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TIMOR LOROSAE
Eric Brücher Camara
"Díli – Um grupo de timorenses enviou um S.O.S ao Brasil. O fato de Timor ter poucos professores, escolas e universidades arruinadas levou 40 jovens de Díli a pedir socorro ao maior país lusófono do mundo. A idéia é estabelecer um intercâmbio de profissionais brasileiros das áreas agrícola, de educação e saúde para ajudar os timorenses na reconstrução do país. A proposta surgiu nas reuniões do coral jovem da Paróquia de Balide, bairro de Díli.
– Precisamos de voluntários para, principalmente, ensinar as crianças a falar português. Temos de investir no nosso futuro. Nós, jovens, temos dificuldade de comunicação com os estrangeiros porque só falamos tetum – disse a estudante Cacilda Lobato.
Durante mais de 24 anos de ocupação indonésia, o ensino em escolas e universidades ficou quase que exclusivamente em mãos dos invasores. Só nos níveis pré-escolar e primário se aceitavam professores timorenses. Com o referendo de 30 de agosto, os professores voltaram às suas regiões de origem. Agricultura e saúde enfrentam situação parecida.
– Além de ajuda na área agrícola, essencial para a nossa sobrevivência, precisamos de médicos que falem português – avaliou Angelina Lopes, que estudava ciências agrícolas antes de a universidade ser destruída.
O pedido de socorro ao Brasil e à comunidade internacional veio nas respostas a perguntas feitas pelo padre Salvador Ferrão aos 40 integrantes do coro Santa Cecília. Uma das maiores preocupações dos jovens é a atividade das violentas milícias pró-Indonésia.
– As informações dos padres refugiados em Kupang (capital do Timor Oeste) dão conta de que as milícias estão na fronteira prontas para atacar. Eles agora querem ser guerrilheiros – afirmou Paulo Pereira, maestro do coro.
O medo cresce à noite. De acordo com Francisco Assis, alguns milicianos ainda estão em Díli e ameaçam invadir as casas para se vingarem, protegidos pela escuridão. Contribuem para o clima de apreensão histórias como a de João Cortes Real, que no dia 5 de setembro foi levado por milicianos a um posto policial. Ele só escapou graças a um homem idoso, que distraiu o vigia para que fugisse.
Na resposta do grupo à pergunta sobre o que pensavam neste momento de tensão, está a síntese do sentimento geral entre os timorenses: no texto, eles agradecem a Deus por estarem vivos, mas têm dúvidas sobre o futuro: ‘Se a guerra continuar, o que acontecerá conosco?’
"Jovens do Timor fazem apelo ao Brasil", copyright O Globo, 16/10/99
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"DÍLI. O conselho político-militar das Forças Armadas para a Libertação Nacional de Timor Leste (Falintil) divulgou ontem um apelo à população para evitar nova onda de saques e furtos. A principal preocupação é conter uma possível explosão de violência, a exemplo da guerra civil que aconteceu em 1975 após a retirada portuguesa e que serviu de pretexto para a invasão indonésia. O documento foi distribuído entre os líderes comunitários e tribais de todo o país.
– Qualquer apelo para manter a lei e a ordem é bem-vindo – disse David Winhurst, porta-voz da Unamet, a missão da ONU no Timor Leste.
As Falintil procuraram preencher o que o bispo Carlos Ximenes Belo classificou de ‘vácuo administrativo’. Desde a debandada dos indonésios, na primeira semana de setembro, não há polícia nem serviços básicos no país. Na última semana, cresceu o número de saques e roubos. O efetivo policial da ONU deve receber reforços em breve para tentar controlar a situação.
O documento pede, ainda, que o povo não faça justiça com as próprias mãos contra milicianos e suas famílias e alerta os timorenses para que só voltem às cidades depois que a situação estiver controlada pela Interfet.(E.B.C.)"
"Falintil pede o fim da violência", copyright O Globo, 16/10/99
Público
"‘Há dificuldades de comunicação.’ Foi assim que Leandro Isaac, coordenador do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT) em Timor-Leste, resumiu a confusão, que não podia ser maior, entre os dirigentes do Conselho que ontem partiram de Díli para uma reunião da direcção em Darwin.
