ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 569 - 7/9/2010
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CONFECOM & COP-15

Eventos sem instrumentos, resultados comprometidos

Por Alberto Dines em 22/12/2009

Todas as conferências se parecem: todas mobilizam, todas produzem ruído, todas geram formidáveis expectativas e quase todas deixam enorme saldo de frustrações.

Os organizadores da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP-15), reunida em Copenhague, não tinham o direito de errar. Dispunham do suporte das maiores entidades internacionais, são experimentados na organização de grandes eventos e apoiados por todos os tipos de Gs – do G-2 ao G-77. E, no entanto, erraram.

A Rio-92, Eco-92 ou Cúpula do Clima foi organizada com metas menos ambiciosas: consagrar um novo conceito de progresso, o desenvolvimento sustentável. Produziu um compromisso (a Agenda 21) e criou uma agência, a Comissão de Desenvolvimento Sustentável dentro do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas.

Em 1997, no Japão, o mundo voltou a se reunir para discutir e proclamar o Protocolo de Kyoto, que deveria ser subscrito por todos os participantes e iniciar o controle efetivo das mudanças climáticas. O então presidente americano George W. Bush não concordou, o protocolo dançou.

Metas precisas

Os organizadores da COP-15 foram ousados e/ou delirantes: acreditavam que a comunidade internacional estava suficientemente alertada e motivada para os riscos do aquecimento global e que ao longo de doze dias as grandes lideranças, devidamente pressionadas, seriam capazes de chegar a algum tipo de consenso. Efetivamente chegaram a um consenso: o de que o consenso era impossível. Naquelas circunstâncias.

O mundo cansou-se do foguetório dos eventos, a sociedade do espetáculo já não se anima com espetáculos, prefere menos holofotes e mais transpiração. Os mais poderosos líderes mundiais hoje têm predileção por trabalhar em surdina, com menos exposição e menos pressão. Não estão ali para fazer sucesso pessoal, colher aplausos e ganhar direitos autorais. Têm contas a prestar a eleitores (no caso de democracias) ou aos birôs políticos (no caso de regimes autoritários). Igualmente exigentes.

O sabor de fracasso da Conferência de Copenhague certamente produzirá um elenco de iniciativas mais realistas. Instrumentos podem produzir milagres desde que precedidos de intensas negociações, em cima de agendas e metas precisas. O desenlace negativo talvez tenha sido extremamente positivo.

Tudo como dantes

A 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom) realizada em Brasília teve todos os defeitos estruturais dos eventos, acrescidos da falta de experiência. Vilã foi a ausência das seis maiores corporações empresariais – que não se importaram em assumir publicamente o papel de algozes do consenso. Não queriam o confronto e ingenuamente ajudaram a prepará-lo a médio prazo. Isso não é estratégia, é absoluta falta de inspiração e de malícia.

O erro maior foi a fascinação com o espetáculo político. O governo que assistiu impassível à brutal liquidação do Conselho de Comunicação Social (CCS) deveria tê-lo reavivado no início de 2009. Reeleito para presidir o Senado, José Sarney jamais permitiria o renascimento de uma entidade que detesta antes mesmo de regulamentada (ver "E a sociedade civil?", na edição nº 1 desde Observatório). O governo não tentou demovê-lo, preferia não ameaçar a coesão da base aliada.

O CCS seria o incubador natural de uma agenda para desintoxicar o ambiente, modernizar a estrutura e distender as posturas do setor de mídia. Como órgão auxiliar do Congresso Nacional, desprovido de poder, poderia ao menos identificar as carências, produzir diagnósticos e reconhecer oportunidades mais visíveis.

Ao longo dos seus dois anos de existência efetiva (2003-2005), o CCS jamais registrou confrontos entre empresários, profissionais e representantes da sociedade civil. Num ambiente restrito, obrigatoriamente marcado pela civilidade, seria possível desenvolver aquela pequena plataforma de convivência e negociação. Isso não interessava aos quase 50% de parlamentares-concessionários (Sarney incluído). Muito menos às redes de radiodifusão às quais estão atrelados.

A Confecom fez barulho, chamou a atenção, obrigou o grosso do empresariado a revelar a sua intransigência, mas dificilmente produzirá qualquer alteração substantiva antes das próximas eleições presidenciais.

Eventos chamam a atenção, mobilizam apoios e também estimulam resistências. É tênue a linha que separa o evento exitoso do evento fracassado. Instrumentos produzem resultados.

