|
QUALIDADE NA TV
FALSAS VERDADES
Baixaria na TV e os
pobres brasileiros
Vera Silva (*)
Quando lemos, ouvimos e vemos as discussões sobre a baixaria na TV, é comum sermos levados a informações como: o final da inflação aumentou o acesso dos pobres à TV, os pobres não gostam de novelas que não retratem a sua realidade, os pobres gostam de saber da vida dos famosos, os pobres sonham em ser ricos etc. Estas informações são consideradas os motivos do aumento da baixaria nas emissoras de TV.
Ora, este tipo de discussão parece fazer correlações entre fatos como se fossem uma verdadeira relação funcional, o que não são. Sendo assim, vou também fazer as minhas correlações, alertando, contudo, os leitores para o fato de serem apenas correlações.
Em primeiro lugar, classe pobre não é sinônimo de baixaria. Os pobres têm família, amam, têm respeito próprio e auto-estima. Eles trabalham para sobreviver, gostam de coisas bonitas, honestidade e bem-estar. São solidários e vivem em grupo. O fato de ser pobre não muda a natureza humana das pessoas, assim como o fato de ser rico não muda a natureza humana de ninguém.
Céu e inferno
É próprio de nossa civilização cristã e ocidental atribuir poderes maléficos ao dinheiro e preconizar o céu para os pobres, já que, para os ricos, será mais fácil assistirem a um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que ao céu chegarem. Deste modo, os pobres se acomodam em ser pobres e os ricos, em aproveitarem tudo aqui já que o inferno os espera.
Não é possível, entretanto, discutir a questão da baixaria (incluindo o festival de sexo) por este ponto de vista. É necessário verificar o que se correlaciona com o quê.
Ponto 1: O fim da inflação estendeu a TV aos pobres. Antigamente, dizem nas entrelinhas estes pontuadores, os pobres não tinham acesso à TV, só ricos e classe média, por isso os programas eram de qualidade, havia teatro, esporte, música clássica, documentários, telejornais de qualidade etc. Agora, como os pobres são a maioria entre os telespectadores, a qualidade caiu para que eles não desliguem a TV e não deixem de ver os anúncios dos patrocinadores.
Contraponto 1: Nunca li nenhum estudo que demostrasse ser o futebol no Brasil esporte de rico, nem que o samba e o chorinho fossem música de rico, nem que o teatro fosse esporte de rico, nem que a música barroca fosse originalmente tocada em grandes teatros, nem que gostar de estar informado fosse coisa de rico. O que parece acontecer é que a TV brasileira, por não ter sido originalmente pública, foi sempre programada para a elite e esta elite, ao começar a ser vista pelos pobres, por não conhecer a sua realidade, não sabia (e não sabe) criar para estes novos telespectadores. E mete os pés pelas mãos, tomando os pobres pelos excluídos que vê expostos nas ruas.
Ponto 2: Os pobres não gostam de novelas que não retratem a sua realidade, por isso a audiência das novelas da Globo diminuiu. Como as novelas puxam a audiência dos telejornais, ou puxavam, se a TV for mudada de canal os anunciantes também irão embora. Assim, as outras TVs exploram a baixaria no horário das novelas, mostrando o cotidiano dos pobres e a Globo tem que se adaptar para não ter problema de audiência.
Contraponto 2: A literatura de cordel, as fotonovelas, as revistinhas, as rodas de dança e de "causos", as reuniões religiosas e as novenas no passado reuniram as pessoas e serviram como circuladores de hábitos e de informações. Nunca li em nenhuma pesquisa que eram focos de baixaria por serem utilizadas pelos pobres. O cotidiano dos pobres não é feito de baixaria. A história tem mostrado que, quando as sociedades se deterioram, ricos e pobres praticam a promiscuidade. A promiscuidade não é inerente à pobreza e, sim, à prática social como um todo. Sendo assim é preconceito afirmar que a baixaria nas TVs se deve ao fato de mais pobres terem acesso à TV.
Muitos pontos e contrapontos a mais poderíamos alinhar aqui, mas você não iria ler todos por cansaço visual. Meu objetivo é chamar a atenção para a hipocrisia escondida em certas afirmações.
