapartidas à sociedade que lhe deu tantas vantagens.

Tratar informação como mercadoria e o público como simples consumidor é ignorar o status especial que as constituições democráticas oferecem às empresas que estão no negócio da informação.

Nesta mesma ordem de idéias é preciso levar em conta que todas as emissoras de radiodifusão ou de televisão são de certa maneira públicas porque são concessões oferecidas pelo Estado em nome da sociedade a grupos privados que a elas se habilitaram. Os canais de televisão e de rádio operados por empresas comerciais pertencem à Sociedade e oferecidos como empréstimo. Aqueles que foram credenciados para explorá-los devem estar comprometidos claramente em beneficiar a Sociedade. E se esquecerem desses benefícios à Sociedade devem ser severamente castigados.

A esta altura cabe explicitar algumas palavras contidas no título desta intervenção – "Crítica y participación: la TV Pública como mediadora del interés público".

Nós, operários das palavras, precisamos aprender ou reaprender os seus verdadeiros significados e sentidos. O jornalista não precisa ser necessariamente um filólogo ou etimologista. Mas conviria que estivesse mais atento ao valor da sua matéria-prima essencial. Portanto vamos tentar uma rápida exegese das palavras "crítica", "participação", "pública" "mediação" e "interesse público".

Crítica. Minha definição preferida de jornalismo diz que é a busca das circunstâncias para chegar à verdade. Não podemos ter a pretensão, nem a arrogância de sermos os donos da verdade. Somos, sim, humildes buscadores da verdade. Essa busca incessante da verdade é uma tarefa permanente, o que Kant chamou de missão interminável, Die Unendliche Aufgabe.

E uma das ferramentas para buscar a verdade é a crítica. É preciso não confundir crítica com denúncia e indignação. Crítica não é sinônimo de falar mal de algo ou alguém. Um dos primeiros dicionaristas portugueses, Antônio Moraes e Silva, no fim do século 18 disse que "crítica é a arte de discernir o verdadeiro do falso". Critério vem do grego kritikós. E como Crise vem do latim criticu, fica estabelecida uma relação entre Crítica, Critério e Crise.

A crítica é, portanto, uma forma de buscar a verdade. É inseparável da atitude jornalística. E assim tem sido nos últimos duzentos anos.

Pergunta-se: então por que não temos ainda institucionalizada a crítica da atividade jornalística como temos uma crítica política, uma crítica ideológica e uma crítica cultural? No Brasil apenas dois, eu disse dois, diários apresentam publicamente os Defensores do Leitor ou Ombudsman. Um dos diários é editado em São Paulo, um dos maiores jornais do país, e o outro, de porte médio, editado no Ceará, no nordeste brasileiro . Há muitos Ombudsman internos, domésticos, mas cujas avaliações não chegam ao conhecimento dos leitores.

Essa é uma situação irregular, insatisfatória, porque o leitor-cidadão tem o direito de conhecer não apenas as erratas factuais ou ortográficas mas, sobretudo, os desvirtuamentos proporcionados pelo sistema mediático.

Se apenas dois diários brasileiros têm a figura do Defensor do Leitor, por outro lado, dois grandes jornais apresentam diariamente sondagens telefônicas para mostrar os índices de aprovação dos leitores. Um deles no Rio e outro em São Paulo. São talvez os maiores e mais influentes diários do país.

Sob ponto de vista estatístico, sem juízos de valor, temos dois jornais admitindo a autocrítica e dois outros praticando o auto-aplauso e ostentando os seus méritos. O resto é silêncio, como diria Hamlet.

Ora, se estamos efetivamente na Era da Informação e se os meios de comunicação de massa desempenham um papel tão importante na formação das mentalidades e da cultura, a crítica da mídia não deveria estar confinada à esfera acadêmica. Ela deve integrar-se ao cotidiano.

O jornalismo deveria ser matéria jornalística permanente, de todos os dias, como aliás acontece no já citado The New York Times. Hoje, tornou-se imperioso noticiar não apenas os fatos como a maneira com que estes fatos são noticiados. As exceções ficam por conta das catástrofes naturais. E se o jornalista não adquire uma visão critica do seu métier não terá condições de exercê-lo de forma eficaz.

