15/07/2003 2/7

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Bernardo Ajzenberg
"Crítica Interna", copyright Folha Online (www.folha.com.br/ombudsman)
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11/07/2003

Admito que seria demais pedir da imprensa, já para hoje, o esclarecimento definitivo da balbúrdia que parece rondar o vaivém do governo na questão da reforma previdenciária --o fim de semana deve ser o espaço adequado para isso. Merecerá um prêmio o veículo que conseguir esquematizar, para a compreensão do leitor, o ocorrido. A confusão, por ora, é enorme e tem evidente caráter político. O assunto mais curioso do dia, porém, é a provável pegadinha marqueteira de Silvio Santos. Ela dá o que falar em muitos aspectos, inclusive jornalísticos (ver nota específica).

Greve

Falta reportagem de rua e sobram declarações de dirigentes no texto ‘Líderes avaliam que recuo fortalece greve’ (Brasil, pág. A8). Qual é a situação concreta das universidades federais paradas, das repartições, hospitais? A reportagem da Folha não testemunhou nada relevante?

E Alencar?

Senti falta de uma retranca que amarrasse como foi o dia do presidente da República interino, José Alencar. Da última vez como chefe de Estado, ele falou bastante e causou frisson (juros etc). E agora, a dez dias de nova reunião do Copom?

Obscuro

A retranca ‘Viegas negocia Lei do Abate em Washington’ (Mundo, pág. A11) afirma, no último parágrafo, que o Brasil deixará de receber dos EUA US$ 275 mil ainda neste ano por não ter assinado acordo para livrar americanos de possíveis punições no Tribunal Penal Internacional. Como assim? Por que o país deveria receber essa quantia? Se se trata de venda de aviões não efetivadas por causa da falta de acordo, o valor me parece muito baixo. Não deu para entender.

Sísifo

1) O texto ‘Aliados propõem leis de incentivos fiscais’ (Brasil, pág. A8) não informa ao leitor que o relator da reforma tributária, deputado Virgílio Guimarães (MG), é do PT;

2) Faltou informar a idade do juiz aposentado Lalau na Panorâmica ‘Nicolau pede novo habeas corpus e alega doença’ (Brasil, pág. A10).

Velocidades

Parece-me haver um erro de cálculo no texto ‘Pesquisador dos EUA consegue ‘frear’ raio de luz em temperatura ambiente’ (Ciência, pág. A14). Afirma-se que partículas luminosas desaceleradas viajam a 91 metros por segundo e que isso equivale a 3.276 km/h, ‘quase três vezes (a velocidade) da propagação do som no ar’. Não seriam 327,6 km/h, algo, portanto, bem inferior à velocidade do som? A verificar.

Prisão

Não vi na Folha notícia, dada pela concorrência, de que um deputado do DF, com mais oito pessoas, foi preso por suspeita de envolvimento em grilagem de terras.

Cide

O abre de Dinheiro (‘Petrobras lucra R$ 1,6 bi com gasolina cara’) afirma que a Cide é um imposto, quando se trata, na verdade, de uma contribuição --algo bem diferente em termos técnicos e práticos.

Cai mesmo?

1) O texto ‘Cai número de pessoas no ‘vermelho’ (Dinheiro, pág. B2) sustenta que ‘cai a cada ano o total de pessoas com dívidas atrasadas no país’ (inadimplência). Os números apresentados no texto, porém, indicam desaceleração no crescimento da inadimplência, o que me parece diferente de uma redução no número absoluto de pessoas inadimplentes. A verificar;

2) Nesse mesmo texto, afirma-se que em 2002 a participação dos cheques sem fundos no total das dívidas era de 37%, contra 36% em 2003. Na arte, 2002 aparece com 38%. Qual é o dado certo de 2002 (37% ou 38%)?

Tom oficioso

Os lides dos abres das páginas B3 e B4 padecem do que o ‘Manual’ chama (pág. 29) de tom oficioso. Ambos começam com ‘O Ministério... anunciou (ou anunciaram) ontem...’, em vez de enfatizar de cara as medidas propriamente ditas. É algo a ser evitado pelo jornal.

Aeroportos

No abre da pág. B5 (‘BNDES diz leiloar já ações da Eletropaulo’), o presidente do banco, Carlos Lessa, afirma, entre aspas, que o Brasil tem 160 aeroportos. Na página seguinte, a reportagem ‘Governo vai liberar aeroportos privados’ informa que há 737 aeroportos de uso público no Brasil. Como fica o leitor?

SS

1) Tem tudo para virar um belo ‘case’ jornalístico a entrevista de Silvio Santos na ‘Contigo’. De imediato, o que mais chama a atenção --a se confirmar a provável realidade de se tratar de uma pegadinha mesmo--, entre outros tantos aspectos, é a habilidade do empresário de explorar uma das talvez mais sérias e inevitáveis fragilidades do jornalismo, mesmo quando ele cumpre todos os deveres básicos de apuração: a falta de um detector de mentiras. Silvio mostra isso na última resposta da entrevista, ante o questionamento da repórter sobre a veracidade do que ele vinha dizendo: ‘Qual é o problema? Você falou comigo, gravou, foi essa a informação que eu te dei, coloca na capa, vai vender um monte de revistas. Depois, se eu não morrer, é milagre’;2) A Folha subestimou um aspecto do caso, que é a efetiva negociação com a Televisa para venda do SBT. A concorrência deu melhor, ouvindo diretamente a TV mexicana, inclusive.

Contestação

Recebi, via SR, a seguinte observação do editor interino de Ciência, Claudio Ângelo, sobre a nota ‘Boletim ‘Nature’ da crítica de ontem, na qual eu apontava presença exagerada de textos referentes àquela publicação científica na edição da Folha:

‘A questão das publicações científicas e de sua presença no noticiário já foi discutida neste espaço. Portanto, apenas repito esclarecimentos anteriormente prestados ao ombudsman por esta editoria.

É da natureza do processo científico que novas descobertas sejam validadas por outros cientistas. Isso acontece por meio do mecanismo conhecido como ‘peer review’, ou revisão pelos pares, que se dá quando uma determinada pesquisa é submetida ao crivo de uma publicação científica. No mundo, há três ou quatro publicações cuja chancela é sinônimo de que a comunidade científica reconhece a validade e a importância do trabalho submetido. A britânica ‘Nature’ é uma delas. A princípio, o que se publica lá é notícia. Nunca ouvi o ombudsman reclamar de um exagero de reportagens de política cujas fontes sejam o Palácio do Planalto ou o Congresso Nacional, por exemplo.

O ombudsman também se equivoca ao dizer que citar a ‘Nature’ nas reportagens publicadas pela editoria de Ciência é ‘mostrar a fonte dos textos’. O que se extrai de publicações científicas são dados brutos, resultados, não reportagens’.Na edição de ontem do ‘New York Times’, havia 16 textos de Ciência. Apenas um deles fazia referência à ‘Nature’. Na Folha, havia cinco retrancas: três reportagens, um texto-legenda e uma Panorâmica. As três reportagens (sendo duas em abres de página) eram baseadas na ‘Nature’.

10/07/2003

Fazer um bom título é difícil, mais ainda se for para a manchete do jornal --que entra, inexoravelmente, para a história. A de hoje, na Folha, nesse sentido, não cumpre sua missão adequadamente: ‘Sob pressão, governo muda revidência’. Como assim? Como se sabe, a mudança foi na proposta de reforma da Previdência, não na Previdência em si. Parece preciosismo, mas não é: a exatidão sendo ignorada, será sempre muito fácil elaborar uma manchete. A Folha, aliás, foi ‘econômica’ demais e, a meu ver, perde para a concorrência, hoje, na cobertura da reforma previdenciária (veja nota específica).

Primeira Página

Há excesso de espaço em textos para a questão das reformas na capa (a manchete mais duas chamadas). Esse material poderia ser sintetizado, abrindo espaço na vitrine do jornal para outras notícias ou eventos relevantes (por exemplo: a) o desfile --’histórico’, segundo a reportagem-- de ontem no Fashion Rio; e b) a crítica do presidente argentino a Lula, por excesso de concessões ao FMI, abre da pág. B6).

Reformas

1) No material sobre o recuo do governo federal em relação à reforma da Previdência, não está clara a implicação das mudanças no âmbito dos governos estaduais. Os governadores, parece, se revoltam contra esse recuo, por causa de suas situações fiscais específicas. Qual é o impacto, nesse terreno, das mudanças acertadas? Cabe, creio, recuperar o caso e aprofundá-lo nesse aspecto. Este, aliás, sinaliza, ainda, certa mudança de estratégia do governo, que deixaria de se apoiar nos governadores para centrar esforços diretamente nas bancadas do Congresso;

2) Faltam informações sobre os bastidores do recuo, para além das articulações dos últimos dias . O ‘Globo’ revela, por exemplo, que Itamar Franco teve papel importante na aproximação entre Lula e Maurício Corrêa (STF), encontro básico para a movimentação do governo. O ‘Estado’ traz retranca reconstituindo negociações das últimas semanas com Judiciário e Legislativo;

3) A arte da pág. A4 é visualmente confusa, quase impenetrável. Por que não fazer algo mais simples, ponto por ponto: como é hoje, a proposta inicial do governo, a nova proposta?

