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FOLHA DE S.PAULO
Bernardo Ajzenberg

"Mágica e alfinete" copyright Folha de S.Paulo, 15/2/02

"A concordata da Enron, gigantesca companhia de energia norte-americana, no final de 2001, trouxe à tona, entre inúmeras borbulhas políticas e empresariais mal cheirosas, o quanto a imprensa vive permeável à pressão de interesses econômicos, mesmo num país como os EUA, onde ela própria é poder.

Essa permeabilidade se concretiza de diferentes formas.

No caso da Enron, por exemplo, artigo no ‘Washington Post’ revelou que jornalistas de veículos expressivos receberam pagamentos da empresa por serviços de consultoria ou outros ‘bicos’ a ela prestados.

A isso se soma o fato, destacado por Russ Lewis, do ‘New York Times’, de que, em contraste com o tratamento reservado a governos e a homens públicos, ‘a imprensa não tem tido um sucesso muito grande no que se refere à revelação dos passos errados dados pelas grandes empresas, particularmente antes que os danos ocorram’.

Como observou Fernando Rodrigues em coluna sobre o assunto quarta-feira, o monopólio dos meios de comunicação, no caso do Brasil, só faz exacerbar as dificuldades do exercício de um jornalismo que se pretende livre.

Já comentei aqui, em diferentes oportunidades, o quanto é ameaçadora para o jornalismo uma terceira forma de concretização dessa permeabilidade: o fato de jornais pertencerem ou serem adquiridos por grupos econômicos cujos interesses se ampliam cada vez mais, em diferentes setores.

Pois basta olhar com atenção o quadro ao lado para perceber que o risco é real, evidente.



Ele mostra de que maneira os seis diários brasileiros mais influentes publicaram na última sexta-feira o resultado de uma entrevista dada pelo presidente mundial da Telecom Italia, Marco Tronchetti Provera, em Milão.

(Registre-se que se tratou de uma conversa amplamente trabalhada e preparada, inclusive com viagem de jornalistas à Itália paga pela empresa de telecomunicações -ao menos assim assumiram ao pé de seus textos, corretamente, a Folha e o jornal ‘Valor’.)

Com exceção do ‘Globo’ e do ‘Valor’, todos deram o assunto no alto de uma página e ‘puxaram’ pela mesma notícia: o grupo italiano admite a possibilidade de vender a participação que possui na Globo.com, empresa de internet das Organizações Globo.
Basta uma perspicácia básica para se dar conta do quanto de satisfação, no mínimo, deve ter provocado, em certos andares desses jornais, a oportunidade de estampar um título com esse conteúdo, que alfineta o mais poderoso grupo de comunicações do país.

Seria ingenuidade atribuir tamanha homogeneidade na edição da notícia a uma prosaica coincidência de critérios puramente jornalísticos.

Já o jornal do Rio fez uma mágica: simplesmente omitiu a declaração, dando destaque a outros aspectos daquilo que o executivo italiano afirmou. Curioso notar que seu texto se baseou na mesma agência de notícias usada, neste caso, pela ‘Gazeta Mercantil’.

Ao mesmo tempo, prensado entre duas paredes (pertence à Folha e ao grupo Globo), o ‘Valor’ adotou posição intermediária: abriu o texto com um terceiro aspecto, mas incluiu no corpo do texto a informação acima destacada.

Para deixar claro: não se acusa, aqui, nenhum jornalista de ter recebido algo da Telecom Italia.

O que se ressalta neste caso (que não foi o primeiro e que, temo, não será o último) é o viés interessado adotado na veiculação de notícias a partir de uma mesma fonte, este sim determinado -mais ou menos conscientemente- por forças ‘maiores’ de mercado, bem mais do que pelo peso específico das notícias.

De um lado e de outro, tudo muito sintomático, revelador e, acima de tudo, perigoso para a liberdade de imprensa."

***

"Esquizofrenia" copyright Folha de S.Paulo, 15/2/02

"Na sexta-feira 8/2, a Folha publicou trecho de relatório do FMI que, entre outros aspectos, atribuía a uma suposta política do Banco Central o estouro da meta da inflação de 2001.

O ministro Pedro Malan contestou a tradução do relatório feita pelo jornal e disse que o Fundo, na verdade, responsabilizava fatores externos ao governo.

No sábado, a Folha noticiou a contestação, revelou que a tradução fora aprovada previamente pelo FMI e que este, ao saber da queixa de Malan na sexta, se desdisse admitindo que o texto original era confuso e dando como correta, afinal, a interpretação do ministro -ou seja, deixou a Folha com a broxa na mão.

Até aí, tudo bem: uma novela complicada e chata, mas tratada com transparência pelo jornal.

O que não deu para entender foi o ‘Erramos’ publicado no mesmo sábado dizendo que o jornal errara, sim, na tradução.

Segundo a direção de Redação, esse ‘Erramos’ saiu por falha. Não devia ser publicado. O jornal optara apenas por relatar os fatos do imbróglio na reportagem, expondo inclusive a ambiguidade do texto em inglês, mal redigido.

Estrago consumado, preferiu-se não fazer nada, já que, na visão da Redação, o ‘Erramos’, em termos literais, visto isoladamente, não estava errado.

Haja confusão."


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