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DOSSIÊ ELEIÇÕES
Reflexão inútil para um receituário fútil
Carlos Vogt

s eleições 98, o comportamento dos políticos, dos institutos de pesquisa de opinião, da imprensa e da mídia, mas sobretudo o modo como a população atuou ao votar num candidato, nulo ou branco, e ao não votar, com números de abstenção muito grandes (quase 20%), enfim, o dia nacional da cidadania trouxe pano pra manga ao processo de compreensão e entendimento do difícil tecido político e cultural da sociedade brasileira.
Uma das marcas dessa sociedade, decorrente dos tempos coloniais e, em especial, da estrutura econômica escravista, que se estendeu até fins do século XIX, é a aversão das classes dominantes ao trabalho e, mais especificamente, ao trabalho manual. O binômio escravidão/latifúndio engendrou a predominância da vida rural, uma "monarquia tutelar", do ponto de vista político, uma economia, além de escravista, monocultora e um ethos social fundado na cordialidade.
Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, publicado em 1936, depois de Casa Grande & Senzala (1933) de Gilberto Freyre, consolida entre nós a abertura do grande ciclo de busca intelectual das razões e das causas econômicas, políticas e culturais responsáveis pelo insucesso do Brasil, se comparado a grandes nações, como os Estados Unidos. A herança ibérica que conformou o nosso caráter, contrastando uma ética do trabalho a uma ética da aventura, a "plasticidade social do português" que permitiu uma interação intensa entre o colonizador e o colonizado, são aspectos fundamentais da cultura brasileira e do sentimento poderoso de insatisfação que germina no país em relação aos destinos da República. Levam, em conseqüência, a todo um esforço de compreensão histórico-social das raízes de um malogro, que se contrapõe à ilusão de modernidade e de contemporaneidade internacional que se segue à Abolição da Escravatura em 1888 e à Proclamação da República, no ano seguinte.
Abre-se, assim, na história do país, um ciclo de estudos voltado para a nossa formação, incluindo aí aqueles traços próprios da formação cultural portuguesa e que permaneceram essenciais para a interpretação da formação da cultura brasileira.
São inúmeras as obras que incluem em seu próprio título o termo formação e todas elas, até hoje, de leitura indispensável para o estudo e o entendimento da história e da sociedade brasileiras. Em ordem cronológica: Casa Grande & Senzala: Formação da Família Patriarcal Brasileira (1933), de Gilberto Freyre; Formação do Brasil Contemporâneo (1942), de Caio Prado Jr.; Formação Histórica de São Paulo (De Comunidade a Metrópole) (1954), de Richard Morse; Formação da Literatura Brasileira (1957), de Antônio Cândido; Formação Econômica do Brasil (1958), de Celso Furtado; Os Donos do Poder: Formação do Patriarcado Nacional (1959), de Raimundo Faoro; Formação Histórica do Brasil (1962), de Nelson Werneck Sodré; Formação Política do Brasil (1967), de Paula Beiguelman; A Formação do Federalismo no Brasil (1961), de Oliveira Torres.
Sob diferentes pontos de vista, este esforço intelectual de "ajuste de contas" com o passado, em muitos casos, resultou positivo e, em tantos outros, foi atropelado pela dinâmica das transformações mundiais que, gestadas na e pela Segunda Grande Guerra, tiveram seu florescimento retardado pelo longo período da Guerra Fria, mas que acabaram irrompendo como um cataclismo de mudanças, cujo marco emblemático é a queda do muro de Berlim, no final dos anos oitenta.
A nova ordem da economia mundial, sob a égide neoliberal da globalização, impõe aos países a abertura total de fronteiras para o livre trânsito das unidades de capital.
A América Latina, em particular Brasil e Argentina, insiste no percurso da contramão: mediante o processo conhecido como o de substituição das importações, o Brasil, dentro de uma longa tradição nacionalista luta para não ser dependente dos países mais desenvolvidos, rejeita o chamado "modelo exportador" e resiste a integrar-se no processo de globalização. A teoria da dependência, entre outros fatores, reforça as trincheiras da resistência.
Mas a partir dos anos 90, os ventos das mudanças escancaram de fora as portas e janelas que se queriam trancadas para dentro: a abertura da economia às importações, a estabilização da moeda, com a criação do Real, para poder concorrer ao fluxo de investimentos internacionais, o estímulo à entrada de investimentos diretos, voltados para o mercado mundial abrem definitivamente o Brasil para as condições de plataforma de produção dentro do cenário globalizado das relações do capital.
O esforço passa a ser, então, o de colocar-se à altura dos novos desafios e ao mesmo tempo superar todo o legado de problemas sociais que se acumularam ao longo de nossa história. Duros desafios, árdua tarefa.
Não só pela urgência - e dificuldades em grau correspondente - em mudar as estruturas institucionais do país para adequá-las às necessidades imperiosas criadas pela nova ordem econômica, como também pelas enormes diferenças e contrastes que continuam a caracterizar a sociedade brasileira e pelo alto custo social que a adequação do país a essa nova ordem requer.
De certo modo, o neoliberalismo instrumentaliza o conceito de democracia que, nesse sentido, vê também reduzido o conceito de liberdade que lhe é constitutivo: a liberdade é antes de tudo a liberdade de circulação financeira.
O mundo globalizado é o mundo informado, da revolução tecnológica. É um mundo difuso, porque difundido.
Na base de toda essa construção está a tecnologia, em particular, as tecnologias da informação, o que reverte até mesmo o papel do conhecimento no processo de produção. Ao binômio capital/trabalho substitui-se a tríade capital/trabalho/conhecimento que, na verdade, introduz e justifica um novo e particular conceito de conhecimento: o do conhecimento útil.
Converge-se, desse modo, para um mundo não só globalizado mas cuja essência filosófica é a do pragmatismo e o desafio dessa pragmática mundializada é que a tornemos ética e social sobretudo aqueles que, humanistas, acreditamos na universalidade do homem e que temos de conviver com a globalidade da máquina e de seu protagonista mais espetacular, o computador pessoal e suas ações de informatização no quadro geral das tecnologias da informação.
Como? e para quê? são questões próprias da ética. O pragmatismo ético e social deverá procurar respondê-las com pertinentes verdades. No mínimo, deverá formular perguntas pertinazes e verossimilhantes.
O computador é a máquina universal que emula o homem. A universalidade do homem impõe a oposição com o local, o regional e funda o próprio conceito de nacionalidade e de diferenças culturais entre nações.
A universalidade da máquina funda a globalidade dos padrões culturais e anula, ao menos para efeito dos fins que almeja, as diferenças nacionais, criando a utopia asséptica da igualdade de oportunidades pela democratização do acesso à informação.
Os modernismos terminaram e com eles as utopias ideológicas com suas vanguardas programáticas, desgarradas e visionárias na propulsão e propalação de verdades revolucionárias, sejam elas políticas, sociais ou estéticas.
A embocadura desses rios não é de geografia fácil e tampouco seus acidentes são banais.
Os processos de transformação por que passa o Brasil nesses quase 500 anos de seu descobrimento têm a complexidade intrincada de um mundo que se conhece pelo conjunto de relações que dele se fizeram ao longo desse percurso de meio milênio de existência descoberta; têm, por outra parte, a intrigante rede de relações com uma nova ordem mundial, que ainda não se revelou de todo, encoberta.
A pós-modernidade, que nos apresenta e representa a modernidade como um estado de farsa realista que se diz virtualmente moderno, acentua, por exemplo, um conceito de arte que a associa antes à ética do que à estética.
Como? e para quê?, já foi dito, são questões que a ética deve responder com pertinentes verdades.