O próprio Isaac admite não permancer em Darwin mais que dois dias, embora a reunião tenha uma duração prevista de cinco a seis dias. ‘Os outros dias são para os técnicos, eu sou político’, afirmou. Quem não vai estar na reunião é o porta-voz do Conselho em Díli, Manuel Carrascalão. ‘Não vou perder tempo’, declarou ele à agência Lusa, antes de partir para Darwin, de onde seguirá para Lisboa, onde vai buscar familiares para os levar de regresso à Austrália.
Manuel Carrascalão não poupa as críticas aos seus pares na CNRT, que não quis nomear, embora acuse ‘duas ou três senhoras’ que ‘controlam’ Xanana Gusmão, numa alusão às assessoras do líder histórico da resistência timorense. ‘O presidente está mais preso do que quando estava na cadeia (na Indonésia). Lá, pelo menos, nós ligávamos para os guardas indonésios e eles deixavam-nos falar com ele’, afirmou Carrascalão.
Segundo este dirigente do CNRT, no Conselho ‘há uns que são donos e outros que são empregados’. E acusa os membros da equipa que apoia Xanana de serem ‘mais comunistas que os comunistas’. ‘São piores que no tempo de Salazar. Nessa altura, eu falava com o secretário (do ditador) e ele deixava-me entrar para falar com ele’, sublinhou.
Há 24 anos, muitos dos membros do CNRT que vão reunir-se hoje em Darwin para decidirem em conjunto o futuro de Timor-Leste estavam em lados opostos da barricada, pertencendo uns à Fretilin e outros à UDT. A luta fratricida que provocou milhares de mortos e deu à Indonésia o pretexto para invadir o território, afirma a Lusa."
"Discórdia reina entre dirigentes", copyright Público, 16/10/99
João Pedro Henriques
"Díli – 1. A irmã Margarida tem andado um pouco triste. Provavelmente não tanto como no tempo em que foi dada como morta, mas triste à mesma. É ela quem comanda o pelotão que cuida dos confortos de D. Ximenes Belo, as cozinheiras, as lavadeiras, o motorista, etc. É que o bispo chegou e isso implicou a evacuação de todos os jornalistas que estavam, mais ou menos acampados, nos anexos da sua residência. Margarida sentia-se segura. E como é conversadora, tinha ali à mão de semear muita gente como ela. Esforçou-se para que os jornalistas não se sentissem obrigados a ir-se embora. Mas em vão.
2. A missão governamental portuguesa de apoio humanitário Timor 99 contratou um assessor de imprensa, Manuel Lage, que também está encarregado de montar, com a RDP, uma rádio luso-timorense no território. Agora sim, vai-se acabar a ‘bad press’ para a missão. Outro galo cantará. Vai tudo correr às mil maravilhas. O pessoal médico vai deixar de se queixar de que esta é uma missão de bombeiros. Mais vale tarde do que nunca. Na Timor 99 tem sido este o princípio orientador de todas as acções.
3. Abriu um um minimercado em Díli. É na UNAMET. Vende coisas confortáveis, como doces e bolachas, e também o tabaquinho, que é o combustível de muita gente aqui, sobretudo dos jornalistas. Ontem, para grande irritação de quem assina estas linhas, a loja estava fechada e deveria estar aberta, apesar de ser fim-de-semana. Começa de novo o folhetim da falta de cigarros.
4. A barreira montada pelos ‘gurkhas’ a cerca de cem metros da UNAMET recuou até à porta do ‘compound’. É bom sinal. Mas os ‘gurkhas’ complicam a entrada dos jornalistas. Resumindo: entra-se pelo edifício ao lado e depois, por uma porta interior, chega-se à UNAMET. Já se escreveu neste jornal que os ‘gurkhas’ são simpáticos e até há portugueses que mimosamente lhes chamam ‘gurquinhas’. Mas parecem estar a incorporar comportamentos burocráticos bem à portuguesa."
"Bilhetes de Timor" , copyright Público, 16/10/99
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"Reconstruir Díli vai durar pelo menos dez anos. O problema não são só os edifícios incendiados e o saneamento básico muito danificado. É mais grave que isso: a administração pública perdeu todos os seus quadros dirigentes. A maior parte eram indonésios (que fugiram) e os próprios (poucos) timorenses que ocupavam funções de chefia também desapareceram. Formar uma classe dirigente é tarefa para alguns anos.