Pobres e excluídos
Os excluídos vêem na TV como vivemos nós, o outro povo que habita este país. Não têm conosco nenhuma obrigação, assim como nós não temos tido nenhuma obrigação com eles. Mas eles não vêem TV, não são consumidores, não interessam aos anunciantes, nem aos ratinhos da vida. As baixarias são feitas para os pobres, que nós, com a nossa lógica torta, achamos que são iguais aos excluídos, somos nós os incluídos (pobres e ricos) que compramos o que a TV anuncia e que mantemos as TVs abertas com o nosso consumo.
Somos nós que enfrentamos a violência criada pela nossa sociedade excludente e sem afeto. Somos nós e nossas crianças que somos estupradas pela nossa moral torta que transforma as meninas em "putinhas" para vendermos roupas de grife; que, por vendermos música descartável usando bundas e sexo livre e etc., geramos crianças indesejadas.
A baixaria na TV é fruto da decadência moral e ética de nossa sociedade, a começar da nossa elite dirigente, que quanto mais imoral mais dinheiro e poder tem.
Com a ajuda de quem? Dos anunciantes de nossas TVs.
(*) Psicóloga
POLÊMICA
Fernando de Barros e Silva
"Como aquele a que foi submetido o país, com os resultados desastrosos ora à vista de quem quiser ver, este também chega atrasado – e vem maquiado pelo verniz vistoso da modernização. Está-se falando do ajuste liberal em curso na TV Cultura. Exagero? Com a palavra o presidente da Fundação Padre Anchieta, Jorge da Cunha Lima: ‘Chega de fazer a apologia do traço. Se um programa não der audiência durante seis meses, nós vamos tirá-lo do ar. Não tem sentido desperdiçar o dinheiro do contribuinte com programas que ninguém vê’.
Essa é a súmula do ajuste. Foi repetida, com pequenas variações retóricas, pelo responsável pela TV Cultura em entrevistas recentes à imprensa e repisada durante sua participação no Maximídia (o maior encontro dos veículos de comunicação do país), há duas semanas. Há muito o que dizer sobre essa declaração de princípio.
Nem é o caso de levar a sério a meta estipulada pela emissora de alcançar quatro pontos de audiência em cada um de seus programas. Posta em prática, hoje ela significaria banir a TV Cultura do ar (basta ver o quadro do Ibope ao lado). Mais importante do que os devaneios numéricos, é discutir o mérito do problema.
Em primeiro lugar: quando Cunha Lima ameaça tirar do ar os programas-traço, não é à opinião pública, e nem mesmo ao contribuinte (essa versão liberal do cidadão), que se dirige, mas à ‘sociedade publicitária’, com a qual resolveu agora se aliar. A expressão, uma pérola de concisão para se entender o que está em jogo, é dele, Cunha Lima, e foi lançada no Maximídia, diante de uma platéia formada por publicitários e profissionais de marketing. Não toleraremos programas sem audiência quer dizer: anunciem aqui, pois o retorno será garantido, mesmo que seja na marra.
Já que estamos falando de ajuste, o recado lembra muito aqueles pronunciamentos que o presidente e o seu ministro-chefe, Malan, fazem para ‘acalmar os mercados’, a pretexto de prestarem contas à opinião pública em momentos de apuros. O paralelo é irresistível: a ‘sociedade publicitária’ de Cunha Lima lembra o ‘capital externo’ de que depende FHC; os quatro pontos de audiência, por sua vez, são as metas firmadas com o FMI, aos quais a emissora ou o país ficam doravante subordinados e prestam suas contas.
Há mais, no entanto. Vamos à segunda parte da súmula do ajuste liberal (‘não tem sentido desperdiçar o dinheiro do contribuinte com programas que ninguém vê’). Eu diria, pelo contrário, que tem todo o sentido. E aqui o paralelo com a universidade pública talvez ajude a entender do que exatamente se está falando. Foram necessárias décadas de investimento social (leia-se: do Estado) no sistema público de pesquisa e de ensino superior para que se conseguissem descobertas importantes, por exemplo, no combate às doenças tropicais ou no estímulo à agricultura. Muito dinheiro público foi ‘desperdiçado’ durante décadas a fio em nome de uma aposta coletiva, civilizacional, de formação do país.
