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QUALIDADE NA TV
LAÇOS DE FAMÍLIA
Maria Rita Kehl
"Baixaria e realismo", copyright Folha de S. Paulo, 14/01/01
"Gustave Flaubert, um dos maiores escritores do romance realista, nos idos do século 19, já tinha entendido: a realidade não é feita de ‘fatos’, mas de linguagem. Não são as coisas que nos acontecem na vida, mas o modo como as interpretamos e consequentemente reagimos, ou não, a elas que faz a realidade. Flaubert vivia em um mundo em que as palavras e o pensamento tinham uma importância muito maior do que têm hoje na determinação da vida social. Hoje, quem dá as cartas, predominantemente, são as imagens; e as imagens, aparentemente, pertencem ao domínio dos ‘fatos’. A novela ‘Laços de Família’, da Globo, por exemplo, vem conseguindo mobilizar mais de 32 milhões de espectadores apaixonados pelo seu implacável ‘realismo’, segundo a revista ‘Veja’ da semana passada.
No que consiste o realismo, do ponto de vista da televisão brasileira? Em primeiro lugar, como todos sabem, são consideradas realistas todas as formas de exploração de nossas mazelas sociais. Ratinho exibe o vídeo de uma criança sendo estuprada pelo padrasto? Realismo. Silvio Santos permite que os participantes de alguns de seus jogos se humilhem (voluntariamente) por dinheiro? Realismo. As pessoas ‘são’ assim. ‘Linha Direta’ promove nosso gozo com o espetáculo da morte e da violência? Realismo; como se as imagens fossem neutras, como se o sofrimento não estivesse sendo brutalmente estetizado, como se as emissoras não lucrassem vendendo pânico para a classe média.
Em segundo lugar, consideramos realista a resignação com os fatos; quem não quiser passar por otário deve aceitar ‘a vida como ela é’. Pobre Nelson Rodrigues, que não viveu para ver sua soberba ironia transformar-se em cinismo.
Da mistura desses dois ingredientes nasce o ‘realismo’ da telenovela de maior audiência no país, neste começo de milênio. Bem, com a doença de Camila não se pode discutir; doenças e morte, apesar da poderosa ciência, ainda fazem parte do inexorável da vida. O resto, são os elementos sensacionalistas de costume: uma menina de classe média que se prostitui para dar ‘conforto’ aos pais; uma mulher adulta que esconde durante 20 anos a paternidade da filha; um machão mal-humorado que costuma surrar uma órfã malcriada, apaixonada, sabe-se lá por que, pela cara feia dele; uma socialite decadente (que novela pode passar sem uma socialite decadente?) que se mantém com a fortuna dos sobrinhos órfãos etc.
O aperfeiçoamento do realismo na novela de Manoel Carlos não está, portanto, nos ingredientes escandalosos, que dependem da maior ou menor imaginação de cada autor; está escondido no modo como os personagens conversam sobre o que lhes acontece. Ou melhor: não conversam. A baixaria em ‘Laços de Família’ não está onde costumamos procurar (e encontrar) na televisão brasileira, isto é, nos programas dirigidos para as classes C e D. Está na burrice cultivada, ‘fina’, razoavelmente educada, de personagens que o autor faz falar e falar, mas não consegue fazer dialogar.
Vejamos: no casamento de Camila, Clara dá uma baixaria, sobe no palco e denuncia a presença de Capitu, cuja vida de garota de programa até então era desconhecida dos próprios pais. ‘Chega, Clara, você já foi longe demais’, interrompe o marido, interpretado por uma espécie de boneco inflável que a imprensa especializada já escolheu como ‘sex symbol’ do ano. Nenhum argumento, nenhuma fala razoável se faz ouvir em oposição ao discurso fascistinha de Clara. No capítulo seguinte, Fred repreende a esposa porque não tinha o direito de... estragar a festa da Camila! Algum aspecto da ‘realidade’ foi calado nesse episódio, ou não?
O sucesso de audiência determina a duração das novelas. Quando são espichadas, o autor tem de escrever incontáveis cenas apenas para preencher o tempo. Mas essas cenas redundantes, em que os personagens repetem as mesmas falas sem dialogar, não estão excluídas do efeito ‘realista’ da obra. ‘Quero falar com você’, diz Íris a Pedro. Pedro: ‘Não me amole, saia daqui’. Íris: ‘Mas eu preciso falar com você’. Pedro: ‘Não me amole, saia daqui’. Íris: ‘Mas eu quero muito falar com você’. Pedro: ‘NÃO ME AMOLE, SAIA DAQUI!’ e corre atrás de Íris com o chicote na mão. Corta.
