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COBERTURA
Fernando Pedreira

"O grande noticiário", copyright O Estado de S. Paulo, 27/08/00

"Bons repórteres precisam de boas fontes, bons informantes. Tempo houve em que era conveniente gozar da intimidade, quando menos, de dois ou três ministros e políticos graduados, de coronéis e generais próximos do Alto Comando e, até, numa certa época, de sargentos e suboficiais das Forças Armadas. Não era mole.

A luta de classes marxista havia se infiltrado nas fileiras, a ponto de produzir uma rebelião de sargentos em setembro em 1963, em Brasília, um complô de pára-quedistas em princípios de novembro do mesmo ano e a célebre revolta dos fuzileiros navais, no Rio, já em março de 64. Tudo isso, com o apoio ‘do alto’, misturado a um complexo sistema de informações e desinformações, desmentidos, boatos variados...

Desde bem cedo, fiquei sendo mais analista e comentarista político do que propriamente repórter, e me louvava muito não só no que lia, mas nas informações de colegas que trabalhavam a meu lado, em Brasília. Nós formávamos um pequeno grupo e estávamos sempre juntos, fraternalmente unidos e solidários: o Castelinho, o Evandro, o Otacílio Cara-de-Onça, alegre e valente como poucos, o Fernando Lara, irmão do Otto, o Benedito Coutinho e mais alguns. As informações eram em geral as mesmas (ninguém se ocupava com ‘furos’), mas os critérios, opiniões e maneiras de ver eram pessoais: cada um tinha os seus e, freqüentemente, o Otacílio e eu, por exemplo, de uma mesma conversa com o Raul Riff ou com alguma outra fonte importante, publicávamos versões diferentes, às vezes até divergentes.

Política, dizia o velho Magalhães Pinto, é como nuvem: você olha e está de um jeito; no minuto seguinte, olha de novo e já está tudo completamente diferente. Vale mais a interpretação, a compreensão, a capacidade de ligar fatos e versões: distinguir (como diria o jovem Gibbon) o permanente do provisório e o acessório do principal; separar fatos que vão ter conseqüências históricas de outros muitos que servem apenas para colorir a paisagem do dia ou o retrato de uma qualquer figura política.

E é preciso ainda muito tino para conhecer, saber avaliar os propósitos e intenções verdadeiras, em geral cuidadosamente disfarçadas, dos homens no poder e dos próprios informantes, que não são nunca muitos. Em nosso tempo de Brasília, os personagens de verdadeira relevância não eram mais do que 20 ou 30, dentro e fora do Congresso. Perder tempo com os outros era o sinal mais evidente de que o repórter estava por fora, não sabia seu metier.

Podia-se até ser ingênuo e puro – eu mesmo degluti duas ou três avantajadas moscas, logo no início, fornecidas por meu amigo José Aparecido –, mas era preciso, sobretudo, não ser tolo nem esperto demais. Há os que, vez ou outra, tiram vantagens indevidas de seu contato com o poder; mas muito mais nocivos e mais comuns são os que, por simples deslumbramento, subserviência ou afinidade ideológica, se identificam com seus informantes e passam a recitar sua ladainha encomendada, freqüentemente irrelevante, como se fosse o próprio Evangelho de São Mateus.

Carlos Lacerda irritava-se muito, naquela época, porque os principais repórteres, não só os de Brasília, mas também o Villas Boas Correa e o Heráclio Sales, do Rio, em vez de ouvi-lo (ele, que supunha saber tudo), preferiam ouvir, entre outros, um político matreiro e competente chamado Armando Falcão, que foi líder da maioria e ministro da Justiça de Juscelino, mas era, sobretudo, homem ligado aos militares, o que tornava ainda mais ‘quentes’ suas eventuais revelações.

Só fui conhecer pessoalmente o Falcão anos mais tarde, já nos tempos do general Geisel; mas, em 1964, tive também o meu graduado informante militar, que era o coronel Costa Cavalcanti, então deputado por Pernambuco, oficial estreitamente ligado aos marechais Costa e Silva e Castelo Branco, e que participou dos preparativos da operação militar daquele ano. Várias das informações do coronel-deputado estão no meu livro Março 31, com a devida referência à fonte.

Hoje, generais e coronéis estão em baixa. As instituições andam firmes; a própria economia, que ainda ontem parecia tão assustadora, já não rende grande coisa; a crise amainou e os índices todos, ou quase todos, anunciam bonança. Onde descobrir (ou reinventar) o escândalo?

Num país como o nosso, por melhor ou menos mau que seja o governo, não é preciso procurar muito: o escândalo é a injustiça social; é a corrupção pública. A conseqüência é que o moralismo, que era antes udenista (lacerdista), se tornou petista, embora não saísse de onde sempre esteve, isto é, do eleitorado pequeno-burguês de classe média. Por sua vez, as fontes mais prezadas e requisitadas pelos nossos solertes repórteres, ao lado dos líderes políticos de sempre, são hoje os procuradores do Ministério Público, os cabeças do MST, os padres da CNBB e, para os mais sofisticados, até mesmo os capitães do tráfico, o Uê, o Fernandinho Beira-Mar, o Marquinhos não-sei-quantos.

Melhoramos? Pioramos? Não sei. Mas o fato é que o grande noticiário é cada vez menos político e cada vez mais policial, cada vez mais bandido.

Vade retro. (Fernando Pedreira é jornalista)"




DENUNCISMO vs. IMPUNIDADE

Onofre Carlos de Arruda Sampaio

"Um falso dilema", copyright O Estado de S. Paulo, 28/08/00

"A sociedade brasileira vem sendo posta diante de um falso dilema.

Trata-se da tentativa de procurar dividir a opinião pública, fazendo acreditar, a uns, que os escândalos que vêm assomando às manchetes dos jornais e às telas das televisões são fruto da falta de meios legais para evitá-los e reprimi-los e, a outros, que esse alarido decorre de um denuncismo irresponsável de tantos quantos vivem a propor-se a condição de tutores privilegiados da sociedade.

Tal dilema é, efetivamente, falso.

Não há como negar que o setor público vem dando clara demonstração de desprezo pelas mais comezinhas regras de comportamento ético, sem que se possa atribuir tal estado de coisas à falta de meios legais para evitá-lo e reprimi-lo. Ao mesmo tempo, porém, há evidência de que certos órgãos encarregados de exercer o poder de polícia e o jus puniendi, atributos exclusivos da máquina do Estado, se acham contaminados, ao menos em parte, por um manifesto excesso de zelo, com o que se dedicam a tentar fazer prevalecer, sobre os princípios fundamentais do Direito e o texto claro das leis, convicções pessoais, ou corporativas, deixando-se apanhar, muitas vezes, pela indefectível síndrome da ribalta, expressão do mais puro comportamento exibicionista.

Não é por falta de instrumentos legais que a administração pública vem, frouxamente, deixando que ocorram e relevando os desvios – próprios e de terceiros – dos quais pretende, agora, vindo os escândalos à tona, se desculpar. Tampouco é pela falta de leis, ou por serem elas muito brandas, que os culpados vêm permanecendo impunes.

O que não se esclarece à sociedade, e aí reside a falsidade do dilema que se lhe quer impingir, é que leis existem e o que falta é aplicá-las com eficiência e seriedade. Não será, portanto, por meio de deliberados ‘vazamentos’ para a imprensa sensacionalista, muito menos ‘plantando’ notícias, para, depois, delas se utilizar, como se provas fossem, que se vai chegar à condenação dos efetivamente culpados e à absolvição dos inocentes.

Tal método levará apenas a uma condenação pública, tão açodada quanto injustificada, e a uma absolvição processual certa e necessária, na medida em que o Judiciário não se venha a deixar, como não se tem deixado, levar por expedientes desse jaez.

O perigo maior que nos ronda, porém, é que a justa indignação e o clamor público gerados por esse estado de coisas vêm sendo aproveitados para dar a impressão de que é necessária, e até mesmo imprescindível, a promulgação de mais leis, e de leis com caráter excepcionalmente autoritário, para que se possam repor as coisas nos seus devidos lugares.

Na verdade, com isso se está a tentar salvar as aparências, escondendo o que há de efetivamente relevante na questão, ao mesmo tempo que se embala, nessa atoarda, um desejo quase sempre presente, embora não confessado, de disporem as autoridades de maiores e mais genéricos poderes, vício esse inerente à própria natureza do estamento público, mesmo quando ele se acha integrado a um regime democrático.

Aproveitar-se da situação de perplexidade e torpor que atinge a sociedade para tentar fazer com que as garantias constitucionais – sobretudo a da presunção de inocência e da ampla defesa, que constituem o cerne do devido processo legal – sejam tidas e havidas como obstáculos insuperáveis à apuração dos fatos delituosos e à punição dos culpados é algo que não se pode, efetivamente, admitir. Não é, portanto, em nome de um necessário saneamento moral e eficiência persecutória que se justificará a edição de medidas excepcionais que enfraqueçam, e até mesmo possam neutralizar, a aplicação prática desses princípios e valores, duramente conquistados, a preços historicamente conhecidos.

Sabe-se de antemão onde desembocam tais atalhos.

É, pois, preciso que a sociedade civil esteja alerta para coartar tais expedientes e se dê conta de que, se há um notório estado de ineficiência, relaxamento moral e de descontrole no setor público, quer se trate da administração direta ou indireta, ou mesmo dos órgãos encarregados de perseguir os infratores da lei, isso não decorre da falta de leis ou do fato de que estas sejam brandas ou inaplicáveis, nem em razão de acolherem garantias e direitos individuais, que de há muito se acham reconhecidos internacionalmente e incorporados ao patrimônio dos cidadãos que fazem parte das sociedades civilizadas e democráticas.

