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QUALIDADE NA TV
DIGITAL
Ulisses Mattos
"Pôlemica na TV do futuro", copyright Jornal do Brasil, 9/03/01
"Que a implantação do sistema digital é um passo inevitável para a evolução da TV aberta no Brasil, ninguém duvida. Melhoria da recepção, mirabolantes técnicas de interatividade e a possibilidade da HDTV (televisão de alta definição) são apenas alguns dos benefícios alardeados pelas emissoras, pelos fabricantes de televisores e pelo governo. Mas a sintonia entre os setores vai embora na hora das discussões sobre o padrão a ser adotado no país. Os defensores de cada modelo - o americano ATSC, o europeu DVB e o japonês ISDB - têm verdadeiros dossiês contra cada um dos padrões, incrementados com acusações e teorias conspiratórias.
Esta semana a briga esquentou ainda mais com a decisão do grupo Abert/Set - formado pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV e pela Sociedade de Engenharia de Televisão (entidade privada que reúne profissionais do meio) - de fazer demonstrações públicas da TV digital. O problema é que apenas o sistema japonês está sendo demonstrado, já que foi escolhido como o melhor por testes técnicos da Abert/Set. Nas demonstrações promovidas - que irão até 14 de março - há até discretas ridicularizações do padrão americano.
``O sistema americano é um fracasso. Só 80 mil receptores digitais foram vendidos nos Estados Unidos. Na Inglaterra, que adota o padrão europeu, as lojas venderam um milhão de unidades’, diz o assessor de planejamento e controle da Abert/Set, Carlos Brito, que também é gerente do departamento de Projetos de Transmissão Digital da Globo. Com o modelo americano descartado por ser incapaz, por exemplo, de ser recebido em aparelhos móveis e portáteis, a Abert/Set optou pelo padrão japonês, segundo os técnicos, por ter ``mais robustês e flexibilidade que o europeu’. Ou seja, tem mais resistência e pode ser ampliado para outras mídias.
O relatório da Abert/Set será encaminhado à Agência Nacional de Comunicações (Anatel), que decidirá o pa-drão a ser adotado por aqui. ``É apenas nosso parecer técnico. A Anatel levará em conta outros fatores para a escolha’, diz Brito. É nesses outros fatores que o padrão japonês recebe uma saraivada de críticas. A principal delas é que ainda não foi implantado nem no Japão, onde só deve vigorar em 2003. A assessoria de imprensa da Anatel informou que a direção, que fala sobre o assunto, está fora do país.
``Quando digo a colegas americanos que o Brasil está considerando o sistema japonês, eles dizem que estamos malucos em escolher um modelo que não existe. Só funciona no papel’, ressalta o representante do padrão europeu DVD no Brasil, Salomão Wajmberg. Ele argumenta ainda que nem a união dos mercados brasileiros, japonês e de toda a América do Sul - que deve seguir o padrão escolhido pelo Brasil - equivale ao número de consumidores europeus que já compraram decodificadores digitais.
Os defensores do padrão americano também lançam mão de argumentos mercadológicos para vender seu produto. ``Tenho informações de que o modelo japonês será adiado no Japão para 2006. Assim, seremos cobaias dos japoneses. E o padrão europeu precisaria de adaptações para o Brasil, já que lá a freqüência é de 8 Mhtz e aqui é de 6Mhtz, como nos Estados Unidos. Isso vai encarecer os aparelhos. Além disso, a demanda do mercado americano sempre será maior que a do europeu’, defende Renato Zats, diretor de novos negócios da fabricante de eletrodomésticos LG, que adquiriu a Zenith, que integra o ATSC.
Renato não acha que a inviabilidade da transmissão móvel seja relevante para a decisão da Anatel. ``A TV em carros só é interessante para a classe A’, diz o representante do ATSC, tentando anular a maior vantagem do sistema japonês. ``Nós, fabricantes, não nos metemos na programação das emissoras. Por que elas estão se metendo no nosso ramo?’, pergunta Renato.
