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LUNETA GIRATÓRIA
‘Controle Público’ é ponto para a Folha
E a maioria da mídia, ao cobrir Bangu 1, fez o de sempre: cobrar sem mostrar saídas
Ricardo A. Setti (*)
1. Cidadania
e democracia – Excepcional serviço público acaba de
ser prestado pela Folha de S.Paulo com a instituição do
sítio Controle
Público – um inédito banco de dados com
6.730 registros sobre políticos brasileiros, incluindo desde informações
pessoais e especificamente eleitorais até, e principalmente, sobre seu
patrimônio declarado. O sítio pertence ao jornal, e os direitos
de divulgação ao UOL, portal de que a Folha é sócia.
Foram pesquisados candidatos a todos os cargos, de vereador e deputado estadual até a presidente da República, a partir das eleições de 1998, ficando de fora dados sobre políticos de cinco Estados, estranhamente recusados pelos Tribunais Regionais Eleitorais. Há outras lacunas, explicadas com transparência ao longo dos últimos dias pela Folha e, com detalhes, no próprio site, no link "Metodologia".
O sítio é o resultado de um duro trabalho iniciado em janeiro de 2001 – e que demorou, portanto, 20 meses para tomar forma. É incompleto, e tem limitações que tanto o jornal como o sítio deixam claras. Antes de mais nada, os dados sobre o patrimônio dos políticos são simplesmente os declarados à Justiça Eleitoral, e não necessariamente os efetivamente constantes da declaração de imposto de renda, que, por sua vez, muitas vezes não correspondem à verdade.
Ainda assim, é um precioso conjunto de dados, que colabora com a cidadania e com o fortalecimento da democracia. Vale a pena continuar investindo para que o sítio abranja, também, eleições anteriores.
2. Cobranças
e soluções – A enorme cobertura que a mídia
deu à rebelião de bandidos no presídio supostamente de
"segurança máxima" de Bangu 1, no Rio, uma vez mais
preferiu, na esmagadora maioria dos casos, apenas apontar dedos para supostos
culpados e fazer cobranças.
Poucos foram os veículos e jornalistas preocupados em ir atrás de soluções que estão dando certo em outros pontos do país. Um deles foi Luís Nassif, na Folha de sexta-feira, dia 13. Nassif mostra, em sua coluna, os "resultados notáveis em termos de custo e de reabilitação de presos" obtidos pelo governo do Paraná com a terceirização da gestão de presídios no Estado. Leitura obrigatória para quem se interessa pelo gravíssimo problema, inclusive – ou principalmente – candidatos à Presidência. [A íntegra do texto de Nassif está na rubrica Entre Aspas, desta edição do OI.]
3. Falou
e disse – Ainda sobre o assunto, cutucão irrespondível
de Villas-Bôas Corrêa, publicado na mesma sexta-feira, no Jornal
do Brasil: "Nenhum candidato [à Presidência] qualificou
a segurança como prioridade, propondo projeto avalizado pelos especialistas,
com as etapas distintas das medidas de emergência e a extirpação
das raízes, enterradas em décadas de insensibilidade e desleixo
no desfile demagógico das operações previamente anunciadas
para garantir a presença da imprensa".
4. Problema
bom – Esplêndida a série de documentários sobre
o 11 de setembro nos Estados Unidos levada ao ar pelo canal pago GNT. Sob a
direção de Letícia Muhana, o GNT é um problemaço:
se você sintoniza ali, fica difícil ver outras coisas na TV.
5. Piora,
melhora – Muito interessante e ilustrativo verificar como os quatro
jornalões do eixo Rio-São Paulo fizeram suas chamadas de primeira
página para as respectivas matérias sobre os importante dados
que o IBGE divulgou na semana passada sobre a Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios, realizada em 2001. Folha de S.Paulo: "Renda
das famílias cai pela quarta vez seguida, diz IBGE"; Estado de
S.Paulo: "Um país melhor, no último retrato do IBGE";
Jornal do Brasil: "Economia piora, índices sociais não";
Globo: "Mais educação com renda menor", com o
subtítulo "IBGE mostra que rendimento do trabalho caiu pela 5ª vez".
Para quem reclama que a Folha só destaca más notícias, sobretudo se se referem ao governo, e de que o Estadão faz exatamente o contrário, a comparação é um prato cheio. Mas fica evidente, de todo modo, a maior preocupação com equilíbrio revelada pelos dois jornais do Rio.
6. Solidão
– Chega a ser comovedor ver a solidão com que Hermano Henning,
bom jornalista, tenta fazer um trabalho sério numa emissora, como o SBT,
em que o jornalismo, quando existe, está a serviço do entretenimento
– de preferência do mau entretenimento.
7. Dois
Ciros – Quem viu a entrevista que o presidenciável Ciro Gomes
concedeu a Juca Kfouri na Rede TV! na semana passada não deve ter reconhecido
o Ciro Gomes tenso, psicologicamente derrubado do debate entre candidatos realizado
pela Record, no dia 2 passado: o candidato da Frente Trabalhista conseguiu ser
desenvolto, por vezes brincalhão e até confessional, como quando
contou a agonia do pai.
É certo que a queda nas pesquisas de intenção de voto e a forte trombada inicial com o tucano José Serra contribuíram para aquele Ciro da Record. Mas certamente uma grande diferença veio do formato do programa de Juca: o entrevistador pergunta, o entrevistado responde. Por vezes um interrompe o outro, como em entrevistas de verdade. E, no final, alguns jornalistas são sorteados para perguntas.
Claro que o formato dos programas de debates é produto, sobretudo, dos marqueteiros dos candidatos. Mas as emissoras, ao aceitarem, estão colocando no ar programas engessados, rígidos, muitas vezes sonolentos e, principalmente, pouco úteis.
8. SOS
idioma – A coluna volta a insistir: muitos coleguinhas estão
precisando dar uma olhada no dicionário para ver o real significado de
estratégia. A palavra é quase invariavelmente utilizada
no lugar de tática, mas não raro como sinônimo de
estratagema, artifício ou ardil. Tudo virou "estratégia".
9. PIB
errado – Uma fonte permanente de idéias originais, uma vez
mais o colunista Stephen Kanitz põe minhoca na cabeça do leitor
na Veja que está nas bancas. Kanitz, administrador de empresas,
contesta, com muitos exemplos, os cálculos dos economistas que indicam
um crescimento médio de apenas 2,2% ao ano do PIB no período de
governo de FHC. E diz que, calculando corretamente, "devemos ter crescido
no mínimo entre 4,5% e 8,2% (dependendo do ano)".
10. Pauta
que falta – Já está em fase final de instalação
o Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam). Mais de um bilhão
de dólares gastos, radares caríssimos instalados na selva remota,
aeronaves sofisticadas, possibilidade de monitorar com eficácia tráfico
de drogas e armas e até movimentos da guerrilha colombiana que ameacem
a fronteira brasileira. Onde estão as reportagens de campo sobre o Sivam?
Na hora de denunciar supostas irregularidades na concorrência foi aquela
festa...
(*) Jornalista
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