Exemplo da importância da mentalidade crítica dentro do jornalismo foi o debate ocorrido há dois anos nas duas escolas de jornalismo da cidade de Nova York. Ao discutir a filosofia do novo currículo acadêmico, tanto a Columbia University como a New York University colocaram para o seu corpo docente a seguinte questão: deve uma escola de jornalismo preocupar-se estritamente em formar profissionais capazes de contar uma história? Ou, além disso, devem esses profissionais também desenvolver um espírito crítico sobre a própria atividade? Obviamente venceu a tese de que o bom jornalista será aquele que, além de cumprir com as suas tarefas cotidianas, desenvolveu um olhar crítico capaz de melhorar as condições em que esse trabalho é exercido.

Aqui reside uma das obrigações da TV Pública: se a crítica ao jornalismo é inexistente na TV comercial e se ela é praticamente clandestina na mídia impressa, cabe à TV Pública ocupar esta lacuna. É seu diferencial mas é também uma oportunidade de mostrar a sua utilidade. Sua indispensabilidade.

Mas por que é obrigação da TV Pública estimular o debate sobre o comportamento dos meios de comunicação? Em primeiro lugar porque a TV Pública deve funcionar como alternativa à TV comercial. Em segundo lugar, porque o jornalismo não concerne apenas aos jornalistas, o jornalismo concerne a todos os cidadãos e à Sociedade. O jornalismo está ligado ao bem-estar da Sociedade.

Aqui deixamos a palavra "crítica" para nos aproximar da segunda palavra do título: participação. Permito-me utilizar um axioma apresentado por um cientista social brasileiro, hoje famoso em todo o mundo porque, por coincidência, também é Presidente da República. Há quatro anos e meio, quando assumiu o cargo, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso disse: "Não importa a dimensão do Estado, importa o grau de participação da cidadania". Pessoalmente concordo com a afirmação mas considero que o seu governo não conseguiu ampliar o grau e os espaços de participação.

Partindo das afirmações de que o grau de participação da cidadania é crucial no Estado moderno e de que a crítica ao jornalismo concerne à toda sociedade, pergunto: como pode a cidadania participar do debate crítico sobre os meios de comunicação? Bastaria enviar cartas à Redação?

Alguns setores da sociedade brasileira estão reclamando um "controle social" da TV comercial, outros pedem regulamentos mais rigorosos, nós oferecemos uma alternativa complementar: a observação.

Partimos em primeiro lugar da expressão inglesa media watching, a observação da mídia. Mas como fundamento fomos buscar dois postulados científicos:

** O primeiro postulado afirma que o enunciado correto de um problema já contém a sua solução.

** O segundo postulado diz que a simples observação de um fenômeno é uma forma de intervenção neste fenômeno.

Acreditamos que a simples exposição e discussão das disfunções dos meios de comunicação de massa contribuirá tanto para aumentar o grau de participação como para corrigir os seus rumos. Acreditamos na controvérsia. Ela é o motor das transformações, das mudanças. Porque é pública, a controvérsia é uma forma de estimular a participação.

Assim como o jornalista deve ser um cético diante do que se apresenta diante dele, é imperioso que o público seja igualmente cético diante do sistema mediático. Em outras palavras, para a própria sobrevivência do jornalismo é necessário que o público seja estimulado a duvidar daquilo que lhe apresentam como definitivo ou verdadeiro.

Por esta razão adotamos como nossa divisa a seguinte frase: "Você nunca mais lerá jornal do mesmo jeito". Se o cidadão duvida do que lê, ouve ou vê, os responsáveis pela emissão ou publicação das informações passarão a ser mais cautelosos. Buscarão a verdade com menos pressa e muito mais cuidados.

Em dezembro de 1968, durante a ditadura, na noite em que os militares entraram pela primeira vez na redação do Jornal do Brasil para iniciar um sistema de censura prévia, decidimos que seria fundamental mostrar já no dia seguinte que algo de anormal estava acontecendo. Nosso pacto com os leitores, nossa fidelidade aos leitores nos obrigava a alertá-los para não acreditar em nosso diário porque estava sendo manipulado pelos censores. Creio que o conseguimos.

