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KOSOVO
Gabriel Priolli

"Nem parece que foram eles que descobriram a coisa e propagaram-na mundialmente. ‘Em tempo de guerra, a primeira vítima é a verdade’, dizia o senador americano Hiram Johnson já em 1917, quando seu país envolvia-se na Primeira Guerra Mundial e os jornais enfrentavam os rigores da censura militar e do controle da informação, que experimentariam outras incontáveis vezes ao longo deste século. A mídia daquela época era ínfima, comparada à monumental e complexa máquina de notícias em atividades nos tempos atuais, mas já deixava claro o seu considerável poder de alinhar ou não a opinião pública no rumo dos canhões. Era certo, então como hoje, que não se ganha contenda militar com a divulgação fidedigna dos fatos ocorridos no teatro de operações, mas, ao contrário, com a teatralização dos acontecimentos, ou a sua manipulação de forma a produzir versões convenientes, tanto à elevação do moral das hostes aliadas, quanto ao abatimento das forças inimigas.

Essa ‘lei’ valeu para quase todos os conflitos do século 20, com a exceção mais notável da Guerra do Vietnã, que o governo e o exército americanos perderam antes para a televisão do que para a rebelião vietcongue, ao desdenhar o impacto das cenas de soldados feridos em milhões de lares do país. Vigorou com particular intensidade nas crises mais recentes, como a Guerra das Malvinas, em 1982 e a Guerra do Golfo, em 1991, ambas rigorosamente censuradas. Mas agora, nesta nova tragédia, que desaba sobre os Bálcãs, na esteira das bombas e mísseis da Otan disparados contra a Sérvia, está outra vez claudicando, por uma fantástica incompetência da propaganda aliada, proporcional apenas ao desatino da estratégia militar de ‘pressão’ sobre o carrasco Slobodan Milosevic. Na frente de combate da mídia, a vitória, até agora, é da agredida Iugoslávia, que conquistou muito mais a simpatia internacional do que a ‘intervenção humanitária’ capitaneada pelos Estados Unidos.

Agora já não temos o fascínio dos mísseis voando sobre Bagdá e das baterias antiaéreas fazendo o céu relampejar, tão bem descritos na locução dramática de Peter Arnett, na CNN. Não vemos os Tomahawk e os Cruise mergulhando na direção de seus alvos, através das câmeras de televisão instaladas em suas ogivas, em excitantes partidas de um videogame ao mesmo tempo real e virtual.

Não contemplamos soldados iraquianos, do tão temível exército de Saddam Hussein, maltrapilhos e patéticos, de joelhos, rendendo-se às tropas aliadas e implorando clemência. Não testemunhamos a interminável coluna de tanques e veículos destruídos, calcinados pelas bombas, à beira de uma estrada juncada de corpos, na retirada desesperada do Kuwait. Não vemos, enfim, cenas de glória dos donos do mundo ou de infâmia do povo que eles querem subjugar.

Muito ao contrário. Vemos risonhas senhoras sérvias, dançando sobre as asas de um F-117 abatido, o avião supostamente invisível nos radares e invulneráveis às defesas antiaéreas. Vemos jovens alegres reunidos em shows de rock diários, no centro de Belgrado, portando irônicos alvos nas roupas e pedindo para serem atingidos também. Vemos populares apedrejando lojas McDonald’s, onde a juventude iugoslava se reunia em 1991 para desafiar o governo socialista do mesmo Milosevic, que já teve apenas 16% do povo a seu lado, mas sobreviveu e hoje segue mais forte do que nunca no poder, com 93% de apoio. Vemos jogadores de futebol iugoslavos protestando nos campos de toda a Europa e torcedores apoiando-os com faixas impiedosas: ‘Matem o soldado Ryan’. E vemos, sobretudo, as multidões de refugiados do Kosovo, marchando para o exílio, apinhando-se em vagões de trem, lutando por um pedaço de pão, morrendo de frio e doenças, cenas muito parecidas às do holocausto judeu, que a intervenção militar deveria evitar.

O general Wesley Clark, que comanda a ofensiva da Otan, talvez não tenha a mesma habilidade ou a sorte de seus colegas Norman Schwarzkopf e Colin Powell, que fizeram o nome no conflito do Golfo.

Tudo indica que a Otan avaliou mal a flexibilidade sérvia diante das bombas em seu território e que está enfrentado uma resistência inesperada. Mas Milosevic também não é Saddam e não bobeou como o ditador iraquiano, que deixou livres as câmeras da CNN, em Bagdá, para mostrarem o ‘show’ de tecnologia e pujança das forças aliadas. Na Iugoslávia, a mídia não tem moleza. O governo controla rigidamente o tráfego de imagens por satélite, prende os jornalistas estrangeiros num cipoal burocrático de exigências que só aumentam, impede-os de chegar à região de Kosovo, dificulta-lhes o acesso aos locais atingidos por mísseis, não se vexa de pressioná-los, prendê-los, agredi-los e confiscar-lhes fitas e filmes. Enquanto isso, domina completamente os meios de informações locais, oferecendo à população a versão da guerra que lhe convém – e que, obviamente, não é nada lisonjeira a Bill Clinton e seus aliados.

