QUALIDADE NA TV


NO LIMITE 2
Laura Mattos

"Sufoco tenta tirar Faustão do aperto", copyright Folha de S. Paulo, 30/11/00

"A Globo começa a gravar hoje o quadro de TV-realidade ‘Sufoco’, que estréia neste domingo no ‘Domingão do Faustão’. Essa será a grande cartada da emissora para tentar virar o placar da audiência e colocar o programa à frente de seu eterno inimigo, o ‘Domingo Legal’, do SBT.

A atração foi criada e será provisoriamente dirigida por J.B. de Oliveira Sobrinho, o Boninho. Ele também foi o criador e diretor de ‘No Limite’ e está coordenando outros dois projetos de ‘reality show’ para a Globo (leia ao lado).

Estão programadas pela emissora apenas três versões de ‘Sufoco’. Durante o Natal, o Ano Novo e janeiro, quando o apresentador tira férias, o quadro fica fora do ar e volta em fevereiro com uma condição: ter boa audiência.

‘Sufoco’ ocupará o penúltimo bloco inteiro do ‘Faustão’, com cerca de 35 minutos. A final vai ser transmitida ao vivo no final do programa. O quadro será gravado em uma casa de vidro construída no parque Villa-Lobos (zona oeste de São Paulo). Seis pessoas, três homens e três mulheres entre 21 e 40 anos, irão morar de hoje a domingo nessa ‘vitrine’, em que serão realizadas provas físicas e intelectuais que levarão aos finalistas (veja abaixo).

A apresentação ficará por conta do próprio Faustão, que gravará as provas até domingo de manhã. No programa, o telespectador irá escolher, por telefone, o vencedor entre os dois últimos finalistas.

Um diferencial desse jogo em relação a ‘No Limite’ é a participação de um ator desconhecido da Globo, que será infiltrado entre os concorrentes. O nome do chamado ‘sabotador’ só será revelado ao público e aos outros participantes na final, ao vivo.

Há outra diferença entre ‘Sufoco’ e ‘No Limite’. O quadro do ‘Faustão’ não deve criar tão facilmente ‘personalidades’, como ocorreu no primeiro ‘reality show’ exibido pela emissora.

Os participantes de ‘No Limite’ ficaram dois meses fazendo ‘companhia’ aos telespectadores nas noites de domingo. Depois da longa ‘relação’, viraram escritores, modelos e empresários. Em ‘Sufoco’, os concorrentes só aparecem no bloco dedicado ao quadro no ‘Domingão do Faustão’, e, a cada semana, as equipes são renovadas."

***

"‘Quadro não é um Big Brother’, afirma Boninho", copyright Folha de S. Paulo, 30/11/00

"J.B. de Oliveira Sobrinho, o Boninho, parece estar criando um núcleo de ‘reality show’ na Globo. Depois da decepção ao perder a direção de ‘No Limite 2’, o criador da primeira versão da ‘gincana da sobrevivência’ volta a se empolgar com a implantação de ‘Sufoco’ e cuida de mais dois projetos na mesma linha para a emissora.

Na noite de anteontem, ele foi à casa de vidro de ‘Sufoco’, no parque Villa-Lobos, para checar os preparativos e recebeu a Folha para uma entrevista exclusiva na cozinha transparente. (LM)

Folha - Você não acha que, pelo formato, ‘Sufoco’ não deve criar ‘personalidades’, como ocorreu em ‘No Limite’?

Boninho - Aqui vamos ter um esquema diferente de ‘No Limite’. Cada quadro será uma história fechada, de 35 minutos. A única maneira de ter um contato maior com os participantes será pela Internet (www.redeglobo.com.br/ sufoco), que irá transmitir 24 horas por dia as imagens captadas por 24 câmeras na casa. O legal também será a possibilidade de o público ver as pessoas na casa aqui no parque, que será aberto, inclusive para a imprensa e outras emissoras.

Folha - Inclusive para o Gugu?

Boninho - Por que não? O parque é público.

Folha - E se ele usar as imagens de ‘Sufoco’ na mesma hora em que o quadro estiver sendo exibido no ‘Domingão’?

Boninho - Ele não vai ter muito o que mostrar. Só terá a visão do público, que vê pelas janelas algumas partes da casa. As provas também serão feitas sem que o público tenha acesso para não estragar a surpresa.

Folha - Mas, quando o participante for eliminado, não será possível saber, já que ele sairá da casa aqui no parque, na frente de todo mundo, e haverá transmissão pela Internet?

Boninho - Será possível saber quem saiu, mas não como saiu. A Internet não irá transmitir as provas. E, durante a semana, só serão eliminados dois participantes. Quatro ficam para a final, no domingo.

Folha - O quadro vem para tentar colocar o ‘Faustão’ de volta na liderança. Consegue?

Boninho - ‘Sufoco’ não foi criado para o ‘Faustão’. Seria um programa e não um quadro. Mas a Marluce (Dias da Silva, diretora-geral da Globo) gostou e achou que ficaria legal no ‘Faustão’. O Luiz Gleizer (diretor do programa) também aprovou e adorou a idéia de exibi-lo no ‘Faustão’. Acho que pode dar certo. Serão 35 minutos sem break (comercial), o que ajuda muito.

Folha - ‘Sufoco’ é muito parecido com ‘Big Brother’. Não foi preciso comprar os direitos?

Boninho - ‘Sufoco’ não é um ‘Big Brother’. Esse programa (‘Big Brother’) tem 16 participantes, que ficam três meses em uma casa que não é de vidro, e os concorrentes são eliminados semanalmente pelo telespectador. ‘Sufoco’, assim como ‘Big Brother’, faz parte de uma tendência mundial de ‘reality show’. Conheço mais de 60 programas pelo mundo com a mesma linha. A Endemol (empresa que tem os direitos do ‘Big Brother’) até está interessada em usar o projeto de ‘Sufoco’.

