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CASO CHELOTTI
Mino Carta
"É possível que o jornalista Carlos Monforte, no Jornal Nacional da Globo, seja solerte aluno do embaixador Rubens Ricupero, o qual, em entrevista ao próprio Monforte, pouco além de meados de 1994 pronunciou definitivo conceito digno de Maquiavel e perdeu sua pasta ministerial. Falava Ricupero, achando-se em off quando ainda vigorava o on, a respeito da conveniência de se divulgar o que nos beneficia e esconder o que nos prejudica. A moral, no caso, dança, tanto para políticos quanto para jornalistas. E, na noite do dia 3 deste nosso março de 1999, foi de certa forma emocionante o empenho de Monforte em esconder derradeiras e irremediáveis razões da demissão de Vicente Chelotti da direção geral da Polícia Federal. No Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios, e no próprio Congresso, não faltava quem desejasse vê-lo pelas costas. O homem tinha, porém, os seus trunfos e não era à toa que se autodefinia como o J. Edgar Hoover brasileiro. Determinante foi a reportagem de Bob Fernandes na edição passada de Carta Capital. Determinante porque exata e inquestionável. Monforte é simbólico. Salvo raras exceções, a imprensa e a mídia em geral esmeraram-se na tentativa de colocar na sombra o trabalho de um colega e o feito de um concorrente, e a importância de um evento que desce aos porões do Brasil e envolve o centro do poder. O esforço da rapaziada foi em vão. Carta Capital esgotou nas bancas e muitos cidadãos tiveram a oportunidade de medir as coisas com metro adequado. A ciumeira em um mundo de prima-donas não é novidade, bem como o pendor visceral dos profissionais nativos para servirem antes os interesses dos seus patrões do que os da categoria, e, portanto, do público leitor. O jornalismo brasileiro, no entanto, jamais foi tão servil e tão medíocre, em uma extraordinária combinação de ma-fé e QI baixo. Nada disso aproveita aquele que, não por acaso, é o país mais desigual do mundo. Mas a rapaziada luta para deixar as coisas como estão. Certa está Dora Kramer, do Jornal do Brasil, ao perguntar: como e porque não demitiram antes esse Chelotti?
P.S. Pela leitura das últimas edições das revistas Veja e Época sobra uma dúvida: será que Vicente Chelotti continua no cargo? E se caiu, caiu por que, por que caiu?
Editorial, copyright Carta Capital Ano IV nº 96, 17/3/99
APAGÃO
Élio Gaspari
"Milhões de brasileiros haverão de se lembrar a noite de quinta-feira da semana passada, quando foram apanhados pelo maior apagão da história do fornecimento de energia elétrica no país.
Durante as três horas de escuridão, foi decisiva a contribuição dos radialistas para a manutenção da ordem e da calma nas grandes cidades afetadas. Transformados no principal vínculo das comunidades, foram eles, com a ajuda dos ouvintes, quem conseguiu dar à população um quadro do que estava acontecendo.
Em cidades onde os nomes de ruas são dados a pessoas que em geral pouco fizeram pelos outros, pouco custaria às Câmaras de Vereadores que dessem a um pedaço de chão o nome de ‘Radialistas de 99’. Recordariam um bom momento da vida do país.
Se alguém acha que eles apenas cumpriram com sua obrigação, registre-se que o excelentíssimo senhor ministro de Estado de Minas e Energia, doutor Rodolpho Tourinho, só deu o ar de sua graça quando o apagão tinha acabado. Não foi capaz de dizer uma só palavra para orientar a população. Num momento de profunda reflexão, informou que ‘um blecaute pega de surpresa em qualquer lugar do mundo’.
Certíssimo. Pega de surpresa todas as pessoas que pagam as contas de luz para receber energia. Já aquelas que recebem salários para fazer com que a energia chegue à turma do ‘paganini’, são remuneradas para se surpreender um pouco menos. Um ministro de Minas e Energia, por exemplo, pode ter algo a dizer, com presteza e sem banalidades. O doutor Tourinho foi ao ar para dizer que a luz estava voltando. Talvez um dia ele descubra que não é necessário esperar a palavra do ministro de Minas e Energia para perceber que uma lâmpada apagada está acesa.
Ainda assim, Tourinho não foi o dono da noite. O ‘Troféu da Treva’ vai para o presidente de Furnas. Ainda havia luzes apagadas, mas o doutor Luíz Laércio Simões Machado, já em casa, dizia o seguinte:
‘A imprensa ajuda mais que a gente’. (A imprensa ficou com a responsabilidade de ajudar, porque ‘a gente’, não fez coisa nenhuma.)
‘Não é anormal a queda de energia’. (Anormal é o presidente de Furnas dizer que um apagão desse tamanho pode ser normal.)"
"Na hora da treva, a luz veio dos radialistas", copyright Folha de S. Paulo, 14/3/99
EDITORAS
Gazeta Mercantil
"Nos últimos anos houve uma nítida melhora na qualidade da produção de livros no Brasil. Traduções competentes, capas de bom gosto e revisões e impressões refinadas puxaram o nível para cima. Mas não foi só o ‘produto’ que se sofisticou. Os alvos de divulgação também se ampliaram. As editoras perceberam a decadência dos suplementos literários, que, teoricamente, circulam entre um público ‘culto’. Por analogia, suplementos de livros deveriam ter incentivado o surgimento de suplementos para CD’s e vídeos. Não foi o que ocorreu. Os suplementos exclusivamente de livros ou minguaram ou se converteram sem deixar rastros.
