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QUALIDADE NA TV


DOCUMENTO
O que o Brasil pensa da TV

Pesquisa mostra por que a televisão mais atrapalha
do que ajuda na educação de crianças e jovens

O espírito da portaria nΊ 796, baixada pelo Ministério da Justiça em 12 de setembro e que obriga a classificação da programação de TV por público e horário (a que o lobby empresarial indevidamente tachou de "censura"), teve como base as informações coletadas pela pesquisa Valores sociais e meios de comunicação de massa, cujos levantamentos de campo deram-se entre junho e julho de 1997. As conclusões da pesquisa – financiada pela Unesco – são estarrecedoreas e o Observatório da Imprensa reproduz abaixo seus principais resultados.

A etapa qualitativa desse levantamento, realizada pela Retrato Consultoria e Marketing, consistiu numa pesquisa exploratória, por meio da técnica de discussões em grupo, nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Goiânia, Recife e Uberlândia. Essa etapa trabalhou homens e mulheres adultos (30 a 50 anos), pais ou responsáveis por crianças e/ou adolescentes na faixa de 8 a 17, com dois filhos ou mais nessa faixa etária, das classes sócio-econômicas B e C (critério Abipeme); e crianças (10 a 14 anos) das classes sociais B, C e D+, que tivessem irmãos na mesma faixa etária. Foram montados 18 grupos de discussão, entre 4 e 20 de junho de 1997, assim distribuídos em cada praça pesquisada:

  • Um grupo masculino, na faixa etária entre 30 a 50 anos, pertencente às classes sociais B, C e D+ (critério Abipeme), pais e/ou responsáveis por crianças de 8 a 17 anos, com dois filhos ou mais nesta faixa etária;
  • Um grupo feminino, na faixa etária entre 30 a 50 anos, pertencente às classes sociais B, C e D+ (critério Abipeme), mães e/ou responsáveis por crianças de 8 a 17 anos, com dois filhos ou mais nesta faixa etária;
  • Um grupo misto, infanto-juvenil, na faixa etária entre 10 a 14 anos, pertencente às classes sociais B, C e D+ (critério Abipeme), que tenham irmãos nesta mesma faixa etária.

A fase quantitativa, realizada pelo Ibope, consistiu num estudo entre a população das regiões brasileiras do Norte, Centro-Oeste, Nordeste, Sul e Sudeste (junto a municípios em condições de capital, periferia e interior, com contingentes eleitorais de até 20 mil eleitores, mais de 20 a 100 mil e mais de 100 mil eleitores), segmentada entre pessoas com idades a partir de 30 anos, de ambos os sexos, pertencentes às classes sócio-econômicas A/B, C, D e E (critério Abipeme), pais ou responsáveis por crianças e/ou adolescentes, na faixa etária de 8 a 17 anos. Nesta etapa, foram realizadas 2.000 entrevistas, entre 24 e 29 de julho de 1997.

Os resultados da pesquisa

Percebe-se, inicialmente, a preocupação dos pais com a educação dos filhos, demonstrada não apenas pelo gap existente entre a educação recebida pelos adultos – em geral avaliada como pautada em um modelo repressivo – e aquela que desejam oferecer aos filhos, mais liberal, como também com o cuidado necessário para criar cidadãos éticos sem permitir, contudo, que sejam engolidos pela grande competitividade que, acredita-se, regula as relações sociais atualmente.

O grande volume de informações nas quais a exacerbação do consumismo pela mídia se mostra predominante, redunda, na visão dos adultos, na distorção dos valores fundamentais que desejam transmitir aos filhos, uma vez que o desejo de "ter sempre mais" tenderia a estimular o abandono de uma postura ética, substituindo-a pela "Lei do Gérson" ("levar vantagem em tudo").

Observa-se a existência de uma dicotomia entre a lógica que rege o mundo "real" e o papel da família, posicionada como um núcleo moral que tem como função precípua garantir a soberania dos valores éticos frente a uma realidade em constante mutação e com amplo acesso à informação. A necessidade de manter aberto um eficiente canal de comunicação na família se coloca de de modo a fazer frente à imposição de valores espúrios na formação dos jovens.

Além disso, existe a percepção de que a realidade familiar vem passando por mudanças rápidas, principalmente com a entrada da mulher no mercado de trabalho, dividindo assim, com terceiros (a exemplo da escola), a responsabilidade sobre a formação das crianças. Soma-se a isso a mudança do papel dos filhos no interior da família e da sociedade, que agora têm seus direitos ampliados e passam a ser vistos como indivíduos com desejos e necessidades específicas.

Esta situação, associada à velocidade das mudanças do mundo atual assim como à democratização do acesso à informação, teria ampliado a rede de relações sociais, posicionando a família como apenas mais um dentre os diferentes ambientes por onde a criança transita, tendo sido as influências em sua formação alargadas e, portanto, convivendo constantemente com valores e comportamentos por vezes opostos aos que encontra em casa.

