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MÍDIA & MERCADO
Noenio Spinola

 

"Os jornais brasileiros começaram a mudar de formato na semana passada, despertando mais discussões no meio jornalístico do que críticas dos leitores.

Provavelmente isso se explica porque há uma propensão ou um desejo elitista de ‘organizar a cultura’ (termo tomado emprestado de Gramsci), sem levar em conta a capacidade das pessoas para decidir o que lhes interessa.

Mudar o formato dos jornais é um risco que as empresas correm num universo de intensa competição nas bancas e nos lares. Trata-se realmente de um alto risco. O ‘produto’ vendido está disputando as áreas da percepção e da inteligência, e não apenas o bolso dos consumidores. Não se ‘consome’ um jornal. ‘Lê-se’ um jornal.

Não se julgam jornais como se julgam sabonetes, pastas de dentes ou desodorantes. Desconfiar da capacidade de percepção dos leitores e achar que as empresas podem impor seu produto ao mercado é um erro mortal, uma manifestação de menosprezo pela inteligência do leitor.

Jornais não existem num vácuo. Eles disputam palmo a palmo o espaço ocupado por outras mídias. O Brasil é um país onde os aparelhos de TV em cores pularam de 72% para 96% dos lares nos últimos cinco anos. Uma em cada duas famílias na Grande São Paulo e no Grande Rio possui automóvel, invariavelmente equipado com seu respectivo rádio. Os CDs pularam de 8% para mais de 40% das residências, e nelas a Internet vem penetrando com espantosa velocidade.

A Internet, que era zero em 1993, foi para 1% em 1996 e provavelmente já ‘plugou’ uma terça parte da classe média mais alta. Todos os micros que saem atualmente de fábrica vem com capacidade de comunicação.

O índice de busca seletiva de informações medido pelo JB Online é surpreendentemente alto, e o mesmo acontece com serviços semelhantes mantidos por outros jornais nacionais e estrangeiros. A velocidade de crescimento das livrarias virtuais é muito maior que as livrarias e métodos de venda tradicionais.

Em não mais que dois ou três anos um jornal de grande circulação conquistou para seu canal na Internet o equivalente a uma terça parte da base de assinantes que levou cem anos para construir.

A migração entre a notícia ‘on line’, a notícia impressa e a busca de ‘percepção’ no texto impresso é uma característica do meio em que circulam os jornais. A percepção é o espaço por excelência da mídia impressa. O leitor já sabe isso. Já ‘percebeu’ isso e está muito mais equipado para descobrir os jornais no caminho certo do que desconfiam todos aqueles que querem ‘organizar a cultura’ de cima para baixo.

Nesse ambiente supercompetitivo, jornais podem investir em hardware (máquinas, equipamentos), em matérias-primas (papel, tinta) ou em gente. O jornal inteligente investirá cada vez mais em gente, em qualidade do material humano, se quiser sobreviver na nova atmosfera. Terá um olho na tecnologia e outro na qualidade do texto.

Por isso, a perplexidade com o corte dos gastos em papel é uma atitude reacionária, pois manda para o escanteio a capacidade do leitor para escolher e a capacidade da empresa para investir melhor os recursos poupados.

Entre economizar no papel e gastar dinheiro com o treinamento e a qualificação de redatores, pessoal das áreas de software, administrativa e industrial, a opção correta não é o apego ao velho formato físico. Houve uma longa campanha de esclarecimento e os leitores entenderam a mensagem.

Segundo Fernando Martins, diretor da Associação Nacional de Jornais (ANJ), que ouviu associados em todo o país na semana passada, pode-se chegar a um balanço favorável sobre as mudanças.

Essas mudanças não foram nem poderiam ser uniformes.Alguns jornais puderam mudar imediatamente as unidades e dobradeiras de suas rotativas, remanejando também o estoque de papel. Outros decidiram fazer isso por etapas. Jornais são operações industriais e técnicas complexas, onde as mudanças no software (os programas que comandam a transmissão de texto e imagens) são muito mais rápidas que as mudanças físicas, no hardware. Quem se agarrar ao hardware no mundo contemporâneo afundará com ele.