Para o consumidor de notícias cá do mundo ocidental, as imagens da guerra negativas aos interesses da Otan sucedem-se numa escala muito maior do que as cenas triunfais de poder, conquista e submissão. As vitórias aliadas são meros clarões de incêndio no negror da noite, mas o desespero de milhares de kosovares, nas fronteiras da Macedônia, da Albânia e da Turquia, aparece à luz do dia, exposto cruamente às câmeras, e a incapacidade da Otan em organizar rapidamente o caos evidencia-se, neutralizando a impressão de eficiência que os ataques ‘cirúrgicos’ deveriam transmitir. Fora as silhuetas movimentando-se nos conveses dos porta-aviões, os militares aliados que a TV mostrou até agora foram os três prisioneiros americanos, feridos de tanto espancamento, humilhados, frágeis como convém aos sérvios, para difundir entre os seus a idéia de que estão vencendo a parada contra o exército mais poderoso do planeta. Em suma, a Otan gasta US$ 40 milhões por dia nesta guerra insensata, apenas para fazer a propaganda de Milosevic e ajudá-lo a expulsar mais rapidamente os albaneses do Kosovo.

Agora aumentam as pressões pela intervenção terrestre. Os aliados querem vencer no solo o que já sentem perdido no ar. Se de fato forem em frente nesse novo equívoco, recomenda-se que, antes de atacar unidades do exército iugoslavo, o general Wesley Clark faça como fez em outubro de 1997, na república sérvia bósnia de Srpska. Naquela época, ele mandou helicópteros, blindados e infantaria ocuparem quatro estações de televisão, que estavam sob o comando de partidários do ex-líder sérvio Radovam Karadzic, outro carniceiro da estirpe de Milosevic. As emissoras difundiam noticiário e comentários adversos aos acordos de paz que se tentava costurar para a região e também contrários ao Tribunal Internacional de Haia. Era preciso silenciá-las, para tapar os ouvidos da opinião pública, como agora se mostra novamente indispensável, se a Otan quiser controlar os sentimentos do povo iugoslavo e prepará-lo para a ocupação de seu país, que não será fácil nem curta, caso venha mesmo a ocorrer.

Na guerra, a primeira vítima é a verdade, ensinaram os americanos no começo do século. Na guerra moderna, a primeira arma é a televisão, ensinam agora, no final, por vias transversas – porque eles próprios não sabem ao certo se aprenderam mesmo a lição."

"Verdades da guerra", copyright Gazeta Mercantil, 1-4/4/99

Leila Reis

"Quem quiser entender a guerra de Kosovo por meio do noticiário da TV pode desistir. Todos os canais, sem exceção, jogam no ar imagens do conflito, do presidente da Iugoslávia, de discursos de Clinton e textos sobre bombardeios da Otan de uma maneira tão aleatória que confunde até os mais interessados.

Várias guerras estão em curso no planeta, mas a eleita pelo noticiário é a da Iugoslávia. Isso pode ser explicado pelo fato de ser uma guerra de interesse crucial para a Europa, com envolvimento dos Estados Unidos. Como ela entrou com destaque na pauta das agências americanas e européias, tem tido participação obrigatória nos telejornais brasileiros, que compram os serviços dessas mesmas agências.

O conflito é grave, afinal envolve quase um milhão de refugiados, crimes de guerra, assassinato de famílias inteiras, fome e frio. O problema é que os telejornais parecem estar ‘cumprindo tabela’ ao tratar de Kosovo. Repassam para o público as notícias do jeito que recebem das agências. Ou seja, não há uma preocupação em informar o telespectador das razões do conflito e suas conseqüências tanto para os envolvidos – sérvios e albaneses – quanto para a conjuntura internacional.

A Globo até destacou correspondente para cobrir o assunto. Quinta-feira [8/4/99], por exemplo, Ana Paula Padrão apareceu no Jornal Nacional falando de um campo de refugiados. A reportagem restringiu-se à angústia daqueles albaneses em encontrar parentes dos quais foram separados. Na noite anterior, o Jornal da Globo personalizou o conflito na figura do garoto Dren Caka, cuja família havia sido exterminada por soldados sérvios. Dramático, nada mais.

Está certo que cobrir uma guerra é um operação complicada e que não é possível contar a história toda em três minutos, mas o mínimo tem de ser feito: situar o telespectador. Outro caminho é pegar um viés e aprofundar o assunto. Um bom exemplo foi dado pelo canal por assinatura GNT (Net), na quarta-feira [7/4/99], com o documentário Morrendo para Contar a História, sobre jornalistas que se arriscam (e até morrem) para informar ao público sobre determinadas guerras e conflitos.