Neste contexto, a televisão surge, como o principal veículo informativo (30% da amostra) e, para muitos, formativo (28%) – sendo avaliada como uma importante fonte de atualização de conhecimentos e como a mais importante forma de entretenimento (40%) ao oferecer uma gama de programação a custo zero.

Como principais atributos positivos da televisão identifica-se sua importância como um veículo que permite a constante atualização sobre os acontecimentos, colocando o telespectador como um "cidadão do mundo", ampliando suas fronteiras e permitindo que entre em contato com diferentes realidades. Mais ainda: sua linguagem ágil, associada aos recursos visuais, imprime à informação leveza e dinamismo, sendo considerada a audiência à sua programação como uma valorizada forma de lazer.

Ressalta-se a importância atribuída aos programas televisivos como elementos capazes de fomentar o diálogo familiar, muitas vezes atuando como um catalisador frente a temas polêmicos e/ou constrangedores, quebrando assim as barreiras porventura existentes. Além disso, especificamente junto às classes de menor poder aquisitivo, a televisão atua como um estímulo para manter os filhos em casa (classe A/B–0%; C–3%; D–8% e E–10%), amenizando os riscos associados ao mundo externo, onde a violência e o uso de drogas se apresentam como ameaças bastante próximas.

Porém, em se tratando da influência que exerce no processo educativo, identifica-se uma avaliação ambígua, posicionando-se para alguns como "mal necessário", que "ajuda e atrapalha"; e para outros, mais conservadores, como essencialmente prejudicial, posto que conflitante aos valores da família.

Desta forma, destacam-se como objetos de críticas:

  • programação considerada inadequada, ao veicular, sem qualquer critério, temáticas polêmicas (sexo, drogas), sendo responsável por uma certa "distorção" da realidade;
  • antecipação de temas e problemas (homossexualismo, traições, subornos, violência – 25% –, drogas, prostituição), reduzindo o período de inocência, o que, acreditam, pode gerar problemas comportamentais no futuro;
  • usurpação do tempo de convívio familiar, avaliação esta identificada mais intensamente junto aqueles que possuem diversos aparelhos, fazendo com que a audiência assuma um caráter individualizado, na medida em que os filhos assistem TV em seus quartos, dificultando desta forma sua regulação e acompanhamento.

De forma a amenizar os efeitos provocados pela exposição a programas percebidos como incompatíveis ou conflitantes com a educação que a família oferece, identifica-se um conjunto de estratégias no sentido de evitar que a televisão assuma um papel relevante no cotidiano dos jovens:

  • estabelecimento de horário para dormir (27%), alegando a necessidade de acordar cedo para estudar;
  • as classes mais favorecidas ressaltam o oferecimento de atividades extra-classe, tais como esportes, curso de línguas estrangeiras e informática, buscando preencher de forma produtiva os horários livres das crianças;
  • estabelecimento de uma relação direta entre a realização dos deveres escolares e a audiência de televisão, ao deixar os filhos brincarem durante o dia, fazendo com que as lições tenham que ser realizadas no período noturno, horário com temática mais "pesada";
  • apresentação de alternativas de programação, como a adesão às televisões por assinatura, aspecto predominante junto às classes de maior poder aquisitivo. Nesse sentido, destaca-se a valorização do canal de desenhos animados Cartoon Network, principalmente como forma de entretenimento para as crianças menores.

Torna-se interessante notar que os segmentos jovens, pesquisados somente na fase qualitativa deste estudo, reconhecem integralmente todas as tentativas efetuadas por seus pais no sentido de estabelecer mecanismos de controle à audiência irrestrita à programação televisiva, demonstrando, por seu turno, estratégias próprias para burlá-las. Assim, fingem aceitar as sugestões dos adultos quando estes afirmam não ser o programa adequado às suas faixas etárias, deixando de assisti-los junto aos pais e recolhendo-se em seus quartos, onde são, teoricamente, senhores dos aparelhos de TV.

Mais ainda, dado o controle remoto, mudam rapidamente de canal ou desligam o aparelho quando pressentem a aproximação dos adultos. Outros fingem dormir ou esperam que os pais adormeçam para que então possam, livremente, assistir ao que melhor lhes aprouver.

Cabe ressaltar, contudo, que em linhas gerais, observa-se que os jovens tendem a concordar com as orientações oferecidas pela família em termos da adequação da programação de TV, cinema e vídeo às diferentes faixas etárias, sendo movidos basicamente pela curiosidade, que uma vez saciada, os impede de tornarem-se espectadores fiéis.

Neste sentido, verifica-se que a principal motivação à audiência dos programas considerados como inadequados volta-se para a necessidade de "estar por dentro" dos acontecimentos, podendo conversar com os colegas em situação de igualdade.

A confiança que depositam na educação recebida faz com que afirmem que adotariam as mesmas atitudes dos pais caso tivessem filhos, reconhecendo que certos temas, especialmente sexo "pesado", são inadequados às faixas etárias mais jovens. Faz-se mister notar, no entanto, a percepção de que são capazes de identificar e separar plenamente ficção da realidade, assim como conter qualquer possível efeito negativo provocado pela programação, posicionando-se como "senhores de seu próprio destino", razão pela qual se sentem bastante confortáveis e seguros ao burlarem as determinações paternas.

