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JORNAL DE NOTÍCIAS
Fernando Martins
"Diálogo é a melhor de todas as armas em todas as guerras...", copyright Jornal de Notícias, 19/1/03
"Gina Lubrano, provedora do norte-americano ‘The San Diego Union Tribune’, na sua primeira coluna deste 2003 que se perfila com horizontes de guerra e de crises económicas e sociais, deixava dois votos, um para os jornalistas, o outro para os leitores.
Pedia para os jornalistas o exercício vigilante do rigor... e para os leitores tolerância - tolerância para com alguns erros resultantes de pressões circunstanciais sofridas pelos repórteres no exercício da profissão.
Conhecendo-se os níveis de preparação daqueles que,nos Estados Unidos, fazem jornalismo (nas grandes metrópoles ou nas pequenas comunidades rurais), e sabendo-se o que os cidadãos esperam dos ‘media’, pareceriam sem cabimento os desejos de Gina Lubrano, não fôra a situação anómala que, desde o 11 de Setembro, os americanos se esforçam por partilhar com todo o mundo exterior ao ‘eixo do mal’.
As denúncias de tentativas de manipulação da comunicação social pela Administração Bush no pós 11de Setembro foram claramente denunciadas fora e dentro dos EUA, e repórteres portugueses que acomparam a Guerra do Golfo, nomeadamente Mário Crespo, explicaram como as peças que enviavam para Portugal eram filtradas por censores que fazem parte das regras do jogo da informação, praticamente em todas as situações de guerra.
A guerra que tem como alvo o Iraque e que é quase universalmente vista como inevitável, parece iminente (há já quem aponte os últimos dias de Fevereiro para o seu início). E o conflito vai introduzir novos dados que, ultrapassando a dificuldade do rigor e a capacidade de tolerância dos leitores, acabará por tornar mais difícil um julgamento equilibrado da informação possível, divulgada pelos dois lados do conflito. Por isso, e ao contrário do desabafo de Mário Moita e Silva, leitor JN na Pampilhosa, não é excessivo o debate que, um pouco por todo o lado, tenta fazer-se sobre a razoabilidade e a legitimidade do ataque que os americanos e alguns aliados preparam -- mesmo sem o aval de uma resulução do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Uma guerra como a que, ao que se diz, já tem data marcada, deixará marcas dolorosas que não vão confinar-se às terras do petróleo, mas que não deixarão de atravessar oceanos para flagelarem as já martirizadas economias débeis.
O ‘Jornal de Notícias’ mantém, desde sempre, uma relação muito especial com os seus leitores. E porque o diálogo aberto pauta essa mesma relação, a tolerância está implícita nesse relacionamento que alguns estudiosos dos ‘media’ portugueses consideram único.
Na edição de quinta-feira passada, uma página foi dedicada à evocação de Paulo Freire, jornalista e pedagogo que, ao longo de cerca de 40 anos, publicou, praticamente todos os dias, no JN, uma coluna de análise dos mais diversos temas do dia-a-dia, muitos deles sugeridos pelos leitores, na praticamente contante conversa epistolar que com eles mantinha.
Foi, assim, no dia em que secelebrava o cinquentenário da sua morte, prestada homenagem à memória de um dos homens que souberam implantar bem fundo as raízes do jornal português mais lido. A verdade é que o preito de justiça ficou a dever-se à sugestão de António dos Santos Ferreira Silva, leitor do jornal há 78 dos 87 anos que leva de vida.
Numa prosa límpida e vigorosa, recordou tempos e lugares da sua meninice ( da marcenaria do pai, no gaveto da Avenida de Rodrigues de Freitas com o Largo de Soares dos Reis, ao quiosque do sr. Soares, que lhe abriu, menino e moço, o horizonte de mil leituras). E evocou, com saudade e gratidão, Paulo Freire, esse homem do sul (nasceu em Caneças e viveu sempre em Lisboa), que amava o Porto ao ponto de querer ser nele enterrado.
Recordo aqui as últimas palavras da carta que António Ferreira Silva endereçou ao Provedor:
‘No próximo dia 16,completam-se 50 anos após a sua morte.Será que Paulo Freire merecerá ser retratado no seu ‘Jornal de Notícias’ que ele amou e onde tanto trabalhou?
‘Eu por mim, sempre que vou a Agramonte, passo pelo jazigo para lhe agradecer, a ele que foi o meu grande professor de moral e civismo’
Paulo Freire foi evocado como exemplo perante as centenas de milhar de leitores que o JN hoje tem. Graças a António dos Santos Ferreira Silva, que bem representa o conjunto daqueles que, com o seu diálogo vivo, tanto nos ajudam!
Cinco universitários, pertencentes a uma comunidade de jovens ‘gays’(‘que são os mais afectados pelo preconceito que se gera também nos ‘media’), dirigiram-se ao Provedor lamentando que o JN partilhe da confusão entre homossexualidade e pedofilia, fazendo como tantos outros ‘media’ a associação de duas realidades distintas.
Os recentemente divulgados casos de pedofilia e de prostituição infantil verificados na Casa Pia levaram a que textos jornalísticos, na televisão, em revistas e nos jornais ampliassem um erro que, também verificado antes do escândalo mediatizado, só agora teve grande visibilidade, implicando no aumento de uma confusão que afecta os ‘gays’.
No JN, o erro teve origem nas declarações de um ex-deputado, publicadas na edição do passado dia 8.
Houve, de facto, uma certa promiscuidade entre as duas realidades bem diversas, pelo que os leitores têm razão no seu protesto. É necessário, no entanto, e na linha dos votos de Gina Lubrano, ser tolerante com a confusão de conceitos, que 50 anos de obscurantismo tornaram um tabú, que demasiados preconceitos não permitem, ainda, que seja mais agilmente ultrapassado.
Sentirem-se ultrajados pelas declarações representará, no entanto, uma exacerbação da sensibilidade. Como qualquer associação entre o descuido (ou a deficiente informação) dos jornalistas, e o propósito de ‘ confundir actos legais (relações homossexuais) com actos criminosos (abusos sexuais)’."
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