4) As afirmações de Tarso Genro e de Lula em Portugal (sobre a reforma) deveriam ter sido editadas junto com o material central sobre o assunto, e não páginas depois, após material sobre reforma tributária e reforma agrária.

Sem contexto

A retranca ‘Mudança no texto não foi combinada’ (pág. A6) menciona, no último parágrafo, crítica do governador Alckmin a declaração de José Dirceu sobre ‘corrupção em um passado recente’. Ocorre que o leitor da Folha não sabe nada sobre essa declaração, divulgada ontem por outros jornais.

Sísifo

Mais uma vez aparece no meio de um texto o sobrenome Rosseto, sem que haja, nem antes nem depois, informação sobre a pasta desse ministro e seu nome completo. Desta vez está no abre da pág. A9.

Lula no exterior

Na cobertura sobre a viagem de Lula à Europa, sinto falta de informação atualizada sobre a composição de sua comitiva. Quantas pessoas a formam? Quais são? Quem são os empresários, os políticos e outros? Quais foram os critérios de escolha? Qual o custo disso tudo?

EUA

A sub ‘Aprovação do governo Bush tem forte queda’ (Mundo, pág. A11) não informa que o instituto responsável pela pesquisa (o Pew Research Center) é dirigido pela ex-secretária de Estado de Clinton, Madeleine Allbright, ligada, portanto, ao Partido Democrata (oposição a Bush).

Números

Arte na pág. A13 (Mundo) registra que entre 1990 e 2000 subiu de 82.489 para 160.000 o número de pessoas originárias do Brasil que vivem oficialmente nos EUA, e que esse aumento é de 68,5%. Pelas contas que fiz, o percentual está errado. A verificar.

Boletim ‘Nature’

Os dois abres de Ciência (págs. A14 e A15), além de uma terceira retranca, baseiam-se em informações que estão sendo publicadas na ‘Nature’ de hoje. É louvável a transparência no sentido de mostrar a fonte dos textos, mas me parece exagerada a presença daquela publicação na edição de hoje da Folha.

De gosto duvidoso

Assim me parece ser o título ‘Levanta defunto’ usado para o texto-legenda do alto da pág. A14 (Ciência), sobre uso do veneno da aranha viúva-negra para combater a impotência e como contraceptivo masculino.

Ajuda à ANP

Não vi na Folha a informação de que o governo dos EUA aprovou ontem a concessão de US$ 20 milhões à Autoridade Nacional Palestina para investimentos em áreas agora desocupadas pelo Exército de Israel.

ISS

O material sobre a ampliação dos serviços sujeitos a cobrança de ISS (Dinheiro, pág. B3) não informa que o imposto agora será cobrado no município onde o serviço for prestado, e não mais no da sede da empresa prestadora do serviço. O dado está no ‘Estado’. É isso mesmo? Parece-me algo bastante relevante.

09/07/2003

As brumas do Pão de Açúcar e a greve dos servidores fornecem boas imagens para as capas dos jornais. Só o ‘Globo’, porém, explorou o presidente Lula (e a primeira-dama) novamente de boné --agora, o da ONG do Fome Zero--, imagem que a Folha não traz nem mesmo internamente. Ponto para o jornal do Rio no quesito ‘símbolos’. Chama a atenção, também, o índice de 20/21% para a Selic em dezembro sinalizado pelo ministro Palocci, taxa concreta mencionada pelo ‘Globo’ e pelo ‘Valor’ (ver nota específica).Primeira PáginaNo texto da chamada da manchete (‘Greve contra a reforma pára parte dos servidores’), faltou a palavra do comando dos servidores, em contraposição às declarações ou posicionamentos governamentais de Lula, Dirceu e Genoíno.

Funcionalismo

1) Senti a ausência de uma memória (com dados concretos) de greves nacionais anteriores do funcionalismo federal. É um elemento jornalístico de apoio importante, já que se trata da primeira greve sob o governo federal do PT. Comparativamente, esta que começou ontem é maior, mais extensa do que as precedentes?