Merece registro que, segundo os dados da pesquisa quantitativa, cerca de metade da amostra pesquisada de adultos / pais (53%) não exerce qualquer tipo de controle sobre a audiência televisiva.

Apesar da maioria dos entrevistados (57%), afirmarem não se preocupar sensivelmente com o conteúdo da programação televisiva – ao contrário do que se observa na fase qualitativa –, verifica-se que este veículo é considerado para 68% da amostra como exercendo muito ou algum tipo de influência na formação das crianças e jovens.

Relativamente à influência que a televisão exerce na formação dos jovens, identifica-se como primeira reação sua avaliação como "vilã", contrapondo-se aos valores transmitidos pelos pais.

Em geral, detecta-se a avaliação de que a TV atrapalha mais do que ajuda a educação das crianças e jovens:

30% do total da amostra – Ajuda;

41% do total da amostra – Atrapalha.

Verifica-se que a percepção de que a TV atrapalha é maior quanto mais baixa a classe social (A/B–32%; C–39%; D–40%; e E–47%); assim como entre aqueles que praticam alguma religião, na medida em que, como demonstra a fase qualitativa, os valores veiculados pela programação televisiva contrapõem-se aos ditados pelas diferentes religiões.

Entre aqueles que apontam espontaneamente que a TV atrapalha a educação dos filhos, verifica-se que o principal problema volta-se para o fato de "atrapalhar o horário dos estudos / fazer com que não queiram estudar" (42%); sendo também citados a veiculação excessiva de "programas violentos" (13%), "faz com que as crianças sejam indisciplinadas / sem limites" (9%); "influencia nas atitudes" (9%) e "mostra cenas de sexo / eróticas / pornográficas" (8%).

Entre as programações consideradas inadequadas às crianças e adolescentes:

Novelas – 52% da amostra (+ entre os pais + jovens, de instrução alta);

* "vilã" para as classes A, B e C

Filmes –51% do total (+ entre os pais de educação primária);

* "vilão" para as classes D e E

Programas Policiais – 34% (Na Rota do Crime, Cidade Alerta, Aqui Agora)

(+ forte entre os pais + jovens, de alta instrução).

* mais inadequados para as classes A e B. Para as demais, são menos rejeitados que filmes e novelas.

Porém, à medida em que avança – durante as discussões em grupo – o processo de reflexão sobre esta questão na Pesquisa Qualitativa, observa-se que os possíveis males provocados por este meio de comunicação ou pela veiculação de temáticas impróprias a determinadas idades são amenizados pela confiança que demonstram depositar na educação que oferecem aos filhos.

Sob esta ótica, detecta-se que parcela considerável do segmento adulto acredita no papel educativo da programação televisiva, sendo importante ressaltar, contudo, que esta assume uma função que não ultrapassa os limites de uma coadjuvante neste processo, na medida em que apontam que a responsabilidade na formação moral dos filhos não pode e não deve ser delegada a qualquer outra instância que não seja a família. Assim, mesmo aqueles que inicialmente a posicionavam como capaz de exercer influências significativas no comportamento, tendem a reconhecer a soberania do núcleo familiar, na medida em que apontam caber a família o controle e acompanhamento do tipo de informação a que seus filhos têm acesso, resumindo em uma frase esta relação: "O importante é não deixar engolir sem mastigar".

Entre os que acreditam que a TV auxilia a educação dos filhos, destaca-se que esta "ajuda a conhecer o mundo e traz informações" (25%); por permitir que sejam assistidos "programas educativos, aulas e TV Escola" (17%), e porque "ajuda a ensinar e educar" (10%).

Em acordo com este posicionamento, identifica-se que junto aos adultos pesquisados, a influência negativa da televisão se apresenta de forma mais intensa, especificamente junto a pessoas que apresentam problemas de personalidade ou no relacionamento familiar, indivíduos que por terem "a mente fraca", se tornam suscetíveis a qualquer tipo de apelo. Neste sentido, apontam serem os comportamentos desviantes gerados no âmbito familiar, eximindo a programação da televisão, cinema e vídeo de qualquer responsabilidade, posto serem a ela anteriores, cabendo portanto às famílias a sua resolução.

Os jovens, por sua vez, tendem a amenizar ainda mais a possível influência da programação em seus comportamentos, apontando que esta, quando ocorre, não ultrapassa um nível superficial, sendo exercida basicamente através de modismos (roupas, gírias, cortes de cabelo), aspectos estes que em nada interferem em suas personalidades ou comportamentos. Neste sentido, observa-se a valorização da educação recebida através da família, vista como a principal referência em termos de modelo de conduta e valores morais.

Apesar do reconhecimento por parte dos jovens e dos adultos sobre o papel menor dos meios de comunicação frente à influência da família na determinação do comportamento, torna-se importante ressaltar a preocupação dos pais no sentido de acompanhar a audiência de seus filhos, tomando conhecimento sobre os valores que são apresentados, de modo a contrapô-los, se necessário, àqueles que têm como paradigma.

