Envie para um amigo  Imprima esta página  Procure no arquivo

LUNETA GIRATÓRIA
Gazeta está de pé graças aos jornalistas

E Villas-Boas Corrêa lança um ótimo livro de memórias

Ricardo A. Setti (*)

1. Força da equipe– É admirável o profissionalismo da equipe que faz a Gazeta Mercantil, mergulhada em interminável série de turbulências envolvendo, entre outros problemas, dívidas, qualidade de gestão, questões ligadas à capitalização e a acionistas e um sério conflito jornalistas vs. patrões que, há um ano e dois meses, levou a uma inédita greve por falta de pagamento de salários.

Mesmo assim – e tendo sido, além disso, seriamente sangrada em seus quadros pela crise e também quando do lançamento do concorrente Valor, há pouco mais de dois anos –, a Gazeta continua de pé. É verdade que alguns de seus pilares editoriais não ostentam o mesmo viço de antes. A cobertura política, por exemplo, já foi mais ampla, e o celebrado caderno de variedade e cultura Fim de Semana viu muito reduzido seu quadro de colaboradores e sua abrangência. Mas o jornal continua sendo leitura obrigatória, o que não é pouco.

2. Um professor– Acaba de sair Conversa com a Memória (Editora Objetiva, 290 páginas), de Villas-Bôas Corrêa, o decano dos jornalistas políticos do país. Uma ótima mistura de reminiscências profissionais com a evolução da reportagem política no último meio século, mais o perfil de vários líderes que povoaram a história contemporânea e o de publicações, vivas e mortas, que ajudaram a moldá-la – sem contar algumas deliciosas histórias que o autor protagonizou ou a que assistiu, no estilo inconfundível do grande repórter e analista que, aos 78 anos de idade, continua em plena atividade, no Jornal do Brasil e no sítio No Mínimo <www.nomínimo.com.br>.

3. A felicidade até existe– Com todo o respeito ao jornalista de história e estofo que é Janio de Freitas, quando é que ele vai encontrar alguma coisa que vá bem, ou seja boa, no Brasil ou no mundo?

4. Morno, mas útil– Uma vez mais a Rede Bandeirantes inova em matéria de debates políticos, agora [domingo, 18/8] com os candidatos a vice-presidente. Apesar do baixo Ibope, do pouco calor das discussões e da falta de traquejo nesse tipo de evento apresentada pelos quatro participantes – José Alencar (PT-PL), Paulo Pereira da Silva, o Paulinho (PPS-PTB-PDT), Rita Camata (PSDB-PMDB) e José Antônio de Almeida (PSB) –, o debate valeu: discutiram-se temas de importância, como geração de empregos, inflação, programas sociais e segurança pública.

5. Fazendo direito– As críticas à Globo sempre foram tantas que, agora, é de justiça dizer e repetir: a cobertura que a rede realiza das eleições presidenciais está impecável.

6. Timor livre– Nossa imprensa praticamente se esqueceu do Timor Leste, a pequena ex-colônia portuguesa invadida pela Indonésia em 1975, a que se seguiu um pavoroso genocídio de 200 mil pessoas e um estupro cultural que procurou impor o idioma, a cultura e o islamismo do ocupante aos timorense. Cobrimos com razoável atenção a desocupação de Timor em 1999, a destruição do território pelos indonésios em retirada, a administração provisória da ONU e, em maio passado, a posse de um governo eleito sob uma Constituição democrática. Depois, o país sumiu do noticiário. A edição de agosto da revista mensal Primeira Leitura que está nas bancas, porém, vai contra a corrente e dedica 12 páginas ao assunto – que incluem um interessante relato de uma viagem feita a Timor pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva. A revista é ligada ao sítio <www.primeiraleitura.com.br>, mas a reportagem só está disponível na edição impressa.

7. Asas da FABEstado de S.Paulo e Folha disputam cabeça a cabeça a melhor cobertura sobre a licitação dos novos caças supersônicos da Força Aérea Brasileira – um assunto que envolve, em prazo médio, bilhões de dólares, movimentações importantes no xadrez da política externa, vitais questões de tecnologia e posturas do país no comércio exterior.

8. Melhor assim– Sinais de evolução em matéria de fairplay na grande mídia: a Rede Globo citou mais de uma vez em sua cobertura das eleições a Bandeirantes e o debate dos presidenciáveis feito pela concorrente; o Estadão deu crédito à Folha de S.Paulo, cobriu e comentou as entrevistas feitas com eles na série "Candidatos na Folha", realizada semana passada em São Paulo, com presença de público; e o Estadão vem citando sem maiores problemas, inclusive em editoriais, matérias do Valor, co-propriedade de dois concorrentes, Folha e O Globo. Deveria ser obrigação, mas é novidade. Ainda assim, a ser aplaudida.

9. Fantasmas e esqueletos– De quanto é, afinal, a dívida pública interna do país? E quanto e por que subiu no governo FHC? Na edição da revista Exame que está nas bancas são expostas, com clareza e simplicidade, as respostas, na matéria "O peso do armário", da editora executiva Nely Caixeta. Leitura obrigatória, sobretudo para certos presidenciáveis.

10. Pauta que falta– Não se trata de novidade a evidência de que o ex-presidente José Sarney é figura influente nas articulações políticas de Brasília. Esclareceu-se, também, que foi dele, e não do presidenciável tucano José Serra, a iniciativa que resultou no seguro-desemprego. Mas está faltando uma boa investigação sobre o que Sarney, figura dominante da política do Maranhão há quatro décadas, fez pelo Amapá, estado pelo qual foi eleito senador em 1990 e reeleito em 1998. Seria interessante até ver quantas vezes ao ano Sarney, que mora em São Luís e em Brasília, vai ao estado.

Quando de sua primeira eleição, o Estadão publicou interessante reportagem mostrando que a casa indicada pelo ex-presidente como seu domicílio eleitoral era, na verdade, um barraco abandonado que servia de sede secundária para o diretório local do PMDB.

(*) Jornalista


  Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe