Indice Jornal de debates A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Caderno do leitor

JORNALISTA AMEAÇADO
Folha de S.Paulo

"O ministro da Justiça, José Carlos Dias, recebeu ontem [1/9/99] do correspondente da Agência Folha em Maceió, Ari Cipola, envelope lacrado contendo um relato de investigações relacionadas à morte do empresário PC Farias e de sua namorada, Suzana Marcolino. Em carta, o jornalista aponta pessoas que têm interesse em impedir seu trabalho, para que sejam investigadas se algo vier a acontecer a ele ou a sua família.

Conforme ata lavrada pelo Ministério da Justiça, José Carlos Dias recebeu o envelope ‘com o compromisso de que só poderá ser aberto caso ocorra qualquer incidente que impeça o referido jornalista de se manifestar livremente’. Além do ministro e do jornalista, assinaram a ata o secretário nacional de Segurança Pública, José Oswaldo Pereira Vieira, e a secretária nacional de Justiça, Elizabeth Sussekind, que participaram da audiência concedida a Cipola.

Desde anteontem, Cipola e sua família contam com proteção da Polícia Federal, determinada pelo Ministério da Justiça a pedido da Folha. O ministro disse que o envelope lacrado é uma garantia de vida para Cipola. ‘Como ele está investigando pistas do crime e ainda não tem elementos suficientes para publicar as informações de que dispõe, essa é uma forma de preservar sua integridade.’

Ao receber o envelope, Dias se certificou de que não continha a revelação de nenhum crime. ‘Não posso receber uma notícia-crime e deixar de levá-la ao conhecimento da autoridade policial’, afirmou.

Nota da Redação - Em ataques públicos a Ari Cipola, o deputado Augusto Farias pôs em dúvida a isenção do jornalista devido ao fato de sua mulher trabalhar para o governo de Alagoas. A Folha não vê incompatibilidade entre o trabalho de Cipola e a condição funcional de sua mulher. O jornal não esmorecerá no esforço que vem empreendendo para esclarecer o mistério que cerca a morte de PC Farias, um dos episódios obscuros da história recente do país."

"Dias recebe carta lacrada com relato da apuração do caso PC (medida visa garantir a segurança de jornalista da Folha)", copyright Folha de S.Paulo, 2/9/99

MÍDIA & NEGÓCIO
Amália Safatle

"Empresas de mídia, em especial as que atuam no enfraquecido mercado de televisão por assinatura, estão vendendo os anéis para continuar com os dedos. Empresas de TV aberta, rádio e mídia impressa, totalmente em mãos brasileiras gostariam, até mesmo, de poder vender parte de seu capital para estrangeiros. Enquanto a lei não muda, há quem encontre um jeitinho para fazer parcerias internacionais. Hoje, a fragilidade da situação financeira dessas empresas, de modo geral, pode ser atestada por uma coleção de notas vermelhas dadas por agências internacionais classificadoras de risco. Elas têm sofrido com a queda da atividade econômica, que afeta diretamente suas receitas de publicidade e assinantes. Além disso, os altos juros do crédito doméstico e a desvalorização do real atingem em cheio suas dívidas. O governo, por meio do BNDES, já tentou ajudá-las, planejando criar em abril passado o Proer da Mídia, mas o projeto foi sufocado pelas polêmicas que criou antes mesmo de ter sido colocado em prática. Agora, dentre as poucas alternativas que restam, a mais usada pelas companhias tem sido a venda de ativos, entre eles participação em operações em telefonia celular, informática, Internet e TV via satélite.

Negociar parte do capital com investidores estrangeiros, assim como é permitido às empresas de televisão por assinatura, é justamente o teor de uma proposta de emenda à Constituição Federal, de autoria do secretário-geral do Palácio do Planalto, Aloysio Nunes Ferreira. O projeto, que está sendo votado em comissão especial, em Brasília, também é foco de polêmica e capaz de alterar o jogo de forças entre as empresas de comunicação.

A Rádio e Televisão Bandeirantes, da família Saad, é um exemplo de drible na lei em busca de alianças com parceiros estrangeiros. Ela permanece com seu capital totalmente nacional, mas atua com a Sony Entertainment na produção de parte do conteúdo televisivo. Além disso, os programas esportivos são realizados pela empresa Traffic, parte da qual foi vendida para o bilionário fundo estrangeiro Hicks Muse Tate & Furst, que investe em mídia dentro e fora dos Estados Unidos. ‘Se houver mudança na legislação, a Sony e a Traffic tendem a entrar no capital social da Bandeirantes’, diz uma conceituada fonte do setor.

Seria uma maneira de a Bandeirantes recuperar a imagem no mercado financeiro. Em junho, analistas da agência norte-americana Moody's rebaixaram o rating da empresa de B2 para B3 (passou a ter a menor nota dentro da categoria B, que indica pequena possibilidade de pagamento dos juros e do principal pela empresa), em razão da fraca receita de anúncios, alta alavancagem (dívidas sobre capital), e forte exposição do passivo em dólares o que, na conclusão dos especialistas, compromete sua capacidade de realizar investimentos em programação no futuro. No ano passado, chegou a 99,1% o total do endividamento da empresa sobre sua estrutura de capital (que é a soma da dívida, patrimônio líquido e valor contábil de ações preferenciais e ordinárias).

Como pontos fortes da Bandeirantes, os analistas apontam a durável permanência do controle do grupo nas mãos da família Saad, forte identidade em programação esportiva, boa audiência em rádio, crescente porcentagem de receitas em dólar e existência de caixa para pagamento de juros no futuro próximo. João Carlos Saad, vice-presidente do grupo, informa que o endividamento bancário é de US$ 129 milhões, dos quais mais de 90% vencem a longo prazo. Ele diz que os US$ 100 milhões captados no mercado norte-americano no ano passado foram usados para investimento em nova programação e equipamentos, e vencem apenas em 2006.

A Rede Brasil Sul (RBS), de Nélson Sirotsky, maior afiliada local da TV Globo, operadora de 14 FMs, quatro AMs e dona de quatro jornais diários, entre eles o Zero Hora, conseguiu melhorar significativamente sua situação financeira com a venda do controle do ZAZ o segundo maior provedor de Internet do Brasil para a Telefonica Interativa, empresa da Telefónica de España, por um valor (comenta-se) estimado em US$ 200 milhões.

Segundo Maria Lemos e Heather Goodchild, analistas da agência classificadora de risco Standard & Poor's, a alienação do controle melhorou a liquidez da RBS no curto prazo, aliviando sua alta alavancagem, que cresceu após a desvalorização cambial de janeiro. Com isso, os analistas mudaram, em julho, a classificação de risco para a RBS de credit watch (período de observação para possível rebaixamento) para BB em moeda local, atestando que a empresa é pouco vulnerável a curto prazo, mas, a longo, pode enfrentar incertezas e dificuldades devido a condições comerciais, financeiras e econômicas adversas. O sinal de menos indica a menor nota dentro da categoria de risco.

Sirotsky informa que os recursos obtidos com a venda do controle do ZAZ destinaram-se ao aumento da capitalização de várias empresas do grupo, e que este ‘hoje dispõe de significativos recursos próprios para atender a seu programa de desenvolvimento’. Segundo ele, dos US$ 175 milhões captados via euro-bônus, US$ 55 milhões venceram em dezembro do ano passado e já foram resgatados, enquanto o restante vence em 2007.

Se a avaliação de risco da RBS melhorou graças à alienação de ativos, o mesmo não aconteceu com as empresas dos grupos Globo, da família Marinho, e Abril, dos Civitas, que atuam no setor de televisão por assinatura. Apesar de ter vendido, em agosto, 12% de seu capital total para a Microsoft por US$ 126 milhões, mediante lançamento de novas ações e dentro de um amplo programa de parceria nos negócios de Internet e TV Interativa, a Globo Cabo, líder no setor de TV por assinatura, continua classificada pela Moody's como B3 (nota igual à da Bandeirantes). Para analistas da agência, a empresa ainda sofre com o pesado custo de capital em dólar e encontra-se muito exposta a variações cambiais, enquanto a maior parte do fluxo de caixa está em reais. Também há incertezas quanto à capacidade de pagamento dos assinantes.

Especialistas da Standard & Poor's têm avaliação parecida sobre a companhia. Mantêm a nota de BB para moeda local (pouco vulnerável a curto prazo, mas, a longo, pode enfrentar incertezas e dificuldades). De acordo com a analista Maria Lemos, apesar de a parceria com a Microsoft acelerar a entrada da Globo em negócios de Internet e capitalizar a empresa, não se espera melhoria em seu perfil de crédito a curto prazo. Isso porque os novos negócios irão exigir pesados gastos em marketing e na operação em si. Segundo balanço divulgado pela Globo Cabo, suas dívidas somavam US$ 596 milhões em 30 de junho.

Ao lado da Microsoft, a empresa irá oferecer serviços de alta velocidade em Internet, usando cabos em vez de linhas telefônicas, o que deverá acelerar a transmissão em 60 vezes. A empresa já vem testando o sistema em Sorocaba (SP). Outra novidade da parceria é a TV interativa, pela qual o telespectador interfere na programação.

Se é que é possível a comparação, a experiência da TV interativa em Hong Kong não é nada animadora para a Globo. Conforme noticiado na The Economist de março, o serviço lançado em março do ano passado estava mostrando-se um fracasso comercial. A previsão original era de que se atingisse 250 mil assinantes neste ano, pagando-se US$ 50 mensais cada, mas os números não passaram de 80 mil, a um preço médio de US$ 35. A Hong Kong Telecom, que esperava começar a lucrar em 2001, adiou a meta para 2003. Em que pesem os riscos dos negócios, a parceria com nada menos que a Microsoft poderá dar muito samba na Globo e diferenciá-la, em léguas, da concorrência.

Controladora da Globo Cabo e da Net Sat (marca Sky), a Globopar também continua com a classificação de risco inalterada, apesar da venda do controle da Nec Brasil (que atua na área de informática), para a Nec japonesa, e da saída de duas operações de telefonia celular. Depois de captar US$ 1,19 bilhão no mercado internacional, a empresa tem se virado como pode para resgatar as dívidas, recorrendo inclusive ao mercado de dívida doméstico, onde captou US$ 200 milhões em abril passado, por meio de notas promissórias.

Mesmo assim, a Globopar tem melhor classificação de risco que suas controladas (BB pela Standard, em moeda local, e B2 pela Moody’s) porque recebe suporte financeiro das Organizações Globo, atuante em setores menos problemáticos que o de TV por assinatura, tais como TV aberta, rádio e mídia impressa. A TV Globo, que há dez anos chegou a ter 80% de audiência nas classes A, B e C, hoje detém cerca de 40%, mas ainda concentra de 70% a 80% do bolo publicitário em televisão: é que os anunciantes preferem associar sua imagem à da vênus platinada do que a outras que transmitem programas como o do Ratinho.

Embora tenha alto potencial de crescimento, as perspectivas para o mercado de TV por assinatura são péssimas. Segundo estudo da Lafis Pesquisa e Investimentos em Ações na América Latina, a penetração desse serviço no Brasil foi de 7% no ano passado, bem inferior aos percentuais de 1996 da Argentina (58%), México (13%), Estados Unidos (69%), e Alemanha (53%). A previsão de expansão do mercado brasileiro este ano é ainda pior que a do ano passado, em que ficou estagnado: deverá encolher 10%, como reflexo da deterioração do poder de consumo no País.

Além da desistência de assinantes, já que o serviço é um dos mais supérfluos do orçamento doméstico, o mercado enfrenta forte obstáculo para expansão no desinteresse das camadas de baixa renda. O estudo da Lafis aponta como razão a singularidade lingüística e cultural do País. Programas em língua estrangeira (incluindo espanhol), se legendados, não despertam interesse nessa faixa da população e, na maioria dos gêneros, mesmo os dublados, deixam a desejar em relação aos produzidos localmente em suma, as grandes redes de TV paga têm pouco a oferecer a esse público algo além do que já está disponível na TV aberta.

Esse quadro conta negativamente na avaliação financeira não só da Globo Cabo e Net Sat, como também da Tevecap (marca TVA), controlada pela Abril, e da TV Filme, de Hermano Lins de Albuquerque. Ambas venderam ativos, mas mesmo assim tiveram suas notas rebaixadas pelas agências. A Tevecap, por exemplo, vendeu, por US$ 500 milhões, sua participação em operações via satélite (DirecTV) para a empresa nortea-mericana Galaxy Latin America. Com isso, reduziu em 70% seu endividamento, informam Leila Lória, diretora-superintendente, e Marcelo Bonini, diretor-financeiro da empresa. Segundo eles, dos 30% remanescentes, 65% correspondem a dívidas com o próprio Grupo Abril.

No entanto, a empresa recebeu nota D da Standard & Poorís, a mais baixa na escala, que indica inadimplência dos compromissos financeiros. Isso porque negociou com investidores a recompra de US$ 250 milhões em bônus que venceriam em 2006 a 65% de seu valor de face. Este desconto foi considerado pela agência como défault.

