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LOFT STORY
"Televisão realidade" à francesa

Leneide Duarte, de Paris

Os franceses, como os brasileiros, estão muito inquietos com a televisão aberta. A imprensa parisiense não poupa espaço para denunciar o baixo nível da TV, considerada quase unanimemente como um instrumento de alienação, mas vista agora por intelectuais e comunicólogos também como um instrumento de opressão .

O centro do debate é o programa Loft story. Uns falam de "fenômeno de sociedade" que deve ser encarado e discutido com seriedade por sociólogos e especialistas em comunicação para denunciar-lhe os efeitos perversos. Outros o consideram o mais refinado grau que a "TV lixo", ou télé poubelle, pode alcançar. Há quem tenha levantado até mesmo a hipótese (absurda para um bem-pensante intelectual francês) de proibição do programa, o que significaria um atentado
à liberdade de expressão. A grande polêmica que embala a mídia francesa já causou um cisma no panorama audiovisual do país.

Loft story é a vertente gaulesa de um conceito criado pelos holandeses. Mais ou menos o que se fez na TV brasileira com No limite. Com Loft story, os idealizadores pretendem estar fazendo "televisão realidade", um conceito bastante discutível, já que não há nada mais artificial do que um grupo de seis homens e cinco mulheres reunidos num loft, vigiados por 26 câmeras e 55 microfones, dia e noite. Por suas características, o programa vem suscitando ardorosos debates em todos os órgaos de imprensa, nos meios intelectuais e até mesmo nos liceus, onde os professores aproveitam a motivação dos adolescentes para fazê-los se expressar em francês.

O professor Joseph Corda, do liceu Victor Hugo, em Carpentras, cujos alunos entre 18 e 20 anos vêem Loft story toda semana (a audiência está situada maciçamente na faixa etária entre 15 e 24 anos), resolveu dar um tempo num texto de Voltaire sobre as agruras de uma jovem que tem um filho clandestinamente para debater o assunto mais quente da atualidade. Na prova de francês, cada aluno escreveu o que pensa sobre o programa, como se estivesse se dirigindo à sessão de cartas dos leitores de um grande jornal. O L’Humanité, jornal do Partido Comunista Francês, de domingo [24/6] publicou algumas dessas cartas em grande reportagem sobre o assunto.

Antes de escreverem o texto, os alunos ouviram de Corda algumas considerações sobre o absurdo que o canal de televisão aberta M6 vem perpetrando a cada semana. "Eu mostrei o que isso representa como um atentado à vida privada e ao sagrado direito à intimidade. Falei da exploração de seres humanos feitos cobaias, entregues aos apetites voyeurs de telespectadores e às insaciáveis necessidades de audiência dos patrocinadores. Acho que debater e escrever sobre Loft story é profundamente pedagógico. Pior seria ignorarmos esse fenômeno, acompanhado em algumas turmas pela totalidade dos alunos", justifica Corda.

Crueldade refinada

Há seis semanas, toda quinta-feira, esses jovens e outros milhões de franceses (entre 6 e 10 milhões de telespectadores) estão ligados ao que acontece com o grupo de homens e mulheres de Loft story. Os participantes do programa vão sendo eliminados pouco a pouco até que não sobre senão um casal, que vai dividir um apartamento avaliado em 400 mil dólares, caso vença o desafio de ficar trancado por seis meses no imóvel. Um dos elementos mais chocantes do dispositivo imaginado pelos criadores do programa é o contrato leonino que os participantes assinam, abrindo mão de qualquer direito de imagem, denunciou o jornal Le Monde. No contrato, os participantes se declaram cientes de que abrem mão de todo e qualquer direito de, no futuro,
reclamarem qualquer indenização por danos morais, físicos ou materiais. Outro elemento que aviva o debate é o fato de o dia-a-dia dos participantes – editado no programa semanal da TV aberta – poder ser visto por TV a cabo o tempo todo, durante 24 horas e via internet, em seus detalhes mais picantes.

Na revista Esprit do mês de junho, o editor Marc-Olivier Padis analisa a especificidade francesa do programa: nos outros países, é preciso que um participante resista o maior tempo possível, isto é, ele tem que vencer os outros para ter a recompensa. Na França, esse processo um tanto brutal se sofistica com o incentivo à formação de um casal. "Os mesmos que são convidados a se seduzir devem também se excluir", afirma Padis. Ele assinala que na versão francesa, que ele considera uma incitação à esquizofrenia, "trata-se não de testar a resistência dos candidados individualmente, mas de criar uma fusão de grupo adolescente para, num segundo momento, destruir a comunidade, esperando que dessa destruição surja um casal". Em matéria de crueldade, os franceses se mostram muito mais refinados.

Alheios à discussão ética ou sociológica, os responsáveis pelo programa comemoram: a audiência no horário cresceu 64%.



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