2) Na arte das págs. A6/A7, o mapa do Brasil traz Estados vermelhos e cinzas. Não há legenda, porém, explicando o que essas cores significam.

Didatismo

A retranca ‘Palocci rejeita mais concessões na tributária’ (Brasil, pág. A5) menciona a discussão sobre a ‘desvinculação das receitas dos Estados’ sem explicar o que isso significa.PSDB x DirceuCorretamente, o ‘Estado’ explorou muito melhor do que a Folha o contenciosos entre o ministro chefe da Casa Civil e o PSDB a partir de declarações de Dirceu. O concorrente traz a íntegra da nota do partido, além de várias afirmações de seu presidente (José Aníbal). A Folha reduziu o assunto (para não dizer que o ‘escondeu’) a um pé de reportagem (abre da pág. A9, sobre solenidade referente à apresentação do IDH da ONU). Nem mesmo cita a declaração de Dirceu de que a ‘corrupção predominou em um passado recente’. Parece-me ter sido, esse, um incidente politicamente importante no delineamento da atuação dos tucanos como oposição. A Folha, creio, cochilou. Prendeu-se à agenda do evento (IDH da ONU), sem dar o devido valor a uma notícia que dele emergiu.

Bush e o impeachment

O abre de Mundo (‘EUA admitem uso de dados falsos no Iraque’, pág. A10) cita o presidente do Partido Democrata dizendo que ‘deve ser a primeira vez na história em que um presidente dos Estados Unidos engana o povo americano durante um discurso sobre o Estado da União’. Uau! Não teria sido o caso de a edição valorizar (com memória, trechos de discurso) uma declaração como essa? Não foi --em última instância-- por mentir ao povo norte-americano que Nixon acabou sendo obrigado a renunciar? A diferença entre mentir e enganar é apenas de grau.

Acabamento

O abre da pág. A12 (‘Na África, Bush promete ajudar Libéria’) contém um mapa ilustrando a trajetória do périplo do presidente dos EUA mas, inexplicavelmente, não sinaliza onde fica a Libéria. Ele não irá a esse país, é certo, mas, já que a notícia está ali, por que não usar a mesma arte para ajudar o leitor a ter uma visão de conjunto?

Palocci e os juros

Não vi na Folha a informação, publicada pelo ‘Valor’ e pelo ‘Globo’, de que o ministro da Fazenda mencionou o índice de 20/21% como sendo a provável taxa Selic em dezembro deste ano. O abre da pág. B4 (‘Inflação indica queda dos juros, diz Palocci’) registra a afirmação do ministro da tendência de queda da taxa, mas não traz nada sobre esses números concretos. O evento retratado em ambos os casos, porém, é o mesmo: o encontro de Palocci com líderes governistas na Câmara. A Folha não ‘ouviu’ essa parte da que disse o ministro ou a concorrência inventou? A verificar.Anistia do FGTS

Em chamada na Primeira Página e em abre de página em Dinheiro, a Folha noticiou ontem que o FGTS poderia aprovar uma anistia das multas de seus devedores e que o assunto só não iria a votação (ontem mesmo) no Conselho Curador do Fundo se faltasse consenso. O Ministério do Trabalho, segundo o texto, era a favor da medida. Na edição de hoje, uma Panorâmica ao pé da pág. B5 registra que a decisão foi adiada porque a Fazenda pediu ‘para avaliar mais detalhadamente a medida’. E ponto. O que aconteceu? Trabalho e Fazenda divergem? Como? Não teria sido o caso de dar melhor o assunto, tão destacado na edição anterior?

E Alckmin?

O governador paulista aparece com Lula na Francal (feira de calçados) em foto da pág. B10. Nenhum dos textos sobre o evento (abre e subs), porém, faz uma mínima menção a Alckmin, nem sequer um registro de sua presença no evento. Só deu Lula. O que o governador estava fazendo lá? Discursou? Não há informação.

Desamarrado

O material sobre a Revolução de 32 em Panorâmica da pág. C3 (Cotidiano) deveria ter sido editado junto com o da pág. A8 (Brasil), sobre o mesmo tema. Faltou coordenação.