 

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Lições de manipulação – A.D.

Comentários (9)
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Flavia Martins , São Paulo-SP - socióloga
Enviado em 13/1/2010 às 10 17:49:57
Agora, com respeito à Confecom, é, da mesma forma, necessário dizer com que régua a medimos. O autor diz apenas "fracasso". Fracasso com respeito ao quê? O que ele esperava da Confecom que não foi atingido? Não está claro. Ela foi um processo de encontro democrático entre movimentos, empresários e governo, trazendo gente de todo o país para dialogar sobre o que é necessário mudar nas leis de comunicação do nosso país. Da Confecom não poderiam sair leis aprovadas. Como sabemos existem dois processos para escrever leis: Um é pelo legislativo outro por MP. A Confecom pode servir no máximo como um indicativo para a feitura de novas leis e um indicador da legitimidade das mudanças que se fizerem. Ela foi um canal de consulta, e muito mais sólido - ou menos leviano - do que uma consulta pela internet, pois as propostas todas tiveram que ser discutidas e negociadas. Agora é com o próximo governo. Imagino que este governo nem vai ter tempo de transformar as leis, pois este ano é eleitoral. Não vai ter santo que faça o legislativo se concentrar em um projeto tão complexo neste ano. A Confecom, ao meu ver, foi vitoriosa em duas frentes: 1. Propostas que são fruto de estudos e discussões aprofundadas, além de serem fruto das experiências de décadas dos movimentos sociais com estes problemas. 2. Conseguiu ser feita em 2009, sem entrar em ano eleitoral.
Flavia Martins , São Paulo-SP - socióloga
Enviado em 13/1/2010 às 10 17:25:40
Me desculpe, mas achei o artigo péssimo. Primeiro por que, como sabemos, se as coisas têm o mesmo nome isto não significa que sejam a mesma coisa. Então o autor coloca tudo o que se chama Conferência no mesmo saco. Não há como comparar uma reunião de governantes de nações com uma reunião de cidadãos vindos de movimentos sociais, a começar por que há uma diferença básica: os primeiros têm poder, os últimos são sem-poder. Depois, achar que as conferências sobre o clima dão tudo em fracassos é desconsiderar os dados. Há cientistas e ambientalistas que reclamam que não é o bastante. Eu mesma não acho que seja. Isto é diverso de engolir o papo dos que dizem que foi um fracasso. O nosso governo, por exemplo, já está avançando em metas climáticas. A China também. E isso tudo é resultado não de uma Conferência. Achar isso é ter visão míope. É resultado de mais de uma década de conferências, negociações difíceis em que os avanços dependem do que é de fato feito depois de alcançados acordos, além de muito mais tempo de sensibilização das pessoas com relação a esse assunto e ao que seus governos fazem a respeito. Para além disso, eu gostaria de saber qual a medida, a régua usada para medir o fracasso de que o autor fala. Fracasso com relação ao quê? Fracasso comparado com quais dados?
Edna Madalozzo , Campinas-SP - Jornalista diplomada
Enviado em 4/1/2010 às 10 12:13:12
Não existe interesse em modernizar a comunicação no Brasil. Não existe hoje, não existiu no passado e dificilmente existirá no futuro, enquanto estiverem no poder a velharia política conservadora. Mas fazer barulho é bom: alerta dissemina opiniões, faz pessoas prestarem atenção em assuntos dos quais nunca se atinaram, como é o caso das vergonhosas concessões... e por aí vai. A Confecom valeu, não só pelo barulho que produziu, mas por levantar um assunto aré hoje abafado pelas oligarquias.
Julio Cesar  Montenegro , Fortaleza-CE - Aposentado
Enviado em 25/12/2009 às 09 10:52:12
Basta acompanhar o que acontece na manipulação midiática do dia-a-dia pra ver as redes de interesse de globos, folhas, estadões e abrils querendo envolver e sufocar a democracia no Brasil. Como eles fizeram um presidente eleito & querido pelo povão, Getúlio, se suicidar. Ajudaram milicos e empresários a corroer o poder e derrubar um vice-presidente eleito pelo voto da maioria dos eleitores, João Goulart, propiciaram o golpe subsequente em 1964 e acossam Lula desde que inventaram o caçador de marajás e inflaram o principe dos sociólogos até mudando a constituição pra reelegê-lo. E nunca deixaram de tentar diminuir alguém cada vez mais engrandecido para uns 80% de brasileiros e (isso pros colonizados, costumava impressionar...) considerado grande até por obamas, le mondes e economists. Mas parece que as prestidigitações, de tão repetidas, começam a desmoralizar seus truques. Espero que dona Dilma confirme essa mudança de ... paradigma.