Para o representante do sistema europeu, a Abert tem motivos políticos para preferir o sistema japonês ao europeu. ``As emissoras têm medo de que, se o DVB for escolhido, o governo faça como na Inglaterra e elas tenham que devolver freqüências. Elas querem os quatro canais resultantes do sistema digital com a desculpa de possibilitar a HDTV. Mas só alguns programas do horário nobre seriam em alta definição. No resto do dia elas usariam os canais para outros fins. Foi o que aconteceu nos Estados Unidos, onde emissoras estão sendo investigadas pelo Congresso por operar outros serviços, como internet, para os quais não têm concessão’, diz Salomão.
A utilização da TV digital para a HDTV - que vem sendo demonstrada pela Abert - não é mesmo defendida por todo o mercado. Perguntado sobre que sistema deve ser usado no Brasil - o de multicanal ou de HDTV -, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, consultor da Globo e estudioso, ressalta: ``Acho um desperdício entregar novos canais a emissoras que até hoje não conseguiram resolver seus problemas. O exemplo americano não serve para o Brasil, porque lá o critério foi permitir que as emissoras abertas pudessem competir melhor com a televisão por assinatura. Aqui, esse problema não existe. Se for para dar de graça, considero que somente a Rede Globo merece. Mas creio que o correto seria uma licitação. Isso permitiria que fossem abertos novos canais, democratizando o uso do espectro. Quem quiser fazer HDTV que compre do governo as freqüências necessárias para transmitir em alta definição. Quem não quiser, que receba apenas parte de um canal UHF para transmitir a sua programação também em digital.’
Já o vice-presidente da Record, Roberto Franco, defende que os quatro canais fiquem com as emissoras. ``Vejo os novos canais como uma continuidade dos serviços das emissoras. Para que criar novas redes se já vimos que só umas cinco se firmaram como principais? Devemos investir na interatividade ou na HDTV’, diz Franco. O executivo conta que apesar de a Record e o SBT estarem fora da Abert, as emissoras estão unidas na preferência pelo sistema japonês. ``Estamos com representantes no grupo através da Set. Queremos um padrão que possa ser recebido por aparelhos instalados em ônibus e por palmtops, por exemplo. Não estamos fazendo pressão e a Anatel também consultará o CNPq para avaliar os relatórios’, conclui Franco. (Colaborou Gabriela Goulart)"
HUMOR
Hélio Schwartsman
"O animal que ri", copyright Folha de S. Paulo, 11/03/01
"Ok. Eu admito. Já vi e já ri das pegadinhas de Sérgio Mallandro, João Kléber e congêneres. Para os que não conhecem, uma pegadinha é um pouco como uma fraude. Uma câmera oculta grava pessoas em lances embaraçosos. O protagonista, obviamente, não sabe que está sendo filmado e contracena com atores e/ou amigos que o induzem à situação vexatória. Há brincadeiras relativamente inocentes, como a do ator que pede um cigarro a um desconhecido e, ao apanhá-lo, destrói o maço da vítima afirmando que o faz para preservar-lhe a saúde. Normalmente tudo termina, no máximo, com um tabefe. Mas existem também roteiros mais graves. Foi o caso da pegadinha em que se oferecia cocaína a um célebre dependente em processo de recuperação.
Por que rimos de coisas estúpidas como essas? O humor permanece, desde os primórdios, um desafio para filósofos e depois para cientistas. Na verdade, não sabemos por que rimos e muito menos por que rimos de bobagens.
É claro que o riso é um reflexo, mais especificamente uma resposta do sistema nervoso autônomo, no caso, o vago parassimpático, a um estímulo. O problema é que, diferentemente de outros reflexos, o riso não tem um propósito claro como tem, por exemplo, o eriçamento dos pêlos diante de uma ameaça. É um pouco o pesadelo dos neurocientistas. São obrigados a admitir que o riso é importante -ou a evolução não o teria preservado-, mas não sabem explicar por quê.
O riso também é o único reflexo que pode ser disparado por atividades altamente intelectualizadas (neocorticais, diria o neurobiólogo), como a leitura das piadas da ‘Playboy’. Como bem observou o filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) em seu saboroso ‘Le Rire’ (‘O Riso’), o cômico é essencialmente humano. Mesmo quando rimos de um chapéu engraçado, não estamos rindo do pedaço de feltro ou palha, mas da forma que lhe foi dada pelo ‘capricho’ humano.