Essa é uma tarefa que não pode ser substituída pela universidade privada, cuja lógica é a do lucro e a do retorno de curto prazo. Assim como não cabe à universidade pública pautar-se pela lógica estrita do mercado, não tem nenhum cabimento pretender que a TV Cultura se paute pela audiência, mesmo que seja seletiva e blablablá, como diz Cunha Lima. Ocorre que, como a universidade pública sob FHC, a TV Cultura sob Cunha Lima parece passar por uma espécie de ‘privatização branca’. Que uma e outra precisem reformular suas formas de financiamento é sabido, mas isso não pode significar que o preço a pagar seja a sua subordinação às leis do mercado ou à ‘sociedade publicitária’.
Por que não iniciar essa discussão abrindo à sociedade (civil) a caixa-preta das despesas e receitas? No momento em que a TV dita comercial (um pleonasmo nas circunstâncias atuais), sem exceções, dá mostras do que é capaz de fazer com a inteligência, a dignidade e o amor-próprio do espectador para abocanhar migalhas de audiência, esperava-se da emissora pública que, acuada por todos os lados, fosse, sim, uma trincheira intransponível da cultura do traço. No fundo, pouco deveria importar se um programa da TV Cultura dá dois, 20, 57 ou menos sete pontos de audiência. O termômetro dessa emissora que se quer pública não poderia ser esse.
Mas não. A TV Cultura é hoje uma obra em regresso, dá sua cota de contribuição ao estrangulamento dos espaços públicos, poucos, ainda disponíveis no país. A atual direção da emissora não criou nada de novo; o prestígio da TV Cultura se deve exclusivamente a feitos de gestões anteriores. Que se pense no ‘Roda Viva’ e nos programas infantis. Resolveram agora tirar do ar o ‘60 Minutos’, telejornal do meio-dia, e não puseram nada no lugar. Há, é verdade, o ‘Conversa Afiada’, programa de Paulo Henrique Amorim, profissional sério e competentíssimo, mas ainda é cedo para saber até onde irá sua independência. Seria bom se tivesse estreado no ‘janeiro negro’. Não é bom sinal, de qualquer forma, que seu programa seja apenas sobre economia e negócios, sem noticiário ou análise política.
É irônico, enfim, que a Cultura, no momento do ajuste, tenha escolhido o slogan ‘um jeito diferente de ver e fazer TV’ para comemorar seus 30 anos. O slogan pode se transformar apenas nisso -um slogan, sem substância.
O liberalismo com plumas dos tucanos às vezes confunde os incautos. Demoramos a perceber que FHC, o professor universitário, o social-democrata, estava levando a cabo a maior viravolta liberal de que tem notícia esse país. Hoje o presidente é refém de seu feitiço. Jogou na lama, ou nos braços de ACM, seu passado progressista, por ambíguo que seja. Cunha Lima é figura menos proeminente dessa mesma escola. Talvez demoremos a perceber o que ele queria de fato dizer quando, flertando com Ratinho, a seu lado no Maximídia, convidou a ‘sociedade publicitária’ a participar da neo-Cultura."
"O ajuste liberal da TV Cultura", copyright TV Folha, Folha de S.Paulo, 3/10/99
Jorge da Cunha Lima
"A TV Cultura, por meio de sua programação, fala por si mesma; o colunista da Folha Fernando de Barros e Silva também, só que fala dos outros. Aliás, alguns intelectuais, que desfrutam do privilégio de um espaço permanente, em jornal de grande circulação, transformaram-se numa derradeira instância do Poder Judiciário. Julgam, criticam, condenam, desmoralizam, sem que as pessoas e as instituições avaliadas tenham, na maioria das vezes, qualquer outro instrumento de agravo que a própria integridade.
Gostaria de saber em que programa atual da TV Cultura o colunista encontra qualquer laivo de vilipendiado neoliberalismo? Gostaria de saber em que minuto de nossa programação a Cultura ‘é uma obra de regresso, dá sua cota de contribuição ao estrangulamento dos espaços públicos’? como afirma Barros e Silva. Nas atrações mais polêmicas de nossa grade, o ‘Roda Viva’ e o ‘Opinião Brasil’, não deve ser, pois são os únicos programas radicalmente pluralistas da TV brasileira, tanto do ponto de vista do entrevistado quanto do entrevistador.