Nesse contexto, destacam a impossibilidade de estarem fisicamente presentes durante todo tempo em que os jovens assistem à programação da televisão, cinema e vídeo, seja por motivos de trabalho ou ainda pelo fato de não compartilharem dos mesmos interesses e preferências que os demais membros da família no que tange aos programas.

Em se tratando da avaliação sobre os filmes veiculados no cinema, verifica-se que a frequência das crianças e jovens aos cinemas, a exceção da classe A/B, se apresenta bastante reduzida - 73% (classe A/B: 38% - C: 60% - D: 81% - E: 89%) afirmam que seus filhos não possuem o hábito de frequentá-lo - admitindo assim uma preocupação reduzida frente aos filmes assistidos (3% muito preocupados e 5% preocupados). Cabe ressaltar que tendem a avaliar os filmes assistidos pelas crianças e jovens no cinema como adequados às suas faixas etárias (20%).

Mais ainda, no que se refere aos mecanismos de controle sobre os filmes exibidos no cinema, verifica-se um grande desconhecimento sobre as formas pelas quais este é exercido (44%), enquanto que 42% acredita não existir qualquer forma de controle. 11% afirma a existência de controle por faixa etária.

Relativamente aos filmes assistidos em vídeo, observa-se que estes não se apresentam como capazes de despertar grandes preocupações junto aos pais, na medida em que apenas 4% afirmam estar muito preocupados / preocupados. Assim, observa-se que estes se colocam como responsáveis pelo aluguel junto aos filhos mais jovens, impossibilitados de irem sozinhos às locadoras, situação essa que permite que os adultos selecionem eles mesmos aquilo que consideram adequado às crianças. Da mesma forma, afirmam que a proibição do aluguel de filmes pornográficos a menores é exercida pela própria locadora.

Por seu turno, em se tratando da programação televisiva, observa-se que esta se revela capaz de suscitar constrangimentos quando temas considerados inadequados são assistidos conjuntamente pela família. Diante disso, tendem a adotar uma série de artifícios e estratégias de modo a superar esse sentimento de desconforto, a saber:

  • Na etapa quantitativa, reafirma-se como estratégia adotada de forma mais usual pelas famílias, a tendência a desligar a televisão ou a mudar de canal (47%) quando se deparam com cenas constrangedoras, comportamento esse que se acentua à medida em que diminui o grau de escolaridade dos pais.
  • Outra forma de evitar maiores constrangimentos volta-se para a tentativa de desviar o interesse frente às cenas apresentadas (23%), enquanto que o hábito de aproveitar os temas apresentados pela TV para conversar com os filhos se revela como prática de 12% da amostra. Cabe ressaltar contudo que quanto maior a escolaridade dos pais, essa tendência se apresenta com maior intensidade (primário – 7% vs. superior – 30%).

Verifica-se que a decisão sobre o tipo de programação assistida, assim como o horário limite para que as crianças e adolescentes assistam TV, não é praticado por 46% dos entrevistados, sendo que em 27% dos casos está nas mãos do chefe da família (em sua maioria homens) e em 25% sob as rédeas das donas de casa.

A classe social também interfere significativamente nesta decisão, na medida em que para 53% das classes A / B não há necessidade deste controle, enquanto que 49% da classe C, 45% da classe D e 41% da classe E, observa-se o mesmo.

Como outra variável interveniente neste comportamento, identifica-se a adesão a uma religião, sendo observado que:

  • 63% dos evangélicos exercem controle;
  • 55% dos católicos exercem controle;
  • 48% dos católicos não-praticantes exercem controle.

O número de crianças em casa interfere também; quanto maior o número, maior a necessidade de acompanhamento e mais a decisão sobre o que o que deve ser controlado se concentra no chefe da família.

Muito embora, em geral, a decisão sobre o tipo de programação e o horário a ser assistida a TV seja do chefe da família, observa-se que cuidar para que estas restrições sejam cumpridas é eminentemente uma tarefa da dona de casa.

Entre os que estabelecem restrições, a tarefa de fazer com que estas sejam cumpridas:

  • 37% dos chefes das famílias;
  • 55% das donas de casa.

Em se tratando da obediência às restrições impostas à audiência a TV, observa-se que a maioria dos adultos pesquisados tende a acreditar que seus filhos respeitem suas recomendações (93%), sendo totalmente obedecidos (59%) ou parcialmente obedecidos (34%). Verifica-se que quanto mais elevada a classe social, menor a crença de que este controle será totalmente obedecido, provavelmente pela presença de maior número de televisores nos domicílios e especialmente nos quartos das crianças.

Torna-se importante destacar o comportamento dos jovens frente a esta questão – avaliado somente na etapa qualitativa deste estudo - que afirmam desobedecer frequentemente as restrições impostas pelos pais, ainda que seja apenas como uma forma de enfrentá-los ou de "matar" a curiosidade, e não por um interesse específico na programação controlada pela família.