É necessário reconhecer que tal estado de coisas vem decorrendo de manifesta falta de capacidade e vontade pessoal dos envolvidos, de inadequada ação corporativa – e até de insuficientes condições materiais –, com vista a dar estrito cumprimento às leis vigentes, tal qual elas se acham redigidas, e não por falta ou falha legislativa.

Não se deve, da mesma forma, acatar o diagnóstico, tão fácil quanto simplista, de que tudo decorre de um injustificado formalismo dos órgãos judicantes, ou da existência de excessivos recursos processuais, quando, na verdade, muitos dos verdadeiros culpados se acham impunes em razão de falta de trabalho investigativo apropriado, de acusações mal formuladas e de provas não produzidas nos autos – pelos meios lícitos – que possam justificar uma condenação.

Diante desse quadro, que não cessa de agravar-se, cabe aos operadores do Direito, sobretudo aos advogados, aos membros do Ministério Público – os que corretamente entendem o seu dever –, à magistratura, assim como à imprensa séria e responsável, esclarecer a população, tanto no que diz respeito à verdadeira origem das mazelas que nos afligem quanto aos riscos que corre em aceder à tentação de acreditar que só com o enfraquecimento das garantias e direitos fundamentais e com a disposição de leis excepcionais e do poder de arbítrio pode a administração pública – nos seus diversos estamentos – exercer, a contento, o seu papel. (Onofre Carlos de Arruda Sampaio é advogado em São Paulo)"




ELEIÇÕES NA TV

Luiz Caversan

"Nem publicitário aguenta o horário político" , copyright Folha de S. Paulo, 30/08/00

"Nem mesmo especialistas em vender produtos e idéias, os publicitários, aguentam o que está no ar para vender candidatos a prefeito e vereador.

A conclusão foi possível depois de ouvir três gerações da premiada publicidade brasileira: Francesc Petit, da DPZ, Washington Olivetto, da W/Brasil, Rodrigo Butori, da recém-criada Cápsula, e, também para dar o indispensável toque feminino, Ana Carmen Longobardi, da Talent.

Todos eles têm um dado em comum: não fazem campanha política. Invertendo a ‘hierarquia’ de gerações, fala Butori, 26 anos:

‘A coisa está ruim. Acho que é o pior ano que já vi. Geralmente, a propaganda política é muito mal produzida, feia, malcuidada, não dá tempo de produzir vídeos muito bonitos devido à necessidade de respostas rápidas. A mais bonitinha das que estão no ar é a do PT: é propaganda disfarçada no formato de entretenimento, de diversão. É mais agradável. A propaganda do Maluf, ao contrário dos outros anos, está muito feia.’

Agora, Olivetto, para quem o horário eleitoral, se fosse bom, ‘não seria obrigatório’ e que não faz propaganda política porque não anuncia ‘um produto que não pode ser devolvido’:

‘No mundo inteiro são raras as brilhantes campanhas políticas. Dois momentos importantes na história: a campanha de Ronald Reagan (ex-presidente dos EUA), que era muito interessante, e a realizada por Jacques Seguelá para a primeira candidatura do Mitterrand (François Miterrand, duas vezes presidente francês): ele mandou serrar os dentes caninos do Miterrand, porque eles eram muito compridos e deixavam o candidato com cara de diabo...’

‘Se no mundo as boas campanhas já são raras, no Brasil é ainda pior. O pessoal faz pesquisa e pega um tema que pressupõe ser uma ansiedade do consumidor e/ou eleitor. Então, está todo mundo falando de segurança. E como todos usam aquela formulazinha ensaiada, artificial, parece que o candidato está dublado.’

‘Nos comerciais avulsos, o problema chave é a falta de conteúdo, que é fundamental em campanhas políticas. O produto deve ter algo a dizer para eu fazer propaganda boa.’

Qual seria, então, a solução? ‘Eu gosto muito dos debates. E acho que a legislação deveria ter alguma coisa para evitar que um cara candidato a vereador prometa impunemente que vai fazer distribuição de renda. Precisamos de mais informação verdadeira e menos persuasão artificializada.’

Petit fez uma revelação: sempre sonhou em elaborar campanhas, embora nunca as tenha feito. ‘A política me fascina’, disse.

Como exercício, propôs quatro campanhas para candidatos que escolheu, criando em cima dos ‘protótipos políticos’. Eis um resumo: ‘Luiza Erundina, fervorosa lutadora da esquerda mais radical, tem por obrigação assumir o seu papel, com discursos inflamados e propostas revolucionárias, chamando o proletariado para as grandes injustiças sociais, gritando aos marreteiros seus direitos como brasileiros, como patriotas que devem lutar pelo seu espaço, pelo seu barraco, num discurso bem fundamentado nos princípios esquerdistas’.

‘Para o sr. Paulo Maluf, faria uma campanha inspirada nas suas qualidades, homem de finos costumes, frequentador das maiores metrópoles do mundo. Não é um defeito, pois São Paulo é rica, pujante e não pode cair nas mãos de um pé de chinelo.’

‘O candidato Romeu Tuma merece uma campanha muito especial, pois não me parece adequado chamá-lo de xerife. Não podemos colocar o sr. Tuma na mesma prateleira dos famosos xerifes interpretados por Clint Eastwood, Gary Cooper ou John Wayne. O sr. Tuma é um profissional. Faria uma campanha de um patriota brasileiro bravo, enfadado com o crime, um homem que diz com o olhar que não está para sorrisos e brincadeiras.’

‘Para Marta Suplicy, faria outro logotipo, um Marta mais pessoal, escrito à mão. Sua campanha não deve combater os outros candidatos; ela deve se centralizar nas suas qualidades e suas causas e esquecer os defeitos dos outros. Ela deve representar de fato a mulher pública moderna disposta a lutar pelas grandes causas, mas sem a retórica anacrônica do PT.’

Por último, a opinião feminina e abalizada de Ana Carmen Longobardi: ‘Eu observei que existem partidos (um deles é o PT) que têm procurado fazer uma campanha mais elaborada. Você vê que existe uma produção bem cuidada, existem comerciais no modelo do que se faz para um produto. Não estou falando de conteúdo, mas sim de forma: a mais profissional é a campanha do PT’.

‘Mas o que mais atrapalha a vida da gente é o produto anunciado. Quando você começa a ouvir, a prestar atenção nas plataformas, você fica desesperada. É muito difícil avaliar em que grau uma campanha bem elaborada ou eventualmente um conteúdo menos enganador vai surtir efeito. Porque é uma sopa tudo o que você vê. Culminando com a cara de pau de políticos como Miguel Colassuono e Brasil Vita, que até outro dia estavam fazendo o maior conchavo.’

‘Não gosto de que a propaganda seja obrigatória, ainda mais aquele filme de terror de fotos três por quatro sem nenhuma mensagem. São irrelevantes em termos de conteúdo e chegam a chamar a gente de palhaço. Acho que deveria ter alguma coisa dizendo que o horário político pode causar prejuízo para sua saúde.’"




Ulisses Mattos

"As novas ondas e caras da TV", copyright Jornal do Brasil, 31/8/00

"A campanha dos candidatos a prefeito na TV está esquentando mais. A conclusão não vem das incríveis cenas de Sirkis, do PV, sem camisa, pegando jacaré na praia. A constatação pode ser tirada das novas armas usadas na briga entre os adversários no horário eleitoral de ontem.

Ronaldo finalmente contou com a mãozinha do colega do PSDB, Fernando Henrique Cardoso. E foi só a mãozinha mesmo, já que o presidente só acenou para a câmera. As sábias palavras de um dos ‘homens que têm audácia de mudar a história’, só foram para Ronaldo, que ouvia tudo sorrindo numa varanda florida.

Enquanto isso, nas ruas da Penha, Conde levantava a vozno meio da multidão para cantar o samba Odete, como vinha fazendo na campanha do rádio. O clima da propaganda de Conde agora, com a vantagem nas pesquisas, é de festa. Teve até a vice-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento sambando no Borel.

Brizola apareceu depois jogando água no chopp de Conde, exibindo uma gravação de quatro anos atrás com o então candidato à prefeitura prometendo o trem de alta velocidade para o Rio. Mas Brizola fez mais do que mostrar que Conde não cumpre promessas: lembrou como nosso alcaide mudou de aparência nesses anos."




CORREIO BRAZILIENSE

Jarbas Passarinho

"De a virtude virar vício", copyright O Estado de S. Paulo, 29/08/00

"O Correio Braziliense deu-nos um belo exemplo de responsabilidade da imprensa no respeito à veracidade do que publica. Na mesma primeira página do jornal, no dia seguinte ao de uma informação equivocada que agravava um homem público, tomou a iniciativa de corrigir a versão errônea. Só isso, pela repercussão causada, evidencia o zelo com ‘o único patrimônio de um jornal, a sua credibilidade’, como escreveu seu editor, fazendo autocrítica.

Conduta, aliás, que eu diria não muito comum.

Se há políticos que desmentem covardemente o que disseram – e se arrependem –, há notícias falsas cujo desmentido não é infreqüente ver escondido em canto de página desimportante. Convivi com isso. Certa feita, um grande jornal cometeu uma grave injustiça, atribuindo-me, quando ministro de Estado, procedimento incorreto. Pedi a retificação da matéria. Fui atendido, mas na página reservada para avisos fúnebres... O mesmo jornal, posteriormente, porém, em caso semelhante, fez a retificação de notícia infundada no mesmo espaço nobre, como agora o fez o Correio Braziliense.

