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ASPAS
PEDOFILIA
Pedro Doria
"Sátira pedófila", copyright no. (www.no.com.br), 14/8/01
"A tecnologia para pedófilos que espreitam na rede só agora começa a ser conhecida. Um dos exemplos é um personagem de desenho animado, Pantou, cãozinho aparentemente inocente que pode ser acessado em vários sites. O pai atento vai reparar que em seus olhos há câmeras digitais escondidas, através das quais qualquer um pode olhar para crianças. Outra tática descoberta é um sistema que permite emanar vapores do teclado de computadores ligados à rede. Tóxicos, fazem com que crianças fiquem mais sugestivas. Todo o cuidado é pouco.
Atenção: nada disso é sério.
Isto dito, um quê de contexto cabe. A descrição é de alguns dos quadros do programa ‘Brass Eye’, misto de ‘TV Pirata’ com ‘Monty Python’, em especial sobre pedofilia que foi ao ar no Channel 4 inglês há duas semanas. Capitaneado pelo humorista Chris Morris, desfiou tudo quanto é lugar comum e manchete de tablóide sobre o assunto, brincou com a histeria em massa que acompanha o tema e regurgitou 30 minutos de televisão. Tudo com direito ao humor nada sutil bretão. O resultado foram ministros de Estado censurando, editoriais dos tablóides dizendo que com o assunto não se brinca, revolta dos telespectadores.
Pedofilia é aquele tema de plantão para críticos da rede. Afinal, tecnologia de comunicação fez da prática muito mais fácil. E, num mundo onde acostuma-se com muita coisa e a pluralidade impera, o discurso moralista vai ficando com dificuldade de eleger questões unânimes. Esta é uma das poucas. Na Inglaterra a coisa é um cado pior. Tornou-se hábito da imprensa marrom publicar listas com gente que foi condenada por crimes sexuais contra a infância e já está livre. Na brincadeira que vende jornal aos quilos, homônimos inocentes já terminaram apedrejados na própria casa. No pior caso, um pediatra ficou sem emprego.
‘Porque Morris escolhe estes temas, suas comédias acabam transformando-se em comentários da moral contemporânea. 'Brass Eye' satirizou a obsessão social com a pedofilia ao exagerá-la e nos mostrá-la de volta. Ele conseguiu com gracejos, controvérsia e risos o que críticos mais sóbrios não conseguiram’, escreveu na ‘Sp!ked’ Ian Walker.
Humor inglês muitas vezes não é nada agradável de ser lido, mas ao transformar-se no ‘programa mais criticado da história’, o ‘Brass Eye’ de há duas semanas deve ter tocado nalgum ponto delicado. Fez isso ou por ter sido abusivo ou porque falou daquilo que todo mundo queria evitar. Seja qual for a resposta, a discussão que alavancou vale cada centavo.
Talvez seja a hora de descobrir que, na rede, pedófilos não são tantos assim, a lei velha se aplica como sempre aplicou e que problemas mais concretos pairam no ar.
Anita é o que vale."

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