Em Díli já se constituiu um Comité de Reconstrução. Simon Hermes, um australiano de 43 anos que pertence ao ‘staff’ político da UNAMET, é quem preside a este comité. Na verdade, segundo ele explica, o Comité de Reconstrução é o embrião da entidade das Nações Unidas que vai substituir a UNAMET, e que se chamará UNTAET (sigla, em inglês, de Autoridade das Nações Unidas para a Transição em Timor-Leste). E é do responsável australiano a estimativa de que a reconstrução demorará dez anos, assim como a constatação de que Timor deixou de ter quadros dirigentes na administração pública e conta apenas, ainda, com pessoal operário.
Por enquanto, o comité está apenas a iniciar a sua missão. Tem pela frente tarefas hercúleas, como desencorajar a pilhagem das propriedades públicas e privadas, inventariar os edifícios destruídos (e, por consequência, os intactos), resolver as disputas de propriedade, problema, por sinal, bem espinhoso, de que ainda se vai falar muito.
A prioridade agora é ir ocupando os edifícios públicos não destruídos. Há milhares de agentes humanitários em Díli, quer das Nações Unidas quer das organizações não governamentais, que o podem fazer. Até ao momento, eles têm-se simplesmente instalado - de uma forma mais ou menos selvagem ou, melhor, completamente selvagem - em edifícios devolutos, embora também, em muitos casos, simpaticamente emprestados pela Igreja."
"Díli vai demorar dez anos a voltar a ser Díli", copyright Público, 16/10/99
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"A ONU enfrenta problemas financeiros com a Administração Transitória das Nações Unidas em Timor Leste (UNTAET), que precisará de um investimento entre um bilião e 1,7 biliões de dólares (190 a 320 milhões de contos). A afirmação partiu de Joseph Connor, o responsável pelos assuntos financeiros da ONU, citado pela agência oficial indonésia Antara, informou ontem a agência Lusa. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, por sua vez, calcula que a UNTAET irá custar mais de um bilião de dólares, numa altura em que está a ser difícil conseguir o financiamento da administração civil no Kosovo, após os bombardeamentos da NATO. ‘Nunca imaginei que este ano a ONU tivesse que financiar as operações no Kosovo e em Timor-Leste, isto quando, num futuro próximo, vamos ter que reunir fundos para as novas operações na Serra Leoa e no Congo’, afirmou Kofi Annan. Ontem, os 15 países da União Europeia chegaram a acordo sobre o mecanismo que levará à aprovação de um apoio suplementar à UNAMET, correspondente a 20 por cento do montante pedido pela ONU para cobrir o prolongamento até 30 de Novembro do mandato daquela força.
Petróleo timorense em negociação
A Austrália já iniciou com Timor-Leste as discussões para a transição do acordo petrolífero ‘Timor Gap’, que fizera com a Indonésia, anunciou o ministro australiano dos Negócios Estrangeiros, Alexander Downer. O ministro, falando no Parlamento, em Camberra, disse que a transferência estratégica do acordo para os timorenses se iniciou após a vitória da independência no referendo de 30 de Agosto, envolvendo a ONU e representantes de Timor-Leste. O vice-presidente da FRETILIN, Mari Alkatiri, disse também na Austrália que pretende negociar o acordo ‘Timor Gap’.
Parlamento indonésio adia ratificação
Persistem as dúvidas quanto à data em que a recentemente formada assembleia nacional indonésia tenciona debater a ratificação dos resultados do referendo timorense, abrindo caminho à anulação do decreto que anexou Timor-Leste como a 27ª província indonésia. Yahya Zainin, porta-voz da Assembleia Consultiva Popular (MPR), a quem cabe uma decisão, disse que todo o processo poderá ser adiado até Novembro, só devendo ocorrer ‘depois de um conjunto de requisitos ser cumprido pelo novo Governo’, que será eleito no final de Outubro. Segundo Zainin, o Governo indonésio terá primeiro que conseguir que Portugal revogue a cláusula da sua constituição que considera Timor-Leste como um dos seus territórios. Se tal não acontecer, significaria, para a Indonésia, ‘que Jacarta estava a devolver Timor-Leste aos portugueses e não às Nações Unidas, como deveria acontecer’, afirmou o porta voz da MPR."
"ONU em aflições para financiar Timor", copyright Público, 13/10/99
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"Os Médicos sem Fronteiras (MSF) em Timor Lorosae estão a fazer ‘um excelente trabalho’, garantiu ontem o coordenador da equipa portuguesa dos Médicos do Mundo em Díli, Manuel de Sousa. Eram cerca de dez horas da noite quando o grupo de portugueses soube que o Prémio Nobel da Paz tinha sido atribuído aos MSF. Ficaram felizes.