Outro bom sinal indicativo da qualidade das mudanças entre o jornal e seus leitores é a velocidade com que aumenta a comunicação através do correio eletrônico, em lugar da velha carta. Cada vez mais os leitores usam o E-Mail para suas manifestações de apoio ou crítica às redações. Meu próprio E-Mail registrou apenas uma (1) carta com críticas ao novo formato físico do Caderno B e à redução da mancha impressa, de um total de 300 versando sobre vários outros assuntos. Trata-se de uma experiência que só se pode ter dentro do fogo cruzado das redações. Mais do que nunca, seu E-Mail sobre o mundo real será bem recebido."

"Por que mudou o formato dos jornais", copyright Jornal do Brasil, 11/7/99

 

Gabriel Priolli

"Quais as perspectivas de futuro para a televisão brasileira? O que será que acontecerá com esta mídia, que completará 50 anos de existência no Brasil em pleno 2000, ano simbolicamente inaugural de ‘nova era’ planetária? Será se ufanando de ser ‘a quarta televisão do mundo’, pelo critério de cobertura geográfica da audiência? Seguirá respeitada mundialmente pela criatividade e qualidade técnica? Seguirá se robustecendo dentro do país e ousará disputar mercados, cada vez mais, fronteiras afora? Ou será, ao contrário, tragada pela onda globalizante, convertendo-se em mais uma ‘aplicação’ do capital internacional - flutuante, descontrolado e predatório? Conseguirá se manter brasileira, preservando a identidade cultural, caso convertida em ‘filial’ de grandes empresas transnacionais? Dará melhores programas aos telespectadores? Dará a si mesma, enfim, um destino de grandeza, ou se entregará à servidão e à irrelevância, no reinado da mídia global?

Não há muito espaço para a discussão desse tema, na conjuntura que a TV brasileira atravessa. Afinal, ‘questões’ muito mais urgentes ocupam a todos, na irresponsabilidade em que, geralmente. transcorrem os debates sobre o principal meio de comunicação do país. Ana Maria Braga é brega para a Globo? - pergunta-se. Pode Sérgio Mallandro aterrorizar o auditório, disparando tiros de festim para o ar, a título de ‘pegadinha’? É ‘jornalístico’, como sustenta Ratinho, exibir uma prostituta tailandesa ‘fumando’ pela vagina? Enquanto as respostas saciam a fome geral de trivialidade e escapismo, os problemas substantivos vão ficando para depois.

O debate está desfocado, sem dúvida, mas há elementos suficientes para permitir que a visão alcance além da banalidade. É possível, no mínimo, especular sobre o que sucederá na próxima década, caso sejam mantidas as tendências atuais e caso aconteça, nos planos econômico e jurídico, aquilo que promete acontecer. Desde já, é viável sustentar, que, como o planeta nesta transição de milênio, a TV entrará em nova era, não necessariamente redentora e luminosa. Chamar-se-á ‘Era da Concorrência’, porque é disso que se trata e disso que todos se ocuparão, quando ficar nítido que os tempos de hegemonia absoluta da Rede Globo se foram e que o Big Brother, na versão brazuca agora será multipolar.

Os últimos 30 anos de televisão brasileira foram marcados pelo domínio incontrastável da Globo. Desde o lançamento do ‘Jornal Nacional’ e o início de suas operações em rede, em 1969 o empreendimento de Roberto Marinho não fez outra coisa senão crescer, conquistando a liderança de audiência em todo território nacional e se tornando um gigante empresarial, robustecido por 60% dos investimentos publicitários nacionais. A Globo conquistou tal envergadura, e tal espaço, que se fez um elemento indissociável do jogo político, além de peça grande da engrenagem econômica, em torno da qual muitos negócios e interesses se articulam. Esta Globo, no entanto, está acabando. Como já apontou anteriormente esta coluna, vem perdendo audiência em todas as frentes de programação, nos anos 90. Por mais que a sua publicidade tente mostrar que ela segue líder na TV nacional - o que ainda é verdade - , oculta o fato de os dados usados serem de anos recentes. Se comparados aos da década de 70,eles mostrarão que a audiência caiu em média de 70% para algo em torno de 50%, e que a curva mantém a tendência de queda, não de recuperação.

