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TIMOR LOROSAE

Jornalistas assassinados

 

Marinilda Carvalho

Crédito: AP/Financial Times

Esta é uma humilde homenagem ao jornalista holandês Sander Thoenes, 30 anos, visto aqui em sua foto 3 x 4 do crachá de funcionário do Financial Times, de Londres, para quem trabalhava. Foi assassinado e teve o rosto desfigurado pelas milícias pró-Jacarta no bairro de Becora, em Díli, capital de Timor Leste, em 22 de setembro – dois dias depois da entrada no território da Força Multinacional de Paz das Nações Unidas (Interfet), comandadas pela Austrália. Foi executado também, no dia 25, o jornalista indonésio Agus Muliavan, de apenas 26 anos, correspondente da agência japonesa Asia Press International, sediada em Tóquio. Seu corpo foi atirado num rio.

Mais de 500 jornalistas haviam regressado a Timor após o desembarque da Interfet. Com a morte de Thoenes, muitos veículos chamaram de volta seus correspondentes, entre os quais nove traumatizados holandeses. Temendo represálias da Falintil, a guerrilha timorense –, 80 profissionais indonésios atravessaram a fronteira para Timor Oeste, território da Indonésia.

A ironia maior é que Muliavan foi morto – num massacre perto de Baucau que vitimou mais oito pessoas, incluindo duas freiras e dois diáconos – por seus conterrâneos do Exército indonésio [ver remissão abaixo]. A liberdade de imprensa é coisa recente no arquipélago indonésio. Nos 32 anos de duração do sanguinário regime do ditador Suharto, executar jornalistas era prática comum. E a muda democrática do governo de B.J. Habibie, dominado pelos militares, não consegue firmar as raízes sob as botas dos militares.

"Thoenes estava decidido a apurar a verdade", disse Richard Lambert, seu editor em Londres, que já o conhecia desde antes de 1997, quando o holandês se tornou correspondente do Financial Times em Jacarta. Mal acabara de chegar a Díli com a Interfet, Thoenes decidiu sair do protegido centro da capital para procurar refugiados. "Sander era um dos nossos melhores correspondentes, e um maravilhoso amigo e colega, cheio de entusiasmo para cavar notícias", contou Lambert. "Estamos arrasados com a morte dele." Quando os soldados australianos acharam o corpo de Thoenes, ao lado estava caído seu notebook.

Inimigos e aliados

Christopher Torchia, correspondente da AP, contou que um timorense pró-Indonésia lhe disse amargamente: "Veja o que vocês fizeram", mostrando a capital destruída. "Essa frase me mostrou o quanto o povo vê a mídia como agente do conflito, não como observador imparcial", escreveu o jornalista. "Deve ser por isso que as milícias mataram Sander Thoenes. E agora a Interfet quer que a maioria de nós saia da ilha, porque a força de paz só pode proteger os 41 correspondentes que desembarcaram com a primeira leva de soldados."

O ministro da Defesa australiano, John Moore, proibiu o transporte de jornalistas para Timor e apelou aos editores que chamem seus profissionais de volta. Mas Torchia decidiu ficar: "Sou festejado por todos os timorenses pró-independência. Eles nos consideram agentes aliados". Colegas de Torchia enfrentaram outro problema em Díli: uma multidão saqueou a maior parte do estoque de combustível da Associated Press Television News. A eletricidade ainda é precária na cidade, e as equipes usam diesel para acionar geradores que põem sua parafernália no ar.

Farda verde e cinismo

Na mesma tarde em que mataram Thoenes, e também em Becora, Jon Swain, repórter do Sunday Times, e Chip Hires, fotógrafo americano da agência Gamma, foram parados por uma patrulha do Exército indonésio. Que fique claro: não eram milicianos, mas sim timorenses recrutados pelo Exército indonésio. Só mesmo Jacarta para agir com tamanho cinismo – jurar à comunidade internacional que está em Timor Leste garantindo a segurança, com nativos que poderiam estar nas milícias, bastava trocar a farda verde pela jaqueta preta de terrorista.

Swain e Hires conseguiram fugir e se esconderam no mato. Pelo celular, Swain avisou onde estava a seu editor em Londres, que deu as indicações ao Ministério da Defesa britânico, o qual as repassou às suas tropas em Darwin, Austrália, que as retransmitiram à Interfet em Timor. Só foram resgatados às 11h do dia seguinte. O motorista da dupla ficou gravemente ferido, e seu tradutor foi seqüestrado.

Swain e Hires continuam em Timor Leste.

Tragédias costumam acontecer com jornalistas. Em 22 de setembro, o sueco Jan Arell e o fotógrafo Per Wahlberg escaparam da morte quando um míssil explodiu a 20 metros de seu carro na cidade sagrada de Ur, no Iraque, desde dezembro sob bombardeio permanente dos EUA e da Grã-Bretanha. No dia 30, Ricardo Andreia e Jorge Duarte, da TV portuguesa privada SIC, foram seqüestrados por uma quadrilha de traficantes no Irã, numa região que luta para se transformar em área turística. Os dois acompanhavam os preparativos de uma marcha que em dezembro atravessará o país até Macao, parte dos festejos pelo retorno desta colônia portuguesa à China, em 20/12/99.

Como disse em editorial o Financial Times [ver remissão abaixo], "bons jornalistas não podem formar uma opinião sobre o mundo a partir das imagens da CNN no conforto do quarto de hotel. (...) As empresas de comunicação social podem tentar minimizar os riscos, mas não podem eliminá-los. As pessoas que vivem na segurança do mundo desenvolvido não podem fechar os olhos e as mentes aos horrores dos pontos críticos do globo."

Obs.: A foto de Sander Thoanes foi capturada no site Timor Today <http://www.easttimor.com/>.

 

Veja, humanistas e genocidas

 

Beto Almeida (*)

Em 1996, quando o jornalista timorense José Ramos-Horta foi laureado com o Prêmio Nobel da Paz, integrantes do movimento de solidariedade brasileira com aquele bravo povo sugeriram à revista Veja uma entrevista com ele nas páginas amarelas. A resposta negativa veio acompanhada de esdrúxula explicação: "O tema não interessa aos nossos leitores, que nem sabem onde fica Timor Leste" – deixando boquiaberto Ramos-Horta, o primeiro Prêmio Nobel em língua portuguesa, que além de ter sido capa da Times e da Der Spiegel merecera espaços significativos nas telas da CNN e da BBC de Londres.

Espaços merecidos, embora muito aquém da relevância histórica do drama de Timor Leste, sobre o qual, durante quase duas décadas, foi tecido um espesso e tenebroso manto de silêncio por parte da mídia internacional, muito preocupada em não desagradar os países desenvolvidos, grandes produtores de armas, parte substancial delas destinada a sustentar o regime genocida que a Indonésia instalou no território timorense a partir da invasão de 1975.

Este episódio mostra apenas a pontinha de uma monstruosa encenação que se pratica em política internacional, cenário onde sempre são cunhadas frases altissonantes sobre autodeterminação dos povos, não-ingerência e respeito aos direitos humanos, das quais o povo do Timor Leste terminou sendo – agora com a segunda onda de genocídio praticada pela Indonésia – mais uma vítima.

Fora das Bolsas

Talvez as explicações para este comportamento de quase desprezo e indiferença possam ser encontradas no fato de que Timor Leste tem muito pouca significação nas bolsas de Wall Street e de Londres, ao passo que as indústrias bélicas atribuem à ditadura indonésia, grande compradora de armamentos, valor expressivo. Só isso já explica o apoio à ocupação militar indonésia sobre Timor por mais de 24 anos e a obscena tolerância com que sempre trataram os crimes praticados pelo regime de Jacarta.

