QUALIDADE NA TV


GUERRA DE AUDIÊNCIA
Ivan Angelo

"Gugu queria ajudar ou aumentar sua audiência?", copyright Jornal da Tarde, 10/4/01

"Gugu Liberato chora no lixão de Carapicuíba. As cenas que ele nos mostra são chocantes, mas não novas: crianças, mulheres, homens e velhos catam objetos e comida no lixo. Gugu, disfarçado, é um deles. Um pouco mais equipado, com botas, luvas, máscara, gorro, paletó, e leva um forcado, mas são roupas ferradas, como as de um miserável.

O telespectador mais avisado deve pensar no que não vê: há ali atrás uma equipe de filmagem. Para se fazer uma gravação como esta, é preciso equipamento: uma ou duas câmaras, som, provavelmente iluminação, técnicos.

Gente e coisas que não estão ali todos os dias. Os miseráveis do monturo pareciam não ligar para a intromissão. Pareciam também não prestar muita atenção naquele ‘colega’ tão focalizado pelas câmeras, remexendo no lixo de vez em quando, com o garfo, sem procurar nem apanhar nada. As imagens, claro, não nos foram mostradas ao vivo, mas cortadas e editadas.

Os miseráveis não atuam para a câmera porque têm coisas a catar. Um come um pastel que achou; um menino come uma coxinha; outros recolhem retalhos de carne, crus, que depois são fritos ali mesmo, numa frigideira que a equipe supõe ter sido achada no próprio lixão. A câmera dá closes em Gugu com lágrimas nos olhos, algumas vezes limpando-os pelos buracos da máscara de meia elástica. Depois, filma-o saindo do lixão enlaçando protetoramente um garoto.

Corta e imediatamente entra na tela o mesmo Gugu já no auditório, bonitinho e cheiroso, anunciando as ofertas sensacionais do hipermercado Extra e a coleção outono-inverno. O contraste choca, mas caímos na real da tevê: é o entretenimento que comanda as ações. Nele cabem a miséria e as lágrimas. A partir deste momento, a matéria sobre o lixão de Carapicuíba torna-se abertamente um show.

Populares opinam sobre o que viram. Não ao vivo, mas tudo editado e montado.

Uns falam à luz do dia (já era noite quando as cenas do lixão foram ao ar), outros à noite, todos na rua, como se fossem apanhados ali na hora. Depois, é ‘chamado’ ninguém menos do que o governador, como se fosse ao vivo, como se ele estivesse assistindo ao Gugu. Faz uma longa exposição, parabeniza Gugu pela ‘matéria jornalística’, diz que o Estado só fiscaliza o meio ambiente, não opera o recolhimento do lixo, que é serviço das prefeituras.

Mas garante que providências já estão sendo tomadas, que o lixão vai acabar porque o governo do Estado vai ajudar a prefeitura de Carapicuíba na substituição do sistema pelo de coleta seletiva. Volta Gugu, que em tom de cobrança chama o prefeito. Ele é posto na tela também como se fosse ao vivo e faz seu discurso. O lixão vai acabar dentro de um mês, vai ter aterro sanitário, será implantada a coleta seletiva, aproveitamento industrial, empregos, uma maravilha, dentro de um mês. Entra Gugu, que de dedo em riste promete voltar cobrando, no fim do mês.

A pose é de que fomos lá e resolvemos. O problema do lixão de Carapicuíba existe há 20 anos. Como se pode mudar isso em um mês? Como ensinar à população a separar o lixo? Como preparar pequenas indústrias de transformação para aproveitamento do lixo? Como impedir que os caminhões continuem a derramar lixo no local? Qual a infra-estrutura montada/ Nada disso foi mostrado, só interessavam o show e o ibope.

Jabor - O Canal Brasil passou no sábado um filme que era interessantíssimo em 1967: Opinião Pública, de Arnaldo Jabor. O diretor começava ali a sua incursão pelas contradições da classe média, entre as quais, dizia ele, a de ter feito ‘uma revolução contra si mesma’. O filme não é um documentário, Jabor preferiu classificá-lo como ‘documental’, porque tem conversas programadas. Tem climas dos anos 60, comportamentos e movimentos que são, no mínimo, curiosos de observar à distância.

A campanha contra o divórcio, por exemplo: ‘O divórcio vai aniquilar a família brasileira’, dizia a faixa. As drogas não pegavam tão pesado: ‘As manchetes falam em tóxicos e delinqüência. Não vimos isso no jovem da classe média’, diz o texto. Beijar tinha mais significado: ‘Carnal é a moça beijar sem gostar’, diz a loura de cabelo armado explicando a umas jovens a diferença entre o amor e o interesse carnal. Os evangélicos começavam a aparecer. O filme tem momentos, mas assisti-lo no contexto da primeira fase do regime militar era mais estimulante, as falas ganhavam mais significado.

