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BEN BRADLEE
Paulo Sotero

"Washington – Poucos americanos identificariam Benjamin Crowninshield Bradlee como alguém conhecido ou importante em suas vidas. Mencione, porém, a versão abreviada do nome – Ben Bradlee – e muitos, especialmente os bem informados, saberão que se está falando de um jornalista responsável por um feito único na história dos Estados Unidos: derrubou o presidente da República. Um quarto de século depois da renúncia forçada de Richard Nixon, ainda está por surgir qualquer informação que ponha em dúvida ou desqualifique as decisões que Bradlee tomou a partir de 1972, como editor-executivo do jornal The Washington Post, de publicar as reportagens de Carl Bernstein e Bob Woodward sobre a invasão da sede do Partido Democrata no edifício Watergate e outros episódios de abusos de poder orquestrados na Casa Branca, que levariam ao maior escândalo político da história dos EUA. Pelo contrário, o mais recente conjunto de documentos oficiais do período a ser desclassificado revelou um nova face sinistra de Nixon: ele também era anti-semita. Aos 79 anos e há 9 aposentado na confortável posição de vice-presidente do Post ‘at large’ – ou, literalmente, ‘à vontade’ – , Bradlee continua cheio de energia e de projetos. Um deles é um livro sobre a história de sua família – um clã da aristocracia de Boston –, que está escrevendo com um de seus três filhos do primeiro de seus três casamentos. Outro é a educação do filho mais novo, um jovem de 17 anos com problemas de dislexia, que produziu com sua terceira mulher, a ex-reporter do Post e escritora Sally Quinn. Tendo transformado o Post no jornal mais influente dos EUA, ao lado do New York Times, Bradlee exibe em relação ao futuro da imprensa o otimismo que deixou refletido no título do livro de memórias que publicou em 1995 – A Good Life – e que será lançado no fim de novembro no Brasil com o título "Uma Boa Vida (Jornalismo e Outras Aventuras) pela Península Editora (tradução de Vincent Gundolf, 430 págs., R$ 28). Bradlee discorda das críticas recentes sobre a decadência do jornalismo americano. Diz, pelo contrário, que os jornais de qualidade nos EUA estão melhores do que nunca e prevê que eles sobreviverão à Internet."

Na quarta-feira, Bradlee recebeu o Estado para falar sobre seu fascinante passado e sobre o futuro da imprensa e da profissão que, talvez mais do que qualquer outro jornalista neste século, ele honrou e ajudou a melhorar.

O Estado de S.Paulo – O sr. escreveu em seu livro de memórias que a revelação de infidelidade conjugal que acabou com as aspirações presidenciais do ex-senador democrata Gary Hart, em 1987, mudaram as regras sobre o tratamento da vida privada dos políticos na imprensa americana. À luz do escândalo sexual que quase custou a presidência a Bill Clinton, o sr. acha hoje que a mudança das regras foi positiva?

Bradlee – As regras são outras se você é presidente ou é candidato à Presidência. Nos Estados Unidos, acreditamos que temos o direito de esperar que o presidente seja ético e moral e que temos também o direito de esperar que ele não minta nessas situações, não use sua posição de poder para assediar pessoas. No caso do Hart, em primeiro lugar, ele mentiu. Não só mentiu como desafiou a imprensa a descobrir que ele estava mentindo. O caso de Clinton... Bem, eu não entendo Clinton. Ele é tão brilhante, tão inteligente, tão articulado. Fala com absoluta segurança até sobre o que não sabe. Mas agora sabemos que ele mente e mente com paixão. Simplesmente não diz a verdade.

Estado – O sr. também escreveu que John Kennedy dificilmente teria sobrevivido no poder se suas estripulias sexuais tivessem sido relevadas...

Bradlee – As pessoas falam sempre de Kennedy. Em primeiro lugar, ao contrário de Clinton, ninguém jamais processou Kennedy. Eu estava muito envolvido com ele – ele e sua mulher, eu e minha então mulher – e, claro, nunca se tocou no assunto. Numa situação assim, num quarteto de amigos formado por dois casais, você não fala sobre os pecadilhos sexuais de um dos membros. Acho, e já disse isso antes, que se a relação de Kennedy com a namorada daquele gângster em Chicago tivesse sido revelada e se se provasse que o gângster foi beneficiado, ele teria sido tirado da Casa Branca num processo de impeachment.

Estado – Na época, Kennedy já tinha reputação de mulherengo. O sr. sabia das puladas de cerca dele?

Bradlee – Não. Meu pai, que era republicano, às vezes me perguntava: ‘E o Kennedy e as namoradas dele, hein?’ E eu lhe respondia com outra pergunta: ‘Por que o sr. não me conta essas histórias?’ A lenda é que, antes de casar-se, Kennedy transou com todas as mulheres a seu alcance. Mas não sei se isso é verdade. Aqueles entre nós que não transaram com todas as mulheres podem falar.

Estado – A imprensa foi muito criticada durante o escândalo sexual de Clinton. Como o sr. classifica o comportamento da imprensa?

Bradlee – É preciso ter cuidado quando se usa a palavra imprensa. A imprensa é uma enorme tenda. Eu me sento num canto da tenda onde está um pequeno grupo de publicações que praticam um jornalismo de qualidade. Ao redor, há um monte de porcaria, de jornais sensacionalistas, de televisão sensacionalista, que é terrível. Imprensa é uma palavra geral demais. O melhor da imprensa americana comportou-se de maneira responsável no escândalo de Clinton. Acho até que os jornais foram um pouco moderados. Deviam ter sido mais duros com ele. A imprensa demorou um pouco para se convencer de que ele estava mentindo (sobre sua relação com a ex-estagiária Monica Lewinsky). Compreendo. Nesta cidade, é muito difícil dizer que um presidente está mentindo. Nixon, em sua primeira declaração sobre a invasão do Partido Democrata, em 1972, disse que não podia falar porque o assunto envolvia questões de segurança nacional. Era tudo uma total mentira. Mas nós não podemos simplesmente publicar a declaração de Clinton e afirmar, na frase seguinte: ‘Isso é mentira.’ Mas a verdade é que, nos últimos 30, 35 anos, a partir de Kennedy, nossos líderes passaram a mentir muito: os líderes políticos e os do mundo empresarial. Não acredito mais na primeira versão que ouço sobre um acontecimento. Sobre qualquer assunto. Lembra-se da bomba em Oklahoma, em 1995? A primeira versão foi de que a explosão tinha sido obra de terroristas.

Estado – O fato de os políticos e as pessoas em posição de responsabilidade mentirem mais hoje preocupa?

Bradlee – Sim. E a razão é que hoje as pessoas mentem e, aparentemente, não pagam por isso. Talvez eu seja antigo nisso, mas, quando estava crescendo, contar mentira tinha conseqüências. A punição começava em casa, com os pais, que lhe davam um boa sova.

Estado – Comparando o Watergate, que forçou Nixon a renunciar em 1974, com o escândalo mais recente, que quase tirou Clinton da Presidência, muita gente diz que o país ganhou com o exercício de auto-exame do primeiro episódio, mas não ganhou com a investigação do segundo...

Bradlee – Também não estou seguro se ganhamos alguma coisa nesse último caso. Se é que ainda precisávamos de prova, esse escândalo provou uma vez mais que você não pode mentir sempre e, em algum momento, será pego mentindo. Clinton mentiu e mentiu. E olhou na lente da televisão e mentiu para o povo americano...

Estado – Há riscos em continuar a eleger mentirosos ou se trata de uma inevitabilidade?

Bradlee – Difícil dizer, porque há também boas qualidades nessas pessoas. A mentira é uma característica desqualificadora. No caso de Clinton, acho que ela garantiu o fracassso de sua presidência. Mas, ao mesmo tempo, o país está mais próspero do que nunca.

Estado – O escândalo teve um custo para os jornais, em termos de credibilidade?

Bradlee – Não creio – a imprensa de qualidade nos Estados Unidos, que inclui o Washington Post, o New York Times, o Wall Street Journal, o L.A. Times, está melhor do que nunca. Os jornalistas são melhores, mais bem-educados, têm geralmente um sentido mais apurado de ética do que os de gerações passadas. E, o que é extraordinário neste país: há mais gente observando os jornalistas com um olhar crítico. As pessoas telefonam mais, escrevem mais para os jornais para comentar ou reclamar. Há organizações que monitoram o trabalho da imprensa. Há várias revistas sobre jornalismo, como a Columbia Journalism Review. Há todo tipo de escolas de jornalismo, de fundações dedicadas a examinar o trabalho da imprensa. Nos cursos de governo e administação pública das universidade, debate-se o papel da imprensa. Não explorei isso a fundo, mas diria que hoje a nossa profissão é examinada, monitorada e criticada mais do que qualquer outra, com a possível exceção do governo. Há mais advogados e médicos do que há repórteres. Mas os advogados e, certamente, os médicos não são nem de perto examinados e criticados como nós. A Ordem dos Advogados e a Associação Médica Americana não permitiriam. E os empresários escapam quase sempre ilesos de suas falcatruas, são muito pouco criticados pela quantidade de abusos que cometem. Nos melhores jornais dos EUA, há hoje maior autodisciplina, maior cuidado com o que se publica. Acho, por exemplo, que o Post é um jornal muito cauteloso.

Estado – O que fez o jornal que revelou o escândalo do Watergate e liderou a ofensiva contra Richard Nixon tornar-se cauteloso?

Bradlee – Nós nos queimamos com o caso de Janet Cooke. (No dia 28 de setembro de 1980, o Post publicou na primeira página uma reportagem sobre o menino negro de Washington chamado Jimmy, de 8 anos, viciado em heroína. O texto contava que ele ficara viciado por causa do namorado de sua mãe, que lhe injetava a droga diariamente. Em abril de 1981, a autora da texto, Janet Cooke, ganhou o Prêmio Pulitzer de Reportagem. Dois dias depois, ela confessou à direção do jornal que havia inventado a história. O `Post' devolveu o Pulitzer e revelou a farsa, num texto de explicação e autoflagelação que ocupou quatro páginas do jornal. A partir daquele momento, as palavras Janet Cooke entraram para o vocabulário como um símbolo do pior no jornalismo americano, da mesma maneira que a palavra Watergate entrara para o vocabulário como símbolo do melhor jornalismo nos EUA’, escreveu Bradlee em seu livro de memórias.) Foi uma experiência que deixou cicatrizes. Nós não queremos que aconteça de novo.

Estado –Como evitar que reportagens falsas saiam nos jornais?

Bradlee – Eu gostaria de saber a resposta. No Post, não tivemos mais nada remotamente semelhante. Outros jornais tiveram. E no mundo de negócios, acontecem coisas desse tipo o tempo todo. O que fizemos? Passamos a verificar com mais cuidado as referências profissionais dos jornalistas. A razão pela qual não tínhamos feito isso no caso da Janet Cooke é que há uma lei nos EUA que proíbe as universidades de dar informações sobre os estudantes e ex-alunos sem a permissão deles. Não fosse essa lei, teríamos descoberto, por exemplo, que ela não tinha formação universitária. Outra coisa que fizemos foi encorajar as pessoas na redação a manifestar suas dúvidas sobre a autenticidade das reportagens ou a veracidade das informações. No caso de Janet Cooke, alguns repórteres disseram, depois do fato, que tinham dúvidas sobre a história. Mas essas dúvidas nunca chegaram ao editor, ao chefe da redação ou a mim. Agora, isso é uma coisa muito difícil. Depois do episódio, reexaminamos tudo o que Janet tinha escrito e não conseguimos achar nada de errado. Ela tinha um texto excelente. Ou seja, nos três anos em que trabalhou aqui, ela construiu a relação de confiança que precisa existir entre repórteres e editores. Essa confiança é essencial.

Estado – Em seu livro, o sr. compara a calúnia e a falsidade no jornalismo ao erro médico para dizer que se trata de algo inadmissível. Quando a imprensa erra, como se conserta?

Bradlee – Você precisa, rapidamente, reconhecer o erro, deve revelar tudo o que souber e que possa explicar por que o erro ocorreu. Dois ou três dias depois de Janet Cooke ter confessado que inventara a reportagem, o Post publicou um texto sobre o assunto, expondo tudo o que sabíamos e as possíveis razões do nosso erro. Minha única instrução para o redator foi a seguinte: não deixe nenhum espaço para que alguém, no futuro, explique a verdadeira razão do nosso erro, escreva tudo o que souber, esgote o assunto. Se tiver de apontar esse ou aquele aspecto desonroso, aponte, por mais desconfortável que seja, se constatar que a história falsa saiu no jornal porque houve falhas no nosso sistema de decisão e de edição, escreva. E, de fato, não há nada que tenha saído depois sobre Janet Cooke que já não estivesse no nosso texto de retratação. Isso é importante, porque mostra ao público que nós reconhecemos o erro e que não temos nada a esconder.

Estado – Como na situação oposta, quando o jornal não publica uma informação porque conclui que sua divulgação pode ser prejudicial ao interesse público. Há, ou pelo menos já houve, em algumas partes dos EUA, acordos tácitos de não divulgação de notícias sobre motins em prisões, para evitar o alastramento do fenômeno. Observa-se o mesmo tipo de prática em casos de seqüestros?

Bradlee – Isso é mais complicado. Tenho diculdade com isso. A razão é que eu não quero ter o governo me dizendo o que devo e o que não devo fazer. Você precisa ver cada caso. Uma vez um repórter nosso soube que um jovem de 17 anos, de uma família muito rica da região de Washington, havia sido seqüestrado. Ele já estava escrevendo a história quando o FBI me chamou. O FBI me disse que sabia que tínhamos a história, contou que tinham feito contato com os seqüestradores e iam conseguir resgatar o rapaz. Mas ele disse também que se publicássemos a reportagem na edição do dia seguinte, os seqüestradores matariam o menino. Nós nos reunimos e decidimos não publicar.

Estado – Há alguma reportagem que o sr. se arrepende de não ter publicado?