Cai portanto a máscara humanista destes países que sempre apregoaram a política de direitos humanos como referencial prático em suas respectivas políticas externas. Em nome de razões humanitárias bombardearam Belgrado antes mesmo que a ONU se pronunciasse, mas são incapazes de qualquer bombardeio ou mesmo de um gesto forte contra a Indonésia. Em nome de supostos direitos humanos tentam justificar um injustificável e intolerável bloqueio econômico a Cuba, mas levaram anos para o cumprimento de uma resolução da ONU que determinava a realização de um referendo em Timor Leste. E quando o realizam, o fazem sem desarmar as milícias paramilitares indonésias e sem a retirada das tropas de Jacarta, as mesmas que na ocupação foram responsáveis pela aniquilação de cerca de um terço do povo timorense – este genocídio moderno que a mídia internacional escondeu dos olhos da humanidade e que agora aparece como que do nada.

Não é do nada, tudo isto sempre contou com o apoio e a aquiescência dos países que se auto-afirmam promotores dos direitos humanos. Enquanto a pequenina Cuba tem a grandeza de enviar milhares de médicos para ajudar populações carentes em diversos países da África e da América Latina, o mundo assiste agora a um massacre a céu aberto em Timor Leste, sem que as grandes potências tenham tido a dignidade de enviar forças de paz para garantir a segurança do referendo e de seu resultado. Neste contexto, pode-se compreender por que nenhum míssil de precisão cirúrgica, daqueles que destruíram fábricas, escolas e hospitais em Belgrado, foi lançado contra um quartel das tropas da Indonésia que ocupam Timor Leste: lealdade entre parceiros....

Trama hipócrita

O povo timorense está sendo vítima de uma hipócrita trama orquestrada no seio da ONU, que convocou o plebiscito sem exigir a desocupação militar indonésia do território timorense e sem desarmar as milícias sanguinárias pró-Jacarta que, assim como fizeram ao longo dos 24 anos de ocupação, receberam, mais uma vez, sinal verde para matar e trucidar. A ONU deve ser responsabilizada por esta matança, já que os indicadores de tensão e de violência premeditada contra o povo timorense foram sobejamente detectados muito antes do pleito, sendo usados inclusive para dois adiamentos da consulta. Assim, com a conivência das grandes potências que controlam a ONU, o povo timorense foi ludibriado com promessas vazias de democracia, de humanismo e de segurança garantida aos eleitores.

O que somente poderia ocorrer com a presença prévia de tropas de manutenção da paz, com o desarmamento das milícias paramilitares e com a retirada das tropas da Indonésia. Os timorenses foram induzidos a crer que o referendo seria democrático e seu resultado, respeitado. Para eles não havia outra alternativa, abandonados que foram durante anos pela criminosa paralisia da ONU, manipulada pelos países fabricantes de armamentos destinados aos genocidas da Indonésia. Iludiram os timorenses induzindo-os a acreditar que poderiam se manifestar e votar em paz e segurança, mas não avisaram que as feras continuavam soltas e armadas, com plena liberdade para agir sangüinariamente.

Mesmo sabendo dos riscos, o povo timorense votou maciçamente pela independência, o que deve ser entendido como uma mensagem à humanidade, na primeira oportunidade que teve em 24 anos, para afirmar que mesmo nas mais atrozes condições da liberdade não se abre mão. Uma mensagem de dignidade capaz de causar profunda comoção em todos os povos, ensinando o valor que tem a liberdade, e, ao mesmo tempo, revelar ao mundo quão próximos estão um do outro, supostos humanistas e seus parceiros, os genocidas.

(*) Jornalista, coordenador do Comitê Brasiliense de Solidariedade a Timor Leste, fundado em 1993

 

Uma lição para as grandes potências

 

Emma Bonino (*)

Copyright IPS

Bruxelas – Os capacetes azuis das Nações Unidas chegaram a Timor Leste e existe agora a esperança de que as atrocidades na ilha terminem e que a ONU possa investigar os crimes a fim de que a justiça internacional castigue os culpados. Também é desejável que a desaprovação universal suscitada pelos crimes perpetrados no Timor vença finalmente a inércia que até hoje impede a criação do Tribunal Penal Internacional (TPI).

Da mesma forma que os civis de Burundi e de Serra Leoa, as vítimas timorenses nos recordam a absoluta necessidade que o mundo tem de contar com o TPI, cujo tratado fundamental foi aprovado em julho de 1998 em Roma por 120 países, graças à campanha internacional em favor de sua criação lançada em 1993 pelos radicais italianos.

No entanto, para que o TPI possa entrar em funcionamento é preciso que não menos do que 60 parlamentos nacionais ratifiquem o tratado. Até hoje apenas alguns poucos parlamentos o ratificaram (Itália, Senegal, Trinidade e Tobago e San Marino) [o Brasil também] ou se dispõem a fazê-lo (França e Bangladesh).

A crise do Timor Leste deveria fazer ver a todos os parlamentos dos países que se pronunciaram a favor de uma justiça penal internacional para os crimes de guerra e os de genocídio, que cada dia que deixam passar é mais um dia de impunidade presenteado aos grandes assassinos de nossa época.

O TPI significa dar forma à "justiça sem fronteiras", que se converteu em uma necessidade urgente nesta era Pós-Guerra Fria, marcada pela proliferação de conflitos armados de uma ferocidade sem precedentes. Mas existe o risco de que o TPI emperre. Não podemos minimizar o fato de que os Estados Unidos estiveram à frente da pequena minoria de países contrários ao nascimento do tribunal, e que faltam demasiadas ratificações para que o tratado entre em vigência.

O conflito do Timor Leste suscita outras preocupações. Muito antes que os primeiros incidentes fossem produzidos já circulavam inúmeros relatórios sobre as atividades e os planos dos milicianos pró-indonésia. Pode-se dizer que foi uma tragédia anunciada. No entanto, nada foi feito para preveni-la. Causa estupefação, por exemplo, que todas as chancelarias dos 15 países membros da União Européia tenham reagido com indiferença e passividade ante os inúmeros sinais de alarme que receberam.

Outro motivo de inquietação tem a ver com as Nações Unidas. É difícil imaginar outra crise que apresente tantos problemas políticos, humanitários e éticos que estejam estreitamente vinculados com o mandato e com a imagem da ONU. Com toda a justiça, as Nações Unidas jamais reconheceram a anexação "de fato" do Timor Leste pela Indonésia em 1975. O inventário das violações dos direitos humanos que foram cometidas na ilha desde então é a negação perfeita de todas as convenções para a proteção dos direitos humanos adotadas pela ONU, a começar pela Declaração Universal de 1948: da perseguição religiosa às deportações, dos assassinatos à opressão cultural, e assim sucessivamente.

E o referendo de 30 de agosto sobre a independência da ilha foi organizado sob a bandeira da ONU e de sua missão no Timor Leste (UNAMET). Tratou-se de um legítimo e democrático exercício do direito de autodeterminação destinado a ser pacificamente aprovado e ratificado pelo governo e pelo parlamento da Indonésia.

Então, como se pode infligir um sofrimento tão grande a um povo cuja única culpa é ter participado com boa-fé em uma eleição democrática? Como pode a ONU aceitar uma vez mais que sua imagem, sua credibilidade e sua bandeira saiam deste episódio deterioradas e quase destruídas?

Reconheço os esforços realizados pelo secretário-geral das Nações Unidas para persuadir o Conselho de Segurança a adotar com relativa rapidez as medidas mínimas para devolver um pouco de segurança ao Timor, e, com isso, recuperar um pouco de credibilidade para a ONU. Mas é inadmissível que os dirigentes das capitais "que contam no mundo" encarem conflitos de extrema gravidade como este – questão de vida ou morte não apenas para os timorenses mas também para os valores e princípios que eles mesmos se comprometeram a sustentar – como se se tratassem de meros passatempos diplomáticos.

Pelo que se faz transparecer, funcionários sabichões preparam com calma a próxima jogada e avaliam as possibilidades táticas deste ou de outro curso de ação em suas capitais e em Nova York. Passa assim para o segundo plano a única coisa que importa – o drama do Timor Leste – e a posição de tal ou qual potência se converte na prioridade dos diplomatas. Por exemplo, se a China aceitará o precedente de uma intervenção militar na Ásia ou se os europeus estarão dispostos a arriscar suas lucrativas exportações para a Indonésia.