É certo que a audiência perdida migrou apenas para os concorrentes diretos, mas igualmente para a TV paga, que se implantou nesta década com dezenas de novos canais e atraiu a atenção da elite, estando hoje presente em 2,6 milhões dos 35 milhões de lares dotados de televisor no país. Mas é certo também que SBT, Record e Bandeirantes, sobretudo as duas primeiras, ampliaram a sua participação na preferência dos telespectadores. Resultado, com certeza, de sua maior qualificação técnica e artística, em que pesem as concessões ao populismo. Hoje em dia, já não é tão abissal a distância que separa a Globo de suas concorrentes. O nivelamento é cada vez maior, tanto na manufatura dos produtos quanto no seu conteúdo, e parece depender apenas da eqüidade de recursos financeiros para que todas as principais redes se igualem.

Digamos que os recursos venham, como se espera, do investidor estrangeiro. As duas propostas de emenda constitucional que tramitam no Congresso, abrindo a radiodifusão ao capital externo, serão examinadas e votadas ainda este ano. Ninguém imagina que sejam derrotadas, a despeito da oposição da Globo, que nada tem a lucrar com elas. A discussão já está centrada no percentual de participação alienígena no capital votante das empresas de rádio e TV nacionais: se 30%, se menos, se mais, se poderá ou não ter maioria. Logo, os sócios gringos virão. E, com eles, os dólares, que são que interessa.

Não faltará dinheiro às redes hoje superadas pela Globo, para que disputem terreno com ela em pé de igualdade.

Entretanto, a idéia de que a competição será travada na sedução da classe C, pela migração das classes A e B para a TV paga, não se sustenta. Primeiro, porque o crescimento da TV paga estagnou há quase dois anos e parte da elite já a abandonou, insatisfeita com os canais que lhe são oferecidos (convém não desprezar o depauperamento do padrão de gosto dessa elite, que no passado repudiava o ‘brega’ e hoje delira com cantores sertanejos, Carla Perez e Ratinhos). Depois, porque a própria TV paga mira na classe C, tentando atraí-la com pacotes de assinaturas mais baratos, na faixa de R$ 20. Isso quer dizer que teremos , dentro em breve, todas as classes sociais, ou a maioria delas, tanto na TV aberta quanto na TV fechada. As grandes redes, portanto, competirão indistintamente entre si e com os canais pagos, pela conquista do mesmo público.

O diferencial competitivo estará, talvez, no domínio e exploração mais rápida das novas tecnologias de imagem. Quem implantar primeiro a TV digital em alta definição ou a convergência da TV com a Internet, terá grande vantagem. Sobretudo esta segunda, que abrirá a possibilidade da propaganda interativa, isto é, daquela que permitirá ao telespectador, pelo teclado de televisor, tomar mais detalhes sobre o vestido da estrelinha da novela ou o carrão do galã, e comprá-los on line. Não por acaso, grande entusiasta dessa nova ferramenta é Marluce Dias da Silva, superintendente da Globo, que dedicou a ela boa parte de uma recente e concorrida palestra em São Paulo.

O diferencial estará, também, na disputa do mercado externo, que será a contrapartida da internacionalização da TV brasileira. Quem se equipar melhor para produzir e vender programas ao gosto de outros países conseguirá, talvez, superar o nivelamento presumível do mercado interno. Também a isso a Globo está atenta, com a experiência de exportação para mais de 100 países, três empreendimentos no exterior (a Tele MonteCarlo, fracassada, e a SIC e A Cabo Portugal, vitoriosas), e a recém-lançada Globo Internacional, emissora via satélite voltada aos emigrados brasileiros dos Estados Unidos, Europa e Japão.

Concorrência, pois, é o que parece reservar o futuro à TV. Já vimos que a Globo foi poderosa o suficiente para sustentar três décadas de liderança, enquanto rivalizou apenas com os tapuias. Veremos agora se tem bala na agulha para enfrentar cheyennes e sioux da globalização."

