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QUALIDADE NA TV

BRINQUEDO ASSASSINO
O Estado de S.Paulo

"Televisão, escola de violência", editorial, copyright O Estado de S.Paulo, 12/2/00

"Agora é o presidente Fernando Henrique Cardoso que está cobrando mecanismos de autocontrole na programação das emissoras de televisão, despertado para a urgência dessa medida pelo trágico episódio de que foram protagonistas duas crianças no Distrito Federal (DF). O menino D.J.G., de 9 anos, esfaqueou 40 vezes sua vizinha M.D.N., de 7 anos, e disse à polícia que se inspirou no filme Brinquedo Assassino 2, veiculado pelo SBT. O presidente já havia se manifestado sobre este tema há seis meses, quando um estudante metralhou a platéia de um cinema em São Paulo, matando três pessoas. Une-se, agora, ao secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, no fracassado projeto de conseguir ‘um autocontrole espontâneo e rigoroso’ do negócio de sexo e violência em que se transformou a TV brasileira.

O secretário José Gregori, paladino do engodo da auto-regulamentação da TV aberta, começa a reconhecer o fracasso da iniciativa. Segundo o secretário, as emissoras, após um ano de negociações com o governo, ficaram de entregar em dezembro um projeto de Código de Ética para o setor, mas não o fizeram. Para Gregori, a programação das TVs está ‘abaixo do sofrível’ - o que nos parece um excesso de comedimento. ‘Espero que este episódio trágico quebre a indiferença com que as emissoras receberam minha proposta.’ ‘No Brasil, às vezes, precisa haver sangue para comover a sociedade e alertá-la sobre a necessidade de limites éticos para o que nossos filhos vêem’, enfatizou.

As declarações do secretário não conseguem esconder a sua tentativa de transferir para a sociedade a responsabilidade pelo excesso de violência - que se transforma quase sempre em bestialidade -, de lascívia - que deságua freqüentemente em pornografia - e de vulgaridade - que é quase sempre deboche e degradação humana - que tomou conta da programação da TV brasileira. Se não houvesse demanda, pensa o secretário, a programação seria outra. Esquece, no entanto, que a televisão adquiriu uma espécie de monopólio sobre o tempo de lazer da sociedade. E a força desse monopólio, invasivo e deseducativo, elimina, na prática, quaisquer alternativas. Além disso, ao contrário do que insinua José Gregori, sucessivas pesquisas de opinião têm demonstrado que a maioria moralmente sadia da sociedade brasileira está indignada com a apatia do governo diante das conseqüências da guerra de audiência entre as principais redes de TV. Uma dessas pesquisas, encomendada há um ano pelo Grupo TVer à empresa CPM Market Research, constatou que 71% das 842 pessoas ouvidas das classes A, B, C e D, entre 14 e 39 anos, nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, achavam que o governo deveria intervir de alguma forma na programação da TV. De lá para cá aumentou dramaticamente o sentimento de irritação da sociedade, sem dúvida frustrada pela percepção da apatia das autoridades.

A opinião pública percebe, com razão, que sobram exortações governamentais, mas faltam medidas concretas e eficazes. De fato, as repetidas declarações do secretário nacional de Direitos Humanos - as últimas foram feitas em sua recente visita ao Conselho Superior do Audiovisual em Paris, onde teve oportunidade de ver como o governo francês age nesse terreno em que o brasileiro está ausente - não se têm traduzido em ação. Espera-se, no entanto, que diante do explícito nexo de causalidade entre a exposição à violência na TV e a chocante agressão noticiada pela imprensa - que comprova a decisiva contribuição da TV para o vertiginoso aumento da criminalidade nas grandes cidades do País - o governo, afinal, abandone esse lamentável jogo de faz-de-conta e exija que os concessionários de um serviço público obedeçam aos princípios estabelecidos na própria Constituição.

A sociedade espera que o presidente da República não fique apenas nas declarações de intenção como o secretário de Direitos Humanos. Para passar das palavras aos atos basta implementar o que já está previsto na legislação brasileira. O que a opinião pública deseja é um mecanismo de controle ético da TV que funcione, nada mais."

 

HORA DO ESPANTO
Hugo Marques

"Programação de TV assusta diretor da Unesco", copyright
O Estado de S.Paulo, 15/2/00

"O representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no País, Jorge Werthein, disse que está ‘profundamente assustado’ com o nível de violência e sexo na televisão brasileira, em horários impróprios. Ele recomendou aos pais que apresentem reclamações ao Procon. ‘Quando compramos algum produto que está podre ou com prazo vencido temos a possibilidade de reclamar no Procon’, disse Werthein. ‘Estamos fazendo isso com a mídia eletrônica? Não!’

Na opinião de Werthein, os pais estão adotando uma atitude ‘extremamente passiva’ em relação ao que assistem e ao que os filhos estão vendo na televisão brasileira. O representante da Unesco afirmou que a sociedade precisa reclamar mais e acompanhar de perto o acesso dos filhos a meios como televisão, Internet, cinema e jogos eletrônicos. As emissoras, disse Werthein, têm de aceitar a auto-regulamentação logo.

Em fase de recuperação de uma cirurgia, Werthein foi obrigado a ficar dentro de casa na última semana. Acompanhou a programação diária das principais emissoras convencionais e a cabo. Werthein, que nos últimos anos vem acompanhando pesquisas sobre violência na TV, disse que ficou assustado com filmes veiculados no período da tarde, quando grande parte das crianças estão grudadas à televisão. O representante da Unesco disse que viu esta semana, às 13 horas, um filme onde aparecem pessoas fazendo sexo explícito e matando.

O representante da Unesco afirmou que não aceita argumentos de alguns produtores de filmes e programas de televisão, do tipo ‘isso vende’, para veicular programação violenta. Ele acredita que se trata de um escapismo da mídia para impor programação ruim. O representante da Unesco lembra que filmes como Titanic e A Lista de Schindler provaram que é possível ter grandes audiências sem violência e sexo explícito.

Governo - A Unesco tem incentivado a criação de códigos de conduta para as emissoras de televisão e já trouxe até um especialista do Canadá para mostrar como o sistema funciona. Werthein deixou claro que a iniciativa de cobrar um código de conduta para cada emissora cabe principalmente ao governo. ‘O governo tem todo o poder’, disse. ‘É o dono das ondas, no caso da TV.’

A Secretaria Nacional dos Direitos Humanos vem cobrando um código de conduta das TVs desde o início do ano passado. Além do governo, o representante da Unesco acredita que as escolas deveriam assumir grande parte da responsabilidade pela introdução das novas mídias, como a Internet.

Erotização

Werthein também mostrou-se preocupado com a chamada ‘erotização da infância’. Ele disse que a mídia e a moda estão fazendo com que as crianças ‘queimem etapas’, quando as expõe desnudas e representando adultos.

O representante da Unesco comentou a atitude do garoto de 9 anos que deu várias facadas nas costas de uma menina de 7, em Brasília, depois de assistir ao Boneco Assassino II. Para comentar o caso, ele recorreu a uma pesquisa feita pela argentina Tatiana Merlo-Flores.

Na pesquisa, que envolveu 2.000 jovens, Tatiana constatou que as crianças que já são agressivas por temperamento, ou devido a problemas familiares, sociais ou individuais, ‘selecionam e integram elementos violentos da TV’ ao seu cotidiano."



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