Indice Jornal de debates A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Caderno do leitor

Marco Antonio Rocha

"Kenneth Starr é o homem que pode remover do cargo o presidente dos EUA. Se retirarmos um ‘erre’ do seu sobrenome, estará em parte explicado o seu empenho nessa missão. A imprensa brasileira diz que ele é "Promotor especial’. No Brasil, promotor é um funcionário público incumbido de acusar o réu em nome da sociedade. Starr não é funcionário público. É um independent counsel, ou seja, um advogado contratado para proceder a uma investigação que leve o acusado aos tribunais.

Quem o contratou e lhe confere poderes?

Janet Reno, ministra da Justiça, amiga de Bill Clinton, por ele nomeada, e que acumula também o cargo de attorney general, parecido com o de procurador geral da República, no Brasil. Isso há cerca de quatro anos, para investigar os negócios imobiliários no Arkansas (caso Whitewater).

Durante todo esse tempo Starr foi obtendo de Janet Reno todas as autorizações que solicitou para ampliar suas investigações. Assim, entrou no caso Paula Jones e agora no de Monica Lewinsky. Já gastou US$ 35 milhões do governo americano, junto com sua equipe de colegas de escritório, e nunca chegou a qualquer prova que sirva para condenar o réu num tribunal.

Além disso, é republicano convicto, o que sugere que, com ‘amigas’ como Janet, o presidente americano não precisaria ter inimigos.

Quem também não precisaria ter inimigos é Monica Lewinsky, pois foi sua ‘amiga’ Linda Tripp que gravou as conversas telefônicas entre ambas e levou as fitas aos ouvidos de Starr. Linda trabalhava com o ex-presidente George Bush (republicano) e ao término do mandato, este arranjou-lhe emprego no Pentágono , onde conheceu Monica.

Monica jurou para Starr que nunca fizera sexo com Clinton. Mas nas fitas gravadas diz que fez. Em qual das duas conversas estaria mentindo? Agora seu advogado afirma que ela está disposta a contar tudo o que sabe, desde que não seja processada pelo perjúrio anterior. É a própria figura da testemunha desmoralizada. Ninguém nunca saberá se tudo o que ela sabe é verdade ou mentira.

O mundo assiste perplexo a um espetáculo circense, onde palhaços, mágicos e mímicos desenvolvem uma pantomima realimentada pela mídia, por sua vez refém dos baixos instintos da patuléia. Só que, diferentemente do que acontece nos circos, a platéia pode vir a sofrer de fato com o desfecho do enredo.

Tudo sugere que Hillary tem razão ao dizer que se trata de uma perseguição permanente contra seu marido por parte de um mesmo grupo de adversários. Quanto às atividades sexuais dele, não deveriam Ter nenhuma correlação com as de estadista - e nisso concordo com Anthony Lewis."

 

"American Graffiti", copyright Gazeta Mercantil, 28/1/1998.

 

 

 

Nelson de Sá

"A TV Câmara, que estreou ontem, era enaltecida por um deputado pefelista e outro petista. Para ambos, trata-se de informar o eleitor, não de vender boa imagem.

Mas é de publicidade que se trata, não de transparência, como disseram. A TV Câmara está sob as ordens dos deputados."

* * *

"Passam as gerações e nada muda. O Jornal Nacional abriu horário, ontem, para ACM lembrar como era bom o regime militar.

"TV chapa-branca", Folha de S. Paulo, 21/1/98.

 

André Lara Resende

"Há quase três anos, no início de março de 1995, escrevi o primeiro artigo para esta coluna. Tratava do que me parecera uma desastrada condução por parte do Banco Central da alteração da política cambial. Na semana seguinte, fui buscar num poema de Sylvia Plath a expressão de um momento de indignação com o tratamento dado ao episódio por parte da imprensa. (....)

Ao longo da história, o significado e a importância relativa da vida pública e da vida privada muito mudaram, mas a tensão entre elas continua sem solução. O desejo de expressar-se é vital.

O mundo moderno, a democracia de massas, regida pelos meios de comunicação, criaram a possibilidade de expressão por intermédio do simples fato de ser conhecido. A celebridade, aquele que é conhecido por ser conhecido, é um fenômeno de nosso tempo. A necessidade de criar celebridades, associada à irresistível tentação de destruí-las, multiplicou as possibilidades de acesso à notoriedade.

Em contrapartida, parece-me, houve uma profunda desvalorização da política. O recente interesse pela história da vida privada, a valorização da vida empresarial, a atenção dada pela literatura à vida medíocre do João-Ninguém são apenas alguns dos sinais da profunda e, em muitos aspectos, altamente positiva mudança dos valores relativos entre o público e o privado.

Já vou longe e ainda não cheguei ao que pretendia dizer. Encerro com este artigo minha contribuição para a Folha nesta coluna.

Desde meados do ano passado, passei a integrar a assessoria da Presidência da República. A Folha, que tem o saudável hábito de não ter colaboradores permanentes em funções públicas executivas, considerou que não havia incompatibilidade. Depois de alguns meses, sinto-me excessivamente vinculado ao governo para continuar. Acho que há economia demais e comentaristas em excesso nos jornais. Sempre que pude, procurei tratar de outros temas, mas fica difícil evitar por completo a economia e a política.

Ao aceitar o convite para escrever semanalmente, perguntei-me primeiro, se seria capaz de encontrar tempo e, mais substancialmente, o que me levava a fazê-lo. Três anos depois, constato que, obrigado a encontrar tempo, escrever regularmente para um jornal de grande circulação é uma rara oportunidade de expressar-se. Um tal privilégio, que é bom não abusar e recolher-se ao silêncio de tempos em tempos."

 

"De tempos em tempos", Folha de S. Paulo, 27/1/98

 



Continuação do Entre Aspas





Observatório | Índice da edição | Cadernos | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você