A TV Filme, que atua em Brasília, Goiânia (GO), Belém (PA) e Campina Grande (PB), também ganhou nota D no boletim, por não ter pago, em junho, juros de US$ 8,9 milhões relativos à emissão de US$ 140 milhões em bônus que vencem em 2004. A Standard & Poor's mantém o rating apesar de a empresa ter renegociado a dívida com os investidores. Ela trocou parte dos bônus por participação acionária de 80% no capital da TV Filme Inc., holding da empresa sediada nos EUA. Agora, sua dívida é de US$ 35 milhões. A empresa perdeu 17% de sua base de assinantes no último trimestre de 1998 e 33% no período de janeiro de 1998 a março de 1999, informam analistas da Moody’s."

"A rede de vendas", copyright CartaCapital nº 105, 1/9/99

xxx

"A discussão não é de hoje mas, até o fechamento desta edição, a proposta de emenda ao artigo 222 da Constituição tramitava em comissão especial na Câmara dos Deputados. A nova redação propõe a participação estrangeira em até 30% do capital total de empresas de rádio, televisão aberta e mídia impressa, bem como o registro de pessoas jurídicas no controle acionário. Pela lei em vigor, a participação estrangeira é proibida (a não ser em TV por assinatura) e o controle da empresa precisa estar em nome de pessoa física nata ou naturalizada no Brasil há pelo menos 10 anos.

Para Sirotsky, da RBS, a participação de estrangeiros deveria ficar entre 30% e 49% do capital da empresa, desde que o controle continue nacional. A Abril, por meio de sua assessoria de imprensa, também diz-se a favor da proposta como maneira de injetar recursos no setor, e defende o limite a 30%. Saad, da Bandeirantes, diz que ‘os meios de massa (rádio e TV) deveriam ser mais preservados, enquanto na mídia impressa poderia haver participação estrangeira maior'. Dermeval Gonçalves, superintendente da Record, defende a possibilidade de controle acionário por entidades sem fins lucrativos (proposta do deputado Laprovita Vieira).

Evandro Guimarães, diretor de relações institucionais da Globo, afirma que capital sempre é bem-vindo, mas que, ‘em países onde a televisão é levada a sério, como Itália, França e Canadá, a participação estrangeira é bastante limitada, como forma de preservar suas línguas e culturas'. Comenta-se que a Globo vê a proposta como ameaça à sua liderança, já que a injeção de recursos fortaleceria financeiramente a concorrência."

"Lei a lápis", idem idem

 

LA GALISTEU
Alberto Dines

"Como todos só falam em descobrimentos entrei na onda. Comunico uma importante descoberta que pode abalar nossa civilização: esta página estava com o título incompleto. ‘Mídia’ apenas não dá a dimensão da importância da mídia. Por isso mandei uma petição aos bem-amados chefes pedindo o novo logotipo que está aí em cima. Nas 250 páginas de considerações expliquei que os meios (de comunicação) precisam ser observados junto com os modos que causam. Aprovaram em cinco minutos.

Assim, a partir de agora, trataremos não apenas do que sai na mídia mas também das atitudes, comportamentos e costumes que a mídia gera no distinto público. Causa e efeito, sacaram?

No exato momento em que faço essas transcendentais reflexões, Suzana Werner, ‘ex’ do ex-Ronaldinho (agora Ronaldo), começa sua carreira de celebridade independente. Se quando você ler estas linhas ela já não estiver regressando aos braços do jogador pode ficar certo que estará acertada da seguinte maneira: a) contrato com uma revista masculina para posar nua nas ilhas gregas; b) idem, para apresentar um programa de TV; b) idem, para o lançamento de uma griffe de produtos para o corpo; c) idem para escrever uma coluna numa publicação popular; d) idem para um CD de música country; e) idem para um papel na próxima telenovela da Globo.

Nos intervalos, Suzana ficará noiva de outro astro esportivo, em seguida de um empresário emergente e, finalmente, de um publicitário ou comunicador genial. Que a aconselhará a fazer algo ‘sério’, ‘artístico’ como, por exemplo, a Ofélia de ‘Hamlet’ (em versão multimídia sem palavras), espetáculo montado com os recursos da Lei de Incentivos á Cultura.

Entrementes, a divina loura será capa de jornais e revistas, entrevistada em ‘talk-shows’ e flagrada semanalmente pelas indiscretas câmaras das colunas mundanas.

Ao profetizar tão fulgurante carreira para miss Werner dou-me conta que já vi esse filme. Só que foi interpretado por outra, Adriana Galisteu, agora convertida em atriz de teatro: para badalar o centenário do grande ator Procópio Ferreira, sua filha Bibi Ferreira convidou La Galisteu para fazer uma ponta em ‘Deus lhe pague’, a obra mais representada do teatro brasileiro. Com direito a foto maior dos anúncios e todos os subsídios estaduais e federais que se reserva para implementar nosso desenvolvimento cultural.

A mídia precisava de uma ‘viúva’ para Ayrton Senna e, seis anos depois, aí está o resultado: uma nova Sarah Bernhardt em nossos palcos. Fernanda Montenegro que se cuide.

De celebração em celebração vamos criando uma pitoresca safra de celebridades clonadas, gêmeas, iguazinhas: ex-modelos, ex-namoradas de desportistas, ex-morenas desbotadas, agora louras oxigenadas, felizes proprietárias de suntuosas coberturas. Serão elas as expoentes e os pilares da civilização brasileira deste fim de século. As promotoras de espetáculos, eventos, produtos, jogadas, livros, idéias. Nenhuma ousou candidatar-se à vaga na Academia Brasileira de Letras, mas o atual presidente dos imortais, marqueteiro emérito, já está de olho numa delas, por sinal autora de delicadas redondilhas pastoris.

Cada país tem os ídolos que merece. Na realidade, não há razão de queixa: somos muito mais felizes do que a Venezuela. O vizinho do norte escapou por pouco de ter uma Miss como presidente da República. Louraça obviamente. E agora, o ex-gorila que ganhou as eleições, Hugo Chavez, percebendo a força da mídia e como não pode vestir salto alto, rasgou a fantasia: lançou um programa de TV e está preparando um jornal popular.

Chegaremos lá. Nossa mídia é imbatível."

"A vantagem de ser ‘ex’", copyright VIP, agosto/99

 

Arnaldo Bloch

"Diretor identificado com a formação obstinada de atores que absorvam a sua marca pessoal, Gerald Thomas repudia a escolha de Adriane Galisteu para um papel dirigido por Bibi Ferreira, ao mesmo tempo que discorda de Lucélia Santos quanto à opinião de que o teatro está ameaçado.

A propósito de sua substituição pela modelo Adriane Galisteu no elenco de ‘Deus lhe pague’, a atriz Lucélia Santos está dizendo que o teatro morreu, que hoje a formação profissional e pessoal do ator é cada vez menos importante na escolha do elenco, que amanhã estaremos vendo Ronaldinho e Tiazinha nos papéis de Romeu e Julieta.

Gerald - Olha, eu não sabia dessa coisa toda. E, apesar de não gostar nada, nada, da Lucélia Santos, acho que, neste caso específico, ela está com a razão.

Por quê?

Gerald - Acho que a decisão da Bibi Ferreira foi extremamente infeliz. Essa Adriane Galisteu não serve para nada além de infestar ainda mais a baixa cultura brasileira de louras oxigenadas. É vergonhoso que alguém assim possa pisar num palco assinado por Bibi Ferreira.

Você concorda, então, com a opinião de que, por estas e outras, o teatro brasileiro está ameaçado?

Gerald - O teatro não morre só porque uma atriz tem o infortúnio de ser substituída por alguma loura burra. O teatro (o meu, o bom, o dinâmico, que luta por idéias novas e revoluciona o estado de coisas) existirá sempre. Isso é um problema pessoal da Lucélia. Agora veja só a semelhança: tanto a Galisteu quanto a Lucélia não fazem teatro. Fazem caça-níqueis. Se isso morreu, que Deus (e o cemitério do Caju) as tenha."

"‘A decisão da Bibi foi extremamente infeliz’", copyright O Globo, 29/8/99

xxx

"Ronaldinho é Romeu. Tiazinha, Julieta. Se um ou o outro sabe dizer o texto, pouco importa. Se são ou não são atores, é um mero detalhe. Se o nome de William Shakespeare é aviltado, fazendo revolverem-se noutro mundo os espectros dos reis, príncipes, guerreiros, princesas, bruxas e megeras edificados pelo bardo inglês, paciência. Os aplausos do público, a longa temporada do espetáculo e o tilintar do caixa darão um basta no clamor da crítica e no zumbido dos chatos e dos mal-humorados.

Lucélia Santos imaginou esta trágica cena quando foi dispensada, em julho, da montagem de Bibi Ferreira para o clássico ‘Deus lhe pague’, de Joracy Camargo - em cartaz atualmente em São Paulo - e substituída em definitivo pela modelo e apresentadora Adriane Galisteu. Lucélia, que esperava reintegrar o elenco do espetáculo após uma viagem de três semanas ao exterior, foi avisada por fax, em Portugal.

- Para mim o teatro no Brasil acabou. Tinha Bibi como referência desde os meus 14 anos, quando ficava vendo nas coxias dez, 20 vezes, as peças que ela ensaiava. Tive uma sensação de desmoronamento - diz a atriz, em sua casa no Itanhangá.

- A Lucélia está é com uma tremenda dor-de-cotovelo, porque a Adriane é o máximo e está muito melhor do que ela no papel. Tudo foi feito de acordo com o que combinamos - rebate o produtor do espetáculo, Nilson Raman.

Versões contraditórias à parte, o episódio motivou um encontro em petit comité, com a presença de Lucélia e de um grupo de artistas e críticos, há poucas semanas, no sítio de Walmor Chagas no interior de São Paulo. Lá, foram esboçadas as bases da ‘Carta de Guaratinguetá’.

- Vamos lançar um manifesto e levar aos artistas que estão pensando cultura neste país - anuncia a atriz.

Mentor da cúpula, Walmor - que vê, no caso Lucélia/Adriane, ‘a prevalência da ética comercial sobre a artística’ - acha a classe teatral omissa demais.

- Qual a posição do artista diante da nova ordem em que o país vive? E em relação à profissão? É necessário um título, um diploma, um curso, ou basta querer atuar para subir ao palco? A validade da atual regularização da profissão está muito desmanchada - questiona.

O diretor Moacyr Góes - que se orgulha de ter lançado no teatro a ex-paquita e atual vilã de ‘Suave veneno’ Letícia Spiller - espana todos os rótulos:

- Execrar o artista bonito é a mesma coisa que rejeitar o nordestino feio e recusar-lhe um papel por isso. Não é sempre verdade que uma mulher ou um homem belos não tenham talento, assim como não é verdade que aqueles que têm grande experiência sejam talentosos. A nossa profissão tem isso de legal: não há apenas uma porta de entrada.

Produtor de Marco Nanini em ‘Uma noite na lua’ e de Marieta Severo em ‘A dona da história’, Fernando Libonati discorda:

- O teatro é o encontro do ator com o público. É grave que se comece a trabalhar com personalidades e modelos. Este teatro deturpado corre o risco de afastar um público novo, que busca a especificidade, e também o público culto, que já tem as suas referências.

Do alto de seus quase 60 anos de palco, a atriz e diretora Bibi Ferreira, em fax enviado ao GLOBO, sai em defesa de sua opção por Adriane:

‘Os senhores acreditam que eu deixaria a modelo e apresentadora Adriane Galisteu subir num palco, se não tivesse condições de fato? Até por uma questão de carinho e proteção a ela, sentimentos que eu aprendi depois de ter iniciado tantas atrizes. (...) Me sinto feliz por ter apresentado à Adriane o palco e a palavra. Fico feliz por ter sido em ‘Deus lhe pague’, espetáculo que meu pai fez por quase 40 anos. (...) Até o dia 27 de fevereiro de 1941 eu ainda não era uma atriz. Na noite seguinte, tive a minha estréia. Assim como Adriane também teve a sua noite.’

E a pupila Adriane Galisteu agradece, reverenciosa:

- Não há no mundo um curso de teatro que se compare à experiência de aprender tudo com Bibi Ferreira."

"O teatro acabou", idem idem

xxx

"Inflada pelo seu sucesso na montagem de ‘Deus lhe pague’ em São Paulo, a modelo e apresentadora Adriane Galisteu repudia o preconceito e dispara: ‘Dei o melhor de mim’.

Você acompanhou a polêmica em torno da substituição de Lucélia por você em ‘Deus lhe pague?’

Adriane - Não conheço detalhes da substituição. Mas, até onde sei, a Lucélia também começou um dia. Nem sei como ela começou, mas, certamente, ela não tinha esse talento todo na época. A Vera Fischer, por exemplo, era Miss Brasil quando iniciou na carreira. Ninguém nasce atriz, ninguém é atriz antes de estrear, antes de ter a primeira oportunidade.

Mas há os cursos, a formação...

Adriane - E você pode me indicar um curso que seja melhor do que trabalhar ao lado de Bibi Ferreira? Conhece um curso que corresponda à experiência de aprender, diariamente, o bê-a-bá do teatro com a própria Bibi Ferreira, na peça em que seu pai atuou tantos anos? É incrível, numa profissão como a nossa, em que se luta tanto contra o preconceito, existir este tipo de problema.

Você enfrentou preconceito?

Adriane - É verdade que, diferentemente de Lucélia Santos, entrei na carreira já tendo um nome conhecido e, por isso, há quem diga que foi uma jogada de marketing. Mas fui extremamente bem recebida por todos, pelo elenco, pela Bibi. E ela me disse: Adriane, você vai ensaiar. Se não estiver bem, não entra. E eu me esforcei. Dediquei-me muito. Dei o melhor de mim.