O Brasil, desde a Abolição da Escravatura e da Proclamação da República, passou por diferentes representações no cenário das relações internacionais: aspirou integrar o conceito das nações, foi país de terceiro mundo, subdesenvolvido, país em desenvolvimento e, hoje, perfila-se entre os chamados de economia emergente.
Para emergir efetivamente é preciso, além de resolver os graves problemas sociais que permanecem e se agigantam, estrutural e conjunturalmente, no país, jogar à altura a competitividade que o xadrez das relações globalizadas impõe.
Do ciclo das formações do Brasil compreendeu-se um país formado com deformações sociais que é urgente sanar: elas têm cura e o remédio é antes de tudo ético e político.
Do país informado pelas novas tecnologias espera-se a formação de um Brasil quite definitivamente com seu passado monárquico e colonial, pronto para os ajustes finos de suas estruturas institucionais e culturais, sintonizadas de vez com o conhecimento, a educação, as artes, a ciência, a tecnologia, a ética e a justiça social.
É para esse amplo fenômeno de mudança que a nossa imprensa e a nossa mídia precisam atentar, sobretudo nesse momento em que o país entra de vez para o clube dos acordados com o FMI, reelege pela primeira vez um presidente, e as eleições, apesar dos mal-entendidos tecnológicos, judiciários, partidários e "pesquisatórios", também pela primeira vez, transcorrem como um ritual de mudança normal na vida democrática.
As eleições deixam de ser, a cada ocorrência, um novo ritual de fundação da democracia, que, por isso, se abala, nasce e morre a cada quatro anos. Não há quem agüente. Fundada a democracia, é preciso vivê-la e deixar que ela viva.
Longe de chochas, as eleições foram o que devem ser: rituais integrados de mudança. A mídia e a imprensa bem que tentaram, com a coadjuvância dos institutos de pesquisa de opinião, transformá-las em espetáculo. Não deu. Este sim é que foi chocho, sem sal, nem pimenta.
Muito além (ou aquém?) da cidadania
Fábio Metzger

ual o significado de um voto na cultura política brasileira? O que o direito de escolha do cidadão brasileiro proporciona à democracia? Tomadas em conjunto, essas duas perguntas são apenas uma questão que transcende as eleições deste ano. Tudo se resume em uma dúvida: o futuro de nossa nação.
Em retrospecto, não somente estas eleições como as anteriores vêm apontando uma tendência: ao mesmo tempo em que práticas políticas populistas se consolidam no cenário político nacional, timidamente o coronelismo está se desestruturando como fonte de poder. Em outras palavras, enquanto as antigas elites políticas são vencidas pelo tempo e pela história, as novas herdam os traços culturais de nosso passado político, mudando apenas os cenários.
Pois, se a esperança de muita gente era que capitalismo e industrialização ‘engolissem’ as forças do coronelismo, e em conseqüência disso o país entrasse em nova era de modernidade, a realidade é que a cultura política brasileira encontra limites na falta de participação do cidadão comum. Este, por sua vez, está descrente da classe política dominante. Se não se sente representado, tampouco procura alternativas de se fazer aparecer como setor da sociedade. Ou seja, apesar de amadurecido como votante, o eleitor brasileiro ainda não é um cidadão.
A classe política brasileira, como qualquer outra, só é funcional a partir de pressões externas. E, para que estas se dêem, são necessários amplos canais de manifestação. Com poucas instituições independentes e canais escassos, por muitas vezes atrelados a interesses específicos de determinadas elites, a cidadania do brasileiro se restringe ao voto e a crises circunstanciais, como a atual.
Tudo isso reflete uma realidade: a sociedade brasileira (e nesse conceito incluem-se as elites, as classes médias, o povo e o não-povo) é incompetente para realizar mudanças sociais. E mesmo na crise, quando o futuro precisa ser ao menos garantido, é que, em nome de privilégios dos quais ninguém pretende abrir mão, saúde, educação e moradia são cortados como investimentos. Isso se reflete nos governos, nos desgovernos e nas nossas eleições.
Na falta de perspectivas, cresce o poder dos marqueteiros de decidir pleitos que deveriam, a bem da verdade, se basear no bom e velho debate democrático. Tudo virou imagem. O verdadeiro conteúdo da discussão em relação a um bom ou um mau governo está sendo deixado de lado.
Assim, o eleitor, aos poucos, e sem muita eficiência, vem dando o seu recado. As bancadas dos partidos ideológicos vêm crescendo, devagar e sempre. Contudo, os agrupamentos de conveniência continuam a exercer sua hegemonia. Ao longo das décadas, rádios e jornais ganharam a concorrência da TV e da Internet: se o populismo deixou de ser o nacionalismo do tipo "O petróleo é nosso!" de Getúlio Vargas, ele passou a se transfigurar no marketing político que ‘vende produtos’ de Paulo Maluf.
Mas como na sociedade o eterno e o estático não existem de fato, nada como jogar o jogo democrático!
ASPAS
Victor Gentilli (*)
"Normalmente, os momentos pós-eleitorais são dedicados às avaliações dos resultados e às análises sobre o novo desenho da conjuntura nacional. Este ano tem sido um pouco diferente. Esse debate prevalece, mas não é o único. Paralelamente a ele discute-se o papel da mídia e o desempenho e a importância dos institutos de pesquisa.
O problema da imprensa pode ser visto de dois ângulos. Primeiro, a primeira eleição com reeleição sem desincompatibilização resultou num excesso de exposição do presidente-candidato Fernando Henrique Cardoso em relação aos demais candidatos. A grande imprensa, de modo geral, mostrou-se simpática ao candidato governista e ele teve, mesmo apenas como candidato, maior espaço nos jornais e telejornais comparativamente a Lula.
Isso se verificou em pesquisa que coordenei pelo Labjor-Unicamp para a Federação Nacional dos Jornalistas. Lula principalmente mas também Ciro Gomes tiveram espaços menores. Mesmo assim, foram contemplados com muito mais espaço que os candidatos inexpressivos. Além disso, a cobertura do candidato Fernando Henrique, agregada com o noticiário do presidente, gerou a superexposição de FHC. Com vantagens e desvantagens. Não se pode afirmar que o discurso do presidente anunciando medidas duras e difíceis foi vantajosa para o candidato.
Mas o eleitorado brasileiro, hoje, é muito mais amadurecido e consciente. Ele percebe quando os jornais exibem suas preferências e sabe construir a sua opinião a despeito de eventuais preferências de jornais. Visto apenas por este ângulo, a cobertura dos jornais e telejornais foi correta e isenta. Mesmo no caso de eventual favorecimento ao presidente candidato pelos jornais, a opinião pública brasileira já amadureceu a ponto de não mais se deixar manipular pela mídia. Imaginar que os jornais são capazes de manipular a opinião pública é, antes de tudo, subestimar a inteligência do povo.
Os jornais não são empresas privadas como as demais. Ninguém adquire aquele papel malcheiroso, sujo e cheio de tinta por deleite, mas suporta-o porque o conjunto de informações que ele oferece é imprescindível para a vida do cidadão no mundo contemporâneo. Jornais são prestadores de serviço público, como costuma dizer Alberto Dines.
O problema é de outra natureza. Eis o segundo ângulo da questão: creio que a maneira como os jornais e telejornais trataram o processo eleitoral foi, grosso modo, muito superficial. Os telejornais, com raríssimas exceções, cobriram a sucessão presidencial muito aquém de sua importância. O Jornal Nacional, da Rede Globo, foi o que menos espaço deu à cobertura. E os jornais impressos, os grandes difusores de informação política, cuidaram de fazer um jornalismo burocrático, declaratório e factual.