A programação infantil nem precisa de comentários. Os novos documentários, 31 em um ano em vez de dois, por sua dimensão humanística e social, acabam de receber o Prêmio Ibero-Americano de Televisão, galardão da Unesco. Quanto aos jovens, o segmento mais esquecido na TV mundial, trazer boas ficções australianas e acrescentar bandas brasileiras à pauta temática do ‘Turma da Cultura’ não me parece nenhuma submissão à confraria do FMI.
Com relação ao telejornalismo, esclareço de vez: há dois anos perseguimos, em seminários internos, em discussões com os maiores técnicos nacionais e na prática do cotidiano, um jornalismo de TV pública. E estamos fazendo isso com 26 emissoras de todo o país. Um jornalismo voltado para os interesses da sociedade e não ditado por imposições políticas, ideológicas, econômicas ou mercadológicas dos editores. Lutamos contra a pauta e o formato do espetáculo da destruição em que se transformaram os noticiários dos jornais, revistas e TVs.
Televisão é um serviço que renova todos os dias mais de 60% do seu produto. Assim, a TV Cultura é um processo que renova todos os dias o que foi inovado anteriormente. Por isso mesmo independentemente de posicionamentos e divergências políticas, estéticas ou mesmo pessoais. Reconheço todo o trabalho notável de meus antecessores.
A Fundação Padre Anchieta foi concebida com um modelo jurídico exemplar, por Abreu Sodré: Fundação de Direito Privado, criada pelo Estado, que se comprometeu por lei a colaborar com seu custeio e manutenção, sem o direito de intervenção em sua liberdade intelectual e política, em sua gestão, o que se comprovou no tempo e até nos tribunais. Foi fundada para promover educação a distância, quando se acreditava que esse era todo o escopo da televisão educativa e quando o regime militar colocou esse bridão em seu código de comunicações.
Mas ser fiel ao público é sempre renovar. De educativa, a TV se tornou cultural. Soares Amora impôs o culto à linguagem. Roberto Muylaert entendeu que educação e cultura podiam ser feitos por intermédio do entretenimento, infantil ou adulto, e em horário nobre. Isso gerou audiência e reconhecimento. Hoje perseguimos uma terceira etapa, nem apenas educativa, nem apenas cultural, mas de TV pública, aqui e em rede. Barros e Silva chama isso de neoliberalismo e traição. O fato é que vivemos três desafios: o empobrecimento do Estado e consequente diminuição de sua participação orçamentária, a necessidade de aumento sensível de produtividade em decorrência da estabilidade da moeda e dos novos processos produtivos e, por fim, o efeito danoso da popularização da TV comercial aberta que, na disputa feroz do mercado, nos tirou bons nacos de audiência.
Com relação a isso, todo mundo sabe que nos insurgimos contra a idéia da audiência universal, que quer todo mundo, o tempo todo, ao mesmo tempo, em frente à TV, sobretudo depois que 20 milhões de novos aparelhos foram acrescentados aos lares de classe C e D. Esse conceito produziu a desqualificação da programação das TVs comerciais, com algumas exceções, e culminou com a programação dos domingos. Nós optamos pelo critério da qualidade, do universo de audiência, o que significa produzir o melhor para um segmento específico, nos patamares horizontais da grade. Queremos o mercado também, no que ele possa se confundir com sociedade. E estamos atentos à existência, para o bem ou para o mal, de uma sociedade publicitária, mas nunca ao preço da desqualificação que o articulista nos imputa com leviandade.
Não queira também o colunista conspurcar a amizade de boa parte da vida que mantenho com Fernando Henrique Cardoso, hoje presidente, como outrora foi um exilado. E não o faça, covardemente, num período em que o presidente atravessa um momento de infortunada queda no reconhecimento popular. O dom da amizade, felizmente, não se rege pelo Ibope ou por índices de pesquisas. Orgulho-me de ter aprendido isso em casa e na rua. Nunca usei carteirinha alguma em minha vida intelectual e política, e mesmo meu catolicismo é mais fiel à etimologia do que aos dogmas, enquanto consagra o universal como ética e como estética. Conheço o preço de não pertencer a clubes ideológicos, econômicos ou mesmo intelectuais, num contexto corporativo e maniqueísta em que vivemos.