Na medida do possível, as editoras estão tentando deslocar a divulgação de seus lançamentos para seções diversas de jornais e revistas. Diversas, geográficas e estrategicamente. ‘Melhor um comentário de 15 linhas num jornal regional do que uma resenha em alguma revista cultural maçuda. Da mesma forma, prefiro um livro sobre política no caderno de política de um jornal do que num suplemento literário’, diz Luiz Fernando Emediato.
Os leitores querem saber – ou as editoras gostariam que eles soubessem – o que as pessoas famosas estão lendo. O caso da americana Ophra Winfrey, apresentadora de TV, é patente. Ela virou referência até nas livrarias da Internet. ‘Os autores hoje não querem sucesso de crítica, nem mídia. Querem ser lidos. O preço disso é a divulgação de uma mensagem que às vezes não leva em conta o conteúdo ou o estilo de suas obras’, observa Luciana Villas Bôas, da Editora Record. As vitrines eletrônicas (Internet) seriam a saída para autores de qualidade cujos livros não conseguem seduzir as butiques de lançamentos. Mas até a Amazon.com já foi criticada por vender indicações na sua vitrine eletrônica, saciando a gula de grandes editoras. Um sintoma de butiquização virtual?
As aquisições e incorporações de editoras ou livrarias brasileiras por grupos estrangeiros – A Darby Overseas adquiriu 35% da Siciliano, o grupo Francês Fnac comprou a Ática Shopping, e 15% do capital da Saraiva veio de investidores estrangeiros – ainda não sinalizaram nenhuma tendência de ‘multinacionalização’. Qualquer leitura do mercado editorial brasileiro, em todos os elos da corrente, continua exigindo um cuidado maior do que normalmente temos ao ler um bom livro de ficção.
O mercado de livros está cheio de premissas incontestáveis. As principais: em comparação com outros países, a população brasileira não está habituada a ler; as tiragens são baixas, os custos estruturais (transportes, correios, armazenamento, papel, gráficas, impostos, mão de obra, etc) são altos; as bibliotecas – as que funcionam – não adquirem novos títulos e não cumprem o papel de estimular a leitura entre os jovens. Além disso, as relações entre editoras, distribuidores e livreiros se baseiam em barganhas e descontos, num ambiente de acordos tácitos. Ganha mais desconto quem tem mais poder de fogo. Quem ainda não ouviu falar de pelo menos alguns desses absolutismos?
Além de tudo, são as editoras que definem o preço de capa. Uma regra histórica. No Brasil, o preço de capa não mais vem gravado na capa. A prática da expressão é que prevaleceu. As editoras repassam os livros aos distribuidores com descontos em torno de 50% e estes, por sua vez dão uma média de 30% de desconto aos livreiros. Os descontos dados aos distribuidores variam conforme a obra (didática, interesse geral, técnica, literatura etc.), a distância do distribuidor em relação ao local de impressão do livro e a demanda. ‘É assim no mundo todo’, acredita Aldo Bocchini.
‘O setor editorial ainda não enfrentou o mercado. Prefere a segurança da regulamentação, ou seja, livro tabelado pelo pico’, reclama Emediato. E diz que um livro hoje vendido a R$ 20 para o leitor, custou, na verdade, R$ 4 para o custo editorial e industrial, R$ 11 para a comercialização (R$ 4 para o distribuidor R$ 7 para a livraria), R$ 2 para o autor, R$ 1 para a propaganda e R$ 2 para a editora. Emediato propõe um preço mínimo. Assim, o mesmo livro poderia ser vendido a R$ 12 em vez dos R$ 20 pré-fixados. Ou seja, a editora o venderia para livrarias e/ou distribuidores por R$ 8,50 (R$ 4 de custo, R$ 1,20 para o autor, R$ 1,20 para divulgação e propaganda, R$ 0,90 para administração e impostos e R$ 1,20 de lucro).
‘As livrarias que o compraram por R$ 8,50 poderão vender a R$ 12, R$ 15 ou R$ 20. Compra quem quiser, despois de pesquisar. Os riscos dos distribuidores e das livrarias são mínimos, porque quase todos estão trabalhando não no regime de compras firmes , mas de consignação ou direito a devolução do encalhe. O risco do negócio é quase todo do editor’, diz. Por outro lado, esse ‘rompimento com a tradição’ pode piorar ainda mais a situação das livrarias independentes. ‘Livre-concorrência não se aplica a livros’, discorda Aldo Bocchini, das(Î)ei+Z¶ë4ÓOa. Se a pequena livraria não for protegida de alguma forma, você terá apenas best-sellers à venda, já que as grandes redes não mantêm fundo de catálogo’, afirma. ‘As editoras também não têm interesse em vender dez exemplares de um livro para um livreiro independente. Preferem vender 200 do mesmo para uma mega ou para grandes distribuidoras’, acrescenta Maristela Calil, da Livraria e Antiquário Calil.
Até setembro último, a queda nas vendas do setor foi de 5,17% em relação a 97. Sintomaticamente, o faturamento no mesmo intervalo subiu 6,10%. Além dos altos e baixos da economia como um todo, a indústria do livro terá nos próximos anos novos desafios: tecnologias de impressão, metodologias alternativas de venda ( o sistema porta a porta, estilo Avon, está ressurgindo) e as próprias contradições de um setor ainda muito dependente dos didáticos."
"Os novos efeitos da divulgação", copyright Gazeta Mercantil, 5/3/99
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