Tivemos um momento potencialmente rico e desafiador para a imprensa, com a simultaneidade da crise econômica e a etapa final da campanha eleitoral, mas não vimos nenhuma grande entrevista, nenhuma grande reportagem, nenhuma matéria de impacto que marcasse o jornalismo no período. Eu lembraria de grandes matérias que marcaram as sucessões presidenciais brasileiras, desde a histórica entrevista de Getúlio Vargas a Samuel Wainer. Ou, ainda antes, a de José Américo de Almeida a Carlos Lacerda.
Entendo que os jornais, inexperientes na prática de cobrir campanhas de reeleição, limitaram-se a divulgar eventos, fatos e dar destaque às declarações de candidatos, seus assessores e marqueteiros. Para o leitor-eleitor, seria preciso mais. O debate que não houve na TV poderia ter-se dado nas páginas dos jornais, com a liberdade que eles mesmos cuidam de preservar.
A cobertura da sucessão presidencial limitou-se à cobertura da campanha eleitoral. Sucessão presidencial é um movimento político em que candidatos e partidos buscam a legitimidade, o consenso e as condições políticas para governarem em nome de todos com o aval da maioria. Campanha eleitoral é apenas a ação de partidos e seus candidatos em busca do voto do eleitor. Se os jornais se empenhassem em cobrir de fato a sucessão, a sociedade brasileira, com certeza, faria suas escolhas com muito mais consciência."
(*)Victor Gentilli, jornalista, é professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e membro da equipe do Labjor (Laboratório de Jornalismo da Unicamp/SP).
"Papel superficial", copyright Correio Braziliense, 11/10/98
Ricardo Noblat
"Eis que conseguimos atravessar a cobertura do primeiro turno das eleições com o reconhecimento da maioria dos nossos leitores de que nos comportamos com isenção. Por mais difícil que seja comportar-se com isenção num momento de tantas paixões desatadas.
Pesquisa do instituto Soma publicada no último domingo mostrou que 63% de um total de quase 900 brasilienses entrevistados disseram que o Correio estava sendo imparcial no seu noticiário sobre a disputa pelo governo do Distrito Federal. Não beneficiava candidato algum.
É fato que 14% dos entrevistados não souberam opinar a respeito da posição do jornal. E que 23% afirmaram que o Correio beneficiava, sim, algum candidato. Roriz foi apontado pela.maioria desses 23% como o candidato que saiu lucrando com a cobertura do jornal.
Mas considero algo digno de registro e de comemoração obter o atestado de isenção conferido por 63% dos brasilienses ouvidos na pesquisa. Tanto mais notável se levarmos em conta o clima de radicalização política da campanha que poderia ter contaminado nossa cobertura.
Não nos esqueçamos de que pouco mais de 80% do eleitorado do Distrito Federal dividiu--se quase ao meio entre os candidatos que travarão agora a batalha do segundo turno - Cristovam e Roriz. O desafio do Correio é manter a mesma postura de isenção nesta segunda etapa da campanha eleitoral.
Refletimos muito nos últimos dias sobre a forma como apresentamos até aqui os resultados de pesquisas sobre intenção de voto Afinal, é impossível desconhecer o impacto que eles causam no espírito do eleitor, no ânimo dos candidatos e no curso das campanhas.
Nos demais países onde se faz largo uso de pesquisas eleitorais, os institutos erram e acertam, e acertam mais do que erram. Se deixarmos a emoção de lado, concluiremos que a mesma coisa se repete no Brasil. São universais os métodos de aplicação de pesquisas. E a leitura dos seus resultados.
Eventuais erros se explicam pelo mau uso das tais técnicas. No caso, trata-se de incompetência mesmo. Mas há de se convir que determinados episódios avalizem a desconfiança de que resultados também são manipulados. Isso é crime, que deveria ser punido com rigor.
Nesta edição (domingo, 11 de outubro), em outras páginas, abrimos generoso espaço para a discussão sobre erros e acertos dos institutos de pesquisas. Foram ouvidos donos de institutos, estudiosos neutros quanto à questão e alguns ácidos críticos. Um jornal tem de ser um meio democrático que reflita todas as linhas do pensamento.
Acho que exageramos, como de resto toda a imprensa brasileira, na importância conferida até agora às pesquisas de intenção de voto. Se bem feita, e criteriosamente tabulada, a pesquisa deve ser levada em conta apenas como um elemento a mais de informação dentro da cobertura de uma campanha.
Foi preciso constatarmos tantos erros e imprecisões em diversas delas para finalmente concluirmos o que hoje nos parece tão óbvio. Demorou, mas nos convencemos. E não importa que os demais veículos de comunicação pensem o contrário e ajam diferentemente de nós. Também não importa que achem nossa posição oportunista. Não é.
O Correio continuará a publicar pesquisas. O leitor tem direito de conhecê-las. Mas doravante as pesquisas receberão aqui outro tipo de tratamento. Serão menos freqüentes. Ocuparão menos espaço. E nós seremos muito mais críticos quanto aos seus resultados.
(*) Diretor de redação do Correio Braziliense
Carta ao Leitor, copyright Correio Braziliense, 11/10/98
Janio de Freitas
"Embora seja improvável a CPI sobre pesquisas eleitorais, imaginada pelo PT, o tema das pesquisas tem prosperado e é bom que isso aconteça, como sinal de algum cansaço com o desregramento total das eleições brasileiras. Os desvios, porém, já ameaçam a atual discussão com o mesmo descaminho em que se perderam as propostas de discussão anteriores, quando das últimas leis eleitorais.
Mesmo as observações críticas do presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ilmar Galvão, tornam-se espantosas quando assumem o caráter de proposta corretiva. A falta de fiscalização às pesquisas e seus realizadores empresariais não se deu por falta de novas leis, regulamentos ou lá o que seja. A Justiça Eleitoral, presidida por Ilmar Galvão, não procedeu a tal fiscalização porque não foi levada a isso por quem poderia fazê-lo. Amparo legal não lhe falta.
Líder da bancada do PSDB no Senado e relator da comissão da reformas políticas, o senador Sérgio Machado informou à jornalista Tereza Cruvinel que considera fundamentais, em novas regras sobre pesquisas eleitorais, duas exigências. Uma, a proibição de divulgar pesquisa nos 15 dias anteriores à votação. Outra, a proibição de que uma entidade faça pesquisa concomitante para candidato e para meio de comunicação.
A Lei Eleitoral, feita na medida para a eleição da reeleição, é omissa quanto a limite para divulgar pesquisa, mesmo a de boca-de-urna. O Art. 255 do Código Eleitoral Brasileiro, no entanto, inclui a proibição relativa aos últimos 15 dias. A novidade que o líder do PSDB considera fundamental data, pois, de 1965. Mas caiu no limbo, aquele entulhado abismo brasileiro onde são lançadas as leis que não são leis porque não se aplicam mas são leis.
Por sua vez, ocupar-se da proibição a pesquisas simultânea para candidato e para divulgar é lançar a questão maior nas discussões estéreis, que a desmilingüem até ser sufocada ao peso de um assunto atraente. É clara a impossibilidade de impedir que uma entidade de pesquisa estenda a candidatos o conhecimento de suas aferições e análises. Ainda mais em um mercado de negócios tão obscuros como uma eleição.
Antes de pensar em proibições, quem quiser que pesquisas eleitorais não sejam um fator tão acusável de deformação eleitoral deve pensar em regras.
Liberdade de informação, de opinião, de pregação, seja lá que liberdade for, sempre tem limite. Dar algum às pesquisas eleitorais, para tornar um pouco menos vulnerável a lisura de eleições, não restringe liberdade. ‘Muito ao contrário’, poderá dizer qualquer eleitor."
