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ASPAS

MÍDIA GAY
Ricardo Galhardo

"O primeiro beijo gay da TV, 50 anos depois", copyright O Estado de S.Paulo, 10/8/01

"Desde que Walter Forster e Vida Alves deram o primeiro beijo de uma novela, em ‘Sua vida me pertence’, na extinta TV Tupi, há 50 anos, um beijo não causava tanta polêmica. Anteontem, a MTV exibiu o primeiro ‘Fica comigo’ protagonizado por homossexuais (o programa é uma espécie de namoro na TV moderninho, segundo definição da emissora, que já existe na versão heterossexual). No fim do programa, depois de uma hora de suspense, Conrado Gotti, químico-farmacêutico de 30 anos, católico praticante nascido no interior de São Paulo, se decidiu por Fábio Chelotti da Cruz, estudante de educação física, de 27 anos, que mora com a mãe aposentada e a irmã na Zona Leste.

Sob gritos de ‘está namorando’ de uma eufórica platéia de gays, os dois deram um beijo em rede nacional.

– O clima era de vitória em Copa do Mundo – disse o diretor de programação da MTV, Zico Góes.

A média da MTV para o horário das 23h à meia-noite é de apenas um ponto no Ibope (equivalente a cem mil pessoas na Grande São Paulo). Anteontem, atingiu quatro pontos.

– Adorei! Minha cara de felicidade já dizia tudo – disse Conrado ontem.

Desde a gravação, em 28 de julho, ele e Fábio já saíram três vezes.

– Estamos namorando – disse Fábio, embora Conrado insista em manter o pé atrás:

– Não mergulho mais de cabeça nas coisas do amor. É preciso dar tempo ao tempo.

No ‘Fica comigo’, o interessado põe um anúncio no site da MTV e tem que escolher um entre quatro pretendentes. No fim, podem se beijar ou não. O beijo de Conrado e Fábio foi o mais longo do programa até hoje.

Agora, a MTV pretende fazer um ‘Fica comigo’ com lésbicas e outro com bissexuais.

– Esse foi um programa institucional. A MTV assume a responsabilidade de derrubar esse preconceito – disse Zico.

A idéia de fazer um ‘Fica comigo’ gay nasceu com o programa. Mas havia dificuldades. Uma foi o medo da exposição. Quinze dias antes da gravação, apenas dois dos quatro pretendentes haviam confirmado presença. O próprio Conrado demorou a se decidir. Foram várias idas e vindas até a decisão, tomada em ‘15 minutos de loucura’.

Além disso, a gravação atrasou duas horas devido ao grande número de jornalistas e curiosos. A MTV não explicou por que as inserções de merchandising não foram ao ar na versão gay."