E como fica a sua relação com a Lucélia?

Adriane - Não é legal criticar assim. Não é bonito. Espero que não seja nada pessoal. Espero que ela um dia vá me ver atuar. Afinal, pode ser que amanhã a gente seja parceira em alguma produção. E aí? Como é que vai ficar? "

"O melhor curso é a Bibi", idem idem

xxx

"Numa coisa quase todos concordam: se, como manda a Lei, fosse realmente exigido de quem deseja fazer teatro o curso de qualificação profissional (autorizações especiais do Sindicato dos Artistas do Rio permitem atuar sem registro), os produtores e diretores não conseguiriam mais fechar os seus elencos.

- Não defendo um rigor excessivo. Mas, no mínimo, um ator tem que saber falar! De uns anos para cá, nem isso sabem. Não se leva mais em conta a formação profissional e a cultura de quem sobe ao palco - lamenta Lucélia Santos.

- Talvez haja uma certa passividade do sindicato. Ou será que é o caso de se abrir completamente para quem tem talento, para os cursos que a vida oferece? E aí, é o público que passa a ser o juiz. Vamos lançar essas discussões em nosso manifesto - anuncia Walmor Chagas.

Se tivesse que fazer os cursos profissionalizantes, Adriane Galisteu - que obteve autorização especial do sindicato para integrar o elenco de ‘Deus lhe pague’ - seria forçada a adiar em alguns anos a sua estréia. O que não impede que receba odes entusiasmadas de Paulo Autran, que foi assisti-la há poucos dias:

- Adriane entrou em cena como uma atriz experimentada. Elegante, bonita, com uma ótima voz, enfim, saiu-se muito bem. Foi uma surpresa: é difícílimo ver uma estreante com os dotes que ela demonstrou no papel de Nancy.

Alheio a polêmicas, Emílio de Mello, que coordena o projeto Refinaria de Atores, no Centro Cultural Laurinda Santos Lobo, em Santa Teresa, busca caminhos alternativos de formação:

- Reunimos atores preocupados com o desenvolvimento e a profundidade do seu trabalho. Ninguém é estrela neste grupo. Mesmo as pessoas que são conhecidas estão neste projeto para estudar e conhecer a profissão, para se preparar melhor para enfrentar os percalços deste mercado.

Embora concorde que, hoje, na hora de escolher, há uma procura exagerada pela beleza e pela juventude, Marco Nanini calcula que, no final, o talento acaba vencendo a guerra.

- A gente nunca sabe onde está o talento. Mas, a médio e longo prazo, só sobrevive na profissão quem o tem - diz Nanini, o Otávio de ‘Andando nas Nuvens’ e estrela do monólogo ‘Uma noite na Lua’.

Para Bibi Ferreira, o talento está é no palco. ‘Para se chegar a uma conclusão, é necessário assistir ao resultado. Minha resposta para a escolha de Adriane está no palco. Como digo, teatro é uma coisa muito simples, e quem mais entende é o público."

"Bibi: ‘De teatro quem entende é o público’" , idem idem

xxx

"‘Decepcionada, a atriz Lucélia Santos anuncia o lançamento de uma carta conjunta, cujas bases foram discutidas na casa de Walmor Chagas, em Guaratinguetá, São Paulo.

Por que toda essa confusão?

Lucélia - Eu tinha um acordo com a Bibi Ferreira. Fui à China e a Portugal a negócios. Combinamos que eu retornaria para retomar minha participação. Depois da temporada no Rio, a peça deveria estrear sem mim em São Paulo. Sugeriram que parasse a peça. Fui eu que propus a substituição, sei como é caro ficar parado. Fiquei decepcionada mas aconteceu, está acabado. ‘Deus lhe pague’ é passado. Bibi Ferreira é passado.

Você e Bibi voltaram a se falar depois?

Lucélia - Não, porque passei um fax para ela de Portugal dizendo: ‘Isso é um absurdo, estou muito chocada’. Não houve resposta até hoje.

E o que diz sobre a escolha da sua substituta?

Lucélia - Não é assunto da minha alçada. Não posso avaliar a questão de o artista ter ou não ter vocação. Mas está havendo uma grande mistura entre vocação, a carreira do ator e a mídia. E de alguma forma é a sociedade que está pedindo isso, o que me angustia. E por esta sensação de que alguma coisa estranha está acontecendo é que vamos lançar um manifesto.

Como surgiu a idéia?

Lucélia - Semana passada o Walmor (Chagas) me convidou para uma reunião na sua casa em Guaratinguetá. Havia críticos de teatro, a Camila Amado, outros artistas. Foi este episódio do ‘Deus lhe pague’ que alavancou esta necessidade. Vamos fazer uma carta, levar aos teatros.

O que se conversou nesta reunião?

Lucélia - Levantamos várias questões. O teatro está acabando? Tem público? As pessoas vão ao teatro só por causa da mídia? O teatro de qualidade leva o público às salas?"

"Algo estranho acontece", idem idem

 

Barbara Heliodora

"Nunca ouvi ninguém defender a idéia de se contratar uma moça ou um rapaz como violinista ou pianista, ou entregar a um ou outro a encomenda de uma escultura ou gravura, só por terem um e outro boa aparência; mas quando chega a hora de ser ator ou atriz, todos acham que nenhuma preparação prévia é necessária. Afinal, o que é que o ator faz? Senta, levanta, fala, anda, e, como o instrumento que usa para exercer sua arte não está fora dele, apareceu a triste idéia de que para ser ator ninguém precisa nem de talento, nem de formação específica. O cinema (e eventualmente a televisão), que são muito mais obra de diretor e equipamento, foram a fonte dessa confusão: como no cinema a única coisa barata é o filme, o diretor faz incontáveis takes, depois edita com o que melhor serve sua narrativa.

Não há dúvida de que há leis e regulamentos demais, porém pior ainda é o fato de nenhum deles ser obedecido; é perfeitamente verdade que um ator pode aprender muito em um grupo amador, porém é necessário acabar com a idéia de que ele não pode aprender muito em uma escola.

O que está faltando é um maior nível de exigência dentro da própria profissão, do mesmo modo que o Ministério da Educação precisa reconhecer que o ensino das artes tem aspectos próprios, e que um bom ator ou diretor experimentado pode ser muito melhor professor do que um titulado sem qualquer experiência de palco, por exemplo. Tem de ser difícil conseguir um diploma, do mesmo modo que é preciso que os novos atores, para conseguir exercer a profissão, se apresentem prontos para serem dirigidos, não ensinados, na hora de interpretar, a fim de poderem candidatar-se com melhores condições do que os penetras de boa aparência. O ator é um instrumentista de si mesmo, e ele tem de aprender a dominar e tocar o seu instrumento."

"A falta de intimidade com sua própria arte", idem idem

 

Agamenon Mendes Pedreira

"Para alegria dos catastrofistas e fofoqueiros de plantão, mais um casamento está chegando ao fim. Adriane Galisteu e o publiciotário Roberto Justus já não dividem mais a mesma página da ‘Caras’. Deprimida, a ex-viúva Ayrton Senna está sofrendo a dor da separação no Castelo de ‘Caras’. Por sua vez, Justus está curtindo a triste vida de solteiro na revista ‘Chiques & Famosos’. O casamento de Adriane e Justus vai entrar para ‘O livro Guiness dos recordes’ como o mais longo da história da publicidade, onde os casamentos duram, no máximo, 30 segundos.

Segundo o próprio Justus, o fim do casamento aconteceu por absoluta falta de espaço na agenda e incompatibilidade de horários. Enquanto Adriane estava posando para ‘Caras’, Justus dava uma entrevista para a ‘Contigo’. Quando a Galisteu dava uma entrevista para ‘Meio & Mensagem’, Justus estava no Caribe posando nu para a ‘Playboy’, uma confusão danada. O casal só se encontrava para cumprir com suas obrigações conjugais na hora de dar uma entrevista para a revista ‘Ti-Ti-Ti’ sobre o dia-a-dia do casal. Mesmo assim, Justus passava tantas horas no banheiro fazendo escova no cabelo que, quando chegava na alcova pronto para os ritos do amor carnal, já encontrava sua esposa nos braços de Morfeu. Ciumento por natureza, Roberto Justus não segurou a onda de ver a sua patroa nos braços de outra beleza da mitologia grega que não fosse ele mesmo. Indignado, o Minotauro da Publicidade, prisioneiro no Labirinto das emoções conflitantes, telefonou imediatamente para Leão Lobo, Sonia Abrahão, Alex Lerner e Nelson Rubens (que aumenta mais não inventa) e comunicou que estava desfazendo a sociedade com a Adriane Galisteu, que, por sua vez, pretende se transformar em empresa de capital aberto.

Na verdade foi a massacrante rotina cotidiana que acabou com o casal Justus, Galisteu, Olgivy & Mather. A rotina de não encontrar com a própria mulher nunca. Alguns maldosos insinuam que o Justus não deu conta da Galisteu mas, no meio publicitário, o que se comenta é que o Justus perdeu a conta da Galisteu. (Agamenon Mendes Pedreira também foi até Brasília junto com o MST onde ocupou um ministério improdutivo)"

‘Os justus também amam’, copyright O Globo, 29/8/99

 

AUTONOMIA NA REDAÇÃO
Jornal da UFRGS

"Da entrevista com o jornalista (Rádio Gaúcha, Zero Hora e RBS TV), filósofo e professor universitário Ruy Carlos Ostermann:

Autonomia é uma palavra mágica que pode provocar transformações. O senhor dirigiu a redação da Folha da Manhã e o departamento de jornalismo da Rádio Gaúcha. Com resultados dramáticos para a redação, porque sua maneira de chefiar permitiu autonomia, vôos, incentivou as pessoas a tomarem iniciativa, em vez de ser centralizadora e castradora como a maioria das chefias. Essas experiências custaram caro: nunca mais permitiram ao senhor nenhuma chefia. Fale sobre a questão das pessoas pensarem por conta própria no jornalismo.

Ruy Carlos Ostermann - A gente não pode tirar do contexto que o jornalismo que se pratica é o dos donos do poder, das pessoas e dos interesses que querem expressar suas vontades dentro da sociedade e que se valem do jornalismo para esse fim. É clássico entre nós, jornalistas, que quando se fala de liberdade de imprensa as pessoas ficam se olhando. Há, sim, é uma liberdade de empresa. Só. Toda a liberdade de que se pode usufruir é a que a empresa concede ou não. A minha biografia profissional é marcada por esses dois episódios que tu lembraste, nos quais eu procurei ser coerente e sensato em relação a minha formação e a minha exigência na redação. Só que eu esbarrei no establishment. Entendi que a possibilidade de uma certa desordem cultural, social, levaria, necessariamente, a um descontrole. Era uma liberdade demasiada. Os conceitos são estes, para não entrar em mais detalhes. São conservadores? Não. São de propriedades. Proprietário trabalha assim, em qualquer instância. No jornalismo não pode ser diferente.

As duas experiências não foram adiante por serem um erro ou uma estratégia inadequada?

Ostermann - O erro foi a nossa grande virtude, da qual todos nos orgulhamos muito. A gente tentou fazer a coisa, como se fosse possível ser feita, levando-se em conta certas limitações, mas tentando avançar tanto quanto se pudesse naqueles anos. Não deu certo, mas formou cabeças, determinou biografias, trajetórias pessoais. Marcou certas coisas que hoje se fazem com referência àquelas que foram feitas. E se você pensar em toda a imprensa alternativa do país no período da ditadura, na sua capacidade de rebeldia diante dos fatos, e na sua tentativa sempre de passar para o outro lado, sempre tentar uma coisa, valeu o esforço. Sabemos o quanto todos nós temos sofrido, na medida que a gente pretende esses caminhos. Por outro lado, não há outro caminho. O caminho da acomodação, do servilismo, do silêncio, da repetição, da reprodução, ou simplesmente do atendimento de todas as prerrogativas, é o caminho da falta de personalidade, da falta de grandeza, de honra, de dignidade. Este não é caminho. Quando alguém me diz que não dá mais para trabalhar, respondo: ‘Faça outra coisa com dignidade. Vá pescar, vá pescar com dignidade, relacione-se com o mar, com o rio, com o peixe, com os anzóis, com o barco, com os companheiros. Com dignidade, faça disso uma profissão, faça disso uma relação com o mundo. Se você acha que não dá para fazer jornalismo, porque insistir no jornalismo?’

O jornalismo de hoje não sofre as conseqüências de um romantismo que, no passado, criou uma aura em torno da profissão?

Ostermann - O erro que se pratica muitas vezes, e que na nossa época também se praticou, é o de não se perceber que o espaço do jornalista nunca foi livre, sempre foi mais ou menos contido, regido dentro de certos limites, que não pode ultrapassar, sob pena de ficar em dificuldades. O jornalista pensa no limite. Se pode fazer todas as coisas abaixo disso com qualidade, com investigação, com ironia, com grandeza, com oportunidade, por que não faz? Um bom texto pode ser escrito. Talvez não possa dizer certas coisas. Mas você não pode abdicar de um bom texto. É como no magistério. Ao enfrentar a sala de aula, tenha a dignidade de dar o melhor que você pode pelo vil salário que lhe pagam. Vá batalhar pelo seu salário, vá no seu sindicato, mas na sala de aula não se queixe e cumpra com o seu dever. Os alunos merecem respeito.