"Pesquisas outra vez", copyright Folha de S. Paulo, 8/10/98
Folha de S. Paulo
A divulgação de pesquisas eleitorais deve sofrer algum tipo de restrição?
NÃO
Pesquisa não é bola de cristal
Carlos Novaes (*)
"Pesquisas têm dois momentos no tempo: o de coleta e organização dos dados e o da divulgação dos resultados apurados. São etapas diferentes, que requerem críticas diferentes.
O alarido dos últimos dias em torno das pesquisas - que tem como principais vocalistas alguns meios de comunicação e o PT - é oriundo de muitos mal-entendidos sobre essas duas etapas das pesquisas e também de alguma irresponsabilidade.
Na primeira etapa, os institutos mais conhecidos (Brasmarket, Datafolha, Ibope e Vox Populi) adotam técnicas muito parecidas, não havendo segredos. Se aparecem discrepâncias entre os números apurados num mesmo momento, elas em geral podem ser explicadas pelas margens de erro e por outras nuances técnicas, que podem até mesmo envolver a ordem em que foram feitas as perguntas ao entrevistado. Embora aconteçam, erros graves são raros e definem, no tempo, a hierarquia de prestígio entre os institutos.
Assim, parece-me que, nesse plano, os mecanismos já adotados pela Justiça Eleitoral são suficientes para garantir aos partidos e candidatos meios para verificar possíveis incorreções ou fraudes na coleta e organização dos dados.
Por isso mesmo, nenhum dos agentes interessados fez nenhuma restrição mais séria aos números divulgados ao longo da campanha, fazendo questão de mostrá-los no horário eleitoral, não raro com alguma ginástica do tipo "o campeão do segundo lugar".
Mal começa a apuração, porém, e as pesquisas são acusadas de não ter "previsto" esse ou aquele "resultado". Deixando de lado as acusações infundadas - porque feitas antes do final da apuração -, vale a pena registrar que pesquisa não diz o que vai acontecer: oferece, quando bem realizada, um retrato do momento de coleta das informações. Quem atua seriamente no arriscado ramo das previsões são os analistas, que exigem não uma pesquisa, mas séries delas, além de um sem-número de outras informações.
Um observador que colecionasse os resultados das pesquisas em Goiás, por exemplo, não poderia deixar de ver que desde o final de julho Íris Resende (PMDB) caía e Marconi Perillo (PSDB) crescia (entre 28 de julho e 29 de setembro, a diferença recuou de 61 para 16 pontos). Imantados pelo que acontecia nos grandes centros, jornalistas que fazem a imprensa nacional receberam com surpresa a mudança em Goiás, chamando de "reviravolta" uma alteração gestada ao longo de dois meses (o período do horário gratuito) e que sofreu aceleração no final da campanha.
Mas nem sempre as coisas se passam de maneira tão clara. Campanhas eleitorais são terreno dificílimo, precisamente porque podem apresentar grande volatilidade nas opiniões e mudanças repentinas nas preferências de parte dos eleitores. Foi o que se viu em São Paulo, no Mato Grosso do Sul, no Pará (para o Senado) e, em alguma medida, também no Distrito Federal.
Como todos esses exemplos envolvem candidatos do PT, o partido preferiu ver nisso não o resultado seletivo do esforço deliberado que fizera na reta final buscando levar a eleição para o segundo turno, mas uma evidência de que os números do PT vinham sendo manipulados para baixo.
Na busca de dar consistência à queixa extemporânea, líderes do partido passaram a misturar indevidamente os dois hemisférios da crítica: o da produção dos dados e o da divulgação, acabando por chegar à conclusão (surpreendente) de que o ideal seria proibir a divulgação, que influenciaria indevidamente o eleitor. Teria sido indevido divulgar que Suplicy sempre esteve na frente em São Paulo, ou Jorge Viana no Acre, ou Heloísa Helena em Alagoas?
Embora haja divulgação interessada das pesquisas eleitorais, não há menos interesse na orientação dos noticiários. Esse é um estado de coisas que cumpre transformar com mais informação, mais democracia. Mesmo diante de distorções graves, não há por que supor que as coisas estariam melhores se sonegássemos ao eleitor um importante elemento de cálculo na hora de ele fazer a sua escolha."
* Carlos Alberto Marques Novaes, 40, é doutorando em ciência política na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e analista político da TV Cultura de São Paulo. Foi pesquisador do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento). É filiado ao PT.
xxx
SIM
Não proibir, mas regulamentar
Reginaldo de Castro (*)
"Mais uma vez, o resultado eleitoral coloca os institutos de pesquisa na berlinda. Houve, entre o que eles projetaram e o que de fato se apurou, disparidades consideráveis. Basta ver a eleição para o governo de São Paulo, o fato mais gritante. A candidata do PT, Marta Suplicy, aparecia nas pesquisas num modesto quarto lugar, sem a mais remota chance de triunfo. Pois quase chegou ao segundo turno.
Não fossem as pesquisas e seu considerável poder indutor, provavelmente ela teria chegado ao segundo turno. Baseados nas pesquisas, quantos eleitores e militantes do PT não terão capitulado à tese do voto útil?
São Paulo não foi exceção. Resultados não previstos pelos institutos ocorreram em Goiás, no Amazonas, no Rio Grande do Sul, em Brasília, entre outros. Não vem ao caso detalhá-los. Fiquemos no foco da questão: as pesquisas devem ser proibidas?
Sustento que não. O Estado de Direito democrático, cuja defesa a Ordem dos Advogados do Brasil inclui entre suas metas estatutárias, prevê ampla liberdade de informação. E as pesquisas eleitorais se incluem nesse pressuposto. O que está em pauta não é proibi-las, mas regulamentá-las; não permitir que se prestem a manipulações. Não se trata de punir os institutos nem suspeitar deles ou de suas metodologias, mas do uso indutivo que deles se faz no âmbito das campanhas eleitorais.
É preciso, então, analisar o próprio comportamento da mídia diante das pesquisas. O que é uma pesquisa? É a aferição estatística da vontade ou do comportamento das pessoas (de um determinado segmento étnico, etário, socioeconômico ou da sociedade como um todo). Nada mais. Fazem-se pesquisas pelas razões mais diversas: para aferir a receptividade a um produto, a um programa de televisão; para medir a popularidade de políticos, governos, artistas etc.
O que se obtém, em princípio, é algo neutro: o retrato de determinada realidade em determinado instante. Essa realidade pode mudar radicalmente em seguida. Se, por exemplo, algum instituto fosse aferir a popularidade de Ronaldinho logo após o jogo Brasil x França na decisão da Copa do Mundo, veria seus índices caírem drasticamente. Dias depois, porém, seriam outros.
Em eleição, o resultado de um instante é utilizado durante semanas, como retrato definitivo de uma tendência irreversível, o que acaba estabelecendo um círculo vicioso: consulta-se o eleitor e, depois, busca-se submetê-lo à ditadura dos números. Transforma-se o efêmero em definitivo, mascara-se a realidade. O nome disso é manipulação. Os vilões desse processo não são os institutos de pesquisa, mas os que deles se servem para perpetrar o engodo.
Reunidos em Porto Alegre (RS) nesta semana, os presidentes das 27 seccionais da OAB se manifestaram profundamente preocupados com os efeitos provocados pela divulgação das pesquisas no processo eleitoral. O sentimento foi unânime. Todos concordam que as pesquisas mudaram o rumo das eleições.
