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TIMOR LOROSAE
TIMOR VIVE
Onde também se fala português
Renato Monteiro Kloss
Mais uma vez as porandubas históricas não corresponderam ao meu ousio. Apoiei a refrega pela emancipação do Timor Leste quando uma amiga, que nasceu em Luziânia, interior de Goiás, e hoje mora em São Paulo, enviou-me gentilmente um e-mail pedindo para que eu me solidarizasse com a consternação daquele povo ímpio.
A partir daquele átimo, passei então a acompanhar o quotidiano internacional bem como o que ocorria por aquelas bandas. Comecei a sintonizar a RTPi, a ler vários diários portugueses na Internet, a escutar rádios estrangeiras e procurei me atualizar sobre o que acontecia por lá e por todo planeta. Até porque a língua que se falava no local era o português, e a independência do pequenino país ampliaria as relações diplomáticas com os países circunvizinhos e, especialmente, com o Brasil e com Portugal.
Descubro, agora, que a nova geração timorense - exatamente aquela que vai fincar suas ambições e diretrizes num repenique de desgostos para edificar o novel país - quase não fala o idioma português. As línguas mais freqüentes naquela plaga são o inglês e o malaio.
Descobri isso por meio da imprensa lusa, e não carijó. A ralé brasileira simplesmente desistiu de ter uma visão abrasileirada dos episódios internacionais. Alega ter problemas financeiros, estar em crise. Uma vez que mandamos nossos bravios soldados para auxiliar as tropas australianas e que houve todo esse auê carnavalesco pela independência, valeria a pena algum agente brasileiro passar por Timor e nos descrever o drama do nascimento de uma nação que tem a dimensão de um grão de feijão e não tem idioma oficial.
Isso é grave, gravíssimo. Não se constrói uma nação sem adotar uma língua-mãe, sem dar educação ao povo e sem se investir pesadamente em cultura. Tem-se primeiramente que planificar bem os passos antes de executá-los. Não se pode fazer tudo aos atropelos, atabalhoadamente.
Enigma imperioso
Isso sem falarmos na manutenção da terra, que resulta em geração de empregos e produtividade; nos arrendamentos patrimoniais, que evidenciam comodidade e bem-estar social ao populacho; e na famosíssima e malfadada política de distribuição de renda que os governantes têm que fazer em suas administrações - mas que, cá no Brasil, como sempre, faz-se inadequadamente.
Os portugueses estão enviando professores para aquele distante arquipélago do Índico. Assisti, recentemente, a uma fervente altercação na televisão na qual um dos entrevistados questionava ferrenhamente essa ação de mandar mestres ao Timor. O argumento era: se a dinâmica geral da sociedade timorense não se orientar para o idioma lusitano, pouco ou nada poderá fazer um diminuto grupo de docentes para alterar o rumo das coisas.
A Austrália está mais próxima geograficamente do Timor do que Portugal - e, outrossim, do que o Brasil. Na terra dos cangurus, fala-se o inglês fluente, mas crê-se piamente que os australianos terão mais dificuldades para orquestrar o regimento, pois os timorenses raciocinam e falam em malaio.
Gostaria de saber como os brasileiros equacionarão esse imperioso enigma. Nós não vivenciamos a catástrofe timorense, nem nos interessamos pelo processo de reconstrução daquela casta. A indiferença tupiniquim frente ao que ocorre em Timor, se se parar para pensar, pode ser sabiamente entendida se pintarmos um quadro que disponibilize um projeto lingüístico auto-eficiente que até então se mostra inviável. Mas, agora, a vaca já foi para o brejo.
Falta olhar crítico
Remetemos um mutirão de diplomatas para aquelas ilhotas do Oceano Índico para preservar a paz, e precisamos dar uma resposta aos distúrbios do retalhamento consonantal. Não simplesmente para dizer que nos enganamos de porta, pedir escusas e cruzar os braços. No momento, é áspero falar sobre isso no Brasil. Soa como "acting-out" (ação ou gesto que toma o lugar da palavra ou expressão e dá vazão a descalabros e escabrosidades). Porém, sou uma das poucas "abelhas diligentes" que apostam num investimento maciço da mídia para dar sustentação aos episódios ultramarinos que se disseminam pelo universo.
Temos milhões de estudantes que poderiam formar potencialmente uma classe de leitores que fosse auto-suficiente para viabilizar uma espécie de consórcio transobjetivo, e assim observar o planeta com os próprios olhos. Tem-se que se criar uma ótica abrasileirada das notícias no exterior. Urgente.
O que está se passando no Irã, onde os reformistas do Islã obtiveram uma vitória esmagadora nas últimas eleições presidenciais, merecia cobertura mais ampla por parte da mídia nacional. Jornais e TVs do Brasil deveriam ter mandado correspondentes para lá, mas se resumiram a noticiar tergiversações e enfiteuses das agências internacionais. No Irã houve gente que se elegeu da cadeia. Isso revela a força da maré reformadora naquele país, e certamente tem grande repercussão em todo o Oriente Médio. O islamismo atemoriza e gera uma pá de conflitos étnicos entre as culturas.
