03/06/2003 7/7

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DIÁRIO DE NOTÍCIAS
Estrela Serrano

"A arte da ‘fuga’", copyright Diário de Notícias, 1/6/03

"A cobertura noticiosa dos últimos acontecimentos sobre o caso da pedofilia na Casa Pia justifica uma reflexão sobre a chamada ‘fuga’ de informação, uma vez que ela se tornou um dos mais poderosos instrumentos estratégicos de gestão da informação por parte de fontes com acesso a esse processo.

Em teoria, a ‘fuga’ consiste na divulgação parcial, prematura, e oficialmente não autorizada, de informação sobre acontecimentos ou assuntos em fase de apreciação ou discussão. Envolve favoritismo por parte de quem a promove em relação a quem é concedida e por isso cria rivalidade e competição. Escapa aos canais oficiais e não está sujeita à ‘peneira’ dos comunicados ou das conferências de imprensa. É selectiva e possui objectivos previamente estabelecidos. Através da ‘fuga’ pode transmitir-se informação ‘verdadeira’ ou fornecer ‘pistas’ falsas para testar reacções ou desviar atenções de outro assunto. É usada em manobras de contra-informação como instrumento desestabilizador de pessoas ou instituições. Por vezes, não é controlada pelo ‘topo’ da instituição de onde parte, dado que há sempre funcionários motivados para contornarem os canais oficiais. A tentação de segredar a um jornalista uma informação ‘escondida’ é muitas vezes uma questão de ‘ego’ – alguém que pretende afirmar-se, mostrando que está próximo do poder e que tem acesso a informação privilegiada. Pode também partir de uma pessoa que quer agradar a determinado jornalista, ou órgão de informação, ou funcionar como recompensa por uma cobertura favorável ao próprio ou à instituição que representa. Outras vezes, a ‘fuga’ resulta de uma conversa entre várias pessoas e nem sempre o que primeiro a dá a conhecer está na origem da sua divulgação.

A ‘fuga’ pressupõe a existência de uma grande confiança entre quem a fornece e quem a recebe, que é, em geral, alimentada no convívio do dia-a-dia, sendo mais frequente quando jornalistas acompanham com regularidade uma determinada instituição.

As fugas de informação são inevitáveis em instituições de grande dimensão, mas as instituições políticas são aquelas onde se verifica maior quantidade de ‘fugas’, dado serem as que geram maior volume de informação.

As fugas de informação que têm alimentado as notícias sobre pedofilia relacionam-se com matéria em processo de investigação judicial. Nos últimos dias, proporcionaram aos jornalistas, sobretudo das televisões, sequências informativas quase alucinantes. Senão vejamos: um canal de televisão consegue o ‘exclusivo’ da chegada do juiz à Assembleia da República para entregar ao seu presidente o pedido de levantamento da imunidade parlamentar a um deputado. É filmado e questionado no elevador, e o teor do documento (confidencial) de que é portador é, pouco depois, conhecido. No mesmo dia, outro canal de televisão transmite uma entrevista com um jovem de cara (mal) tapada, que afirma estar sob protecção policial, confessando-se vítima de violação por parte do deputado que a essa hora estava a ser ouvido pelo juiz de instrução criminal. Jornais, rádios e televisões divulgam o conteúdo e a duração de escutas telefónicas constantes do processo, enquanto a ‘confissão’ de outro detido no mesmo processo aparece transcrita no ecrã de outro canal de televisão.

No campo político, foi através de fugas de informação que o maior partido da oposição teve conhecimento de que o seu porta- -voz estava a ser investigado e os telefones de alguns dos seus dirigentes colocados sob escuta. Já antes, foi também uma ‘fuga’ de informação a permitir a evasão da autarca de Felgueiras. E não é a primeira vez que surgem nos jornais transcrições de registos de escutas telefónicas.

Seria desejável que os jornalistas se interrogassem sobre esta sucessão de fugas de informação constante de processos em segredo de justiça e procurassem perceber as motivações de quem lhas faz chegar.

