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QUALIDADE NA TV
ÓPERA DE SABÃO
Novelas são feitas para vender
Heloisa Buarque de Almeida
No caderno TV Folha [Folha de S.Paulo, 21/5/00], na sessão de crítica à TV [pág. 2], Alcino Leite Neto, assim como outros artigos recentes deste e de outros periódicos, discute a nova novela das 7 da Globo, Uga Uga. Em vários artigos e críticas, alguns comentários, por vezes bem ácidos, são interessantes e pertinentes, mas ao mesmo tempo problemáticos. Comento aqui as idéias de alguns destes artigos recentes sobre a novela das 7, mostrando que é preciso ir além da crítica de conteúdo para entender as telenovelas.
Uma primeira idéia geral é a acusação de que essa novela é uma mistura de muitas repetições: o mesmo tipo de corre-corre aventureiro com jovens bonitos e corpos sensuais, os mesmos atores repetindo um papel já feito antes (Humberto Martins e Marcelo Novaes), ou a contínua exploração de corpos femininos e masculinos, ou a falta de mais cuidado técnico e de produção etc. Por um lado, essas críticas são absolutamente "corretas", mas é muito pouco acusar Uga Uga desses defeitos, esquecendo que é o mesmo que acontece em todo o resto da programação da TV.
Em primeiro lugar, vejamos as novelas. Telenovelas brasileiras, especialmente as da Globo, são um grande produto industrial. O faturamento das novelas da Globo corresponde a aproximadamente um terço do faturamento da emissora (segundo Octávio Florisbal, superintendente comercial da emissora no artigo "Novela: a grande dama da televisão brasileira", Mídia e Mercado, agosto/setembro 1996, pág. 8.).
As novelas dão muito lucro pelo simples motivo de que são grandes "vendedoras" de produtos – lembremos que quem sustenta a televisão são os anunciantes. Isto é certo quanto à Globo, embora com outras emissoras seja diferente: o SBT, como apurou a Folha de S.Paulo, precisa dos lucros das outras empresas do Grupo Silvio Santos (Baú da Felicidade e TeleSena, por exemplo) para se manter.
A Globo, é sem dúvida uma televisão estruturada em termos administrativos de forma a manter-se pela renda obtida com os anunciantes, como TVs abertas norte-americanas de cunho comercial. Porque TV é um grande negócio, caro e arriscado, e porque a Globo conseguiu estabelecer algumas fórmulas muito eficientes de renda, como o formato telenovela.
Os modelos se mantêm porque há muito dinheiro investido ali. Segundo a Folha de S.Paulo [9/5/99], a Rede Globo gasta em média 90 mil reais na produção de cada capítulo de telenovela. Para pagar esse custo é preciso ter alto índice de audiência e, assim, atrair os anunciantes.
Repetir modelos
Para manter o público ligado na Globo é mais garantido "repetir" o que está dando certo, e que sempre deu certo. Por que mexer num time que está ganhando? Claro que é preciso fazer algumas pequenas mudanças e novidades para atrair também o espectador. Não basta reprisar Quatro Por Quatro – é preciso dizer que Uga Uga é nova e diferente, porque tem um índio loiro, uma moça que se chama Maria João etc.
Se a audiência cair muito, pode-se tentar inovar ainda mais, ou simplesmente recorrer àquilo que é mais "líquido e certo". São estratégias empresariais e de vendas que estão em questão. É preciso agradar o público e os anunciantes do mesmo modo. (Uma outra discussão vai no sentido de que os modelos narrativos e suas convenções também agradam o público, mas isso é assunto para outro artigo.)
No meu ponto de vista, não se trata de um problema de autores localizados que a novela seja repetitiva. Carlos Lombardi talvez discorde do que vou afirmar aqui, mas novela é sempre repetição de fórmulas e alguns autores estabeleceram certas fórmulas de sucesso – Benedito Rui Barbosa é um outro caso notável, em exibição em horário ainda mais nobre e lucrativo, o da "novela das 8".