Relativamente ao posicionamento frente às diferentes temáticas, às quais crianças e adolescentes encontram-se expostas através dos meios de comunicação, observa-se que a questão sexual se apresenta de forma polêmica junto aos diversos segmentos pesquisados. Mais ainda, detecta-se a existência de tratamento diferenciado na audiência desta temática em função do sexo e idade dos filhos, havendo maior aceitação do interesse dos rapazes pelo tema, enquanto que este se revela de certa forma como um tabu junto à audiência feminina jovem. Cabe ressaltar, entretanto, a dificuldade apontada pelos adultos na etapa qualitativa deste estudo, em estabelecer mecanismos efetivos de controle junto à faixa etária acima de 10 anos, depreendendo-se ser este o limite simbólico da infância.

Em se tratando, porém, da adequação dos filmes pornográficos e programas eróticos às diferentes faixas etárias, observa-se que para 31% dos adultos pesquisados na fase quantitativa, estes só deveriam ser assistidos por maiores de 18 anos.

A extrema preocupação dos adultos frente às cenas de sexo explícito veiculadas pela programação parece ecoar diferentemente junto ao segmento jovem, observando-se que estes não demonstram interesse significativo nesta área, na medida em que apresentam um comportamento de audiência episódica, identificando-se como mola-mestra a curiosidade que, uma vez saciada, esgota-se em si mesma.

Cabe ressaltar que as cenas que envolvem sexo se revelam plenamente aceitas quando este se apresenta contextualizado em uma história e, ainda assim, desde que permeado por sentimento (amor romântico), sendo então destacado em sua beleza e naturalidade. Como exemplos típicos desse tipo de abordagem identifica-se os filmes Ghost e Lagoa Azul, onde o sexo recebe um tratamento distanciado de qualquer forma de malícia ou apelação.

Assim, detecta-se forte rejeição às cenas de sexo quando estas se reafirmam segundo os seguintes aspectos, a saber:

  • associadas a algum tipo de violência – tal como ocorre em estupros (51% dos pais), sendo importante notar que estas são consideradas como imagens "chocantes" pelas jovens, provavelmente por se sentirem vulneráveis a este tipo de ocorrência;
  • realizadas sem qualquer outra motivação ou sentimento além da busca pelo prazer sexual, situação esta que remete à preocupação em criticar, ainda que de forma velada, este comportamento com seus filhos, na medida em que somente o aceitam quando revestido por amor;
  • apresentadas de forma explícita a exemplo do que ocorre nos programas Cine Privê e Sexy Time. Cabe ressaltar que a audiência em família a cenas de sexo explícito gera constrangimentos de toda ordem (para 71% da amostra), especialmente quando adultos e crianças de sexos opostos (mães com filhos e pais com filhas), sendo comum a utilização de recursos para desviar a atenção – pais disfarçam, puxam outro assunto, filhos simulam desinteresse, indo beber água, ao banheiro etc.

Considerando-se ainda a temática sexual, observa-se forte polêmica sobre a questão homossexual na programação televisiva, assim como de cinema e vídeo. Se por um lado esta se posiciona de forma valorizada junto ao segmento feminino adulto quando apresenta uma relação de amor "verdadeiro" entre pessoas do mesmo sexo, sendo apontada como uma importante contribuição no sentido de amenizar o forte preconceito existente; por outro, verifica-se que esta relação não deve ultrapassar a sugestão e / ou insinuação.

Assim, mesmo entre aqueles que tendem a se mostrar menos refratários a esta temática, a explicitação do homossexualismo se revela como algo impactante, não sendo concebível a veiculação de imagens que sugiram qualquer tipo de contato físico entre os parceiros para 49% da amostra.

Por seu turno, identifica-se forte reação masculina à abordagem dessa questão, observando-se um sentimento de indignação e revolta frente à veiculação de programas nesta linha, vistos como prejudiciais à formação moral dos jovens. Merece registro a aceitação do homossexualismo quando revestido de comicidade, a exemplo do que ocorre nos programas de humor.

Mais ainda, questionam este tipo de abordagem quando esta se apresenta de forma absolutamente natural e corriqueira, sem envolver qualquer tipo de problematização familiar, destacando que programações nesta linha desconsideram o tabu da virgindade, assim como apresentam um comportamento bastante avançado – associado, em nível imaginário, aos segmentos mais liberais dos grandes centros urbanos.

A rejeição às cenas de sexo aparece também quando utilizadas apenas como um artifício para a elevação dos índices de audiência dos programas – situação esta em que se destaca o caráter apelativo, tal como ocorre no Domingo Legal (Gugu Liberato), exemplo máximo do uso comercial do sexo, rejeitado em todas as praças pesquisadas na etapa qualitativa.

Vem somar-se a esta avaliação a novela Xica da Silva, veiculada pela Rede Manchete, sendo criticada pela intensa utilização das cenas de sexo como uma forma de fazer frente à programação da Rede Globo, líder de audiência no horário. Neste sentido, identifica-se restrições à audiência desta novela pelo público mais jovem, sendo importante notar que estes, por sua vez, não demonstram grande interesse em assisti-la.

