QUALIDADE NA TV



GAYS NA TV
Arco-íris de araque

Beatriz Singer

Sônia Braga, encarnando a bem sucedida artista plástica Maria Diega Reyes, viveu por três episódios a personagem gay que tentou seduzir Samantha (Kim Cattrall), no seriado Sexo e a Cidade, transmitido em horário nobre pela HBO.

O Cinemax, por sua vez, exibe o especial O Outro Lado de Hollywood, que mostra os tabus e preconceitos que rodeiam a homossexualidade, não só como tema de filmes mas também como fantasma que sempre povoou os bastidores do cinema americano. O mesmo canal exibe a versão americana da série Os Assumidos (Queer as Folk), primeiro seriado gay da história, que aborda a homossexualidade de forma séria, descrevendo o cotidiano de três gays. O Eurochannel também embarcou na onda, exibindo os dez primeiros episódios da série original, transmitida pelo britânico Channel Four. A série foi sucesso na Inglaterra à medida que a população mais "conservadora" se manifestou contra.

Menos séria, mas não menos popular, é a sitcom Will & Grace, exibida pela Sony. A comédia de situações mostra o dia-a-dia de dois homossexuais que são amigos mas não se atraem, e da vivência com as respectivas amigas. Apesar de não poupar trejeitos, o seriado é recebido com risadas e aplausos pelo público gay.

Os exemplos são inúmeros, principalmente na TV paga. Não há dúvidas de que a homossexualidade é tema que desperta interesse e curiosidade. E é a audiência a responsável por trazer o assunto às telinhas com freqüência cada vez maior.

A Parada do Orgulho Gay, realizada em junho, em São Paulo, nunca foi tão televisionada. Não só por se tratar de um evento que reuniu cerca de 200 mil pessoas, quase o dobro do ano passado, mas por dar a deixa para adentrar a questão da homossexualidade em seus mais amplos contextos. Além de ser noticiada em todos os telejornais, abriu novos temas de debate.

A GNT, por exemplo, convidou quatro famílias para comentar a dificuldade de ter um filho gay. O programa Perfil, de Otávio Mesquita, pintou e bordou pela Avenida da Consolação, em São Paulo, solicitando beijos entre casais e reboladas e depoimentos ousados. Apesar da desenvoltura – chegou a pedir para ver o "piu-piu" de um travesti, virando em seguida para a câmera e dizendo "ai, que bonitinho!" –, quis deixar bem claro em cada bloco do programa que é "espada".

A MTV foi outra a mostrar ad nauseaum a Parada. Desde abordagem séria para o programa Contato ou para o Erótica, até a destrambelhada, para o Gordo a Go-Go. Recentemente anunciou que o programa Fica Comigo, apresentado pela modelo Fernanda Lima, apresentará uma versão gay. No programa, quatro pessoas são selecionadas, entre milhares cadastradas pela internet, para tentar conquistar o "querido" da semana, que decide se quer ou não "ficar" com o finalista. O programa, que desde a estréia em setembro de 2000 só exibiu flertes heterossexuais, transmitirá a versão para homossexuais masculinos em 6 de agosto. A emissora afirmou que haverá uma versão para lésbicas ainda neste ano.

Além do horizonte

Mesmo a conservadora Globo não resistiu às tentações dos pontos de audiência. Em junho, a emissora e o Ministério da Justiça se estranharam. A nova novela das 7, As Filhas da Mãe, programada para setembro, conta com um personagem transexual – interpretada por Cláudia Raia –, o que teria levado o Ministério a avaliá-la imprópria para o horário, uma vez que promove o "desvirtuamento dos valores éticos". Mas como Globo é Globo, o ministério liberou a novela para o horário original.

Até em estréias o tema tem aparecido. Monique Evans mostrou-se bastante à vontade com os travestis cariocas exibidos em matéria de estréia de seu novo e quente Noite Afora, na Rede TV!. Sérgio Mallandro, Ratinho e outros apresentadores de programas de gosto questionável também aprenderam que mergulhar no tema é, na certa, deliciar-se no Ibope. Até o evangélico Fala Que Eu Te Escuto, da TV Record, fez-se presente na Parada Gay e discutiu a possibilidade de um homossexual abandonar sua condição para "voltar ao normal".

O polêmico tema da homossexualidade abre espaço para uma ampla discussão sobre TV. Por um lado, a homossexualidade está saudavelmente deixando de ser tabu. Muitos gays admiram a projeção que a mídia tem dado à sua causa. A maioria dos que já saíram do armário crê que a exposição do tema ajudará a tirar dos homossexuais o rótulo de doentes, vítimas de desvios, anormais ou inferiores socialmente.

Existem programas, principalmente na TV paga, que realmente esclarecem e desmistificam diversas questões ligadas à homossexualidade. Mas existe o outro lado, infelizmente dominante. Grande parte dos programas populares de TV aberta mais atrapalha que ajuda. Mais confunde que esclarece. Há algumas semanas, o programa de Sérgio Mallandro fez um jovem homossexual, encontrado na platéia, dançar funk colado a um heterossexual, também retirado da platéia, que o empurrou diversas vezes, resmungando termos de desprezo e repugnância.

Se é possível acreditar que algumas emissoras estão realmente mais preocupadas com a causa que com a audiência, as populares, de audiência de massa, desfazem o castelo de cartas. Programas que promovem contato direto com o povo só fazem afirmar o preconceito em todas as suas facetas. Expõem visões deformadas de homossexualidade, apoiadas por platéias anestesiadas por um senso comum retrógrado e desestruturado. Apagam qualquer esforço real de mostrar a homossexualidade como uma escolha tão justa quanto a heterossexualidade.

O tema pode estar crescendo na TV, mas enquanto a quantidade for prioridade, a falta de qualidade pode até causar o efeito inverso. Não é a exposição da causa que irá popularizá-la, torná-la aceita pela sociedade, mas sua correta abordagem. E nesse aspecto a televisão popular ainda está muito aquém de corresponder às expectativas da comunidade gay. Parece que não será dessa vez que a ditadura do Ibope verá terra além do horizonte.