Novelas repetem e aproveitam vários conteúdos e estruturas da própria indústria cultural de modo mais amplo – do cinema, dos outros programas de TV etc.
Uga Uga utiliza, sim, fórmulas já "consagradas" do autor Carlos Lombardi. Mas o uso de mesmos atores nos mesmos papéis já acontecia com Regina Duarte, Tarcísio Meira e quase todos os atores de sucesso da telenovela brasileira desde os anos 60.
Em Terra Nostra, Antônio Fagundes não apenas repete em Gumercindo traços marcantes do Rei do Gado como Raul Cortez sofre esse processo igualmente, repetindo o personagem da novela anterior de Rui Barbosa. E a "culpa" não é só dos atores. Quanta coisa há em comum entre Giuliana de Terra Nostra e Luana de O Rei do Gado?
Não é apenas com os personagens que as novelas são repetitivas, mas também com a posição que estes ocupam dentro da estrutura narrativa (casal de protagonistas versus vilão, por exemplo). Há diferentes estilos de histórias, mas dentro deles repetem-se fórmulas tradicionais das novelas mais ou menos rurais de Benedito Rui Barbosa, as comédias corridas e picantes de Lombardi, as comédias inspiradas no cinema de Sílvio de Abreu, os melodramas familiares de Manoel Carlos, as heroínas melodramáticas, modernas e urbanas de Gilberto Braga, o realismo fantástico de Dias Gomes – para mencionar apenas alguns. Em muitas delas, temos heroínas desprotegidas lutando contra vários contratempos para alcançar seu verdadeiro amor, vilãos e vilãs que atrapalham tal objetivo, personagens secundários que desdobram a trama em outros pares românticos, núcleos pobre-e-rico etc.
No entanto, além de repetir o tipo forte e valente, em Uga Uga Humberto Martins repete também o tipo homem injustiçado, fugindo de perigos muito presentes no Brasil – bandidos, narcotráfico, contrabando... Além disso, o personagem tem sempre um lado mais "sensível" e paterno, quase maternal. Em Uga Uga, Baldocchi criou o irmão mais moço e assumiu comportamento paternal desde jovem. Não é apenas o tipo durão. Mas a repetição de um tipo já explorado por esse mesmo autor, mas também presente na indústria cultural em geral.
Às vezes a repetição vai além de tipos conservadores – pode ser paródia e até mostrar tipos masculinos e femininos que rompem com o tradicional. Há homens mais sensíveis, ou mulheres independentes, ou homossexuais simpáticos. Ao invés de ser apenas "imbecilizantes" (embora muitas vezes também sejam), certas ousadias ajudam a transformar as concepções tradicionais de gênero no Brasil. O tipo Malu Mulher pode ter sido ousado em 1979, num seriado feito para atingir um camada social mais elevada e fundamentalmente urbana. Mas seu sucesso ajudou a disseminar uma luta feminista que se diluiu em histórias melodramáticas em muitas novelas posteriores, atingindo um público muito mais amplo.
Ao mesmo tempo, isso não impede outros retrocessos. Têm razão os comentários que acusam Uga Uga de explorar demais os corpos sensuais e nus, ou quase nus, de homens e mulheres (não só mulheres...). Aqui entra-se numa discussão mais ampliada sobre a TV brasileira e a questão da sexualidade e da nudez. A exploração diária do traseiro da Feiticeira em O+, da Bandeirantes, depois de Tiazinha, continua sendo o sinal mais óbvio de que isso não é um problema nem de Uga Uga e nem só da Globo.
Burra gostosa
Ainda que muita gente e setores da sociedade civil critiquem com veemência o excesso de sexo e violência na TV – a TFP com o seu "Amanhã dos nossos filhos", setores da igreja católica ou as igrejas pentecostais, ONGs como TVer, educadores e psicólogos; ou, por fim, a reação do governo pedindo um código de ética às emissoras –, por mais que critiquem pouco mudou o conteúdo da TV brasileira em função desses apelos. Aliás, nem o governo pressionou de fato pelo tal código de ética, ou por uma regulamentação mais geral. E há também muitas críticas à idéia de uma volta da censura.