Garotinho

Parece-me relevante --e, até, politicamente escandalosa-- a notícia de que o ex-governador do Rio e ex-presidenciável passou as principais responsabilidades da área de Segurança do Rio ao seu adjunto (‘Garotinho passa o comando da pasta da Segurança para o seu sub’, pág. C4 da edição SP). A edição nacional deu bem o caso (na capa de Cotidiano), mas, na edição SP, ele acabou cortado, burocratizado, desnudado da conotação política evidente que possui. Faltou sensibilidade, creio, na transposição desse material de uma edição para a outra.

Taxa de Marta

O 14o parágrafo do abre de Cotidiano (‘Marta fixa teto para a taxa de comércio’) afirma que o novo projeto que será enviado à Câmara Municipal sobre o tema manterá o critério de cobrança por ramo de atividade, e não por número de funcionários. Parece haver algo errado aí: não bate com a lógica do texto e vai de encontro à arte da mesma página, segundo a qual a cobrança voltará a ter como base o número de empregados e não o ramo de atividade. A verificar.

Perfil

Faltou o perfil pessoal (idade, trajetória empresarial, formação etc) de Ricardo Teixeira no abre da pág. D4 (Esporte), que apresenta a eleição de hoje para a diretoria da CBF, da qual o cartola pode sair, mesmo sub judice, com seu quinto mandato.

Para reflexão

Estranhei o chapéu ‘Bundas on-line’ em nota na pág. F4 (Informática) sobre sites que exibem ‘galeria de nádegas femininas e masculinas’ na internet. Pode ser excesso de conservadorismo de minha parte, mas, sinceramente, pensando no caderno Informática da Folha, preferia uma outra opção.

08/07/2003

O relatório da ONU sobre qualidade de vida e a vitória do Rio na disputa pela candidatura brasileira aos Jogos de 2012 eram os assuntos do dia. Só o ‘Estado’, equivocadamente, tratou-os ‘mal’ na capa da edição de hoje. Chama mais a atenção, porém, a atitude do ‘Globo’, de um bairrismo invulgar: não só deu um caderno especial ‘comemorativo’ como publicou anúncio institucional próprio para festejar a notícia. A Folha deu, creio, o espaço e o tom mais adequados, mas faltou reproduzir hoje pelo menos parte do material publicado no domingo sobre as mudanças que deverão ocorrer no Rio a partir dessa decisão.

Descompasso

A reportagem referente à chamada de capa sobre aumento nos preços dos combustíveis ganha pouco destaque na pág. B5 (Dinheiro). O texto sobre anistia para multa aos devedores do FGTS, que tem chamada na Primeira, abre apenas uma página par (B4). Enquanto isso, a capa do caderno (sobre câmbio) não recebe nenhuma menção na Primeira. Não dá para entender.

Funcionalismo

1) Faltou algo essencial na edição sobre a greve do funcionalismo federal (pág. A4): quais são os pontos da reforma previdenciária que causam a paralisação? Por que os servidores são contra? O ideal teria sido editar uma arte resumindo onde se dá, concretamente, a insatisfação desse setor com a proposta do governo (um resumo nesse sentido está, por exemplo, dentro do texto sobre a posição específica dos juízes, na mesma página);

2) O penúltimo parágrafo do abre da página menciona a sigla PEC sem explicar do que se trata.

Ibope no PT

Não sou cientista político nem estatístico, mas me parece um absurdo considerar que uma pesquisa de Ibope possa expressar a vontade política da base de um partido, como faz a direção do PT (retranca ao pé da página A6), ainda mais de uma agremiação que tem tradição na valorização de suas instâncias. Esse método me parece de grande simbolismo na trajetória de terra arrasada do ‘New PT’. Embora tenha publicado a visão (previsível) da ‘radical’ Luciana Genro contra ele, acho que a Folha foi tímida, pouco crítica no tratamento do caso. Caberia ouvir historiadores, especialistas em partidos etc.

Acabamento

1) Faltou crédito na foto do sem-terra no texto-legenda do alto da página A7;

2) O texto ‘Temendo não contar com o apoio do governo, ruralistas vão ao Supremo’ (pág. A7) fala do ‘ministro Rosseto’ sem dizer qual a sua pasta nem dar o nome completo;3) As primeiras cinco notas do Painel FC (pág. D2) são sequenciais, compondo, na verdade, uma reportagem que se encaixaria perfeitamente como sub do abre da pág. D3 (sobre eleições na CBF). Creio que isso deturpa o espírito da coluna.

O discurso de Marisa

A primeira-dama faz hoje seu primeiro discurso público, oficial, revela retranca na pág. A6. Uma dúvida, porém, fica no ar: quem o escreveu? Ela mesma?