Os jornalistas não ignoram que elas não se destinam a satisfazer as necessidades informativas, nem a esclarecer os cidadãos, para mais vindas de sectores por definição fechados à exposição mediática. Mas, nas sociedades hipermediatizadas e concorrenciais em que se vive, seria difícil os jornalistas fecharem os olhos e os ouvidos às ‘sereias’ que lhes segredam informação confidencial.

O DN não ficou imune à voracidade informativa em que mergulharam todos os media, tendo o presidente da Assembleia da República desmentido a informação de que dera conhecimento aos presidentes dos grupos parlamentares do pedido de levantamento da imunidade parlamentar ao deputado agora detido. Mas o DN manteve a notícia e a confiança nas suas fontes. A provedora não dispõe de elementos para apreciar o caso. É, contudo, fácil saber se os líderes parlamentares tiveram ou não acesso ao documento. Basta que eles o digam.

As fugas de informação podem ser úteis a quem as organiza e a quem as divulga. Mas descredibilizam os que as promovem, sobretudo numa área tão sensível como a justiça, onde não é possível aceitar a existência de uma gestão estratégica de fugas de informação.

Bloco-Notas

As relações entre os media e a justiça não estão muito estudadas ao nível da investigação académica. Entre nós, o tema é geralmente abordado numa base casuística e quase sempre a propósito de ‘casos’ mediáticos que ‘saltam’ inesperadamente para a opinião pública. Por isso, a discussão fica-se pela superfície, nunca tocando as questões de fundo. Vale a pena, por isso, referir um dos mais conceituados trabalhos académicos sobre as relações entre os jornalistas e três importantes instituições: os tribunais, a polícia e o Parlamento. O estudo foi publicado em 1989 com o título Negociating Control – A Study of News Sources e é da autoria de Richard Ericson, Patricia Baranek e Janet Chan.

As fontes-chave – Dizem os citados investigadores que, nos tribunais, as fontes-chave são os funcionários. São pessoas estrategicamente colocadas, que fornecem sugestões sobre temas de interesse, mas também indicações sobre quando, onde e como os repórteres podem conseguir uma boa história. A ‘assistência’ que esses funcionários prestam aos jornalistas inclui ideias para notícias e também intermediação entre eles e pessoas ou documentos de difícil acesso. Trata-se, dizem os autores, de um prática usada nas instituições em que o secretismo é a regra. Afirmam que se trata de um processo ambíguo porque, se por um lado se destina a ajudar o jornalista, por outro, presta-se a manipulações, na medida em que se passa num terreno de confidência e confidencialidade. No seu estudo, os investigadores recolheram alguns depoimentos de jornalistas e funcionários, os quais ajudam a perceber o processo de produção da informação sobre casos de justiça.

‘Coça-me as costas’ – Um funcionário de relações públicas do Tribunal de Ontário, entrevistado no decorrer do citado estudo, fala sobre a colaboração entre os funcionários e os jornalistas que acompanham os casos do tribunal. Diz o funcionário: ‘Forneço aos repórteres casos interessantes e eles escolhem os que mais lhes interessam (...). Existe um espírito de colaboração que pode resumir-se a ‘se me coçares as costas, eu coço as tuas’. (...) Sei que eles não vão publicar uma história se não tiverem obtido todos os factos (...).’

Conseguir boa imagem – Solicitado pelos investigadores a descrever as suas funções, o funcionário afirmou: ‘Compete-me conseguir uma boa imagem dos juízes e do tribunal. (...) Os juízes não podem falar de certas coisas, dizer o que sentem ou pensam, porque baseiam as suas decisões nos factos e na lei. Por exemplo, se alguém diz alguma coisa sobre um juiz, ele não pode escrever ao jornal a clarificar a questão. Eu sou uma espécie de intermediário. Tenho uma enorme responsabilidade e os juízes têm grande confiança em mim, sabem que não divulgo informação privilegiada."

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