Agora, vivemos num mundo que se democratiza. O perigo das tiranias políticas passou. Mas apareceram outros perigos. A grande ameaça já não é a censura militar ou a manipulação política e econômica. Não há mais intimidação. Mas deveria persistir na Sociedade uma atitude preventiva, uma vigilância em relação a um sistema que transforma informação em mercadoria e, com isso, corrompe a própria natureza do ato de informar.

A terceira palavra a examinar no título é pública.

Em meu pais, ainda há quem não saiba discernir "estatal" de "público". São noções completamente diferentes embora empregadas ambiguamente. Uma TV estatal não é pública, assim como uma TV pública não é estatal.

Os estudiosos hoje propõem a divisão do Estado moderno em três esferas: a esfera privada, a esfera estatal e, entre elas, a esfera pública. Este Terceiro Setor compreende as organizações não-governamentais, as entidades representativas e as chamadas Organizações Sociais que são entidades que podem receber apoio da esfera estatal ou privada mas são geridos de forma autônoma em benefício da comunidade. Quanto mais diferenciadas ficarem estas três esferas, mais democrática e participativa será a nossa sociedade.

A quarta palavra é mediadora. Todos sabemos que "meio" vem do latim medium e do seu plural media. Mas conviria refletir nossa relação funcional com estes vocábulos. Nossa função consiste em fazer a mediação entre uma realidade mutante e a sociedade com seus interesses permanentes. Somos intermediários. Mais ainda: somos agentes polinizadores e transformadores. O colibri (que chamamos de beija-flor) transporta o pólen – a informação – transferindo conhecimento.

Como mediadores e transportadores devemos ter cautelas. O material que buscamos nas fontes e entregamos àqueles que dele carecem é frágil, extremamente sensível, pode sofrer alterações substanciais em nossas mãos e que mudarão o seu teor. Uma frase indevidamente dramatizada pode ter o seu sentido subvertido. Uma informação sem um mínimo de contextualização converte-se em outra informação, às vezes conflitante. A pressa em sermos os primeiros subverte nossa obrigação de buscar e investigar. A ansiedade em encontrar culpados nos leva a emitir pré-julgamentos e incorrer em pré-juízos.

A mediação pressupõe um funcionamento nos dois sentidos. Levar e trazer. Levamos ao público as informações de que carece para a tomada de decisões ou formação de juízos. Mas também devemos trazer do público aquilo que tem a nos informar – seu estado de espírito, seu ânimo, suas realizações. Essa via dupla tem funcionado precariamente porque em geral as mensagens da sociedade chegam através de sondagens e amostragens estatísticas pouco claras, em geral falaciosas. O verdadeiro mediador precisa acautelar-se contra a ilusão dos plebiscitos e referendos.

A quinta palavra do título é a expressão interesse público. É preciso não confundir "interesse público" com "interesse do público". O público, enquanto audiência, pode interessar-se por algo sedutor e atraente que lhe está sendo oferecido. O ser humano gosta do que lhe é pernicioso, É o caso da violência, da vulgaridade, da pornografia. Mas o eventual interesse manifestado pelo público com relação a assuntos sensacionalistas ou frívolos não consagra tais assuntos como de efetivo interesse público.

A dicotomia entre "interesse público" e "interesse do público" tende a aumentar nos veículos dominados pela opção mercantilista. O sistema mediático, por sua própria natureza, está basicamente vocacionado para atender ao interesse do público.

Essa dicotomia não deve existir na TV Pública. Sua função consiste exatamente em mesclar o interesse do público com o bem comum. Esse é um desafio edificante e construtivo para um novo gênero de jornalismo que poderíamos chamar de jornalismo cívico.

Até agora, tomei o vosso tempo com avaliações conceituais que, certamente, já conheciam. Deixei para o fim o que me parece ser mais útil: transmitir a nossa experiência no Observatório da Imprensa. Contar as peripécias do nosso percurso e, quem sabe, estimular o aparecimento de experiências mais bem sucedidas. Serei breve.

No ano de 1994 vivia eu em Lisboa mas já me preparava para regressar a meu país. Sugeri ao reitor de uma das melhores universidades públicas do Brasil, a Unicamp, a criação de um centro de estudos sobre jornalismo. Como a Universidade não possuía nenhum curso de comunicação ou jornalismo, achei interessante oferecer um caminho alternativo.