Assumem também grande relevância na fase qualitativa as críticas à erotização do corpo infantil, sendo rejeitados os programas que incentivam a apresentação de "clones" de Xuxa e Carla Perez, assim como aqueles que se utilizam de "meninos imitando Michael Jackson", situação esta que conota a ausência de respeito pelo próprio corpo e a valorização de profissões tais como "modelos", onde a beleza se apresenta como principal requisito para o sucesso, em detrimento de outras que exigem estudo e disciplina, aspectos estes extremamente valorizados pelos adultos no processo de formação dos jovens.

Além disso, a sensualização da criança tenderia a estimular a iniciação sexual precoce, assim como a pedofilia. Neste sentido, a exploração comercial desse tipo de atração pelas emissoras se apresenta como algo constantemente abordado de forma crítica pelos adultos junto a seus filhos, objetivando amenizar os possíveis efeitos deste tipo de programação sobre os jovens.

Merece registro, no entanto, que apesar dos preconceitos e constrangimentos na abordagem da temática sexual, os adultos tendem a se utilizar deste tipo de programas para conversar com os filhos, apresentando seus valores e visão de mundo, contrapondo-a aos veiculados pela televisão. Neste sentido, esta atua como uma ferramenta didática, sendo especialmente utilizada para o diálogo sobre iniciação sexual, prevenção a doenças sexualmente transmissíveis, contracepção e a gravidez na adolescência, além de questões que envolvam os diversos aspectos de um relacionamento afetivo.

Sob esta ótica, o filme Kids revela-se como um típico exemplo da apropriação pelos adultos de uma temática conceitualmente avaliada como inadequada aos jovens, sendo utilizado didaticamente para dar o start no diálogo entre pais e filhos. Assim, temas como a Aids, o uso de drogas, o sexo sem amor e o desrespeito ao corpo da mulher, presentes nessa produção, recebem grande valorização, sendo importante observar a preocupação em que este seja assistido no ambiente doméstico, em conjunto com os pais.

Por outro lado, identificam-se menores constrangimentos frente à questão da violência, sendo que dentre essas, aquelas que enfrentam maior rejeição voltam-se para imagens de corpos mutilados, cobertos de sangue, sejam estas imagens reais ou ficcionais (28%) superam as restrições apresentadas pela veiculação dessas mesmas cenas em filmes (24%), enquanto que imagens explícitas, ou comportamento racista e de justiçamento (23%) se apresentam como mais aceitáveis.

Nesse sentido, detecta-se grande apreciação dos filmes de ação tanto pelos jovens quanto pelos adultos, sendo "Rambo" e "Arnold Schwartznegger" tidos como ídolos e garantia de um bom "programa familiar", reunindo em torno da televisão pais e filhos.

A partir desse exemplo, observa-se que a violência ficcional – contextualizada em uma história ou em uma "causa" (guerra, ideologia política, justiçamento etc) – recebe plena aceitação, sendo eximida de qualquer possível influência negativa sobre o comportamento dos jovens. Esta avaliação destaca que o uso intensivo de efeitos especiais assim como de imagens rápidas e fortes imprime grande carga emocional a este tipo de programação, distanciando-se assim da conotação de "realidade".

Observam-se porém restrições a filmes baseados na ação de gangues juvenis, percebidos como capazes de estimular a reprodução deste comportamento pelos jovens, percepção esta baseada na idéia da adolescência como um período onde a influência do grupo de amigos se sobrepõe à opinião individual.

No que tange aos filmes de terror, identifica-se entre os jovens uma forte ambigüidade, onde se mesclam sentimentos de medo, nojo e atração frente a este tipo de programação, suscitados pelas imagens "cruas" e "sangrentas" – cabeças cortadas, vísceras à mostra e cérebros explodindo, típicos da linha trash, na qual Brinquedo Assassino posiciona-se como símbolo entre o público infanto-juvenil. Desta forma, os filmes de terror são assistidos em geral junto a grupos de amigos e durante o dia, sendo a experiência de assisti-los à noite percebida como uma prova de maturidade.

Cabe ressaltar a irrelevância atribuída pelos adultos à audiência desse tipo de temática pelos jovens, sendo sua atratividade considerada como típica da adolescência. Mais ainda, dado o reconhecimento de seu caráter eminentemente ficcional, não se observam restrições significativas quanto a possíveis danos que possam suscitar nos jovens.

Esta avaliação se apresenta invertida em se tratando da veiculação da violência real, percebida como suplantando a ficção e sendo capaz de gerar forte impacto junto aos telespectadores, além dos sentimentos de medo e revolta.

Neste contexto, identifica-se um elenco de acontecimentos recentes que se enquadram nesta avaliação, a saber:

  • a ação violenta dos policiais na Favela Naval, em Diadema;
  • a chacina da Candelária;
  • massacre de Vigário Geral;
  • os massacres dos sem-terra;
  • assassinato do índio pataxó em Brasília;
  • a prostituição infantil;
  • a disseminação do uso de drogas, especialmente junto a crianças;
  • a impunidade;
  • a corrupção política;
  • estado falimentar da saúde e da educação pública.