A conduta louvável do jornal me leva a comentar o que me parece censurável no que tange ao respeito à dignidade da pessoa humana, quando investigada no Parlamento ou pelo Ministério Público. Constituinte em 87/88, aplaudi a iniciativa de conferir poderes até então inéditos ao Ministério Público, ‘incumbindo-o da defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis’. Não me arrependo de haver dado meu voto favorável, mas algum reparo me parece caber quanto à forma de atuar de alguns dos seus membros. Montaigne, em seus Ensaios, cita Horácio:

‘Não é sábio o sábio, nem justo o justo, se seu amor à virtude é exagerado.’

E ensina: ‘A virtude pode tornar-se vício se ao seu exercício nos dedicamos com demasiada avidez e violência.’ Recomenda moderação, já que se pode dedicar imoderado amor à virtude e ser excessivo numa causa justa. Esse pensamento me fez meditar sobre o procedimento de um procurador da República tomado de ‘imoderado amor à virtude’.

Ao contrário de outros procuradores, comedidos nas suas declarações, um permitiu-se antecipar à imprensa a existência de indícios, como se isso fosse desde logo a comprovação de ilícito – aliás, indícios que provavelmente ele mesmo passara a repórter para obter o efeito bumerangue: voltaram como ‘prova’. Tornou pública a mera suspeita de que Eduardo Jorge tinha mansão no exterior, incompatível com sua renda, o que proporcionou ao investigado a proeza de oferecer a tal mansão por troca com a camisa velha do acusador. Outro afirmou temerariamente que o senador cassado Luiz Estevão é dono de uma empresa suspeita. Ensejou a audaciosa e grosseira resposta de que ‘é mais fácil a empresa pertencer à mãe de quem lhe atribuiu a propriedade’. Eis exemplos de que a perseguição imoderada da virtude se transforma em vício. O notável bom êxito obtido em casos como o do ex-deputado Hildebrando Paschoal prova o acerto dos constituintes de 87/88.

É preciso, todavia, evitar os excessos, o exibicionismo, as insinuações, para não se perder a confiança no agente da lei.

No Senado, também, nem tudo foi de molde a merecer aplauso. Quando presidi a CPI dos chamados ‘anões’, pedimos a presença do Ministério Público. Seus representantes se conduziram com extrema discrição, apenas como observadores. Evitavam até mesmo dar opinião a respeito da investigação.

Colhiam as provas para levá-las ao procurador-geral Aristides Junqueira, como subsídios para a posterior ação civil e penal. Agora, senadores se permitiram encontrar procuradores (um deles antigo militante de partido político de oposição) para obter as perguntas que deveriam ser feitas na inquirição no Senado. Por que os inquiridores no Senado, numa subcomissão especial, deveriam ter de pedir aos procuradores as perguntas a fazer? O Senado dispõe de técnicos qualificados, alguns chegaram a ministro de Estado, que podem assessorar a subcomissão, o que certamente está ocorrendo.

Ademais, Eduardo Jorge já é investigado pelo próprio Ministério Público, onde repetirá ou não o bom sucesso de seu depoimento no Senado. O conúbio de senadores e procuradores não falou em favor nem dos senadores nem dos procuradores.

A notícia inverídica publicada pelo Correio Braziliense induziu um senador a prejulgar Eduardo Jorge, dizendo-lhe agressivamente que ele deveria era estar vendo o sol pelas grades da cadeia. No próprio tratamento entre os pares, a cortesia tem sido castigada. Há dias, o ministro Paulo Brossard publicou um artigo em que lembrava o Velho Senado, da crônica de Machado de Assis. Salientava a polidez obrigatória no trato dos pares. E o fazia para contrastar com a quebra dessa praxe civilizada. Mais que a ausência da polidez , chega-se a duvidar da isenção – e, pois, da honorabilidade – do senador relator da subcomissão. Merecerá a suspicácia?

Não foi à toa que o padre Vieira, em sermão, disse que antes preferia o julgamento de Deus ao dos homens, ‘porque Deus julga com o entendimento e os homens, com a vontade. Quem julga com entendimento, se entende mal, julga mal, se entende bem, julga bem. Porém, quem julga com a vontade, ou queira bem ou queira mal, sempre julga mal’. (Jarbas Passarinho, presidente da Fundação Milton Campos, foi senador (PPB-PA) e ministro de Estado)"




INDÚSTRIA CULTURAL

Nelson de Sá

"Um falso dilema", copyright Pensata (www.uol.com.br/folha/pensata), 30/08/00

"Um dos choques de editar a Ilustrada, de dois meses para cá, vem sendo o convívio sufocante com a indústria cultural. Eu venho tentando expressar esse choque, neste espaço, recorrendo a nietzschianos e frankfurtianos, em seus questionamentos contraditórios da ‘barbárie estilizada’.

Mas a indústria cultural, para mim, vem representando algo mais comezinho, mais cotidiano. É um diálogo diário com os mecanismos da indústria, de que o caderno, afinal de contas, é parte.

Exemplo maior são as negociações envolvendo reportagens e entrevistas exclusivas, em troca de espaço. Quero e venho tentando, no dia-a-dia, quando não hora a hora, contornar ou evitar tais negociações, mas elas se tornaram um vício da cobertura de artes e entretenimento.

Para ser mais específico, uma editora ou gravadora ou produtora disso ou daquilo – até mesmo de teatro – liga e oferece a exclusividade de um lançamento ou estréia. Para tanto, exige o diabo, ou melhor, a alma.

Registre-se que isso acontece de alto a baixo, da alta cultura à arte popular, em proporções muito semelhantes.

Outro exemplo são as ‘junkets’, as entrevistas em linha de montagem que o próprio cinema – expressão maior da indústria cultural – já ironizou.

Em algum momento nas últimas décadas, talvez nos últimos anos, a ‘barbárie estilizada’ se estabeleceu como a regra, levando de roldão não só um caderno idiossincrático, como sempre foi a Ilustrada, mas o jornalismo todo.

As alternativas que vão se colocando podem ser mistificadoras, quando não patéticas, para não dizer coisa pior.

Pode-se abraçar um novo velho ‘absoluto’, como vêm proclamando vozes à esquerda e à direta, respectivamente com o marxismo e o cânone europeu, mas o resultado é que ‘no mercado todas as teorias se equivalem, seja a de Marx, Hitler...’ – como escreveu a professora Olgária Mattos.

Ou pode-se persistir sinceramente no relativismo, na diversidade do pós-modernismo, que abraçou tão aberta e lucrativamente a ‘barbárie estilizada’.

Tenho para mim que o pêndulo, como disse um amigo, Marcelo Coelho, mudou de direção. Eu mudei. O problema é que não sei bem, ainda, para onde. Mas tenho algumas idéias."




O SUBMARINO DA MORTE

Renata Lo Prete

"A Rússia faz tudo errado", copyright Folha de S. Paulo, 27/08/00

"Ao título acima podemos acrescentar: sempre. A Guerra Fria acabou faz tempo, mas é essa a mensagem do noticiário sobre o desastre do submarino Kursk.

Como papagaio, o jornal não se cansa de repetir críticas à ‘teimosia’ e à ‘falta de transparência’ da Rússia, ambas ‘herdadas da União Soviética’ (de quem teríamos herdado as nossas?). Não faz isso sozinho. Apenas acompanha o coro.

Na terça-feira, sob a rubrica ‘comentário’, a Folha reproduziu artigo do diário britânico ‘The Independent’ em que a Rússia era aconselhada a ‘ser mais aberta e confiar mais’.

‘Se o Kremlin tivesse sido menos desconfiado’, dizia o texto, ‘talvez alguns tripulantes ainda estivessem vivos’. Isso quando já se considerava grande a probabilidade de que todos tenham morrido na (ou logo depois da) explosão que levou o Kursk para o fundo do mar de Barents no dia 11 passado.

Na sexta-feira, o jornal trouxe matéria em que os mergulhadores noruegueses, participantes do resgate, culpavam a Marinha russa por tudo e mais um pouco. Nem uma linha de ‘outro lado’.

Dependente das agências internacionais de notícias, a editoria de Mundo sente-se ainda mais à vontade do que as outras para publicar textos desprovidos de elemento contraditório.

Não se trata de ignorar os silêncios, contradições e desmentidos oficiais que cercaram o episódio, mas apenas de notar que ninguém parece interessado em analisá-lo sob outros aspectos, embora eles certamente existam.

Na terça-feira, artigo no Wall Street Journal defendeu a tese de que, por uma série de motivos técnicos, os EUA dificilmente teriam sido mais ágeis do que a Marinha russa na operação.

Não se pode acusar o WSJ de nutrir simpatia por qualquer ‘herança da União Soviética’. O jornal apenas busca oferecer ao leitor algo além do refrão.

O discurso único não poderia ir mais longe. Chegou às profundezas do Ártico."




Helen Womack

"Novo jornalismo russo enfrenta hábitos antigos", copyright Folha de S. Paulo/The Independet, 27/08/00

"A mídia russa fez críticas pesadas ao presidente Vladimir Putin sobre o tratamento que ele deu à tragédia do Kursk. Mas como será que ele vai reagir -com dureza ou brandura?

Quase uma semana depois de o Kursk afundar, o comandante da Marinha russa finalmente se juntou à operação de resgate no mar, e um político de primeiro escalão voou de Moscou ao Ártico para um encontro com os parentes dos tripulantes mortos.

Descrevendo o encontro entre o vice-primeiro-ministro Ilya Klebanov e as mães dos marinheiros, a rede de TV ORT, pró-Kremlin, disse que foi ‘emocionado’. O canal independente NTV mostrou uma mãe desesperada, gritando com o ministro para reclamar do atraso das autoridades e exigindo que os oficiais da Marinha arrancassem suas medalhas, como indicativo de sua vergonha.

