|
ASPAS
REALITY SHOWS
Folha de S. Paulo
"TV inglesa faz ‘No Limite’ versão ciência", copyright Folha de S. Paulo, 25/06/01
"Comer olho de cabra só requer uma boa dose de força de vontade e um estômago forte. Difícil mesmo é, depois de ser largado em uma ilha remota, calcular a exata localização geográfica da praia. Ou montar um rádio primitivo com uma panela velha.
Esses foram alguns dos desafios enfrentados por uma equipe de cinco cientistas ingleses, que protagonizaram uma versão mais sofisticada dos populares programas de sobrevivência, como ‘Survivor’, nos EUA, e sua versão brasileira, ‘No Limite’.
‘Rough Science’ (algo como ciência em estado bruto, ou rascunho de ciência, em inglês) foi desenvolvido pela Universidade Aberta (OU) e a rede BBC, no Reino Unido. O último programa foi ao ar em 16 de junho e, devido ao sucesso, a reprise da série está prevista para novembro.
Segundo Paul Manners, produtor da série, a idéia era forçar os cientistas a voltar aos primórdios. ‘Eles tiveram de encarar o problema de serem abandonados em algum lugar do planeta e terem de usar princípios científicos para resolver problemas do dia-a-dia.’
A receita deu certo -foram mais de 2 milhões de espectadores-, e a influência do programa está se espalhando para este lado do Atlântico, com negociações para a transmissão nos Estados Unidos pela rede PBS.
Além disso, tanto a OU quanto sua equivalente norte-americana, a Universidade Aberta dos Estados Unidos, estão projetando cursos rápidos em ciência básica que incorporem ‘ciência em estado bruto’, para acompanhar uma segunda temporada do programa, em fase de planejamento.
Ex-colônia penal
O grupo de cientistas (um químico, um físico, um biólogo molecular, uma etnobotânica e uma bióloga marinha) foi levado à Capraia, uma pequena ilha mediterrânea pertencente à Itália, ao norte da ilha de Elba. Capraia tem um lado praticamente deserto e uma colônia penal abandonada.
Usando apenas algumas ferramentas básicas, que incluíam um alicate, uma serra e um cristal de rádio, eles receberam uma série de tarefas para serem cumpridas em três dias, usando os recursos naturais disponíveis na ilha.
No primeiro dos quatro programas, a equipe teve de calcular latitude e longitude exatas da ilha, sabendo apenas que estavam no hemisfério Norte e podendo usar pedras e barbante, e improvisar um rádio com uma panela velha.
Em outro episódio, a bióloga marinha Vanessa Griffiths improvisou uma pasta de dente com algas, conchas e menta. ‘O gosto é inesquecível, não recomendo’, lembra. Enquanto isso, o químico Mike Bullivant e a botânica Anna Lewington corriam para construir uma farmácia.
Eles desenvolveram uma série de medicamentos naturais, incluindo um antisséptico feito de azeitonas e mirto, além de um remédio a base de erva-doce para combater os problemas de flatulência do biólogo Mike Leahy.
Um dos desafios mais memoráveis foi fabricar sabão desde o início, afirma Bullivant, da OU. Os cientistas tentaram -sem sucesso- produzir hidróxido de sódio, componente necessário para transformar gordura em sabão, ao passar uma corrente elétrica por água do mar, usando pedaços de grafite de lápis como eletrodos.
No final, eles conseguiram fazer sabão a partir de cinzas de madeira e óleo de oliveiras selvagens. Para o químico, o exercício foi uma boa demonstração de que ‘ciência diz mais respeito a fracasso do que a sucesso’.
Como em todos os programas do gênero, as coisas nem sempre andaram conforme o esperado. Outro fracasso foi a tentativa de criar uma câmera com a ajuda de algas marinhas e um bracelete de prata. Por outro lado, ingredientes pouco usuais, como urina, tornam-se indispensáveis.
Bastidores
Antes de gravar os programas, uma equipe de 14 pessoas passou 20 dias na ilha tentando confirmar se as tarefas eram plausíveis, usando itens descartados como garrafas, potes e panelas.
Muitas tarefas, como queimar algas marinhas, construir uma bateria e construir um protótipo de moinho de vento, foram testadas antes nos laboratórios do Imperial College, Reino Unido.
Vários experimentos tiveram de ser refeitos. O teste de eletrólise da água do mar foi destruído por uma tempestade. (Com a ‘Science Now’)"
Roberto Pompeu de Toledo
"A França conhece outro Waterloo", copyright Veja, 25/06/01
"Até tu, doce França?
Não chega a ser um maio de 68, mas quase. Maio de 2001 abalou as estruturas da França não com passeatas, barricadas, greves, ‘a imaginação no poder’ e ‘é proibido proibir’, mas com algo de potencial explosivo comparável: a telinha de TV. O caso se deu, e se dá ainda, em torno do programa intitulado Loft Story, que estreou em fins de abril e estourou em maio, com recordes de audiência e outro tanto de polêmicas. Trata-se da versão francesa do Big Brother, conforme o título do original que, inventado na Holanda, se espalhou pelo mundo, ou do No Limite levado no Brasil pela Rede Globo.