Os diplomatas e os funcionários governamentais deveriam tomar nota de que a opinião pública não tem em alta conta todas estas considerações que são sussurradas nos corredores das chancelarias.

Espera-se que a primeira década do novo milênio, diferentemente da que está chegando ao fim, não repita escândalos como os da Bósnia, Ruanda, Afeganistão e Timor Leste. Nenhuma organização pode basear sua existência somente em pactos diplomáticos ou em acordos "de governo para governo", assim como não pode sair legitimamente incólume de uma falta de respaldo público tão prolongada como a que o Conselho de Segurança da ONU está experimentando agora. Creio que os responsáveis das capitais "que contam" deveriam refletir mais de uma vez sobre a lição do Timor Leste.

(*) Deputada no Parlamento Europeu, dirigente do Partido Radical e ex- comissária para a ajuda humanitária da União Européia

 

ASPAS
TIMOR NA MÍDIA
Alberto Dines

"Lisboa – Lá onde nasce o sol está nascendo uma nação. Timor Lorosae está sendo erguido na parte oriental da ilha, palmo a palmo, com os ingredientes de sempre: sangue, suor e lágrimas. Essa epopéia se trava no outro lado do globo, mas aqui, a meio caminho, imaginária finis terrae, quina da terra, se localiza o arsenal da emoção que rejuntou Oriente com Ocidente. Cinco séculos depois, Portugal repete a proeza de tornar o mundo maior. E menor – mais próximo.

Acompanho desde 1988 este caloroso movimento de solidariedade protagonizado pelo povo português e instrumentado pela alma portuguesa. Mas nas últimas três semanas ele superou-se, o pequeno país agigantou-se por inteiro, sem dissonâncias, num dos seus melhores momentos.

Este recanto luminoso e claro se reencontra com uma das preferências antigas: o preto. Está de luto mas não alquebrado. Ao contrário, vital. Os principais monumentos de Lisboa estão envoltos em enormes panos pretos, cartazes negros exibem-se tanto nas lojas chiques como nas tascas humildes, mensagens motivadoras substituíram os slogans de publicidade nos monitores dos caixas automáticos dos bancos, nos painéis luminosos das ruas, nos elétricos (bondes), autocarros (ônibus).

Poetas (quem não é nestas horas?) se associaram aos publicitários, artistas plásticos, aos ‘designers’ e eis que Timor é Temor, Tremor mas também T+Amor.

Tudo ao som da velha balada ‘Ai, Timor’, criada há uma década pelos Trovantes. Nesta era do rock e do ruído, a ilha trouxe a plangência dos tons menores.

‘O povo sabe distinguir a nobreza de uma causa política da mediocridade de uma política sem causas’, escreveu o sociólogo Boaventura de Souza Santos (Visão, 16-9-99, p. 38). Quando foram à rua receber D. Ximenes Belo, os lisboetas sabiam que poderiam influir pouco no cenário mundial mas em nenhum momento permitiram que o pragmatismo arrefecesse a empolgação.

Essa fidalguia generalizada transpõe as barreiras das segmentações, engrena governantes e governados, iguala o presidente Jorge Sampaio, transformado em diplomata-mor, ao taxista convertido em polinizador da calorosa comunhão. A lusofonia até agora confinada ao âmbito dos lingüistas, intelectuais e diplomatas se converteu em bandeira das massas.

Os militares indonésios e os milicianos a seu serviço estão sendo decisivos para articular esta gigantesca equalização. Raras vezes neste século ficou tão nítido e tão bem recortado quem está com o Bem e quem é o Mal.

Os media (ou a mídia, como a chamamos no Brasil) foram decisivos. Todos os grandes jornais, semanários, rádios e emissoras de TV de Portugal (estatais ou privadas) estão com equipes de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas em Darwin e Dili. Até mesmo o recém-lançado Diário Digital, numa demonstração de que as novas tecnologias da informação não podem prescindir do jornalismo de campo. Na semana passada, uma das eficientes rádios all-news, a TSF, manteve-se no ar durante 100 horas consecutivas transmitindo notícias de todas as frentes. Os anunciantes que tiveram sua publicidade suspensa e que até poderiam exigir pesadas indenizações aceitaram tranqüilamente a compensação em outros dias. Não é hora de fazer contas, subtrair, só se pensa em somar. E isso às vésperas das eleições parlamentares.

A satanizada globalização e seus filhos diletos – o mercantilismo conspícuo e a sociedade do espetáculo – mostraram enfim seu potencial de aproximação. Não fossem a CNN e a BBC World transmitindo de Díli as barbáries perpetradas contra o povo maubere, a Casa Branca não teria guinado de forma tão inesperada e radical. Quem agiu foi o presidente da nação mais poderosa do mundo, mas quem foi tocado por aquelas imagens do televisor foi Bill Clinton ou sua mulher, Hillary, a filha Chelsea, um assessor, talvez mesmo uma nova estagiária.

O Caso Timor representa o reencontro da mídia com a sua condição, vocação e compromisso: ser os olhos, ouvidos, coração e consciência do seu público. O jornalista volta a ser o cavaleiro andante, de olho no mundo, preocupado com a sua missão. Pagando com a vida por ela. O robô movido a índices de audiência retoma os impulsos maiores.

Já era hora. Sobretudo nesta nova ordem internacional onde a ONU se converte no único instrumento capaz de aferir aquele sutil momento em que os direitos universais do homem devem se sobrepor às degradadas soberanias nacionais.

Timor Lorosae, Timor do Sol Nascente – com o sangue que já correu e as dificuldades que apenas se prenunciam, essa metade de ilha pode representar um novo continente: o retorno da generosidade, a despolitização da solidariedade e, sobretudo, a reumanização da humanidade. O século também nascente merece."

"‘Lorosae’, sol nascente", copyright Jornal do Brasil, 25/9/99

 

João Pedro Henriques

De Darwin

"‘Então, vou eu para aí ou vêm vocês para aqui?’ Xanana Gusmão ignorou as apertadas regras de segurança que o têm cercado na Austrália e deixou-se mergulhar entre os seus compatriotas. Estava-se, ontem, na Associação Chinesa-Timorense de Darwin, no primeiro encontro do líder da resistência com timorenses da diáspora. Numa mesa colocada num dos topos da espécie de hangar onde a associação tem a sua sede, o líder da resistência tinha acabado de discursar e de responder a perguntas dos seus compatriotas. Estes, disciplinados, ouviam-no sentados em cadeiras de plástico arrumadas em fila. Estavam assim dispostos quando Xanana decidiu levantar-se e abraçar os amigos. Resoluto. Os guarda-costas, surpreendidos, já não foram a tempo de o travar. Encolheram os ombros e ficaram a ver. Xanana distendeu-se. Umas vezes emocionou-se – porque raramente há uma história feliz quando dois timorenses se reencontram. Outras riu – porque só o reencontro ser possível já é uma alegria.

Muitas dezenas de timorenses aguardavam o ‘Presidente Xanana’. As mulheres vestiam os seus melhores vestidos, as crianças saltavam por todo o lado e sentia-se no ar a emoção de um encontro há muito aguardado. Muitos ainda conheciam Xanana dos tempos de juventude. Outros estiveram com ele no tempo da resistência clandestina. A maior parte nunca o tinha visto senão na televisão. Havia quem tratasse velhos amigos por ‘compadres’. Xanana trouxe consigo os três irmãos Carrascalão – Mário, Manuel e João –, bem como Roque Rodrigues, o responsável do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT) [organização que reuniu todos os partidos políticos timorenses após a ocupação indonésia] em Lisboa. Ontem, muita gente encontrou muita gente que não via há muito tempo.