Não há nada mais público, Fernando de Barros e Silva, do que o exercício do jornalismo, apesar do subjetivismo narcisista da maioria dos que o praticam. Presidente e jornalista, garanto ao público, que respeito, que na Fundação Padre Anchieta buscamos com força e humildade um aumento constante da produtividade, uma atualização tecnológica imprescindível (apesar dos poucos recursos) e a manutenção da alta qualidade da programação, em seu conteúdo e formato. Essa é a plataforma.
Exigir que editores e produtores busquem superar o traço, isto é, a audiência nenhuma, buscando para isso aprimorar a linguagem, a beleza e o ritmo dos programas, é um dever mínimo de administrador e não pode ser objeto do escárnio manifestado em tom professoral em sua coluna no TV Folha. É mesmo uma obrigação de quem cuida do que é público e ao público se destina.
Sabemos e proclamamos que o ritmo da TV comercial é o ritmo do mercado, e que o ritmo da TV pública é o ritmo da reflexão. E, quanto a essa certeza, não precisamos do sermão de ninguém em seu púlpito dominical, mesmo que seja um filósofo de TV."
"O ajuste permanente da TV Cultura", copyright TV Folha, Folha de S.Paulo, 10/10/99
Fernando Barros e Silva
"Não pelo que diz, mas sobretudo pelo tom do que diz e pelo que deixa de dizer, o artigo de Jorge da Cunha Lima, presidente da Fundação Padre Anchieta, publicado domingo passado neste caderno, é muito útil a todos nós. O autor, em ‘O Ajuste Permanente da TV Cultura’, respondia a texto publicado neste mesmo espaço uma semana antes (‘O Ajuste Liberal da TV Cultura’).
Digo respondia por inércia retórica, porque Cunha Lima não responde nada. Faz autopropaganda, dele e da TV que dirige, se perde numa espécie de romance autobiográfico (até interessante como sintoma de sua fantasia) e, inevitável, procura me desqualificar como crítico. Dele, caricatura de tucano, não esperava outra coisa. Vamos por partes, porém.
Havia duas questões fundamentais em minha coluna. A primeira é que a TV Cultura, uma emissora pública, não poderia subordinar sua programação ao retorno que obtém da audiência. Cunha Lima havia dito, e não desmentiu, preferindo eufemismos vagos, que caso determinado programa, qualquer programa, não obtenha um certo índice de audiência em seis meses ele será banido do ar. Chegou a falar em quatro pontos no Ibope, depois parece ter percebido o devaneio da pretensão e recuou dos números, mas não das intenções – são elas que estão em jogo.
De nada adianta dizer: ‘Sabemos que o ritmo da TV comercial é o do mercado, e que o ritmo da TV pública é o da reflexão’, como o faz Cunha Lima. Ou teremos reflexão com prazo de validade?
Quando afirma: ‘Queremos o mercado também, no que ele possa se confundir com a sociedade’, o presidente da Fundação Padre Anchieta, a despeito da confusão conceitual tão reveladora, mostra, mesmo que não queira, que seu interlocutor é a ‘sociedade publicitária’ (expressão dele), não a opinião pública ou a cidadania, que só na cartilha tucana podem se confundir com o mercado, cuja lógica é a do negócio.
É banal dizê-lo, eu sei, mas tornou-se necessário repisar muitas coisas banais depois que os titulares do clube social-democrata no Brasil passaram a exibir suas carteirinhas bem-intencionadas para justificar o arrastão neoliberal que estão promovendo no país.
Cunha Lima pergunta: ‘Em que programa atual da TV Cultura o colunista encontra qualquer laivo de vilipendiado neoliberalismo?’. Leu mal, ou não quis ler direito o meu artigo. O neoliberalismo, disse e repito, não está nos programas, está no projeto. Mas já está presente também, acrescento, na mudança da programação.