Com a entusiástica ajuda do reitor Carlos Vogt, criamos então o LabJor, Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo com a finalidade de atuar em três direções:

** Dentro da Universidade com cursos de extensão, especialização e pós-graduação.

** Junto ao ambiente profissional com cursos de treinamento e reciclagem.

** Junto a sociedade para estimulá-la a não ficar passiva.

Por uma extraordinária coincidência, poucos meses depois fui convidado por um prestigioso grupo de jornalistas portugueses a participar de um projeto assemelhado em Lisboa. Contei-lhes o que já estava sendo feito em Campinas e, em vez de Laboratório de Jornalismo, sugeriram a criação de um Observatório da Imprensa. Achei essa designação extraordinária porque a palavra "observação" era de capital importância ideológica.

Voltei definitivamente ao Brasil em 1995 e começamos a atuar nas duas frentes: dentro da universidade com seminários e cursos de extensão, junto ao mercado com programas de treinamento, inclusive para professores de jornalismo de outras universidades. Faltava a terceira frente, a atuação junto à sociedade. Foi então que criamos o nosso Observatório da Imprensa, com a devida autorização dos companheiros portugueses.

Começamos na Internet. E por que na Internet ? Porque a rede mundial de computadores não exige investimentos e porque é altamente participativa ou interativa.

Em abril de 1996 iniciamos nosso site Observatório da Imprensa, a princípio sem periodicidade. Depois percebemos a necessidade de adotar prazos e ritmos para estabelecer um convívio regular com os nossos leitores. Adotamos a periodicidade quinzenal. Nos dias 5 e 20 de cada mês, exceto no fim do ano e no Carnaval, entramos na rede com uma edição inteiramente nova. Em agosto do mesmo ano transferimos o nosso ‘site’ para o maior provedor brasileiro, o Universo Online, o que nos deu enorme visibilidade.

Graças a um espírito crítico levado às últimas conseqüências e, sobretudo, porque combinamos participação e interatividade, em pouco tempo passamos a contar com um grande número de colaboradores. E também de leitores. Hoje temos 17 mil acessos diários.

Curiosamente, a maioria dos 50 ou 60 colaboradores de cada edição não são profissionais de comunicação ou jornalismo, mas cidadãos que se interessam pelo assunto e querem manifestar-se sobre ele. Muitos alunos e professores de jornalismo também colaboram, já que existem quase 100 escolas de jornalismo e comunicação no país. Qualquer cidadão, devidamente identificado, pode colaborar desde que o seu texto seja pertinente ao projeto – discutir a mídia.

Tal foi o sucesso do nosso site que a TV Educativa do Rio de Janeiro nos convidou a traduzir a experiência da Internet para a TV. E em maio de 1998 começamos o Observatório da Imprensa televisivo. Em seguida, passou a ser retransmitido, ao vivo, pela TV Cultura de São Paulo e para as 20 outras emissoras educativas ou universitárias do resto país.

Algumas palavras sobre o formato: o programa não é um talk show, é um programa jornalístico sobre jornalismo. Temos reportagens, entrevistas e sobretudo debates. Sou o apresentador junto com a colega Lúcia Abreu, muito bonita e muito experiente, mas temos, no mínimo, quatro outros observadores simultâneos em diferentes regiões do país: um conosco no Rio, outro em São Paulo, um terceiro em Brasília e o quarto ponto é rotativo, entre Porto Alegre, Belo Horizonte ou Fortaleza.

O publico participa através do telefone, fax ou e-mails. Temos um "posto avançado" numa escola de jornalismo do Rio, onde um aluno ou aluna participa pela Internet com som e imagem (sistema webcam). Breve, pretendemos ampliar esse tipo de participação com imagem via Internet na medida em que melhore a qualidade técnica da transmissão por fibra ótica ou cabo.

Nosso site na Internet beneficiou-se enormemente do similar na TV. Aumentou a exposição e aumentou a participação porque lá publicamos todas as manifestações que chegam ao estúdio e lá pode-se assistir a compactos de oito minutos de todos os 74 programas já realizados.