A Rússia não será mais a mesma após a perda do submarino nuclear que se acreditava ser impossível de afundar. Assim como o desastre nuclear de Tchernobil, em 1986, mudou a União Soviética, convencendo Mikhail Gorbatchov de que não havia alternativa à política de reforma, o desastre do Kursk será um divisor de águas político para Putin. A única dúvida é se ele vai concluir que a Rússia precisa de mais abertura, como a que é praticada pela mídia independente, ou se vai vingar-se daqueles que o humilharam, procurando trazer de volta a censura.

A Rússia já avançou muito desde os tempos do comunismo, quando os grandes desastres eram acobertados, de modo que a notícia deles só vazava semanas ou mesmo meses mais tarde nos boletins clandestinos de dissidentes. O mundo só ficou sabendo da explosão em Tchernobil quando a Suécia detectou uma nuvem radioativa sobre seu território.

No caso atual, as autoridades informaram o público do acidente sofrido pelo Kursk apenas dois dias depois de acontecido. A Marinha nomeou um porta-voz jovem e bem-apessoado, Igor Viktorovich Dygalo, que na semana passada se tornou o rosto mais conhecido da Rússia, com suas informações atualizadas sobre a operação de resgate e as mudanças climáticas no mar de Barents.

Apesar disso, a maneira de lidar com as relações públicas ainda foi amadora e recordou os hábitos soviéticos antigos. Alguns órgãos da mídia russa se mostravam mais inclinados do que outros a aceitar a situação. Duas apresentadoras de televisão, Yekaterina Andreyeva, da ORT, e Tatyana Mitkova, da NTV, deram mostras de estilos muito diferentes. Andreyeva, ou ‘Katya’, como é conhecida em todo o país, tem um corte de cabelo severo e um tom de voz agressivo que parece sugerir que será implacável no trato com autoridades hesitantes. Mas ela raramente pressionava os representantes da Marinha ou lhes fazia perguntas incômodas.

Já Mitkova, pelo contrário, apesar de sua aparência doce, não tolera hesitação e evasivas e, em várias ocasiões, deixou o infeliz Dygalo sem resposta.

A ORT, única emissora cujas transmissões chegam a algumas das regiões mais distantes da Rússia, pertence em parte ao Estado e em parte ao oligarca Boris Berezovski. A NTV é propriedade de seu rival nos negócios, Vladimir Gusinski, que este ano passou quatro dias detido por acusações de estelionato que o promotor do Estado acabou deixando cair por falta de provas. Ambos, Berezovski e Gusinski, também são proprietários de jornais.

Seja porque Berezovski recentemente passou a fazer oposição ao Kremlin ou porque os jornalistas de mídia impressa que trabalham para ele já escreviam o que queriam, de qualquer maneira, o fato é que os diários sob seu controle, o Nezavisimaya Gazeta (NG) e o Kommersant, se mostraram tão críticos em relação às autoridades quanto o Segodnya, de Gusinski. Para o NG, a ‘ideologia soviética’ teria atrapalhado o pensamento dos chefes navais. Para o Segodnya, os almirantes se preocuparam mais com as consequências políticas de suas decisões do que em salvar vidas.

A diferença gritante era visível na cobertura das televisões. A ORT e a emissora estatal RTR deram pouco destaque às ofertas de ajuda estrangeira, de modo que muitos russos ficaram com a impressão de que elas tinham sido formuladas mais ou menos ao mesmo tempo em que o presidente Putin as aceitou. A NTV, pelo contrário, deixou claro que o líder do Kremlin perdera tempo precioso ao deixar de aceitar imediatamente as ofertas de resgate feitas pelo Reino Unido e pela Noruega.

Na ORT, Katya dizia aos telespectadores o que pensar. ‘Estou certa de que vocês irão concordar que nossos homens dos serviços de resgate russos são heróis’, disse a apresentadora em um comentário. A NTV evitou comentários por parte de sua apresentadora, preferindo, em lugar disso, dar aos espectadores uma resenha regular do que os jornais ocidentais estavam dizendo.

O ultraje público diante da incompetência e da insensibilidade das autoridades só cresce desde que os mergulhadores noruegueses conseguiram abrir a escotilha do submarino. Se, como os russos que os antecederam, eles não tivessem conseguido abrir a escotilha, Moscou poderia ter dito que era uma tarefa impossível. Mas ficou claro para quem quisesse ver que, se os noruegueses tivessem tido acesso ao Kursk em menos tempo, pelo menos alguns de seus tripulantes talvez pudessem ter sido salvos.

A NTV tem sido implacável em suas críticas. ‘A rapidez com que os estrangeiros trabalharam reforça a visão de que sua ajuda deveria ter sido aceita antes’, disse um de seus repórteres. Outro sugeriu que o presidente não viajaria ao Ártico para se reunir com os familiares enlutados porque teria medo do confronto com eles.

Ainda não se sabe por que o presidente Putin, um ex-agente da KGB (serviço secreto soviético) que tem demonstrado pulso forte no trato com a Tchetchênia, permaneceu passivo nessa crise. Talvez lhe tenha faltado a experiência necessária para prever que a mídia e o público mundiais reagiriam com força ainda maior a um drama submarino do que às baixas rotineiras na Tchetchênia, apesar de o número de homens que já morreram nessa guerra ser muito maior do que o de mortos no submarino. Talvez ele tenha ficado sem saber como agir, num impasse entre o desejo de salvar vidas da população russa como um todo e a exigência de conservar segredos de Estado formulada por representantes da linha-dura militar.

Sejam quais forem as razões, o fato é que ele ficou em cima do muro. Ao aceitar a ajuda externa depois de muita demora, não agradou nem a gregos nem a troianos. Agora, para redimir-se, talvez passe a se mostrar mais aberto e preocupado com a população. Mas também existe o risco de que recaia no uso de métodos ditatoriais, que afetariam a mídia independente, já vulnerável.

Os sinais que se viam nos últimos dias não eram muito animadores. Apenas a emissora estatal RTR foi autorizada a filmar o local do acidente. O fluxo de informações vindas da Marinha foi diminuindo cada vez mais, e jornalistas de Moscou tiveram de telefonar para a Noruega para descobrir o que estava acontecendo no mar de Barents."




RÁDIO & PIRATARIA

Marcelo Parada

"Responsabilidade e credibilidade no ar", copyright Folha de S. Paulo, 29/08/00

"Sobrevive no Brasil a idéia romântica de que democracia dos meios de comunicação é sinônimo de cada cidadão ter a sua própria rádio montada na garagem. Iludidos de todo o gênero acham ‘bacana’, moderno e politicamente correto sair por aí com meia dúzia de chavões para defender a ‘cidadania’ ou o ‘acesso dos marginalizados aos veículos de comunicação’.

Pura enganação.

Em artigo neste espaço (‘Uma Nova Forma de se Comunicar’, 31/7), a jornalista e mestre da USP Marisa Meliani defendeu a liberação das rádios piratas. Seriam veiculadoras de serviço inestimável à população, embora muitas emissoras, ela reconhece, ‘se organizem em projetos comerciais ou proselitistas’. Em outras palavras, na visão simplista da mestre, temos monstros gananciosos só preocupados com lucros (as rádios legalmente constituídas) e um punhado de defensores da ‘comunidade’, gente de boa-fé, lutadora, firmemente comprometida com os interesses de seu quarteirão (as piratas).

Deve-se reconhecer, de saída, que ninguém sério no meio radiofônico defende a liberação de concessões como moeda política – fonte de graves distorções no mercado e que traz como consequência a entrada de políticos e afilhados na condição de donos de centenas de emissoras, tema de vária reportagens de Elvira Lobato nesta Folha.

Não se pode, porém, partir para o ‘liberou geral’ dos últimos anos. Sugiro aos leitores que procurem no dial algumas dessas emissoras defendidas pela professora da USP e que julguem a qualidade do serviço, o nível dos apresentadores e o tratamento dispensado à língua portuguesa. Pode-se argumentar que mesmo grandes emissoras podem ser sofríveis nos quesitos acima. Entra aí a poderosa arma do ouvinte e, esse sim, um direito inalienável: escolher a emissora que mais lhe agrada.

A mestre em comunicação pela USP sugere que os ‘condutores das pequenas rádios e os radioamantes’ abracem a tarefa de ‘reavaliar a qualidade das produções e dos conteúdos’. Eis um dos pontos fundamentais: qual o compromisso de um dono de rádio pirata com a veracidade e com o alcance das informações que divulga? Quem controla? Qual a punição a que será condenado caso, ao invés de campanha contra as drogas, passe a pregar a toxicomania?

Como são ilegais, as rádios piratas – eufemisticamente chamadas de comunitárias – são, de fato, livres. Livres do recolhimento de impostos, de encargos trabalhistas, de direitos autorais pelas músicas que veiculam. Livres do cumprimento de um código de ética e de qualquer responsabilidade.

A mestre da USP recomenda às grandes emissoras aceitarem a nova realidade da comunicação, que inclui o universo local. Fico imaginando se a professora Marisa tem ouvido rádio nos últimos 30 anos. Ora, isso é o que fazem as principais emissoras de radiojornalismo do Brasil. Frequentemente, inclusive, somos acusados de falar muito do buraco da rua e pouco do buraco na camada de ozônio. Talvez não exista veículo no qual o consumidor tenha maior influência – via carta, telefonema, fax ou e-mail. Uma rádio não se sustenta nem se viabiliza sem dar atenção ao seu público e aos problemas dele.