Diante dessa constatação, a posição da OAB, como defensora dos interesses da sociedade civil brasileira, é a de que o Congresso Nacional não pode se omitir neste momento em que a credibilidade dos institutos de pesquisa está arranhada. O trabalho dos institutos de opinião não deve ser proibido, mas precisa de uma regulamentação mais eficaz, de forma a evitar influência danosa às futuras eleições.
As pesquisas não podem se converter em publicidade enganosa. O aperfeiçoamento da democracia está diretamente vinculado à transparência do processo eleitoral. Ao eleitor brasileiro, a mínima garantia que a lei tem de assegurar é a da livre manifestação do voto."
Reginaldo Oscar de Castro, 55, advogado, é presidente nacional da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil).
"Tendências e debates", copyright Folha de S. Paulo, 10/10/98
Otavio Frias Filho
"Ao contrário do que está parecendo, os políticos adoram pesquisas eleitorais. Alguns dos que agora esbravejam contra os institutos estão entre os que mais importunam as redações em telefonemas insistentes, às vésperas da divulgação dos resultados, com a perguntinha suprapartidária: ‘E aí, já têm os números?’.
Os políticos sabem que a melhor forma de conhecer a situação eleitoral é confrontar diferentes pesquisas, as suas próprias com as dos jornais e das TVs, e que quanto mais pesquisas houver maiores as chances de se aproximar da realidade das intenções de voto. Mesmo se forem proibidas, as pesquisas continuarão a ser realizadas.
O que eles querem é negar à população o direito de conhecer os resultados, direito que se tornaria prerrogativa dos chefões políticos e dos meios de comunicação. Estes, no entanto, estariam proibidos por censura legal (e inconstitucional) de exercer sua mais legítima tarefa: levar ao cidadão informação relevante que lhe permita formar decisões.
Todo político, invariavelmente, dá crédito às pesquisas quando aparece bem nelas e as ataca quando está por baixo. Paira alguma dúvida de que essas críticas são hipócritas, interesseiras e oportunistas? No entanto, muita gente de boa-fé se sentiu ludibriada pelos institutos nesta eleição. O que aconteceu, afinal?
A disseminação do voto eletrônico, de apuração mais rápida, criou a sensação de que os resultados discrepariam substancialmente das pesquisas, o que não está se confirmando. As urnas eletrônicas tendem a corresponder ao eleitor mais urbanizado e oposicionista; o voto conservador tende a aparecer mais no final.
É claro que os institutos podem errar (o que não tem sido freqüente) e manipular (há suspeitas sérias, mas não comprovadas). É óbvio que os demais institutos, que aceitam fazer pesquisas para políticos, têm muito menos credibilidade do que o Datafolha, que só faz pesquisa eleitoral para a imprensa.
Sem elas, porém, o país inteiro retrocederia aos ‘grotões’, lugares onde os grandes institutos não pesquisam e em que o eleitor vota às cegas, sem conhecer as dimensões das forças em jogo, sem ter idéia do jogo tático entre elas e da evolução de cada uma, esbulhado no seu sagrado direito de escolher o ‘menos pior’.
Por trás da cruzada contra as pesquisas, está a idéia de que o eleitor é um imbecil que não sabe discernir por conta própria e que deve, portanto, ser ‘protegido’ do que chamam de ‘influências’. O argumento é quase cômico porque o processo eleitoral numa democracia consiste exatamente em multiplicar ‘influências’.
Quanto mais informação e controvérsia, quanto mais ‘influências’, mais democrática é a eleição e maior será a educação política do eleitorado. Suprimir a divulgação de pesquisas é acabar com o principal instrumento de transparência do processo aos olhos do eleitor. Não é só mais imposto que querem arrancar do cidadão."
Golpe contra as pesquisas, copyright Folha de S. Paulo, 10/10/98
Ricardo Amaral
"O Tribunal Superior Eleitoral informou ontem à noite que o presidente Fernando Henrique Cardoso foi reeleito com 35.936.918 votos, contra 31.786.129 dados a seus adversários nas eleições de domingo. A margem de erro da pesquisa do TSE é zero. Fernando Henrique teve 4,15 milhões de votos mais que os adversários, resultado que nenhum instituto de pesquisa encontrou nas pesquisas de boca-de-urna.
Isso não diminui a vitória do presidente, mas a credibilidade dos institutos. Eles disseram que FHC teve 56% ou 57% dos votos válidos, quando a colheita mal passou dos 53%. A diferença entre o vencedor e os derrotados foi de seis pontos percentuais, não 12 e muito menos 14.
Os diretores dos institutos de pesquisas fariam melhor admitindo que erraram na boca-de-urna da eleição presidencial de domingo, em vez de oferecer pedras aos críticos e lorotas ao público. Errar é humano. A culpa pelos resultados discrepantes é do eleitor de carne e osso, que não foi em massa às urnas para confirmar o voto do eleitor de amostragem. O eleitor de carne e osso saberá compreender o que houve e perdoar as pesquisas, se receber as explicações corretas, sem passionalismo de um lado ou de outro.
Em primeiro lugar, é preciso entender que estamos trabalhando sobre uma base de dados falsa. O Brasil não tem e nunca teve os 106.101.067 eleitores cadastrados no TSE. Há duplicidade e até multiplicidade de títulos emitidos para a mesma pessoa, num universo em que cerca de 20% dos documentos são emitidos para pessoas com o mesmo nome e sobrenome completos. Num país que demonstra tanta criatividade na pia batismal, homonímia desse tamanho não se explica facilmente.
Também há ‘eleitores’ mortos que permanecem no cadastro, por omissão dos cartórios, que não comunicam óbitos à Justiça Eleitoral (para que é que servem mesmo os cartórios?) e de indigentes miseráveis que simplesmente deixam a vida para continuar fora da história. Há eleitores que transferem o domicílio, mas deixam o registro no endereço antigo, e também há casos de pessoas que transferem o título, mas, por erro da Justiça Eleitoral, não têm o documento anterior cancelado.
Em resumo, não é possível discutir os resultados eleitorais quando a base teórica é diferente da base real. Um recadastramento do eleitorado precisa ser feito, não apenas para que institutos e candidatos façam suas contas direitinho, mas para garantir a credibilidade do sistema eleitoral.
Todos os institutos argumentam que a elevada taxa de abstenção (21,49%, contra 17,8% nas eleições de 1994) foi em boa parte responsável pela diferença entre o calculado e o apurado. Nesse caso, presume-se que não foi às urnas uma boa parte dos eleitores potenciais de Fernando Henrique Cardoso. Provavelmente, o eleitor de FHC deixou para o vizinho a tarefa de ganhar eleições que nunca estiveram ameaçadas nem valiam o abandono de uma boa pescaria. Afinal, a multa por não votar é de R$ 26. Mas é o caso de se pensar: sabendo com certeza certíssima que seu candidato estava previamente derrotado no primeiro turno, por que é que o eleitor da oposição não estava pescando junto com o reeleitor do presidente?
A pesquisa do TSE também revela um dado a ponderar: o número de votos em branco caiu de 9,5% nas eleições de 1994 para 8,03% no domingo. Onde a votação foi totalmente em urnas eletrônicas, o voto em branco baixou a menos de 2% (Distrito Federal e Amapá), ficando em 4% no Rio. O número de votos nulos nestes estados permanece semelhante ao de 1994. Estatisticamente, é o melhor resultado da eleição: a urna eletrônica ensina a votar, não o contrário."
"A urna e a pesquisa", copyright O Estado de S. Paulo, 10/10/98
José Mitchell
"Os presidentes dos conselhos seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ao encerrarem ontem encontro realizado em Porto Alegre, divulgaram documento que considera ‘a utilização das pesquisas eleitorais um instrumento de publicidade enganosa em proveito de candidatos, por violentar a livre manifestação do voto, e representa um desserviço à plenitude democrática do Estado brasileiro’.