O efeito da repetição de centenas de cenas como essa é que os fatos ‘da vida’ impõem-se aos personagens, que estão sendo construídos sem a capacidade humana, normal, de falar inteligentemente uns com os outros e com isso furar o bloqueio totalitário da ‘realidade’. Não que eu esteja exigindo demais. Os personagens de ‘Terra Nostra’, por exemplo, argumentavam uns com os outros, trocavam pontos de vista, convenciam-se mutuamente, mudavam de atitude depois de uma discussão. Mas, pelo jeito, não obtiveram o mesmo sucesso da ficção totalitária de ‘Laços de Família’.
E, por falar em totalitarismo, a Globo poderia responder que não se discute com um ibope de 32 milhões de espectadores. Ou se discute? (Maria Rita Kehl é psicanalista e ensaísta, autora de, entre outros, ‘Deslocamentos do Feminino’ - Imago)"
Ivan Angelo
"A brincadeira é bolar um final para a Íris", copyright Jornal da Tarde, 16/01/01
"Que final você daria para Íris, personagem da telenovela dos enlaces da família carioca? Este é um joguinho que está rolando em turmas dos barzinhos paulistanos quando baixa a falta de assunto. Coincidentemente, saiu no Telejornal, no Estadão de domingo, uma materinha especulando qual seria o destino de Íris, pois o próprio autor já não sabe se entregará aquele anjo ao sensível Pedro. Deve ser porque os roteiristas já fizeram a garota aprontar tantas que não teria muita lógica alguém querer ficar com ela. O jornal diz que um final possível seria ela sofrer um acidente de carro (mais um, na novela), ser levada agonizante para um hospital, arrepender-se de todas as suas maldades (pois o perseguidor de cristãos Paulo não se arrependeu no caminho de Damasco?), pedir perdão a todos e doar a medula para Camila. Não é uma maravilha?
Então, seguindo a linha de imaginação dessa materinha, deixo aqui uma modesta contribuição para ‘a galera’ (palavra adorada por todos os nossos criativos apresentadores de televisão) dos barzinhos. Acho que as sugestões abaixo se equivalem àquela publicada no jornal.
Íris suicida-se no mesmo capítulo em que Helena se casa com Miguel, Cíntia com Pedro, Camila comunica-lhe que está curada e grávida novamente, Alma volta para Danilo e a expulsa do haras, convencida de que ela traz maus fluidos.
Um bispo de uma igreja dos novos tempos tira o capeta do corpo dela num grande show de tevê, aos gritos de ‘Xô, Satanás!’
Íris desaparece com aquele garoto arrumadinho que vai ao haras de vez em quando (Marcos Fercondini) que, de repente, revela-se um serial killer e a pica em pedacinhos.
Ela cai do cavalo, literalmente, e fica tetraplégica (papel difícil demais para a atriz canastroninha), para ver o que é bom.
Pedro amarra-a com arreios, a veterinária Cíntia retira a dose salvadora de medula dela, e Pedro corre para salvar a filha.
Ela fica com câncer, para ver o que é bom.
Ela converte o bondoso Miguel ao satanismo, casam-se e dão uma banana para Helena e Pedro, em meio a risadas demoníacas.
Essa é ótima: depois de conseguir transar com Pedro, fica sabendo que também é filha do garanhão inseminador, e foge correndo pela praia desesperada e fura os dois olhos, como Édipo.
Ela perde o dinheirinho da herança, escorraçada por todo mundo, vira sem-teto e fica viciada em drogas.
Quando vê Severino dar uma coça na namoradinha, fica doidinha por ele, fogem e vivem felizes para sempre. Através das janelas, a vizinhança ouve-a implorar como personagem de Nélson Rodrigues: ‘Me bate! Me bate!’
Fica louca. (Não acho ruim. Acontece muito nos romances de Dostoievski e em alguns de José Lins do Rego.) Íris torna-se ninfeta sadomasô requisitadíssima da central de garotas e tias de programa montada por Pedro com o objetivo de organizar a sacanagem, troca-troca e prostituição reinantes, na qual ele é um cafifa dominador, e onde trabalham Helenas, Cíntias, Capitus, Simones, Ritas, telefonistas, todas com motivos válidos para cair na vida (sustentar os filhos, claro) tendo a mãe de Capitu como cafetina gerente.
Íris apaixona-se perdidamente por Camila, que diz para a mãe ‘pode ficar com o Edu’, que abraça Gaby (em participação especial) e diz para a Helena ‘pode ficar com o Pedro’, que diz para a Cíntia ‘pode ficar com o Paulo Zulu’, que diz para a Glória ‘pode ficar com o Danilo’, que diz para a Alma ‘pode ficar com os gêmeos’, que dizem ‘papai!’ para J. Pinto Fernandes, que não tinha entrado na história."
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