Por meio da história pessoal de fotógrafos e cinegrafistas, o documentário expôs os horrores das guerras melhor do que qualquer noticiário diário. Depoimentos dos profissionais – que discutiram a ética e a implicação sóciopolítica de sua atividade – e imagens de conflitos que também já passaram quase que aleatoriamente pelos telejornais no seu devido tempo (Beirute, Bósnia, Somália, África do Sul etc.) conseguiram transmitir ao telespectador a crueldade e o sofrimento de personagens reais que fizeram a história recente.

Mas para fazer algo parecido – informar e comover ao mesmo tempo –, as emissoras precisam mais do que recursos técnicos e humanos. A direção dos telejornais deve ter uma visão clara do destino que quer dar ao material das agências internacionais. Se a intenção for prestar serviço, pode tratar de interpretar de maneira organizada as informações que chegam via satélite. Pois realmente é desperdício de tempo (e da paciência do espectador) oferecer um emaranhado de imagens e textos incapazes de esclarecer o brasileiro a respeito de qualquer coisa."

"Guerra de Kosovo é desinformada pela TV Estado", copyright O Estado de S. Paulo, 10/4/99

 

KARL KRAUS
Alberto Dines

"Se a mídia lembrar-se de apenas uma efeméride por semana ao fim deste ano de 1999 teremos diminuídas a distância entre jornalismo e historiografia, entre informação e conhecimento, entre fato e contexto. Entre leitor e cidadão. Comemorados condignamente, os centenários e cinqüentenários – para falar apenas das datas redondas – produziriam uma pauta extraordinária para tornar o passado mais presente e este, compreensível.

Passaram em brancas nuvens os 100 anos do lançamento de um jornalzinho vienense, Die Fackel, ‘A Tocha’, marco do jornalismo moderno. A primeira edição saiu exatamente no dia 1º de abril de 1899. Não há informação se a o dia escolhido, o Dia da Mentira ou dos Tolos, tenha algum sentido ou intenção. Karl Kraus, fundador, financiador, diretor e único redator durante grande parte dos seus 37 anos de existência, era um satirista em tempo integral, é possível que a data de lançamento também tivesse conotação gozadora.

‘A Tocha’ não foi um pasquim, panfleto burlesco de avacalhação. Foi o exercício da crítica levado às últimas conseqüências. No auge da civilização vienense, Karl Kraus teve a intuição e a dose certa de inconformismo para perceber a decadência dos valores e instituições do portentoso império austro-húngaro. Ele próprio tornou-se uma instituição vienense – talvez a última. Elias Canetti, prêmio Nobel de literatura, usou ‘A Tocha’ no título de um dos volumes das memórias (Die Fackel im Ohr, aqui traduzido como ‘Uma luz em meu ouvido’, Cia. das Letras, 1988).

Riu da psicanálise quando a psicanálise engatinhava, embora respeitasse Freud, seu criador. O que não o impediu de criar o conhecido axioma: ‘a psicanálise é aquela doença mental que se imagina uma terapia’. Judeu assimilado, depois católico, depois agnóstico, riu do sionismo que também engatinhava, mas considerava seu fundador, Theodor Herzl, um talento literário.

Riu de tudo e de todos. Inclusive de si mesmo porque ele próprio era o produto mais acabado da decadente Viena. Um dos seus alvos preferidos foi a imprensa porque Kraus pode ser considerado o primeiro a perceber o circuito que hoje seria chamado de mediático: começa com a maneira de gerar informações e termina com as atitudes que acaba produzindo.

Antológicas algumas de suas peças jornalísticas de antijornalismo: ‘Entrevista com uma criança morrendo’, de 1912, ataca a imprensa sensacionalista e os seus chocantes padrões (repórteres e fotógrafos acotovelando-se para ouvir as últimas palavras de um menino que pulou do quarto andar junto com a mãe ao invés de levá-lo correndo para um hospital). ‘Viagem promocional ao inferno’, de 1922, inspirada num jornal suíço, é um anúncio imaginário de uma tournée turística aos campos de batalha de Verdun onde, cinco anos antes, sangraram dois milhões de mortos franceses e alemães. No texto que acompanha a macabra promoção Kraus menciona os ‘piratas da imprensa que fazem da morte, gozação’.

Sua cruzada contra o húngaro Imre Bekessy, o barão da imprensa corrupta (a quem apelidou de ‘Peste do Buda’, trocadilho com Budapest) conseguiu fazer com que o nefasto fosse banido de Viena.

Não era um filólogo mas insistia em esmiuçar a degradação da linguagem, em especial a linguagem jornalística, caracterizando-a como base das mistificações e perversões do homem dito moderno. Neste campo, o alvo predileto do maçarico krausiano foi Neue Freie Presse, o mais importante jornal austríaco e um dos mais respeitados da Europa.

Kraus enxergou nela a deletéria combinação de informação, intelectualismo e frivolidade que caracterizava a grande imprensa da época. Epítome do moralismo sem moral, emblema da ambigüidade das elites endinheiradas, símbolo da prepotência daqueles que a pretexto da liberdade impedem o esclarecimento. Se vivo fosse, Kraus diria hoje que a arrogância da NFP queria acabar com o Pensamento Único através do Pensamento Único.

