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ASPAS
O OESTE
Ivan Angelo
"Por que não se faz aqui uma série como essa?", copyright Jornal da Tarde, 7/07/01
"Os conquistadores chegaram pelo Atlântico, no Leste. Levaram trezentos anos para empreender a Marcha para o Oeste, em busca de terras, ouro e peles de búfalo. Toda a história dessa conquista é contada com extraordinário profissionalismo e talento na série O Oeste, em cartaz no GNT. No ano de 1806, marco escolhido pelos realizadores para início da sua narrativa, o ouro de Minas Gerais e de Goiás, no Brasil, já se havia esgotado. A corrida do ouro nos Estados Unidos começou em 1849. Os conquistadores portugueses e espanhóis já haviam vasculhado a América do Sul e Central, catando metais preciosos, quando a história de ‘triunfo e tragédia’ do oeste norte-americano começou. A expressão entre aspas é dos realizadores.
Triunfo e tragédia, realmente. Triunfo pela implantação da ferrovia e de colonos agricultores e pecuaristas numa vastíssima região; tragédia pela expropriação e matança dos povos nativos e dos búfalos. A série foi produzida pela rede pública de televisão amaricana, a PBS, por realizadores que já se responsabilizaram por trabalhos como o recente Jazz, e Guerra Civil e Baseball, Ken Burns à frente. Como nesses, o foco do trabalho Oeste é a história e a cultura americanas, mas os instrumentos de pesquisa são também arqueológicos, antropológicos, sociais e econômicos. Os capítulos falam de protagonistas dos acontecimentos, de aventuras, mitos, ecossistemas, migrações, povos nativos, hispânicos, asiáticos, afro-americanos, europeus, contam como foi o povoamento, a distribuição de terras (eram doadas, mas os colonos tinham de produzir nelas por cinco anos), narram a resistência dos índios (que nos habituamos a ver nos filmes de faroeste como os bandidos da história), mostram montanhas de ossadas de búfalos, chocantes.
A história brasileira de conquista do oeste não é menos fantástica. Tivemos grandiosas lutas de conquistadores contra povos nativos. Um épico nunca contado, nunca mitificado no cinema, como foi o norte-americano. O ‘gentio paiaguá’, como eram chamados pelos portugueses os índios da região pantaneira, lutando em canoas, das quais eram exímios pilotos. Índios lutando a cavalo, exímios cavaleiros. Descoberta de ouro. Estabelecimento de fronteiras. Implantação de fazendas. As dramáticas passagens por cachoeiras. A ferrovia fracassada. Tudo isso está descritos em documentos escritos pelos participantes, existentes nos arquivos do governo de Mato Grosso e também do Arquivo Público paulista.
Por que não se desenvolve aqui um projeto para uma série como esta, numa parceria de empresas com os ministérios da Educação e da Cultura e secretarias da Cultura dos Estados envolvidos? Para quem conhece os documentos, a história é fascinante.
Ai, Romário
Mauro Silva, a ausência mais sentida da Seleção no jogo contra o Uruguai, no domingo passado, deu entrevista ao canal ESPN Brasil que vai ao ar hoje, às 22h30. Ele defende um time retrancado. E sabem baseado em quê? Imaginam quem é a nossa salvação, segundo ele? Romário. O Brasil fica na defesa e Romário salva. A frase dele que vocês vão ouvir hoje: ‘Se o Brasil se fecha, em algum momento o Romário pega a bola e faz o gol.’ Pode?
No ar
A Globo se mancou e deu matéria sobre o vexame do ator André Gonçalves num avião da Varig. Não sobre ele, exatamente. Fez uma matéria sobre passageiros perturbadores da ordem dentro de aviões, no Jornal Hoje, de sexta-feira, citou com destaque o caso do ator e ainda demonstrou que, no Brasil, esses casos são tratados com pouca severidade."
KUBRICK NA TV
Alexandre Agabiti Fernandez
"Discursos sobre o gênio solitário", copyright Valor Econômico, 6/07/01
"Se o cinema de Stanley Kubrick (1928-1999) provocava o público e destruía convenções, sua vida privada foi marcada por uma extrema discrição. O documentário ‘Stanley Kubrick: uma Vida Quadro a Quadro’ retraça a obra e a vida do cineasta adotando como premissa a convivência desses dois aspectos. Dirigido por Jan Harlan, cunhado e assistente de Kubrick , o documentário estreou no Festival de Berlim, em fevereiro, e em setembro sai em DVD no Brasil. No mesmo mês chega por aqui o último filme de Steven Spielberg, ‘A.I. - Inteligência Artificial’, que retomou um projeto de Kubrick abandonado nos anos 80.
Além de inéditas imagens de arquivo, como cenas domésticas mostrando Kubrick com a família e filmes sobre as rodagens de algumas de suas obras, o documentário traz depoimentos de Martin Scorsese, Jack Nicholson, Christiane Harlan (mulher do cineasta), Woody Allen, Steven Spielberg, Tom Cruise (que também faz a locução), Malcolm McDowell, Peter Ustinov e György Ligeti, entre outros. Inúmeros fragmentos dos 13 longas-metragens dirigidos por Kubrick completam a rica iconografia.