A Declaração de Porto Alegre condena também a proposta de concessão de poderes constituintes ao Congresso Nacional eleito no domingo passado, enfatizando que ‘não passará de manobra política, com risco de prevalência de fisiologismos e conveniências inaceitáveis’.
Os presidentes das seccionais da OAB, com o presidente nacional da entidade, Reginaldo de Castro, advertem o governo de que a crise financeira mundial ‘não pode servir de justificativa para retrocesso nos critérios democráticos de legislação, com uso inconstitucional de medidas provisórias e sacrifícios desnecessários ao povo brasileiro, em proveito dos especuladores nacionais e internacionais’.
O documento ressalta que a reforma do Poder Judiciário ‘constitui prioridade sociopolítica inadiável’. Entre outras propostas, a OAB defende: ‘estabelecimento de controle externo dos atos administrativos’ do Judiciário, ‘clara responsabilização dos magistrados pelo retardamento na prestação jurisdicional’, redução dos custos de acesso à Justiça, não-implantação do efeito vinculante (entendimento uniforme em questões definidas pelos tribunais superiores) e revisão dos critérios de ingresso na magistratura."
"OAB critica as pesquisas", copyright Jornal do Brasil, 10/10/98
Cláudio Weber Abramo (*)
"No início das apurações do primeiro turno das eleições majoritárias deste ano, uma combinação de diversos fatores produziu uma quantidade extraordinária de besteirol por parte de locutores, políticos e outros (entre os quais o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, que, assim, se autodesqualificou mais uma vez, bem como a seus pares, que não o expulsam).
Eis alguns dos fatores (deixo de lado o efeito ‘apuração eletrônica versus apuração manual’, já exaustivamente abordado): o desconhecimento generalizado a respeito do que são pesquisas por amostragem, não só eleitorais, mas de qualquer tipo, num universo em que o que se mede se encontra em mutação contínua; a incapacidade de distinguir entre o resultado de uma pesquisa e o uso que candidatos e mídia fazem dele; uma inexplicável singularização da informação estatística em detrimento de outros dados potencialmente relevantes para a decisão do eleitor.
Olhemos esses fatores um a um. Primeiro, o que são pesquisas eleitorais. Elas pretendem levantar a situação do universo no momento em que são feitas. Partindo do pressuposto de que a amostragem na qual se baseiam é representativa do universo (ou seja, não contém desvios gritantes, como incluir membros de determinada faixa de renda, sexo, escolaridade ou outra característica de maneira desproporcional à sua freqüência na população geral de eleitores), elas dão razoável segurança (‘razoável’ na medida da margem de erro, que, na verdade, costuma ser menor do que os dois pontos percentuais que os institutos adotam, por excesso de prudência) sobre a tendência eleitoral naquele momento.
Dois dias depois, o universo pode mudar quanto à característica pesquisada (em quem se pretende votar), pois ele está sujeito à campanha eleitoral e a uma infinidade de fatores que nem o mais megalomaníaco dos cientistas sociais pretenderia singularizar.
Os que afirmam ser necessário verificar se as pesquisas feitas ao longo do período eleitoral eram ou não acertadas (no sentido de captar a ‘real’ intenção dos eleitores) não se dão conta de que isso só seria possível se uma máquina do tempo os levasse de volta ao passado para, uma vez lá, realizarem a própria eleição (pesquisas não serviriam para a finalidade, naturalmente).
Outro aspecto a considerar é o fato de que dados populacionais globais, essenciais para fornecer os parâmetros das amostragens, são de responsabilidade do IBGE, o que é uma lástima. O signatário nunca foi recenseado, o mesmo acontecendo com a virtual totalidade das pessoas que conhece.
Segundo, o uso que candidatos, publicitários e mídia fazem das pesquisas. Quanto a candidatos e publicitários, quem acredita neles precisaria ser examinado por um psiquiatra. A questão é a mídia, pois as práticas brasileiras, baseadas na credulidade do público, favorecem a manipulação mais deslavada.
Contudo, diferentemente do que a ingenuidade poderia imaginar, na grande imprensa isso não se faz alterando números, mas enfatizando o que interessa e suprimindo o que não interessa. Assim, se o presidente sobe 0,5 ponto percentual de um levantamento ao seguinte e Lula cresce dois pontos, pode o leitor ter certeza de que a manchete do ‘Jornal Nacional’ será ‘Cresce a intenção de voto em FHC’. De modo que os campeões da moralidade estatística fariam melhor se assestassem suas baterias sobre quem é, de fato, nefasto.
Terceiro, a extraordinária proposta de proibir a divulgação de pesquisas eleitorais. Se outras considerações não bastassem, a seguinte deveria moderar o entusiasmo legiferante: em face de uma proibição desse tipo, seria facílimo que jornais e TVs se desviassem dela. Bastaria usar o expediente de, por exemplo, denominar candidatos pelos nomes de ingredientes culinários (‘orégano’, ‘salsinha’ etc.) e divulgar com grande destaque ‘receitas’ com tais condimentos: ‘Molho de hoje: 24,3 g de salsinha, 22,8 g de pimenta vermelha, 14,2 g de orégano’.
O pior das proposições destinadas a coibir a divulgação dos resultados de pesquisas é a própria natureza do argumento empregado. Afirma-se que resultados de pesquisas não seriam fatos políticos diretamente eleitorais. Mas o que seriam ‘fatos diretamente eleitorais’ - e, melhor ainda, o que não se enquadraria nessa categoria?
Por exemplo, digamos que um candidato seja pedófilo. Isso é eleitoral? Outro deu um golpe financeiro no ex-sócio. É um fato eleitoral? Outro, ainda, consumiu maconha 20 anos atrás. Outro diz ‘meu Deus’ a cada três frases, quando todo mundo sabe que é embromação. Informações desse tipo seriam divulgáveis ou não seriam, na imaginação de quem quer suprimir pesquisas? Se não são, precisariam ser suprimidas. Onde é que iriam parar?
No que diz respeito especificamente ao voto útil em São Paulo, aqui vai a sugestão aos institutos de pesquisas: que façam um levantamento no universo de eleitores, singularizando aqueles que votaram em Covas, para determinar qual foi a parcela desses que, pretendendo inicialmente votar em Marta Suplicy, tenham alterado essa intenção para barrar Francisco Rossi (seria essa a ‘utilidade’ do voto)."
(*) Cláudio Weber Abramo, jornalista, é bacharel em matemática pela USP (Universidade de São Paulo) e mestre em Filosofia da Ciência pela Unicamp.
"Besteirol eleitoral", copyright Folha de S. Paulo, 13/10/98
Marco Aurélio Garcia (*)
"Concluída a apuração das eleições de 4 de outubro, o país descobriu, com espanto e indignação, a defasagem generalizada entre os resultados oficiais do pleito e as previsões da quase totalidade dos institutos de pesquisa. Para responder às críticas que lhes foram dirigidas, os institutos invocaram as pesquisas de boca-de-urna, que teriam sido mais próximas dos resultados finais, e a margem de erro que toda sondagem pressupõe, o que relativizaria os desacertos das previsões.
Não se trata aqui de discutir a metodologia e outros detalhes técnicos das sondagens, ainda que esses aspectos sejam, no fim das contas, importantes. O principal problema é o impacto das pesquisas no resultado das eleições.