Por exemplo, na extinção do ‘60 Minutos’, jornal do meio-dia banido do ar sem explicações e sem que fosse substituído por qualquer outro noticiário no horário. Extinção abrupta, que pegou de surpresa até mesmo seu editor-chefe e seus apresentadores, o que transforma em humor negro a frase seguinte: ‘Há dois anos perseguimos, em seminários internos, em discussões com os maiores técnicos nacionais e na prática do cotidiano, um jornalismo de TV pública’.
Disse acima que havia duas questões fundamentais não respondidas por Cunha Lima no artigo que supostamente contestou. A segunda está ligada à busca insana da audiência perdida. Diz respeito ao financiamento da TV Cultura. A justificativa oficial para se tirar o ‘60 Minutos’ do ar foi de que consumia parte excessiva da verba destinada ao jornalismo. Ninguém conhece, porém, a caixa-preta das receitas e despesas da TV Cultura. Sobre isso Cunha Lima não fala palavra – e esse é um silêncio que grita. Por que, repito, não abrir à sociedade (civil, não a publicitária) a discussão sobre a viabilidade financeira da TV Cultura? Por que não agir publicamente e comprar a briga certa, em vez de tomar o atalho fácil do mercado, fingindo que se confunde com ‘a sociedade’?
Propostas nesse sentido não faltam, muito pelo contrário. Por que, por exemplo, não levar adiante a idéia de que as emissoras comerciais (concessões públicas) devam destinar parte de seus lucros a um fundo público para custear as TVs públicas? Isso seria civilizado. Mas para que se possa caminhar por aí seria necessário antes dar à prestação de contas da emissora uma transparência que hoje ela não tem, nunca teve.
Cunha Lima age como publicitário à frente de uma emissora pública e age como publicitário quando empilha em seu texto os prêmios internacionais que a emissora recebeu por feitos passados. Deveria saber que não é isso o que importa – essa é a mentalidade provinciana do Oscar contaminando a TV pública no Brasil, um disparate completo.
O fundamental do que tinha a dizer termina aqui. O tom e o estilo de Cunha Lima, porém, merecem um comentário final, à parte. Vazia de idéias, sua agressividade retórica indica alguém refratário à crítica (‘não precisamos de sermão de ninguém’). Diz, porque associo seu pequeno neoliberalismo ao grande desastre neoliberal de FHC, que tento ‘conspurcar a amizade de boa parte da vida’, e que o faço ‘covardemente, no período em que o presidente atravessa um momento de infortunada queda no reconhecimento popular’. Que ele tenha obrigações de vassalagem com governos e governantes é problema dele, não dessa coluna, que nunca as teve. Nem quando o ‘amigão’ de Cunha Lima reinava com folga nem agora, que colhe os frutos do reinado. Seu comentário é oportunista e maledicente, apenas isso.
Quanto ao ‘filósofo de TV’, suponho que sua intenção tenha sido a de desqualificar a crítica com uma ‘boutade’. Justo ele, filosofastro da corte, que adora perfumar suas falas com citações bem-pensantes, quanto mais eternas e fora de propósito, melhor; justo ele, que desqualifica a TV pública; justo ele, que, mais uma vez, desqualifica o debate e a si mesmo."
"Filosofia e prática da neoCultura", copyright TV Folha, Folha de S.Paulo, 17/10/99
SOLIDARIEDADE
Jorge da Cunha Lima
"Quando a concorrência entre as televisões comerciais atinge seu nível mais deletério, seria difícil imaginar a solidariedade delas em torno de um projeto de cunho social. Pois isso aconteceu, sob a liderança e inspiração da AACD (Associação de Assistência à Criança Defeituosa), no segundo Teleton, em 18 e 19 de setembro, comandado pela TV Cultura e animado por todas as demais emissoras de televisão brasileiras.
Quem acompanhou as 27 horas de programação produzida para arrecadar fundos para a construção de um novo centro da instituição em outro Estado da Federação pôde aprender inúmeras lições, além do gesto de generosidade que rendeu mais de R$ 11 milhões. A emoção de todos, voluntários da associação e funcionários de todas as televisões participantes, simbolizada pela figura carismática de Decio Goldfarb, traduzia todas as lições contidas no evento.