Este mesmo jornalão imperial e voluntarioso além de noticiar pretendia também ser protagonista do jogo de poder. Graças a isso, acabou convertendo Kraus no patriarca da crítica da imprensa. Convidado para dirigir o seu feuilleton (folhetim, espécie de rodapé literário), Kraus recusou. E logo cunhou a famosa frase que simboliza a ascensão e queda dos impérios jornalísticos: ‘Existem duas coisas formidáveis na vida: pertencer à NFP ou desprezá-la. Não hesito um momento em manifestar minha escolha’. Fundou ‘A Tocha’.

Brilhante e irreverente como ele, nascido e morto no mesmo ano (1874-1936) o inglês G.K. Chesterton participou brevemente da mesma aventura do jornalismo solitário com o seu G.K.’s Weekly. Inspirado por ambos, inconformado e radical como eles, o americano I.F. ‘Izzy’ Stone, durante 19 anos produziu o I.F. Stone’s Weekly (1952-1971). Um sucesso: na sua última edição contava com 60 mil assinantes. Surdo, fez da leitura o seu arsenal: lia os jornais atentamente, comparava as matérias publicadas com a documentação oficial e, assim municiado, podia desvendar os furos nas coberturas e dar ‘furos’ na grande imprensa.

Quando o nazismo tomou o poder, Karl Kraus já dera todos os seus recados: ‘Não consigo imaginar o que dizer sobre Hitler’. Foi o seu último aforismo, morreu logo depois. Conterrâneo e contemporâneo, o romancista Robert Musil, escreveu no exílio suíço: ‘A ironia deve conter algum traço de sofrimento, se não é desperdício’.

Cem anos depois, ninguém sabe quem foi Moritz Benedikt, o poderoso chefão de Viena e da NFP. Karl Kraus e sua tocha que pagaram o preço de ficar à margem, estão vivos e atuais. Acesos.

"Tochas acesas", copyright Jornal do Brasil, 10/4/99

 

IMPRENSA E ESTRANGEIROS
O Estado de S.Paulo

"NOVA DÉLHI – Empresários da imprensa indiana pediram ao governo que resista ao processo de ‘castração cultural’ e mantenha a proibição imposta a estrangeiros, que não podem ser proprietários de veículos de comunicação no país.

‘Manter a mídia estrangeira fora pode parecer uma incongruência em relação à atual era de economia globalizada, mas jornais não são só um mero produto de consumo’, declarou Mammen Mathew, presidente da Sociedade Indiana de Jornais, durante a cerimônia de comemoração dos 60 anos da entidade, realizada anteontem [8/4/99].

O Malayala Manorma de Mammen possui a segunda maior circulação de todos os títulos impressos no país e, como a maioria dos principais jornais, é administrado por uma família. Os editores locais uniram forças para tentar barrar os estrangeiros que avaliavam a possibilidade de lançar edições na Índia da revista Time e do [jornal] Financial Times.

No mês passado, o setor viveu uma guerra de preços em Nova Délhi. O Hindustan Time fez uma redução drástica em seu preço, deixando-o em 1 rupia (US$ 0,025). Desde 1955, estrangeiros são proibidos de tornar-se proprietários de meios de comunicação na Índia, mas a Star Television – do megaempresário da mídia Rupert Murdoch – tem sido líder de audiência desde o início de 1990, quando as ondas de TV foram liberadas.

Alvo freqüente do nacionalismo indiano, o empresário Rupert Murdoch já foi processado duas vezes no país. ‘Eu não estou sugerindo que os grupos estrangeiros de mídia vão agir deliberadamente contra os interesses da Índia ou que vão praticar a arte da sutil subversão’, justificou Mammen. ‘A minha preocupação é com a castração cultural’, acrescentou, argumentando que nenhum estrangeiro vai conseguir entender o ‘ethos’ da mente indiana." (The Guardian)

"Imprensa indiana apóia restrição a estrangeiro", copyright O Estado de S. Paulo, 10/4/99

 

JORNALISMO INVESTIGATIVO
John Lloyd

"O jornalismo americano afirma iluminar o funcionamento interno da única superpotência do mundo. É, portanto, de vasta importância para todos nós. Mas no âmago do debate sobre a liberdade de imprensa, existe agora uma imagem – um vestido azul escuro manchado pelo sêmen presidencial, usado, prudentemente guardado sem lavar por Monica Lewinsky. Isso assombra Joseph Lelyveld, editor executivo do New York Times. ‘Freqüentemente penso’, diz ele, triste, em seu escritório, ‘que, se Abe Rosental (seu antecessor no jornal) obteve os Documentos do Pentágono (o vazamento em 1971 de papéis reveladores sobre a conduta americana na Guerra do Vietnã), eu recebi um vestido manchado.’ Também no âmago do debate está um temor: o tipo de jornalismo que conquista prêmios Pulitzer e causa admiração em seus pares está agora sob ataque tão contínuo – inclusive vindo de dentro – que não vai sobreviver.