A cerimónia começou fria. Os guarda-costas da polícia australiana que garantem a segurança de Xanana intimidam aproximações. O líder da resistência percorre o hangar, fica de pé junto à mesa de honra e começa a tocar o hino das Falintil. Xanana leva o punho esquerdo ao peito. Quase ninguém o acompanha.

Depois discursa. Diz umas palavras em inglês (poucas), e outras em português (também). Depois passa para o tétum. E aqui o discurso acelera, perde as longas ‘brancas’ que Xanana usa quando não fala na língua da sua terra. Ouvem-se palavras portuguesas pelo meio: ‘família’, ‘problemas’, ‘manifestação’, ‘povo importante’ e, mais do que uma vez, ‘campo de concentração’. A plateia ouve-o em silêncio. A excepção é a criançada. Brincam por todo o lado sem o menor ‘respeito’. Ninguém, a começar pelo líder da resistência, dá sinal de se sentir minimamente incomodado. Fica-se com a sensação de que as crianças timorenses estão autorizadas a tudo sempre que as circunstâncias o permitem. A alegria é uma excepção que não se pode desperdiçar.

Xanana Gusmão teve ontem uma amostra pequenina de Timor livre. Depois, voltou ao casulo onde o seu ‘staff’ e a polícia australiana o têm colocado.

Retirada de timorenses da Indonésia

Entretanto, está a ser preparada uma ‘grande operação’ para a retirada de timorenses espalhados pela Indonésia. Xanana Gusmão aproveitou o encontro de ontem com a comunidade timorense radicada em Darwin para anunciar esta novidade. ‘Hoje na Indonésia não há um lugar seguro para um timorense’, disse o líder do Conselho Nacional da Resistência Timorense, que não deu mais pormenores sobre a tal ‘grande operação’.

Na mesma linha de pensamento – de que não há um lugar seguro para os timorenses na Indonésia –, Xanana defendeu que os actuais presos políticos timorenses não devem ser libertados enquanto não lhes for garantido que podem sair imediatamente da Indonésia. Respondendo a uma pergunta sobre o futuro dos presos políticos – uma matéria esquecida desde que o líder da resistência foi libertado –, Xanana disse já ter conversado sobre o assunto com o ministro indonésio da Justiça, Muladi.

Segundo contou, nessa conversa aconselhou o ministro a manter os reclusos na prisão se não lhes puder garantir que saem da Indonésia imediatamente a seguir à libertação. ‘Os presos estão melhor na prisão’, defendeu o líder da resistência, que acrescentou ter apenas conhecimento da existência actual de 18 casos de presos políticos.

A reconciliação timorense foi outro dos assuntos sobre os quais Xanana foi interrogado. O líder da resistência garantiu que o novo país vai continuar a chamar a si ‘os irmãos falhados’. No entanto, admitiu que vão ter de passar ‘muitos anos’ até que esta reconciliação se possa concretizar – se é que o vai ser. Continuam vagas as respostas de Xanana relativamente ao que fazer aos elementos das milícias quando o novo país nascer. O líder da resistência não pode advogar vingança, porque isso contradiz profundamente o seu discurso de sempre quanto à reconciliação. Mas também sabe que não consegue obrigar ninguém a perdoar a assassinos. Ontem deixou no ar a idéia de que a ‘nossa vingança será ajudá-los a escolher um caminho de justiça e paz’.

Mas, além do problema das milícias, subsiste, em matéria de reconciliação, um outro problema: as feridas da guerra civil de 1975 entre a Fretilin e a UDT ainda não estão totalmente saradas, apesar de o próprio Xanana ter conseguido, sob o guarda-chuva do CNRT, reaproximar elementos há muito tempo desavindos. De vez em quando, essas divisões antigas emergem e, por isso, Xanana fez questão de explicar que a reunião do CNRT que está a decorrer em Darwin também serve para cada um dos participantes ‘retirar as barreiras que construiu à sua volta’.

O funcionamento do CNRT é algo que ainda necessita de muitas afinações. Um dos timorenses que foi ao encontro de ontem, fugido de Timor-Leste há duas semanas, queixou-se de ainda não ter sido contactado pelas estruturas do CNRT em Darwin. Xanana deu a resposta mais sincera de todas: a estrutura não tenta organizar em Darwin os refugiados que têm vindo do território porque o Governo australiano pediu (isto é, ordenou) que eles se abstivessem de ter qualquer actividade política. Na Austrália, já têm problemas que cheguem com a Indonésia.

"Uma amostra de Timor Livre", copyright Público, 24/9/99

 

Luciano Alvarez

Em Díli

"Díli é hoje uma cidade sem lei. Uma semana depois do início da intervenção das forças das Nações Unidas, a capital de Timor Lorosae continua a ser incendiada e pilhada. Primeiro foram os soldados indonésios, agora são os timorenses desesperados e sem nada, que, de manhã à noite, ‘patrulham’ a cidade. Sempre à procura de algo que lhes componha as casas destruídas ou que sirva para negociar. Os principais alvos são as instalações abandonadas pelos militares. O mercado negro também já está a dar cartas. Como em todos os locais abandonados à sua sorte, tende a funcionar a lei do mais forte. E os mais fortes são agora os grupos de jovens que aparecem com ‘T-shirts’ e crachás das Falintil ou do CNRT, a impor-se como os senhores da cidade. Perante um povo amedrontado e confuso.

As colunas de fumo continuam a elevar-se sobre Díli. Os soldados indonésios que ontem deixaram a capital de Timor Lorosae quiseram, como os antecessores na marcha para Jacarta, deixar a sua marca e, embora em menor número, os incêndios continuaram. ‘Soldados descontrolados’, continua a dizer o general Kiki, que ontem deixou a cidade entregue, ao que parece, às forças da Interfet. Só que os homens das Nações Unidas também ainda não foram capazes de impor a ordem. Algumas das colunas de fumo que ontem se viram vinham de locais onde já não há soldados, e as pilhagens ao pouco que resta são agora feitas por timorenses, desesperados, que levam tudo o que podem. O objectivo é compor os destroços das suas casas ou negociar com aqueles que ainda têm as poucas rupias que circulam.

O Hotel Resende esteve até ontem ocupado pelo comando dos marines’ indonésios. A meio da manhã, pouco depois da partida dos últimos militares, uma dúzia de mulheres limpavam a gasolina que tinha sido espalhada pelo chão. Os soldados indonésios ou não quiseram ou não puderam pegar-lhe fogo. Mesmo assim, a marca da destruição estava bem visível. ‘Venha, senhor, venha ver. Destruíram quase tudo. Os quartos do primeiro andar ainda se aproveitam, mas os da parte de baixo estão todos partidos’, explicava o senhor Livramento, um empregado do hotel que, em fato-macaco, ia abrindo as portas uma a uma para que o jornalista pudesse comprovar a verdade das suas palavras.

O senhor Livramento exagerava. Havia camas, janelas e armários partidos, colchões rasgados, mas o hotel está perfeitamente recuperável. Ontem, pessoal da UNAMET até começou a estudar a possibilidade de o arranjar. As paredes vão precisar de pintura, porque os soldados indonésios, além dos seus nomes e dos batalhões onde servem, deixaram por todo o lado frases em inglês de louvor às milícias integracionistas: ‘Aitarak is good’, ‘Aitarak is power’.

O Palácio do Governador, que até domingo à noite esteve controlado pelas forças indonésias, está agora nas mãos da Interfet. Um enorme cartaz indica a mudança de mãos: ‘Militar Zone.’ O palácio também não foi incendiado, mas lá dentro não ficou nada inteiro. O interior do grande edifício branco ficou feito em cacos. Salas atrás de salas, em que mesas e cadeiras não passam de pilhas de madeira, levada pelos timorenses que conseguem furar as barreiras dos soldados da Interfet que, apesar de se encontrarem no local, parecem pouco preocupados com quem entra ou deixa de entrar no mais nobre edifício da cidade.

Entre o Palácio do Governador e o Hotel Resende ficava um dos balcões mais movimentados do Banco Duta, uma das principais instituições bancárias da Indonésia. Destruído pelas milícias ou pelos soldados de Jacarta, o banco era ontem um dos alvos preferidos dos timorenses que andam pela cidade à procura de algo que ainda se aproveite.