Essa gente especial ou diferente -como alguns preferem tratar, sem discriminação, os deficientes físicos e mentais- está, como se viu, muito mais integrada à sociedade e à vida do que se possa imaginar. Demonstram e demonstraram uma garra e um amor ao fazer, ao participar e ao ser útil que emocionaram todo mundo.
De todos, retive na cabeça três exemplos magníficos. Primeiro, aquele ‘toco de gente’, sem braços, sem pernas, que se movia o tempo todo no estúdio da TV Cultura, na véspera do evento, com um entusiasmo contagiante, com um sorriso no rosto, mas um ar de gravidade de quem sabia que estava participando de uma coisa grande. Olhei para ele, mas não sabia que seria o mascote e símbolo da festa. Soube no dia seguinte, quando ele compareceu ao palco, com suas próteses inimagináveis, com a postura de um pequeno grande homem. Depois aquele jogador de futebol, recorde dos recordes, capaz de controlar mil vezes a bola com o único joelho. Por fim, leve como um pássaro, com a alegria de quem gosta do mar, o surfista de uma perna só. ‘Incredibile’, como se diria na novela.
Mas o dinheiro e esses exemplos edificantes não foram tudo. O Teleton haveria de nos deixar um recado e uma idéia extraordinária.
Durante 27 horas, artistas, apresentadores, produtores, dirigentes, editores de todas as televisões públicas e privadas se solidarizaram para produzir o espetáculo cívico do Teleton. Alguns não dormiram, outros sonharam, alguns carregaram pedras, outros idéias, mas cada um, na dimensão que conferiu ao próprio engajamento, deu sua contribuição, com generosidade.
Disso tudo resultou uma grande idéia, verbalizada por Silvio Santos. Por que não formar a rede da solidariedade todas as vezes que ela seja necessária? A idéia incendiou minha cabeça. Passei a elaborá-la, a divulgá-la e a conquistar parceiros. Seria mais ou menos assim: todas as vezes que a sociedade desse um alerta sobre um problema fundamental, capaz de produzir grandes efeitos benéficos ou maléficos sobre a vida e a própria sociedade, as televisões, públicas e privadas, se uniriam na Rede da Amizade, para travar o bom combate.
A droga, por exemplo, que é o problema mais grave da sociedade brasileira, ao lado da exclusão, mereceria a atuação da rede da solidariedade. Não seria necessário que todas as TVs entrassem no ar em tempo real, mas que combinassem uma estratégia de combate, elucidação, advertência sobre o consumo de droga. Essa estratégia poderia ser uma semana temática sobre o assunto, que seria desenvolvido na programação jornalística, nos programas de auditório, nas novelas de todas as TVs. O resultado seria incalculável, não apenas para a sociedade, mas para as próprias televisões, que têm a obrigação constitucional de desempenhar um papel educativo e social.
Melhores até do que códigos de ética, de difícil aplicação, seriam esse gesto, essa atuação positiva em defesa da sociedade e a mensagem de que em torno de questões cruciais a luta pelo mercado não haveria de prevalecer sobre a responsabilidade.
Certamente alguns poderão imaginar a idéia utópica, quase quimérica, mas os fatos demonstram o contrário. O Teleton já provou o que pode ser feito. As grandes crises, a droga, a exclusão, o analfabetismo, a violência etc. provam a necessidade.
Silvio Santos verbalizou e lançou o foguete. José Roberto Marinho, com quem conversei rapidamente, gostou da idéia. Na rede pública de televisão todos os escalões estão mobilizados para pô-la em prática. Tenho certeza de que a Bandeirantes, a Record, a Gazeta, a Rede TV!, todos os canais, todos os satélites e todos os provedores de Internet entrarão na Rede da Amizade.
O Brasil, que já possui uma das televisões mais desenvolvidas do mundo, que busca tão ansiosamente resolver o problema da qualidade de suas programações e que trava uma das mais ardorosas batalhas da concorrência, saberá mostrar que, quando se trata de um interesse público relevante, o mercado abre espaço para a sociedade."
"A rede da amizade", copyright Folha de S. Paulo, 8/10/99
|
|