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TERROR E PRECONCEITO
O que incomoda na revista Veja

Luiz Antonio Magalhães

"O que incomoda o terror". Este foi o título da Carta ao Leitor da última edição de Veja (1.178, com data de 19/09/01), que foi quase integralmente dedicada aos atentados da semana passada nos Estados Unidos. Raras vezes o brasileiro teve a chance de ver uma publicação se desnudar e revelar a sua visão de mundo como neste editorial.

Eis a síntese do pensamento da direção de Veja:

"O verdadeiro alvo visado pelos terroristas que atacaram Nova York e Washington na semana passada não foram as torres gêmeas do sul de Manhattan nem o edifício do Pentágono. O atentado foi cometido contra um sistema social e econômico que, mesmo longe da perfeição, é o mais justo e livre que a humanidade conseguiu fazer funcionar ininterruptamente até hoje. (...) Foi uma agressão perpetrada contra os mais caros e mais frágeis valores ocidentais: a democracia e a economia de mercado. (...) [O que os radicais não toleram] é a existência de uma sociedade em que os justos podem viver sem ser incomodados e os pobres têm possibilidades reais de atingir a prosperidade com o fruto de seu trabalho."

Tudo bem que o semanário da Editora Abril tenha como um de seus mais caros valores a economia de mercado. Nada contra. Também não há nenhum problema no fato de a revista acreditar na "justiça" e na ampla mobilidade social do capitalismo. É o direito dos acionistas da empresa que edita Veja. A família Civita, proprietária da Abril, acredita nesses valores há muito tempo e tem o direito de compartilhar com os seus leitores as suas graves preocupações com a ameaça que paira sobre os EUA e "todo o mundo ocidental".

Nada disto, portanto, incomoda. O que incomoda na Veja é a editorialização das reportagens que apresenta aos seus leitores. Não basta o editorial. É preciso convencer o público de que Veja tem razão. Sempre.

Senão vejamos, ao analisar trechos da principal reportagem da edição desta semana, intitulada "A descoberta da vulnerabilidade":

O fim do relativismo cultural e a sede de vingança

"O relativismo cultural, teoria formulada na década de 30 pelo antropólogo americano Melville Jean Herskovitz, preconiza que nenhuma cultura é superior a outra. Que cada uma deve ser entendida dentro de seu próprio contexto (...). É dessa perspectiva que alguns estudiosos acham possível justificar, por exemplo, a prática de muçulmanos africanos de extirpar o clitóris das adolescentes. Do relativismo cultural nasceria na década de 80 o discurso politicamente correto, que aboliu do vocabulário palavras e expressões que soam pejorativas a minorias étnicas, homossexuais e portadores de deficiência física. Com os atentados, o relativismo sofreu um abalo: por alguns dias, pelo menos, o mundo voltou a ser dividido entre países civilizados e nações bárbaras. E, contra os bárbaros, políticos e analistas pediram ‘vingança’".

Os dois trechos em vermelho são exemplos evidentes da editorialização do texto de Veja. Marotamente, a revista usa um exemplo forte e totalmente deslocado de seu contexto (a extirpação do clitóris) para causar no leitor a sensação de que o "relativismo cultural" é um conceito equivocado. Em seguida, "prova" que o mundo agora está novamente dividido entre civilização e barbárie, sem se esquecer de deixar claro que apóia a revanche.

Bombardeios dos EUA no Sudão tiveram "pouco efeito"

"Depois de atentados contra a embaixada americana no Quênia e na Tanzânia, em 1998, aviões e navios americanos bombardearam campos de treinamento de Bin Laden e uma fábrica de medicamentos no Sudão, que se acreditava estar produzindo e armazenando armas químicas para terroristas - mas tais ações tiveram pouco efeito" (grifo meu).

Neste ponto, Veja tropeça feio. O bombardeio norte-americano no Sudão, realizado durante a administração Clinton, teria matado pelo menos 2.500 pessoas. Segundo o lingüista norte-americano Noam Chomsky, este número pode ser maior, pois os EUA vetaram as investigações sobre o bombardeio.

Veja quer sangue

"Diante do horror da destruição em Nova York, é improvável que o governo ou a opinião pública fiquem satisfeitos com uma simples retaliação aqui ou ali. (...) Só se pode imaginar como será travada a guerra da superpotência contra terroristas que se escondem nos grotões do Terceiro Mundo. Com o fim das ideologias e depois dos atentados, o planeta está agora obcecado pela segurança. (...) Pode-se até dizer que a partir de agora os americanos devem mostrar-se mais compreensivos diante da brutal reação israelense ao terrorismo islâmico" (grifos meus; os demais, também).

O texto aqui é auto-explicativo. A revista quer revanche, seja dos EUA, seja de Israel. Os "grotões do Terceiro Mundo" – quem mandou ser grotão? – que se virem. Com culpa no cartório ou não, vai sofrer a conseqüência da ousadia contra o império. Sobre este trecho, cabe ressaltar apenas que é recorrente em Veja a tentativa de vender aos leitores idéia do "fim das ideologias", de um mundo onde o capitalismo impera sem adversários. Poder-se-ia dizer que se trata de uma tentativa de difundir a vulgarização do "fim da História", de Francis Fukuyama. Uma tentativa sobretudo tosca.

O mundo islâmico, para Veja

"O ataque da semana passada tem a assinatura de um tipo particularmente terrível de terrorismo, cuja motivação é o fanatismo muçulmano.(...) Como se pode lidar com terroristas cujo objetivo é retornar ao século VIII? Eles não fazem exigências, não pedem dinheiro para libertar reféns. Só querem ver sangue. (...) O que os fundamentalistas não suportam em Israel não é a opressão de uma população sob ocupação, mas o fato de o Estado judeu ser a presença ocidental mais perto de suas mesquitas. Se destruíssem Israel, o que viria depois? Os terríveis atentados nos Estados Unidos dão idéia do que são capazes (...) A globalização incomoda a turma do turbante pela modernidade que traz no bojo. O fundamentalismo islâmico é, em boa medida, a manifestação de uma elite que exerce sobre seus povos uma tirania milenar, baseada na religião e nos costumes imutáveis. (...) O universo dos fundamentalistas é aquele em que se queimam livros, se proíbem filmes e música. As mulheres são cobertas de véus e devem submissão ao poder masculino".

Para a revista Veja, o fanatismo muçulmano gera um terrorismo "particularmente terrível". Não fica claro, mas a impressão que se tem é a de que outros fanatismos – religiosos ou não – são menos terríveis do que o muçulmano. Pelo menos os demais não querem "voltar ao século VIII". Na verdade, a compreensão de Veja sobre o mundo islâmico é demasiadamente estreita. Queimar livros, proibir filmes e músicas, submeter as mulheres ao poder masculino e o povo ao poder da elite não são de maneira alguma exclusividades do mundo islâmico.

Por mais que se possa discordar dos valores e do modo de vida da "turma do turbante", como quer Veja, a verdade é que o preconceito em nada ajuda, só atrapalha. Dizer que a modernização oriunda da globalização é o que incomoda o mundo islâmico é um reducionismo e, sobretudo, uma demonstração de preconceito.

Ao fim e ao cabo, a reportagem de Veja mostra que o que incomoda os acionistas da revista é a possibilidade de que a tal "globalização modernizadora" – ou, falando português claro, todo um sistema político-econômico que sustenta a riqueza de uma minoria na miséria de uma maioria – comece a ser seriamente questionada a partir dos atentados da semana passada. Melhor mesmo arrumar uns fanáticos, de preferência árabes, para expiar toda culpa.


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