As pessoas têm criticado muito esse pensamento único que está estabelecido no país, no governo, na imprensa (estamos falando de imprensa brasileira). Com pequenas variações, os jornais brasileiros hoje, são todos iguais?

Ostermann - Muito parecidos. Há várias coisas sobre as quais o jornalista devia pensar. Primeiro: qual é a fonte básica de sua informação? Em 60%, 70% dos casos é o próprio governo, através de suas inúmeras assessorias, de seus inúmeros ministérios, de várias hierarquias e estamentos. Quase toda a fonte de informação básica de um jornalista é fonte oficial. É por isso que o que você vê no jornal, não é investigação, não é ruptura, não é intervenção, não é rebeldia. É a reprodução dos processos que, através do governo, são de interesse que sejam publicados. As empresas de comunicação dependem, cada vez mais, das suas relações diferenciadas dentro da sociedade. Portanto, assumem compromissos com setores diferenciados da sociedade, não apenas ideológicos, mas sobretudo de natureza comercial, e acabam determinando a seus veículos a presença inquestionável da versão ‘conveniente’ dos fatos. Se a gente agregar a isso uma grande incompetência das redações, a incapacidade de, na posse de bom material, fazer nascer alguma coisa criativa, rica, você tem como resultado a mesmice dos nossos jornais, das nossas rádios, dos nossos telejornais.

Há proprietários de empresas jornalísticas que dizem claramente aos jornalistas de sua empresa que aquela atividade é um ‘bico’ e que o seu trabalho principal deveria ser fora de lá. Ora, o trabalho dele fora de lá é em assessorias de imprensa, em governos, órgãos oficiais. Como é que o jornalista vai escapar da informação oficial, se no jornal ele ganha pouco e busca complementação fora para viver com um mínimo de dignidade?

Ostermann - Se não é isso, ele trabalha em áreas empresariais bem definidas. Isso é um modo de sobreviver. Ninguém pode criticar alguém por ter dois salários, desde que honestos, porque com um, você não vive. Jornalista não se aposenta. Jornalista trabalha até morrer. Isso é sabido, é uma lei. O cara que se aposentar como jornalista deve ter feito outra coisa. Não conheço nenhum, que possa viver de sua aposentadoria. Ele vai morrer trabalhando. É o futuro de vocês. Isso determina um alto grau de dependência financeira, salarial, e determina também nossas relações dentro da sociedade. Mas não vamos ser pessimistas, porque há grandes dignidades nacionais no campo do jornalismo. Há grandes afirmações de independência em relação aos interesses em jogo. Há grandes tentativas de formalizar o próprio pensamento, com pessoas de grandes qualidades dentro dos veículos. Podem não ser as mais festejadas, as mais beneficiadas mas, inegavelmente, estão ali cumprindo a tarefa que lhes parece ser a fundamental, sobretudo entre colunistas e articulistas. Não estou falando só sobre Luis Fernando Verissimo, que é uma voz discordante no país. É uma postura que ele assume, às vezes com o risco de parecer um pouco repetitivo. Ele expressa uma posição política com clareza, uma visão de mundo e uma ousadia autorizada por todo seu enorme trajeto profissional. Isso é importante. A maioria das pessoas não tem essa autorização. Ele tem.

Luis Fernando Verissimo publica em vários jornais brasileiros. Às vezes parece que ele serviria para as empresas tangenciarem suas responsabilidades nas questões do país. Ele é usado pelas empresas?

Ostermann - Se há um colunista que está tomando posições contrárias ao governo, então o jornal, com isso, tem apenas um colunista que é contrário ao governo. Mas não se pode ler a orientação dos jornais pelos seus colunistas. A orientação dos jornais está nos seus editoriais, na manchete, na natureza da matéria principal. O colunista é uma desavença. Às vezes, uma distorção. Pode ser até uma coisa que só se possa ler ali. Mas na verdade um jornal se vê pela manchete, pela principal matéria, por seus editoriais."

"Entrevista com Ruy Carlos Ostermann", copyright Jornal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, edição de agosto/99

 

INTERNET
José Roberto de Toledo

"A comunidade virtual brasileira já é a segunda maior ‘cidade’ do país. Chegam a cerca de 8 milhões os brasileiros que afirmam se conectar à Internet. A população do Rio de Janeiro, Segunda maior cidade brasileira depois de São Paulo, é de 5,6 milhões de habitantes.

É o que revela projeção feita a partir de pesquisa nacional Datafolha: 8% as pessoas com 16 anos ou mais que responderam sim à pergunta ‘Independente de ter computador na sua casa, você usa a Internet, mesmo que em outro lugar?’. Aplicado à população brasileira dessa faixa etária, esse percentual equivale a 7,959 milhões de pessoas.

Embora tecnicamente não seja recomendável compará-las (porque os questionários foram diferentes), outra pesquisa Datafolha feita um ano antes, em junho de 1998, estimava em 2,1 milhões os internautas brasileiros. Naquela pesquisa, perguntava-se ao entrevistado se ele tinha endereço eletrônico -o que pressupõe um contato menos eventual com a Internet.

A pesquisa atual, por sua vez, abrange desde o usuário que passa horas à frente do monitor todo dia (17%) até aquele que tem um uso esporádico da rede mundial de computadores, de no máximo duas horas por semana (46%). Mesmo com essas ponderações, os cerca de 8 milhões surpreendem pela velocidade de crescimento do uso da Internet entre brasileiros.

Pesquisa Ibope feita em período semelhante apontou a mesma tendência e estimou em 3,3 milhões o número de internautas apenas em nove regiões metropolitanas do país (que, juntas, somam menos de um terço da população brasileira). O levantamento do Datafolha revela outras surpresas. Apenas uma minoria dos conectados usa a Internet apenas em casa: 1,7 milhões -além de outros 400 mil que se conectam na residência e no trabalho. Uma parte mais significativa, o equivalente a 2,6 milhões de pessoas, entra na rede a partir do computador do local de trabalho.

Um terceiro grupo, projetado em 3,3 milhões de internautas, afirma usar a Internet em outros lugares, que podem ser a faculdade, a escola ou, em menor grau, casa de amigos. O crescimento acelerado do uso de Internet no Brasil tem boas chances de continuar. A pesquisa mostrou que 9% dos entrevistados têm microcomputador em casa. Mas, destes, 67% ainda não estão conectados à rede mundial. Em outras palavras, há ainda um mercado domiciliar potencial de cerca de 6 milhões de novos usuários -levando em conta o universo atual de proprietários de microcomputadores.

Mais do que outros meios de comunicação, a Internet ainda é muito elitista. A cada 3 brasileiros com nível superior, 1 afirma estar ligado à rede (36%). Entre os que estudaram até o 1º grau, o percentual de ‘conexão’ com a Internet é de apenas 2%.

As pessoas com renda familiar mensal inferior a 10 salários mínimos tendem a usar a Internet a partir do local de trabalho ou da escola. É praticamente nulo o número dos que se ligam à rede em casa dentro dessa faixa de renda.

Na ponta oposta da sociedade, entre os que vivem com mais de 20 salários mínimos por mês, cerca de dois terços dos internautas têm uma conexão caseira. Como esse grupo é minoritário e o acesso principal à rede são os locais de trabalho ou de estudo, o maior fluxo de brasileiros na Internet acontece durante a semana. Só 4% dos internautas dizem não manter acesso à rede entre segunda e sexta-feiras. Esse percentual chega a 60% quando se trata do fim-de-semana.

‘Viciados’

Aos sábados e domingos, porém, os que permanecem conectados são mais ‘viciados’. Seu tempo médio de conexão chega a quase três horas por dia. Durante a semana, a média é um terço disso, aponta a pesquisa. Talvez em função do uso preponderante no trabalho e na escola, a principal atividade do usuário na rede, segundo a pesquisa, é obter informação.

Chegam a 30% dos internautas os que dizem que ler notícias por meios dos serviços de tempo real é o que fazem com mais frequência. A esse grupo somam-se os que afirmam usar a Internet principalmente para pesquisas (5%), trabalhos escolares (3%) etc.

A segunda atividade mais comum é participar de bate-papos com outros internautas, mencionada por 19%. Em terceiro lugar também aparece uma atividade de comunicação: trocar correspondência eletrônica.

Há ainda um percentual surpreendentemente alto de internautas (7%) que afirmam que sua atividade mais comum é fazer consultas bancárias. Outros 4% responderam comprar. A pesquisa Datafolha confirma que o UOL é o principal provedor de acesso à Internet do país.

Cerca de 17% dos internautas que afirmam ser assinantes (ou que têm alguém na casa que seja) de um serviço online responderam que o UOL é seu provedor. Em segundo lugar, com 8% de citações, aparece o ZAZ."

"Oito milhões estão ligados à Internet", copyright Folha de S.Paulo, 30/8/99

 

Universo OnLine

"O Universo Online fechou parceria inédita na mídia brasileira com a Rede TV!. Com o acordo, o conteúdo da Rede TV! vai poder ser visto a qualquer hora do dia ou da noite na Internet pelo Universo Online.

O UOL vai também levar a interatividade do mundo virtual da Internet para os programas da Rede TV!, que hoje já contam com a participação do público pelo telefone. O anúncio da parceria foi detalhado oficialmente nesta quinta (2) na sede da Rede TV! em São Paulo. O site da Rede TV! no UOL já estreou na noite desta quarta.

Para o diretor-geral do Universo Online, Caio Túlio Costa, o que possibilitou o acordo foi o perfil dos dois veículos de comunicação, ambos voltados para a interatividade. Costa ressaltou que o UOL inaugura um novo momento nessa primeira parceria com uma TV aberta. ‘A Rede TV! vem se somar às parcerias com a MTV, a Cultura e a ESPN’, disse.

‘A idéia é trazer a TV para a Internet e levar a Internet para a TV’, explica a diretora de Produtos do UOL, Márion Strecker, responsável pelo conteúdo veiculado no provedor. ‘Pretendemos desenvolver formas de comunicação completamente novas na imbricação desses dois meios de comunicação de massa sensacionais que são a televisão e a Internet’, disse.

Segundo o presidente da Rede TV, Amilcare Dallevo Junior, num primeiro momento, a Rede TV! vai colocar na Internet reportagens de seus telejornais. Dallevo, que é engenheiro de formação, é o pioneiro no país na área de interação por telefone. Foi ele, por exemplo, quem criou os serviços de consultas no estilo ‘Você Decide’ de telespectadores pelo telefone. No grupo Folha, a empresa Tecnet, de Dallevo, foi responsável pela tecnologia do serviço Folha Informações no início dos anos 90.

‘A Rede TV! já nasceu respeitando o telespectador com as consultas por telefone. A Internet vai ser importante na definição dos rumos da programação’, disse o empresário.

A parceria do UOL com a Rede TV! traz para o Brasil o que já está sendo previsto como a segunda revolução da Internet: o acesso ao conteúdo da televisão pela rede eletrônica, marcando o fim do horário para assistir a um programa de televisão.

Não se trata da primeira incursão do UOL pela televisão brasileira. O UOL foi pioneiro ao levar a opinião dos internautas ao vivo para o programa de Gugu Liberato, no SBT, e aos programas Blablablá e Erótica da MTV. Também mantém parcerias com a Rede Cultura e com a ESPN.

Entre os programas da Rede TV! que vão utilizar a experiência internativa do UOL está o que será apresentado por Adriane Galisteu, ainda sem nome definido. A emissora ainda vai utilizar a Internet nos ‘dropes’ de entrevistas rápidas de Mariana Kupfer, que serão exibidos ao longo da programação, e no programa de videoclipes que será apresentado por Fernanda Lima."

"UOL e Rede TV! anunciam parceria", copyright UniversoOnLine, 02/09/1999, 11h33

 

MÍDIA DE DEUS
Daniel Castro

"‘O que eu vos digo às escuras, dizei-o às claras. O que eu vos digo ao ouvido, pregai-o sobre os telhados.’ (Mateus, capítulo 10, versículo 27)

Com uma interpretação contemporânea da mensagem bíblica acima, o pastor Juanribe Pagliarin, 44, inaugura depois de amanhã [2/9/99] aquilo que poderia ser chamado de rodovia eletrônica da fé. É quando ele coloca no ar a Melodia FM (97,3 MHz). Com a nova emissora - a quinta FM evangélica de São Paulo -, Pagliarin vislumbra a possibilidade de ir de carro de São Paulo ao Rio, pela via Dutra, ouvindo a mesma FM.

A Melodia de São Paulo vai retransmitir, via satélite, a programação da Melodia do Rio, que ocupa a mesma freqüência, 97,3 MHz. Segundo Pagliarin, a Melodia do Rio, terceiro lugar no ranking de audiência carioca, pode ser captada até na divisa com São Paulo. O sinal da Melodia paulista ultrapassa o Vale do Paraíba.

O arrendamento por quatro anos da frequência 97,3 MHz (até amanhã ocupada pela Tupi FM, que migra na quarta para os 104,1 MHz) significa um passo enorme para a Comunidade Cristã Paz e Vida, igreja evangélica fundada em 1982, na avenida Rio Branco, no centro de São Paulo. Mas só em 96, quando Pagliarin abandonou a publicidade para se dedicar 24 horas por dia a Deus, a igreja se expandiu. Hoje conta com 86 templos na Grande São Paulo.