Um estilo de história instantânea que se desenvolveu no século 19 e floresceu no século 20, recentemente ilustrado por uma lista de melhores reportagens do século (veja box), pode não ser útil no século 21. Mitchel Stephens, reitor de faculdade, disse que ‘o século 20 foi compreendido por meio do jornalismo’, e depois exibiu os melhores e mais brilhantes artigos que, segundo seus colegas, explicaram os Estados Unidos aos americanos. Foi um rol de honra de um liberal – um tributo à perseverança, ao zelo, ao estilo, mas acima de tudo à ânsia de saber mais, de não aceitar nada como garantido, de interrogar o poder. Desde que Ida M. Tarbell expôs a pirataria da Standard Oil Co. de Rockefeller entre 1902 e 1904 até a revelação de Watergate em 1972-73 por Woodward e Bernstein, essa torrente de palavras teve como justificativa o mote ‘O que está acontecendo de fato’.

Carl Bernstein apareceu e fez alguns comentários convencionais, depois declarou: ‘Não há muita televisão nessa lista (menos de 10%). É o maior instrumento de comunicação da história, e durante meio século não o temos usado em sua capacidade de contar histórias’. Bernstein trabalhou na televisão depois de deixar o Washington Post. Do punhado de correspondentes da TV homenageados na lista, a maioria estava morta (Edward Murrow) ou se aposentou (Morley Safer, que expôs as atrocidades americanas no Vietnã nos anos 60). As pessoas presentes ao evento se sentem mal diante da TV; os velhos âncoras, como Walter Cronkite, se foram, substituídos por uma balbúrdia de canais, por noticiário estrangeiro menor e por mais falatório – ou melhor, gritaria.

Neil Postman, um estudioso da mídia em Nova York, afirma em seu livro Amusing ourselves to death que ‘o teor político religioso, educativo e qualquer outro que compreenda o empreendimento público deve mudar e ser reformulado em termos apropriados para a televisão. As conversas na televisão promovem a incoerência e a trivialidade; a expressão televisão séria é uma contradição em termos, e a televisão fala em apenas uma única e persistente voz – a do entretenimento’.

No New York Times, Lelyveld afirma: ‘A televisão vive sob pressão para ser instantânea. Assisti à cobertura da CNN do relatório Starr; uma repórter pegou o relatório, não lhe deram tempo para ler, e ela estava vomitando resumos crus ao vivo, no ar, incluindo detalhes sexuais, não acreditando no que ela mesma estava contando’.

A televisão também é a CNN cobrindo acontecimentos ao vivo, hora após hora; é o C-Span fazendo cobertura completa da Câmara dos Deputados, do Senado e das comissões; é falatório e gritaria e choro e riso público, que foi estimulado a jorrar suas emoções e posturas para a tela. Ela funcionou de duas maneiras: serviu de eventos às pessoas diretamente e em grande parte espontaneamente; e deu pessoas às pessoas – ou pelo menos uma versão delas.

A interpretação foi espremida em 30 segundos, ou forçada a pavonear-se para atrair a atenção do público de outros 20 ou 50 ou 100 canais.

Todos estão agora no lixo. Lelyveld, indagado sobre a cobertura do caso Lewinsky feita pelo New York Times, ficou inicialmente na defensiva, citando uma série de artigos de 30 mil palavras sobre economia eletrônica, publicada em fins de fevereiro – ao mesmo tempo em que a primeira página e grande parte do resto do espaço do noticiário foram destinados ao ‘fellatio’. ‘Ignoramos a vida sexual de Clinton por seis anos. Você ainda pode debater se a lei deveria ou não ter permitido uma investigação de sua vida sexual – mas isso deixou de ser objeto de discussão. A dúvida passou a ser: o presidente teria capacidade de terminar seu mandato? Ele estava por um triz; uma revelação a mais poderia ter encerado o assunto.’

O jornal tem em sua página de opinião o editor Howell Reines, um jornalista que não foi menos provocado pelos atos indevidos de Clinton durante os anos de sua presidência do que os redatores conservadores e os grupos de pressão que o odeiam e não conseguem se livrar dele; e em Maureen Dowd, uma colunista que investiga incansavelmente o lado pessoal usando-o para explicar político. A ‘velha dama cinzenta’ mudou com os tempos.

A revista política de maior sucesso lançada nos anos 90 (1995) foi George, criação intelectual do filho do presidente Kennedy, John F. Kennedy Jr., também editor da publicação, que combina propositadamente sexo com celebridade e política (‘As 20 mulheres mais fascinantes na política’; ‘Os dez casamentos mais glamourosos na Casa Branca’). Kennedy acredita que a política não pode ser vendida, a não ser embalada com glamour e detalhes pessoais; tem mais de 400 mil leitores para provar que está certo – comparados com menos de 100 mil do semanário prestigioso New Republic. George – como Maureen Dowd comentou a respeito – não interroga o poder; está em cumplicidade com ele.