Joaquim Ferreira dos Santos

"Haja tabu!", copyright no. (www.no.com.br), 9/8/01

"Quebrou-se mais um tabu ontem à noite na televisão. Não vi. Dormi. Fui salvo pelo videocassete. O ‘Fica Comigo’ da MTV, um game-show heterossexual do tipo rapaz-procura-moça-para-dar-uns-amassos, abriu seu armário para os gays. Bofe-quer-bofe-prum-regabofe. Até os gays andam chatos. Deu saudade da peixeira de Madame Satã. Saudade do Renato Russo. Saudade da polícia invadindo o tal barzinho gay no Village. Havia conflito de idéias, tinha sempre um herói em desacordo entrando com um balaço e um pulmão perfurado para a História. O Bush ainda se esforça com seu terrorismo ecológico, suas barreiras comerciais. De resto, tédio, poucas bandeiras nas ruas. Ninguém mais quer ser travesso. ‘A felicidade está dentro de nós e devemos caminhar semeando algo de bom’, atacou um certo Jeferson quando lhe pediram que jogasse uma cantada no rapaz do ‘Fica Comigo’. Os burgueses já tinham morrido de tédio quando o! s heróis do Cazuza começaram a morrer de overdose. Todo mundo agora quer ficar bem vivo e – no máximo com os cornos um pouquinho só acima – no meio da manada. O melhor programa da televisão no momento é ‘Os Normais’. Malucos discretos, inseridos no contexto. No último programa havia uma festa em que ser lésbica dava crachá Vip e duas personagens, heteros convictas, topam se anunciar do outro lado em buscar do Santo Graal dos tempos modernos – um crachá Vip. Ter status, ser aceito, eis o ponto. O importante é procurar não chocar, porque teria efeito ridículo: ninguém se choca com mais nada. E foi assim, sem gracinha, que os gays saíram do armário aberto pelo ‘Fica Comigo’ da MTV na quarta-feira. ‘Eu tenho uma mania muito estranha’, disse Fábio, ‘gosto de dormir mexendo na ponta do travesseiro.’ Eram rapazes já na faixa dos 25 anos, mas davam aquela mesma impressão de doença irritante que vem acometendo a geração de heteros: os sinais vitais da adolescência estão todos preserv! ados. Um deles, Hugo, disse que para apimentar a relação receberia o amado em casa vestido de Tiozinho. Parecia querer se afirmar um tremendo de um devasso. Mas faltam referências de perversões adultas. São gays que nunca viram uma foto de Lachapelle. Nem desconfiam do que vai por trás de um marinheiro de Tom of Finland. Nem a diabólica Anita, 16 anos, passando no mesmo horário na Globo, dá mostras de tanta dificuldade em misturar a pureza da idade e o projeto de ser despudorada. Dá saudade do tempo em que os gays se recebiam ouvindo Barbra Streisand. Ninguém mais lê Genet, nem Capote. Não rola um vídeo sugestivo do Pasolini. Que fique, claro, nada de muito especial está acontecendo com os gays. Apenas vão se plastificando também, desejosos mais do que o resto de parecer igual, normal e ganhar um crachá Vip. Por isso, o crítico dorme na poltrona. A MTV abre o armário, e faz com muita competência em trazer o espetáculo para os seus padrões, mas o que sai de lá é um bando de i! rrelevâncias típicas dos garotos e garotas que nas semanas anteriores estavam no ‘Fica Comigo’ correndo atrás de um amasso no seu oposto. ‘Roupão de seda combinando com cueca samba-canção é um luxo’, aprendi com um dos gays, Conrado. Ninguém esperava o Pitibicha e seu cuecão de couro, mano. Mas os gatos estão todos pardos demais nesta noite. ‘Morar sozinho é superdificultoso’, choraminga um dos rapazes com a língua típica de quem jamais pôs os olhos numa frase de Lúcio Cardoso, um seu igual dantanho. ‘Para estimular a relação é preciso dar aquela regada’, diz outro, mas sem qualquer maldade, coitado. Parecia demonstrar mais falta de linguagem culta do que língua maliciosa. Fernanda Lima, a apresentadora do show, avançou mais. Perguntou num dos quadros se o rapaz, nas artes da cozinha, diante dos pratos sujos, ‘lava ou enxuga?’ – e soou com a mesma entonação clássica que se dá ao ‘Cospe ou engole’ da piada. De um modo geral, no entanto, não se avançou o sinal dos bons modos. ! Tem um momento do programa em que o rapaz em disputa avalia, de olhos vendados, às apalpadelas, o corpo do pretendente. Só um se deixou tocar na bunda. No final, o casal escolhido dá um beijo na boca ao som do Portishead cantando ‘Glory Box’, aquela do ‘Give me a reason to love you’. A música é depressivo-piegas, o beijo, de novela. Pela primeira vez dois gays se beijam na boca, ao vivo, na televisão brasileira. FH, no entanto, dormia tranqüilo. São tantos tabus que se vão que já há gente desprezando os carneirinhos e contando ‘um tabu, dois tabus, três tabus’ em busca do sono perdido. Mário de Andrade, que nunca ouviu o Portishead mas curtia todo o resto, preferia como música ‘o barulho da fivela do cinto de um fuzileiro naval batendo no espaldar de uma cadeira de hotel na Praça Mauá’. Ele também dormiria."

 



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