Bradlee – Acho que há algumas que nós seguramos mais tempo do que era necessário. Mas a nossa história nessa ártea sempre foi bem clara. Era preciso haver uma razão muito boa para não publicar uma reportagem. Uma vez, atendemos a um pedido do presidente Jimmy Carter e atrasamos por 24 horas a publicação de uma história sobre a verba de US$ 1 milhão por ano que a CIA dava ao rei Hussein da Jordânia. O presidente nos pediu para adiar, alegando que precisava avisar o secretário de Estado, para ele não ler a informação no jornal.

Estado – E quando o governo invoca o argumento da segurança nacional?

Bradlee – Essa é uma defesa que os governos usam para tentar impedir a publicação de reportagem, mas raramente a razão real é a segurança nacional. Mais freqüentemente, o que eles querem é evitar que se revele algo embaraçoso. E, como disse, não quero o governo me dizendo o que devo ou não devo fazer.

Estado – Como editor do Post, o sr. enfrentou uma greve de mais de quatro meses, em 1976, que começou com uma ameaça de paralisação de jornalistas e depois incluiu os gráficos. Como o sr. vê a relação entre jornalistas e o sindicato.

Bradlee – Eu acho que, pelo tipo de atividade que exerce, jornalista não deve fazer greve. Os jornalistas têm o seu sindicato e não há nada que eu possa fazer para impedi-los. Mas não gosto disso, porque não gosto de ter gente me dizendo como devo fazer o jornal, seja o governo, seja o sindicato. Se a Katherine Graham (dona do Washington Post) tivesse me pedido para fazer algo com o qual não concordasse, teria ido embora. E os sindicatos costumam ser muito ditatoriais. Os melhores repórteres, talvez a maioria dos jornalistas nos EUA, hoje, não prestam muita atençao no sindicato porque negociam seus salários individualmente e estão ganhando bem.

Estado – O sr. falou sobre a confiança que precisa existir entre o editor e os repórteres. No caso Watergate, conta em seu livro que foi somente tempos depois do escândalo e da renúncia de Nixon que perguntou aos dois repórteres, Carl Bernstein e Bob Woodward, o nome do ‘Deep Throat’ (a misteriosa fonte, até hoje não revelada, que confirmou aspectos cruciais do escândalo). Escreve também que nunca deu essa informação à dona do Post, Katherine Graham.

Bradlee – Ela não sabe até hoje. Nem o filho dela, Don, que hoje dirige a empresa. Eles nunca me perguntaram. Outras pessoas me perguntam sobre isso o tempo todo. Acho que deveria ter sabido mais cedo. Se tivesse perguntado, os repórteres teriam me contado. Mas a qualidade e a precisão das informações que recebiam era tal que eu achei, na época, que não precisava saber. Além disso, a participação do ‘Deep Throat’ refere-se a uma pequena parte do conjunto de reportagens. Ele foi um personagem crítico não pelo que revelou, mas porque ajudou a guiar a apuração.

Estado – O sr. acha importante que a identidade do ‘Deep Throat’ seja divulgada algum dia?

Bradlee – O assunto é tão interessante que eu acho que se fosse revelado geraria outra controvérsia. Woodward e Bernstein já disseram que revelarão o nome quando o homem morrer. Isso eu posso revelar: é um homem.

Estado – Se eles não tivessem feito essa promessa, o sr. revelaria o nome?

Bradlee – Não estou tão seguro sobre isso. A razão é que o meu conhecimento sobre a identidade dessa pessoa não é de primeira mão, é de segunda mão. Se Woodward e Bernstein não revelarem, por que diabos eu o faria?

Estado – Qual é o futuro da imprensa na era da Internet. O escritor mexicano Carlos Fuentes disse que há hoje uma explosão da informação, mas uma implosão do significado...

Bradlee – Concordo com ele. Mas quero dizer que não estou mergulhado na Internet. Uso o computador como uma máquina de escrever. Sou capaz de mandar e receber e-mail, se a minha secretária estiver aqui para me ajudar. Eu acho a Internet uma coisa desproporcional. Quem está ganhando mais dinheiro no momento com a Internet é o pessoal da pornografia, uma indicação da ausência de ordem e da falta de sanidade na Internet. Minha previsão é que os anunciantes vão tomar conta e só se verá publicidade na tela.

Estado – O jornal tem futuro na era eletrônica?

Bradlee – Acho que sim. Mas ele não será a mesma coisa que é hoje, assim como o jornal hoje é diferente do jornal do passado. A história da palavra imprensa já passou por várias mudanças e elas continuarão. A grande preocupação é a seguinte: a seção de classificados vai desparecer, porque esse tipo de anúncio vai para a Internet. No Post, cerca de 78% da receita vem de publicidade. E os classificados representam cerca de metade. Em termos financeiros, portanto, a transferência dos classificados para os meios eletrônicos representa um desafio. Mas a Internet é um meio tão indisciplinado, que os participantes nesse mercado também terão problemas terríveis. Não sei o que vai acontecer, mas não há hada na Internet ou na TV que possa competir com o Washington Post ou com o New York Times, em termos de apresentação, de explicação e de análise da notícia. Podem cobrir um evento esportivo melhor do que nós, porque operam ao vivo, mas não são bons para descobrir as causas das coisas, para explicar, para fornecer o contexto. Os jornais melhoraram muito, nesse sentido, nos últimos 30, 40 anos, por causa da TV. Além disso, no Post achamos que a TV e a Internet estão ausentes no noticiário local, sobre o que está acontecendo na comunidade em que as pessoas vivem. E esse é um mercado importantíssimo para nós.

Estado – Para aumentar suas tiragens, no Brasil os jornais têm usado técnicas de marketing, como fazer pesquisas diárias com os leitores, que de alguma forma influenciam decisões sobre como fazer o jornal. Isso é feito no Post ou em outros grandes jornais nos EUA?

Bradlee – Não. E eu não gosto dessa idéia. A razão é que os leitores podem não querer ver no jornal o tipo de informação da qual precisam. E podem não querer o que você acha que eles deveriam receber. A clássica definição do que é uma notícia é aquela que um velho editor ranzinza deu um dia: notícia é o que eu disser que é notícia. Alguém tem de decidir o que sai no jornal. E isso é uma coisa subjetiva. Se você perguntar para o leitor o que ele quer, o passo seguinte será perguntar como ele quer a notícia, se com esta ou aquela ênfase. Um bom jornal precisa ser eclético, deve cobrir uma gama ampla de assuntos, capaz de interessar às mais diferentes pessoas.

Estado – Como educar o jornalista do futuro?

Bradlee – Um rumo será a especialização. O Wall Street Journal, por exemplo, forçou o New York Times e o Washington Post a melhorar seus cadernos de economia e negócios. Há duas maneiras de começar uma carreira de jornalista hoje nos EUA. Pode começar numa especialidade se for um cientista, porque a ciência é uma coisa complexa e não temos condições de fazer as perguntas certas. A outra maneira é ser um generalista e aprender a escrever, a buscar a informação, e depois de um tempo se especializar.

Estado – O sr. sabia que no Brasil os jornais teriam problemas para contratar um cientista para trabalhar na redação porque há uma lei que determina que é preciso ter um diploma de jornalismo?

Bradlee – Não gosto disso. Menos da metade dos jornalistas do Post estudaram em escola de jornalismo. Se você me perguntar quem eu contraria para trabalhar aqui, entre um jovem saído de Amherst College, com uma boa formação humanística e geral, ou uma pessoa com um diploma da escola de jornalismo da Universidade de Arizona, escolherei sempre o candidato de Amherst College, mesmo que ele ou ela não saiba muito sobre jornalismo. Isso, eu ensinarei a eles, na redação.

Estado – Como se faz um grande editor?

Bradlee – Um grande editor é alguém capaz de atrair bons profissionais para trabalhar no jornal. É alguém que sabe como encorajar talentos e despertar o melhor nas pessoas. É como um técnico de um time.

Estado – Por que o sr. escolheu ser jornalista?

Bradlee – Eu comecei com uma vaga idéia de que trabalhando como jornalista, buscando a verdade dos fatos e jogando luz nas coisas de interesse público, eu poderia tornar o mundo um lugar melhor."

"O homem que derrubou o presidente dos EUA", copyright O Estado de S.Paulo, 31/10/99

 

FATO & NOTÍCIA
Noenio Spinola

"O jornalista William Bonner consegue revelar o excelente repórter que há por detrás do formalismo com que apresenta o Jornal Nacional quando um programa que dirige na Globo lhe permite alvejar seus entrevistados com perguntas instigantes.

Por que – provoca ele – deveria a Mega Sena ocupar tanto espaço na mídia, gerando uma espécie de escravidão dos veículos a um fato cujo significado não vai além de produzir mais um pequeno milionário, quase sempre anônimo?

O fato e a escravidão aos pseudo-fatos tem na realidade ocupado boa parte dos programas que se dedicam a investigar o inconsciente da mídia nestes tempos de internet e controle remoto, com os quais supostamente todos são livres para navegar para onde queiram. Do Observatório da Imprensa de Alberto Dines ao ‘N’ de Notícias, passando pelo Ombudsman da Folha e tantos outros programas ou publicações há uma pequena febre de autocrítica, certamente benéfica para quem lê, vê ou tenta refletir sobre os fatos e suas circunstâncias.

Haverá uma ‘escravidão da mídia’ diante dos fatos? Ou deve um pauteiro, do alto de sua arrogância, determinar o que será notícia no jornal do dia seguinte? Se a questão existe, onde estará a ‘minima moralia’ ou a ética mínima para fugir a uma tirania de fatos cuja dimensão é maior na telinha ou no papel impresso que na realidade?

Da Escola de Frankfurt (Horkheimer, Benjamin, Adorno) a Manuel Castells, passando por Gramsci (Os Intelectuais e a Organização da Cultura) discute-se a tirania dos fatos e o papel da mídia sem que alguém consiga responder a uma pergunta simples: quem deve censurar (a palavra é essa) o que vai para o ar ou para a página impressa?

Provavelmente ninguém responde corretamente essa pergunta porque ela é errada. Quando Moisés desceu da montanha depois de se entrevistar com Deus e escrever a mais notável reportagem sobre a moral e os costumes que a humanidade conhece (os Dez Mandamentos) seu povo eleito estava adorando um bezerro de ouro.

A mega sena é um desses pequenos bezerros de ouro cuja tirania se resume em si mesma. Quando intencionalmente ‘esqueci’ de cobrar sua publicação pela editoria da cidade deste jornal, choveram telefonemas dos leitores reclamando. Seriam eles (basicamente assinantes) condicionados pela febre espalhada pela mídia, ou simples portadores do mesmo vírus do desenho de sonhar com a fortuna?

Theodor Adorno escreveu sua Minima Moralia (1944) refletindo os tempos da guerra, em que a intolerância e os monopólios da verdade grassavam na Europa. Em sua dedicatória ele diz estas palavras sábias: ‘Aquilo que a vida significava outrora para os filósofos passou a fazer parte da esfera privada e, mais tarde ainda, da esfera do mero consumo, que o processo de produção material arrasta consigo como um apêndice sem autonomia e sem substância própria’.

Aquilo que chamamos hoje de ‘era do conhecimento’ pode contribuir para que as tiranias que provocaram o pessimismo de Adorno sejam substituídas por mais liberdade de opinião e de acesso ao fato. Moisés poderá voltar ao alto da montanha para tentar falar com Deus e uma vez de volta talvez não encontre o povo eleito adorando um bezerro de ouro. Tantas serão as escolhas que dificilmente um ícone prevalecerá sobre outros, ou um só impulso de consumo dominará as massas determinando que todos os sabonetes devem ter o cheirar como Damas da Noite, todas as águas de colônia serão perfumadas como jasmins e todos os livros de filosofia terão capa vermelha.

"Muito além da tirania dos fatos", copyright Jornal do Brasil, 31/10/99

PATRULHAS
Alberto Dines

"O fato produz a caricatura ou cartum – essa a regra. Aqui, deu-se o inverso: a própria ilustração converteu-se em evento. Chico Caruso, na primeira página de O Globo (quarta-feira, 20/10) com alguns geniais traços provocou uma gargalhada nacional. O hilariante desenho atravessou os bunkers partidários, varou os sisudos gabinetes do poder e, sobretudo, deu a devida dimensão à midiática aproximação ACM-Lula para combater a miséria. Deitados e abraçados no leito do amor um pergunta ao outro: ‘Foi bom pra você também?’.

Foi bom para todos, menos para os personagens, inspiradores da gozação. O Brasil parou para rir e isso não acontece há muito tempo. Mesmo com a ameaça inflacionária, com o dólar hipervalorizado, com os hermanos argentinos prontos a incendiar os mercados internacionais depois das eleições de domingo, mesmo com nossos militares irritados com a súbita isonomia que os sujeita às mesmas investigações e deveres fiscais, a carga (charge) de Caruso desopilou o fígado do país.

Pactos estão na moda. Dernier cri no sentido literal: berro derradeiro antes de despencarmos no abismo (ou bug) do milênio. A atual mundialização é exatamente isso: uma percepção generalizada para o que acontece ao lado. Tudo está ao lado. Claro que ao Senado americano, dominado pelos republicanos, escapam essas premências. Mas a tendência geral, aqui ou na Indonésia, é para estabelecer um mínimo de entendimento e consenso.

Descabida, portanto, a punição imposta pelo romântico e amoroso PT ao deputado paulista Eduardo Jorge, cassando os seus direitos de militante durante 30 dias. A punição está em vigor desde o dia 27 de setembro mas só foi tornada pública na quarta-feira. Como reiteração, repeteco. O crime do deputado Eduardo Jorge, um dos fundadores do partido, foi ter votado a favor da cobrança da CPMF e contra dois itens da renegociação da dívida dos agricultores, contrariando a determinação central.

Mas por que razão divulgar o castigo praticamente às vésperas da sua extinção? Porque o deputado petista teve a ousadia de contrariar novamente a direção do partido reunindo-se no Palácio do Planalto com dois ministros (Aloysio Nunes Ferreira e Waldeck Ornélas). Queria convencê-los a suspender o projeto de emenda do Executivo que cria o regime único para a Previdência porque, ainda em 1995, apresentou uma emenda que agora seria palatável ao governo e oposição.