Com a rodovia da fé, o pastor Pagliarin abre caminho até o Rio de Janeiro, onde em breve irá abrir uma igreja da Paz e Vida. Para viabilizar sua emissora em São Paulo, o pastor fez uma parceria de fé e negócios com o deputado federal Francisco Silva (PPB-RJ), secretário estadual da Habitação do Rio de Janeiro.

Silva é dono da Melodia carioca e vai passar a Pagliarin o ‘know-how’ gospel que faz sucesso no Rio. No campo da fé, ele está se desligando da Congregação Cristã no Brasil para estruturar a Paz e Vida no Estado do Rio de Janeiro.

A parábola da rodovia eletrônica da fé é falaciosa - na verdade, seria necessária mais uma emissora na divisa dos dois Estados para se cobrir toda a via Dutra. Mas é emblemática de um fenômeno dos anos 90: a exploração das emissoras de rádio (AM e FM) e de TV por igrejas evangélicas e pentecostais.

Em São Paulo, estimuladas pela crise financeira que atinge o rádio, primeiro as igrejas tomaram as emissoras de AM. Hoje, de 29 emissoras AM em operação na Grande São Paulo, 15 - ou 51,7% do total- têm algum vínculo com o cristianismo.

Entre essas 15, 10 são ligadas a evangélicos, das quais 7 têm suas programações totalmente controladas por igrejas evangélicas. As outras três são a Record (da Universal, que tem programação popular durante o dia e religiosa à noite), a Morada do Sol e a Nova Difusora, que alugam horários para várias igrejas.

Das outras cinco emissoras, três são da Igreja Católica (América, Imaculada Conceição e Nove de Julho) e outras duas pertencem a organizações -a LBV e a Fundação Espírita André Luiz - que, apesar de serem entidades filantrópicas, têm sólida orientação religiosa e filosófica.

Somadas as AMs e as FMs sob controle de igrejas, já são 20 emissoras na Grande São Paulo, ou 32,7% do total de 61 estações. Das 32 FMs, os evangélicos já estão em 15,6% delas (5). Essa conta desconsidera as cerca de 250 rádios piratas evangélicas da Grande São Paulo - até mesmo as de grande potência, como a 94,1 FM, locada pela igreja Deus É Amor. Em algumas regiões da cidade, é impossível não virar o dial sem ouvir algum pastor ou o hit ‘Rompendo em Fé’.

Fenômeno

A Igreja Pentecostal Deus É Amor aluga espaço em emissoras há quase 40 anos, mas só nos anos 80 os evangélicos seguiram os católicos e passaram a comprar e arrendar emissoras. Em FM, o fenômeno é recente, do começo desta década, mas só neste ano é que se registra um ‘boom’ evangélico. Até o final do ano passado, apenas duas FMs eram cristãs: a Manchete Gospel, arrendada pela Renascer, e a Aleluia FM, da Universal.

No início de 99, a Igreja Internacional da Graça arrendou por um ano a Ômega. Há 90 dias, foi a vez de a Musical (até então 100% MPB) se deixar seduzir pelo poder do dízimo. Depois de amanhã, chega a Melodia.

A tendência, segundo especialistas e religiosos, é a fatia das igrejas no dial FM crescer ainda mais. Atualmente, a Universal negocia a compra de uma outra FM, com fins comerciais. Na mira dos homens de Deus estão a Líder (92,1 MHz), a Imprensa (102,5 MHz) e até a Capital AM (1.040 kHz)."

"Igrejas já controlam um terço das rádios de SP", copyright Folha de S.Paulo, 30/8/99

xxx

"Segundo o Ibope, em julho 36% da população da Grande São Paulo, ou 4,9 milhões de pessoas, ouvia rádio no horário nobre do veículo, das 11h às 12h. É um dado considerável. A TV, às 20h, é vista por cerca de 6 milhões de paulistanos. Ou seja: a audiência da TV é pouco mais de 20% superior à do rádio.

Mas, enquanto a TV abocanha 59% das verbas publicitárias (cerca de US$ 3,5 bilhões de um bolo de US$ 6 bilhões, em 98, segundo a revista ‘Meio & Mensagem’), o rádio fica com apenas US$ 240 milhões - 4% do total.

‘Para o grande anunciante, o rádio só é usado como reforço de campanhas publicitárias’, explica Daina Godinho, diretora de mídia da agência DPZ. ‘A TV é mais barata para campanhas nacionais.’

Foi esse ‘desprezo’ pelo rádio que abriu caminho para as igrejas evangélicas. Em São Paulo, poucas são as emissoras que faturam mais de R$ 200 mil por mês. Em maio, por exemplo, os donos da Musical FM, que faturava menos de R$ 200 mil mensais, não hesitaram em arrendar a emissora por R$ 250 mil e se livrar de quase 20 funcionários.

A negociação inflacionou o mercado, e hoje não se aluga emissora por menos de R$ 150 mil mensais. ‘Quando a rádio está sem faturamento, a primeira coisa que o dono pensa é em alugar para igreja’, diz Vinícius de Paula, gerente comercial da Ômega, FM arrendada pela Igreja Internacional da Graça."

"Igrejas tiram proveito da crise no rádio", copyright Folha de S.Paulo, 30/8/99

xxx

"Embora negue que o crescimento das emissoras evangélicas ameace a Igreja Católica, o padre Mário Mancini, diretor da rádio América, está montando uma rede de rádios católicas. A América, vice-líder de audiência em AM em São Paulo, pertence à Pia Sociedade de São Paulo, dos padres paulinos, e será a ‘cabeça de rede’ da Paulus Sat.

A rede já tem outras três emissoras próprias e sete afiliadas. Até o final do ano, o padre Mancini quer chegar a 60 estações. A rádio América tem programação popular durante o dia e religiosa à noite. O líder de audiência é o padre Marcelo Rossi, que estaria sendo sondado pela Nove de Julho, também católica.

A rede da América tentará fazer frente à da Igreja Universal do Reino de Deus. Controlando 40 emissoras de AM e 83 de FM no país, a Universal tem a maior rede de rádios evangélicas do Brasil.

Muito atrás da Universal está a Igreja Renascer em Cristo, uma das pioneiras no uso do rádio para atrair fiéis. A Renascer controla hoje 15 emissoras no país.

Parceiras na Musical FM, a Igreja do Evangelho Quadrangular e a Assembléia de Deus do Bom Retiro também estão criando redes. O grupo já tem uma emissora no Vale do Paraíba e outra em São Roque (SP). ‘Até o final de 2000, queremos montar uma rede estadual’, diz o pastor e deputado estadual Daniel Marins (PPB-SP)."

"Católicos reagem; Universal tem maior rede", copyright Folha de S.Paulo, 30/8/99

 

SABEDORIA CAIPIRA
Raduan Nassar

"Mais uma daquelas campanhas orquestradas contra os agricultores, que enfado! Quem estaria por trás disso? O capital financeiro, cujos donos produzem milho, arroz e feijão em seus gabinetes? Parece que a mídia mais uma vez não sabe do que está falando. Devia era fazer um estágio numa lavoura antes de se pronunciar. Mais grave: mistura alhos e bugalhos, jogando numa mesma vala comum, sem pedir licença, os que produzem com prejuízo e os que se beneficiam indevidamente.

Os argumentos então beiram muitas vezes o inefável, pelo ramerrão. E daí que o Caiado/UDR participa do movimento que vem acontecendo? O FHC não foi socialista? Além do discernimento, caráter conta muito na reflexão: não permitir que conceitos e preconceitos impeçam de distinguir em cada momento a que serve cada indivíduo ou instituição. É bom que eu antecipe: no caso da agricultura, falo não só com a isenção de quem não deve um tusta pra banco - mesmo sabendo do descompasso entre os juros aplicados ao crédito rural e as possibilidades desse setor, mas falo também com as marcas de quem vem resistindo há quinze anos a outros absurdos que se passam nessa mesma área.

Quer um exemplo fresquinho? Logo em seguida à desvalorização da moeda, os agricultores só tiveram acesso a insumos e defensivos, desde que pagassem preços literalmente dolarizados ao câmbio do dia, ainda que só alguns dos seus componentes fossem importados, e sem que tivesse ocorrido aumento de salários, frete, embalagens etc. Na ocasião, os agricultores foram encostados contra a parede: ou se submetiam aos preços impostos pela indústria química, multinacional na quase totalidade, ou perdiam suas lavouras já em curso. Se o governo alegar que ignora o que acontecia então, estará passando um atestado de incompetência. Mas, se sabia dos preços que estavam sendo praticados pela indústria e não fez nada - como de resto não fez, o que dizer da sua passividade? Aliás, onde andava a mídia durante esse episódio? Fazendo footing com a indústria química?

Quer outro exemplo, que vem de mais longe? Conheço uma várzea - imprestável antes de ter sido sistematizada, que chegou a produzir 43.000 sacas de arroz em 160 alqueires paulistas. Essa máquina incrível de produção de arroz se encontra hoje totalmente desativada, num país de fome escancarada. Por quê?! Concordo, a barbárie corre solta pelo mundo e a piração é geral, mesmo assim seria inconcebível que alguém abandonasse uma várzea com aquela produtividade, jogando supostos lucros pela janela. No caso dos arrozeiros, a explicação é outra, curta e grossa: é só plantar pra se ferrar. Que a mídia tenha horror a carrapicho e picão, tudo bem, mas o governo também ignorar coisas assim? Ou é de novo aquela passividade?
Não vou nem falar da comercialização, que sinto engulhos, sinto cólicas, nessa hora é que se tem uma radiografia clara, a da subordinação humilhante de quem produz alimentos aos interesses dos controladores urbanos do mercado. Poderia relatar inúmeros casos, sobretudo de pequenos agricultores, que alem de dramáticos, são aviltantes.

O que o governo tem feito, com dinamismo irrecusável, é pegar um frango pela perna (coitado, depois de degolado ainda tem de se prestar a isso), agitando-o como troféu de preços baixos dos alimentos, sem nunca revelar quem paga a conta. Pobre bípede, o frango, caiu na mão dos alquimistas. Virou dínamo e âncora ao mesmo tempo. O dínamo é todo aquele agito como se fosse um lenço, já seu preço estagnado, depois de afundar, é a ‘âncora verde’, lembra? Aquela de que se serviu o atual governo (e que é nova só de nome) pra segurar a revolta popular de sempre, oferecendo alimentos a preços baixos à custa dos prejuízos de quem produz. É que precisam dar um mínimo de pão, que circo a gente tem de graça todo dia.

Dando mão firme a essa trapaça, a mídia (que falta de imaginação!) continua atirando surrados chavões, catados da estereotipia: os ruralistas, os fazendeiros ricos, os empresários rurais, os viciados no calote e outras quinquilharias que lhe entopem o raciocínio. Devia era usar véu e puxar reza, que essa mídia só sabe mesmo é engrolar uma ladainha. Fosse inventiva, e se debruçaria sobre o problema, apurando o ouvido pra saber de onde vem o grito dos que se manifestam hoje. Afinal, um pouco de rigor não faz mal a ninguém.

Falando ainda de âncora, não da verde estrepada, mas das urbanas douradas, com salários estratosféricos (isso é uma vergonha!), tem salário que dá até pra comprar uma fazenda por mês (isso é um deboche!), por que esses âncoras urbanos não vão pra roça? Será que já viram um pé de feijão? Será que conhecem a mãe do frango, a galinha? E o neto dela, o pinto? Ou continuam só andando pra dureza do corpo-a-corpo no campo? Nunca vi gente mais refratária ao empirismo. Aliás, já aconteceu de eu colocar a fazenda onde atuo à disposição de um amigo jornalista pra que fizesse dela um laboratório por três anos, transferindo a ele, além de eventuais retornos, todos os riscos. E disse: ‘depois desse estágio, aí sim, você pode abrir o bico’. Pois renovo aqui a mesma oportunidade de laboratório aos âncoras (de)formadores de opinião: é só largar e pegar, é só trocar de cor, dourado por verde, e pronto. Mas teriam interesse nisso?
Aceitassem o desafio e enxergariam essa coisa simples: o que os agricultores reivindicam agora, pra cobrir seus prejuízos, é a devolução da parte dos preços de alimentos que eles vêm subsidiando há anos, sem que a agricultura, ela mesma, tenha sido subsidiada, ao contrário do que acontece na maioria dos países globalizados. E descobririam também o que alguns marotos entre eles já sabem, mas fazem de conta que não sabem: no andor que a mídia vem carregando, em lugar do suposto interesse coletivo que ela apregoa levar no ombro, vai a elite do setor urbano, o poderoso capital financeiro, que se nutre à larga das receitas fiscais do Estado, gargalhando por sinal da inocência (às vezes nem tanto) dos que falam sem saber do que estão falando. Cegueira só podia dar nisso."

"Rural x urbano", copyright Folha de S. Paulo, 22/8/99

 

Cynara Menezes
"Há 15 anos, o escritor Raduan Nassar, 63, autor dos consagrados romances ‘Um Copo de Cólera’ e ‘Lavoura Arcaica’ (publicados pela Companhia das Letras), abandonava a literatura para se dedicar à agropecuária. Havia comprado a Fazenda Lagoa do Sino, em Buri, a 250 km da capital paulista. Sua relação com a criação de animais havia começado na adolescência, quando construiu um tanque para peixes no quintal da casa dos pais.