Abbas, Mazen

A Folha voltou a adotar a fórmula ‘Mahmoud Abbas, mais conhecido como Abu Mazen,’ para se referir ao premiê palestino (Mundo, pág. A12). Como já expressei aqui (crítica de 9/5), penso que ela, além de esdrúxula, é inócua e dá margem a confusão. ‘Mais conhecido’ assim por quem? Entendo que se procure alguma solução para um ‘problema’ novo dentro de uma visão de equilíbrio editorial. Mas qual é a lógica? Abbas penderia para o americanismo ou para o sionismo e Mazen para a causa palestina? Seria essa então uma fórmula de compromisso? Se ela é mesmo necessária, por que o jornal pelo menos não a explica aos leitores, tamanha sua excepcionalidade?

Gente demais

O abre ‘Governo argentino lança seu ‘Fome Zero’ (Mundo, pág. A13) afirma que setores da sociedade civil argentina coletaram 1,6 BILHÃO de assinaturas favoráveis a um programa desse tipo. Deve ser 1,6 MILHÃO, certo?

Elementar

1) O abre de Dinheiro (pág. B1) menciona nomes como GlobalInvest e Tendências sem dizer do que se trata. São corretoras? Consultorias? Bancos? O mesmo vale para ABN Amro em retranca ao pé da mesma página;

2) Dois textos da página B5 reproduzem informações ou declarações dadas num tal Terceiro Fórum Brasileiro de Energia Elétrica. Onde isso aconteceu? O que é esse fórum? Quem estava presente? Não há resposta.

Café obscuro

Apesar do esforço nesse sentido (com arte, inclusive), o abre de Agrofolha (‘Nova regra do governo sobre café divide setor’, pág. B10) não deixa claro, afinal, o conteúdo da instrução normativa do governo sobre o tema, ao menos no aspecto que tem causado divergências nessa área. Está ou não escrito, nela, que é válida somente para compras feitas pelo governo? Por que não reproduzir sua íntegra (ou trechos expressivos), para facilitar ao leitor o julgamento sobre o que está acontecendo?

IR

Não vi na Folha notícia, trazida pela concorrência, de que a Receita liberou ontem o segundo lote de restituição do IR de 2003. É serviço para o leitor.

Nobreza

A Folha deu muito mal, a meu ver, a morte da condessa de Paris, neta da princesa Isabel, com um registro insosso em ‘Mortes’ (pág. C4). Só o nome inteiro dela (que a Folha não publicou), Isabelle Marie Amélie Louise Vicotoire Thérèse Jeanne de Orleans e Bragança, valia retranca maior. A concorrência foi mais sensível à notícia, publicando inclusive foto da velha senhora.

Destruído?

Afirma a última frase do abre ‘Homem é espancado e jogado de viaduto’ (pág. C3) que o bando acusado de cometer o crime teria ‘destruído com bastões de beisebol’ a casa de um empresário em outubro passado. É possível destruir uma casa com bastões de beisebol? A verificar.E a lei?O material da pág. C4 (Cotidiano) sobre o resgate frustrado de presos por helicóptero não informa o leitor o que diz a legislação a respeito do ‘abate’ de aeronaves que se aproximam de presídios -objeto, justamente, da polêmica gerada a partir do caso. Ela já foi aprovada? Está mesmo em vigor? Não exigia sanção presidencial?

Andando ou parado?

É detalhe, mas o jornal também é feito de detalhes: tenho a impressão de que o jogador Robinho está parado, de pernas cruzadas (a esquerda sobre a direita) e a mala na vertical, e não caminhando, como afirma o texto-legenda da pág. D3.

Para reflexão

Texto na capa da Ilustrada informa que foi mantido (para nova gestão) o Conselho Consultivo de Artes Plásticas do MAM-SP, tendo como um de seus integrantes um crítico de Arte da Folha. Posso estar enganado, mas cabe, no mínimo, refletir: não há conflito de interesses entre as duas funções? Tal acúmulo não pode ser prejudicial à imagem de imparcialidade do jornal e do próprio crítico no tratamento de assuntos relativos às Artes Plásticas (exposições, curadorias etc)? Minha opinião é de que sim. Da mesma forma que o seria o crítico literário do jornal ser membro do Conselho Editorial de uma editora ou o crítico de cinema integrar instância de cúpula de alguma distribuidora ou exibidora de filmes."

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