A exibição foi precedida de um longo documentário sobre a carreira do diretor. Não há contestações, é uma homenagem, uma ação entre amigos, as críticas são feitas por ele mesmo, mas é um levantamento completo, muito informativo. Durante o mês, serão exibidos no canal Brasil, sempre aos sábados, às 23 h, outros filmes do cineasta que optou pelo jornalismo."



Daniel Castro

"Band vai popularizar programação da tarde", copyright Folha de S. Paulo, 10/4/01

"A TV Bandeirantes prepara uma mudança substancial de sua programação para os próximos meses. A tendência é de popularização, pelo menos à tarde.

A avaliação de executivos da emissora é que a atual fórmula de programação segmentada (com blocos femininos e jovens, mais futebol) não está agregando audiência e não se sustenta comercialmente. O departamento comercial vem pressionando para uma guinada para o popular.

O assunto divide a emissora. Há setores que temem eventual rejeição a uma Band popularesca. Mas a tendência ao popular vem se sobressaindo. Rogério Gallo, diretor de criação, está ganhando espaço, cedido pelo vice-presidente de televisão, Roberto de Oliveira, partidário de uma programação mais sofisticada. Nos corredores da emissora, fala-se até em uma eventual mudança na cúpula.

‘A Band precisa de mais audiência, mas isso não significa popularização sem critérios. Queremos produtos mais competitivos, mas sem exageros’, diz Gallo.
Segundo Gallo, a programação feminina vai mudar radicalmente em junho. A Band tenta contratar Leão Lobo, apresentador do ‘Mulheres’, da Gazeta. A programação noturna também irá mudar."



O Globo

"Cineasta teve milhões de espectadores na TV", copyright O Globo, 14/4/01

"A televisão, para Rossellini, era mais do que um meio. Quando o veículo ainda estava engatinhando, em 1963, ele convocou uma entrevista coletiva para decretar: ‘O cinema morreu’. O criador do cinema moderno, principal artífice do neo-realismo italiano (termo que ele não reconhecia como exato, aliás) se referia à irresistível chegada da televisão, um modo, segundo ele, de levar o conhecimento a cada indivíduo, uma maneira de democratizar a cultura.

Ainda não havia, pelo menos na Europa, a TV comercial. A TV era um monopólio estatal pouco difundido, com virtualmente tudo a ser criado. Não foi sem polêmica que o meio cinematográfico recebeu a frase ‘o cinema está morto’ - ainda mais dita por um mito do cinema. A resposta mais bombástica foi dada por Alfred Hitchcock, ‘Rossellini está morto’ - na verdade uma vingativa frase contra o italiano que roubou Ingrid Bergman de Hollywood (e do coração de Hitchcock).

Mas, a partir de 1963, o fato é que o cinema perde Rossellini para a utopia de se construir a tal enciclopédia universal audiovisual.

- Em termos de minutagem, perto da metade da obra de Rossellini é consagrada a temas históricos e produzida para a televisão - diz Adriano Aprà, também autor do documentário ‘Rossellini vu par’, exibido na retrospectiva completa programada pelo Museu do Louvre.

Este, no entanto, é um aspecto pouco lembrado pela crítica e mesmo pelos cinéfilos mais aplicados. O cineasta costuma ser celebrado apenas como o diretor que mostrou como fazer cinema sem cenários, sem atores profissionais, sem estúdios e sem confortos, um cinema possível, que qualquer um poderia fazer. Tudo que veio depois (fora de Hollywood), todo o cinema de rua, de câmeras na mão e idéias na cabeça, veio da matriz rosselliniana. Quando ele viu a televisão e seus meios técnicos simplificados, vislumbrou a utopia.

Já em 1961, Rossellini escreveu o artigo ‘Uma nova missão para o cinema’ (reproduzido no livro), em que demonstrava que a seqüência natural do neo-realismo - ‘um cinema que miraculosamente surgiu das ruínas da guerra, com muita coragem para contar ao mundo nossa tragédia e mostrar o verdadeiro rosto dos italianos’ - seria abraçar a televisão.

‘Os meios audiovisuais são os mais eficazes pelas razões seguintes: metade da população mundial é analfabeta; está provado que o uso cuidadoso dos meios audiovisuais associados a outros meios facilita a educação e gera um aprendizado mais duradouro’, completou Rossellini.