Além disso, seu pai, João Nassar, que chegou ao Brasil na década de 20, tinha sido agricultor em sua terra natal, o Líbano. Sua mãe era criadora de galinhas e perus. Mais tarde, em 65, na Chácara Tapiti, em Cotia, na Grande São Paulo, Raduan Nassar começaria a criar coelhos e chegaria a presidir, em 66, a Associação Brasileira de Criadores do animal.

Passados todos esses anos, ninguém sabe se voltará a escrever ficção. Não quer, não gosta de falar do assunto -assim como também, de entrar em detalhes sobre sua propriedade rural.
Esta semana, a Folha o procurou para que fizesse um comentário sobre a disputa entre os ruralistas e o governo. Surpreendentemente, o escritor se dispôs a escrever um artigo, um ‘desabafo’, segundo disse. De acordo com Raduan Nassar, é o primeiro texto que escreve em 23 anos. O texto foi transcrito e é reproduzido em sua íntegra, mantendo, inclusive, a pontuação e a grafia - uma exigência sua para a publicação."

"Texto é um ‘desabafo’, diz autor", copyright Folha de S. Paulo, 22/8/99

 

MÍDIA DA PAZ
Francisco Carvalho

"São Paulo - O presidente do Conselho Nacional de Propaganda (CNP), Hiran Castello Branco, disse que a mídia no Brasil e no mundo contribui, involuntariamente, para a construção da sociedade de tumulto, de violência e de pouca esperança, porque divulga, com excesso, conteúdos sobre a violência em muitos casos com exploração sensacionalista. ‘Isso é danoso. Não se trata de deixar de noticiar a violência nem impor censura, leis ou códigos de ética, o que seria extremamente danoso’, disse. Castello Branco coordenou ontem uma discussão sobre o tema Imagens & Vozes pela Paz, que pretende se estender pelo país e mobilizar a mídia para um diálogo sobre o impacto de imagens, vozes e histórias na vida das pessoas, discutindo os momentos em que a mídia teve peso significativo na construção de valores positivos e os desafios para se gerar imagens e vozes pela paz.

Para o publicitário, a questão é mais ampla do que simplesmente considerar a violência enquanto crime, como destaca o jornalismo policial, pois o que preocupa é o desrespeito à pessoa humana, a perda de valores e todas as formas de violência que degradam o tecido social. ‘É claro que há um lado de sonho, mas a realização começa com uma idealização como a de criar um processo da bola de neve, pois sabemos que todos os profissionais da mídia podem usar seus conhecimentos, qualidades e instrumentos e contribuir para uma sociedade de paz e esperança e de valores sólidos’, acrescentou.

Campanhas - O CPN comanda campanhas comunitárias como a de soro caseiro, aleitamento materno e a parceria contra as drogas. Castello Branco acha que o ideal não é tratar o novo assunto com campanhas. ‘A idéia da construção da Mídia da Paz é mais ampla e envolve uma reflexão de todos os envolvidos com os conteúdos, começando pelos jornalistas, sobre a forma de como nós tratamos e exploramos a violência na mídia, que pode estar ajudando na multiplicação, em alguns casos, e em outros a criar um ambiente de tumulto e de falta de esperança’, disse.

Segundo o publicitário, embora a mídia, especialmente a de TV, como a publicidade, precise de emoção para captar o interesse do público, ‘cria-se um círculo vicioso onde a gente percebe que muitos dos envolvidos no processo, seja como profissional, seja como empresário, não se sentem bem com o que estão fazendo, mas não enxergam outra maneira de fazê-lo’.

O presidente do CNP disse, porém, que no momento em que se gera uma reflexão sobre esses temas podem ser criados novos paradigmas com relação ao tratamento da violência."

"Violência na mídia é tema de debate em SP", copyright Jornal do Brasil, 27/8/99

 

JORNAL NACIONAL
Fernando de Barros e Silva
"Na próxima quarta-feira, dia 1º de setembro, o ‘Jornal Nacional’, da Rede Globo, completa 30 anos no ar. O primeiro telejornal exibido em rede no país não é mais aquele que funcionou como porta-voz ‘oficioso’ do regime militar; não é mais o mesmo acusado de participar da tentativa de fraudar a eleição de Leonel Brizola ao governo do Rio em 82; não é igual ao telejornal que ‘escondeu’ a campanha das Diretas-Já em 84 nem, tampouco, o que favoreceu, na edição do debate à véspera da eleição presidencial de 89, a candidatura de Fernando Collor.
O ‘JN’ mudou, ou vem mudando há dez anos. Ganhou em isenção, ficou mais pluralista, mas sobretudo afastou-se da política. Sua ênfase hoje está nos assuntos de grande apelo popular e carga emotiva -dos pequenos dramas do cotidiano às grandes tragédias naturais, das curiosidades do reino animal aos espetáculos esportivos ou aventuras cinematográficas envolvendo o mundo policial.

O jornal ganhou ao mesmo tempo mais ímpeto investigativo, mas suas energias não estão voltadas contra as altas esferas do poder, com as quais o ‘JN’ durante muito tempo se confundiu. Suas denúncias visam menos o topo da política que as mazelas sociais ou as estruturas anônimas e/ou subalternas da administração pública. Os casos da favela Naval, em 97, e da máfia dos remédios falsificados, em 98, são exemplos célebres do tipo de empenho investigativo preferido pelo ‘novo ‘JN'‘.

Sociedade despolitizada

Há quem veja hoje no formato do telejornal uma reunião de ‘faits divers’ (amenidades). William Bonner, 36, há 13 anos na Globo, apresentando o ‘JN’ desde 96 (onde é um dos editores), rejeita essa avaliação. ‘Discordo de que a ênfase atual do ‘JN’ seja para os ‘faits divers’. Concordo, porém, com a observação sobre a despolitização do noticiário como consequência direta da despolitização da sociedade’, disse à Folha, em entrevista concedida mediante autorização do diretor da Central Globo de Jornalismo (CGJ), Evandro Carlos de Andrade (leia entrevista à pág. 4-10).

É uma norma interna: jornalistas da Globo só podem falar à imprensa depois de autorizados por Evandro, que solicita os pedidos caso a caso e por escrito. Para Bonner, ‘o que há de novo é uma disposição para satisfazer o interesse do público, além de cumprir o dever jornalístico de noticiar o que é de interesse público’. ‘O cardápio de assuntos do ‘JN', prossegue, ‘contempla os mesmos temas explorados pelos jornais, com a peculiaridade de não poder fazê-lo distribuindo tarefas entre cadernos. Aos olhos de quem deseja comprovar teses conspiratórias, a justaposição dos ‘faits divers’ às ‘hard news’ grita no ‘JN’. Mas torna palatável uma reportagem de duas páginas sobre o comportamento de celebridades num caderno de cultura, como gentilmente tratamos o apêndice de ‘faits divers’ na mídia impressa’, completa Bonner.

‘Jornal só no nome’

O jornalista Paulo Henrique Amorim discorda e contra-ataca. ‘O ‘JN’ é jornal só no nome, tem compromisso com o entretenimento, não com o jornalismo. Não é mais fonte de informação para ninguém nem é percebido como um telejornal, e sim como mais um programa que integra e se enquadra na estratégia de programação da Globo’, afirma Paulo Henrique, que se desligou da emissora em novembro de 96, depois de 12 anos de casa.

O problema, segundo ele, não é apenas a ênfase em ‘fatos bizarros, matérias de comportamento e casos de polícia’, mas a ‘edição de ‘hard news’ com assuntos intemporais’. Paulo Henrique cita como exemplo o ‘JN’ que foi ao ar anteontem. A reportagem sobre a manifestação contra o governo em Brasília foi imediatamente seguida de uma outra, sobre o vício do álcool entre adolescentes e a preocupação dos pais. ‘A segunda é uma notícia sem novidades, intemporal, mas que, posta naquele contexto, esconde o impacto da primeira pela carga emocional que carrega’, diz.

Paulo Henrique saiu da Globo brigado, mas foram também divergências com a linha editorial ‘despolitizada’ do ‘JN’ que levaram Lillian Witte Fibe, atual âncora e editora-chefe do ‘Jornal da Globo’, a se afastar de sua apresentação, em fevereiro de 98. Foi substituída por Fátima Bernardes, 36, mulher de Bonner, há 12 anos na Globo e desde março de 98 à frente do ‘JN’ com o marido.

A ‘era Cid’

A entrada da dupla Bonner e Witte Fibe no ‘JN’, em março de 96, encerrou a ‘era Cid Moreira’. Foi uma mudança necessária e até tardia, mas brusca demais, nas palavras de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, desde 97 afastado do comando da emissora, que exerceu durante 30 anos. Cid Moreira passou 27 anos apresentando o ‘JN’, desde o seu primeiro dia. Atravessou indiferente vários governos, militares e civis, e passou pelas mãos dos três diretores da Central Globo de Jornalismo: Armando Nogueira (governos militares mais Sarney), Alberico Souza Cruz (era Collor mais Itamar) e o atual, Evandro de Andrade, que assumiu em 95.

Cid, segundo William Bonner, ‘não é comparável a ninguém. No dia em que eu me comparar a ele, o sertão terá virado mar -e a justa preocupação com o apocalipse tornará irrelevante minha sandice. Não sou seu herdeiro, sou seu sucessor, viável apenas pela mudança da filosofia que norteia a escolha de apresentadores de telejornais da Globo’.

Foram de Cid Moreira o primeiro ‘boa noite’ e a primeira ‘omissão’ do ‘JN’, quando disse, logo no início do dia de estréia, que o presidente Costa e Silva estava ‘melhor e se alimentando bem’. A Junta Militar havia assumido o comando do país no dia anterior devido à doença de Costa e Silva - fato noticiado - e este morreria em 17 de dezembro.

A primeira entrevista exibida pelo ‘JN’ foi gravada com o então ministro da Fazenda, Delfim Netto (atual deputado pelo PPB-SP), que surgiu na tela no dia de estréia para ‘levar uma palavra de tranquilidade para todos os brasileiros’. Começava assim a saga do telejornal que é líder de audiência no país há três décadas."

"‘JN’ chega despolitizado aos 30 anos", copyright Folha de S. Paulo, 28/8/99

 

Nelson de Sá
"Começou quatro anos atrás, quando Roberto Irineu Marinho tirou o ‘Jornal Nacional’ das mãos de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. E passou a limpar a imagem institucional da Globo, depois de décadas à sombra do regime militar, protagonizando episódios como a censura à campanha das diretas.

Com eventuais deslizes, como vitimar Marta Suplicy e outros esquerdistas ano passado, o telejornalismo da Globo segue com suas preferências políticas, mas não diferente dos demais. Passou a dar atenção cada vez menor a Brasília -e maior a um questionamento anacrônico do antigo regime, em histórias de torturas etc.

No que parece um movimento final em tal direção, passou a hostilizar ACM, velho companheiro, com ataques diretos ao projeto contra a miséria e até cortando declarações suas do ‘JN’. A Globo não é mais aquela, de outro lado, por conta do público declinante, em especial das telenovelas. É o fenômeno mais intrigante da TV, hoje, pondo em risco a clássica ‘grade’ novela/telejornal/novela. Nos últimos meses, até o próprio ‘JN’ bateu a novela das oito em audiência.

A emissora busca alternativas nas concorrentes (Ana Maria Braga etc.) e no futebol. Esta semana, mostrou um capítulo todo da novela das oito num estádio, bola rolando. Num tal quadro, o que o ‘JN’ pode fazer pelo poder, por FHC, é omitir. Age pouco.

A liberdade para agir passou aos programas apelativos, dentro e fora da Globo. Quando precisou de ajuda esta semana, FHC deu entrevista para sair no ‘Fantástico’, domingo. Em dia de semana, um quadro como a ‘Cacetada do Ratinho’, no SBT, tem sido mais precioso do que tudo o que o ‘JN’ ainda consegue fazer."

"Desde 95, Rede Globo não é mais aquela", idem idem

 

F. B. S.

"Ninguém tem dúvida de que o ‘JN’ foi usado pelos militares’, diz José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni. Vice-presidente de Operações da Globo durante 30 anos, até 97, Boni foi sucedido por Marluce Dias da Silva, atual superintendente-executiva da emissora. Consultor estratégico da Globo há dois anos, Boni concedeu entrevista à Folha por fax.

Folha - Onde o ‘Jornal Nacional’ errou e onde mais acertou ao longo de seus 30 anos?

José Bonifácio de Oliveira Sobrinho (Boni) - Pessoalmente, creio que o ‘Jornal Nacional’ demorou para fazer mudanças no seu formato e nos seus apresentadores. Era um risco muito grande, embora necessário. Mas a mudança brusca foi um erro grave. No campo do conteúdo, o erro mais grave do ‘JN’ foi ignorar a campanha das Diretas-Já. Mas as pressões sobre dr. Roberto Marinho foram insuportáveis. Eu não gostaria de ter estado na pele dele naquele momento tão difícil, quando todos tínhamos a certeza de que as ‘diretas’ iriam realmente acontecer. Armando (Nogueira) e Alice (Maria) não se conformaram e, na redação, houve uma decepção coletiva. O maior acerto do ‘JN’ foi estratégico, com a criação de repórteres especializados, a abertura de sucursais internacionais e a montagem de estúdios ligados ao Brasil via satélite. O apoio do Roberto Irineu foi fundamental.