Além disso, através da versão on-line pode-se assistir ao programa inteiro, ao vivo, de qualquer parte do mundo. Entrementes começamos também uma edição impressa, mensal, com uma síntese de duas edições quinzenais. É patrocinada pela Xerox – que evidentemente acredita, como nós, na sobrevivência do papel e da informação impressa. São quase três mil exemplares que distribuímos gratuitamente.

O site tem hoje três banners publicitários, todos da iniciativa privada, sendo que um deles, o maior, é da Telefónica espanhola, recém-chegada ao Brasil e cuja departamento de marketing percebeu a oportunidade de ser vista nas redações dos principais meios de comunicação do país.

Importante registrar que temos tratado com freqüência da privatização da telefonia no Brasil e criticado as relações entre as diversas telefônicas e os meios de comunicação do país. Jamais sofremos qualquer tipo de restrição ou pressão por parte da Telefónica ou das duas outras empresas anunciantes, a Volkswagen e a Brasmotor.

Mas é forçoso reconhecer que temos dificuldades com alguns jornais e jornalistas que não admitem críticas aos seus comportamentos e continuam se considerando acima do bem e do mal. Esse é um dado importante que precisa ser levado em conta por aqueles que pretendem aventurar-se pelos caminhos da crítica da mídia. Haverá sempre dificuldades com os veículos jornalísticos, sobretudo com os maiores, sempre mais arrogantes e mais prepotentes porque jamais tiveram seus comportamentos discutidos, criticados e contestados em público.

Aviso aos candidatos a críticos da mídia: a imprensa é implacável quando vê ameaçada sua credibilidade. E seu poder.

Também é preciso prevenir-se contra o espírito corporativo. As associações de empresas jornalística ou de radiodifusão, assim como os sindicatos ou federações de jornalistas ainda não se acostumaram com o instituto da crítica independente, autônoma. Sinal de que ainda não estão sintonizados com o interesse público.

Embora o media criticism, a crítica à mídia, tenha começado nos Estados Unidos logo após o caso Watergate, não havia, até onde eu saiba, um programa de televisão como o Observatório da Imprensa. Há poucos meses começou no PBS, a TV Pública americana, no prestigioso canal 13 de Nova York, um programa semanal denominado Media Matters, um jogo de palavras que pode tanto significar "assuntos sobre a mídia" como "a mídia é importante". Realizado com o brilho e a competência que caracteriza a TV americana, não é apresentado ao vivo e por isso não tem debates nem participação da sociedade.

A TV Educativa do Rio de Janeiro, que iniciou o programa Observatório da Imprensa, era uma televisão estatal subvencionada pelo governo federal. Há um ano transformou-se em Organização Social, onde parte dos recursos vêm do Estado mas a outra parte do setor privado. A TV Cultura de São Paulo é uma fundação estatal no âmbito regional, mas também a caminho de tornar-se autonôma. As grades de programação não eram integradas, nosso programa foi o primeiro a fazer a ponte entre os esses dois pólos. A partir de 27 de setembro, diversos programas serão apresentados ao vivo com participação simultânea. Será o início formal da Rede Pública de TV brasileira.

Uma palavra ainda sobre os inventores do nome. O Observatório da Imprensa do Brasil e o de Portugal são entidades homônimas e fraternas, intimamente vinculadas, embora com atividades ligeiramente diferenciadas. Já organizamos em conjunto três congressos internacionais de jornalismo de língua portuguesa. Um no Rio, outro em Lisboa e recentemente em Macau. Em todos tivemos representantes de Timor Leste.

O próximo congresso será no Recife, em maio do ano 2000, a propósito dos 500 anos do Descobrimento. Recife está apenas a seis horas de vôo de Lisboa. Nesse congresso pretendemos lançar a idéia de uma Rede Mundial de Observatórios da Imprensa. Esperamos que os companheiros de Galícia estejam presentes.

Comecei com uma série de vinhetas e termino com uma nota pessoal. Comecei falando alto e devagar e agora que já nos entendemos posso fazer uma confissão. E como toda confissão tenho que fazê-la em voz baixa. Creiam-me: apesar dos pequenos dissabores e apesar do desconforto de criticar os desvios na própria profissão, a tarefa de observar a imprensa é uma contribuição decisiva para que o jornalismo continue sendo considerado a última profissão romântica.

