QUALIDADE NA TV


FIDEL & NOVELAS
Alcino Leite Neto

"Fidel afirma que novelas brasileiras ‘alienam’", copyright Folha de S. Paulo, 1/12/00

"‘As novelas brasileiras não envenenam, elas alienam as pessoas, o que não é a mesma coisa’, afirmou ontem o dirigente cubano Fidel Castro, em entrevista a jornalistas brasileiros no Palácio da Revolução, em Havana.

Para Fidel, as novelas, apesar de boas, estão ocupando muito o tempo do povo cubano. As novelas brasileiras são adoradas pelos espectadores cubanos.

‘Superficialidade’

‘Escrava Isaura’ teria ‘conteúdo social’, na opinião do ditador cubano, mas com uma grande quantidade de ‘alienação’.

‘A quantidade de superficialidade das novelas brasileiras é tanta que vocês podem competir com Hollywood’, disse o líder cubano. ‘Mas prefiro as novelas brasileiras aos filmes ianques’, declarou.

Fidel Castro declarou também que a vitória da esquerda no Brasil em 2002 poderia ser útil a Cuba, mas antes aos próprios brasileiros e à América Latina. Para Fidel, Lula ajuda Cuba com sua solidariedade.

O dirigente cubano considera que o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso tem uma posição ‘intermediária’ quanto ao bloqueio econômico por que passa Cuba.

Ressaltou que a colaboração entre Brasil e Cuba sempre está submetida às pressões dos Estados Unidos.

A conversa com Fidel Castro ocorreu após seu encontro com parte dos 203 turistas brasileiros que participam da viagem do PT ‘Vá a Cuba com Lula’. O líder petista também esteve presente, junto com membros da cúpula do partido.

Fidel conversou durante quase duas horas com o grupo de turistas, a portas fechadas. Depois, atendeu, sempre cercado de seguranças, aos jornalistas. Vestia um impecável uniforme verde e botas pretas com zíper.

Neoliberalismo

A cada pergunta, alongava-se por mais de 10 minutos, quase sempre referindo-se ao bloqueio a Cuba, ao ‘imperialismo’ americano e aos desastres do neoliberalismo. Falou longamente das conquistas cubanas na áreas de saúde e educação.

Criticou também o modelo político norte-americano e, questionado sobre as críticas feitas ao fato de Cuba não dispor de uma democracia, respondeu: ‘Não temos democracia? Muito bem, nós jamais vamos querer esse tipo de democracia que se tornou paradigma, sem igualdade social’."




EXPOSIÇÃO 50 ANOS
Gilberto de Abreu

"Emocionante aventura virtual", copyright Jornal do Brasil, 29/11/00

Em meio às discussões sobre a qualidade dos programas exibidos nas emissoras brasileiras de televisão aberta, e da necessidade de regulamentação do conteúdo da programação nacional, uma exposição em São Paulo pretende passar a limpo, a partir de 5 de dezembro, as primeiras cinco décadas da TV no país. Intitulada 50 anos de TV e +, a mostra, montada no Pavilhão Lucas Nogueira Garcez - a Oca do Parque do Ibirapuera -, apressa segundo seus organizadores, a Globo.com e a Associação Brasil + 500, o fim da fronteira entre o real e o virtual através de imagens que fizeram a história do veículo de massa mais popular do país. A Oca, projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer e recentemente restaurada para abrigar os módulos de Arte Indígena e Arqueologia da Mostra do Redescobrimento, abriga em função dessa mostra 118 projetores de vídeo, 86 televisores, 86 servidores digitais, 28 computadores, 630 caixas de som, dois terabytes de memória e o primeiro e único filme em HDTV hemisférico do mundo.

Curador da exposição juntamente com o designer americano Ralph Appelbaum, criador do Museu do Holocausto e do Planetário de Nova Iorque, o videomaker carioca Marcello Dantas conta que a mostra utilizou como matéria-prima 50 mil horas de material bruto, colhidas de todas as emissoras do país, inicialmente compiladas em 500 horas e novamente condensadas, até um extrato de 12 horas. ‘Nosso objetivo era recuperar os grandes momentos de emoção coletiva provocados pela TV ao longo desses 50 anos, nos segmentos novelas, esportes, telejornais, musicais, infantis e humorísticos’, diz. Dentre as imagens selecionadas pelos organizadores, constam as do acidente fatal do piloto Ayrton Senna, a morte do presidente Tancredo Neves, a chegada do homem à Lua, as Copas do Mundo de 1970 a 1998, as recentes campanhas de Guga nos torneios mundiais de tênis.