Por isso mesmo têm crescido a audiência do rádio e a participação do veículo no bolo das verbas publicitárias. Tudo o que os radiodifusores querem é a concorrência, limpa e saudável, cujo resultado signifique um produto de qualidade para o público.

Finalmente a professora sugere a solução para resolver as pendências que envolvem as rádios piratas: uma ampla reflexão! Na mesma frequência poderíamos sugerir amplas reflexões sobre autores de chacinas, sobre pedófilos, sobre ladrões do dinheiro público etc. Sem, é claro, sugerir a liberação de crimes semelhantes. Essa confusão pró-pirataria, que une pilantras e ingênuos (que é o caso da professora), só favorece os aproveitadores, as seitas de fundo de quintal e os políticos ‘chinfrins’. Lamento que a mestre em comunicação pela USP queira estar assim tão mal-acompanhada. (Marcelo Parada, 38, é diretor-geral da rádio Bandeirantes e autor do livro ‘Rádio: 24 Horas de Jornalismo’)"




PREÇO DOS JORNAIS

Vitório M. M. Papini

"Preço do jornal", Painel do Leitor, copyright Folha de S. Paulo, 26/08/00

"Penso que os senhores deveriam ter publicado em manchete: ‘Jornais aumentam em 20%’. Ou a imprensa escrita não trata publicamente dos seus ajustes de preço, assim como faz com os demais setores da economia (combustíveis, tarifas públicas, impostos, pedágios etc.)? Será que ainda falta muito para chegamos a esse ponto? Posso estar maluco, mas acredito que a manchete sobre o aumento ajudaria a vender mais jornais... Pelo menos naquele dia. Continuem assim, ainda temos uma longa caminhada (com poucos aumentos, espero). Vitório Manoel Moreira Papini (São Sebastião, SP)"




LEGISLAÇÃO ELEITORAL

Rui Celso Reali Fragoso

"A Lei Eleitoral e a Constituição federal", copyright O Estado de S. Paulo, 1/09/00

"Com a restauração democrática e a Constituição federal de 1988 desapareceu o resíduo autoritário no Brasil. Assim, o direito da coletividade à informação consolidou-se como decorrência do exercício pleno de cidadania.

O direito de informar ultrapassa o conceito de prerrogativa profissional ou atributo de liberdade de pensamento para se situar no campo dos direitos sociais garantidos a todo cidadão.

Paralelos caminham o direito de informar e o direito à informação, faces da mesma moeda, regras do Estado Democrático de Direito; vê-se neles o direito individual inalienável em simetria com o direito coletivo dos indivíduos.

Diante desse contexto, a Lei Eleitoral (nº 9.504/97), inciso III do artigo 45, contém flagrante inconstitucionalidade. Refiro-me à proibição de veicular propaganda política ou difundir opinião contrária a candidato, partido, coligação, a seus órgãos ou representantes.

A intenção do legislador foi regulamentar a programação normal, e especialmente os programas de noticiário jornalístico das emissoras de rádio e televisão, com o intuito de impedir o abuso do poder econômico e o desrespeito ao princípio da igualdade de tratamento aos candidatos.

Ninguém de boa-fé contesta e deixa de reconhecer a existência do poder econômico como forma de aliciamento ilegítimo de eleitores, subtraindo-lhes a consciência, na tentativa de submeter o sufrágio às leis do mercado.

Em que pese a boa intenção do legislador, o mencionado artigo desrespeita a Constituição, sobremaneira nos artigos 5º, IV e 220, normas de eficácia plena que garantem a absoluta liberdade informativa.

A Constituição federal é bastante clara ao outorgar tais direitos em sua plenitude, pois não sofrerão nenhuma restrição (artigo 220), inexistindo esforço interpretativo capaz de conciliar a Lei Eleitoral com a Carta Magna.

A bem da verdade, não se pode negar a influência da mídia, televisiva ou falada, no resultado do pleito eleitoral, sobretudo a de maior amplitude, no âmbito estadual e nacional. Os veículos de informação têm capacidade de modificar opiniões e induzir a conclusões mais favoráveis a este ou àquele candidato, principalmente se escorados em pesquisas de opinião - quanto mais as ditas ‘bocas-de-urna’ - cuja idoneidade nem sempre se comprova.

Nesse ponto, peca - como de costume, pela omissão - o poder estatal, que não exerce controle algum sobre os institutos de pesquisa. Destarte, percebe-se que a metodologia e a transparência parecem entregues ao arbítrio da opinião pública, baseado no índice de acerto dos referidos prognósticos, jamais ao controle e supervisão de órgão estatal eficiente e isento.

Mas tal argumento não tem o condão de mitigar aquelas salutares normas democráticas.

Como se não bastasse, o artigo 45, III, da Lei Eleitoral, cria diferentes tratamentos, sem causa legal que os sustente, em franco favorecimento da mídia impressa durante o processo eleitoral, um disparate a violar a igualdade, outra pedra fundamental da democracia.

É bom que se diga, ainda, que nesse aspecto a legislação aqui analisada presta um desserviço à população e, sob o pretexto de proteger os eleitores da indução porventura levada a efeito pelos meios de comunicação de massa, a lei cria óbice à liberdade de informação, da qual os eleitores não prescindem.

Caberá ao Poder Judiciário, de forma difusa, o controle do conceito de ‘opinião’ emanado na Lei Eleitoral, isso porque, enquanto viger a equivocada redação, inúmeras serão as dúvidas e incertezas quanto aos supostos benefícios ou malefícios das informações, pesquisas, denúncias veiculadas sobre candidatos ou legendas, durante o processo eleitoral. O ideal seria a eliminação da aberrante norma que macula a estrutura normativa, de nítido cunho antidemocrático.

Não se deve perder de vista o relevante papel da imprensa na lisura dos pleitos eleitorais, denunciando mazelas, fraudes, em resumo, grande parte dos desmandos que ocorreram, ocorrem e ocorrerão por todo o Brasil.

Conclui-se, portanto, que a vedação - além de ilegal - não se justifica, à vista dos meios de defesa postos à disposição da opinião pública e dos candidatos pelo ordenamento jurídico (defesa da honra, liberdade de expressão, reparação de danos morais, direito de resposta, etc.).

Tende, em regra, a tornar o eleitor menos informado, suscetível, pois, às ‘moléstias’ eleitorais.

O legislador constituinte, cioso do Estado democrático, vedou qualquer tipo de restrição aos veículos de informação; não cabe, pois, ao legislador ordinário fazer ‘vista grossa’ ao mandamento maior, tão duramente conquistado após anos de constante cerceamento das liberdades individuais e coletivas.

Devem-se conter os abusos existentes; contudo, à falta de informação é preferível o seu excesso, à falta de opinião prefere-se a exacerbação; é esta a natureza da democracia, a livre convivência das mais variadas opiniões.

Sem tal rumo falece o ideário democrático, dirigido à formação de uma democracia representativa, participativa e pluralista garantidora da integralidade dos princípios fundamentais. (Rui Celso Reali Fragoso, advogado, professor universitário, é presidente do Instituto dos Advogados de São Paulo)"




DIREITOS AUTORAIS

Guia da Imprensa

"Jornal perde ação contra site com sublinks", copyright Guia da Imprensa, 26/8/00

"PCM, um dos maiores grupos editoriais da Holanda, perdeu esta semana ação judicial em que tentava obrigar um serviço online a não mais fazer links a matérias internas em seus sites – os chamados deep links. A decisão em primeira instância de uma corte em Amsterdã foi de que os sublinks não significam violação de direitos autorais, ou outros, dos jornais publicados pela PCM. A decisão, que vem sendo considera um precedente jurídico na história recente dos direitos autorais na Internet, afeta diretamente os quatro maiores jornais holandeses, publicados pela PCM. A intenção da empresa era que o serviço online Kranten.com deixa-se de publicar em seu site títulos de matérias linkados diretamente ao corpo da reportagem.

A PCM alegava que, ao fazê-lo, a Kranten violava seus direitos autorais e, adicionalmente, causava prejuízos por desviar o leitor da página principal do jornal, publicitariamente a mais lucrativa.

A Justiça holandesa considerou que links fazem parte da natureza da Internet, e que o jornal poderia colocar os anúncios publicitários nas próprias páginas das notícias.

Nesta sexta-feira, 25, a International Newspaper Marketing Association (INMA) publicou nota informando que, segundo ‘fontes do setor’, a PCM não pretende apelar a instância superior da Justiça.

A decisão judicial, porém, vem sendo criticada por jornalistas holandeses. Em artigo publicado na quinta-feira, o colunista online Francisco van Jole disse que a medida ‘mostra que a Holanda entende muito pouco sobre publicações na Internet’. O problema seria a quebra da netiqueta, a etiqueta da rede, por parte da Kranten.com. Uma das regras da netiqueta reza que links vindos de fora devem ser previamente consentidos pelo site-alvo."




DESCONFIANÇAS

Fritz Utzeri

"Zé e a ‘mudernidade’", copyright Jornal do Brasil, 27/8/00

"José Silveira é da velha geração do JB, ainda da Rio Branco. Sabe tudo de jornal. Escreve manifestando uma desconfiança que já me ocorreu. Trata-se das urnas eletrônicas. Elas nos são vendidas como o supra-sumo da modernidade e totalmente à prova de fraudes. Será? Estranho, outro dia ainda vi eleições na Alemanha e todos votavam no papel. Atrasados esses alemães... Como jornalista, da velha escola do Zé (ainda era um foca e ele já dava aulas de profissionalismo), aprendi que uma das primeiras características de um jornalista deve ser a desconfiança. Principalmente a desconfiança nas autoridades. Quanto maior o figurão, mais desconfiado fico. Sempre posso estar sendo usado, sei lá, e me assustam a reverência e a aproximação de alguns coleguinhas com o poder.