Lula e ACM podem assumir publicamente a ‘relação’ mantida em segredo por tanto tempo. Mas um parlamentar, cioso das suas responsabilidades e ansioso como qualquer cidadão com o rombo da Previdência, não pode viabilizar uma proposta capaz de tapar o sorvedouro. Nem podem os três governadores petistas participar das reuniões com o presidente sobre o mesmo assunto, embora seja uma questão crucial para as respectivas administrações.

O PT pode fingir uma convergência com o PFL, por mais abominável que seja essa hipocrisia às custas das nossas desgraças. Mas o PT não reconhece os princípios mínimos de coexistência e cohabitação que já eram pacíficos no período final da Guerra Fria. Se essa é a linha light do partido, melhor que venham os radicais. Serão mais transparentes.

A grande verdade é que retornamos ao regime de patrulhamento ideológico. Eventualmente justificável num quadro de resistência contra uma ditadura mas desastroso numa democracia, imperiosamente pluralista. E esse patrulhamento transcende às milícias partidárias. Esparrama-se por áreas que, pelo grau de esclarecimento, deveriam ser imunes ao radicalismo.

É o caso do linchamento contra o ex-senador Roberto Campos que ousou candidatar-se à vaga de ‘imortal’ aberta pela morte prematura do dramaturgo Dias Gomes na Academia Brasileira de Letras. Porque é um conservador em política, monetarista em matéria econômica e, como ministro da Fazenda no governo de Castelo Branco comandou o desmonte da estrutura econômica até então vigente, foi decretado que ele não tem o direito de candidatar-se à vaga de um intelectual comprometido com o socialismo.

Não existe na tradição acadêmica francesa – macaqueada com tanto gosto por aqui – o compromisso de continuidade estética ou filosófica entre os ocupantes da mesma cadeira. O protocolo pede apenas o elogio do antecessor. Mesmo assim, em 1925, o narcisista e mundano Paul Valery assumiu a vaga do socialista-humanista Anatole France sequer mencionando o nome do Prêmio Nobel de Literatura, uma das glórias da literatura francesa deste século. Gaffe que Roberto Campos, homem de bom gosto, certamente não cometerá na segunda-feira [25/10/99], quando assumir a imortalidade.

O que espanta neste fuzuê lítero-político é a complacência das chamadas vanguardas políticas com a imoralidade. Quando Arnaldo Niskier, o atual presidente da Academia, foi escolhido como imortal sua obra literária e científica resumia-se a uma coleção de livros didáticos de nível médio sobre matemática (da qual teria sido co-autor) e alguns textos insignificantes sobre ensino. Ninguém reclamou embora no espectro ideológico navegasse perto de Roberto Campos mas a quilômetros de distância em matéria de cultura. Hoje, não contente em ser o lobista-mor da indústria do diploma meteu-se numa enrascada dentro da própria Academia ao pretender tomar de assalto o futuro Instituto do Brasil com sede no DF. Certamente para presidi-lo.

As mesmas vanguardas não se tocaram quando, há pouco, a mesma Academia elegeu como imortal Murilo Mello Filho, autor do Milagre Brasileiro, obra de propaganda do regime militar. Se Delfim Netto, pai e patrão deste milagre, candidatar-se a imortal não haverá resistências – a oposição adora as suas tiradas contra o governo.

A verdade é que a oposição é uma charge da oposição. De tão enfezada, perdeu a graça."

"O rancor como piada", copyright Jornal do Brasil, 23/10/99

 

TOTÓ EMERGENTE
A. D.

"Existirá alguma relação entre o badalado ‘niver’ da cadelinha de uma grã-fina carioca com o horror na Febem de São Paulo? Aparentemente nenhuma. À dona da mimosa Pepezinha não pode ser negado o direito de demonstrar a enormidade do seu afeto pelo ente querido. O livre arbítrio é uma conquista universal, acessível a anônimos ou celebridades.

Assim o entendeu também Paulo César dos Santos Oliveira, 30 anos, ex-motorista de Kombi, agora desempregado, casado, um filho de 8 meses, que, involuntariamente, ocupou a primeira página de três dos quatro jornalões nacionais na última quinta-feira. Ele, sim, tem algo a ver com a bacana da Barra. Especialmente com o seu bichinho de estimação.

Na véspera, armado com um tresoitão cano longo tentou assaltar um banco na movimentada Rua do Catete, Rio. Preso, pegou uma criança como refém, depois trocou-a pelo caixa. Filho legítimo da Era da Informação, convocou a imprensa e depois da negociação com os policiais entregou-se.

O flagrante do assaltante apontando a arma para a cabeça do bancário assustado deveria estar numa coluna mundana (Romário, elegantíssimo, com uma pistola prateada, chegou lá). Impecável na combinação de camisa escura e conjunto de calça, blazer e gravata marrons, ton sur ton, Paulo César, além da natural sofisticação para o visual, é bom de bico, esplêndido comunicador. Discorreu com proficiência sobre a segmentação do negócio, explicou que ‘é moleza assaltar bancos’, mas pediu aos repórteres: ‘Não escreve isso porque senão todo mundo vai querer...’

Declarou que vai aproveitar a temporada na cadeia para terminar de escrever o livro sobre a vida de um ladrão. E, como está por dentro do noticiário, não perdeu a chance para politizar o episódio: ‘O meu filho, Eugênio, está passando fome e essa gente fazendo festa para cachorro!...’ Deveria escrever sobre cadelinhas emergentes – best-seller garantido. O party da Pepezinha transitou com destaque por jornais, revistas e televisão. Levado a sério, prato cheio para os jornalistas (de todas as idades, diga-se) que freqüentam os seminários do tipo ‘como atender o mercado em dez lições’. Símbolo de um colossal processo de idiotização coletiva de cunho eminentemente político no qual os menos culpados são aqueles que querem aparecer.

E aqui entra o horripilante motim na Febem paulista. O mais sangüinário dos 20 incidentes deste ano numa instituição famosa pela violência. Fartamente coberto pela mídia, começou na tarde de sábado, alongou-se até a tarde da segunda-feira. Cruzou todos os públicos, edições e gêneros jornalísticos, do propriamente dito ao de entretenimento.

E, no entanto, apesar da superexposição, o grau de desinformação foi total. Tão grande quanto o da impiedosa politização da tragédia. Aqui juntam-se os dois tipos de banalização – quanto mais mundanas a atmosfera e disposições da sociedade, mais facilmente infiltram-se o extremismo e o simplismo partidário. E quanto mais politizadas e partidarizadas ficam as questões humanitárias, menor sua capacidade de mobilizar grandes contingentes.

A nota da OAB-SP distribuída aos jornais na terça-feira, mal apagados os destroços da baderna, ilustra a explosiva combinação de desinformação e crucificação sumária. Com todo o respeito que merece a instituição, a denúncia lembra a sentinela que primeiro atira e só depois pergunta ‘quem vai lá?’. Ignora que o motim foi deflagrado porque vazou para os presos a notícia da greve dos monitores, que seriam substituídos pela PM. Ignora que as quatro vítimas barbaramente mutiladas e queimadas estavam marcadas para morrer porque queriam conquistar a liberdade através do bom comportamento. Ignora a necessidade premente de rever o Código do Menor e do Adolescente. Ignora o corporativismo imperante entre os monitores impedindo que os corruptos sejam afastados. Mas, sobretudo, fecha os olhos a um processo de radicalização política ora em curso nos bastidores ao qual não estão indiferentes certos grupos politico-religiosos.

Se os ilustres causídicos de São Paulo fossem menos afoitos no seu manifesto político teriam assistido à imperturbável e perturbadora confissão de Fábio Antônio de Castro, 18 anos completos, contando como matou a golpes de machadinha um menor. ‘Ele merecia morrer e se tiver de fazer de novo, eu faço.’ E o apressado veredicto seria outro.

Quinze anos de construção democrática, depois de 21 anos de ditadura, não foram suficientes para criar em nossa sociedade os mecanismos de busca de consenso para o Bem Comum. Ideologias maldigeridas combinadas ao oportunismo político atravancam e desvirtuam as iniciativas capazes de vitalizar o senso comunitário e cidadão. O caso dos governadores do PT impedidos pelo próprio partido de cumprir com suas obrigações de zelar pelo interesse dos seus estados é o exemplo mais gritante. Confinado às páginas de política não chegou a indignar o cidadão com algum resquício de espírito público. E como nas páginas seguintes imperam a banalidade e a fragmentação ninguém se dá conta da distância que nos separa de uma sociedade com o mínimo de homogeneidade e consistência para se articular e agir.

As limpezas que começam a ser feitas no Acre, no Piauí e agora no Maranhão comprovam como a supremacia da moral sobre o encarniçamento partidário podem derrubar as velhas muralhas da impunidade e da omissão. Paulo César, ladrão janota e bem falante, teve o seu Dia de Cão – deu tudo errado. Mas ainda pode dar certo se numa cadeia decente conseguir terminar o seu livro sobre ladrões. Mas é preciso também que as Pepezinhas sejam erradicadas das páginas de noticiário ‘leve’ para que a cadelinha não seja citada novamente nas páginas de polícia. Ou lembrada no futuro como símbolo de uma sociedade perversa e fútil. Como os brioches de Maria Antonieta."

"Dia de Cão", copyright Jornal do Brasil, 30/10/99

ARTIGO 222

Janio de Freitas

"Sob fortes pressões de grupos interessados, já atravessou a primeira etapa no Congresso, e prossegue o seu curso sem questionamentos embaraçosos, um projeto capaz de influir no futuro brasileiro tão profunda e definitivamente como nenhum outro examinado na Câmara e no Senado.

Com a aparência apenas de uma gota a mais na onda da abertura geral a capitais e empresas estrangeiros, o projeto se destina a derrubar a proibição de investimentos internacionais em jornal, TV e rádio brasileiros. A participação estrangeira ficaria autorizada até o limite de 30% do capital da empresa ou grupo brasileiro.

Já existem, embora não publicamente, entendimentos sólidos para a entrada de grupos da mídia estrangeira em alguns dos maiores grupos brasileiros. É uma necessidade para esses grupos, que entraram com altos gastos em TV por assinatura, telefonia, novos empreendimentos de revistas e livros, mas não obtiveram os resultados esperados. Entre eles há, ainda, os que enfrentam pesada insuficiência de faturamento, em relação aos custos muito elevados pelo real. Os capitais estrangeiros são ambicionados, em geral, como socorro, e esta foi a motivação do projeto que tramita no Congresso.

Mesmo em sua fase de maiores esperanças em relações fraternas com os Estados Unidos, nos anos de ‘paz e democracia nas Américas’ logo depois da Segunda Guerra, a Constituinte de 46 entendeu as inconveniências, para a soberania nacional, da presença estrangeira (não só proveniente dos Estados Unidos) nos jornais e rádios do Brasil. Esse entendimento não se alterou nem com as variações de regime e de instituições.

À parte da legislação, no Brasil a opinião que flui da mídia para o público é muito influenciada pela política e pelos interesses empresariais americanos. Mesmo que não haja deliberação neste sentido, os interesses brasileiros chegam a ser secundários. Não fosse toda a história da imprensa brasileira pós-45 um retrato de tal predomínio, está aí, diante de nós, o caso do ‘Consenso de Washington’ e de seu dogma neoliberal. Ambos se tornaram ideologia da mídia, associada a uma corrente política aderida ao ‘Consenso’, até que a ocorrência dos desastres torna óbvio que a receita não era a melhor para o Brasil.

O noticiário internacional no jornalismo brasileiro está condicionado, quase absolutamente, a agências americanas. As publicações que fazem a mentalidade do jornalismo de economia, aqui, são americanas e neoliberais inglesas. Não existe a visão propriamente brasileira dos fatos, nem mesmo do Brasil.

Uma realidade assim pode sugerir que a presença direta do capital estrangeiro, na condição de co-proprietário proposta pelo projeto, não traria maiores efeitos à natureza da mídia brasileira. Talvez não, mesmo. Mas se houver uma situação de divergência entre Brasil e Estados Unidos, em torno de uma questão grave como a Amazônia, entre tantas outras possíveis ou prováveis, nem que o quisesse a mídia associada poderia definir sua posição sem a influência do co-proprietário estrangeiro.

Pode-se pensar em algo menos drástico. Digamos que a inteligência brasileira desperte e se incline por desenvolver um projeto nacional, autenticamente brasileiro. Ou seja, não necessariamente dissociado dos capitais estrangeiros, mas não dependente ou submisso a eles. O peso da co-propriedade da mídia se mostraria, forçosamente, em defesa dos seus interesses. É assim nos demais ramos de negócio e com muito mais razão seria naquelas circunstâncias.

Em síntese: mídia é informação, informação é a matéria-prima da opinião pública, informação e opinião pública são a base da soberania de um país. Condicioná-las é também condicionar a soberania e o país."

"Os riscos do socorro", copyright Folha de S. Paulo, 24/10/99

Antonio Athayde

"O legislativo brasileiro está discutindo neste momento a mudança constitucional necessária para que grupos estrangeiros possam ter participação nas empresas brasileiras de mídia impressa e eletrônica.

O mercado de televisão atrai a atenção não só pelo seu tamanho, cerca de US$ 3,8 bilhões em 1998, mas pela sua concentração em uma só rede, a Globo, que detém mais de 80% do bolo publicitário, embora a divisão da audiência indique apenas 50% na média diária.

Estes 30 pontos percentuais que a Globo tem a mais – geralmente, na TV aberta, a participação na audiência corresponde a valor semelhante no faturamento – intrigam os analistas das empresas estrangeiras e, na visão deles, constituem uma imensa oportunidade a ser conquistada.

Os mesmos grupos gostariam muito de produzir no Brasil, para nosso mercado e para o exterior, aproveitando os talentos de autores, roteiristas, diretores, atores e técnicos brasileiros, reconhecidos mundialmente.

É interessante verificar, no entanto, que as restrições constitucionais nunca impediram parcerias entre empresas detentoras de produto e/ou de formato de programação e emissoras de TV brasileiras; o capital e o conhecimento estrangeiros podem e sempre puderam testar sua competência no mercado brasileiro de televisão.