Tudo isso será projetado simultaneamente em monitores de TV, sobre telões que pendem do teto e em 34 telas adaptadas nas janelas da Oca, numa alusão à imagem da televisão enquanto janela para o mundo. Nesse sentido, disponibilizar em tempo real e simultaneamente a programação de 32 canais de TV de todo o mundo resulta numa estratégia apropriada. Num giro de 360 graus pela Oca, o (tel)espectador pode acompanhar a programação de canais como CNN (Londres), Syrian TV (Síria), Art (Orabe), Red Latina (Colômbia), Chanel J (Japão), Fashion TV (França), Zee TV (Índia), NITV (Ira).

Simultaneamente, os visitantes poderão conferir também 18 documentários de curta duração, realizados em 18 de setembro último, data das comemorações dos 50 anos da TV no país. Trata-se de um pequeno panorama sobre as relações dos telespectadores como veículo de comunicação e o reflexo dele na vida das pessoas. Nos documentários de Murilo Salles, Eduardo Coutinho, Belisário França, Marcelo Tas e Arthur Omar, entre outros, é possível pinçar frases como ‘A TV é tão importante quanto o ar e a água’ e ‘Eu prefiro ver TV de dia, de tarde e de noite’, que ajudam a compreender a dimensão do afeto - e da dependência - do público espectador em relação ao veículo.

Uma das observações mais curiosas vem de uma senhora de meia idade, origem humilde, e notável senso de humor: ‘Já reparou que a gente dorme com a TV ligada e quando a desligam a gente acorda?’. Em um telão vizinho, uma mulher com deficiência visual total nos dois olhos conversa com outro cego - que enxerga apenas os vultos na tela - sobre o papel da TV em sua vida: ‘A TV me dá a visão que eu não tenho.’ Num feliz diálogo com a videoarte, a mostra apresenta instalações dos videoartistas Carlos Nader e Bill Viola, considerado pela crítica mundial um dos mais importantes artistas da contemporaneidade, ao lado de Richard Serra e Louise Bourgeois. Ambos apresentam instalações em que a natureza tecnológica de suas obras dialoga com o indivíduo.

Assim como a videoarte, os aspectos teóricos da televisão vão estar em discussão num ciclo de seminários que terá coordenação do professor e filósofo Adauto Novaes, responsável pelo recrutamento de dezenas de pensadores e teóricos da comunicação, do Brasil e do exterior. Previsto para acontecer em fevereiro, o ciclo de seminários deverá, segundo Novaes, trabalhar sobre três eixos de reflexão: a imagem e seus correlatos (imaginação e imaginário); imagem e espetáculo; e a relação da televisão com o corpo, seus desejos e suas paixões.

‘O seminário serve para entendermos melhor a exposição e o que acontece no Brasil e no mundo em se tratando de imagens’, diz Adauto, que convidou filósofos e professores de teoria estética como Mario Perniola, Maximo Canevatti, Peter Sloterdijk, Marilena Chauí, Renault Barbaras, Arlindo Machado, Nelson Brissac, Olgaria Matos, Gerhd Bornheim, Eugênio Buci, Maria Rita Kehl, Jean Galart e André Parente. O fato de tais temas estarem sendo discutidos sob o ponto de vista da filosofia e da antropologia não quer dizer que o público leigo não possa participar dos simpósios. ‘A teoria vai além do que está visto, soma novos elementos ao que estamos vendo.’

E já que o assunto é imagem, ver e ser visto, quem nunca viu de perto um artista de TV - mas morre de curiosidade - vai gostar de um sistema de projeção que imprime nas pilastras de sustentação da Oca imagens, em escala natural, de estrelas como Regina Duarte, Betty Faria, Malu Mader, Glória Menezes, Paulo José, Paulo Betty, Milton Gonçalves e Luiz Fernando Guimarães, entre outros. Eles acenam para os visitantes e os convidam a ver de perto os vídeos, tudo isso virtualmente.

Para dar ao visitante da mostra uma noção do desenvolvimento da tecnologia aplicada à televisão, a mostra reúne dezenas de monitores de TV, desde o primeiro modelo trazido ao Brasil por Assis Chateaubriand (do acervo particular de um colecionador carioca) aos mais modernos computadores portáteis, através dos quais também é possível assistir TV. Dentre os destaques desse segmento, os modelos Emerson e Admiral, ambos dos anos 50, exemplares das marcas Zenith, Olimpic, Retro Classic e RCA Victor, dos anos 60, etc."