A TV brasileira produz ótimos documentários. Entretanto, é cada dia mais difícil encontrar um observador atento da mídia internacional. Não se acha com tanta facilidade no mercado jornalístico alguém que tenha vivência externa e tenha um olhar crítico, didático e abrasileirado do que se passa no exterior. Tais exemplos, hoje em dia, constituem raridade. Vide como modelos Lucas Mendes, Clóvis Rossi, Newton Carlos e Alberto Dines. Só para citar alguns experts. Tem também Nahum Sirotsky, jornalista gaúcho que mora em Israel e é muito bom.
Abobrinhas e arbitrariedades
As imagens que nos chegam são de agências internacionais. Os apresentadores falam de Londres, Nova York, Paris. Dos grandes centros urbanos, das grandes metrópoles. É nelas que nossa atenção está fixada. Pessoalmente, não posso me queixar. Tenho acesso a uma vasta gama de informações. Não consigo processar tudo que chega a minhas mãos e a meus ouvidos. Não consigo absorver tudo que leio, ouço ou vejo. Tenho que selecionar as informações que me interessam cada vez com mais rigor. Tenho que ser cada dia mais criterioso no processo de joieiramento das notícias, ser um autodidata por excelência. O que às vezes me interessa não necessariamente interessará a meu semelhante. Leio diversos jornais, ouço várias rádios e assisto a quase todos os telejornais, mas acho todos eles iguais. O noticiário não se altera. É sempre a mesma ladainha. Os noticiários são geneticamente idênticos. É difícil apontar um que se destaque mais do que o outro.
O jornalismo impresso perdeu seus referenciais de serviço público, tornou-se em sua essência um servo da política e da economia. Ficou chato e, na maioria das vezes, parcial e interesseiro. O jornalismo informático está arrebatando profissionais com alto salário e pequenas pretensões. Na telinha do computador nunca se sabe o que é sério ou leviano. Nunca se sabe o que foi investigado ou simplesmente chutado.
O jornalismo virtual é uma incógnita. Não atinge o grande público, não comove. Se Zola tivesse escrito J’accuse em sistema online, o capitão Dreyfus ainda estaria confinado à Ilha do Diabo.
Uma pizza encomendada pela Internet chega mais depressa do que a pedida por telefone? É mais apetitosa? Ou é uma pizza virtual, com sabor de chip e modem?
Acho legal assistir ao Observatório da Imprensa. Também gosto de consultar sua versão na Internet. Acho a mídia brasileira conservadora, sensacionalista. Ela argumenta certas abobrinhas e arbitrariedades de forma provinciana e popular. Sou contra este cartapácio estomáquico. A saída que vejo para o impasse é: aumentar o potencial econômico da mídia. Há grandes repórteres no Brasil, mas suas habilidades, seus bojos estão por demais limitados. Tudo por causa da escassez de capital. O capital estrangeiro deve adentrar a mídia brasileira, mas apenas parcialmente. Não deve sobrepujá-lo. Se quiserem fazer um programa de música belga no lugar de um programa de MPB, a audiência certamente declinará.
Preocupações mesquinhas
Acho a competitividade dos meios de comunicação extremamente salutar. Ela abre novas fronteiras. Dá-nos igualmente um alento para que construamos um mundo melhor e tenhamos uma visão analítica e com contornos bilaterais (indelevelmente abrasileirados) das informações que nos são repassadas pelos notícipes. Mas tem-se que se pensar muito bem no que se almeja para a sociedade brasileira atual para só então dar tal passo. Ele pode ser decisivo. Temos que fazer as coisas com dinamismo, de forma progressiva e impor certas restrições ao mercado midiático antes da derradeira resolução.
Se um líder negro discursa em português no parlamento de Angola, ele será reportado em inglês pela CNN, e o que disser será retraduzido para o português quando a reportagem dele for mostrada aqui no Brasil. Acho isso um descaso, um desaforo. A língua portuguesa não é um cordeirinho pronto para ser deglutido pelo lobo mau.
O mundo é pequeno e dá voltas. Além disso, está repleto de agruras e miséria. Há que se conviver também com aquela praga chamada desemprego. E ainda tem gente que se preocupa exclusivamente com amor-próprio, grana e poder.
ASPAS
Público
"ONU apressa eleições", copyright Público, 17/3/00
"O responsável da Administração Transitória da ONU em Timor-Leste (UNTAET) defende a realização de eleições democráticas no território durante o próximo ano e sob supervisão das Nações Unidas. ‘Estou seguro de que as eleições se realizarão provavelmente em meados do ano 2001’, afirmou Sérgio Vieira de Mello, numa entrevista ontem publicada no jornal australiano ‘The Age’.
O atual administrador da ONU recordou, no entanto, que Timor-Leste se encontra sob o estado de emergência, pelo que não se deve enveredar já pela batalha política. ‘Preferia não politizar o ambiente, para não distrair a nossa atenção e os esforços da construção de uma nova administração neste país’, acrescentou. No início do próximo ano, começa a segunda fase do processo de transição, que inclui a redação de uma constituição, o estabelecimento das normas que regularão a formação de partidos políticos e a elaboração de uma lei eleitoral. Sérgio Vieira de Mello defende que uma consulta popular sobre o caráter da Constituição de Timor-Leste se poderia realizar depois do congresso que o Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT) tem previsto para Agosto.
