|
TERTÚLIAS
Filósofos confusos, jornais mais ainda
Alberto Dines
Guerras são terríveis em todos os sentidos, justas ou humanitárias, politicamente corretas ou unilaterais. Mas as duas últimas, Afeganistão-2 e Iraque-2, foram especialmente penosas para o público brasileiro (a invasão soviética em Afeganistão-1 não foi coberta por jornalistas, incorporados ou independentes e, na Iraque-1, este Observador vivia no exterior).
Além do horror com a brutalidade esterilizada pela distância, fomos vítimas de uma sucessão de atentados cometidos pela chusma de "especialistas" convocados às pressas para encher o tempo das rádios e TVs.
Nossa academia exibiu-se em toda a sua plenitude – ao vivo, em cores e FM. Um show de desinformação, informação de segunda-mão, preconceito e estereótipos confundindo ainda mais um público que mal sabe a diferença entre Irã e Iraque, Chirac e Mubarak, arak e araque.
Nunca ficou tão visível a necessidade do Provão – para os doutores e professores que confundem as cabecinhas dos infelizes que ingressam na universidade em busca do conhecimento.
Uma coisa com a outra
Os jornalões não querem ficar para trás, vão à forra: é preciso mostrar a força da palavra escrita, a perenidade das idéias impressas.Para enfrentar os pós-graduados exibidos pela mídia eletrônica, sacam os filósofos.
O colóquio começou no domingo, 27/4, sem Platão e Aristóteles, Spinoza ou Kant. Para explicar tintim por tintim o que vem acontecendo desde o dia 20 de março – há exatamente 40 dias – a Folha de S.Paulo convocou Jürgen Habermas – que apresenta como "um dos mais influentes filósofos vivos, expoente da segunda geração da Escola de Frankfurt".
Para começar: a turma da primeira geração era muito melhor. Karl Manheim, Erich Fromm, Herbert Marcuse e Max Horkheimer eram mais claros, mais amplos, mais prudentes, mais lúcidos e, obviamente, mais filósofos.
Acontece que nem um filósofo célebre pode entender um processo ainda em curso, recém-começado, nem os jornalistas têm condição de traduzir o filosofês para os leitores. Vejamos o que diz a chamada da primeira página do jornal:
"A autocompreensão moderna está marcada por um universalismo igualitário, que insiste na descentralização das próprias perspectivas. Por isso mesmo o país hegemônico não poderia saber se o que ele afirma fazer no interesse dos outros é de fato igualmente bom para todos".
Ganha um doce quem destrinchar a relação da primeira sentença com a segunda !
Necas de pitibiriba
O texto do filósofo (pág A 30) começa examinando a cena da derrubada da estátua de Saddam e em torno dela faz considerações gestálticas tão concludentes quanto o título – "A guerra e seus juízos contraditórios".
Vai desculpar-nos Herr Professor, mas há qualquer coisa "ligeira" neste texto: o fato do dia 9 de abril, publicado no dia 17 (uma semana depois) merecia ser mais ruminado e amadurecido. Fica a impressão de que não apenas "os EUA não têm como saber se a sua ação traz o bem". Também o autor da especulação está absolutamente confuso.
Dia seguinte, segunda 28/4, foi a vez do sociólogo Jean Baudrillard. Embora também apresentado como "filósofo", o autor é muito conhecido do público e jornalistas brasileiros pelos textos pontuais a respeito da mídia e dos acontecimentos cobertos pela mídia.
Neste sentido é menos pretensioso do que Habermas porque dispõe-se a examinar a realidade mutante no que foi muito ajudado pelo formato: trata-se de uma entrevista, não adianta tergiversar, indispensável responder às dúvidas.
Mesmo assim, o leitor horrorizado com a guerra e as revelações sobre o regime de Saddam Hussein deve ter ficado ainda mais horrorizado quando um sociólogo deste porte capitula ao niilismo ao afirmar que a guerra é um não-acontecimento. Diz ele:
"(...) Não conseguimos definir nem mesmo o que sejam direitos humanos; há direitos para todo o mundo hoje, o direito da vítima, do carrasco, e do bebê em não nascer (...) não sabemos onde estamos na questão do verdadeiro e do falso, do bem e do mal (...)".
Entendido: filósofos lêem os jornais, entendem bulhufas e depois escrevem nos jornais que é assim mesmo – para não entender.
|