TV PÚBLICA
Hugo Sukman

"França debate limites da guerra por audiência", copyright O Globo, 29/11/00

"Exibicionistas que gostam de dizer: ‘Eu adoro mostrar meu corpo’. Moças (como antigamente se diria) fáceis que não têm problemas em confessar: ‘Eu digo sim na primeira noite’. Hipocondríacos que batem no peito para revelar: ‘Eu como uma farmácia todos os dias’. É esse o cardápio, três vezes ao dia, de um dos maiores sucessos atuais da TV francesa, o programa ‘C’est mon choix’ (‘A escolha é minha’). Como no Brasil, em que muitas vezes a ética e o bom gosto são postos de lado em nome da audiência, o programa comandado por Evelyne Thomas aposta na fórmula americana da vida ao vivo, do espectador como voyeur assistindo aos vexames de gente comum, da platéia em cena se escangalhando de rir das aventuras e desventuras alheias.

Enfim, é um Ratinho com perfume francês. O programa é o bode expiatório de uma feroz discussão que, desde a semana passada, domina a mídia francesa. E a questão é mais simples do que as ameaças de censura à TV brasileira: ‘C’est mon choix’ não é exibido por um SBT da vida, mas por um dos canais estatais, o France 3, que existe ao lado do France 2 e do Canal 5/Arte para difundir cultura, educação e informação.

Para isso, recebe gordos subsídios governamentais - mais de 400 mil francos por dia. A discussão começou justamente quando a Assembléia Nacional discutia o orçamento de comunicação do ano que vem. E a repulsa à banalização da TV estatal francesa uniu direita e esquerda, coisa rara num país em que a controvérsia política faz parte da identidade nacional.

‘Os canais públicos deveriam ser referência em termos de ética, de qualidade e de imaginação’, disse o deputado direitista Christian Kert.

Reacionário, censor? Pois vejamos o que a esquerda tem a dizer:

‘Um programa como ‘C’est mon choix’ é inadmissível, não faz senão uma confusão entre impertinência e vulgaridade. É um programa que não responde às necessidades de um serviço público’, atacou o socialista Michel Françaix.

A resposta da produtora do programa, a Réservoir Prod, uma empresa privada que recebe subsídios da France Television (a controladora dos canais públicos), é a de sempre: a punição pelo sucesso, o desprezo pelo gosto do público.

- As críticas vêm apenas de políticos e do meio jornalístico - contra-ataca o diretor editorial do programa, Stéphane Rak. - Eles consideram que milhões de franceses são indignos? Somos vítimas do nosso sucesso.

Segundo ele, seu programa é cultural, pois encarna uma espécie de voz do povo.

- Fazemos debates com pessoas que escolheram modos de vida particulares. De alguma forma, estamos contribuindo para uma maior tolerância entre pessoas diferentes - afirma Rak.

A discussão que tem na ponta o ‘C’est mon choix’, entretanto, é sobre o caráter que a TV pública francesa deve ter daqui para a frente. O decreto que atualmente a rege, de 1987, não deixa dúvidas e fala em uma programação ‘rica, diversificada, cultural, educativa, com respeito constante pela pessoa humana’, em ‘evitar a vulgaridade’ e em não se submeter às ‘necessidades comerciais’. Mas o fato é que tanto a France 2 quanto a France 3 (o Canal 5 é exceção, pois é educativo, não generalista) não diferem muito de seus concorrentes privados, o TF1 (popular ‘de qualidade’) e o M6 (mais jovem, com clipes de manhã, programas eróticos de madrugada, mas alguns bons programas diurnos). E, sobretudo, são obrigados a disputar o mercado publicitário com eles.

Pela política de comunicação francesa, o F2 e o F3 existem para conter a sanha dos canais privados, não deixar o mercado na mão deles. O resultado dessa discussão parlamentar, que já está tomando outras áreas das comunicações, talvez seja uma mudança completa nessa política, com uma futura supressão da publicidade - logo, da briga pela audiência - desses canais. Um dos modelos almejados é o do canal público americano, o PBS, que vive de recursos estatais e contribuições voluntárias dos telespectadores.

Assim, talvez, os bem-pensantes franceses poderão se livrar de programas como ‘C’est mon choix’ - que outro dia promoveu um educativo debate entre mães que obrigam seus filhos a tratá-las por vous (o equivalente a ‘senhora’) contra outras que permitem que os filhos as chamassem de tu (você), com a definitiva participação de psicólogos - e do festival de besteiras e programas de jogos e prêmios que assolam a TV francesa."



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