Armários, mesas, cadeiras, sofás eram retirados por dezenas de pessoas que iam enchendo atrelados, empurrados depois à pressa para longe do local, numa das zonas até agora protegidas pelos militares indonésios. Lá dentro, a caixa-forte já tinha sido arrombada, mas três homens com barras de ferro tentavam, em vão, escavar uma parede em redor de uma enorme porta de ferro que, aparentemente, ainda não tinha sido violada. Entre eles, crianças vasculhavam os milhares de papéis, cadernetas bancárias e talões que cobrem o chão de pedra.

O saque ao balcão do Banco Duta repetia-se por toda a cidade. Todos os edifícios onde se encontravam soldados indonésios, queimados ou não, são agora visitados por filas de gente que de lá retira tudo o que pode. Depois de verem as suas casas destruídas e queimadas pelos militares de Jacarta e pelas milícias, é agora a vez de os timorenses levarem para as suas casas, ou para negociarem com outros timorenses, o pouco que os ocupantes deixaram.

Alguns dos edifícios são também deixados em chamas depois de esvaziados, muitas vezes perante a indiferença dos homens da Interfet que se encontram por perto e que pouco se importam com o que é incendiado ou não. Todas as suas atenções continuam a ir para os edifícios que ocupam ou que têm interesse estratégico.

As últimas vendas dos militares

Junto ao porto militar, onde centenas de soldados indonésios continuam à espera de ser embarcados, funciona agora o grande mercado da cidade. No interior do gradeamento, estão as tropas e, no exterior, dezenas de timorenses que, de rupias na mão, tentam negociar de tudo com os soldados. Depois de terem vendido automóveis, mobílias e todo o género de bens saqueados que amontoaram nos quartéis, as tropas de Jacarta fazem agora as últimas vendas.

Coisas pequenas, como maços de cigarros, que em qualquer loja custavam entre duas e quatro mil rupias e agora são vendidos entre 10 e 20 mil, latas de conserva de rações de combate, pilhas, cobertores, cartucheiras, cantis, mochilas, pares de botas da tropa. Tudo tem um preço, que duplica ou triplica quando os bens deixam a zona do porto e se espalham pela cidade. O mercado negro começa a ditar a sua lei e os cigarros, por exemplo, são vendidos avulso a duas e três mil rupias cada.

Não deixa de ser caricato que uma grande parte dos compradores que regateiam preços com os soldados ostente ‘T-shirts’ com a cara de Xanana Gusmão e outros símbolos da resistência, ou então enormes crachás com a bandeira das Falintil, muitos deles pintados à mão e colocados no peito ou nas boinas militares.

Na maior parte, são jovens que andam em grupos, fazendo valer o símbolo da resistência para imporem o negócio ou tomarem conta de edifícios onde ainda há algo que possa, mais tarde, ser comercializado. A população, amedrontada e confusa, obedece a estes jovens, que se apresentam como os senhores de uma cidade sem lei.

Perante tudo isto, perante uma cidade sem rei nem roque, a Interfet e a UNAMET têm-se limitado a pedir às pessoas que se encontram nas montanhas, aonde estão a fazer chegar alimentos diariamente, que não regressem ainda à capital. Procuram assim evitar que a situação humanitária e sanitária se torne incontrolável."

"Crónica de uma cidade sem lei", copyright Público, 28/9/99

 

Público

"Nove pessoas, entre os quais um padre, duas freiras canossianas e um jornalista, foram mortas no sábado na localidade de Come, perto de Baucau, por soldados indonésios, quando regressavam de uma operação de auxílio humanitário em Los Palos. Saliente-se que entre estas vítimas estava o responsável da Cáritas diocesana de Baucau. O assassinato foi confirmado pelo próprio bispo de Baucau, D. Basílio do Nascimento.

Já ontem, também na zona de Baucau, os guerrilheiros timorenses das Falintil mataram sete alegados elementos das milícias, sob o argumento de que estes tinham participado nos assassinatos de sábado. Em declarações à TSF, o comandante Lere, responsável pelas Falintil, explicou que os sete elementos das milícias foram apanhados pelas suas tropas quando regressavam ao local onde foram mortos os religiosos, para, na opinião de Lere, ‘fazer desaparecer os cadáveres’. O comandante das Falintil, que garantiu tratar-se de um incidente isolado, adiantou ainda: ‘Eram onze os membros das milícias pró-indonésias que cometeram a matança, foram surpreendidos e matámo-los.’

O grupo era composto por sete religiosos – um padre, duas freiras canossianas, duas raparigas que trabalhavam com estas, dois seminaristas –, um motorista e um jornalista indonésio. A camioneta onde se deslocavam deparou-se com forças pró-indonésias nos arredores de Come, localidade a leste de Díli, entre Baucau e Los Palos.

Em entrevista telefónica à RTP, ontem de manhã, o bispo de Baucau, D. Basílio do Nascimento, atestou as mortes: ‘Esta manhã recebemos a notícia, infelizmente confirmada, de que as nove pessoas foram mortas e lançadas para a ribeira.’

O bispo de Baucau confirmou que as vítimas ‘foram mortas no sábado à tarde, quando vinham de Los Palos, onde foram fazer um levantamento das necessidades desta região, para, depois, essas necessidades serem providas pela Cáritas da diocese de Baucau’.

Segundo fonte religiosa timorense citada pela Lusa, o grupo deslocava-se precisamente de Baucau para Los Palos, quando foi interceptado por membros de um batalhão territorial indonésio. A agência Fides cita fontes religiosas que caracterizam esta ‘matança’ como ‘um gesto de ódio contra a igreja, realizado por soldados e milicianos de partida que se sentem humilhados e desesperados’.

A identidade de algumas das vítimas foi já revelada. Trata-se do padre timorense Jacinto, das freiras Herminia Cazzaniga, de 69 anos e nacionalidade italiana, e Celeste Carvalho Pinto, de 48 anos e nacionalidade timorense. Sobre o jornalista indonésio morto, foi avançado que se trata de um correspondente de uma cadeia informativa japonesa. Hoje, realizam-se, em Baucau, as cerimónias fúnebres das vítimas deste ataque, que serão presididas por D. Basílio do Nascimento.

O assassinato dos sete religiosos ocorreu poucas horas depois de D. Basílio do Nascimento, ter declarado aos jornalistas que, nas últimas semanas, nenhum religioso tinha sido morto na zona de Baucau.

Mais valas comuns em Díli

Também ontem, foi anunciado pela UNAMET que foram descobertas, no domingo, mais duas valas comuns, com três corpos cada, no bairro de Becora, nos arredores a sul da cidade de Díli.

David Wimhurst, porta-voz da UNAMET, anunciou, numa conferência de imprensa, na capital timorense, que os corpos encontrados domingo vão ser exumados em breve e filmados, com o objectivo de recolher provas documentais para que no futuro possa ser averiguada a eventual responsabilidade das tropas indonésias e das milícias pró- integracionistas na chacina dos timorenses.

‘Se descobrirmos sinais de morte suspeita ou violência, exigiremos a abertura de um inquérito’, afirmou Wimhurst, que, já no domingo, tinha anunciado a descoberta de dois corpos de timorenses assassinados em Tibur, algumas centenas de quilómetros a oeste de Díli. Estes dois assassinatos – um com um tiro na cabeça e outro com um golpe de catana, enfiada da garganta ao cérebro – serão, segundo Wimhurst, alvo do primeiro inquérito que será aberto por ordens da ONU."

"Massacre na Região de Baucau", copyright Público, 28/9/99

 

Jornal do Brasil

"Nações Unidas e Díli – O líder Xanana Gusmão, que pode ser o primeiro presidente de Timor Leste independente, disse em Nova Iorque que o Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT) quer dividir as tarefas de condução do território com as Nações Unidas no período de transição para a independência. ‘Em certas áreas, a ONU se encarregará sozinha; em outras, dividiríamos responsabilidades; em outras ainda, podemos assumir tudo sozinhos’, disse Gusmão depois de se reunir com o secretário-geral da ONU, Kofi Annan.