Essa teoria seria transformada em prática por meio de um bem cuidado esquema enciclopédico de filmes para a TV, que começaria em documentários dramatizados sobre o período neolítico e cobriria toda a história da humanidade, até a revolução da eletrônica.

Não era tarefa pouca, mas era para Rossellini a única tarefa ética da televisão - como ao cinema italiano dos anos 40 cabia mostrar ao mundo a tragédia e os rostos italianos sem os meios técnicos que o cinema da época exigia, cabia à televisão educar.

A filha mais famosa do cineasta, a atriz Isabella Rossellini, esteve em Paris para a abertura da retrospectiva e deixou claro que, para o pai, não havia diferença entre o cinema que fazia e a TV que quis fazer e fez, pelo menos parcialmente.

- Vejo os filmes de meu pai, mesmo os mais conhecidos, como ‘Stromboli’ ou ‘Viagem à Itália’, e o que interessa neles é o que está por trás da história, é o documentário que está atrás de cada filme de ficção - disse a filha de Rossellini com a atriz Ingrid Bergman. - O meu preferido é a biografia de São Francisco, que tem roteiro de Fellini e mostra a realidade através de uma comédia picaresca.

Como notou Isabella, sempre houve um desejo histórico-documental no cinema de Rossellini, e é isso que a integralidade de sua obra vem a mostrar. A diferença é que no período neo-realista do diretor, a história é quase sempre a contemporânea.

O que vai mudar, no momento em que ele abraça a utopia, é a ambição de documentar, desta vez, a história da humanidade. E ele começa a fazer isso, formalmente, a partir de 1961, quando faz ‘Viva l’Italia’, uma encenação da aventura de Garibaldi e a unificação de seu país natal.

A partir dai, Rossellini faria os mais variados filmes ‘históricos’ (nunca documentários clássicos, sempre reconstituição com atores). E foi, à sua maneira, bem sucedido: ‘A idade do ferro’, por exemplo, cinco episódios sobre a história do ferro no progresso humano, foi visto durante cinco semanas por mais de dois milhões de italianos simultaneamente.

O filme seguinte, o excepcional ‘A tomada de poder por Luis XIV’, é exemplar do projeto de enciclopédia de Rossellini de alternar grandes eventos da humanidade (como a história do ferro, por exemplo) com histórias representativas, bem particulares.

‘O meu projeto é composto de dois caminhos paralelos’, explicou Rossellini numa entrevista de 1966, reproduzida no livro ‘La télévision comme utopie’. ‘Por um lado - e é o caso de ‘A idade do ferro’ - mostrar as grandes transformações na história, desenhar as vastas perspectivas e os movimentos coletivos do progresso humano. De outro, pegar uma etapa particular e desenvolvê-la.’

Em seguida, vieram outros projetos ambiciosos, como o ‘generalista’ ‘A luta do homem pela sobrevivência’, 12 episódios que vão da descoberta do fogo até a invenção da fotografia, sempre tendo como perspectiva a adaptação do homem sobre a Terra. Entre os ‘particularistas’, vieram filmes como as biografias de Pascal, Sócrates, Descartes, Jesus (em ‘O messias’). A etapa seguinte, o projeto em que ele estava trabalhando antes de morrer, era uma biografia de Marx. ‘Tantos pensam hoje em termos marxistas que é preciso conhecê-lo melhor’, disse, na época.

Aos 70 anos, Rossellini via o futuro com uma precisão assustadora. Querendo dizer televisão, talvez ele tenha intuído uma espécie de internet ultrademocrática. ‘Nós temos que criar uma espécie de Éden da informação, que possa ser consultado por todos com toda a liberdade, para que ajude a pensar. E para isso, temos que aplicar os novos meios de difusão. Temos que substituir o meio cultural atual, sofisticado, mafioso, por um rico jardim de idéias, de pensamentos, de curiosidades e de sonhos, cultivado por todos e à disposição de todos.’

Utópico? Ingênuo? A exibição de todos os filmes de Rossellini no Louvre, em ordem cronológica, abarcando tanto a desconhecida fase televisiva quanto suas obras cinematográficas mais consagradas (que retrato melhor da miséria da guerra do que ‘Alemanha ano zero’? Ou de um conflito tão típico do século XX, entre o mundo urbano representado por Ingrid Bergman e o mundo arcaico do pescador, em ‘Stromboli’?) dá a nítida impressão de que ele esteve bem próximo da realização de sua maior utopia."



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