Vou pedir licença ao Luiz Orlando e roubar a carta que era dele e dar a palavra ao Zé <jsilveira@paranapanema.com.br>: ‘Passada a festejada eleição do México, em que a direita explícita afastou do poder o ultimamente corrupto PRI, sem que sejam lembrados seus inegáveis méritos passados; passada a eleição no Peru, em que Fujimori derrotou em dois turnos as ‘viúvas’ do escritor Vargas Llosa, sendo portanto dadas como fraudadas, com histéricos pedidos de intervenção; passada a eleição de De la Rúa, que devolveu o poder à cosmopolita Buenos Aires e, para o interior da Argentina o provinciano e nada santo Carlos Meném; passada a eleição no Uruguai, onde os dois partidos, adversários históricos juntaram-se para evitar no segundo turno, a vitória do candidato de esquerda; passada a eleição na Venezuela, cujo vencedor sempre teve o nome precedido na imprensa pelo título de ‘ex-golpista’ e passadas as eleições, também nos últimos meses, na Espanha, na França, em Israel, em Portugal e na Alemanha, tenho notado que todas foram feitas com voto escrito em papel e depositado em urna (de madeira, vidro ou lona). A todas elas acompanhei pela CNN. Todas têm apuração rápida e só no Peru levantaram-se suspeitas de fraude, muito antes do ato eleitoral.

Para mim, que convivo com altas taxas de desemprego e com tantos excluídos, soa estranha a aquisição das urnas eletrônicas, um equipamento tão sofisticado. Não são os milhares de urnas e totalizadores para mais de 5.000 municípios (quantas sessões eleitorais terão São Paulo e outras capitais?) que têm utilidade de apenas um dia, no máximo a cada dois anos, sabendo-se de nossas carências escolares e hospitalares. Esse equipamento será manipulado por um eleitorado com alto índice de analfabetismo, residente em brejos onde a eletricidade ainda é desconhecida. Não apenas no Amazonas e no Pará, mas até mesmo no extremo Sul.

Por não ter nenhum jurista disponível e por ouvir falar na ‘independência dos poderes’, não sei se os benditos braços do Ministério Público alcançam a Justiça Eleitoral. Todavia penso que o tema, pelo menos, merece uma reflexão, mesmo para saber se nesse arroubo mudernista, além de um dispêndio que nem os Estados Unidos se dão ao luxo, não passou por perto algum Nicolau... Ou se a própria eleição não começa a ser decidida em favor de quem estiver mais calçado nas benditas pesquisas indutoras do eleitorado, boa parte dele inimputável ante a Justiça comum.

O ‘efeito Proconsult’, quando tentaram garfar, no Rio, a eleição de Leonel Brizola há alguns anos, ainda está vivo na memória de muita gente: um ‘desvio técnico’ instalado nos totalizadores do TRE. E agora? Como se fará uma recontagem se essa eleição eletrônica não deixa rastros?’

A pergunta é boa. É preciso ser totalmente confiante na autoridade para votar eletronicamente. E eu não sou. A vantagem da fraude eletrônica é que não deixa rastros. Basta um fator randômico qualquer introduzido na programação e pronto. Silveira mesmo lembra do ‘diferencial delta’ que quase rouba o primeiro mandato de Brizola como governador do Rio. A trama foi desmanchada pela Rádio e pelo JORNAL DO BRASIL e até hoje o engenheiro desconfia de urna eletrônica (e tem motivos de sobra). Lembro da estranheza que me causou, na primeira eleição de Collor, a passagem de Francisco Rezek direto do TSE para o Ministério. Não estou afirmando nada, mas que num país sério soaria esquisito, ah, isso soaria. É a tal história da mulher de César...

Acho que a urna eletrônica deveria emitir um recibo registrando o voto que seria, a seguir, depositado pelo próprio eleitor numa urna comum. Assim, para efeitos de contagem, teríamos a máquina e just in case, disporíamos da urna lacrada para o tira-teima, recontagens e confirmação do resultado. O eleitor ao optar por ‘Machado de Assis’ receberia o recibo de seu voto e chiaria se aparecesse ‘Olavo Bilac’ no papel. Senão como reclamar? Como fiscalizar? Eu, na boa companhia de Zé Silveira, estou desconfiado."




NO LIMITE

Cadê?

"Final de ‘Survivor’ congestiona site", copyright Cadê?, 25/8/00

"O site do programa ‘Survivor’, da emissora americana CBS, registrou uma grande queda em seu desempemho, devido ao grande número de acessos provocados pela exibição do episódio final do programa na televisão. A informação foi dada pela empresa Keynote, analista de desempenho da internet.

Os telespectadores correram em busca de mais informações imediatamente após o último episódio, e continuaram acessando o site durante toda a manhã seguinte, do dia 24 de agosto.

O desempenho e a disponibilidade ficaram deficientes, registrando o maior e mais prolongado congestionamento desde seu lançamento.

Era comum que o site ficasse lento nas manhãs de quinta-feira, após as noites de exibição do programa na televisão.

A Keynote media o desempenho e a disponibilidade do site a cada 15 minutos, em 25 áreas metropolitanas dos Estados Unidos, desde que o programa estreou, em 31 de maio.

A CBS decidiu reprisar o Survivor e já planeja uma segunda versão do programa. A reprise dos 13 episódios começa no mês que vem. A próxima aventura será na Austrália. O primeiro episódio da nova série está marcado para ser exibido no início de 2001."




HARRY POTTER

Carlos Graieb

"E a história não acabou", copyright Veja, 23/8/00

"Harry Potter é mesmo um bruxo poderoso. Herói da série de romances infantis escrita pela escocesa J.K. Rowling, ele já cativou 50 milhões de leitores ao redor do mundo. O Brasil não ficou fora desse círculo encantado. Na terra do saci e da cuca, a magia à moda britânica funcionou exatamente como nos outros lugares. Desde que foi lançado, em abril, o primeiro livro do personagem já vendeu mais de 60.000 cópias. O segundo acaba de chegar às prateleiras. Chama-se Harry Potter e a Câmara Secreta (tradução de Lia Wyler; Rocco; 287 páginas; 22 reais) e sua tiragem inicial é de 100.000 exemplares – dez vezes maior que a de um best-seller normal. À semelhança do que aconteceu em outros países, o jovem mago também conquistou, por aqui, um público mais variado do que se esperava. Potter virou diversão para a família toda. Tanto assim que a editora brasileira preparou uma campanha publicitária especial para promover seus livros. ‘Quem vai ler primeiro: você ou seu filho?’, diz o slogan.

Mais ainda do que os números, o que vinha fazendo de Harry Potter uma raridade era o fato de ser elogiado com entusiasmo pela crítica. Mas isso mudou. Pela primeira vez desde 1997, quando saiu do anonimato para transformar-se numa das mulheres mais ricas e célebres da Grã-Bretanha, J.K. Rowling teve de se defrontar com resenhas negativas nas últimas semanas. Os ataques vieram da Inglaterra e dos Estados Unidos. Alguns disseram que seu estilo é fraco. Outros, que suas obras não vão sobreviver entre os clássicos da ficção infantil. E houve ainda aqueles que desconstruíram Harry, afirmando que o personagem é raso e ‘unidimensional’. Foi esse o argumento dos jurados da Medalha Carnegie, maior honraria da literatura para crianças na Inglaterra, ao explicar por que Rowling não venceria o prêmio no ano 2000. O ataque mais devastador, no entanto, saiu no diário americano The Wall Street Journal e foi escrito por Harold Bloom, o renomado autor de obras como O Cânone Ocidental. ‘Será que milhões de compradores de livro podem estar errados? Sim, podem, e persistirão no erro enquanto se agarrarem a Potter’, escreveu ele. Para Bloom, a linguagem de Rowling está infestada de clichês e não exige nada dos leitores.

Até certo ponto, é impossível discordar de Bloom e dos outros críticos. Rowling é, sim, uma autora convencional. Seu estilo é um tanto esquálido se comparado à linguagem esfuziante de um Lewis Carroll, autor do clássico Alice no País das Maravilhas. Além disso, a autora não proporciona aos seus fãs nada que eles não possam encontrar em outros lugares, inclusive na cultura pop. Compare, por exemplo, os romances de Harry Potter ao filme X-Men, em cartaz nos cinemas. Ambos discutem o tema do ‘respeito às diferenças’. Nos dois casos, há um confronto entre gente comum e seres especiais. Em Harry Potter e a Câmara Secreta, por exemplo, feiticeiros que não têm ‘sangue puro’ começam a ser atacados e transformados em pedra. O vilão da história é movido pelo ódio contra os humanos normais – os ‘trouxas sujos e comuns’. Mas será que esses motivos bastam para condenar J.K. Rowling à fogueira? É claro que não, e por uma razão simples: ela trouxe as crianças de volta à leitura. Ainda que não sejam obras-primas, seus livros têm graça e imaginação. Por enquanto, isso basta. Longa vida a Rowling e seu Harry Potter."




VENEZUELA

Márcio Moreira Alves

"Cabra marcado", copyright O Globo, 1/9/00

"Hugo Chávez foi duas vezes eleito presidente da Venezuela por maioria absoluta. Entre uma eleição e outra patrocinou uma Assembléia Constituinte. O eleitorado venezuelano aprovou esmagadoramente, em plebiscito, o texto da nova Constituição bolivariana. Os partidos tradicionais foram varridos do mapa político. Apesar dessas vitórias, Chávez é tratado pela mídia dos países ricos como se fosse um ditador.