Também presente, o outro líder timorense, José Ramos-Horta, disse apoiar um período de transição de três anos sob comando da ONU. ‘Mas o CNRT espera ser consultado em todos os níveis e participar ativamente desta transição.’ Ele argumentou que foi sob a bandeira do CNRT (que reuniu todos os partidos políticos timorenses depois da ocupação indonésia, em 1975) que 78,5% dos eleitores votaram pela independência no referendo de 30 de agosto. ‘Conquistamos legitimidade internacional’, disse. ‘Temos direito de tomar parte ativa na transição.’

A reivindicação levada a Annan deve contrariar a Indonésia e pode trazer complicações antes do previsto para a missão das Nações Unidas em Timor, que tem mandato para conduzir a transição política em Timor Leste depois que o parlamento indonésio endossar a independência do território, em novembro.

Tribunal – Xanana reuniu-se também com o chanceler da Indonésia, Ali Alatas, de quem ouviu que seu país está ‘consternado’ com o acontecido em Timor. O CNRT, porém, retirou ontem a oferta de anistia aos responsáveis pela violência, feita por Gusmão na véspera do referendo. ‘Foi um gesto de reconciliação, mas ninguém esperava que os indonésios e as milícias fizessem o que fizeram’, disse Leandro Isaac, hoje autoridade máxima do CNRT em Timor Leste. ‘Queremos um tribunal internacional para julgar os criminosos.’ Kofi Annan anunciou ontem a criação imediata de comissão para investigar as atrocidades, atendendo recomendação da Comissão de Direitos Humanos aprovada segunda-feira.

A Força Multinacional de Paz em Timor Leste (Interfet) enviou a Dare, perto da capital, Díli, comboio fortemente escoltado para dar início ao transporte dos 50 mil refugiados de volta a suas casas, embora a maioria das cidades careça de condições mínimas. O porta-voz da Missão da ONU (Unamet), David Wimhurst, disse que serão necessários US$ 100 milhões ‘nos próximos seis meses’ para comida, remédios, água e abrigo. O custo da reconstrução não está calculado. Para Kosovo, a verba prevista é de US$ 3,5 bilhões em três anos.

Revide – As ações militares continuaram ontem em Com e Los Palos, onde foram assassinadas nove pessoas – oito católicos e um jornalista indonésio – no sábado. A guerrilha timorense, Falintil, afirma que matou os milicianos responsáveis pelo massacre. A Interfet deteve 15 pessoas e apreendeu muitas armas do tipo usado pelas milícias.

Soube-se ontem que a Interfet capturou na semana passada 10 suspeitos de pertencerem à Kopassus, temida tropa de elite do ex-ditador Suharto. Jacarta sempre negou que a Kopassus estivesse em Timor. ‘Vamos devolvê-los aos indonésios, mas como poderão aceitá-los sem admitir que eles estavam aqui?’, ironizou um oficial australiano. Damien Kingsbury, da Universidade Monash, na Austrália, alertara que oficiais da reserva da Kopassus foram recrutados pelos militares indonésios para organizar as milícias. ‘Eles são completamente diferentes dos milicianos’, afirmou um soldado australiano à Reuters."

"Líder timorense quer poder", copyright Jornal do Brasil, 29/9/99

 

MÍDIA EM TIMOR
Público

"Ontem, o Financial Times reagiu em editorial ao assassinato, em Timor-Leste, do seu correspondente em Jacarta, Sander Thoenes. Foi, como noticiámos, encontrado anteontem no bairro de Becora, morto e com ‘golpes em todo o corpo feitos por instrumentos cortantes’. Pela sua importância e significado, reproduzimos esse editorial na íntegra:

‘A morte violenta de um jornalista é o pior que pode acontecer na vida de um jornal. Num negócio que depende em grande medida do trabalho de equipa e suporte mútuo, uma tal tragédia representa uma perda muito pessoal para toda a gente. E os editores são forçados a confrontar-se com a sua responsabilidade em colocar um elemento da sua equipa em risco.

Sander Thoenes, o correspondente em Jacarta do 'Financial Times' que foi morto em Díli na quinta-feira, era um jornalista com muita experiência no país e que operava em locais instáveis e por vezes perigosos.

Ele trabalhou como nosso correspondente na Ásia Central, até ter mudado para a Indonésia, há dois anos: ele falava a língua fluentemente e conhecia muito bem Díli.

Nestas circunstâncias, pensámos que os riscos de cobrir os acontecimentos eram justificados pela importância da região e pelo que está a acontecer em Timor-Leste e pelo nosso desejo em dar aos leitores o melhor relato possível.

Mas tudo correu tragicamente mal. A esperança de que a Interfet poria um ponto final nas mortes brutais das últimas semanas revelou-se demasiado optimista. Timor-Leste ainda tem de ser libertado do terror das milícias indonésias.

Como resultado, perdemos um colega com um grande faro jornalístico e grande iniciativa, um homem inteligente com muito potencial e alguém que fez um extraordinário trabalho na cobertura da crise.

Nós lamentamos, e agradecemos a todas as pessoas do mundo inteiro que enviaram as condolências aos seus amigos e familiares.

Não é normal para um repórter do Financial Times estar no centro da acção e na linha da frente. Os nossos leitores procuram mais os julgamentos e as análises do que relatos coloridos de conflitos violentos. Mas os bons jornalistas não podem formar uma opinião sobre o mundo a partir das imagens da CNN no conforto do seu quarto de hotel. Sander Thoenes era um excelente correspondente. Tinha uma grande determinação para chegar ao coração da história e relatá-la com discernimento e autoridade. A sua morte é uma terrível perda.

As empresas de comunicação social podem tentar minimizar os riscos, mas não podem eliminá-los. As pessoas que vivem na segurança e conforto do mundo desenvolvido não podem fechar os olhos e as mentes aos horrores dos pontos críticos do globo, e acontecimentos como este lembram da maneira mais chocante o que aí se passa.’

"Um sentimento de perda muito pessoal", copyright Público, 24/9/99

 

L. A.

Em Díli

"Ontem soube-se da morte de mais um homem em Timor Lorosae. Morreu o jornalista holandês Sander Thoenes, correspondente do Financial Times em Jacarta. A morte de um camarada de profissão, mesmo quando não o conhecemos, toca-nos sempre de uma forma mais dura e leva-nos a reflectir mais um pouco. Thoenes morreu no bairro de Becora, que todos que andamos por aqui há mais tempo conhecemos bem e onde, noutras ocasiões, outros jornalistas já foram agredidos e ameaçados de morte.

Nunca outro jornalista lá morreu porque os elementos das milícias e do exército não quiseram. Vários foram muitas vezes para lá sem conhecerem o bairro e o perigo que ele representava. Foram na ânsia de conseguir informação que faltava, a caixa, o protagonista do momento. Muitos correram perigo, mas as milícias e o exército não quiseram que nenhum fosse morto. Muitos saíram mesmo de lá sobre protecção policial. Só que agora as coisas mudaram. As milícias estão descontroladas, desesperadas, e o exército indonésio mais preocupado em se mostrar amigo da Interfet e em continuar a transportar para o porto marítimo os seus haveres e as suas famílias. Os jornalistas são cada vez mais em Díli, já vão em cerca de 300, e o descontrolo de muitos pela primeira vez que pisam o solo timorense também.

Não quer dizer que este seja o caso de Thoenes, que os seus camaradas holandeses dizem ser experiente em teatros de guerra e conhecedor da realidade timorense e indonésia, mas a verdade é que muitos jornalistas estão a fazer de Díli um circo. Trouxeram a tenda garrida, saco de cama e um colchão do último modelo, comida a rodos, mas deixaram algures no mundo o bom senso. O excesso de confiança dos comandantes da Interfet também levou muitos jornalistas a andarem em Díli como no centro de Nova Iorque, Paris ou Lisboa.

