|
GLOBO vs. SBT
Nossa TV não é mais aquela
Raphael Perret Leal (*)
Ninguém tem dúvidas de que 2001 foi um ano marcante e inesquecível, sob qualquer aspecto, se avaliarmos a relevância dos fatos ocorridos em política, economia, cultura, sociedade e esporte. Entretanto, vale destacar a mexida no panorama da eterna briga pela audiência. Afinal, não é sempre que o SBT – e seu símbolo máximo, Silvio Santos – termina tão em voga como nos últimos 12 meses. Nem é toda hora que a Globo amarga tantos duros, desnorteantes e seguidos golpes.
A dualidade Globo x SBT mostrou-se intensa. Não somente pela guerra pelos minutos preciosos da atenção dos telespectadores, mas também por algumas casualidades que refletiram magnéticas atrações entre as duas emissoras. De preferência, com o canal paulista levando vantagem.
Tudo começou em janeiro, na final da Copa João Havelange de 2000, entre Vasco e São Caetano, adiada por causa da queda do alambrado do estádio de São Januário. Eurico Miranda, então vice de Futebol do Vasco, hoje presidente, achava que a Globo influenciou no adiamento da partida, do qual discordou. Nisso, tascou o logotipo do SBT na camisa dos jogadores. A emissora do Jardim Botânico e sua irmã mais nova, a Sportv, tiveram que passar os 90 minutos exibindo a marca da rival no uniforme do time carioca.
Um mês depois, no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro, mais um gol do SBT. A Tradição homenageou Silvio Santos. Apesar do samba medíocre, conquistou o público ao reverenciar uma figura popular. Depois de muito mistério, o empresário decidiu desfilar e apareceu sem cortes na tela da Globo. Sem falar de Lombardi, Ratinho, Hebe e outros figurões do SBT. Os pontos de audiência foram para a emissora carioca. O prestígio, para Silvio. Aproximou-se do público do Rio – dizem que ele não queria desfilar por temer uma possível frieza da platéia carioca, já que tem ciência de que domina muito bem, pelo menos, o gosto dos paulistas – e conquistou-o.
Alguns meses de luta branca e, em agosto, perigo e suspense: a filha de Silvio Santos é seqüestrada. Após alguns dias, ela é libertada, pai e filha aparecem zombando do fato. Logo depois, o mesmo seqüestrador, cinematograficamente, invade a casa do comunicador e o mantém refém durante horas. O jornalismo fala mais alto e a Globo mantém as câmeras ligadas na casa o dia todo, não querendo perder o desfecho de intrigante episódio. No fim, tudo acaba bem, o susto passa, e mais pontos para Silvio, por pura – e desesperadora – eventualidade: em perigo, próximo da morte trágica, o famoso empresário conquistou a dó dos brasileiros. A vítima, após o alívio do final feliz, angariou a simpatia de mais alguns cidadãos.
Divisor de águas
Após tanta casualidade, chegava a hora de o SBT agir e forçar um murro seco no rosto do adversário. Na surdina, Silvio montou sua Casa dos artistas, programa trash que hipnotizou os telespectadores, a ponto de destronar, após 30 anos de existência, o Fantástico, e jogar para escanteio o No limite. A ainda tentou entrar na Justiça, estratégia que deu errado: apenas apimentou a disputa e desviou a curiosidade para o então recém-criado programa do SBT, embora, nesse caso, os méritos sejam praticamente apenas de Silvio Santos, que conduziu a produção da atração sob o mais absoluto mistério. No último dia do programa, o maior momento de tensão para o clã dos Marinho foi uma goleada histórica: 55 pontos de Ibope para o SBT, 18 para a Globo.
O ano glorioso de Silvio e de seu Sistema Brasileiro de Televisão, em que esteve em voga não apenas pelo seu próprio esforço, mas também devido a eventos fortuitos, não foi o único motivo que deixou a Globo em estado de alerta. Muitas outras razões levam a crer que o império global de comunicação é tão vulnerável quanto as torres dos EUA diante de pilotos suicidas. Vários programas da emissora carioca tiveram seu orçamento cortado. O faturamento publicitário não cobriu os gastos de produção. Há rumores de demissão no Projac. A hegemonia, analisam os concorrentes, começa a ser questionada: será ela mesma inabalável? Pelo menos aos domingos, fosse com Gugu ensacando o Faustão ou com o recente fenômeno da Casa dos artistas, o SBT já provou que não.
É complicado afirmar se, daqui para a frente, a televisão brasileira será a mesma. Destronar a Globo é um processo hercúleo. Afinal, ela ainda registra a liderança da audiência nacional, e os fins de semana (no sábado, Raul Gil também gosta de atrair telespectadores e diminuir o número de olhares diante de Luciano Huck) seriam apenas exceções isoladas. No entanto, o primeiro ano do século 21 já está registrado na história da mídia televisiva. Se a emissora carioca mantiver seu império e seu domínio, o 2001 ficará na memória como "o ano que a Globo quer esquecer". Porém, se o declínio acelerar e a liderança de audiência for perdida, mesmo que tal fenômeno leve um bom tempo para ser concluído, sem dúvida 2001 será considerado um divisor de águas na linha do tempo da TV brasileira.
(*) Analista de sistemas e jornalista
|
|