Cabe mencionar artigo de Fernando de Barros e Silva (na mesma Folha): não adianta reclamar do baixo nível da TV sem lembrar que ela faz parte da sociedade brasileira, e não é um caso à parte.
As críticas mais importantes precisam ser generalizadas e deslocar-se dos indivíduos que fazem a TV (atores, autores, diretores) para um sistema de produção comercial. Precisam ainda conectar-se com o problema estrutural da TV no Brasil. Seu aspecto comercial determina muito do que acontece ali. E é supostamente em nome de "atender aos desejos dos espectadores" que a programação é justificada pelos profissionais da TV. No entanto, se pensarmos no poder inegável deste meio de comunicação no Brasil – cobre praticamente 100% do território nacional e atinge 85% dos domicílios – sempre é possível perguntar qual é o público que interessa agradar, já que parece impossível agradar a todos. Carlos Lombardi, autor de Uga Uga, tem que pensar em agradar e seduzir por meses a fio o "seu" público jovem da novela das 7 (se não fizer isso pode até perder o emprego); mas a Globo pensa mais longe, também no público dos anunciantes e publicitários, com quem a emissora negocia espaços comerciais (anúncios e merchandising). Nesse sentido, parece mais seguro investir em estereótipos como a loira burra gostosa e boazinha, o malandro forte, brigão e comedor de mulheres, reforçando preconceitos e chavões que combinam bem com os personagens também estereotipados dos anúncios, facilitando a passagem da narrativa para o comercial.
(*) Mestre em Antropologia, doutoranda na UNICAMP e pesquisadora de televisão
ASPAS
Stephen Labaton
"EUA liberalizam normas para empresas de rádio e televisão", copyright The New York Times / O Estado de S.Paulo, 1º/6/00
"Washington – A Comissão Federal de Comunicações (FCC) propôs esta semana afrouxar vários regulamentos impostos há décadas às empresas de radiodifusão, incluindo uma que as impede de possuir uma emissora e um jornal na mesma cidade e outra que proíbe uma empresa de ter mais de uma rede nacional de televisão.
As propostas podem ter implicações significativas para várias fusões nos ramos de radiodifusão e jornalístico. Pelas normas atuais, seriam necessárias vultosas alienações de ativos depois que a Viacom comprou a CBS e a Tribune Company propôs comprar o Times Mirror.
Normas obsoletas – Para funcionários da FCC, algumas dessas restrições ficaram obsoletas à medida que os americanos se voltam para novas tecnologias como a televisão via satélite e a Internet de alta velocidade.
Ao mesmo tempo, um grande número de acordos empresariais levou a novos níveis de concentração nos setores de radiodifusão, a cabo e telefônico, pondo à prova os limites sobre propriedade impostos pela FCC e pelo Congresso na Lei de Telecomunicações de 1996.
‘O mercado de mídia torna-se cada vez mais dinâmico e competitivo, com um crescente número de distribuidores de informação e plataformas de mídia e os americanos usando essas opções mais que nunca’, disse William E. Kennard, presidente da FCC. ‘Nosso relatório equaciona o interesse público relativo à diversidade da propriedade com as exigências de um mercado em mudança e com a necessidade de as empresas de radiodifusão aproveitarem a eficiência econômica e continuarem competitivas.’
Diversidade – Os regulamentos sobre a propriedade dupla numa só cidade e a posse de duas redes nacionais de TV tiveram sua origem na idéia de promover a diversidade das ondas radiofônicas, e funcionários da FCC disseram que não planejam eliminar as restrições – apenas afrouxá-las em alguns casos específicos.
A FCC informou que as restrições ainda são necessárias em muitas áreas, para impedir que uma companhia controle um jornal e uma emissora de televisão na mesma praça. Mas a comissão também concluiu que em algumas cidades, principalmente as maiores, com muito mais meios de informação, ‘podem existir situações nas quais a norma talvez não seja necessária para proteger o interesse público em matéria de diversidade e concorrência’.