Ontem muitos dos jornalistas descobriram a realidade em Timor Lorosae. A Interfet descobriu que não chega dar protecção e comida aos que chama de seus jornalistas porque os trouxe à boleia. Ficou a saber que cada vez que morrer um homem, jornalista ou não, nos locais que diz (dizia) controlar, a responsabilidade também é sua. A realidade em Timor Lorosae descobre-se devagar, mas os comandantes das tropas das Nações Unidas tinham obrigação de saber mais qualquer coisa.

Vizinhança

Estou pela primeira vez a viver numa casa timorense. É verdade que os seus ocupantes não estão cá e que os habitantes são todos jornalistas, mas dá para saber como é viver no interior de um bairro de Díli. É bom sentir a simpatia dos vizinhos, que, mesmo no momento difícil que estão a passar, fazem questão de oferecer um frito de banana, uma garrafa de água (boa de beber), uma manga, um caloroso cumprimento sempre que nos encontram. Tenho, finalmente, corrente eléctrica para ligar o meu computador, mas, principalmente, tenho os melhores vizinhos do mundo."

"Morte", copyright Público, de Lisboa, 23/9/99

 

Paulo Anunciação

Em Londres

"Acho que chegou a altura de dar à sola e o mais rápido possível!’, disse Swain a Chip Hires, o fotógrafo que seguia com ele. Soldados indonésios tinham interceptado o automóvel, nos arredores de Díli, e começaram por esmurrar o vidro traseiro, aos gritos: ‘Morte aos australianos!’ Depois espancaram o motorista, com a coronha das metralhadoras, com tamanha violência que lhe deixaram um dos olhos dependurado como um pêndulo. Quando os militares ordenaram que saíssem do carro, Swain recusou, friamente. Um dos soldados disparou, então, nos pneus do automóvel, um após outro. ‘É agora que eles vão matar-nos’, disse Swain. Aproveitando um momento de indecisão dos indonésios, ele e os restantes ocupantes do carro conseguiram escapar para o mato.

Este incidente – ocorrido na segunda-feira em Timor-Leste e que é relatado ao Público por Robert Tyrer, director-adjunto do The Sunday Times – não surpreendeu ninguém.

Jon Swain, de 51 anos, é, provavelmente, o último dos grandes correspondentes de guerra britânicos, um veterano com três décadas de jornalismo de alto risco que lhe valeram todos os galardões da imprensa e a admiração, unânime, dos colegas. ‘Apesar do currículo impressionante, ele é um homem modesto, simples, que gosta de permanecer invisível’, diz Tyrer. ‘É um profissional com uma coragem incrível, como poucos.’

Em Abril de 1975, em Phnom Pehn, ele foi capturado pelas forças dos khmer vermelhos e condenado à morte – Swain foi salvo in extremis por Dith Pran, o intérprete que trabalhava para o The New York Times, numa acção relatada no filme The Killing Fields (‘Terra Sangrenta’). Anos mais tarde, foi igualmente capturado por guerrilheiros, na Eritreia, que o mantiveram preso durante vários meses, julgando que ele era um espião.

Swain alistou-se na Legião Estrangeira, quando era adolescente, e trabalhou como correspondente do Sunday Times no Vietname, no Camboja e em praticamente todos os grandes conflitos mundiais subsequentes. ‘Ele telefonou-nos do seu esconderijo no mato, durante a noite’, diz ainda Tyrer. ‘Estava calmo, como sempre.’

O Sunday Times contactou, então, a força multinacional em Timor-Leste, que, horas mais tarde, resgatou Swain e Hires com a ajuda de helicópteros e carros blindados. No dia seguinte, o jornalista inglês voltou ao local da emboscada, sozinho, numa motocicleta. Queria encontrar o motorista timorense que tinha ficado para trás, ferido, algures no mato. Graças a Swain, ele está agora num hospital de Darwin."

"Ele foi o repórter do filme ‘Terra Sangrenta’", copyright Público, 24/9/99

 

L. A.

Em Díli

Os que partem e os que deviam partir

"Muitos dos jornalistas que vieram para Díli nos primeiros dias da chegada da Interfet, cerca de 500 (contas por baixo), começaram a partir. As tendas nas traseiras do Hotel Mahkota são cada vez menos e as confusões nas ruas atrás dos soldados da ONU quase acabaram. Depois de a CNN ter partido, muitos foram atrás. Timor começou a sair do topo das agendas, com excepção para os australianos e para os portugueses, envolvidos directamente na questão. Mas pior do que os que partem são os que ficam e, de uma forma irresponsável, só conseguem ver Timor pelo número de mortos que vão relatando e que, depois, aos poucos e sem vergonha, vão ‘ressuscitando’, como se nada fosse com eles.

Num país marcado pela mais profunda das tragédias, este género de jornalistas só agrava o sofrimento de um povo já martirizado. Estes é que deviam ir-se embora, mas não vão.

Casa novamente invadida

Primeiro foram os bombeiros, a protecção civil e a PSP a invadirem a casa ‘ocupada’ por mim e mais cinco companheiros, há cerca de uma semana. As forças da ordem foram-se ontem embora com todo o seu equipamento, mas a tranqüilidade não durou muito. Ainda uns não tinham partido e já outros chegavam, desta vez camaradas de trabalho. A malta da comunicação social que se encontrava em Darwin chegou ontem e achou a nossa casa o máximo. ‘Tem soldados indonésios por perto? Não interessa, vamos ficar aqui todos’, disseram, mais ou menos por estas palavras. Não havia hipótese de reclamar.

A casa parece agora um centro de imprensa. Há computadores por todo lado, telefones satélite alinhados em fila no alpendre, máquinas fotográficas, salas de revelação. O que vale é que o pessoal não veio de mãos a abanar. Chegaram enlatados, sacos de massas das mais diversas qualidades, garrafas de água, sopas de todo o género, da canja ao caldo de espinafres, cigarros de todas as marcas, inclusive portuguesas. Vieram também alguns luxos: especiarias, whisky e cervejas. Os luxos só dão para um ou dois dias, mas pelo menos sempre se pode tirar a barriga de misérias. Hoje [ontem], por exemplo, o Jorge Araújo, de O Independente, o melhor cozinheiro cá da casa, vai confeccionar uma feijoada. Só temo que os nossos estômagos estranhem este fartote. Daqui a uns dias, os recém-chegados vão provar outros manjares: arroz com arroz e uns bocadinhos de carne enlatada e, para variar, massa com massa, com uns bocadinhos de carne enlatada. Bem bom...

Fruta e pouco mais

Arroz, mangas, papaias, bananas, tomates, alguns legumes e muito poucas galinhas. Estes são os únicos bens alimentares que se começam a comercializar nas ruas de Díli, principalmente junto ao porto marítimo, o local da cidade onde hoje se concentra quase todo o negócio na capital de Timor Lorosae.

A maior parte dos compradores são jornalistas, membros de organizações não governamentais e de instituições humanitárias. Uma saca de 50 quilos de arroz pode chegar a 150 mil rupias (cerca de três mil escudos); meia dúzia de tomates a dez mil rupias (cerca de 200 escudos), uma manga a mil rupias ou uma papaia ao dobro do preço. Tudo preços que a maioria dos timorenses que se encontram em Díli não pode pagar, até porque, para muitos, o dinheiro há muito acabou.

Mais sorte têm os timorenses que têm um carro ou uma moto para alugar aos jornalistas. Nos dias que se seguiram à chegada da Interfet, os poucos que tinham veículos para alugar nem queriam ouvir falar em rupias. O negócio era feito em dólares americanos (muitos nem dólares australianos queriam). Um carro em bom estado e com gasolina não custava menos de 100 dólares por dia, uma moto sem condutor era conseguida a um bom preço se pelo mesmo valor por semana.

