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DIÁRIO DE NOTÍCIAS
Estrela Serrano
"Uma questão de fronteiras", copyright Diário de Notícias, 22/10/01
"O Meu Diário, de 15 de Julho passado, ao nome e ao preço praticado por uma companhia a convite da qual a jornalista afirma ter realizado uma viagem às Seychelles que serviu de tema a essa coluna. ‘O hábito (...) de divulgar o nome das empresas que a convidam (...) e de, em asterisco, inserir preços e condições, será ético? Não configurará uma forma encapotada de publicidade?’, pergunta Manuel Pinto, que afirma falar em nome de um grupo de leitores do DN.
Por seu turno, Isabel Domingos refere o facto de Maria Elisa, ‘na qualidade de jornalista, (...) referenciar sistematicamente produtos e lugares’ e pergunta: ‘Se a colunista assina como jornalista não estará abrangida pelo Código Deontológico? Como jornalista não deveria fazer menção a outras companhias que, eventualmente, façam a mesma viagem? Ou só é mencionado quem oferece?’
Solicitado a pronunciar-se, o director do DN, Mário B. Resendes, afirma: ‘O problema não é novo nem é a primeira vez que um leitor do DN questiona a transparência com que Maria Elisa assume o que escreve. Parece-me que, a favor da independência de Maria Elisa, fala toda a sua carreira e o distanciamento opinativo de que nunca prescinde sobre tudo o que escreve. Penso, ainda, que numa coluna com essas características (‘Diário’ de um jornalista) cabem perfeitamente as referências às viagens que a jornalista faz. Aliás, proliferam hoje, como se sabe, as publicações especializadas sobre a matéria, com informação de grande utilidade para largos milhares de pessoas.’
Não é, efectivamente, a primeira vez que o Provedor dos Leitores do DN é chamado a pronunciar-se sobre as fronteiras da informação comercial. Os anteriores provedores, Mário Mesquita e Diogo Pires Aurélio, analisaram casos semelhantes, sendo que, no caso de Pires Aurélio, a queixa incidia, também, sobre uma coluna de Maria Elisa. O Provedor escreveu, então, que ‘na doutrina que tem vindo a impor-se (...) já não é tanto a publicitação em si mesma que se proíbe como, sobretudo, a ausência de espírito crítico e a inexactidão dos dados’. Segundo Pires Aurélio, ‘o que há a fazer é acautelar a autoridade e a independência, de modo que os destinatários possam confiar que as escolhas e as opiniões veiculadas não dependem dos interesses de quem vende’.
As questões colocadas, nessa altura, como agora, não são lineares. Por um lado, a menção de produtos comerciais fora de espaços publicitários, apesar de controversa, poderá justificar-se, mas, nesse caso, devem ser-lhe aplicadas as regras jornalísticas. Por outro, a coluna de Maria Elisa é um espaço de opinião em forma de diário, isto é, um registo de eventos e vivências do quotidiano da autora. As referências aos locais que visita podem, nesse contexto, ser vistas como elementos de uma narrativa de viagens.
O facto de se tratar do ‘Diário de uma jornalista’, como refere o director do DN, coloca a questão, sublinhada pela leitora Isabel Domingos, de saber se a sua autora, escrevendo num registo não jornalístico, pode alhear-se dos princípios deontológicos aos quais, como jornalista, está vinculada. Os códigos deontológicos são omissos relativamente a isso. Mas o facto de recomendarem aos jornalistas que evitem o conflito de interesses - ou a simples aparência disso - e que recusem ‘benefícios susceptíveis de comprometer o seu estatuto de independência’, constitui uma indicação de que a deontologia é para valer em todas as situações. É certo que os jornais contêm, já, algumas rubricas ambíguas - como automobilismo, moda, turismo, entre outras - e que, apesar do esforço de muitos jornalistas, que tratam esses temas, para manterem uma visão crítica, ficam sempre algumas dúvidas sobre a independência com que são abordados.
É, igualmente, verdade, como refere o director do DN, que ‘proliferam hoje (...) as publicações especializadas sobre (turismo) com informação de grande utilidade para largos milhares de pessoas’. Mas não é disso que se trata no texto em análise nem é essa a expectativa dos leitores relativamente à sua autora. Daí as dúvidas e perplexidades manifestadas por Manuel Pinto e Isabel Domingos.
A Provedora está de acordo com a afirmação do director do DN, quando diz que ‘numa coluna com as características de ‘Diário’ de uma jornalista’ cabem perfeitamente as referências às viagens que a jornalista faz’. Contudo, entre a referência a viagens e locais visitados - sem dúvida normais num texto do género ‘Diário’ - e o fornecimento de informações utilitárias de carácter turístico, passa a linha de fronteira da informação promocional, independentemente do interesse e veracidade das informações fornecidas e do ‘distanciamento opinativo’ da jornalista, a que se refere Mário Resendes."

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