A questão que se coloca é a de saber se as pesquisas são instrumentos de aferição da opinião pública ou, ao contrário, se elas se transformaram em meios de (des)constituição dessa opinião pública. É nessa perspectiva que a metodologia e a credibilidade técnica - para não falar, obviamente, da credibilidade ética - dos institutos são elementos relevantes para o futuro da democracia. Nesse sentido, as pesquisas de boca-de-urna têm pouca importância, uma vez que não influem (salvo quando divulgadas antes do término da votação) na vontade do eleitor.
O problema não se resume, no entanto, às pesquisas, mas principalmente à utilização que delas fizeram os meios de comunicação. Jornais, rádios e TVs apresentaram a eleição presidencial - inclusive nas edições do dia 4 - como resolvida, pois FHC teria dez pontos a mais do que a soma das oposições.
O resultado final mostrou que o candidato-presidente chegou a pouco mais de 53%; um pequeno movimento do eleitorado teria provocado um segundo turno, de desfecho imprevisível. O clima de ‘já ganhou’ criado pelos meios de comunicação, com apoio nas pesquisas, contribuiu decisivamente para a desmoralização das oposições.
A ‘margem de erro’ dos institutos foi invariavelmente contrária aos candidatos de esquerda. Aí está o exemplo escandaloso da candidatura de Marta Suplicy, que, em poucas horas, ‘avançou’ dos 14% que as pesquisas lhe atribuíam para mais de 22%. O verdadeiro ‘avanço’ em realidade não ocorreu, já que, temerosos de um segundo turno entre Maluf e Rossi, dezenas de milhares de votos de Marta migraram no dia 4 para Mário Covas.
A divulgação de pesquisas com distorções que ultrapassavam em muito a margem de erro fez Marta retroceder na preferência do eleitorado, chegando aos 22% que obteve no final. A Rede Globo e jornais de influência induziram o comportamento de muitos eleitores o suficiente para tirar a candidata do PT do segundo turno.
As ‘margens de erro’ também conspiraram contra Olívio Dutra, no Rio Grande do Sul, e, grotescamente, contra Zeca do PT, em Mato Grosso do Sul. Nos dois casos, não chegaram a comprometer irremediavelmente o resultado, como em São Paulo, pois os dois passaram para o segundo turno.
Em outros estados - Santa Catarina, Minas, Bahia, Amazonas e Ceará, para citar os casos mais gritantes -, as pesquisas se ‘equivocaram’ muitíssimo além da ‘margem de erro’. As pesquisas e sua divulgação foram, assim, mais um componente do recente processo eleitoral, manchado por distorções decorrentes da reeleição, pelo uso do poder econômico e da máquina estatal, pela parcialidade demonstrada dos meios de comunicação e pela conduta das altas instâncias da Justiça Eleitoral, com manifestações explícitas de apoio ao candidato-presidente e de leniência na apuração das denúncias apresentadas pela oposição.
Ainda é tempo de corrigir as deformações mais gritantes do recente processo eleitoral, para que elas não maculem o segundo turno. A grande crise econômica e social que o país vive e a perspectiva de seu agravamento podem ensejar comportamentos crescentemente autoritários por parte do governo, sobretudo para fugir a suas responsabilidades pelo atual estado de coisas.
O episódio eleitoral e a manipulação das pesquisas indicam que os temores da oposição nesse sentido não são infundados. Mas, da mesma forma que as esquerdas apresentaram propostas consistentes para tirar o país da crise e construir novas alternativas econômicas, elas serão capazes de defender a soberania nacional, a República e a democracia.
(*) Marco Aurélio Garcia, 57, é professor do Departamento de História da Unicamp e membro da Executiva Nacional do PT."
"Distorções na eleição e segundo turno", copyright Folha de S. Paulo, 13/10/98.
Folha de São Paulo
"Lamentável, para não dizer enojante, o artigo do Sr. Otavio Frias Filho, Golpe contra as pesquisas, de 8/10 (pág. 1-2, Opinião). Parece que esse senhor não acompanhou as pesquisas publicadas em seu próprio jornal. Tome como exemplo a missiva da leitora Eunice Ostrensky na mesma data no Painel do leitor. O engraçado é que nenhum ‘erro’ (ou margem de erro e/ou a esfarrapada e ressuscitada desculpa - intervalo de confiança) ocorreu em favor dos partidos de oposição.
Os institutos de pesquisa erram sim, Sr. Otavio, e em um país miserável econômica e culturalmente onde apenas 10% da população têm acesso aos jornais, enquanto 90% podem ler apenas a primeira página nas bancas, fica mais fácil ‘não perder o voto’ quando se lê nas manchetes que um candidato está na frente e outra candidata não tem chances de ir para o segundo turno.
Assim é menos incômodo fazer o jogo dos maiores anunciantes (os governos) sem dar muito na cara e multiplicar as tais influências. Que tal mudar o nome do DataFolha para DataCovas ou DataCara-de-Pau? Silvio Fontana (Londrina, PR)
Nota da Redação - A manchete da Primeira Página da edição de 1/10 da Folha foi Disputa pelo 2º lugar embola em SP, referindo-se à entrada de Marta Suplicy na disputa, e a da edição de 3/10 foi SP tem 3 empatados em 2º lugar. A receita proveniente de anúncios governamentais não chega a atingir 1% do total da receita deste jornal."
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"Setenta mil votos (a diferença entre Covas e Marta Suplicy) é uma distância bem pequena. Pesquisem quantos eleitores mudaram seus votos por causa das pesquisas. Façam a pesquisa da pesquisa." Maurício Boudakian Moyses (Ribeirão Preto, SP)"
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"Diante do polêmico debate sobre pesquisas eleitorais, a Folha tem sido lamentável em tentar justificar erros. Nas edições de 6/10 e 7/10, a Folha tenta iludir o leitor comparando pesquisas de boca-de-urna com os resultados reais. Ora, a pesquisa de boca-de-urna deve, necessariamente, dar um resultado próximo do real, pois o voto já está sacramentado. Caso isso não aconteça, é melhor fechar o instituto de pesquisa.
O que a Folha deve comparar são os resultados das pesquisas divulgados antes das eleições, em 2/10, com os resultados reais. Jozué Vieira Filho (Campinas, SP)"
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"Pondo de lado a hipótese tola de que em 48 horas há subidas e quedas vertiginosas nos índices de intenção de voto, examinemos brevemente algumas informações transmitidas pela Folha na edição de ontem, enfatizando apenas a eleição para o governo do estado de São Paulo. No dia 2/10, Marta Suplicy tinha 17% das intenções de voto, contra 35% de Paulo Maluf. A diferença, portanto, era de 18 pontos percentuais. Apurados os votos, verificou-se que a diferença entre os candidatos era de 9,7 pontos.
Margem de erro?" Eunice Ostrensky (São Paulo, SP)"
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"Na minha modesta opinião o que aconteceu foi que o eleitor decidiu o voto no momento que mais lhe pareceu apropriado, sem se importar tanto com pesquisas ou com a cobertura, parcial ou não, da mídia.
Talvez fosse hora de dar às pesquisas apenas a importância relativa que elas eventualmente tenham. Acho que o eleitor brasileiro aprendeu a votar e não está mais se deixando tutelar. César Augusto de Oliveira Lutti (Dourados, MS)"
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"Essa coisa de boca-de-urna nunca me convenceu. Constrangedor esse negócio de trabalhar em cima de informação de fofoqueiro, né? O voto não é secreto? Como é possível confiar em gente que fica contando segredo para qualquer estranho que aparece com uma pranchetinha na mão? Difícil acertar tendo informantes assim!
Ariovaldo Ramos dos Santos (São Paulo, SP)"
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"Eu não sei se a equipe que comanda a Folha consegue perceber a imensa frustração que vêm sendo estas eleições para os que têm como opção serem leitores do único meio de comunicação que ainda conserva alguma decência neste país. A cada eleição, fica na boca o gosto amargo de viver numa democracia fajuta, corrupta e de fachada.
