03/06/2003 6/7

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JORNAL DE NOTÍCIAS
Fernando Martins

"‘Media’ requalificaram a democracia portuguesa", copyright Jornal de Notícias, 31/5/03

"País acredita hoje que os poderosos afinal não estão acima da Lei nem da suspeita.

"A prisão preventiva de Paulo Pedroso abriu, inesperadamente, uma reflexão nacional que pode (e deve) enquadrar-se nas celebrações do 30º aniversário da democracia portuguesa. Até porque três décadas consentem o exercício de questionar os poderes democráticos, as suas instituições e aqueles que, servindo-as, as credibilizam ou fragilizam perante o julgamento do país.

Uma constatação é tão imediata que praticamente todos a têm explicitado publicamente: só a denúncia dos abusos sexuais sobre os meninos casapianos e do seu repugnante tráfego, e as suspeitas sobre uma espantosa cadeia de cumplicidades por omissão derrubou, definitivamente, as muralhas protectoras dos autores de monstruosos crimes. É, sem dúvida, um importante crédito dos ‘media’ na generalidade, e de Felícia Cabrita, do ‘Expresso’ e da SIC em particular. Tão importante que os seus efeitos foram como que um elixir revitalizador das instituições democráticas, muito especialmente da Justiça.

À medida que as investigações foram avançando e que se tornaram conhecidas novas detenções, foi-se diluindo na maioria dos portugueses a convicção da intocabilidade dos poderosos em razão da política, da economia ou da sua projecção pública.

Alargava-se a cadeia da credibilidade: do Ministério Público à magistratura e às polícias. Até aos tão abalados políticos, beneficiários da dúvida sobre se não quiseram ou não puderam interferir nas investigações.

Dir-se-ia que o primeiro facto significante terá sido a detenção de Carlos Cruz, tendo em conta a popularidade de que o apresentador desfrutava. Ajuntamentos, entrevistas e outras movimentações de solidariedade acabaram por tornar-se contraproducentes, vistos como instrumentos de pressão, que apenas reverteram a favor das instâncias judiciais. O segundo foi, sem sombra de dúvida, a divulgação de que, finalmente, o ex-embaixador Jorge Ritto também fora preso – até porque muitos confundiram a prescrição dos crimes de que era acusado com uma espécie de imunidade dignitária. Até que os políticos (e a generalização, inevitada e inevitável, tornou-se uma realidade mais do que ouvida, adsorvida) acabaram por expor-se na praça pública a um indesejado julgamento de sentença imprevisível. E se a detenção de Paulo Pedroso fora uma probabilidade anunciada por informadores necessariamente próximos do processo, a verdade é que, mesmo assim, a reacção ao internamento prisional do porta-voz do PS transformou-se numa exposição política, que vai deixar fundas cicatrizes.

Neste momento de todas as contrições, é quase tão política e socialmente incorrecto sugerir que este não é tempo de pôr em causa a máquina judiciária como apelar a estatutos de excepção para quem quer.

Ninguém está acima do julgamento das diversas instâncias, a mais inexorável das quais será a opinião pública. Só que não pode utilizar-se a exigência de aperfeiçoamento das instituições como mero instrumento de pressão sobre aqueles que servem essas mesmas instituições. É o que, na generalidade, o país não deixa de pensar perante recentes preocupações com os comportamentos de alguns ‘media’, nas raias da lei ou da deontologia. Chama-se hoje a atenção para a excessiva exposição ao julgamento público de um político que, por definição e por escolha própria, está permanentemente sujeito à viogilância democrática e à responsabilização pública. É um zelo não exercitado quando antes foram expostos ao linchamento social cidadãos que não tinham o estatuto de figuras públicas e que, como tal, não viam legalmente restritos alguns dos seus direitos de personalidade.

E se o Provedor reitera que, mesmo com os créditos justamente conseguidos no caso do abuso de meninos da Casa Pia, os jornalistas não podem perder de vista a sensibilidade e a fragilidade do tema e as possíveis consequências do seu tratamento menos responsável, também alerta para que não deve perder-.se esta oportunidade de aprofundamento da democracia.

É tempo de pôr em causa o funcionamento das instituições – porque só assim será possível credibilizá-las ainda mais.Mas sem que a exigência de requalificação seja intrumento de qualquer tipo de pressão.

O contacto com o Provedor pode ser feito pelo correio, pelo fax 222002861 ou, por computador, para os endereços provedor@jn.pt ou fmartins@jn.pt

É uma daquelas distracções que, não sendo graves, podem e devem evitar-se. Até porque não faltam leitores atentos e amantes do rigor, como é o caso do engenheiro Artur Magina. ‘Cadeiras para crianças inseguras’, dizia o título, na quarta-feira última (‘Sociedade’). Só que inseguras não eram as crianças, mas sim as cadeiras. A formulação correcta do título deveria, portanto, ter sido ‘Cadeiras inseguras para crianças’.

Não é, naturalmente, um lapso grave. Não terá, sequer, induzido em erro.É uma crónica impressiva, vivida, sobre as duas horas e vinte minutos que tornaram o Porto, de cidade fantasma em torrente de mil sentimentos concorrentes, que , expressos das mais diversas formas, explodiram na Baixa, na Avenida, e dali irradiaram para o país e para o Mundo, através das transmissões televisivas.

Ora, é verdade que o palavrão, vulgarizado na linguagem dos portuenses, ganha, para muitos, força expressiva nos extremos como o amor e o ódio, a derrota e a vitória. E que vitória foi aquela, dos ‘dragões’ em Sevilha!Sofrida e, como tal, mais saborosa!O jornalista quis, uns dias depois (segunda-feira finda, Última Página), dar nota impressiva. E usou, cinco vezes, as expressões tal qual as ouviu, sem omitir as obscenidades.Protestaram alguns leitores. Porque não gostaram. ‘Ouve-se, mas não se repete. Muito menos num jornal que entra em todas as casas’ – é frase que, no fundo, sintetiza as críticas chegadas.

O Provedor – já o disse nesta página – pensa, também, que os palavrões eram dispensáveis. Não enriqueceram a prosa e feriram algumas susceptibilidades..."

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