Identifica-se como preocupação central do público adulto pesquisado na fase qualitativa, considerações frente aos efeitos que este tipo de informação pode gerar em seus filhos, na medida em que colocam em xeque todos os valores que procuram sedimentar em sua formação, a exemplo da obediência à lei e às autoridades, o respeito pelo semelhante e pelas instituições, a dignificação pelo trabalho, entre outros.

Neste sentido, temem que a exposição a este tipo de noticiário redunde na ausência de parâmetros de valor, gerando uma forte descrença e desesperança nos jovens, situação esta que acirra a preocupação em manter aberto um canal de diálogo com os filhos, de modo a alertá-los sobre os "perigos da vida".

Torna-se importante notar, entretanto, que parcela significativa do público adulto tende a considerar esses eventos como uma valorizada forma de conscientização política, uma oportunidade ímpar para que os valores e o modus operandi da sociedade sejam questionados junto aos jovens, contribuindo para o seu processo de amadurecimento.

Não obstante essa avaliação, observam-se críticas à utilização indiscriminada e abusiva da violência real pela programação televisiva, assumindo a conotação de sensacionalismo, onde os acontecimentos são veiculados de forma a garantir a elevação dos índices de audiência das emissoras. Como principais referências dos interesses comerciais se sobrepondo à função informativa, identificam-se os programas policiais Na Rota do Crime, Câmera Manchete e Aqui e Agora – sendo seu encerramento percebido como consequência da exacerbação desta temática em horário impróprio, sem qualquer preocupação com o fato de ser assistido por crianças e jovens.

Merece registro a percepção da inexistência de qualquer tipo de controle da programação televisiva, seja em nível governamental ou das próprias emissoras, especialmente sobre o conteúdo / abordagem dos programas, sendo este aspecto citado por 63% da amostra na etapa quantitativa.

Relativamente aos sistemas classificatórios adotados pelo Estado, identifica-se forte desconhecimento de sua existência na maioria das cidades pesquisadas, observando-se como justificativa à esta avaliação o reconhecimento da ausência de qualquer critério na veiculação da programação, especialmente na televisão.

As emissoras, neste contexto, são percebidas como regidas apenas pela "guerra pela audiência", onde os interesses comerciais e financeiros se apresentam como o único parâmetro capaz de ser levado em consideração.

Vem somar-se a esta percepção o questionamento frente a existência de qualquer preocupação ética que atue de forma a regular a programação televisiva através de sua adequação às diferentes faixas etárias, sendo apontada como exemplo desta situação a reprise das novelas noturnas no período vespertino.

Neste sentido, identificam-se fortes expectativas de que algo seja realizado de forma a permitir a adequação das temáticas consideradas como inadequadas às faixas etárias mais jovens (sexo, violência, traições etc.) a horários mais avançados, surgindo como referência unânime a lei que regula a veiculação da propaganda de bebida alcóolica e cigarros, restringindo-as ao período noturno e amenizando assim seus efeitos junto às crianças.

De modo a introduzir algum tipo de advertência aos adultos sobre a inadequação de determinados programas a certas faixas etárias, observam-se sugestões, ainda que de forma minoritária, sobre a pertinência da utilização de algum tipo de advertência para indicar temáticas inadequadas, evidenciando-se a associação ao antigo certificado da censura apresentado antes dos programas.

A valorização atribuída a este artifício (apelo visual) como mais um recurso para legitimar o controle da audiência dos jovens pela família se faz presente mais intensamente junto ao segmento masculino paulista, sendo importante observar, contudo, a avaliação dos demais públicos pesquisados de que um aviso deste tipo tenderia a aguçar a curiosidade dos jovens para programas que muitas vezes não seriam sequer assistidos.

Por outro lado, identifica-se a utilização deste mecanismo por parte de algumas emissoras, especialmente Rede Globo e SBT, percebida porém como uma atitude de good will por parte destas para com seus telespectadores e não como obediência a qualquer requisito legal de adequação das temáticas adultas aos horários noturnos.

Neste contexto, observam-se expectativas de que seja implantado algum tipo de mecanismo externo de controle desta programação (75%), na medida em que, dado o estilo de vida das famílias brasileiras (entrada da mulher no mercado de trabalho, baixa escolaridade dos pais, crianças com vontade própria e muitas vezes sozinhas em casa etc.), estas desejam ser auxiliadas nesta tarefa.

Assim, sugerem espontaneamente (pelos 75% da amostra que acham que deve existir controle externo à família), as seguintes formas de controle, a saber:

Classificação de toda a programação por idade e horário – 17%;

Censura / proibição / corte de cenas impróprias – 17%.

Há que se observar, porém, que apesar de ocorrer um "empate", se agregarmos as diversas citações espontâneas quanto a mecanismos de adequação da programação às diferentes faixas etárias e de horário, verifica-se a predominância do sistema classificatório sobre a censura.

Porém, ao serem estimulados (ainda os 75% da amostra que acham que deve haver controle), mediante as opções censura vs. classificação por faixa etária e horário, posicionam-se da seguinte maneira:

Classificação por idade e horário – 64%;

Censura – 32%;

Não souberam se posicionar – 4%.

Torna-se importante destacar, assim, junto àqueles que apesar de acenarem para um possível retorno da censura como uma forma de controlar a "permissividade" que identificam na programação televisiva, verifica-se que este posicionamento se relaciona basicamente à necessidade de algum tipo de regulação, sendo o controle pelo Estado a principal referência de que dispõem.

Neste contexto, e de forma mais detalhada na fase qualitativa, observa-se, de modo geral, forte reação contra qualquer tentativa de retorno de mecanismos de censura, argumento esse basicamente sustentado a partir de duas justificativas, a saber:

  • grande descrença no Estado, percebido como distanciado da sociedade, sendo incapaz de garantir o exercício de suas funções precípuas, a exemplo das áreas de Educação e Saúde. Mais ainda, identifica-se como pano de fundo desta avaliação, o desgaste e desapontamento da sociedade civil para com sua atuação, percebida como direcionada para assegurar privilégios e "mordomias" a políticos e grupos privados, em detrimento dos direitos dos cidadãos;
  • defesa inconteste destes direitos, sendo especialmente valorizado o amplo acesso à informação e o livre arbítrio dos cidadãos, indicando forte rejeição a qualquer tipo de tutela da sociedade civil pelo Estado.

Observa-se , porém, que o posicionamento contrário à idéia de que o Estado seja o único responsável pelo controle da programação dos meios de comunicação de massa não descarta a necessidade de implantação de algum outro mecanismo de regulação, sendo necessário compartilhar com a sociedade como um todo a responsabilidade familiar frente à programação de televisão, cinema e vídeo.

Assim, delineia-se um sistema classificatório baseado na adequação das temáticas às diversas faixas etárias através de horários diferenciados de veiculação, mecanismo esse percebido como uma forma de auxiliar as famílias na tarefa de ponderar os efeitos da programação na formação moral de seus filhos. Cabe ressaltar, contudo, que a decisão final sobre o que pode ou não pode ser assistido pelos jovens deve ser, em última instância, do núcleo familiar, principal responsável pela educação dos filhos e soberano neste âmbito.

Uma vez estabelecida esta necessidade de regulação, coloca-se como questão imperativa a maneira como este controle deve ser estabelecido, identificando-se, inicialmente a tendência a delegar esta tarefa a cada emissora de televisão que, assim, deveriam dispor de profissionais especializados (pedagogos, psicólogos, sociólogos, assistentes sociais) para a avaliação de seus programas, classificando-os em acordo às diferentes faixas etárias e horários.

Torna-se importante destacar que receiam que este mecanismo provavelmente não irá se sustentar por longo tempo na medida em que acreditam que os critérios de cada emissora seriam suplantados por seus interesses comerciais específicos que, na "guerra pela audiência", suplantam qualquer preocupação ética. Mais ainda, verifica-se a percepção de que estes especialistas, na medida em que seriam funcionários contratados por cada emissora, não deteriam o poder e a liberdade necessária para fazer valer seus critérios, que seriam, em última instância, ofuscados pelos da empresa.

Diante desse impasse, observa-se em geral duas tendências, a saber:

  • o estabelecimento de um conselho de auto-regulamentação das emissoras, a exemplo do Conar (Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária), onde seriam identificados e classificados os diversos tipos de temáticas e programações, evitando assim que os interesses de cada empresa fossem estabelecidos livremente, na medida em que seriam regidos por um código de ética para o setor;
  • a criação de um órgão misto, controlado pela sociedade civil, cujo funcionamento, por intermédio do sistema de colegiado, reunisse representantes de diversos segmentos sociais que teriam como tarefa exclusiva a classificação dos programas através de selos ou certificados em acordo com as diferentes faixas etárias. Seus membros seriam eleitos através de voto direto da população, cumprindo um mandato por período determinado, sendo destacada a necessidade de que a representação ocorra a nível estadual de modo a garantir a observância das diferenças regionais.

Neste modelo específico de órgão, caberia ao Estado o papel de fiscalização das emissoras, fazendo cumprir as suas determinações – uma espécie de "lei" – através do estabelecimento de um conjunto de punições que partem da cobrança de multas de valor significativo até a possibilidade de retirar a emissora do ar em caso de reincidência.

Merece registro a avaliação de que este modelo não se encontra pronto e acabado, devendo ser aprimorado e amadurecido pela sociedade. Esta preocupação se coloca frente à identificação dos riscos deste órgão ou conselho vir a tornar-se uma instituição burocratizada – "mais um cabide de emprego" – descaracterizando sua proposta e posicionando-se como um "poder paralelo", onde a liberação dos programas para horários de maior audiência tenderia a estabelecer situações propícias à corrupção, transformando os certificados em uma valorizada "moeda política".



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