 

MÍDIA vs. CIDADÃO
Os sem-privacidade

 

Vera Silva (*)

Na TV uma reportagem informava sobre um mutirão da Secretaria de Saúde para prevenir o câncer de colo do útero. A repórter, com o consentimento das mulheres e do corpo médico, mostrava exames, entrevistava examinadas e médicas com muita competência. As mulheres falavam de sua vergonha com o exame e das dificuldades que tinham para fazer este tipo de exame na rede pública. As médicas falavam da importância da detecção precoce do câncer. Tudo muito dentro dos critérios jornalísticos atuais para os serviços públicos.

Mas chamou-me a atenção a maneira desrespeitosa de expor a intimidade das mulheres da classe pobre, perguntando-lhes sobre os sintomas ginecológicos e sobre como foi o exame. Mais estranho ainda me pareceu a repórter permanecer na sala de exame, enquanto rosto, tronco e pernas da mulher examinada eram focalizados pela câmera.

Ora, o fato de uma Secretaria de Saúde se preocupar com a saúde da mulher é notícia e notícia boa, uma vez que o câncer de colo do útero, quando detectado a tempo, é curável. Contudo, não me parece que, por causa disto, as usuárias dos serviços públicos de saúde tenham que se expor na TV, mostrando seus medos e doenças, numa espécie de propaganda do grande serviço que lhes está sendo prestado.

Pode expor que é de graça

Ultimamente tenho observado várias reportagens e anúncios institucionais com este formato de entrevista. Parece que a privacidade das pessoas está condicionada ao fato de se poder pagar por ela. Quem usa os serviços públicos gratuitos (?) não teria direito à privacidade. Em outras palavras, seria considerado garoto(a) propaganda do governo, para mostrar o quanto o governo se preocupa com os pobres.

A privacidade é o direito de manter aquilo que é particular ao abrigo da curiosidade pública, e deriva da percepção de que somos indivíduos únicos. É desenvolvida a partir da noção de que nossas ações íntimas integram um contexto particular que somente possui sentido para nós e para as pessoas da nossa intimidade. Isto inclui nossa saúde, nossos pensamentos mais íntimos, nossos afetos e nossos ódios. O limite desta individualidade é a individualidade do outro.

A TV moderna inverteu as coisas e está propagando a idéia de que toda e qualquer pergunta deve ser respondida. Paga bem a quem, entre artistas e colunáveis, se dispõe a responder a qualquer pergunta sobre si mesmo e sobre os que convivem com ele. Treina as crianças a responderem sobre seus mais íntimos desejos, expondo-as a outras crianças que fazem isto na TV.

Somente as pessoas que foram treinadas a preservar sua intimidade, selecionando o que querem contar aos outros, conseguem se livrar deste gigantesco jogo da verdade. Um jogo que esconde a incapacidade para o diálogo, para a discussão de idéias. As pessoas treinadas em não responder a qualquer pergunta pertencem à classe média alta e à elite, não é mesmo? Isto é resultado de a privacidade ser um privilégio da elite dirigente.

Um mundo que não nos retrata

Este jogo do evita-diálogo esconde uma guerra contra a individualização da pessoa humana. Falando tudo a todos nos tornamos públicos, cópia mediada pela mídia, cidadão-mídia, massa. Nosso pensar e nosso fazer passam a ser iguais, guiados pelo pensar daqueles que nos dizem o que fazer, o que sentir, o que gozar.

Estamos caminhando para um mundo cheio de palavras vazias, que surgem do nada, a propósito do nada, e que vão para o nada. Não têm significado para quem fala, não refletem o pensamento de quem fala, não interagem, não resultam em idéias.

Com a ajuda da mídia e do mercado (afinal, quem paga a mídia?), vamos rapidamente chegar ao mundo dos sem-ação. Vamos sendo tangidos para onde querem que vamos e, para que isto ocorra, nos tiram as palavras, que geram idéias, que levam à ação.

Em vez de nos tornarmos pessoas, estamos nos tornando massa.

(*) Psicóloga



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