Isso, segundo Harold Evans, é o mal mais profundo. Evans foi o editor britânico mais importante dos anos 70 e 80, por seu trabalho no Sunday Times – um jornal cuja reportagem investigativa acompanhou em grande parte modelos americanos. Ele é hoje diretor editorial do grupo Zuckerman, que inclui o New York Daily News, US News and World Report e The Atlantic. Em seu escritório, Evans diz que o jornalismo vem abandonando sua principal tarefa de convocar o poder a prestar contas, preferindo divulgar escândalos.

‘Watergate’, diz ele, ‘deu prestígio aos jornalistas americanos. As pessoas confiariam em jornalistas e os honrariam. Agora a cobertura jornalística as deixa irritadas. Havia uma cultura de investigação, que agora é despropositada; em vez disso, existe uma cultura de curiosidade.’

Mas foi Evans que certa vez disse aos repórteres que eles sempre precisam fazer uma pergunta quando entrevistam um político: ‘Por que esse danado está mentindo para mim?’. Foi a extensão lógica dessa agressão, dessa suposição de má fé, que esteve por trás da energia dada ao ‘furo’ a partir dos anos 70 e que ainda a sustenta. Isso proporciona prestígio ao jornalismo, afirma Evans; também cria ódio.

Jack Nelson também ganhou um Prêmio Pulitzer – em 1980, quando revelou as condições abomináveis em um hospício do estado da Georgia para o Los Angeles Times. Posteriormente ele se tornou chefe de redação desse jornal em Washington. Agora, Nelson chefia uma iniciativa denominada Civic Journalism, organizadora de debates entre cidadãos e editores, que estimulam estes últimos a levar a sério as preocupações dos primeiros. A iniciativa é baseada implicitamente na apreensão do fracasso – um fracasso gerado por excesso.

‘Passei a maior parte da minha vida como repórter investigativo’, afirma Nelson. ‘Achei que era a melhor coisa do mundo para ser. Mas passamos tanto tempo investigando que permitimos que fosse longe demais. Não oferecemos nenhuma resposta.’ Os jornalistas, diz Barney Frank, deputado de Massachussetts, ‘celebram o fracasso e ignoram o sucesso. Nada sobre o governo é feito com tanta incompetência como a notícia sobre ele’.

Essa é agora uma opinião comum. Tanto Clinton como o primeiro-ministro britânico Tony Blair, ou seus assessores, denunciaram o negativismo de sua imprensa nacional e procuraram contorná-la por meio de encontros ou conversas não intermediadas com editores regionais. O zelo investigativo do jornalismo liberal – visto pelos conservadores como geneticamente parcial contra os políticos de direita – foi desafiado e agora é imitado pelos conservadores. Clinton tem tido contra ele uma imprensa conservadora mais agressivamente hostil, cujas revelações – algumas substanciais, algumas mal fundamentadas – foram inicialmente ridicularizadas, mas mais tarde reproduzidas e retransmitidas com freqüência por grande parte da mídia dominante. Os conservadores aprenderam o jogo dos liberais; a notícia se tornou terrivelmente parcial, e continua assim.

Na origem da visão conservadora está a posição de que os pecados privados do homem ou da mulher são o espelho de seu comportamento público, e eles deveriam ser responsabilizados por seus atos. Se existe uma divisão fundamental entre liberal e conservador na mídia, é essa.

Lelyveld garante: ‘Vou espernear se for forçado a seguir essa tendência. Acima de tudo, repudio o jornalismo que age como censor moral para a sociedade’. De sua parte, Marvin Olasky, um cientista político conservador e editor de revista de notícias cristãs, acaba de publicar um livro, The America leadership tradition, que equaciona a boa presidência com a fidelidade sexual. Os políticos conservadores já aceitaram o desafio sugerido nessa abordagem: Dan Quayle, o ex-vice-presidente no governo de Ronald Reagan que é, ele próprio, um possível candidato à nomeação republicana, declarou que nunca foi infiel.

O efeito é conferir sanção religiosa à busca de sujeira – uma bênção necessária em um país ainda tão praticante quanto os Estados Unidos. Ao mesmo tempo, uma cultura de celebridade e de expressão sexual, em um país saciado de contentamento material cada vez maior, produziu uma firme deserção das classes médias da vida pública, optando por prazeres privados – de modo que a própria política, para ser compreendida, precisa ser revestida de falso brilho e coberta de roupas íntimas femininas.

‘É uma grande pena’, escreveu Voltaire, em suas Cartas sobre a Inglaterra, ‘que sua nação esteja inundada por escândalos e obscenidades! Entretanto, é preciso vê-los como os maus frutos de uma árvore muito boa chamada liberdade.’ Esse é o derradeiro argumento para o jornalismo que ofende o gosto da elite: o de que em sua vulgaridade ele expressa a liberdade.

O argumento apresentado agora é que o jornalismo foi tão longe a ponto de destruir, ou pelo menos danificar, os instrumentos nos quais a liberdade se sustenta.

 

As reportagens

Veja a seguir os dez primeiros colocados da lista das cem melhores reportagens americanas:

1 – Hiroshima (John Hershey) – Baseado em depoimentos de sobreviventes ao ataque nuclear. Publicado em agosto de 1946 pela revista The New Yorker.