"Era da concorrência", copyright Gazeta Mercantil, 16/7/99

 

Alberto Dines

"Ele dizia ‘Quem não se comunica, se trumbica’. A claque do Milagre Brasileiro acreditou no patriarca da cultura brega, encheu os bolsos e deixou um montão de escombros. Passadas duas décadas, em plena era da competição global e do renascimento do capitalismo brasileiro, nada se faz sem antes lembrar do Chacrinha e acionar a usina da badalação.

‘Comunico, logo existo’ é a nossa versão nada cartesiana do processo existencial, palavra de ordem de um paradigma montado em torno do gogó. A publicidade e o marketing são criações da América do Norte, mas essa fixação nas imagens com solene menosprezo pelo que contêm é subproduto da América do Sul, mais precisamente do Brasil.

Numa mistura de ingenuidade com malandragem balanceada por uma incrível criatividade, estabelecemos uma idolatria cibernética, padrão star wars. A embalagem tem precedência sobre a mensagem, a aparência importa mais do que o conteúdo, a inovação tecnológica ‘de ponta’, vale mais do que a estrutura. Como todos clamam por mudanças e não há tempo a perder, produzimos fulminantes revoluções - através de sedutores anúncios, maravilhosos slogans e fulgurantes outdoors.

E quem deveria estrilar, esfrega as mãos, contente com o faturamento. A grande verdade é que a partir do momento em que imprensa converteu-se em mídia perdeu sua capacidade institucional de funcionar como consciência crítica, a despeito de indignações isoladas. Essa é uma das desfunções percebidas ainda em 1976 por Daniel Bell, no seu clássico The Cultural Contradictions os Capitalism. O ex-jornalista, depois professor de Colúmbia e Harvard, hoje com 80 anos, além do seu dom especial para títulos, tem percepções proféticas: em 1960, em plena Guerra Fria, escreveu The End of Ideology, uma antevisão dos dias de hoje.

Nos últimos dez dias, tivemos três vistosos exemplos do simplismo que confunde o anúncio de mudança com a mudança propriamente dita. Dois deles, pura prestidigitação. Ilusionismo. Sem entrar no mérito das questões subjacentes (exercício difícil num ambiente de alta voltagem emocional), a coisa começou bem com a espetacular divulgação da megafusão cervejeira. Com saxônica discrição, Brahma e Antarctica prepararam em sigilo uma complicadíssima operação acionária e, quando finalmente acionaram a alavanca da comunicação, estava tudo pronto, armado e previsto. Inclusive, os imprevisíveis humores dos órgãos reguladores.

Já na mudança de discagem das ligações telefônicas de longa distância deu-se o inverso: as operadoras gastaram uma fábula em propaganda sob o olhar complacente das autoridades e, na hora de trocar o auscultador gestual de Ana Paula Arósio pelo ato de digitar efetivamente um número, o sistema entrou em colapso.

Distraídos pela e empenhados na guerra da propaganda (desnecessária, considerando que só havia uma opção nacional ou internacional e apenas duas nas disputas regionais) os protagonistas descuraram do principal: eficácia. A débacle poderia ter sido evitada se a imprensa não fosse mídia e se o jornalismo hoje vigente estivesse antenado para a prevenção. Não está. E uma das razoes é o engajamento direto ou indireto de muitos grupos de comunicação nacionais no negócio das telecomunicações. Apesar da semelhança dos nomes esses ramos são conflitantes: os primeiros devem produzir informações a serviço do interesse público, os outros transportam essas informações, concessionários de um serviço público. Fiscal não pode dedicar-se à atividade fiscalizada - dá cartão amarelo.

A terceira amostra do nosso fascínio pelo ritual festivo da anunciação foi dada na terça-feira pela própria mídia através do seu setor mais responsável - os diários - que prometeram um novo formato. Nossos jornalões foram a um spa e decidiram que ficarão mais esbeltos, fisicamente mais próximos dos tablóides. Nada contra os tablóides ou semi tablóides, alguns dos melhores jornais do mundo são de pequeno formato (caso do francês Le Monde e do espanhol El País).