Alguns exemplos pontuais são: o acordo da CBS Telenotícias com o SBT, a parceria da Disney para a produção do Disney Club com a mesma rede e, mais recentemente, a co-produção das comédias de situação da Sony com a Bandeirantes. No entanto existe um outro acordo, vigente há anos, entre a Viacom e a Abril, cujo produto é a MTV, que é um caminho que poderia ter levado o SBT, a Band, a Manchete, a Record ou a CNT, a ter fechado contrato semelhante e se chamar hoje ABC, CBS, Televisa, BBC ou qualquer outro nome tão brasileiro como Music Television ou Emtivi.

A MTV é um casamento perfeito entre um formato de sucesso mundial e o talento da produção brasileira. Aliás para aqueles que pensam que uma emissora de TV com um sócio internacional será uma sucessão interminável de enlatados nos vídeos tupiniquins, é bom verificar como a MTV teve que se ‘abrasileirar’ para agradar a seus jovens telespectadores.

Por que um empreendimento de sucesso como a MTV não gerou imitadores?

O fato é que uma grande parte do sucesso histórico da Globo e do fracasso, da mesma maneira histórico, da concorrência vêm de fatores que não aparecem no vídeo dos telespectadores.

Uma rede de televisão é muito, mas muito mais do que a produção de bons programas, sejam eles telejornais, novelas, desenhos, séries ou transmissões de futebol. A operação de uma rede de televisão comercial é um trabalho conjunto que começa com a definição de uma estratégia de programação, com o objetivo de atingir determinado público em cada faixa horária, na sua embalagem e promoção e na sua receptividade pelo mercado publicitário. O anunciante se preocupa, e com razão, com a qualidade do programa no qual sua mensagem vai inserida. Em qualquer lugar do mundo um ponto de audiência num programa de qualidade vale mais do que o mesmo ponto num outro de conteúdo apelativo.

O próprio conceito de ‘rede de TV’ pressupõe um acordo de afiliação entre a geradora da programação e as emissoras pelo Brasil afora, que permita compatibilizar as necessidades de mercados tão diversos quanto Santarém e São Paulo ou Rio de Janeiro e Bagé.

O modelo que rege a relação entre a TV Globo e suas afiliadas é fruto de mais de 30 anos de experiência nos quais ele foi calibrado, não sem alguns solavancos, para otimizar a relação e acompanhar as imensas mudanças havidas ao longo destes anos na matriz de origem e destino das verbas de propaganda no país. É fácil comparar a cobertura das emissoras da Globo com a da concorrência e verificar a inteligência comercial que orientou a divisão do Brasil em mais de uma centena de geradoras de programas e de comerciais locais e regionais.

Esta relação precisa garantir a participação das emissoras, por exemplo, no jornalismo nacional mas, principalmente, assegurar a exibição correta dos comerciais vendidos pelas equipes da cabeça-de-rede nos horários estabelecidos pelas agências de propaganda com a qualidade e foco regional exigidos pelo sofisticado mercado publicitário brasileiro. Essas equipes espalhadas pelos principais mercados originadores de verbas publicitária no Brasil, precisam ter a certeza de que os produtos que estão sendo oferecidos ao mercado anunciante sejam exibidos nas datas e horários planejados pelas agências, e nos programas antecipadamente programados. O planejamento de mídia é atividade cada vez mais técnica e sofisticada e merece o devido respeito por parte do veículo de comunicação. Respeito significa um pesado investimento na chamada ‘operação comercial’ e um entendimento entre as áreas de programação e comercialização de uma rede de TV.

Por outro lado é preciso municiar as agências e os departamentos de marketing dos grandes anunciantes com uma quantidade imensa de dados sobre que público estará assistindo a cada programa veiculado de modo a possibilitar a otimização do investimento do anunciante. É preciso construir uma relação correta com as agências de propaganda que são, de uma certa maneira, revendedores do espaço comercial dos veículos e como tal devem ser tratadas comercialmente.

A contrapartida de todo este processo (informação correta, relação com as agências e anunciantes, segurança e facilidade da ‘operação comercial’, adequada cobertura regional, cumprimento dos mapas de programação dos anúncios) é uma preferência por parte das agências e anunciantes que se traduz em uma participação comercial maior do que a participação na audiência.

O fato é que não se consegue atingir este nível de sofisticação sem que por trás das atrações apresentadas no vídeo haja uma empresa que, desvinculada totalmente do glamour televisivo, se dedique com seriedade ao business que permite que se faça o show. E é isso que os eventuais parceiros estrangeiros ainda não encontraram no Brasil. Ou melhor, encontraram sim, na MTV.

A abertura do mercado de TV para grupos estrangeiros só terá o efeito desejado – que suponho ser o fortalecimento dos grupos de mídia brasileiros – se os empresários do ramo esquecerem os tempos das empresas familiares onde as decisões eram tomadas pela simples vontade dos donos sem uma avaliação sobre as conseqüências sobre o business como um todo.

Caso contrário a nova legislação fará com que uma única rede de TV possa acolher um sócio estrangeiro: a própria Globo.

Enquanto isto a concorrência continuará a se perguntar as razões pelas quais 80% das verbas publicitárias se destinam à Globo e a lamentar o fato de Warner, ABC/Disney etc... não conseguirem enxergar o imenso potencial do mercado brasileiro."

"A TV brasileira e os investidores estrangeiros", copyright Tela Viva, setembro/99

 

Edylita Falgetano e Beto Costa

"Mesmo que a emenda constitucional que permite a participação de capital estrangeiro nas redes de televisão não seja aprovada, as emissoras têm caminhos alternativos para injetar dinheiro na programação.

Nos últimos tempos, a Rede Globo tem publicado nos jornais de grande circulação uma lista dos programas campeões de audiência. A grande maioria faz parte da grade global e a mensagem tenta soar como um recado: ‘quem manda na audiência, ao contrário do que andam falando por aí, ainda é a Globo’. Não é só. A emissora foi até a concorrência e contratou quase numa tacada só quatro puxadores de audiência: Ana Maria Braga, Jô Soares, Serginho Groissman e Luciano Huck.

Os entendidos no assunto dizem que para crescer nos números do Ibope é preciso investir em conteúdo, em programação, o que pode requerer pesados investimentos em talento e estrutura. É aí que começa um dos problema para as emissoras que desejam alçar vôos mais altos: onde buscar o ouro?

A aprovação da emenda que permite aos investidores estrangeiros entrar no negócio de TV no Brasil é vista como um alento por alguns broadcasters nacionais. Porém, apesar de a legislação vigente não permitir que as redes abram seu capital ao investidor estrangeiro, não faz nenhuma restrição às parcerias com produtoras/estúdios não-brasileiros. O consultor Antonio Athayde, ex-executivo da Globo e atualmente prestando serviços para a Bandeirantes (leia artigo a seguir) avalia que ‘não adianta ter high definition se não tem produto. Vale muito mais investir em formato do que em estúdio. Os estrangeiros não vão chegar aqui para montar estrutura’.

A receita centralizadora da Globo é um caso raro no mundo. Nos Estados Unidos, há décadas o modelo é terceirizar. Mas a vice-líder de audiência foi enfeitiçada pelo canto da sereia. O SBT já chegou a acreditar que investir numa megaprodutora seria o caminho. Tanto que desembolsou cerca de US$ 150 milhões para construir o Complexo Anhangüera, boa parte deste dinheiro para criar a infra-estrutura para teledramaturgia. E agora produz ou compra programação no exterior.

A emissora que mais aumentou sua participação na audiência nos últimos anos vislumbra a entrada de dinheiro sem necessitar abrir seu capital à participação estrangeira. O superintendente da Record, Dermeval Gonçalves, fala displicentemente quando o assunto é a emenda constitucional do deputado Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP). ‘Para nós é indiferente. Com o dinheiro interno dá para tocar o nosso projeto. Se vier a ser aprovada, nós vamos estudar onde é que se encaixa. Nós estamos lutando muito mais para aprovar a emenda que permite que entidades sem fins lucrativos sejam donas de emissoras.’ A bancada evangélica na Câmara, onde se encaixam os interesses da Record, controla cerca de 60 votos.

O problema da Record é muito menos financiar a produção e muito mais ampliar sua cobertura nacional. E, a emenda do ex-deputado federal Laprovita Viera (hoje deputado estadual pelo Rio de Janeiro), cairia como uma luva para os interesses expansionistas da emissora, pois a Igreja Universal do Reino de Deus poderia usar o dinheiro arrecadado junto ao seu rebanho para comprar emissoras de rádio e TV. Embora este expediente já venha sendo utilizado, ele agora é objeto de investigação por parte da Justiça.

Como não existe qualquer impedimento a parcerias com estrangeiros para a produção de programas, há quase dez anos o Grupo Abril associou-se à Viacom para colocar no ar o canal Music Television, ou simplesmente MTV. A empresa norte-americana é sócia da brasileira para a produção da programação nacional da emissora. O Grupo Abril, concessionário do canal de TV, compra o produto gerado pela sua associação com a Viacom. Sem ferir a legislação, conseguiram assim viabilizar (com qualidade) o conteúdo da grade veiculada com a ajuda de capital estrangeiro.

Capitalização

O vice-presidente da Bandeirantes, Paulo Saad Jafet, diz que não foi uma estratégia pensada, mas a emissora tem se fortalecido através de parceiros que tem um pé no exterior.

A Interativa é a responsável pela climatização dos roteiros e produção das duas sitcoms - ‘Guerra dos Pintos’ e ‘Santo de casa’ - exibidas aos domingos na Band. A produtora é resultado de uma joint-venture em partes iguais entre a PRH-9 e a Columbia TriStar (dona dos canais Sony e AXN).

A Columbia já tem dado mostras de que pretende expandir o negócio de exportar formatos, principalmente para a América Latina. E a PRH-9 está em plena pilotagem de um ambicioso projeto de capitalização. Desde abril colocou R$ 100 milhões em debêntures no mercado. Espera ver a cor do dinheiro até o final deste ano. ‘Depois de capitalizados, nós podemos assumir toda a programação de entretenimento da Band. Aí nós podemos continuar desenvolvendo parcerias com a Columbia, mas nada impede que fechemos contratos com a Fox, por exemplo’, afirma o diretor presidente da PRH-9, Márcio Maita. O executivo acredita que falta dinheiro para investir em produção e que a parceria com produtoras estrangeiras pode ser um bom caminho para as redes brasileiras. O próximo passo da Interativa na Band deve ser a produção de um game show.

Paulo Saad diz que é uma tradição na casa o esquema de parcerias. Lembra do consórcio Luck, que foi bolado com Luciano do Valle há dez anos para tocar a produção esportiva. O modelo foi renovado no final do ano passado com entrada da empresa de marketing esportivo Traffic, que controla a produção do esporte. Recentemente a Band foi beneficiada indiretamente com a entrada de um investidor estrangeiro na empresa de J. Háwilla, que também atua na área de comercialização de direitos de transmissão. O fundo de investimentos Hicks, Muse, Tate & Furst (HMTF) adquiriu 49% da Traffic’.

Os programas esportivos da Band co-produzidos com a Traffic são os de melhor performance de audiência, na comparação com outros da grade da casa. A emissora detém a exclusividade dos direitos sobre a Copa Mercosul - evento criado pela Traffic -, por exemplo, e em alguns jogos chegou a alcançar o primeiro lugar na audiência. ‘Nós não temos nenhuma relação com a HMTF, mas é importante ver que um parceiro nosso, a Traffic, está se capitalizando’, atesta Saad. A injeção de dinheiro por vias indiretas é vista com bons olhos, mas ele acredita que melhor seria se a atual legislação fosse revista a ponto de permitir a entrada de acionistas, podendo eles serem brasileiros ou não. ‘O sistema capitalista ainda não chegou à TV no Brasil. A melhor maneira de captar recursos é pelo mercado de capitais. A questão é abrir para a participação acionária, porque aí seu parceiro ganha os dividendos também. Toda a indústria norte-americana foi criada via mercado de capitais’, defende Saad.

Ao vento

As seguidas mudanças de comando no SBT fizeram com que o projeto de produção de dramaturgia tivesse desvios de rota. Desde que a fábrica de novelas começou a funcionar, há três anos, sete títulos foram gravados. Apenas ‘Éramos seis’ teve significativo retorno de audiência, atingindo a média de 16 pontos. Há exatamente um ano, o então diretor executivo de teledramaturgia do SBT, Daniel Scherer, disse à Tela Viva que ‘não haveria mais interrupções na gravação de novelas’. Não foi bem isto que ocorreu.

Depois disto, Eduardo Lafon tornou-se o superintendente artístico e o discurso mudou. ‘Nós estamos estudando propostas das produtoras e a nossa intenção é terceirizar a linha de shows e a produção de novelas’, afirma Lafon. Ele estima que com a terceirização a queda nos custos de produção seja da ordem de 30%. Hoje, menos de 10% da grade do SBT é terceirizada.

Mas dos três contratos de co-produção, dois são com estrangeiros. ‘Chiquititas’ é feito num esquema de co-produção com a Telefé, a rede líder de audiência na Argentina. ‘Num primeiro momento, avaliou-se que seria mais barato levar um elenco brasileiro para produzir lá. Mas com a alta do dólar nós estamos pensando em rever isto’, explica Lafon. O contrato com a Telefé dura mais um ano e os custos de produção ainda são bem compensadores graças ao bom desempenho da venda de discos e produtos licenciados com a marca ‘Chiquititas’, dinheiro que é abatido do custo final de produção. Lafon prefere não revelar os números exatos. SBT/Disney é outra parceria com o capital estrangeiro. O ‘Disney Club’ foi desenvolvido especialmente para o Brasil. A equipe de produção é da Disney, que cria e produz o programa no SBT. Agora, resta saber se a tendência de terceirização não vai transformar a produtora do SBT num elefante branco. Lafon garante que dos oito estúdios, apenas um não vem sendo utilizado regularmente. ‘Recentemente ele foi locado para uma produtora de comerciais. O programa ‘Xuxa nas Américas’, para a Telefé, também foi gravado aqui’, conta Lafon.

A Record não tem parceria com produtoras estrangeiras, embora seja crescente a terceirização na grade de programação. A JPO, produtora do diretor de programação da Record, José Paulo Vallone, produz hoje a novela ‘Louca paixão’ e o programa ‘Fábio Jr.’."