O escritor Arthur Koestler, que escreve o verbete ‘humor’ da ‘Encyclopaedia Britannica’, traz outras preciosas indicações. Retomando a discussão sobre a ‘gramática’ do humor, ele afirma que rimos quando percebemos um choque entre dois códigos de regras ou de contextos, todos consistentes, mas excludentes entre si.
Um exemplo: ‘O masoquista é a pessoa que gosta de um banho frio pelas manhãs e, por isso, toma uma ducha quente’. Sei que é um pouco ridículo explicar a piada, mas... Aqui, o fato de o sujeito da anedota ser um masoquista subverte a lógica normal, invertendo-a. Obviamente, a lógica normal não coexiste com seu reverso. Daí a graça da pilhéria. Uma variante no mesmo padrão, mas com dupla inversão é: ‘O sádico é a pessoa que é gentil com o masoquista’. Essa estrutura está presente em todas as piadas. Até no mais infame ‘trocadalho’ que se possa conceber, há um choque entre dois contextos, o do significado da palavra e o de seu som: ‘A ordem dos tratores não altera o viaduto’.
Mas essa ‘gramática’ só dá conta da estrutura intelectual das piadas e há outros aspectos em jogo. Até bebês riem. Há, além do lado intelectual, uma dinâmica emocional no humor. Ele de alguma forma se relaciona com a surpresa. Kant diz que o riso é o resultado da ‘súbita transformação de uma expectativa tensa em nada’ (‘Crítica do Juízo’, I, 1, 54). Rimos porque nos sentimos aliviados.
Talvez aqui o neurobiólogo possa encontrar uma utilidade para o humor. Ele liberaria tensões. Freud, que também tem um livrinho sobre o humor (‘O Chiste e Sua Relação com o Inconsciente’), acha que gracejos funcionam um pouco como os sonhos. Têm força orgásmica e também revelam impulsos inconscientes.
Na conjunção dos aspectos intelectuais com os emocionais, poderíamos traçar uma escala do humor, dos mais primitivos aos mais sofisticados. Crianças pequenas se deliciam com caretas e imitações. Pré-adolescentes adoram as piadas escatológicas. Adolescentes gostam especialmente de anedotas sexuais.
Há, porém, um outro elemento presente em todos os chistes. É, como observou Bergson, a crueldade. O humor requer alguma insensibilidade. Exige, nas palavras do filósofo, ‘uma anestesia momentânea do coração’. Normalmente não rimos daqueles que nos inspiram piedade. Mas quando o fazemos -e por vezes fazemos- a compaixão é, por alguns instantes, calada.
Nas piadas mais sofisticadas, essa crueldade pode quase desaparecer, mas deixará, ainda, algum traço, na forma de ‘malícia’, ‘esperteza’ ou apenas na suspensão da solidariedade para com a vítima.
Segundo o psicólogo anglo-americano William McDougall (1871-1938), ‘o riso desenvolveu-se na raça humana como um antídoto contra a compaixão, uma reação protetora que nos defende da influência deprimente dos defeitos de nossos semelhantes’. Aqui, os neurobiólogos poderiam procurar uma utilidade mais sofisticada para o humor, embora me pareça fútil fazê-lo.
O que me interessa é retornar a Bergson e ao riso como um ‘gesto social’. Para o filósofo, o temor de tornar-se objeto de riso reprime as excentricidades do indivíduo. O riso não é assim um movimento puramente estético. Ele visa o aperfeiçoamento da sociedade. Mas, ao mesmo tempo, conserva algo de puramente estético, porque os homens, quando já não se preocupam unicamente com sua sobrevivência individual e do grupo, podem ‘dar-se como espetáculo aos homens’.
As pegadinhas ensejam um humor primitivo, admito. Vou além. Tornamo-nos cruéis ao assistir a uma pegadinha. Mas, à medida que essa crueldade tem um sentido social, ao rir das vítimas não chegamos a sacrificar nossa humanidade. Ao contrário até, nós de alguma forma a afirmamos, já que o homem é, segundo os filósofos, o único animal que ri.
Pegadinhas são cruéis, de mau gosto e, por isso mesmo, engraçadas."
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