O linchamento de imagem que sofre me parece parte da estratégia de demonização a que os grandes interesses financeiros e da mídia norte-americanos costumam submeter os governantes que os desafiam, ao iniciar o processo de desestabilização de seus governos e antes de tentar uma intervenção armada. Foi assim que agiram contra os aiatolás iranianos; contra o coronel Kadafi, antes de bombardearem Trípoli; contra Sadam Hussein, no Iraque; contra o Governo de Granada; contra Salvador Allende, no Chile; João Goulart, no Brasil; e recentemente contra Slobodan Milosevic, na Iugoslávia. É que a bizarra moral política dos Estados Unidos obriga seus governantes a convencer a opinião pública de que as vítimas de seus bombardeios perderam a condição humana antes de perderem a vida. Se os alvos são demônios, não há motivo de ter dor na consciência. No tempo da Guerra Fria o presidente Reagan cunhou a expressão ‘Império do Mal’ para classificar os soviéticos. Só escaparam do extermínio por serem capazes de retaliar.

Hugo Chávez afrontou os interesses das oligarquias venezuelanas, que têm poderosos sócios e aliados nos principais centros financeiros do mundo desenvolvido, especialmente em Nova York.

A política externa de Chávez procura enfatizar a independência do país e busca alianças na América Latina, principalmente no Brasil, que visita pela décima vez desde a sua primeira eleição. Visitou Cuba, esteve longamente com o presidente Fidel Castro e voltou elogiando os progressos sociais da Revolução Cubana. Agora, rompeu o bloqueio diplomático do Iraque. Foi a Teerã, onde os aiatolás lhe emprestaram um avião que o levou até a fronteira. Atravessou a pé, antes de seguir de helicóptero para um encontro com Sadam Hussein, em Bagdá.

O tradicional roteiro de desestabilização passa por um período inicial de sabotagem econômica, como aconteceu com a greve dos caminhoneiros do Chile, financiada pela CIA. Chávez tem tido, até o momento, alguma sorte. Quando assumiu o Governo, o barril de petróleo estava a US$ 8 e só havia dinheiro em caixa para pagar três meses da folha do funcionalismo. Hoje, o barril está a US$ 32 e o orçamento da Venezuela mais que triplicou. Ganhou tempo para respirar.

Quarta-feira perguntei-lhe se o processo de desestabilização já começara. Respondeu que sentia os obstáculos que as oligarquias colocavam no caminho de sua política econômica distributiva, mas acrescentou que vivemos outros tempos, diferentes do de Allende. Desde a sua posse visitara não apenas Cuba e Iraque, mas muitos outros países da América Latina, da Europa, da Ásia e da África. Estivera até no Vaticano, para pedir a benção do Papa.

- Que respeito as democracias demonstram se quiserem impedir um governante livremente eleito de ir onde bem lhe apraz? - indagou.

Pode ser que me engane, mas Hugo Chávez corre o risco de ser um cabra marcado para morrer.

Um trunfo que tem na manga é a circunstância de a Venezuela ocupar, no momento, a presidência da Opep. O lugar lhe permite servir de intermediário na defesa de um plano de estabilização do preço do petróleo. Diz que não quer nem um preço baixo nem um preço alto demais. Apresentou aos demais membros do cartel a proposta de criarem uma banda de estabilização, com o piso em US$ 22 o barril e o teto em US$ 28. Sempre que o preço descesse abaixo desse limite, a Opep cortaria a produção em 500.000 barris/dia. Se o ultrapassasse, faria o contrário, aumentando a produção em meio milhão de barris. Diz:

- A Venezuela vende petróleo há mais de um século e 80% da sua população continuam abaixo do nível da pobreza. Nós, os países produtores, somos os que menos ganham no negócio.

Sobre o problema que mais preocupa a região - o Plano Colômbia e a intervenção dos Estados Unidos a pretexto de combater o narcotráfico - diz que os meios colocados à disposição do Governo colombiano lhe parecem muito superiores aos necessários para esta missão. Logo, teme que os americanos busquem uma vitória militar sobre as guerrilhas. Diz:

- Nós temos 2.440 quilômetros de fronteira com a Colômbia. Há 25 anos eu já carregava um fuzil e patrulhava um rio que faz fronteira entre nossos países para evitar a passagem de guerrilheiros. Não há solução militar para uma guerrilha tão antiga. A solução tem de ser negociada e política. Eu me coloco à disposição de ambas as partes para, se quiserem, mediar uma negociação.

Resta saber se a vontade de negociar existe."




TUTTY VASQUES

Rodrigo Alves e Rodrigo Chia

"Viva a criatura!", copyright O Estagiário, setembro de 2000 <www.oestagiario.com.br>

Alfredo Ribeiro, esse ilustre desconhecido, não tem inveja da fama do seu personagem Tutty Vasques. Na verdade, o jornalista agradece diariamente a oportunidade - dada pela criatura - de largar a reportagem para se dedicar exclusivamente à tarefa de mostrar o lado ridículo de fatos e personagens do cenário nacional. Não que o hábito não lhe renda aborrecimentos pontuais. Uma nota engraçadinha foi a razão de uma das demissões mais comentadas da imprensa carioca nos últimos anos. Mas, desfeita a cortina de fumaça, o resultado tem se mostrado positivo. Tutty acabou contratado pela Época e, depois de deixar a Bundas de lado, dedica-se a desbravar os caminhos do mundo virtual no site Notícia & Opinião (NO). Nesta entrevista, Alfredo Ribeiro fala sobre seu alter ego, a Internet e a situação da imprensa brasileira. E conta com todos os cês e us como foi sua saída do Jornal do Brasil.

O Estagiário: O que o levou para a Internet?

Alfredo Ribeiro: Basicamente o mercado. Nenhum encanto especial pelo veículo. Não sei nem que diabo é esse troço. Tem alguém do outro lado da linha ou não tem? A que horas as pessoas estão lendo? Mas isso vai melhorar a situação do jornalista, vai ser um alento dentro do jornal impresso. A partir do momento em que O Globo passa a perder editores- executivos para sites de companhias de cinema, isso vai mexer na política salarial dos jornais. Vivemos uma estagnação total. O cara chegava ao Globo com 20 anos, aos 44 já tinha comprado seu apartamento, e não tinha mais possibilidade de nenhum vôo na vida. A Internet é que nem corrida do ouro. Todo mundo chegando com suas carroças e picaretas e batendo em morros. O cara acha uma pepita e vende aquele morro para outro tubarão... No final de tudo vai ter uma peneirada muito grande e vai vingar o que presta.

OE: E depois da peneirada, o que vai acontecer?

AR: De qualquer forma o mercado de trabalho terá crescido. A Internet não vai matar nenhum jornal. Vai ter gente que vai voltar para a mídia impressa. Eu mesmo fiquei na Época e vim para cá.

OE: O processo de criação é diferente?

AR: É. Primeiro por ser diário, que é uma experiência que eu nunca tive. No JB cheguei a ter cinco colunas, mas diluídas, eram coisas diferentes. Estou enlouquecido. Saio daqui, vou para casa, chego e ligo essa porra, continuo... Vejo o Jornal da Globo, ponho uma nota no ar, sempre me perguntando se tem algum maluco às duas da manhã tentando entrar naquele troço. É um jogo alucinante. Agora tenho total controle do que faço. De qualquer lugar onde eu tenha um computador plugado na rede entro no programa, ponho, tiro, conserto...

OE: Por que você parou de escrever para a Bundas?

AR: Não estou escrevendo para a Bundas porque a Época me tirou de lá. Não entendi direito, mas também não discuti muito, porque ganhava muito pouco.

OE: Depois de ser muito badalada, a revista passa por uma crise. A que atribui isso?

AR: Faltou uma coisa editorial. Aquilo ali é assim: cada um faz o que quiser, manda e junta. Com o time que tem, tudo bem... mas, com o tempo, vai ficando uma coisa meio perdida. Lançar o número 1 com uma entrevista com o Barbosa Lima Sobrinho... Com todo o respeito ao falecido, o humor nunca foi seu forte. Não basta juntar o pessoal do Pasquim. Naquela época as pessoas estavam juntas por um motivo muito claro.

OE: E o que acha do resto da imprensa brasileira?

AR: Leio todo dia O Globo, JB, Folha, O Dia e Extra. Acho que está tudo meio repetitivo. Com a Internet, virou uma colação generalizada. Você vê o mesmo texto em vários sites, no dia seguinte sai no jornal também. Liberou geral. Os jornais estão tão chatos quanto o país. Tem dias que deve ser muito dificil definir o que vai ser a primeira página. Esse título do JB, do rombo [no INSS], deve ter saído umas oito vezes nos últimos 15 anos. A saída do jornalismo é buscar uma alternativa para não ficar chato. Tenho um filho de 17 anos. É dificil botar na cabeça de um garoto que aquilo é importante.

OE: Há uma acomodação na imprensa?

AR: Está faltando o jornalismo sair dos gabinetes. Você põe quatro caras em Brasília esperando a coletiva... Isso que se convencionou chamar de jornalismo chapa-branca, sempre dependente da fonte oficial de informação. Tem que pensar, ter gente criativa, sem medo de tomar um furo do rombo do INSS. Isso no Globo é uma paranóia. O Globo vive daquela coisa ‘ai meu Deus, vou perder do América de novo’. Pior que fica tentando fazer a mesma coisa e de repente vem o América e ganha. É ridículo isso. Como é que uma coisa tão poderosa fica correndo atrás? Tinha de ousar mais, ele tem gente para isso.

OE: Você falou do JB. Afinal, como foi sua saída do jornal?