Cristiana  Castro , Rio de Janeiro-RJ - Advogada
Enviado em 25/12/2009 às 09 02:12:20
Dines, Feliz Natal, pra vc. Quanto a Confecom e COP -15, não nos preocupemos, toda e qq mudança, de fato, passará pela rede. a gente vai conseguir tudo. Não contabilizemos fiascos, eles não nos dizem respeito, a web é vencedora desde sempre e para sempre. Feliz Natal e um excelente 2010 a todos do OI. E, ao Dines, muita paciência para o próximo ano, 2010 promete ser punk.
Ibsen Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 23/12/2009 às 09 07:47:30
Bom, vamos corrigir alguns erros do meu texto anterior: ... Eu, como "pessimista" inato... ... pouco "importam" os resultados SObre a TV pública, sua programação é muito boa, a questão é torná-la atrativa ao telespectador. Sobre a Confecom, as boas propostas não vingarão porque não interessam aos oligopólios midiáticos, nada a ver com uma falsa afirmação de manipulação da confecom por parte do PT. A mídia não precisa de controle, precisa de regulação, precisa de rumo, precisa de objetivos outros que não os comerciais e precisa, definitivamente, se afastar da participação de políticos em seu comando. Uma vergonha inconstitucional que resiste bravamente à ética e ao clamor por mudanças. A questão da programação religiosa também precisa de regulação. Que haja canais religiosos que sejam sintonizados por quem os quer ver, mas que se elimine essa compra desmedida e sem critério de horários em emissoras da Tv aberta. É incrível; em determinadas horas não há nada na TV que não sejam programas religiosos alienantes.
Carlos Lopes lopes , Belo Horizonte-MG - Analista de Sistemas
Enviado em 23/12/2009 às 09 02:29:34
Pelo que leio, pouco na chamada grande imprensa, e pelo que vejo, pouco, também, esta tal de Confecom foi um fracasso rotundo. Mais uma experiência petista para tentar controlar a imprensa. Mais uma obra dos çabios que inventaram a tal tv pública, também conhecida como tv traço, aquela que ninguém vê, viva franklin martins, viva tereza cruvinel. este é o legado desta gente incompetente. esperemos que em 2010 todos passem para a bistória da incompetência da comunicação brasileira.
Ibsen  Marques , Caçapava-SP - Técnico em Eletrônica
Enviado em 22/12/2009 às 09 15:07:08
Os otimistas sempre poderão dizer que essas conferências trazem visibilidade maior aos problemas urgentes. Eu, como pesimista inato (já nasci chorando) duvido do desencadeamento positivo dessas conferências, acho que o planeta já está em irremediável rota de colisão com o fim e, por isso, pouco importa os resultados da Confecom, que de qualquer forma também produziu resultados com comprometimento pífio.
Tadeu Santos , Araranguá -SC - Ativista socioambiental
Enviado em 22/12/2009 às 09 15:05:38
Nós leigos entendemos que uma conferência deveria antes de tudo ser abrangente e democrática, oportunizando todas as tendências e correntes da ciência, juntamente com os atingidos/testemunhos, num debate amplo sobre o aquecimento global. Entendemos também que deveria haver uma identificação das várias formas de emissões, classificá-las e encontrar os procedimentos mais adequados de como reduzi-las sem causar falência a nenhum setor, porém é preciso sacrifício por parte do poluidor. Enquanto não houver recuo do lucro de nada adiantará discutir entre as partes, partes todas comprometidas com o poder econômico. A ONU não deveria reformular a COP? Torná-la mais socioambiental? O que vimos nesta COP 15 foi uma imposição do poder econômico que polui o planeta, agindo por trás dos governantes, com o discurso de que os mesmos não podem reduzir as emissões porque geram divisas e empregos. Enquanto que ao mesmo tempo os governantes priorizavam a quantidade de dólares que iriam botar em cima da mesa, mesa que apontava dados sobre o desequilíbrio do clima na Terra. Estão distorcendo tudo. Dos 700 brasileiros que foram à Dinamarca, por exemplo, apenas 10% entendiam do que tratava a conferência, o resto foi fazer turismo e campanha eleitoral.
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