"Programação capitalizada", copyright Tela Viva, setembro/99

xxx

"A Globo é evasiva quando o assunto é a participação estrangeira nas empresas de radiodifusão. Ao contrário das outras empresas que compõem a Glopopar, holding da família Marinho que tem uma dívida declarada de US$ 2 bilhões, os negócios em TV aberta vão muito bem. Tanto que a Rede Globo vive sendo usada como aval de novos financiamentos para as outras empresas e segue a passo largos seu projeto de centralização da produção.

Com investimento estimado de US$ 250 milhões até o final deste ano, a Globo cria sua trincheira de produção no Projac (Projeto Jacarepaguá). O feudo televisivo, que pretende oferecer todas as possibilidades imagináveis para que seja desnecessário buscar soluções no mercado, conta com cinco estúdios de mil metros quadrados cada um (sendo que um deles pode ser transformado em teatro para shows). Um sexto estúdio em construção e um complexo de pós-produção compõem a megaprodutora que pretende na virada do século centralizar toda a produção da grade de entretenimento da emissora e ainda prestar serviço para Globo Filmes, por exemplo.

Além do próprio consumo, a Globo fatura com a exportação de suas produções. No ano passado entraram no caixa US$ 30 milhões só com novelas exportadas. Em 99, estima-se chegar aos US$ 32 milhões. Os episódios dublados do ‘Você decide’ ou apenas o formato do programa são vendidos para 40 países. Isso sem contar com as vendas da Globo TV News Agency, que comercializa o material jornalístico da casa para todo o mundo."

"Made in Brazil", copyright Tela Viva, setembro/99

 

MACAQUITOS
Marcos de Castro

"Conheço uma moça que foi a Genebra e voltou de Genève. O leitor há de pensar que se trata de uma brincadeira. Pois posso garantir que nunca falei mais sério em minha vida. A moça era repórter e seu veículo de comunicação a mandara a Genebra para determinada cobertura. Conversamos algumas vezes sobre as perspectivas da viagem, e nunca a ouvi tratar a cidade suíça de outro modo a não ser como Genebra. Pois na volta, despudoradamente, ela só falava em Genève pra cá, Genève pra lá. Descobrira, deslumbrada, ao chegar a Genebra, que o ‘verdadeiro’ nome da cidade era Genève. Nunca lhe ocorreu que o verdadeiro nome da cidade, em português, é Genebra. É a tal atitude, precisamente, que se dá o nome de macaquice.

Nossos meios de comunicação andam mais macaquitos do que nunca. Agem da mesmíssima forma colonizada que a moça de ‘Genève’ quando dizem, por exemplo, Taiwan em vez de Formosa, para a ilha que já pertenceu à China e, parece, voltará a ser da China em um dia não muito distante. Em 1949, Chiang Kai-shek, fugindo do vitorioso Mao Tsé-tung, que transformara a China em um país comunista, instalou-se em Formosa. Leia quem quiser todos os jornais da época. Não há uma única referência em nenhum deles a Taiwan. Chiang fugira mesmo para Formosa, que é como dizemos os lusófonos desde o século XVI, quando portugueses andaram por lá e deram tal nome à ilha. Em 1968, também em missão jornalística, parti para Formosa. Viajei pela revista Realidade – Deus a tenha no bom lugar que merece –, para entrevistar Chiang Kai-shek, às vésperas de completar 20 anos em Formosa, que ele transformara num estado policial, sob a bênção da 7ª Esquadra americana.

Tal como a moça de Genève, quando parti eu ignorava totalmente o nome Taiwan: decorridos 20 anos de Revolução Chinesa, ninguém no Brasil escrevia ou dizia Taiwan. Acontece que nos anos 80 Formosa se transformou num dos Tigres Asiáticos e o país começou a aparecer nos noticiários de economia americanos. Os macaquitos nem precisaram ir a Formosa como aquela moça foi a Genebra. Foram – vivem indo – metaforicamente aos States e jogaram a forma vernácula no lixo. Taiwan, em uso corrente na maioria dos meios de comunicação no Brasil de hoje, é uma forma rigorosamente macaqueada: só foi introduzida aqui porque os americanos a usam. Não querem os macaquitos sequer ter o trabalho de fazer a transliteração para o português (Tai-uã, ou Taiuã). Vai a transcrição inglesa mesmo, que o que interessa é imitar os americanos.

Tudo isso vem a propósito de um projeto de lei apresentado na Câmara pelo deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP) que pretende, com carradas de razão, dar um pouco de ordem ao caos que os macaquitos instauraram por aqui, caos cujo ponto de partida está precisamente na imprensa (os mesmos macaquitos que se irritam quando os jornais argentinos nos dão tal tratamento) – e que começa pelos nomes próprios, personativos ou, como os que citamos, de lugares ou da geografia política.

O projeto pode ser um bom ponto de partida, corrigidos alguns erros, como tratar Antônio Geraldo da Cunha, autor de um excelente dicionário etimológico (Nova Fronteira), de Antônio Carneiro da Cunha, ou como atropelar a tradição e dar força à macaquice – que explicitamente deseja combater – ao perguntar se devemos usar Formosa ou Taiwan, Nova Iorque ou Nova York (Nova York é apenas uma bobagem, um hibridismo que nos obrigaria, por coerência, a usar Nova Zealand ou Nova England: todos os dicionários de língua portuguesa, sem exceção, consagram a forma Nova Iorque, no verbete ‘nova-iorquino’). Ou ainda como perguntar se é boa a norma que manda respeitar a tradição onomástica portuguesa e aplicar a ortografia oficial no registro civil, e escrever Luís e não Luiz, Viana e não Vianna. Há uma contradição implícita em perguntar se é boa a norma que manda ‘respeitar a tradição onomástica portuguesa’. Depois, Luiz não existe, nem Vianna, a não ser como produtos equivocados da época da balbúrdia ortográfica. Mas no geral o projeto é bom, muito bom, e altamente louvável.

Resta entretanto saber se no Brasil se vai respeitar uma lei que pretende atingir todo o círculo de propaganda (praia onde se fala e se escreve o mais colonizado portinglês) e venda de bens e serviços da embalagem à garantia, placas, anúncios ou inscrições afixados em lugares públicos, etc, a exemplo de sua similar francesa, a Lei Toubon, de 4/8/1994. Isso é complicado, num país em que o Ministério das Relações Exteriores desrespeita um acordo internacional (consubstanciado no Formulário Ortográfico de 1943) ao grafar Itamarati tendo na sílaba final um y, letra que não consta do alfabeto de língua portuguesa. Em que o Ministério da Educação permite o escárnio de grafias vitandas até nos nomes das escolas. E em que, afinal, a Academia Brasileira, guardiã oficial do idioma, acaba de incluir – valha-nos a doce Senhora dos Aflitos – centenas de tolices entre as palavras que entraram na nova edição do nosso Vocabulário Ortográfico. (Jornalista, autor de A imprensa e o caos na ortografia (Record, 2ª edição, 1999)"

"Uma lei para o idioma", copyright Jornal do Brasil, 19/10/99

NÚMERO-NOTÍCIA
The Economist

"Algumas pessoas levam os números muito a sério. Na verdade, nós fazemos isso. Desde agosto de 1843, quando nosso primeiro editor prometeu aos leitores ‘estatísticas da semana’, nossos artigos têm sido povoados de números. Outro editor, nos anos cinqüenta, inventou a palavra ‘numeracidade’ para descrever uma qualidade que ele mesmo determinou. Mas ‘numeracidade’ não é nada sem precisão – e nós, como todos os outros jornalistas, não estamos imunes à imprecisão. Leitores sábios, até mesmo do The Economist, não devem nunca se esquecer que existem mentiras abomináveis nas estatísticas, e dentre as mais demoníacas estão aquelas relacionadas a desastres, sejam naturais ou cometidos pelo homem.

Leitores britânicos talvez precisem refrescar suas memórias. Eles acabaram de passar por uma semana na qual os jornais cobriram um terrível acidente de trens. O número de mortos crescia minuto a minuto, e dois dias depois do acidente ‘pelo menos cem’ estariam mortos, de acordo com um tablóide, e ‘poderia ser até mais, algo em torno de 170’. O Times calculou que 70 teriam sido mortos e outros cem não teriam sido encontrados. Sem espanto, para o Sun foi ‘o pior desastre em tempos de paz’. Nós mesmos afirmamos que ‘pelo menos 70’ tinham morrido. Na verdade, uma semana depois do acidente, os números de mortos girava em torno de 35 – fato que poucos jornais divulgaram com o destaque dado ao assunto alguns dias antes.

Em abril, nós divulgamos números do Departamento de Estado norte-americano que afirmavam que 100 mil pessoas foram mortas em Kosovo. Nós fomos céticos, mas no fim da guerra, em junho, engolimos os dados e, acolchoando-os com um ‘talvez’, demos o número de 100 mil kosovares mortos nas mãos dos sérvios. Hoje poucas autoridades colocam seus números acima de 10 mil.

Uma redução parecida está acontecendo em Timor Leste, onde mortes em massa foram amplamente divulgadas. A violência certamente aconteceu, mas os números de mortos foi um pouco exagerado. Um porta-voz das Nações Unidas disse que ‘escutamos coisas terríveis, mas de muitas delas nós não temos nem um traço de evidência. Nós não acreditamos que milhares de pessoas foram mortas e seus corpos queimados e lançados no mar’.

Continue adiante e multiplique

No meio da guerra ou em catástrofes durante tempos de paz, é certamente impossível saber precisamente quantas pessoas morreram ou se machucaram, ainda que os leitores desejem uma estimativa. Assim a palavra ‘talvez’ não é sempre tão equivocada. Jornalistas raramente reduzem suas estimativas conforme o tempo passa. Os primeiros números – ‘chegou a cem’ – logo se tornam ‘por volta de cem’, e então ‘pelo menos cem’ e freqüentemente ‘talvez mil’. Jornalistas querem promover suas histórias e editores seus jornais. Em 24 de agosto os números oficiais de mortos pelo terremoto da Turquia era preciso: 17.997. Um dia depois, esse número caiu para outro tanto também bastante preciso: 12.514.

Isso aponta algumas regras que jornalistas deveriam seguir, como: tratar os diferentes interesses em jogo com suspeita; deixar claro que o número é apenas uma estimativa; e se você descobre-se errando, assuma. Mas os leitores deveriam também ficar atentos para a falta de precisão, presunção e a tendência de muitos jornalistas de exagerar. Quando o assunto é matar pessoas, o poder da imprensa mostra que uma caneta é realmente mais poderosa do que uma espada."

"Arrogância e insulto", copyright The Economist, 16/10/99

 

HÓSTIA & CANÇÃO
Folha de S.Paulo

"A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) criticou ontem a ênfase dos ‘grandes conglomerados da mídia nacional’ à cobertura do ‘espetáculo emocional do novo catolicismo’. Na opinião dos bispos, esse interesse da mídia ‘não é gratuito’ e pode estar a serviço do esquecimento ‘dos grandes problemas nacionais’. O documento da CNBB refere-se ao noticiário e às análises feitas na mídia desde domingo retrasado, quando duas grandes festas católicas, em comemoração do Dia de Nossa Senhora Aparecida, juntaram mais de 320 mil pessoas.

Em Aparecida (SP), segundo a PM, estiveram 167 mil fiéis. No estádio do Maracanã, no Rio, outros 161,7 mil fiéis. O evento do Maracanã foi animado pelo chamados ‘padres cantores’, liderados pelo padre Marcelo Rossi. A crítica da CNBB está na análise da conjuntura nacional divulgada ontem, em Brasília, no encerramento da reunião da Comissão Episcopal de Pastoral. Na opinião da CNBB, a mídia teria cometido o mesmo erro, nos anos 60 e 70, período do regime militar, ao ser ‘omissa’ na divulgação do trabalho da Igreja Católica, que ‘se empenhava em falar como a voz dos sem-voz’. Nos anos 90, dizem os bispos, a mídia estaria ‘exaltando o que lhe convém’ para a ‘manutenção do pensamento hegemônico’. Traduzindo: na visão da CNBB, as manifestações emocionais aparecem na mídia, de forma equivocada, como a essência do trabalho da Igreja Católica. A imprensa faria isso para ‘adiar mudanças e críticas’ ao que os bispos chamaram de ‘globalização equivocada, concentradora de riqueza, incrementadora de pobreza e exclusão e destruidora de valores éticos mais permanentes’.

A CNBB admite, no entanto, que as manifestações de massa dos católicos, puxadas pela Renovação Carismática, provocam ‘evidente inquietação entre especialistas em religião e pastoral sobre esses novos fenômenos’. A CNBB analisou também o ‘desprezo’ da ‘política’ e do ‘pensamento hegemônico veiculado constantemente pela mídia’ por ‘toda e qualquer iniciativa de mobilização popular’. A entidade cita a marcha dos sem-terra do Rio a Brasília, no início do mês. A meta nunca foi, dizem os bispos, reunir ‘uma grande multidão na Esplanada dos Ministérios’.

A CNBB anunciou ontem que a campanha da fraternidade do ano 2000 será ecumênica e terá como tema "A Dignidade Humana e a Paz Hoje – Um Milênio sem Exclusões".

"CNBB critica ênfase a ‘padres cantores’", copyright Folha de S.Paulo, 29/10/99

Nelson de Sá

"No dia 12, Boris Casoy deu manchete para a festa de Nossa Senhora Aparecida, falando até em ‘padroeira do Brasil ‘. E era a Record, a emissora da Igreja Universal. Casoy e seu Jornal da Record se esforçam visivelmente para cobrir tanto católicos quanto evangélicos. Não se espere o mesmo da Globo.

A emissora, de duas semanas para cá, foi tomada pela Igreja Católica. Talvez o causa tenha sido a transmissão, pela Band, da missa do próprio dia 12, no Maracanã. Seja por que for, o que mais se vê agora nos telejornais da Globo é bispo e padre. Mais do que na Record, percebe-se uma sinergia entre a emissora e a Igreja Católica.

Além da presença dominical do cardeal-arcebispo do Rio, d. Eugênio Sales, vê-se muito o arcebispo de São Paulo, d. Cláudio Hummes. Ontem, uma vez mais, vários dos registros sobre a Febem se concentraram nele, em suas sugestões. Não adiantou Mário Covas resistir: – A gente tem colaboração não só da Igreja Católica, mas de outras profissões.