AR: Eu vinha fazendo notas e crônicas em cima da coisa da Estátua da Liberdade e dos nomes em inglês da Barra. Havia uma resposta inacreditável dos leitores. Uma crônica rendeu 49 e-mails de gente dizendo ‘é isso mesmo’. O que aconteceu foi o seguinte: o tal do Noenio Spínola [ex-editor do JB] fez uma cagada. O pessoal do BarraShopping e do New York City Center tinha ido ao jornal e dito ‘olha, vou processar’. Houve uma recomendação do Josa [José Antônio do Nascimento Brito, presidente do Jornal do Brasil] e do departamento jurídico ao Noenio Spinola para que me desse um toque.

OE: Foi um tipo de censura?

AR: Não tomo isso como censura. É isso mesmo, vai tomar outro processo? O jornal já está todo encalacrado. Essa coisa não funciona só do lado do poder. Quando eu era da Veja, o Mario Sergio Conti, que era o diretor da revista, me pediu para tirar uma nota sacaneando o João Gilberto.

OE: E o que aconteceu depois?

AR: O Noenio esqueceu de me dar o recado e me ligou dizendo ‘cara, eu esqueci de te falar e você deu hoje de novo no B’. Eu falei assim: ‘Então corre pra tirar da Domingo, porque tá lá de novo’. Até então eu achava que ele era apenas maluco. Depois descobri que não era só isso. Tivemos uma conversa bastante áspera. Ele falava em salário moral, coisas do gênero... eu mandei ele enfiar uma coisa no c.... Mas depois disso Xexéo me ligou dizendo ‘ele falou que ficou nervoso, que te dispensou, mas que, se você quiser voltar, ele te recebe’. No dia seguinte, tinha aquele e-mail pedindo minha demissão por justa causa ao jornal. Mas o jornal não acatou o pedido, me tratou muito bem, minha saída foi muito bem acertada. Foi ruim porque depois você passa um tempo tendo que explicar. Meu sogro estava com câncer, morreu um mês depois. Meu sogro era a pessoa mais íntegra. Imagina se eu estou ali querendo derrubar o BarraShopping para favorecer o Norte Shopping.

‘Vou processar o Noenio’

OE: Quem são suas vitimas preferidas?

AR: São cíclicas. Gosto muito de bater no Gregori. Não é bater em bandido, é bater no íntegro e mostrar que não basta ser íntegro. Nele, no Garotinho... Procuro fazer uma coisa que junte crítica, mundanismo, socialites, esporte...

OE: Você continua sendo alvo de muitos processos?

AR: Estou sendo processado por um ginecologista chamado Malcom Montgomery, ex- marido da Mila Christie, que fala de sexo no programa da Babi. Eu fiz uma nota perguntando: ‘O senhor deixaria sua mulher ir a um ginecologista chamado Malcom Montgomery?’. Ele está alegando que eu acabei com todas as clientes dele. Agora virou essa coisa, as pessoas querem dinheiro. A Norma Bengell me processou lá no JB ainda, dizendo que eu a tinha acusado de homossexual. Depois vieram à tona acusações muito mais graves... Mas eu acho que hoje entende-se muito mais que é humor. Já teve uma época terrível. As pessoas ficavam querendo responder de viva voz. É sempre uma chateação.

OE: E como o processo transcorre?

AR: Tenho o escritório do Sérgio Bermudes me defendendo. Esse [do Malcom Montgomery] é mais complicado porque ele processou a Época e o jornalista Tutty Vasques. Já tem uma confusão danada para esclarecer que Tutty Vasques sou eu. Qualquer dia eu vou ter que ir ao Fórum, sentar em frente ao dr. Malcom Montgomery. O juiz vai ler a nota. Essa é a parte mais constrangedora. Agora, confio sempre na Justiça. Não é possível que caiam numa história dessa.

OE: Você já processou alguém?

AR: Não. Vou processar agora o Noenio. Porque é muito sério, ele tentou acabar comigo. Se eu não tenho a estrada que tenho, o conhecimento que tenho, ele podia acabar comigo. Eu já estava de partida do JB, negociando minha saída. Evidentemente, se você ganha x, alguém está tentando chegar perto de x. De repente você não tem mais aquele salário, trabalha em Bundas e Contigo...

OE: Quando surgiu o personagem?

AR: Há uns 14 anos. O Tutty era uma hora vaga na minha vida. Eu fui subeditor na Domingo/Programa, depois fui editor. Ele cresceu quando deixei de ser editor. Mas eu ainda ficava namorando a possibilidade de fazer as duas coisas. Nessa mudança, especificamente, avisei de cara ‘eu não quero, dá menos grana, mas não dá grana contando que vai ter um cara que vai fazer matéria’. Enchi o saco. Uma das coisas que mais me dão prazer é não precisar ligar para ninguém, checar uma informação.

OE: Ainda tem gente que acha que Tutty é o jornalista?

AR: Hoje bem menos, mas imagino que sim. Às vezes acham que é uma mulher: ‘A senhora é uma invejosa!’. Mas no início era uma coisa muito velada, inclusive por causa dos processos. Eu ficava muito nervoso, achava sempre que ia apanhar, entrar no bar e alguém ia me dar um chute.

OE: Como foi o começo da sua carreira? Você foi estagiário?

AR: Eu sou fruto da baderna, antes do corporativismo, antes do sindicato. Sou fruto do peleguismo. Comecei a trabalhar no 2º período e não parei em nenhum instante. Trabalhei no Diário de Notícias, no Jornal dos Sports... O Jornal dos Sports tinha uma redação inteira de estagiários. Acabei caindo em um estágio na Rádio Jornal do Brasil, que na época era muito forte no jornalismo. Aprendi muito lá.

OE: Como você compara a faculdade na sua época e agora?

AR: Na minha época era um desastre total. Fiz faculdade na virada do Governo Médici para o Governo Geisel. Era um negócio horrível, tinha um soldado na minha sala de aula. Era aquele clima de medo, de pânico... Convivi muito pouco na faculdade, porque começou esse negócio do trabalho. Minha faculdade foi redação. Não sei, me assusta um pouco essa coisa... quantos jornalistas tem na ECO [Escola de Comunicação da UFRJ]? Acho que isso é importante para que se entenda onde se está entrando.

OE: O que acha da obrigatoriedade do diploma para ser jornalista?

AR: Sempre achei isso uma bobagem. Eu odeio corporativismo. Se o cara é bom, sabe escrever... A gente sabe, a gente fez faculdade... Tem que fazer aquilo? A gente vê cada coisa que sai da faculdade de comunicação e não sabe escrever o nome. Isso aqui não é medicina, não é engenharia. O prédio não vai cair, o paciente não vai morrer. A gente lê tanta bobagem escrita por gente que teve curso e sabe falar quatro idiomas. Tudo que eu sei aprendi trabalhando."




LEITOR, ESSE TIRANO

Assis Gutenberg

"Delírios do consumidor final", copyright O Estagiário, setembro de 2000 <www.oestagiário.com>

"Leitores de jornal são seres estranhos. Primeiro porque não perdoam nenhum deslize. Coitado do repórter que grafar de forma errada o nome daquela longínqua mesquita na Tunísia ou daquele obscuro poeta senegalês. A contestação vem a jato, seja de um leitor com parentes tunisianos ou de alguém que já fez curso de literatura no Senegal. Dá até para imaginar o sorriso sádico da velhinha sentada na poltrona desgastada, ao ver que está faltando uma letra no nome daquele cantor que ela tanto ouviu quando tinha 20 anos. ‘Isso não pode ficar assim’, deve pensar. E lá vai mais uma carta para a redação.

Lar, doce lar

É aí que entra a segunda parte da insanidade dos leitores. Eles acham que o jornal é deles e pronto. ‘Sou assinante há muito tempo’, costumam dizer. A partir daí, pensam que podem mandar e desmandar, que a carta deve sair no dia em que eles acharem melhor, do jeito que foi escrita, sem cortes. Tem até gente que, para garantir a publicação, chega ao ponto de oferecer uma certa, digamos, contribuição ao editor. Foi o caso de um sujeito que, há poucos meses, mandou uma carta para o Jornal do Commercio, sobre um assunto inusitado que ninguém lembra mais. O detalhe curioso era o que vinha dentro do envelope: um cheque ao portador no valor de R$ 100. Apesar disso, a carta foi solenemente ignorada, até que o leitor ligou para a redação para reclamar. Explicaram para o homem que não é assim que a coisa funciona e ele saiu-se com essa: ‘R$ 100 é mais do que o suficiente para se publicar uma carta’.

Depois disso, a conversa não evoluiu muito.

Uma informação, por favor

O fato mostra que muitos leitores não têm a menor noção do funcionamento de um jornal. Tem gente que acha que redação é guichê de informações. O Jornal do Brasil, por exemplo, já recebeu carta de uma leitora que gostaria de saber ‘apenas’ como se apura e escreve uma matéria. Simples, não? E tem gente que exagera. Dia desses, a pérola chegou à revista Seleções: ‘Gostaria que o senhor me esclarecesse algumas dúvidas. O pessoal da imprensa forma algum grupo secreto manipulado por forças multinacionais?’ Pobre leitor. Mal sabe ele que muitas vezes o jornalista não consegue manipular nem as suas próprias contas.

Balcão

Há também quem ache que a redação é balcão de empregos. ‘Meu nome é fulano, sou universitário e tenho facilidade em lidar com o público’, se apresenta um candidato a uma vaga no JB (via seção de cartas). Jogando a modéstia para o lado, ele continua: ‘... sou muito comunicativo e tenho extrema rapidez no aprendizado de qualquer serviço’. Deveria aprender rapidinho que jornal não é o CIEE nem a Fundação Mudes."



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