Na verdade, é um No Limite mais radical: tranca-se um grupo num apartamento e seja o que Deus quiser. No caso, são onze pessoas - seis homens e cinco mulheres. Durante setenta dias eles ficarão ali - claro que vigiados por 26 câmaras e 55 microfones, e claro que até na cama e até no chuveiro. Um processo de eliminação vai selecioná-los até que sobrem dois, um homem e uma mulher. Estes mudarão para outro apartamento, no valor de 400.000 dólares. Caso consigam manter-se ali, trancados, por outros seis meses, ganharão o imóvel.
O programa é apresentado em três versões. A primeira, pelo canal aberto M6, exibe trechos editados. A segunda, por TV a cabo, mostra o grupo o tempo todo, 24 horas por dia. Uma terceira, pela internet, contém as cenas mais fogosas. Uma tempestade de protestos desabou sobre o programa, visto como a chegada à França, em grande estilo, da ‘télé poubelle’, como dizem por lá, ou ‘garbage TV’, como dizem os americanos - a ‘TV lixo’. ‘O único mérito desse programa é nos fazer refletir sobre as razões que nos fizeram cair tão baixo’, disse o vice-ministro para o Ensino Profissional, Jean-Luc Mélenchon. A ministra da Cultura, Catherine Tasca, lamentou o ‘cinismo’ de Loft Story. Mais dramático, Jérôme Clément, diretor do canal de documentários Arte France, viu nele o sintoma de um ‘fascismo montante’ na Europa.
O público, enquanto isso, respondia com entusiasmo. A modesta M6 jamais conheceu picos semelhantes de audiência. De uma média de 5 ou 6 milhões de espectadores, nas primeiras emissões da série, chegou-se a 10,5 milhões às 22h45 da quinta-feira 17 de maio. De repente, a M6 viu-se, nos horários do programa, à frente da TF1, a líder de audiência na França, e seu faturamento publicitário cresceu 64%. Ao canal a cabo que não larga o grupo do apartamento aderiram 100.000 assinantes, que pagam 70 francos, ou 25 reais, por mês. Pela internet, houve em maio 2,3 milhões de acessos ao site respectivo. Em suma, trata-se de uma história de sucesso - e uma história de sucesso que abate e envergonha a França. A França não é, entre todos, o país que mais cultiva, e transmite, a idéia de bom gosto e refinamento, arte e cultura? Pois ei-la afundada na TV lixo como se fosse uma Itália qualquer (para lembrar de Silvio Berlusconi, o magnata que saltou da TV lixo para o poder em Roma), uns meros Estados Unidos, um pobre Brasil.
Bem pesadas as coisas, a tradição da cultura tida como ‘lixo’ é na França tão forte quanto a da, digamos, ‘alta’ cultura. No século XVIII, a filosofia dos iluministas conviveu com uma forte imprensa e uma forte literatura popularescas. Às vezes, ambas as vertentes encarnavam-se na mesma pessoa. O prolífico escritor Nicolas Restif de la Bretonne é considerado, ao mesmo tempo, um agudo crítico da sociedade e um pornógrafo. O Marquês de Sade, outro personagem desse magnífico período da história francesa, é caso parecido. E que dizer, já mais perto de nós, da breguice emplumada do Moulin Rouge ou do Lido, tão identificados com a França quanto Proust e Flaubert?
Não importa. Mais forte é a idéia de uma França empapada de literatura, embriagada de arte, sôfrega de filosofia. Seria, para usar o jargão do momento, o país-cabeça por excelência. Na TV, para corroborar essa idéia, fez sucesso por muitos anos um programa de livros (sim, livros), levado ao ar no horário nobre (sim, horário nobre) pelo apresentador-intelectual Bernard Pivot, uma celebridade no país. Eis que agora a França se empapa com casais que se esfregam no tal apartamento, embriaga-se com a visão da moça que entra no chuveiro, segue, sôfrega, as crises de nervos dos participantes.
Alguns reagem com humor. ‘Assistir ao Loft é se abandonar a uma regressão deliciosa’, disse o sociólogo Alain Touraine. Outros se indignam contra os indignados. ‘Se há algo a denunciar, é o fato de os novos inquisidores quererem impor seus julgamentos preestabelecidos’, escreveu outro sociólogo, Jean-Claude Kaufman. A França não seria a França se o caso não rendesse uma boa celeuma, e isso ainda a distingue. No mais, descobriu-se mais parecida com o resto do mundo. Bem-vinda, doce França, ao planeta Terra, versão século XXI. Até o nome do programa, Loft Story, sugere, para um país tão cioso na defesa de seu idioma contra a bárbara ofensiva do inglês, uma rendição. Como sentencia um sagaz observador da cena francesa, ‘é um Waterloo’."

|
|