No caso da norma sobre a posse de duas redes nacionais de televisão, a FCC informou que duas redes emergentes, a UPN e a Warner Brothers, ainda estão em desenvolvimento e se deve deixar que elas atraiam novos investimentos de uma grande rede. Mas as normas que impedem que as quatro grandes – ABC, CBS, Fox e NBC façam aquisições entre si não serão alteradas.
As normas propostas devem entrar em vigor nos próximos meses. As mudanças ocorrem depois de intensa pressão feita por algumas das maiores companhias de radiodifusão e de jornais dos EUA, que têm interesse em continuar com as emissoras de TV recém-adquiridas.
As restrições à posse de dois meios de comunicação na mesma cidade ameaçam forçar a Tribune Company – que concordou em comprar o Times Mirror – a vender alguns ativos em três cidades (Nova York, Los Angeles e Hartford) onde as companhias têm jornais e órgãos de radiodifusão. Em Nova York, a Tribune ficaria com a WPIX (coligada da WB), e com o Newsday, que tem matriz em Long Island. A Tribune tenta há anos convencer a FCC a permitir que seja dona de um jornal e de uma emissora de TV em Fort Lauderdale, Flórida.
Prazos – A norma sobre a propriedade de duas redes de TV ameaça forçar a Viacom – que recentemente concluiu a compra da CBS – a vender os 50% de participação que tem na UPN. Quando aprovou o negócio quatro semanas atrás, a FCC deu à Viacom prazo de um ano para vender sua participação na UPN – o que talvez não será mais necessário.
A FCC não recomendou a liberação da norma que impede as emissoras pertencentes a uma companhia de chegar a mais de 35% do público nacional, levando a Fox – que está no limite máximo de audiência e quer crescer – a entrar com um processo contra a agência. ‘A decisão da FCC é um caso clássico de ação governamental arbitrária e caprichosa’, disse Chase Carey, presidente e diretor-executivo da Fox Television.
‘O limite à posse de duas TVs nacionais – uma norma da época em que apenas três redes concorriam em mercados locais – não se justifica mais e agora prejudica em vez de promover seus objetivos iniciais de interesse público relativos a diversidade, localismo e concorrência’, acrescentou Carey.
Limites artificiais – ‘Numa era em que grande número de redes nacionais está disponível para espectadores, desde os provedores de serviço a cabo aos via satélite, não faz sentido limitar artificialmente o número de mercados nos quais as companhias de radiodifusão podem concorrer’, disse.
Kennard, o presidente da FCC, disse que o argumento da Fox confundiu tendências no mercado local com tendências no mercado nacional, acrescentando que permanece a séria necessidade de impedir que emissoras de uma companhia controlem o mercado nacional.
‘A maioria dos americanos ainda recebe a maior parte de suas notícias e informações por meio do rádio e, numa democracia participativa, é vital incentivar a propagação mais ampla possível dessas informações’, disse Kennard. ‘Nossas restrições estruturais à posse procuram defender o princípio da Primeira Emenda à Constituição.’
Outros críticos disseram que o próprio comentário de Kennard – de que a maioria dos americanos depende da radiodifusão para receber notícias – demonstra que é preciso manter a restrição à posse dupla de meios de comunicação.
Poder do rádio – ‘A radiodifusão continua sendo isoladamente a fonte mais importante de informações a nível municipal para muitos eleitores e os demais recebem informações dos jornais’, disse Andrew Jay Schwartzman, presidente do Media Access Project, que promove a diversidade nas transmissões radiofônicas.
‘Ter essas vozes controladas por um número cada vez menor de proprietários não vai ajudar a democracia’, acrescentou Schwartzman. ‘A evolução da Internet ainda não mudou o modo como as pessoas decidem votar para prefeito. O grau em que umas poucas potências econômicas em qualquer comunidade podem controlar o debate hoje não é menor do que no passado.’"
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