‘Este prémio foi muito bom, pois é uma organização não-governamental [ONG] que o recebe e todas estão de parabéns. Desta forma chama-se a atenção para o nosso trabalho’, disse Manuel de Sousa.
Os MSF e os Médicos do Mundo têm uma estrutura semelhante. A segunda ONG nasceu, aliás, de uma cisão, em 1979, da primeira (ver texto principal). Mas diferenças e divergências são coisa do passado e, no terreno, as duas organizações trabalham em equipa. Como explica Manuel de Sousa, a sua equipa vai colaborar na grande campanha de vacinação contra o sarampo que os MSF vão iniciar na terça-feira em Díli. ‘A campanha é apoiada pela Unicef, mas são eles que a organizam.’
Em Timor, os MSF estão instalados perto do estádio de Díli. Mas percorrem o território com clínicas móveis. Exactamente como os portugueses dos Médicos do Mundo.
A equipa portuguesa é composta de três médicos: Manuel de Sousa, que trabalha no Serviço Nacional de Saúde no Seixal; Joaquim Sequeira, do Hospital de Setúbal; e Rita Carvalho, do Hospital de Santa Maria, em Lisboa. Junta-se-lhes a enfermeira Helena que, sublinha Manuel de Sousa, é ‘completamente voluntária’ apesar dos seus 60 anos, e Denise, que trata da logística. Também há Médicos do Mundo em Timor provenientes de França e de Espanha.
Os portugueses têm a sua base no bairro de Komoro, perto do aeroporto de Díli, num pequeno hospital de nome Aimudin, que em tetum significa ‘árvore branca’. É aí que atendem entre 70 e 80 doentes por dia. O hospital tem ainda uma zona de internamento e uma maternidade que, como não está ainda operacional, acolhe cinco crianças mal nutridas e que padecem também de doenças respiratórias ou de diarreia.
Problemas respiratórios, diarreia e malária, por esta ordem, são as doenças mais frequentes na zona de atendimento da equipa portuguesa, afirma o coordenador. Manuel de Sousa adianta ainda que noutras zonas da cidade ou de Timor pode ser diferente, mas garante que não se está a registar qualquer surto de uma doença específica, nem sequer de malária. ‘A malária existe nesta terra. Mas não se pode falar de surto. É possível que com o início da época das chuvas subam os números. Em Díli não é o mais frequente, mas varia de região para região’, explica.
A malária torna-se mais problemática em Lospalos, onde estes portugueses foram os primeiros médicos a chegar, com as suas clínicas móveis. Aos domingos, a equipa divide-se em duas. Uma fica na Árvore Branca, outra vai durante quatro dias para Lospalos.
Os médicos e a enfermeira portugueses começaram a trabalhar em Timor no dia 29 de Setembro. Antes, já lá estava uma pessoa da logística, mas foi obrigada a abandonar o território depois do referendo.
‘Aqui estava tudo muito destruído. O hospital era uma nuvem de mosquitos, os militares franceses vieram cá fumigar isto e agora não temos mosquitos. Mas, enquanto não melhorarem as condições de vida [o saneamento básico e a alimentação], só podemos tratar os doentes’, conta Manuel de Sousa.
A equipa diz precisar de uma ambulância e hoje mesmo um elemento parte para Darwin, na Austrália, para tratar do assunto. ‘Com a ambulância podemos dar outro tipo de assistência.’ Permitir-lhes-á, por exemplo, transferirem doentes em melhores condições, quando estes necessitem de cirurgias - que só estão a ser feitas pelos franceses - ou de radiografias. Manuel de Sousa acrescenta que a situação clínica que encontrou é ‘melhor’ do que esperava. Sobretudo no capítulo da má nutrição.
De resto, afirma que os portugueses e os outros elementos de outras ONG fazem um trabalho que os ‘enche de orgulho’. ‘Estamos sempre de serviço. Vivemos mesmo em frente do hospital. Ainda agora nos entrou por aqui uma família inteira com diarreia.’
Os Médicos do Mundo portugueses só têm uma mágoa: não podem chegar às montanhas. ‘A Interfet não faz acompanhamento. Por isso, não podemos avaliar o que se passa lá. Felizmente, o que nos chega é menos mau do que esperávamos. Mas é dramático não podermos chegar a outros lados.’"
"O trabalho ‘enche-nos de orgulho’", copyright Público, 16/10/99
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