Nesse contexto, as declarações do Sr. Otavio Frias Filho (pág. 1-2, Opinião, 8/10) foram infelizes. Foi como chamar a atenção das pessoas que fogem de um incêndio para o bonito vermelho dos extintores presos à parede. E depois ficar repetindo a semana toda que os extintores estavam lá, e que culpa de não usá-los foi dos mortos no incêndio...
A imprensa brasileira sempre esteve e sempre estará ao lado dos donos deste país. Desde Canudos... Na dúvida, os poderosos! E assim segue esta Folha, sempre em péssima companhia de outros órgãos de informação. Não é perfeita, mas no balanço geral é o que temos de melhor impresso. Eduardo A. de Carvalho (Campos, RJ)"
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"É surpreendente a quantidade de cidadãos inconformados com a vitória de Mário Covas que se diziam eleitores de Marta Suplicy, e que agora, após as eleições, tentam canalizar suas revoltas aos meios de comunicação.
As margens de erro das pesquisas eleitorais sempre estiveram expostas, e, mais do que isso, sabe-se que a existência de dois turnos implica atribuir o voto útil ao segundo turno, e não ao primeiro. Dessa forma, aqueles que votaram em Covas em vez de votar na Marta ‘candidata do coração’ cometeram mais erros do que quaisquer meios de comunicação, pois não souberam atribuir às suas leituras o valor exato, uma vez que tecnicamente o empate estava explícito, sendo que, no processo democrático, cabe a cada cidadão ter sua opção pelo candidato e expressá-la.
É triste verificar que após anos de abertura política há pessoas - leitores da Folha - que, além de não votarem corretamente, atribuem seus fracassos ao jornal. Sugiro que, na próxima vez, tenham mais convicção no que pensam e sejam um pouco mais atentos em suas leituras, para assim quem sabe não se enganarem. Votei na Marta e não votaria em nenhum outro candidato no primeiro turno. Priscila Carvalho (São Paulo, SP)"
"Painel do leitor", copyright Folha de S. Paulo, 8, 10 e 13/10/98
CARTAS
Até quando todos os jornalistas vão conseguir disfarçar e tentar enganar o leitor sobre a cobertura jornalística das eleições?????
A imprensa está completamente mancomunada com o governo. Enquanto se discute pesquisa, o segundo turno já está sendo manipulado, favorecendo todos os candidatos que interessam para apoiar o governo com a ilusão de que as reformas vão acontecer. Estamos vivendo uma fase infantil do jornalismo brasileiro. Em entrevista com o Suplicy na TV Bandeirantes, na segunda-feira após as eleições, o Mitre, todo emocionado com a vitória do senador, perguntou sobre seu apoio às reformas. O ponderado senador respondeu que fará uma avaliação das propostas e votará a favor quando for boa e questionará quando não atender aos interesses da população (óbvio). Mitre dá um pulo na cadeira, fica admirado, espantado, e diz: "Mas as reformas são necessárias..." e outras infantilidades próprias de um deslumbrado. Suplicy, calmo, reafirmou que votará pró e contra o governo, conforme a proposta...
Para evitar que se pense em partidarismo, aviso que não sou eleitora do PT.
Todos os jornais estão fazendo campanha contra as "baixarias". O que eles querem??? Definir o que pode e não pode ser falado pelos candidatos? Não cabe à imprensa que se diz livre (?????) ser tão partidária!
Mirian Patitucci, professora de História, psicóloga, psicopedagoga
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O que eu estranho mesmo é toda essa perplexidade diante da parcialidade da cobertura da mídia. Era possível esperar outra posição?
Ao misturar tão bem realidade e fantasia, os meios de comunicação tentam (felizmente, nem toda a audiência se ilude) trazer para as telas de TV e as primeiras páginas de jornais, questões (geralmente de natureza comportamental) que ofuscam a realidade que efetivamente afeta o dia-a-dia da população. Essa não é uma visão apocalíptica do papel da imprensa. Os americanos, descaradamente, nos mostram como isso acontece. Filmes e mais filmes descrevem essa estratégia: Mera coincidência é mais do que um título.
Guilherme Rezende, professor
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Tudo que o prezadíssimo Alberto Dines escreve me parece pertinente. Será que é porque a gente sempre acha inteligentíssimo quem pensa como a gente?
Mas sobre a avaliação do desempenho da Folha nas eleições, fiquei apenas com uma dúvida: será que um repórter que ousasse pedir esclarecimentos aprofundados ao ministro Galvão teria o respaldo da empresa para eventuais reações iradas de autoridades tão poderosas, como ele e o objeto de seus elogios?
Dines realmente achou a cobertura global da Folha em São Paulo desprovida de simpatias tucanas, ainda que o Clóvis Rossi - que admiro enormemente - lembrasse que a Folha nunca denegriu Marta durante a campanha? Primeiro, o que teria para denegrir? E se tem, por que não divulgou? E, acima de tudo, será que a questão é denegrir ou elogiar demais, criar climas favoráveis para outros? Ou simplesmente, em uma hipótese calcada na boa fé, ter postura um pouco descuidada demais no tocante aos efeitos sociais e políticos das matérias divulgadas pela grande imprensa? Não sou petista da "pasta rosa", apenas uma democrata convicta.
Celia Soibelmann Melhem
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Os institutos de pesquisa política, nestas eleições, falharam e foram um desserviço para a comunidade política.
José Quinto de Oliveira Borges, diretor do jornal comunitário Recreio on line
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A dificuldade maior que se tem para criticar o comportamento da imprensa em geral nas eleições está na forma como as matérias são escritas e diagramadas: alguns candidatos são apresentados de olhos baixos e de cara "amarrada"; candidatos "preferidos" são sistematicamente apresentados no alto da pagina e à direita; o texto usa verbos de ação para o candidato "preferido" e de aceitação para o "não-preferido"; costuma-se editar na TV as propostas do candidato "preferido", e apenas as considerações gerais dos "não-preferidos"; dá-se mais espaço a um programa no estado/prefeitura governado pelo "preferido", enquanto se ignoram os mesmos programas em estados/prefeituras não-governados por "preferidos".
Etc. etc. etc. São algumas das sutilezas que somente olhos acostumados vêem e ouvidos treinados escutam. Influenciar pessoas é possível, mas o pior é usar de artifícios para fingir uma neutralidade inexistente. Nessas situações, o leitor-eleitor não tem defesa, porque não foi alertado pela preferência do órgão da imprensa.
Vera Silva
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Não seria de bom ton se a imprensa ao divulgar pesquisas informasse quem as encomendou? E, não seria melhor evitar de se divulgar certas "pesquisas" nas vésperas da eleição? Principalmente quando essa "pesquisa" já aponta como certo o vencedor, ou quem vai para o segundo turno? Isso não induz o eleitor? Principalmente os mais desinformados? Aliás, a maioria dos eleitores brasileiros é pessimamente informada. Propositadamente, é lógico.
Para terminar, aquela historia de vir o voto para deputado federal em primeiro lugar na urna eletrônica foi uma piada trágica!! Foi só para dar voto de legenda ao partido do governo. Pois a maioria dos eleitores esperava em primeiro lugar o voto para presidente. Principalmente os eleitores que têm aquele perfil já citado por mim. Votaram enganados. Aí, quando viram, já era tarde. Se é que viram...
E ninguém levantou essa lebre antes da eleição??!! É de se admirar!!
Pércio Martins, Santa Bárbara d'Oeste, SP

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