As outras não interessam. Ontem, assim, foi o dia de São Judas Tadeu, com entradas ao vivo de diversas capitais, com locuções como: – Milhares de fiéis lotam as igrejas... Aqui, 120 mil estão sendo esperados... A igreja está lotada... Lá fora, a fila de fiéis tem três quarteirões.

Nada indica que o tom vá mudar, agora que vem aí o Dia de Finados.

Ontem mesmo, lá estava o âncora Chico Pinheiro com o padre Marcelo – que participa hoje do SPTV, à tarde. O que estão divulgando é o acordo para a transmissão da missa de Finados, do tal Santuário do Terço Bizantino. Ao lado do padre, na missa ao vivo, estará ninguém menos do que o ‘rei ‘ Roberto Carlos, contratado da Globo."

"Igreja Global", copyright Folha de S.Paulo, 29/10/99

 

VIOLÊNCIA
Soninha

"1 – O Tom Zé deu uma entrevista em que dizia que ficar mostrando e falando de arma o tempo todo não é campanha contra a violência, é a favor. Assim na terra como no futebol... As ‘imagens terríveis da barbárie que aconteceu no estádio no último fim-de-semana’ são repetidas dezenas de vezes na TV, na melhor das hipóteses, para alertar contra esse comportamento imbecil, chamar autoridades policiais à responsabilidade, conscientizar dirigentes esportivos para a necessidade de medidas drásticas etc. Mas não sei se as imagens de pancadaria não despertam o tesão da violência em quem já curte pancadaria. Não sou besta de dizer que as multidões saem na porrada porque a televisão mostra porrada, mas, que do caldo da violência faz parte esse tempero televisionado, faz. Na semana passada um torcedor do Santos invadiu o campo para bater nos jogadores do seu (?) time. Antes que atingisse o primeiro deles, jogadores do Juventude o seguraram, sem violência. Acho que essa sim era imagem para repetir em câmera lenta mil vezes, porque comove e contagia.

2 – Até parece que declarar extintas as torcidas organizadas pode fazer com que agrupamentos violentos deixem de existir. Não se trata de legalizar alguma coisa só porque já existe, mas porque, em essência, não há nada de errado no fato de pessoas se organizarem em torno de um interesse comum.

As organizadas têm seus gritos e coreografias, suas marcas e bandeiras que estremecem os estádios e arrepiam a espinha dos demais espectadores, e que as torcidas ‘desorganizadas’ não conseguem reproduzir com o mesmo volume. Estive em um jogo em que garotos lançavam balões com as cores do clube para toda a arquibancada, para cada um ali encher o seu e comemorar a vitória.

Um gesto bobo e lindo, que foi planejado por um grupo de pessoas ‘organizadas’ antes de chegar ao estádio. Claro que ‘Dar porrada em gavião’ ou ‘O pau vai quebrar’ não são canções estimulantes, mas quem disse que é possível evitar esse grito na arquibancada pela força da lei?

A torcida organizada deveria ser cadastrada, convocada à ação, controlada muito de perto. Por mais ridículo que possa parecer, o respeito que ela impõe pode ser muito útil. Pode ser um desastre se mal exercido, mas qualquer um faz bobagem quando se atribui uma autoridade que não tem. Se a organizada for responsabilizada e punida --seriamente, sem embromação-- por qualquer ato indevido de um dos seus integrantes, vai ter interesse em evitar que alguma merda aconteça.

E se for acompanhada de perto fora do período dos jogos pode aproveitar toda essa energia varonil e esse tempo livre para, de fato, promover as ações sociais que elas têm alegado para continuar existindo. ‘Bora lá organizar campeonato na favela, fazer mutirão na periferia, promover festivais de música, cursos profissionalizantes e o escambau.’ Melhor que proibir e fingir que acabou, né não?

3 – Todo mundo comemorou a decisão do governo de impedir que uma mesma instituição se associe a mais de uma entidade esportiva, porque, do contrário, poderia haver manipulação dos resultados por causa dos interesses dessas instituições. Bom, para que um resultado seja manipulado, alguém deve ser corrompido. Se nós admitimos que pode haver manipulação de resultados, corrupção, tráfico de interesses via poder econômico, o simples fato de um time ter um patrocinador ‘forte’ e o outro não nos sujeita a esse mesmo risco?

"Pancadaria na TV pode estimular violência", copyright Folha de S.Paulo, 28/10/99

 

MÍDIA SIM-SINHÔ
Renata Lo Prete

"O assunto está nos jornais desde maio passado. Na Folha, foram sete as reportagens sobre a pirâmide de 108 andares que o empresário Mario Garnero, associado a um fundo internacional de investimentos imobiliários, pretende construir no centro de São Paulo.
Das sete, apenas uma abriu espaço para a avaliação de arquitetos e urbanistas que fazem restrições à obra.

Das sete, nenhuma assumiu mais claramente sua defesa do que a publicada no domingo passado sob o título ‘Projeto do megaprédio chega à Câmara’. Ocupando página inteira, a reportagem se alimentava de uma única fonte: o próprio Garnero. Alternava a palavra do presidente do grupo Brasilinvest e uma profusão de números sobre o edifício ‘mais alto do mundo’ (custo, serviços que promete oferecer, quantos empregos ‘vai’ gerar etc.)

O engajamento do texto não poderia ser maior. ‘Por acreditar na rápida aprovação do projeto, Garnero prevê o lançamento da pedra fundamental para 25 de janeiro de 2000’, relatava a Folha. ‘Segundo ele, os vereadores ‘não deixarão essa oportunidade escapar das mãos de São Paulo’’ (de fato, os vereadores não são de deixar escapar oportunidades, ainda que não exatamente para a cidade).

No pé da página, o jornal reconhecia que o Maharishi São Paulo Tower ‘divide opiniões’. O embrião pluralista era abortado no parágrafo seguinte, que passava a enumerar ‘apoios importantes’, como os de Oscar Niemeyer e da associação Viva Centro.

Em seguida, Garnero abria fogo contra o ‘nacionalismo tupiniquim’ dos que se opõem à construção do complexo. Um leitor perguntou à ombudsman: ‘Será que a Folha não poderia ao menos citar os argumentos dos críticos?’. É essa a deficiência da cobertura que o jornal vem fazendo.

Em artigo na revista ‘Carta Capital’, Nicolau Sevcenko escreveu que a obra, ao devastar algumas dezenas de quarteirões da região próxima ao Palácio das Indústrias, atingirá ‘o oposto do que se pretende’. Segundo o historiador, o prédio ‘foi oferecido a outras praças, e recusado por sua óbvia natureza agressiva a qualquer estrutura urbana’.

Na quarta-feira passada, a rádio CBN promoveu seu segundo debate sobre o assunto. Ali foram ouvidas avaliações semelhantes à de Sevcenko e outras de pessoas que enxergam no empreendimento potencial para recuperar uma área deteriorada. Enquanto isso, a reportagem da Folha tratou o Maharishi São Paulo Tower como ponto pacífico. Seu conteúdo é semelhante ao do informe publicitário que vem sendo apresentado por Garnero no rádio.

O jornal está devendo informação de qualidade e diversidade de opiniões, instrumentos para que o leitor possa decidir o que pensa da iniciativa. A distância entre o que a Folha ofereceu até agora e o espírito crítico defendido em seu projeto editorial é tão grande quanto a que separa o chão do topo da pirâmide de Garnero."

"Megapromoção", copyright Folha de S. Paulo, 24/10/99

 

REPRESSÃO
Robert Fisk

The Independent

"A prisão de três jornalistas no Egito trouxe à tona a questão da liberdade de imprensa no país. Magd Hussein e outros dois colegas de trabalho do jornal de oposição ‘Al Shaab’ foram presos por criticar o ministro da Agricultura, Iussef Wali.

Hussein foi condenado a dois anos de prisão e a pagar multa de US$ 18 mil, soma considerável em um dos países mais pobres do mundo árabe. Ele está há dois meses na penitenciária de Tora.

Foi preso depois que acusou Iussef Wali de ser um ‘traidor’ do país. Wali assinou acordos com Israel para o fornecimento de sementes e tecnologia agrícola para impedir a desertificação. No tribunal, o juiz disse que as alegações do jornal não tinham ‘nada a ver com a liberdade para criticar’ e que ‘eles encheram suas canetas com ódio em vez de tinta’. O sindicato dos jornalistas fez uma campanha para que eles recebessem um tratamento melhor na prisão e solicitou a suspensão da sentença.

Esse não é o primeiro atrito de Hussein com a lei. Ele foi preso e seu jornal banido por causa de acusações contra o ministro do interior, Hassan Alfi, em 1997 – uma história que envolveu um suposto não-pagamento de uma conta de restaurante por um membro da família de Alfi no novo Cairo Trade Centre. O ‘Al Shaab’, que é ligado ao Partido Liberal Muçulmano, irritou o governo ao publicar mais artigos sobre Alfi durante as audiências.

O jornalismo egípcio não possui padrões exigentes. Histórias não confirmadas de escândalos envolvendo outro ex-ministro e uma dançarina de um clube noturno do Cairo têm encontrado seu espaço na imprensa egípcia regularmente. Mas a liberdade de imprensa está sendo corroída lentamente.

Negad Borai, do Grupo para o Desenvolvimento Democrático, não tem dúvidas de como a pressão á aplicada nos jornalistas. ‘Se você quer abrir um jornal neste país, precisa de um título antigo para obter uma licença do governo’, explica. Não há títulos velhos disponíveis. Então, se você esta preparado para se comportar como um rato, eles deixam você abrir um jornal com uma licença de outro país – de Chipre, por exemplo. No momento em que você critica o governo, eles dizem que seu jornal não tem licença egípcia e que por isso é ilegal’.

Ibrahim Issa descobriu isso sozinho. Ele decidiu abrir um jornal chamado ‘Al Dastour’ (A Constituição) e usou uma licença de Chipre. Começou então a criticar o governo por reprimir a liberdade de expressão e por corrupção.

Seu jornal foi imediatamente declarado ‘ilegal’ e fechado. Quando Adel Hammouda, ex-editor-chefe do diário ‘Rose el Youssef’, escreveu um artigo defendendo Issa, recomendando ao presidente Mubarak que combata a corrupção no governo, ele foi gentilmente removido de seu jornal para escrever no jornal pró-governo ‘Al Ahram’."

"Egito limita atuação de jornalistas", copyright Folha de S. Paulo, 24/10/99

 

TELEVISÃO
N. S.

"Depois de três décadas, o Jornal Nacional, afinal, tem um âncora. Já tem uma semana que ele é editor-chefe e apresentador, o que faz a definição costumeira do ‘anchorman’. William Bonner, diz a Globo na Internet, ‘é paulistano e são-paulino... Formou-se pela USP’. São numerosos os seus ex-colegas na atual geração do jornalismo paulista. Na escola, relatam, ele não era dos mais politizados. Mas já ninguém era.

Bonner vem editando o JN de um mês e meio para cá, efetivo desde sexta-feira. O que se pode dizer até aqui é que o telejornal voltou a cobrir política. E que as intervenções seguem, até mais visíveis. Por exemplo, ao suprimir qualquer menção ao ‘dragão’ da inflação, que fora notícia predominante na própria emissora o dia todo. Ou ainda, quando se divulgou o recorde de impopularidade de FHC – e só o JN não deu. Mas também se notam espasmos de crítica ao presidente, por exemplo, quando do vaivém de ataques e elogios de FHC ao Congresso.

De resto, seguem as campanhas de sempre. Ontem e já por várias semanas, o alvo vem sendo a violência. Um tema, vale dizer, muito próximo da unanimidade.

Por outro lado, vale repetir uma frase do âncora, num programa da Globo News, sobre os jornalistas:

– É da nossa natureza errar, sempre com a melhor das intenções.

E assim vamos todos para o inferno. Ao menos ele sabe."

xxx

"O leitor Antonio Kapkla questiona a coluna por criticar ‘acerbamente o jornalismo global enquanto o jornal se junta alegremente ao poderio global num projeto conjunto’. E conclui: ‘Que moral você tem para falar mal das Organizações Globo!... Mas vá em frente, viva a hipocrisia!’

Em frente, então."

"O âncora", copyright Folha de S.Paulo, 22/10/99

 

Evelyn Ellison Twitchell

The New York Times

"Na mais nova tentativa da indústria da mídia de obter uma verdadeira convergência da televisão com a Internet, a MTV planeja lançar um programa de perguntas sobre música, no qual os espectadores podem participar conectando-se ao site da MTV.

A estréia do programa, ‘Web Riot’, está marcada para o final do mês que vem, mas a MTV planeja começar a promovê-lo a partir desta segunda-feira, 25, dia em que também passará a permitir que os jogadores em potencial comecem a fazer o download do software necessário no site MTV.com.

Enquanto a MTV se prepara para a pré-estréia do programa em 29 de novembro, os executivos do setor – particularmente os anunciantes – esperam que a MTV consiga provar que a hora da convergência finalmente chegou. Mesmo que a estimativa de 44% de lares americanos com acesso à Internet ainda esteja muito abaixo dos quase 80% que têm assinatura para serviços de televisão a cabo ou via satélite que transmitem a MTV.

‘Ela poderá nos fornecer uma boa idéia das realidades da multitarefa’, disse Bill Cella, vice-diretor-executivo de televisão e programação da empresa de propaganda McCann-Erickson Worldwide.

Cerca de 23% dos lares norte-americanos têm uma televisão e um computador pessoal no mesmo cômodo, de acordo com uma pesquisa feita em 1.166 casas e divulgada em junho de 1999 pela Paul Kagan Associates, uma firma de pesquisa e consultoria de mídia. A pesquisa foi realizada em associação com a Showtime Networks.

No programa de meia hora que irá ao ar todo dia à tarde durante a semana, até 25.000 espectadores do ‘Web Riot’, assistindo à televisão e ao mesmo tempo olhando para as telas do computador pessoal, poderão jogar com quatro concorrentes no ar.

A MTV também exibirá clipes de vídeos musicais e, então, fará perguntas de múltipla escolha na televisão. Os participantes domésticos usarão os números em seu teclado de computador para registrar suas respostas.