Folha - Como os participantes foram selecionados?

Boninho - Tínhamos 800 inscritos e procuramos perfis específicos de personalidade. Os participantes do primeiro e do segundo estão definidos. Mas estão abertas as inscrições para o terceiro ‘Sufoco’.

Folha - Como foi o acordo para que pudessem usar o parque?

Boninho - Será uma espécie de parceria. Doaremos uma quantia, que não sei qual é, para melhorar o parque ou para um projeto cultural ou de meio ambiente.

Folha - Existe a idéia de tornar o quadro itinerante, levando a casa para outros Estados?

Boninho - Se o quadro prosseguir, essa é uma idéia que estamos analisando."



Daniel Castro

"Globo testa Sufoco no Faustão em 3 episódios", copyright Folha de S. Paulo, 29/11/00

"O nome não poderia ser mais apropriado. Na última tentativa do ano de recuperar a audiência do sufocado ‘Domingão do Faustão’, a TV Globo lança no próximo domingo o quadro ‘Sufoco’, espécie de ‘No Limite’ dentro de uma casa de vidro, cópia disfarçada do holandês ‘Big Brother’.

Apesar de ter investido na construção de uma casa de 1.000 m2 no parque estadual Villa-Lobos, a TV Globo só garante a gravação de três episódios do quadro. É um teste. Se não der ibope, sai do ar.

O quadro entra no ar após o ‘Domingão do Faustão’, quinto maior faturamento da Globo, perder no Ibope pela 27ª semana consecutiva para o SBT.

A audiência média do programa caiu, em seis meses, de 24 para 17 pontos, o que preocupa o departamento comercial da Globo, que renova contratos em janeiro. Nesse período, pelo menos seis quadros foram testados. A direção do programa pode mudar.

‘Sufoco’ começa a ser gravado hoje. Serão três mulheres e três homens, com um kit de alimentos, presos numa casa até domingo, disputando provas de perguntas e respostas e testes físicos. O vencedor será escolhido no domingo, via telefone. Os competidores mudam semanalmente."




"MEXICANIZAÇÃO"
Hélio Guimarães

"O Terceiro Mundo da novela", copyright Valor Econômico, 1 a 3/12/00

"Enquanto o primeiro mundo das telenovelas discute o excesso de sexo e violência e o presidente da República se encontra com Vera Fischer para discutir o reenquadramento da ficção global, a periferia da produção televisual segue ilesa, apresentando em sua programação supostamente familiar o que há de mais retrógrado na ficção para a TV.

As telenovelas exibidas pelo SBT (sigla que poderia ser bem traduzida por Sucursal Brasileira da Televisa) mostram crianças sofrendo e testemunhando maus-tratos, mulheres sendo oprimidas pelos homens, e a injustiça e o arbítrio dos patriarcas ditando as regras. Na ‘Tarde de Amor’, nome singelo para a faixa de horário que a emissora dedica às produções mexicanas, tudo está conforme as regras clássicas da ficção popular do século XIX.

No último capítulo da novela vespertina ‘Sigo te Amando’, com um bebê no colo e um revólver na mão, o vilão fulminou uma mulher, mandou a própria mãe calar a boca, ameaçou matar a criança e, ao final, quando ia fugir, foi morto com um tiro de espingarda pela sua mãe de criação. Antes que o vilão caísse do cavalo, o bebê foi resgatado dos seus braços pela mãe desesperada.

No capítulo de estréia de ‘Maria Isabel’, nova novela das quatro da tarde, a protagonista, também criança, foi esbofeteada duas vezes, surrada outras duas, expulsa de casa, xingada de ‘índia miserável’ e ameaçada pela madrasta de ter a boca queimada com lenha. Já adulta e ainda virgem, Maria Isabel foi sexualmente atacada pelo patrão. Mas a valente Maria Isabel rejeita o patrão, expulsando-o de seu quarto com um martelo em punho.

A vida das heroínas continua difícil no terceiro mundo das telenovelas, povoado basicamente por dois tipos de personagens femininas: as más, bruxas cujos olhos chispam ódio e maldade, e as bondosas, que comem o pão que o diabo amassou e trazem o rosto sempre banhado em lágrimas. Enquanto não conseguem arrancar do destino algum naco de sossego, elas se arrastam pelo chão em desespero, vociferando frases assim: ‘Tem coisas que nós guardamos bem fundo no coração e que doem como quando nos espetamos no espinho de uma flor.’

Nesse universo ficcional esquemático e pudico, onde as referências sexuais estão recalcadas, tocar o pé ou descalçar as botas de uma mulher ainda funciona como metáfora do ato sexual. A moral e os costumes das produções da Televisa, aparentemente inócuos, são conservadores a ponto de assustar.

Fala-se muito do demônio, em geral associado às tentações da carne, e todos os conflitos se resolvem em torno da imagem da Virgem de Guadalupe, que tudo concilia: jovens e velhos, ricos e pobres, índios e brancos. É a religião que une e reconcilia o México arcaico e o México moderno, representados na ‘Tarde de Amor’ respectivamente por índios com trajes folclóricos e executivos de camisa e gravata.

Essas histórias produzidas no terceiro mundo das telenovelas parecem feitas de encomenda para a regressão moralista em curso. De tão anacrônicas, essas ficções da Televisa parecem ter passado imunes a todas as transformações dos costumes e da ficção do século XX."



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