2 – Ambientalismo (Rachel Carson) – Libelo da bióloga contra os efeitos do pesticida DDT. Publicado em 1962 também pela The New Yorker.

3 – Watergate (Bob Woodward e Carl Bernstein) – Cobertura do escândalo que fez Nixon renunciar. Publicada em 1972 pelo jornal The Washington Post.

4 – Ataque nazista (Edward Murrow) – Cobertura opinativa dos bombardeios alemães sobre Londres em 1941. Transmitida pela Rádio CBS.

5 – Antitruste (Ida Tarbell) – Série sobre ilegalidades no truste da Standard Oil. Publicada na revista McClure’s, em 1911.

6 – Corrupção (Lincoln Steffens) – Série em estilo romanceado sobre prefeituras americanas nos anos 20. Também publicada na McClure’s.

7 – Revolução russa (John Reed) – Relato parcial que gerou o clássico Dez dias que abalaram o mundo, prefaciado pelo próprio Lênin.

8 – Julgamento do macaco (H. L. Mencken) – A luta de um professor que em 1925 ensinava evolução em vez de criacionismo, pelo maior nome do jornalismo americano.

9 – Segunda Guerra (Ernie Pyle) – Relatos impressionistas do conflito em ilha japonesa. Publicado pela rede de jornais Scripps-Howard.

10 – Macarthismo (Edward Murrow) – Série na TV sobre a perseguição anticomunista dos anos 50. Veiculado pela CBS." (Financial Times)

‘O jornalismo investigativo é realmente livre?’, copyright Gazeta Mercantil, 1/4/99

 

REVISTAS
Marcelo Coelho

"Não entendo nada de política internacional. Mas assisto pela TV às cenas dramáticas dos refugiados albaneses, vejo o nacionalismo sérvio fortalecer-se com o ataque da Otan, ouço críticas ao novo jogo de guerra de Clinton e seus rapazes e percebo que as atenções mundiais estão fixadas na crise iugoslava.

Passo, entretanto, por uma banca de jornais. IstoÉ dedica sua capa a um brócolis dentro de uma proveta – ‘Alimentos que Curam’ é o título da reportagem. A capa de Época nos informa sobre os males do tabagismo e os novos métodos para parar de fumar. Veja destaca o desmatamento na Amazônia.

Será que não estamos um pouco alienados do mundo? Não digo que o desmatamento da Amazônia seja pouca coisa. Mas o papel de ‘vegetais e frutas’, como diz IstoÉ, na prevenção de doenças, ou do cigarro em causá-las... francamente.

Reconheço que alguém da Folha não tem muita moral para criticar. Este jornal costuma dar pouco espaço a assuntos internacionais. Provincianismo, talvez. Mas também porque os problemas do Brasil não param de acontecer. Temos nossas crises: mensais, semanais, diárias.

Aí é que entra a verdadeira razão de minha birra com as revistas semanais. O importante não é que tratem de Kosovo na capa. Mas sim que tenham capas tão desimportantes.

Eis alguns assuntos das capas de Época nas últimas semanas: a nova mulher (‘Frágil era a vovozinha’); a terapia de vidas passadas; a cirurgia plástica (‘Vaidade não é pecado’). IstoÉ responde falando de doenças cardíacas, da ‘fúria das ex-mulheres’, e de ‘mulheres influentes’, com Hebe Camargo na capa.

Veja contra-ataca com uma capa sobre depressão, outra falando de erros médicos, outra com a reportagem ‘Unidos pelo divórcio’ (como pais e filhos se relacionam em famílias formadas por segundos e terceiros casamentos), mais uma sobre vícios (sexo, drogas, comida, cigarros, bebida) e – surpresa – cirurgia plástica.

Meu propósito não é ficar criticando as revistas semanais. Tenho só duas observações a fazer.

A primeira é sobre a tão elogiada livre concorrência. Teoricamente, deveria levar sempre a uma melhoria nos produtos e a um aumento nas escolhas do consumidor. (...) Não me importa muito a diferenciação entre duas marcas de carro ou quatro marcas de sabão em pó. Mas se o ‘produto’ é informação, opinião, cultura, fico assustado. Nas revistas semanais, a terapia de vidas passadas concorre com a alimentação saudável, a plástica com a malhação, a nova mulher com a ex-mulher, o infarto com o enfisema.

Um autêntico liberal diria que essa convergência de assuntos não tem nada de errado, pois reflete aquilo que mais interessa ao leitor. Ou, melhor dizendo, ao ‘consumidor’.

Chego ao segundo ponto que queria destacar. A julgar pelas revistas, então, a classe média brasileira está totalmente voltada para o próprio umbigo. Ou ‘umbiguinho’, como se diz agora. Pode ser que tenhamos sido sempre provincianos, como escrevi acima, e que a Iugoslávia esteja de fato longe demais. Mas vejo coisas como a virtual derrocada do malufismo; o dinheiro (o meu, o seu) que escoou do Banco Central; as mazelas do Judiciário; as mazelas das telefônicas; os famosos cortes nos gastos sociais... temas de interesse público, afinal, e não privado.