O documentário é uma coleção de discursos fragmentários sobre o homem e o artista, de vozes que o definem a partir de múltiplos pontos de vista. Esses discursos vão compondo um quadro que se detalha pouco a pouco, esboçando os hábitos do cineasta, suas opções estéticas, sua personalidade, sua maneira de trabalhar e de se relacionar com os atores. O resultado é uma figura complexa, contraditória: terna com a família e impiedosa com os colaboradores, generosa e irascível ao mesmo tempo.
Os depoimentos dos atores são os mais contundentes a respeito das exigências e da rispidez de Kubrick. Shelley Duvall sofreu nas filmagens de ‘O Iluminado’ (1980): ‘Ele era uma pessoa amável, mas também era capaz de coisas cruéis. Para ele, durante uma filmagem, os fins justificavam os meios. Não trocaria essa experiência por nada, mas não gostaria de repeti-la.’ Em ‘Nascido para Matar’ (1987), Matthew Modine teve enormes dificuldades para entender o que Kubrick queria dele. Malcolm McDowell, o astro de ‘Laranja Mecânica’, foi um dos poucos atores jovens a ter uma boa relação com Kubrick no set, mas reconhece o temperamento difícil do cineasta. Segundo a mulher, ele ‘evitava elogiar atores e técnicos, pois temia que se acomodassem’.
Avesso a badalações e entrevistas, o cineasta passou os últimos 12 anos de vida isolado em sua casa nos arredores de Londres, trabalhando em silêncio. A imprensa sensacionalista espalhou rumores sobre sua saúde e seu estilo de vida: louco, paranóico, misógino.
Para o crítico francês Michel Ciment - um dos poucos a entrevistar longamente o cineasta e infelizmente ausente do filme de Harlan -, essa austeridade se deve às raízes culturais centro-européias do americano Kubrick: ‘Esse judeu do Bronx, saído de uma família da Europa central, manifesta - assim como seus correligionários Wilder, Lang, Sternberg e Preminger - a mesma vontade de não se explicar sobre suas motivações, ao contrário dos católicos ou dos mediterrâneos, prontos à confissão, ou dos protestantes, amorosos da análise.’
Filmar era um risco calculado para Kubrick, como um jogo de xadrez, disciplina que praticava com desembaraço. O documentário insiste num dos traços que fizeram sua singularidade: a independência com que trabalhava e o conseqüente controle que tinha sobre seus filmes, exercido plenamente a partir de ‘Lolita’ (1962). Minucioso, se envolvia com os detalhes, supervisava tudo - da textura dos tecidos que compunham os figurinos à forma de algum elemento do cenário.
Essa independência lhe permitu ser pessoal e inovar. Suas contribuições nesse aspecto são numerosas. Desenvolta, a câmera fazia proezas a cada filme, tornando-se uma de suas marcas registradas, assim como o uso expressivo da música clássica. Em ‘2001 - Uma Odisséia no Espaço’ (1968), tudo está em rotação: a nave, os planetas, os astronautas; com os rodopios que sugere, a valsa ‘Danúbio Azul’, de Strauss, brinca com a imagem. Em ‘Barry Lyndon’ (1975), usou uma objetiva especial que desfocava a imagem, recriando no cinema a pintura do século XVIII.
As circunstâncias que cercam os projetos malogrados merecem atenção especial. O filme sobre Napoleão, figura que fascinava Kubrick pelo seu lado de gênio fracassado, foi abandonado pelos produtores, que temiam a concorrência de ‘Waterloo’ (1970), de Sergei Bondarchuk, com Rod Steiger no papel central. Outro projeto abortado foi ‘Aryan Papers’, sobre o holocausto. Na mesma época, Spielberg estava fazendo ‘A Lista de Schindler’ e Kubrick desistiu. Christiane Harlan ficou aliviada: ‘Ele ficou deprimido durante a preparação do filme. Achava que não era possível contar essa história, fingir tudo aquilo.’
O esforço de Harlan em clarear aspectos da personalidade de Kubrick é louvável, mas o gênio não se entrega: continua nos desafiando com seu olhar vazio, aparentemente indiferente, enquanto seus filmes dissecam as misérias da condição humana.
‘Stanley Kubrick: uma Vida Quadro a Quadro’. Na HBO2. Documentário em três partes, a primeira no domingo e as outras nos dias 15 e 22, às 22h. A versão integral vai ao ar no dia 27, às 20h30. Completa a programação a exibição do filme ‘De Olhos bem Fechados’, no dia 28, às 20h30."
‘Duas fotos surgem, na retomada de nossa história, para reavivar, na memória dos telespectadores, as personagens de Terra Nostra. A primeira tirada nos jardins da mansão do banqueiro Francesco (acima). A outra, na fazenda do barão do café Gumercindo. Ambos estão rodeados de todos os seus familiares e de seus principais agregados, que tiveram participação ativa em suas vidas na primeira fase da novela. Essas duas fotos serão marcantes no início da narrativa e servirão de ponto de partida para a identificação das personagens da segunda fase da novela. Por exemplo: quando surgir Juanito, homem feito e às voltas com seus conflitos, vamos buscá-lo no colo de Giuliana, ao lado de Matteo, no jardim da mansão de Francesco. E, em rápidos takes, relembraremos momentos marcantes do seu nascimento e de quando foi dado por morto. Ele está vivo e é um dos principais personagens da continuação.’"

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