Na próxima semana, o responsável máximo da UNTAET determinará a entrada em vigor do regulamento que estabelece a comissão do funcionalismo público, responsável pela criação de sete mil novos postos de trabalho. No dia 27 deste mês, iniciar-se-á também o programa de formação da ONU para os novos polícias timorenses, para o qual existem 12.500 candidaturas. Vieira de Mello disse ainda na entrevista que a situação no enclave timorense de Oecussi, situado na parte indonésia da ilha de Timor, se encontra estável desde a detenção do líder da milícia local, Moko Soares, embora se tenham registado algumas escaramuças com grupos paramilitares pró-indonésios junto à fronteira.
O administrador das Nações Unidas classificou de frustrantes os avanços em matéria de segurança por parte da Indonésia, apesar das promessas feitas pelo Presidente Abdurahman Wahid, que visitou o território há duas semanas. Acrescentou ainda que membros da UNTAET se reuniram com representantes do CNRT na passada segunda-feira, para falar sobre o futuro de um milhar de guerrilheiros independentistas das Falintil. Reconheceu que a situação em que se encontram acantonados na vila de Aileu é ‘horrível’ e prometeu ajuda imediata da ONU para melhorar a sua alimentação e o sistema sanitário do local.
Por outro lado, o dirigente do CNRT e Nobel da Paz José Ramos-Horta defendeu a criação de uma pequena força de segurança de timorenses bem armados e propôs a revisão do mandato da UNTAET para poder atribuir-se esse papel às Falintil."
Público
"Demissões na UNTAET", copyright Público, 14/3/00
"O responsável da administração distrital da ONU em Timor-Leste, Jarat Chopra, demitiu-se, acusando elementos das Nações Unidas de práticas ‘estalinistas’ e ‘colonialistas’. É a segunda demissão num mês de um elemento sénior da organização, depois da de Eugénio de Aragão, diretor de assuntos jurídicos do Departamento de Governo e Administração Pública da UNTAET que disse partir de Timor-Leste ‘frustrado e insatisfeito’ com as grandes dificuldades que encontrou.
A carta de demissão, datada de 6 de Março, confirma as fortes críticas que Chopra teceu a alguns elementos da administração da ONU, que considera estarem a ‘pôr em risco’ a missão das Nações Unidas em Timor-Leste. O signatário sugere mesmo que as práticas que a Organização tem vindo a adotar em Timor-Leste não apostam no desenvolvimento das capacidades de administração dos timorenses, que ficarão sem possibilidades de autogoverno depois do fim do período da transição. ‘A UNTAET deveria marcar uma data para a independência, organizar eleições e permanecer em Timor-Leste para desenvolver a capacidade [dos timorenses] a longo prazo’, escreve Chopra.
‘Não acredito que estejamos preparados para fazer isso. Sem um calendário significativo e passos metódicos para a transferência de poder, esta missão vai vaguear, organizar eleições no próximo ano e deixar os timorenses sem qualquer capacidade construída’, considera. ‘Estaremos a replicar as descolonizações do dia para a noite, das décadas passadas’, acrescenta.
Solicitado a comentar a demissão, Manoel de Almeida e Silva, porta-voz da administração transitória da ONU (UNTAET), desvalorizou os comentários de Chopra como ‘puramente pessoais’: ‘ É uma opinião pessoal. Ele tem o direito de ter a opinião dele. Não concordamos, consideramos inadequado e lamentamos que uma carta interna tenha sido distribuída externamente.’
Grande parte das críticas de Chopra relacionam-se com o programa de reforço comunitário que está a ser desenvolvido pelo Banco Mundial e que pretende, acima de tudo, permitir que grupos comunitários timorenses determinem as suas prioridades de reconstrução. O programa do Banco Mundial, que deverá começar a ser aplicado este mês no distrito de Manatuto, prevê eleições a nível local, para determinar as chefias comunitárias que terão capacidade para aprovar os projetos de desenvolvimento a propor. Foi assinado no final de Fevereiro durante a visita a Timor- Leste do presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, que considerou que a iniciativa se centra em entregar ‘todas as decisões à própria comunidade’.
Com um orçamento de cerca de 21 milhões de dólares durante dois anos e meio, o projecto é especialmente significativo, sendo o primeiro aprovado pelo Banco Mundial para Timor-Leste. Estabelece que até ao final de Março sejam eleitos órgãos comunitários ao nível subdistrital, com cada concelho de freguesia a incluir um homem e uma mulher de cada aldeia, e cada concelho subdistrital a incluir um homem e uma mulher de cada concelho de freguesia.
O programa já foi, no entanto, criticado por alguns elementos da ONU, que não aceitam o modelo de eleições democráticas, preferindo outra terminologia para a escolha das chefias locais. Chopra, que defende a iniciativa, terá ‘entrado em conflito’ com Jesudas Bell, o responsável da administração territorial, que se opõe a algumas particularidades do programa."
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