Será que só o interesse privado, contudo, mobiliza o leitor? Saúde, consumo e comportamento? Ia-me esquecendo: há também o tema da segurança.

É como se, tradicionalmente voltados apenas para o próprio país, sem nos dar conta de crises internacionais, agora estivéssemos apenas fechados dentro de casa – ou dentro do shopping. No fundo, é isso o que as revistas estão a refletir. Mas bem que poderiam lutar mais contra essa asfixia.

"Plástica ou malhação? Isso mexe com você", copyright Folha de S. Paulo, 7/4/99

 

LINGUAGEM
Luis Fernando Veríssimo

"Há dias vi um cartum que era assim: um homem cujo computador pifara, impedindo-o de usar seu e-mail, parado com um envelope na mão diante de uma caixa de correio e pensando: ‘Como é mesmo que funciona esse negócio?’

Quem se acostumou a despachar sua correspondência clicando o send pode mesmo ter problemas com o complicado processo de comprar um envelope, dobrar a carta e botar dentro do envelope, fechar e selar o envelope cuidando para não ficar com cola nos dedos, e depois ainda ter que descobrir como se enfia o maldito envelope pela abertura de uma caixa de correio. Com todo esse trabalho para mandar cartas, como os antigos tinham tempo para escrevê-las?

Mas escreviam muito mais do que nós, e acho que existe uma relação direta entre dificuldade e quantidade – e qualidade. Não há nada parecido, na era dos escritores eletrônicos, com o volume de correspondência dos escritores a pena, que além de manuscrever livros que pareciam monumentos manuscreviam cartas que pareciam livros. Quanto mais fácil ficou escrever, menos os escritores escrevem. Os livros ficaram mais finos e a correspondência se reduziu a latidos digitais, breves mensagens utilitárias, send e pronto. Já um George Bernard Shaw escrevia uma peça atrás da outra com introduções maiores do que a peça e ainda tinha tempo para escrever cartas para todo o mundo.

Geralmente xingando-o, o que exigia mais tempo e palavras.

Desconfio que a nova técnica também constrangeu o jornalismo. As barulhentas redações pré-eletrônicas eram áreas conflagradas onde o combate com o teclado duro era um teste de resolução e resistência. Depois vieram os computadores e a briga diária com o instrumento de trabalho e, por extensão, com a empulhação oficial e com as idéias recebidas, foi substituída pela facilidade, e pela reverência. Enfim, pelo jornalismo pacífico. E isso que a gente muitas vezes confunde com subserviência ou resignação ao Pensamento Único pode muito bem ser apenas um efeito do teclado silencioso.

"Dos teclados", copyright O Globo, 10/04/99

 

PREÇO
Painel do Leitor

"‘A Folha faz alarde das remarcações de preços e do desemprego que assolam a economia, mas sorrateiramente demite seus funcionários e aumenta o seu próprio preço sem dar uma justificativa sequer.’

Mario Augusto Alves Brunido (São Paulo, SP)

‘Quero parabenizar a Folha por esse aumento de 25% nos exemplares vendidos em banca. Reajustar o meu salário que está congelado há exatos cinco anos é contribuir para a inflação. Os outros reajustaram em 20%. Qual a razão dos 5% a mais da Folha?’

Antonio de Padua Souza (São Paulo, SP)

‘Estou indignado com o aumento de 25% no preço da Folha nas bancas. A Folha pode alegar que usa matérias-primas importadas, vinculadas ao dólar. Se esse for o motivo, por que não negocia com os fornecedores?’

Roberto Gazarini Dutra (São Paulo, SP)

‘Como se justifica um aumento de 25% quando sabe-se que a inflação acumulada nos últimos 12 meses não passa de 6%? Defensoras que são da política cambial e econômica do governo FHC, as empresas que editam jornais estão admitindo, com esse aumento de 25% do seu preço de capa, que os ‘neobobos’ e ‘fracassomaníacos’ estavam certos?’

Evanildo Alves (São Paulo, SP)

Nota da Redação – As despesas do Grupo Folha em dólar representam cerca de 30% de seus gastos totais, conforme já noticiado. Nas edições de segunda a sábado, o preço do exemplar comprado nas bancas foi reajustado em 25%. É uma porcentagem substancialmente inferior à inflação (37,5%) e à alta do dólar (95%) registradas entre o último reajuste, em 2/6/95, e ontem. Quanto às edições de domingo, o preço do exemplar foi reajustado também em 25%, no nível da inflação (25,3%) e muito aquém da valorização do dólar (85%), entre o último reajuste, em 13/11/95, e ontem. Com relação às demissões, elas representaram 4,3% da mão-de-obra do grupo, porcentagem obtida à custa do corte drástico de outras despesas, justamente para preservar ao máximo o emprego numa conjuntura de recessão que afeta todos os setores da economia."

"Aumento de preço", copyright Folha de S. Paulo, 27/3/99



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