Os problemas começam com a questão central destas observações: houve anúncio, mas não houve mudança. Apesar da badalação, o dia D não aconteceu porque não era para acontecer. Ensaio geral: apenas um mudou efetivamente as dimensões, os outros fingiram a lipoaspiração. A esta altura, com os retardatários evidencia-se, além do estreitamento, uma perda na área impressa não mencionada na cruzada de anúncios. O pior é que, como em toda cirurgia plástica improvisada, as novas feições não se adaptaram ao velho corpo.

O problema é bem mais profundo do que o corte dos 2,54 centímetros na largura da página. E não diz respeito apenas às corporações profissionais ou empresariais nele envolvidas. A mudança conduzirá inevitavelmente à diminuição da quantidade de informações. E, dada a preferência para o trivial que a nossa imprensa mimetizou da TV, implicará uma alteração de teor. Uma mudança no formato dos jornais implica obrigatoriamente em mudança de concepção. Sobretudo diante das chamadas ‘novas mídias’ que não têm limitações de espaço ou tempo.

Por trás da pretendida melhora na portabilidade dos nossos jornais está embutido um problema mais grave: o leitor não foi consultado e ficou sem opções. O único que recusou a estandartização foi a prestigiosa Gazeta Mercantil. Dirigida a um público especializado, não chega a constituir-se como alternativa, mas a sua resistência (manifestada também numa série de anúncios) ajuda a configurar um quadro cartelista sobre o qual nem governo nem oposição gostam de debruçar-se.

Esse é um debate que precisa avançar. E, como debate, não pode ficar restrito ao âmbito das mensagens publicitárias. Nossa inclinação para proclamações enfáticas, festeiras e rasas reclama um pouco mais de substância. Seja no campo das cervejas, telefonia, mídia. E idéias.

Diferente das ditaduras, nesta era da concorrência quem se trumbica com tanta comunicação são os Chacrinhas e as chacretes."

‘A volta do Chacrinha’, copyright Jornal do Brasil, 10/7/99

 

Johnnie L. Roberts

NEWSWEEK

"Os executivos de produção de TV de Peter Chernin já estavam no escritório da Twentieth Century Fox quando ele chegou para uma reunião em 8 de junho. Em seu estilo afável, o presidente-executivo do Grupo Fox rapidamente passou a falar de negócios. Chernin pretendia fazer cortes no orçamento de US$ l bilhão das produções Ally McBeal, Dharma & Greg e das demais 30 séries recordistas do horário nobre que o Grupo Fox produz. Foi então que Rupert Murdoch, cuja empresa News Corporation controla a Fox, surgiu à porta do escritório. ‘Peter, posso falar com você fora daqui?’, perguntou afetuosamente.

Os dois são tão íntimos que a conversa poderia ser sobre qualquer coisa. Talvez Murdoch tenha feito um resumo do seu dia, consumido em divorciar-se de Anna, sua mulher por 32 anos. Talvez fosse para convidar Chernin para seu casamento com Wendi Deng, de 32 anos, em New York Harbor, a bordo do seu iate, marcado para dali a 17 dias. (Chernin compareceu.) Ou talvez se tratasse de uma conversinha de rotina sobre a viagem iminente de Chernin à Alemanha, onde está reproduzindo a estratégia de Murdoch, que ajudou a fazer da Fox Network um colossal sucesso nos Estados Unidos. ‘Eles se aconselham de minuto em minuto’, diz um alto executivo de Murdoch.

Aos 68 anos de idade, Rupert Murdoch, tornou-se um monarca em fim de reinado e Peter Chernin seu lorde provedor. Chernin é também o homem que Murdoch espera fazer sucessor na administração da companhia - pelo menos até que os filhos do gigante da mídia estejam em condições de fazê-lo. Murdoch, o controvertido visionário que transformou mundialmente os aspectos comerciais da mídia, insiste que não está perdendo o pique. Gradualmente, continua a construir seu império global, mesmo quando sua vida pessoal ficou parecida com os dramas que põe no ar no horário nobre. Há romance, desavença conjugal e crianças ambiciosas: os irmãos Lachlan, de 27 anos; James, de 26; Elisabeth, de 31, são constantemente descritos como antagonistas em luta para deter o poder sobre a corporação. O relacionamento de Murdoch com Deng, que se demitiu no último outono das funções de executiva da empresa de TV por satélite pertencente ele, também atraiu o tipo de manchetes de mau gosto que seus tablóides costumam infligir a outros.