Ao final do jogo, o programa mostrará na tela da televisão os apelidos dos dez melhores participantes online e eles ganharão prêmios.

A MTV, uma divisão da Viacom, se considera bem posicionada para testar essa abordagem da convergência por causa do perfil demográfico de seu público: pessoas de 12 a 34 anos de idade (por razões legais, a MTV está exigindo que os espectadores tenham no mínimo 13 anos de idade para jogar).

A pesquisa da MTV indica que 51% do seu público entre 12 e 24 anos tem acesso à Internet, em comparação com 43% para o público em geral nessa faixa etária, e que muitos dos espectadores de rede freqüentemente assistem ao canal a cabo enquanto estão surfando na Web.

‘Aparentemente, essas duas experiências convivem tranqüilamente em suas vidas’, disse Judy McGrath, diretora da MTV. ‘Portanto, essa é a primeira vez que vamos realmente tentar agitar essa noção e ver se é verdadeiro de uma maneira bem real.’

A MTV não é a única empresa que está tentando fazer com que a convergência funcione. Desde setembro, tentando atrair um segmento demográfico diferente, as redes ABC e ESPN da Walt Disney Company estão oferecendo a Enhanced TV (TV avançada), um complemento online à cobertura feita pelas redes dos jogos da Liga Nacional de Futebol Americano. Enquanto assiste ao jogo televisado no ESPN ou ABC, um espectador poderá também se conectar aos Web sites ESPN.com, ABC.com ou NFL.com e ver as várias formas de participação do público. Um dos recursos permite que os fãs prevejam os resultados das partidas. Eles podem comparar suas pontuações com as pontuações de outros espectadores em todo o país.

Se o ‘Web Riot’ fizer sucesso, poderá estimular outros programas de jogos na televisão a criar componentes interativos. A ABC, por exemplo, já está explorando as opções online para seu programa de perguntas de sucesso ‘Who Wants to Be a Millionaire?’ (quem quer ser um milionário?), disse Jonathan Leess, vice-diretor de televisão avançada da Buena Vista Internet Group, uma divisão de Internet da Disney. Tradução: Vera de Paula Assis"

"MTV cria programa que une TV e Internet", copyright The New York Times/Folha de S.Paulo, 25/10/99

 

INTERNET
Vladimir Goitia

"Buenos Aires – A Internet contará com cerca de 1 bilhão de usuários no fim do ano 2000, principalmente por causa do impulso que a nova geração de telefones celulares permitirá para acesso à rede mundial das comunicações, disse Nicholas Negroponte, fundador e diretor do Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Em seminário sobre a revolução tecnológica e o seus impactos e oportunidades de negócios, durante a Expo Managment 99, que está sendo realizada em Buenos Aires, Negroponte explicou para mais de 4 mil participantes que a Internet foi terrivelmente subestimada por pessoas que cometeram erros gravíssimos quanto à sua contabilização, principalmente porque consideraram apenas os que pagam o acesso.

‘As pessoas que estimaram o futuro da Internet contaram apenas os que pagam, mas isso é um equívoco’, afirmou Negroponte. De fato, acrescentou o executivo do MIT, ‘Apenas um em cada seis usuários paga o acesso à rede, mas tem de se levar em conta que o número de pessoas que usam esse acesso é bem maior’. Efusivamente aplaudido durante o seminário, Negroponte disse que a demografia do mundo digital está transformando a relação do homem de negócios com as novas tecnologias e a distribuição de produtos e serviços por meio da Internet está ocorrendo ‘à velocidade da luz’.

De acordo com ele, no fim do próximo ano, o comércio eletrônico movimentará no mundo não menos de US$ 1 bilhão, o dobro ou o triplo do que foi estimado pelos especialistas. Para ele, esse salto será provocado pela queda significativa dos preços dos computadores, pela redução dos custos das telecomunicações e pela evolução da relação das empresas com os consumidores. ‘No futuro, os preços dos PCs vão cair abaixo de US$ 50, eu arriscaria dizer que poderão ficar em até US$ 20’, afirmou. Ele disse ainda que, paradoxalmente, as telecomunicações mais caras são as piores, por isso, o custo delas terá de cair, já que a idéia é proporcionar a conexão e o uso do maior número possível de pessoas. (AE)"

"Internet terá 1 bilhão de usuários no ano 2000", copyright O Estado de S. Paulo, 30/10/99

 

ZÔO ECONÔMICO
Aloysio Biondi

"Não é exagero, não. O transatlântico do neoliberalismo está fazendo água, e seu naufrágio certamente vai se acelerar, nos próximos meses, com as turbulências na economia dos EUA e declínio do dólar como ‘moeda forte’ mundial. O mês de setembro foi pródigo em más notícias para os neoliberais, com o governo Clinton, FMI e Banco Mundial à frente. Os relatórios anuais do Banco Mundial e Unctad (organismo das Nações Unidas) demoliram os principais mitos da ‘onda neoliberal’. Eles mostraram, com estatísticas, os efeitos devastadores das teorias sobre as vantagens da abertura de mercado e redução do papel do Estado, deixando-se que as forças ‘do mercado’ resolvam tudo. Tudo o que os críticos diziam ficou comprovado com números: os países ricos foram altamente beneficiados com a expansão do comércio mundial, isto é, a invasão dos mercados dos países emergentes; e, em nível da população, tudo o que se viu foi um horrendo aumento no número de pobres e miseráveis na face do planeta Terra.

Para dissabor dos neoliberais, ficaram totalmente desmentidas, também, as previsões feitas inclusive por economistas famosos, de que os países que não seguissem os ‘conselhos’ de ‘liberalização’ dados pelo FMI estavam condenados a não receber investimentos externos, nem empréstimos internacionais, e por isso mesmo mergulhar em imensa crise. A Malásia, que desde a crise asiática do final de l997 estabeleceu controles sobre as importações e a remessa de dólares para o exterior, teve um desempenho econômico brilhante – como o próprio FMI foi obrigado a reconhecer. Mais disgusting ainda, a Índia e a China, que nunca aceitaram as propostas de ‘abertura’ e mantiveram as Importações sob controle, continuaram a apresentar altíssimas taxas de crescimento.

Fim da lavagem cerebral

O caso da China, aliás, merece um pequeno mas importante parêntesis, porque ele ajuda a entender o nível de manipulação a que o noticiário internacional está submetido para exaltar o modelo neoliberal – e, óbvio, o seu beneficiário, os EUA. Desde o ano passado, o noticiário, artigos e análises fornecidos por agências ou transcritos de publicações estrangeiras afirmavam que a China caminhava para uma grande crise.

A revista inglesa The Economist, que era (e-r-a) considerada a mais importante e respeitável publicação especializada, chegou ao cúmulo de fazer uma reportagem de capa apontando o fim da prosperidade da China, que vinha crescendo espetaculares 8 por cento ao ano, ou três a quatro vezes a taxa de crescimento dos países ricos. Pois a China cresceu 7,8 por cento em 1998, e no último trimestre expandiu-se à taxa de 7,3 por cento. Mas o desgosto dos neoliberais não parou por aí. Na mesma trajetória de Malásia, Índia, China, também a Coréia do Sul vem dando pinotes, como o crescimento de 20 por cento em sua produção industrial – e a Coréia do Sul rejeitou grande parte das imposições do FMI e banqueiros internacionais (reduziu rapidamente as taxas de juros após a crise, por exemplo).

Em resumo: o noticiário manipulado dos últimos anos previu desastres para quem não seguisse o receituário neoliberal. E exaltou a prosperidade dos EUA, como ‘prova’ das vantagens do modelo (na verdade, a prosperidade americana teve outras causas, como se verá adiante). Aconteceu o contrário. O neoliberalismo passa a enfrentar uma onda de oposição ao redor do mundo. Há chances de que ela chegue até o Brasil? Pelas mãos do governo e seus ‘pensadores’, certamente não. Mas o debate vai intensificar-se, e a sociedade finalmente ficará livre da ‘lavagem cerebral’ dos últimos anos e opinar conscientemente. Essa ‘virada’ será facilitada pela crise que finalmente começou a se manifestar claramente, a partir da segunda quinzena de outubro, para a economia americana. Com ela, enfraquece-se a posição dos dois principais cúmplices das aberrações cometidas pelo governo FHC, a pretexto de adotar o modelo neoliberal e ‘modernizar’ a economia. Isto é, o governo Clinton e o FMI.

O declínio dos EUA

A tão decantada prosperidade americana dos últimos anos se baseou em três fatores principais: queda violenta dos preços do petróleo, do qual os EUA são um grande importador; queda violenta nos preços de matérias-primas e minérios igualmente importados; e, finalmente, como arma principal, a abertura de mercados, de países desavergonhados como o Brasil, para as exportações e multinacionais dos EUA. Já no ano passado, era possível prever que 1999 marcaria o final desse ciclo (veja entrevista em Caros Amigos nº 19, outubro de 1998).

Primeiro motivo para a mudança: o aumento das exportações, para os EUA, dos países que desvalorizaram suas moedas com a crise de 1997/98 (a única exceção é o Brasil de FHC/Malan, obviamente, porque as multinacionais aqui instaladas obedecem a suas matrizes, e elas não permitem que as filiais locais exportem). Com essa disparada nas importações, os EUA passaram a enfrentar saldos negativos cada vez maiores em sua balança comercial – que saltaram da faixa dos l5 a l8 bilhões de dólares por mês para 2l bilhões de dólares em junho e, finalmente, 25 bilhões de dólares em julho e agosto.

O gigantismo desse rombo, podia-se prever, finalmente colocaria em xeque o prestígio (e o preço) artificial de que o dólar desfrutou ao longo de décadas, permitindo que os EUA comprassem mercadorias, bens e empresas/negócios em outros países simplesmente emitindo mais dólares, isto é, mero ‘papel pintado’, como dizia De Gaulle já na década de 60. Com o dólar despencando diante do iene japonês, e a alta dos preços do petróleo ameaçando ampliar ainda mais o rombo nas importações, as bolsas de valores americanas entraram em fase de maré vazante. Com a queda no mercado de ações, desaparece um dos principais motivos de euforia do consumidor norte-americano, que embarcou em uma ‘corrida às compras’ nos últimos anos, fiado nos lucros prometidos pelos papéis – e assim garantiu altos níveis de venda à indústria e ao comércio.

Os problemas do país-símbolo do marketing neoliberal se contrapõem a uma temporada de estatísticas econômicas positivas para a Europa, onde a união na área econômica e a criação do euro tiveram um significado muitíssimo mais profundo do que os meios de comunicação transmitiram à opinião pública. Juntas, as duas iniciativas podem ser consideradas como o fato histórico mais importante dos tempos recentes, capaz de influenciar o destino do planeta Terra nas próximas décadas. A união econômica européia e a criação do euro abalam o domínio (imerecido) do dólar e os planos de hegemonia absoluta dos EUA, que se valeu da gazua neoliberal para colocar de joelhos, ou de quatro, países como o Brasil.

Com todos os seus principais países governados a esta altura por partidos de esquerda, a Europa tem rejeitado os principais mandamentos da cartilha neoliberal. Pode, assim, ser considerada uma ‘aliada’ na rejeição à política econômica adotada pelo governo FHC, sob as ordens do FMI/governo Clinton. Isto não significa, porém, nenhuma garantia de que os interesses da nação brasileira estarão defendidos, se nós próprios não voltarmos a defender um projeto nacional. Basta ver o avanço dos grupos empresariais espanhóis, portugueses, italianos e, sobretudo, os franceses (ah, os amigos da Sorbonne...) para entender que a desnacionalização comprometedora do futuro não tem beneficiado apenas as multinacionais e bancos dos EUA. A crise do dólar e da economia dos EUA atrapalha os planos de transformar o Brasil em colônia americana. Mas, mon Dieu, alguém fora de Brasília quer ser colônia da Europa? Aux armes, citoyens."

"Colônia da Europa, mon Dieu?", copyright Caros Amigos, outubro

 

ZÔO ELEITORAL
Flavia Sekles

"Washington – Hillary Clinton sabia que estava pedindo encrenca com a mídia americana quando lançou sua candidatura ao Senado por Nova Iorque. Na noite de segunda-feira ela brilhou na festa de aniversário dos seus 52 anos. No superevento num teatro da Broadway lotado de celebridades, arrecadou US$ 1 milhão para a sua campanha. Mas Hillary sabe que não deve esperar só confetes. O fogo que vem por aí será pesado.

Nos próximos meses, as livrarias americanas se encherão de novas biografias da primeira-dama. O primeiro livro, com data de lançamento marcada para o mês que vem, tem na capa uma foto que faz jus ao título do livro Hell to pay: Hillary parece pronta para matar alguém, com os olhos meio fechados e a boca rígida, como quem está se preparando para dar uma bela bronca. O livro é de autoria de Barbara Olson, freqüente crítica da primeira-dama em programas de TV.

Segundo material promocional divulgado à imprensa, Olson argumenta que Hillary tem mais desejo pelo poder – no sentido mais sedutor da ambição – do que seu marido Bill Clinton. O livro também argumenta que apesar do caráter de santa que Hillary conseguiu desenvolver, ao permanecer firme ao lado do marido durante o escândalo Mônica Lewinsky, ela tem culpa em todos os outros escândalos do governo de seu marido.

Outros livros a caminho sobre Hillary incluem A escolha de Hillary, de Gail Sheehy, e A armadilha de Hillary: Procurando o poder em todos os lugares certos, de Laura Ingraham, uma advogada conservadora que usa a primeira-dama para pintar um retrato dos avanços que mulheres em geral fizeram na última década. Outra conservadora, a colunista Peggy Noonam, que escrevia os discursos de Reagan, está trabalhando em um quarto livro, chamado O caso contra Hillary Clinton, no qual argumentará que as suas ambições políticas são prova do egoísmo da geração de baby-boomers. Finalmente, Carl Berstein, o jornalista que ajudou Bob Woodward a derrubar Richard Nixon, escreve uma biografia que só será publicada depois que ela sair da Casa Branca.

Os novos livros podem acabar como todos os outros já publicados sobre Hillary: vendendo menos do que os editores esperavam. Já a primeira-dama, autora do best-seller It takes a village, no qual expõe sua visão de como comunidades devem se envolver na educação das crianças, não deixará por menos, e competirá com um lançamento cheio de belas e suculentas fotos sobre os bastidores das festas na Casa Branca."