Folha - Qual a sua visão da missão de ‘integração nacional’ atribuída à Globo e especificamente ao ‘JN’, pela própria Globo mas também pelos militares? Essa ‘integração’ tinha sentido diferente em cada caso? Como vê hoje seus resultados?

Boni - A chamada ‘integração nacional’ começou antes do ‘Jornal Nacional’ e foi determinada pelo mercado. Inicialmente a programação da Globo começou a ser consumida nas principais capitais, seguindo modelos anteriores das Emissoras Associadas (Tupi), Emissoras Unidas (Record-Rio) e TV Excelsior. A diferença é que houve, da parte da Globo, competência para a implantação de uma rede realmente nacional. Por outro lado, não se pode ver os militares de forma maniqueísta. Alguém do governo da ditadura deve ter percebido o fenômeno de comunicação que se instalava e acelerou a construção da rede da Embratel. Com esse recurso disponível e o interesse da publicidade na expansão do mercado nacional não foi preciso convencer ninguém. O processo decolou sozinho, automaticamente. As redes de televisão dos EUA e quase todos os países europeus já tinham seus telejornais nacionais. A implantação do ‘Jornal Nacional’ era óbvia como atitude empresarial e oportunidade de mercado.
A notícia instantânea era obrigatoriamente o primeiro passo para a utilização dos enlaces nacionais de microondas. Não houve assim, por parte da TV Globo, nenhuma atitude política visando essa integração. Mas é evidente que a ditadura pensou na rede como ferramenta estratégica. Hoje é diferente. Os satélites democratizaram o transporte de informações e, junto com a Internet e outros meios, multiplicaram as fontes, servindo todo o mercado.

Folha - Muita gente avalia que o ‘JN’ funcionou como porta-voz ‘oficioso’ do governo durante o ciclo militar e que deve parte de seu êxito a isso. O sr. concorda? O jornal que ia ao ar era aquele que os militares queriam? Qual a relação da direção da Globo com a cúpula militar?

Boni - Um jornal que fosse boletim do governo, mesmo que ‘oficioso’, não daria certo. No rádio, ‘A Voz do Brasil’ sempre foi rejeitada. Mas que o ‘Jornal Nacional’ foi usado, ninguém tem qualquer dúvida. Não era frequente a obrigatoriedade de transmitir uma informação, mas o volume de informações vetadas sempre foi assustador. O pessoal teve que ser de circo para conviver com isso. Foi um sofrimento para todos os profissionais, que eram surpreendidos a todo instante com intervenções indevidas. Houve um momento em que tivemos que engolir um representante do governo no vídeo. A forma encontrada para separá-lo do corpo do jornal foi criar uma espécie de editorial. O Edgardo Ericsson, no entanto, engoliu duas jogadas que fizemos. Uma foi o título dado ao segmento, de ‘Ordem do Dia’, que mostrava, obviamente, que se tratava de assunto militar. E outro foi o logotipo criado pelo Borjalo, que era uma mão humana com o ‘dedo duro’.

Folha - Como o sr. avalia hoje o comportamento do ‘JN’ na eleição de Leonel Brizola ao governo do Rio em 82?

Boni - A empresa foi ludibriada nesse episódio. Estávamos em fase de contenção e, para acelerar o processo de apuração, resolvemos, junto com ‘O Globo’, contratar os serviços do Proconsult. Como no final da apuração o resultado do Proconsult e os resultados oficiais teriam que ser os mesmos e, se fossem diferentes, o que valeria seria o resultado oficial, tenho para mim que o Proconsult tinha a missão de manipular os resultados extra-oficiais, colocando um diferencial dos números divulgados enquanto alguns grupos tentariam uma fraude nos números verdadeiros. Nós não sabíamos disso. E, quando estranhávamos os números, o Proconsult informava que as distorções se deviam à velocidade com que ele vinha apurando os resultados do interior em contraste com a lentidão da apuração oficial. Ficamos vencidos. Se foi isso mesmo que aconteceu, nós, profissionais, não sabemos até hoje. Mas tenho certeza de que dr. Roberto e as Organizações Globo jamais seriam capazes de ser coniventes com isso.

Folha - Em 84, nos 15 anos do ‘JN’, Armando Nogueira dizia o seguinte: ‘Nossa preocupação com a forma, o formato, está superada. Nossa maior preocupação, atualmente, é com o conteúdo’. O sr. concorda? Acredita que a batalha do conteúdo foi ganha de lá para cá?

Boni - É evidente que essa batalha é longa. Ela foi sendo ganha na medida em que o país se abriu. Acho que a situação incômoda que vivemos durante a ditadura não permitiu até hoje uma visão de todas as possibilidades de uso da liberdade no veículo. E a televisão é diferente de outras mídias, porque foi o veículo mais vigiado e controlado na época. A verdade é que existem jornalistas de extrema qualidade guiando os destinos do ‘Jornal Nacional’ e não tenho dúvidas que novas mudanças ocorrerão para que a batalha seja finalmente vencida.

Folha - A tendência à espetacularização da notícia pode ser mundial, mas é identificada no ‘JN’ em doses generosas. Os ‘faits divers’ e a vida privada das estrelas parecem ter ganhado espaço, em detrimento de política/economia, que dá o tom dos noticiários da manhã e do final de noite. Como o sr. avalia isso? Faz parte das mudanças por que passa a Globo?

Boni - Embora internacionalmente a mídia venha sofrendo com isso, acredito que, pela pluralidade de programas que especulam com o gênero, não há necessidade de o ‘JN’ se prestar a essa utilização. A Globo passa hoje por um saudável processo de transformação e vai, naturalmente, pelos instrumentos que possui e pelas pessoas que lá estão, aprimorar a cada dia o ‘JN’ e toda a sua programação. Mas leva tempo.

Folha - O formato do casal sem opiniões apresentando o jornal é uma opção clara contra a figura do âncora? O ‘JN’ se descaracterizaria com um âncora?

Boni - O Evandro Carlos de Andrade sempre teve em mente ter âncoras fortes e competentes em todos os telejornais. Não se faz isso do dia para noite e âncoras não se encontram na esquina. É difícil.

Folha - Qual sua avaliação das inserções/comentários de Arnaldo Jabor no ‘JN’?

Boni - Sou fã do Jabor. Mas acho que ele ficaria melhor só no ‘Jornal da Globo’. O espaço do ‘Jornal Nacional’ é pequeno para a criatividade do Jabor e o segmento compromete o ritmo do jornal.

Folha - Qual o melhor telejornal da TV brasileira hoje (aberta e por assinatura)?

Boni - Não posso apontar nenhum que me satisfaça inteiramente. Mesmo nos melhores falta ou sobra alguma coisa.

Folha - O sr. assiste o ‘JN’? Assiste quais telejornais?

Boni - Ninguém pode se limitar, hoje em dia, a receber informações de um único veículo. Acordo cedo e vou direto ao ‘The New York Times’ pela Internet. Leio os principais jornais de São Paulo e do Rio, em casa, ou pela Internet, quando viajo. Na televisão sou o rei do ‘zapping’ e vejo quase todos os telejornais, mas sempre que posso me detenho no ‘Jornal Nacional’, no Boris Casoy e na Lillian Witte Fibe. Não deixo de dar uma passada na CNN e na Globonews, embora estejam muito repetitivos."

"‘Maior erro foi nas Diretas-Já, diz Boni’", idem idem

F.B.S

"Evandro Carlos de Andrade, diretor da Central Globo de Jornalismo (CGJ) desde julho de 95, acusa os críticos do telejornalismo da Globo de sectarismo e leviandade, em entrevista concedida por fax. Evandro assumiu o cargo na TV depois de ter sido diretor de Redação do jornal ‘O Globo’ durante 23 anos. Ele nega que a TV Globo tenha favorecido Fernando Collor na eleição de 89 e diz que ‘O Globo’, sim, tinha candidato na ocasião, Mário Covas.

Folha - Que tipo de pressão recebe o responsável pelo maior telejornal do país e como deve lidar com elas?
Evandro Carlos de Andrade -
Internamente, não recebo pressão alguma, por menor que seja. Qualquer erro que tenha cometido ou venha a cometer, por excesso ou omissão, terá sido ou será da minha exclusiva responsabilidade. Pressões externas, que só poderiam vir de políticos, igualmente não recebo, até porque me mantenho distante de qualquer tipo de convivência com políticos, para não me deixar sequer influenciar por eventuais simpatias ou antipatias pessoais.

Folha - A tendência de espetacularização do telejornalismo é mundial e muita gente a identifica no ‘JN’. O sr. concorda? Como explica a cobertura do nascimento da filha da Xuxa?
Andrade -
O nosso telejornalismo é sempre organizado com o propósito de levar ao público um produto informativo que tenha começo, meio e fim, como se fosse um roteiro e com a preocupação de que esse produto, sem dourar pílulas ou forjar escândalos, seja do agrado do telespectador. Quanto à Sasha, a cobertura do nascimento dela desvendou o quanto é leviana, incompetente e intelectualmente desonesta grande parte do que se chama de ‘crítica de televisão’. Primeiro, porque o tempo concedido ao assunto correspondeu sem a menor dúvida à curiosidade do público.

Depois, porque esse tempo excedeu o tempo normal do ‘JN’, não acarretando qualquer prejuízo à divulgação dos principais fatos do dia. Comparou-se o caso da Sasha com a cobertura dada no mesmo dia à venda das teles. E esses críticos desabaram em cima do ‘JN’, sem se darem conta de que o leilão das teles foi no dia seguinte e que todas as informações relevantes sobre essa privatização foram dadas exaustivamente durante todo o período em que se preparou e consumou a venda das teles. Ou seja: criticaram sem cumprir o dever de apurar o que criticavam.
E mais: todo mundo dedicou páginas e páginas ou minutos e minutos ao enterro da princesa Diana -e eu gostaria de saber em que aquele show funéreo foi mais importante para a educação dos nossos filhos do que o parto da Xuxa. Isso para não falar de página inteira que li em jornal de grande circulação sobre a última apresentação do seriado ‘Seinfeld’ nos Estados Unidos, que imagino seja ignorado por 99,9999% do povo brasileiro.

Folha - O ‘JN’ foi durante muito tempo acusado de subordinar as notícias a interesses políticos. Durante o regime militar, era considerado um jornal ‘oficioso’; durante a eleição presidencial de 89, foi acusado de favorecer Collor. Hoje, percebe-se maior preocupação com a isenção e o pluralismo, o que, no entanto, parece não ter sido ainda suficiente para apagar o estigma adquirido ao longo de décadas. Como o sr. vê isso?
Andrade -
O problema não está na Globo, e sim no sectarismo e, eventualmente, na desonestidade intelectual das acusações. O telejornalismo da Globo se desenvolveu num período em que a censura exerceu a mais brutal opressão sobre os meios de comunicação. Se desenvolveu apesar dessa censura, muito mais pesada aqui do que em qualquer outra televisão ou rádio ou jornal, pelo simples fato de que era, como é, disparadamente a televisão de maior audiência, graças aos seus méritos de empresa moderna, muito bem organizada e capaz de atrair e manter os melhores profissionais do ramo. A Rede Globo não ganhou um único canal dado pelos militares, ao contrário do que ocorreu com os competidores.

‘Oficiosa’ é inevitavelmente toda a imprensa quando se vive sob uma ditadura, e o máximo que se pode fazer, para resistir, é publicar, no lugar das notícias censuradas, poemas ou receitas ou exibir imagens ingênuas de bichinhos no zôo (quando se quer, efetivamente, resistir em vez de apoiar a opressão). Na eleição que acabou vencida por Collor, a TV Globo não teve candidato, mas ‘O Globo’ sim, no primeiro turno: apoiou a candidatura de Mário Covas. Quanto à edição do debate entre Collor e Lula no segundo turno, basta recordar o reconhecimento do deputado José Genoino, que, honesto e franco como sempre, reconheceu em entrevista à revista ‘Imprensa’ que Lula perdera mesmo para o competidor naquele debate. O ‘estigma’ a que se refere é uma tentativa de concorrentes de depreciar e desacreditar o telejornalismo da Globo, mas esse esforço tem sido vão, porque o telespectador reconhece a isenção, o pluralismo, a imparcialidade e a exatidão com que procuramos desempenhar nossa tarefa."

"‘Críticas à Globo são levianas e desonestas’, afirma Evandro", idem idem

 

ARTIGO 222
Chico Araújo

"BRASÍLIA - O parecer da Comissão Especial da Câmara que discute a emenda constitucional sobre a propriedade de empresas jornalísticas e de radiodifusão no País só deverá ser votado a partir de terça-feira. A emenda prevê a abertura ao capital estrangeiro, no limite de até 30%, das empresas jornalísticas e de radiodifusão.

A votação foi adiada porque o deputado Gilmar Machado (PT-MG) pediu vistas do parecer do relator da emenda, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Com esse pedido, a votação fica suspensa por duas sessões. Existem hoje, no Congresso, duas propostas de emenda constitucional, uma delas abrindo o mercado de comunicação ao capital estrangeiro e outra que possibilita a propriedade dessas empresas por entidades filantrópicas.

