15/07/2003

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QUALIDADE DO PATRONATO
Aventureiros à vista

Luciano Martins Costa (*)

A questão da qualidade do empreendedor ainda não está posta nos debates sobre a crise da imprensa, mas com certeza será um dos capítulos mais densos da história dos negócios de comunicação nestes tempos de renovação. Em alguns foros petistas, voltam a ganhar peso os argumentos do falecido jornalista Perseu Abramo sobre a conveniência do jornalismo público. O tema, que andou presente em círculos da mídia norte-americana, com especial força entre acadêmicos da Universidade do Texas, em Austin, nos anos 90, acabou se esvaziando com a bolha da internet, após um período em que os debates se perderam no raso terreno do politicamente correto. Os dois vetores — perfil do empreendedor e alguma forma de controle público sobre a imprensa — vão acabar se encontrando no horizonte próximo.

A qualidade do empreendedor é questão que envolve não apenas a imprensa, mas é nela que irá desaguar, por causas naturais. A rigor, trata-se do processo já visível de busca de honorabilidade por parte de certos investidores, cujo passado foi registrado com mais freqüência na crônica policial do que na seção de economia ou nas páginas de política. O dono de um consórcio que quebrou de forma fraudulenta, o sócio da corretora que se envolveu em transferências ilegais de fundos para o exterior, o ex-ministro citado em escândalo de superfaturamento são alguns candidatos a salvadores da imprensa cujos currículos estão sendo cuidadosamente refeitos e polidos em alguns dos mais respeitáveis bancos de dados do país. Busque-se, por exemplo, nos arquivos do caso PPP, que antecedeu o surgimento para a glória do falecido Paulo César Farias, e o investigador atento notará a ausência de alguns registros que a memória insiste em denunciar. Basta que um desses personagens se torne dono do jornal em questão para que a história recente do país comece a ser reescrita.

Essa busca de honorabilidade — que em décadas passadas fazia um diploma de comendador valer ouro para banqueiros do jogo do bicho — já se revela em negócios globais, como parte de um amplo movimento de grandes organizações criminosas em busca de legitimidade. A imprensa ainda não deu, mas o setor têxtil comenta a recente aquisição de uma das maiores multinacionais do setor por um grupo de anônimos com endereço em paraíso fiscal, sobre o qual pesa a suspeita de representar interesses de grupos mafiosos. As ações foram compradas num só golpe, a preços até duas vezes superiores aos do mercado, e a sucursal brasileira da corporação já foi avisada sobre as novas metas de resultados, cortes de empregos e mudanças estratégicas radicais.

Para investidores de tal calibre, um grande jornal brasileiro ou uma rede nacional de televisão seriam apenas um aperitivo. A legislação que limita em 30% a participação do capital estrangeiro na mídia brasileira não é defesa eficiente contra aventureiros desse naipe. Aliás, um dos casos mais escandalosos de atentado contra a economia popular, que a Justiça Federal achou por bem sepultar há cerca de dez anos, envolvia exatamente um acionista minoritário na fachada que, afinal, era o único proprietário do negócio. Hoje, esse cidadão adquiriu credibilidade suficiente para ser tratado como lorde por jornalistas das melhores casas publicadoras. A rigor, sabemos que o dono do caixa é quem realmente manda, e aí tem pouca serventia a limitação legal.

A questão precisa estar em debate no menor prazo possível porque, quanto mais se estende a agonia das empresas de comunicação brasileiras, mais tolerantes tendem a se tornar seus endividados proprietários aos padrões de futuros sócios. Não será de estranhar se chegarmos a ver em poucos meses, no expediente de um grande jornal paulista, o nome de um investidor que poucos anos atrás era execrado em editoriais. Qual seria o grau de tolerância desse personagem, por exemplo, com o noticiário arquivado nos bancos de dados do jornal sobre seu passado pouco lustroso? Quanto tempo ele resistiria à tentação de retificar a História e construir para si mesmo uma biografia mais honrosa?

Por outro lado, existiriam investidores dispostos a apoiar a invenção de uma imprensa apoiada em fundações públicas, independente e saudável o suficiente para suportar pressões políticas e econômicas? Um olhar realista sobre o cenário político-econômico não autoriza delírios de otimismo. A rigor, a mídia está muito mais próxima de ser apropriada por oportunistas do que por empreendedores com o perfil adequado para a tarefa de reerguer as empresas de comunicação e restituir a imprensa ao seu verdadeiro papel social.

* Jornalista

 

POLÊMICA
O Proer e a novela

Roberto Muller Filho afinal está defendendo um Proer para mídia ou não? Se está, é um sonhador... achar que vai matar dois coelhos. Ele esquece — de propósito? — que o Proer de verdade beneficiou os correntistas, e não os banqueiros. O Proer da mídia vai beneficiar a audiência da Rede Globo? Vai? Vou começar a assistir ao Jornal Nacional a partir de hoje sem falta. Se precisar, assisto à novela das 20h também (ok, leio um jornalzinho enquanto a novela passa, o Ibope não vai notar, acho).

Paulo Reginato

 

Roberto Müller Filho responde

Caro Reginato,

Em primeiro lugar, obrigado por ter dedicado alguns minutos para ler o que escrevi. Não obstante a ironia. Não estou defendendo um Proer para a mídia e gostaria de ser, ainda, um sonhador. Mas preservo esperança, realismo e alguns ideais. Como não estou defendendo um Proer para a mídia, considero prejudicada a insinuação de que me esqueço ("de propósito?") de quem foi, em verdade, beneficiado com aquele programa. Uma releitura atenta ao artigo (será pedir demais?) esclarece o que tenho em mente. Falei em regras claras para salvar empresas viáveis, não empresários eventualmente incompetentes e inadimplentes. Mencionei a necessidade, nas regras claras, de estímulos à competição, freios à concentração de propriedade no setor, publicação obrigatória de resultados financeiros, como a CVM exige das empresas de capital aberto, necessidade de criação de conselhos editoriais e de códigos de ética, para cada empresa que se candidatar a uma reestruturação. A mídia (mais do que ela, a sociedade) precisa de tudo isto e precisa de ajuda (a mídia, não obrigatoriamente os empresários). Daí o recurso à velha imagem dos dois coelhos.

Acredito, sinceramente, que esta é uma questão nacional e que compete a o Estado cuidar dela. Acho que isto ocorrerá, mais dia, menos dia. Apenas sugeri que, quando ocorrer, se aproveite o momento para melhorar a mídia e sua conduta, com regras gerais, conhecidas de todos. Sigo defendendo que a mídia, embora composta por empresas privadas, tem (ou deveria ter, lembra-se?) fé pública. Mas precisa, também, ser forte, para ser livre. Alertei para o risco de as autoridades sucumbirem à tentação de resolver os problemas das empresas do setor, caso a caso. Isto seria um escândalo.

Bem, tentei esclarecer alguns pontos que me pareceram não terem sido bem percebidos por você, talvez por não terem sido bem escritos ou explicados por mim. Espero ter conseguido desta vez. Sigo às ordens e, novamente, obrigado pela atenção.

Leia também:

Empresas mais iguais entre as iguais – Roberto Müller Filho


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