"Hillary Clinton paga o preço da fama", copyright Jornal do Brasil, 27/10/99

 

CHECHÊNIA
Luis Matías López

El País

"Moscou – O governo russo insiste em qualificar o que ocorre na Chechênia como uma ‘operação antiterrorista’ para exterminar um grupo de ‘bandidos’ e ‘criminosos’, e fica indignado com os jornalistas que utilizam palavras como ‘invasão’, ‘guerra’, ‘milicianos’ ou ‘combatentes’. Junto à batalha militar, há outra – a da informação. Em nível interno, os russos estão ganhando. Exatamente o contrário do que acontece no estrangeiro, onde se pede que a Rússia se contenha, para limitar a mortandade e a destruição, embora se admita que é um conflito interno.

Os meios de comunicação russos, com pouquíssimas exceções, apóiam as ações militares. Nada parecido com a cobertura que a cadeia de televisão privada NTV efetuou durante a guerra anterior (1994-1996), que não escondeu nem as mais cruas imagens de cadáveres de soldados. Agora, os jornalistas russos cobrem o conflito de um só lado, e suas possibilidades de fazê-lo de forma independente são limitadas.

Psicose – O relativamente pequeno número de baixas sofridas até o momento, a informação escassa e nem sempre objetiva e a psicose criada depois da série de atentados de setembro passado alimentam a popularidade da operação militar. A tal ponto que o primeiro-ministro, Vladimir Putin, se transformou num candidato presidencial confiável, com o único capital de sua dureza na condução da guerra.

As autoridades russas tentam transmitir a idéia de que este é um conflito ‘limpo’ e de que as bombas lançadas por seus aviões e canhões são, no mínimo, tão precisas quanto as da Otan contra Iugoslávia. Isto é, que, excetuando os ‘danos colaterais’ estatisticamente pouco importantes, os únicos objetivos atingidos são os ‘grupos terroristas’, seus arsenais e suas bases logísticas.

No início deste mês, o presidente checheno, Aslan Maskadov, convidou um grupo de jornalistas estrangeiros para ver no local a outra face da moeda. Conduziu-os às montanhas orientais na fronteira com o Daguestão, ao norte do Rio Terek, até à própria linha de frente, a várias cidades bombardeadas e a alguns hospitais. Embora as visitas estivessem provavelmente preparadas, nem os mais curtidos veteranos em operações de desinformação encontraram rastro de instalações militares ou industriais nos bairros arrasados pelas bombas russas. Tampouco duvidaram da sinceridade dos testemunhos de sobreviventes dos ataques aéreos, de pessoas idosas que viviam em subsolos transformados em abrigos antiaéreos.

O efeito do que em seguida contaram esses jornalistas não foi notado no interior da Rússia, mas no Ocidente. Moscou lançou uma contra-ofensiva informativa. Semana passada em Helsínque, na véspera da cúpula da União Européia, exibiu um vídeo caseiro em que se mostrava como os ‘terroristas’ chechenos degolam um civil e cortam o pescoço de um soldado russo. Mas isso não bastava, era preciso demonstrar que os russos não invadem, mas libertam a Chechênia.

‘Bandidos’ – O recém-criado Ministério de Informação russo organizou há alguns dias uma viagem ao Daguestão e ‘territórios libertados’ nas últimas semanas ao norte do Rio Terek. O que os jornalistas estrangeiros viram ali foi muito diferente do que os comandantes russos tinham preparado.

O general Guenadi Trochev, chefe das forças do Leste do Cáucaso, convidou os jornalistas a falar com os habitantes de Chelkovskaia e a comprovar que eles consideravam os russos libertadores. Algumas testemunhas iam nesse sentido, e condenavam os ‘bandidos’ de Shamil Basaiev. Outros, porém, denunciavam bombardeios russos indiscriminados com vítimas civis, guardavam luto por parentes mortos no ataque a um ônibus, queixavam-se das restrições à movimentação, asseguravam que as distribuições de alimentos têm sido simbólicas e destinadas às câmeras de TV, e expressavam o desejo de que o Exército russo fosse embora da Chechênia."

"Guerra acirrada no front da informação", copyright Jornal do Brasil, 27/10/99

 

Clóvis Marques

"A nova guerra da Chechênia tem sido apresentada pelo poder yeltsinista como um combate ao ‘terrorismo’ patrocinado por renegados do islamismo. Moscou não tem interesse em identificar os rebeldes de Shamil Basaiev e outros movimentos muçulmanos separatistas como forças representativas das várias correntes islâmicas que povoam a região do Cáucaso: seria irritar ainda mais com sal retórico a ferida reaberta com os mísseis.

Mas se o atual descalabro político, econômico e social da Rússia tem uma compensação, é a liberdade de imprensa. E na imprensa russa abundam explicações nada oficiais das muitas e complexas causas históricas, políticas, religiosas ou étnicas do problema, que remonta ao século 19, quando os povos da Chechênia e do Daguestão foram os últimos a se submeterem ao expansionismo czarista na região.

Petróleo – As mais claras do ponto de vista das motivações por trás do pano saíram recentemente nos semanários Kommersant-Vlast e Vek. No primeiro, o jornalista Chamsudin Mamaiev historia a disputa que nos três últimos anos se intensificou em torno do petróleo do mar Cáspio, protagonizada por interesses estratégicos americanos e sauditas em torno da exploração e exportação através de oleodutos que passam ou estão planejados para passar pela região em conflito ou perto dela. Contra o pano de fundo do insucesso de Washington, até agora, na tentativa de montar o financiamento internacional de um duto que contorne pelo sul a zona conflagrada, passando pela Turquia até o Mar Mediterrâneo, o governo checheno de Aslan Maskhadov aplicou contra Moscou, em março deste ano, o golpe que teria levado ao basta militar.

Dias depois de a Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) ter decidido baixar a produção para elevar os preços (que de lá para cá quase dobraram), Maskhadov, alegando uma dívida russa, mandou fechar ao norte o oleoduto que, proveniente do porto azerbaijano de Baku (o principal para o escoamento do petróleo cáspio), passa pela capital chechena para desembocar no porto russo de Novorossiisk, no Mar Negro. A Rússia passou em julho a transportar o produto por uma ferrovia que contorna a Chechênia atravessando o vizinho Daguestão, e em julho começavam nesta república as incursões guerrilheiras dos terroristas – os milicianos da corrente muçulmana wahabita inspirada pelos sauditas.

Dinheiro – Em Vek, é o cientista político Alexei Bogaturov quem remexe nas águas turvas dos interesses políticos e econômicos por trás da brutal investida contra a Chechênia rebelde. Analisando a incapacidade de Moscou de traçar uma política coerente face à ‘evolução orgânica do processo de autodeterminação dos povos caucasianos em direção a um separatismo agressivo’, ele se detém no ‘desejo de muitos banqueiros, empresários e políticos de que o conflito não acabe rapidamente’. Segundo Bogaturov, ‘a acumulação primária de capital em Moscou, no Cáucaso russo e na região do Volga no início dos anos 90 foi de tal modo tributária da Chechênia, por onde transitava muito dinheiro do Estado, que ainda hoje uma infinidade de milionários e amigos do poder recusam-se a aceitar o fim da influência chechena na política russa’.

As duas análises são reproduzidas em edição do semanário francês Courrier International centrada num dossiê caucasiano que não dá margem a otimismo. Nas imediações do conflito checheno, uma quantidade vertiginosa de povos, línguas, culturas e interesses em constante fricção parece pronta a explodir permanentemente. ‘À beira da guerra civil’, relata em outra reportagem o mesmo Kommersant-Vlast, estão agora as duas nacionalidades que formam outra entidade estatal forjada (em 1992) mais ou menos arbitrariamente, a república de Karatchevo-Tchercássia. Anotem este nome."

"Imprensa dá nome aos bois", copyright Jornal do Brasil, 29/10/99

 

MÍDIA EM GUERRA
O Estado de S.Paulo

"Jerusalém – A guerra da imprensa israelense assumiu ontem proporções dramáticas com a revelação de que a polícia está investigando uma denúncia de que o dono do tablóide popular Maariv, Ofer Nimrodi, que recentemente cumpriu pena por espionar o Yediot Ahronot, também conspirou para matar os diretores-responsáveis desse e de outro jornal rival, o Haaretz. A acusação foi feita pelo detetive particular Rafi Pridan, que cumpre 4 anos de cadeia por instalar aparelhos de espionagem para Nimrodi no tablóide independente Yediot Ahronot, o principal jornal do país. O segredo judicial sobre o caso foi levantado ontem.

Segundo Pridan, seu ex-chefe planejou matar Arnon Mozes, do Yediot, Amos Schocken, do Haaretz, e o detetive Yaakov Tzur. Ex-parceiro de Pridan, Tzur, para não ser julgado, testemunhou em 1995 contra Nimrodi no processo por espionagem. Pridan disse à polícia que o plano era matar Tzur em 1996, durante uma missão deste na Tailândia ou Indonésia. Nimrodi teria gasto US$ 80 mil com o complô, que acabou não sendo levado a cabo. Mozes e Schocken (a terceira geração de dinastias da imprensa) negaram-se ontem a comentar o caso. Nimrodi negou veementemente a acusação, dizendo que ela faz parte de uma estratégia de Pridan para tentar extorquir-lhe milhões de dólares.

Ofer é filho de Yaakov Nimrodi, vendedor de armas apontado como participante-chave, nos anos 80, do escândalo Irã-contras – a venda ilegal de armas ao Irã em troca da libertação de americanos em poder de grupos libaneses pró-iranianos, e o repasse do dinheiro desta venda aos rebeldes direitistas da Nicarágua. Em fevereiro, Ofer terminou de cumprir 4 meses de uma pena de 8 pela espionagem no Yediot – cujo editor, Moshe Vardi, também chegou a ser condenado por mandar espionar o Maariv, mas depois foi inocentado por uma corte superior. Na semana passada, em meio à atual investigação, Ofer passou o cargo de editor-responsável do Maariv a seu pai.

Ainda ontem, centenas de palestinos, revoltados com a morte de um vendedor por um soldado na segunda-feira, voltaram a lançar pedras e garrafas contra militares em Belém, na Cisjordânia. Estes responderam com gás lacrimogêneo e balas revestidas de borracha, ferindo 12 manifestantes."

"Magnata da imprensa israelense é acusado de tramar morte de rivais", copyright Reuters/Associated Press/O Estado de S. Paulo, 28/10/99

QUERO-MAIS
Folha de S.Paulo

"Penso que o ‘Painel do Leitor’ deveria reservar o espaço, que é reduzido, para o leitor comum, visto que com freqüência são publicadas cartas extensas de autoridades de todas as esferas, que se sentem injustiçadas por alguma reportagem. Essas cartas, ou réplicas, deveriam ter um outro espaço, dando mais lugar para o leitor comum."

Antonio Roberto Tonus (São Caetano, SP)

Painel do Leitor, copyright Folha de S.Paulo, 29/10/99

LEI & MÍDIA
F.S.P.

"Documento entregue pela Associação Nacional de Jornais ao deputado Nilmário Miranda, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, pede que a apuração dos crimes cometidos contra a imprensa passe a ser feita pela Polícia Federal. O pedido foi encaminhado por Renato Simões, vice-presidente da ANJ. A entrega do documento formalizou proposta feita no último mês de agosto ao ministro Carlos Velloso, presidente do Supremo Tribunal Federal. Os crimes contra os jornalistas acompanhados pelo ‘Programa ANJ de Defesa da Liberdade de Imprensa’, entre 1995 e 1998, ocorreram em cidades do interior. A Bahia é o Estado que apresenta o maior número de ocorrências. Para a associação, a investigações dos crimes em uma instância distante do fato poderá ser feita de uma forma mais isenta."

"ANJ pede federalização de crime", copyright Folha de S.Paulo, 30/10/99

ASSOCIADOS PROTESTAM
F.S.P.

"Queiram receber meus cumprimentos pela publicação do caderno especial Bardi morre antes do século, que circulou com a edição da Folha de 2/10, dedicado ao ex-diretor do Museu de Arte de São Paulo, Pietro Maria Bardi. Em vários trechos desse caderno está registrado que o Masp foi a maior obra cultural deixada por Chateaubriand e até assinalado que foi ‘o primeiro endereço de um Brasil moderno’.

Lamento, entretanto, que, no contexto geral do caderno não tenha sido dado o tratamento adequado e justo aos Associados, organização fundada em 1924 pelo mesmo Chateaubriand. Não posso deixar de externar minha tristeza com o que escreveu ao sr. Leon Cakoff, identificado como ‘da equipe de articulistas’ deste grande jornal. Em seu artigo, ele chega a afirmar que ‘sem o Bardi o império de Chateaubriand não seria lembrado pelo Masp, pois o resto (o império jornalístico Diários Associados) virou pó’.

Os Associados formam hoje grupo sólido de 43 empresas, entre as quais 12 jornais diários, 13 emissoras de rádio e seis de televisão, operando em vários estados do Brasil, com 6.000 funcionários, faturamento anual de R$ 350 milhões e patrimônio líquido de R$ 280 milhões. Esse valioso patrimônio empresarial é motivo de grande orgulho para nós, sucessores de Chateaubriand, firmemente empenhados em manter os ideais de nosso fundador, sempre a serviço do Brasil. Por isso, estamos conduzindo os Associados sob intenso processo de transformação e modernização, conscientes do papel histórico reservado ao nosso grupo, situado entre os maiores do país na indústria da informação.

Dessa forma, só posso considerar o julgamento do sr. Leon Cakoff como a opinião de um jornalista desinformado, pois não teve o cuidado de conferir a verdadeira posição dos Associados, agora completando 75 anos e objeto de ampla campanha publicitária nacional (inclusive com anúncios na Folha), pela sua rica história e pelo seu avanço no caminho da modernidade rumo ao Terceiro Milênio."

Paulo Cabral de Araújo, presidente dos Diários Associados Emissoras Associadas (Brasília, DF)

"Especial Bardi", Painel do Leitor, copyright Folha de S. Paulo, 30/10/99



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