Mas este negócio tendeu a cair nos últimos dois dias. Há muitos jornalistas, cada vez mais, a deixarem o território e os carros e as motos, que eram quase impossíveis de arranjar, começam a ter mais oferta que procura. Hoje já se consegue um carro por 200 mil rupias por dia e uma moto por 50 mil."

"Diário de um jornalista", copyright Público, 28/9/99

 

CARTAS
Jornalista = morte

Meu nome é Marco Chiaretti, sou brasileiro, jornalista há 15 anos e atualmente vivo em Nova York. Li o artigo a respeito da saída dos jornalistas de Díli. Posso atrever-me a uma tentativa de resposta?

Já há alguns anos tenho a impressão de que ter a palavra "Press" escrita em vermelho sobre o corpo transforma a pessoa em alvo. Suspeito que para as milícias genocidas de Timor (e seus colegas do exército indonésio) ser jornalista implica automática sentença de morte. Para piorar, há uma xenofobia evidente. Jornalista = morte; estrangeiro = morte; jornalista *e* estrangeiro = morte.

A autora cita dois casos (ou melhor, dois casos registrados em filme), o de Arnett/Gibson na Indonésia anos 60, e o do Camboja. Nos dois casos, a condição de estrangeiro sobrepõe-se à de jornalista (nos dois filmes, seus assistentes locais pagam caro sua relação com a imprensa estrangeira).

Jornalistas brancos tinham a ilusão do "corpo fechado", basicamente porque acreditavam (ilusão imperial, talvez) que seus governos não permitiriam suas mortes impunemente (ou não foi a morte de um jornalista americano, fotografada, que ajudou na derrubada da ditadura somosista?). É isso. Um abraço,

Marco Chiaretti

Trincheira possível

Quero cumprimentar a autora da matéria relativa ao abandono de Timor pela mídia. Mas que ela não se sinta em falta com a humanidade, pois faz o que sua trincheira permite.

Ana Lúcia Amaral, procuradora regional da República

Fazendo links

Muito boas as matérias sobre Timor. Criei links para elas no Café Impresso <www.cafeimpresso.com.br>.

Antonio Cetano

Uma voz brasileira

Quero dizer a Marinilda Carvalho que li com muita atenção e com muito interesse seu belo artigo sobre Timor Lorosae, "A mídia deixou o palco". É uma voz brasileira importante no panorama caótico da notícia referente ao holocausto de Timor Leste. O artigo redime certa ausência da mídia brasileira nesta fase cruenta da vida dos timorenses que iniciaram uma etapa significativa da vida política rumo à independência.

Ao publicar seu trabalho, o Observatório da Imprensa prestou grande homenagem ao sacrificado povo de Timor. Ao mesmo tempo, levantou uma voz de alarme e de angústia para o mundo livre na hora em que a Unamet estava decidindo deixar Díli, invocando não ter condições mínimas de permancer ali. Com a Unamet estavam ainda alguns jornalistas e todos se interrogavam sobre o que iria acontecer no território após a partida dos representantes da ONU e o grupo de jornalistas que ainda conseguiam manter contato com suas agências ou órgãos da mídia e que eram, no fundo, testemunhas vivas num panorama de desolação. Não se sabia, a partir dali quem testemunharia a caçada de extermínio que as milícias faziam sobre as populações indefesas. Ao se prepararem para sair, os jornalistas previam a continuação de um massacre sem testemunhas.

Graças porém ao alerta da mídia, o massacre não ficou sem testemunhas. Ainda houve possibilidade de se registrarem imagens de genocídio torpe, enviadas para todos os cantos do mundo. Graças a isso, a consciência internacional foi tornando sua a causa de Timor. De um lado, as manifestações populares antigenocídio, os protestos, as manifestações em todo o mundo, sobretudo em Portugal e países da Europa e, parece, mais timidamente no Brasil.

De outro lado, o trabalho competente de Ramos-Horta e dos diplomatas junto à ONU, e finalmente a mobilização internacional a partir das Nações Unidas, da tomada de posição dos EUA e de Clinton, da atitude da vizinha Austrália, que conseguiram, embora com atraso, organizar uma primeira força multinacional que está agora no território. É uma primeira fase, há uma esperança, mas os profissionais da mídia já contam baixas após a entrada das primeiras tropas multinacionais. Lamentável. Isso mostra que a presença dos representantes da violência, da selvajaria e do genocídio ainda não foi calada.

À margem deste comentário que me permito fazer, como brasileiro lamento basicamente duas coisas em relação a Timor. Primeiramente, a nível de grupos e de voz das ruas, lamento a pouca repercussão que teve o drama de Timor no Brasil. Um país com 165 milhões de habitantes e com uma mídia ativa não conseguiu mobilizar, como seria natural que mobilizasse, a opinião pública sobre o que estava ocorrendo em Timor. Acho que faltaram informações geográficas, históricas, culturais, como primeira mensagem. Em seguida, faltou a cobertura mais detalhada dos acontecimentos, como foi feita, por exemplo, pela CNN, pela Reuters, pela RTPi, pela TV espanhola. Me parece que o Brasil não mandou repórteres para Timor (ou mandou?).

Dá a impressão que as notícias que ouvimos são todas de agências. Todos sabemos como um repórter mobiliza a notícia com vigor e eficiência. Uma fala direta e uma imagem quente levam o ouvinte a se associar, a acompanhar...

Não sei se exagero, me corrijam se estiver errado, mas achei pífia a contribuição brasileira na constituição das forças de segurança e de paz. ao decidir pelo envio apenas de 51 policiais do Exército. É pouco pelo que o país representa na economia mundial, na história política e geográfica e no seio da Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa. Me parece que o Brasil teria que comandar esse processo de solidariedade e aproximação com Timor. Para isso, teria de haver outro tipo de decisão, seja da parte do Congresso seja da parte do governo. A gente raciocina e comenta: se a Itália manda 600 homens, e não tem razões aparentes, a não ser político-democráticas, humanitárias e de país livre, o Brasil teria outras razões de proximidade.

Por essas boas razões o Brasil teria que mandar no mínimo uns 500 homens, uma força representativa, 1.000 homens, talvez. Há "boas razões" para isso.

1. A democracia brasileira se indignando contra a barbárie o genocídio.

2. O Brasil lutando contra o massacre, a impunidade das milícias e a indisfarçável cobertura do exército indonésio às ações torpes das milícias.

3. A solidariedade humana do Brasil e sobretudo a solidariedade para com um povo irmão de Língua Portuguesa.

4. Razões humanitárias globais, que crianças e mulheres e civis indefesos são mortos e massacrados porque são a favor da liberdade de opinião e da independência. Ao contrário do que desejaríamos, apareceu uma mídia falada tímida e sem muitas informações, a que faltaram imagens quentes e estatísticas da violência. A imprensa falada, aquela que tem mais responsabilidade imediata junto à grande massa e que mais concorre para a mobilizacao popular. Fazem falta repórteres brasileiros em Díli, Baucau e Meliana. Notícia ao vivo colhida por brasileiros, com as próprias imagens selecionadas da crônica vivida. Vamos continuar a lutar pela informação e a favor de Timor.

Por isto tudo o artigo ganhou relevo. Pelo valor em si e pelas falhas da "outra" imprensa brasileira, que tem sido pouco agressiva na questão de Timor. Faço votos por que continuem "observando" atentamente as causas democráticas, humanitárias e justas do Brasil e do mundo. Com uma equipe dessas, do nível que vocês têm, com Alberto Dines no comando, esse Observatório continuará a trazer, com muita competência, grandes motivos para prender o leitor.

João Ferreira

Inexplicável debandada

Outra matéria que merecia ir para os murais das faculdades de Jornalismo desse Brasil. Refiro-me à matéria de Marinilda Carvalho no O.I. de 20 de setembro, "A mídia deixou o palco", em A Imprensa em Questão, sobre a inexplicável debandada dos jornalistas do Timor. Ah, se todos fossem assim, a mídia não estaria tão desacreditada.

José Rosa Filho

 

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