Ao pedir vistas do parecer, o deputado Gilmar Machado alegou que não tem sentido a Câmara aprovar a emenda quando o Congresso começa a discutir a nova Lei de Comunicação do País. O ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, tem a tarefa de elaborar a proposta dessa nova lei.

Outros cinco deputados endossaram o pedido do petista. Machado também propôs o retardamento da votação dizendo não estar convencido dos argumentos do relator Henrique Eduardo Alves. ‘Nós, do PT, queremos discutir com mais profundidade essa matéria’, explica Machado. O PT tem quatro deputados na comissão, que é formada por 31. Para o deputado, não está claro no parecer como ocorrerá a entrada do capital estrangeiro nas empresas. Já o deputado Walter Pinheiro (PT-BA) fala em ‘cláusulas de barreiras’ para controlar a entrada desses capitais.

Em seu parecer, Henrique Alves estipulou que as pessoas jurídicas podem ter até 30% de participação no total do capital das empresas de radiodifusão, com direito a voto. Os 70% restantes teriam, obrigatoriamente, de ficar nas mãos de brasileiros natos ou naturalizados há mais de 10 anos. A esses caberia, de fato, o controle efetivo da empresa. Já no caso das empresas jornalísticas (jornais e revistas), as restrições são menores. O relator exige apenas que 70% do capital votante pertença, direta ou indiretamente, a brasileiros natos ou naturalizados há mais de 10 anos.

Atração - A proposta de emenda constitucional que admite, em até 30%, a participação de sócios estrangeiros nas empresas jornalísticas e de radiodifusão pode ser muito atraente para os investidores internacionais. ‘Nos jornais, por meio de acordos de acionistas, esses 30% podem ser transformados em 100%’, explica João Caio Goulart Penteado, sócio do escritório Goulart Penteado, Iervolino & Lefosse Advogados, especializado em direito empresarial.

Ele afirma que é ‘evidente’ que os órgãos formadores de opinião são bons negócios para os investidores estrangeiros. ‘Mesmo as empresas que enfrentam grandes dificuldades financeiras são atraentes porque elas também podem ser vistas como as portas de um mercado politicamente e estrategicamente interessante.’

O advogado Manuel Alceu Affonso Ferreira diz que o projeto avança, ‘ainda que timidamente’, em relação às regras atuais. Mas, ele critica a diferença de tratamento entre as empresas de radiodifusão e as estritamente jornalísticas. A proposta do deputado Henrique Eduardo Alves prevê que o controle efetivo das empresas de radiodifusão deve pertencer exclusivamente a brasileiros natos ou naturalizados há dez anos.

‘É errado supor que a radiodifusão deva merecer um tratamento diferenciado porque provoca uma atitude meramente receptiva do espectador, ou que os jornais alcancem público mais culto, ou ainda, que seja necessário garantir mercado de trabalho apenas aos radialistas brasileiros’, alerta Affonso Ferreira. Ele explica que as diferenças entre jornais, revistas e emissoras são insuficientes para justificar tratamentos constitucionais distintos. (Colaborou Arnaldo Galvão)"

"Adiada votação de emenda sobre capital estrangeiro", copyright O Estado de S. Paulo, 26/8/99

 

SPANGLISH
Luiz Roberto Lopez

"A absorção, pelos países latino-americanos, de palavras e expressões massificadas pelo inglês americano vem adquirindo novas nuanças no próprio território dos Estados Unidos. Não está longe o dia em que esses países, a partir do mesmo processo ditado pela capital do Império, acabarão ‘importando’ o seu próprio vocabulário, em muitos casos depois de devidamente fecundado pelo inglês. Na trilha do crescimento acelerado das populações de origem hispânica nos Estados Unidos, o ‘spanglish’ já é um ‘idioma’ a ser levado em conta.

Os norte-americanos do tipo WASP (white, anglo-saxon, protestant) poderão continuar fingindo que não vêem a onda, mas ela se avoluma. Enquanto não se integram à sociedade norte-americana ‘normal’, os latinos (a maioria deles nascida nos EUA) vão se enfiando nos espaços possíveis, levando junto sua língua e as bases mais fortes de sua cultura. Num país em que mais importa a origem racial do que o lugar onde a pessoa efetivamente nasceu, os latinos já são a primeira minoria étnica - à frente dos negros, que estão lá há mais de 200 anos.

Os números impressionam. Em reportagem sobre a população latina dos EUA, o jornal argentino Clarín revelou em março deste ano que ela chega a 40 milhões de pessoas num total de 270 milhões de habitantes. E as projeções oficiais indicam que dentro de 50 anos os latinos serão quase 100 milhões, 25% da população. O idioma espanhol está disseminado pelo país. Escolas de vários estados adotam um sistema bilíngüe e, recentemente, alguns desses estados precisaram ratificar o inglês como língua oficial, reagindo contra o predomínio do espanhol em muitos municípios.

Circulam nos EUA mais de 500 diários em espanhol. O La Prensa, de Nova York, vende 80 mil exemplares. O Nuevo Heraldo, de Miami, mais de 100 mil. A tiragem da edição em espanhol da revista People é de 170 mil. A Associación Nacional de Publicaciones Hispánicas reúne 120 publicações que chegam a 7,5 milhões de leitores. Rádios que transmitem somente em espanhol são 450. Em Los Angeles, as três líderes de audiência são latinas. A FM Mega 97.9 briga pelo primeiro lugar em Nova York. Em TV, há dezenas de emissoras regionais e duas redes nacionais, Telemundo e Univisión.

O espanhol e o spanglish, com o inglês sendo modificado por dentro, vão convivendo mais ou menos harmoniosamente. ‘É um caminho sem volta’, disse ao Clarín um professor universitário de origem hispânica. Mas como funciona o ‘spanglish’? Para os gaúchos, habituados ao portunhol, fica fácil entender. Alguns exemplos, citados na reportagem do Clarín:

Bironga: cerveja (de beer); Bloque: quadra, ou quarteirão (de block); Buco: livro (de book); Lonchear: almoçar (de lunch); Qüitear: abandonar, deixar (de quit); Ruffo: teto (de roof), Te llamo para atrás: te retorno a ligação telefônica (de call you back); Troca: caminhão (de truck); Parquear el carro: estacionar o carro (de park e car); Washatería: lavanderia (de wash) (Professor de História do Brasil no IFCH)."

"O ‘spanglish’ avança nos Estados Unidos", copyright Jornal da Universidade do Rio Grande do Sul, maio/99

 

Emmanuelle Richard
Libération

"Los Angeles - Desde o início de agosto, os diretores das grandes redes de TV dos EUA suam frio diante da tarefa que precisam concluir até o fim das férias do verão americano: mostrar mais negros, latinos, asiáticos e indígenas nas telas.

Ao constatar que os protagonistas de 26 seriados da nova temporada eram praticamente todos brancos, entidades de defesa de minorias ameaçaram boicotar as quatro grandes redes do país (NBC, CBS, ABC e Fox), presentes em 99% dos lares do país. Mas, apesar dos esforços das grandes redes para refletir a diversidade étnica do país, a imprensa questiona se elas não estariam subestimando as transformações demográficas nos EUA.

As grandes redes precisam reconquistar o público preferido pelos anunciantes: a jovem classe média branca, que tende a abandoná-las em favor da TV a cabo e da Internet. Mas parecem ignorar que as minorias também as estão abandonando, em favor de seus próprios programas.
O afro-americano Tony Pierce, de Los Angeles, se diz cansado da falta de diversidade. ‘Alugo vídeos com atores negros hilariantes que nunca vejo na TV’, diz.

‘Quando cheguei aqui, 30 anos atrás, assistia às grandes redes para aprender inglês. Hoje, vejo apenas seus telejornais. À noite, vejo novelas mexicanas’, diz Maria Morales, de origem salvadorenha. ‘Estamos assistindo à ‘balcanização’ da TV’, diz Robert Thompson, diretor do centro de estudos de televisão popular da Universidade de Syracuse (NY).

Thompson explica que há 20 anos, quando negros e brancos listavam seus programas preferidos, encontravam-se muitas coisas em comum. A maioria dos americanos tinha acesso a apenas três redes, as três que surgiram entre 1926 e 1941 (a quarta, a Fox, foi lançada em 1986). Nos anos 80, o ‘The Cosby Show’, cujos protagonistas são negros, foi o programa mais visto pelos americanos durante cinco anos. ‘Chegou a ser mais popular entre brancos’, diz Thompson.

Hoje, segundo um estudo recente da TN Media, o programa favorito dos afro-americanos, ‘The Steve Harvey Show’, está em 127º lugar entre os brancos. O seriado ‘ER’ (Plantão Médico), o preferido dos brancos, é o 15º na lista dos negros. Apenas o futebol americano figura na lista de todas as etnias. ‘A audiência está se fragmentando em função dos interesses diversos, além da língua e da etnia’, explica Bernard Gallagher, da operadora de TV a cabo Century Communications. ‘E o processo ainda não terminou. Vinte anos atrás, nossa empresa oferecia 20 canais. Em 2001, poderemos oferecer 700’, diz. (Tradução de Clara Allain)"

"TV dos EUA se ‘balcaniza’, diz estudioso", copyright Folha de S. Paulo, 22/8/99

 

Folha de S.Paulo

"Nova York - ‘O homem mais poderoso da mídia em língua espanhola não fala espanhol e detesta a atenção da imprensa’, diz ‘The Wall Street Journal’. Jerry Perenchio, 68, é presidente e controlador acionário da Univisión, ‘a rede de TV que mais cresce nos EUA’. Durante o horário nobre, ela atrai mais adolescentes do que a MTV, mais homens de 18 a 34 anos do que a ESPN e o triplo de espectadores para seus noticiários que a CNN, diz o diário.

Em Miami (Flórida), Los Angeles (Califórnia) e Houston (Texas), mais pessoas de 18 a 34 anos assistem à Univisión do que qualquer uma das outras redes de TV. ‘Mesmo estando na linha de frente da ‘latinização’ da América, Perenchio comanda a Univisión baseado em princípios assimilados no final da década de 50. ‘Ele transmite a seus executivos uma filosofia de bom senso: seja duro, faça a lição de casa, confie em seus instintos e pense grande’, relata o ‘Journal’. ‘E em Hollywood, uma cidade de egos e publicidade, é a primeira de suas regras que mais impressiona: ‘Fique longe da imprensa. Nada de entrevistas, seminários, discursos ou comentários'‘, diz o jornal.

A reserva é mais impressionante por vir de um homem que, durante 40 anos de carreira como agente em Hollywood, esteve ligado a algumas das figuras mais badaladas da história do entretenimento, como os atores Marlon Brando e Elizabeth Taylor e o pugilista Muhammad Ali. Segundo Perenchio, que não quis ser entrevistado para a reportagem, declarações públicas individuais atrapalham o trabalho da equipe. Um executivo do grupo que deu uma entrevista foi multado em US$ 25 mil."

"Barão da mídia evita a imprensa", copyright Folha de S. Paulo, 22/8/99

 

INTERAÇÃO
O Globo

"A partir de hoje, O GLOBO estará estreitando ainda mais a relação entre os leitores e o jornal com a criação de uma coluna: O Leitor no GLOBO. A seção, que será publicada todos os dias na página 6, vai retratar em números a relação que o leitor vem mantendo com as colunas e editorias do jornal, ao expressar opiniões nas Cartas dos Leitores, reclamar seus direitos na Defesa do Consumidor, dar sugestões ou pedir informações através do Serviço de Atendimento ao Leitor, por telefone. E também ao reclamar de restaurantes no Programa Furado, no RioShow, ao pedir orientação médica no Qual é o seu Problema?, do Jornal da Família, e ao apresentar sugestões de reportagens diretamente às editorias. Essa interatividade entre os leitores e O GLOBO estará sendo mostrada na nova coluna, que publicará também fotos de leitores que deram sugestões que se transformaram em reportagens.

Um pouco da intimidade do jornal também vai ser revelada com a publicação de trechos da crítica interna feita pelo editor de Opinião, Luiz Garcia, que circula todas as manhãs só entre os jornalistas da empresa, e trechos da pesquisa diária feita por telefone para saber a opinião dos leitores sobre a qualidade editorial do jornal.

Também do ponto de vista gráfico O GLOBO tem uma novidade na edição de hoje: os boxes explicativos, textos que ajudam o leitor a entender melhor a notícia, estão sendo uniformizados. Eles passam a ter novo tratamento visual, sendo identificados por um triângulo antes do título.

O símbolo é baseado na linguagem dos computadores e estará indicando os textos que traduzirão o economês, mostrarão como a notícia mexe com a vida do leitor e recuperarão o fio da meada de coberturas longas."

"Coluna deixará leitores mais perto do Globo", copyright O Globo, 29/8/99

 

PESQUISITE
Alberto Dines

"Nova doença no pedaço: pesquisite ou pesquisótica, forma de disfarçar insegurança espalhando imagem de aprovação. Acontece nas melhores famílias e nas mais diversas situações. Mal sabia que também eu seria afetado. Antes da minha história, alguns casos:

O novo vice-presidente da firma parece um cara legal. Tem experiência, ousadia e charme. De repente, começa com uma estranha mania de fazer pesquisas na equipe para avaliar o seu desempenho.

A p