Entretanto, em meio a todo o tumulto, a companhia de Murdoch só tem prosperado. As ações tiveram a alta expressiva de 34% este ano e a News Corp. é admirada em todo o setor como um grupo de empresas auto-suficientes da mídia global. A unidade de entretenimento da Fox produz um caudal de shows e filmes de sucesso na TV - entre eles seis das dez maiores bilheterias de todos os tempos - que são distribuídos para as operadoras de TV por satélite, canais a cabo e emissoras convencionais de propriedade da News Corp., espalhados por cinco continentes. Quase da noite para o dia, a News Corp. tornou-se uma potente usina na programação infantil e desportiva. E os analistas concordam que um fator axial do sucesso da News Corp. é Chernin, o presidente da companhia que parece possuir rara mestria tanto no lado criativo quanto no aspecto corporativo do negócio.

‘Acho que isso vem da minha especialização em literatura, minha matéria principal na faculdade’, brinca Chernin, que estudou em Berkeley. A potência estelar emergente de Chernin também representa o que muitos investidores afirmam ser o pedaço que falta ao perfil da News Corp.: um sólido plano de sucessão. A dominação completa que Murdoch exerce sobre a companhia, e seus métodos aventureiros, há muito vêm deixando nervosos os investidores. O estilo de administração autocrático e tempestuoso funcionava quando a empresa era pequena.

Começando com um único jornal australiano, em 1952, Murdoch foi durante anos o intruso irritante que agia independentemente, usando freqüentemente conteúdo picante - como a dose diária de mulheres com os seios à mostra, no jornal britânico Sun - para invadir mercados. Com freqüência teve êxito ao agir com rapidez e levou a melhor nas artimanhas para vencer gigantes da mídia estabelecidos com fortes posições em várias partes do mundo - em 1994, por exemplo, Murdoch deixou atônita a CBS, ao arrematar para a Fox, numa única negociação, oito das afiliadas dela.

Mas, à medida que a News Corp. crescia, tornando-se parte da mídia estabelecida - é agora uma companhia de US$ 13 bilhões, dos quais a família possui 30% -, o estilo individualista de Murdoch apresentava-se cada vez mais como um risco para os investidores. A dúvida sobre o que poderia acontecer à News Corp., depois de Rupert, crescia no horizonte. Em 1994, o magnata natural da Austrália incluiu Lachlan, dando-lhe controle completo sobre as atividades na Austrália e tornando-o virtualmente o sucessor. No princípio deste ano, Murdoch também incluiu no portfólio de Lachlan os negócios da área editorial que mantinha nos Estados Unidos. Atualmente, Lachlan está encarregado de empenhar-se no enxugamento dos custos da companhia em escala mundial. Mas o rompimento matrimonial do patriarca reacendeu os rumores sobre as disputas entre irmãos.

Agora, o próprio Murdoch está dando claras mostras de que Chernin permanecerá no cargo por bastante tempo. Numa entrevista à Newsweek, realizada em seu escritório de Nova York, Murdoch admitiu o que muita gente do setor está cochichando: tão cedo Lachlan não estará em condições. O mesmo acontece com Elisabeth e James: ‘Peter é muito mais experiente que eles.’ Indagado sobre a equipe de gerenciamento, no caso de ele ficar sem poder comandar a News Corp., Murdoch fez uma pausa: ‘Não gosto fazer planos sobre a minha morte. Certamente, seria assunto a ser tratado pelo conselho.’ Ele imagina que Peter provavelmente seria o presidente. ‘Talvez Lachlan se tornaria presidente do conselho.’

O noivado de Murdoch com Deng foi o quanto bastou para atrair frenéticas especulações sobre um papel de nível corporativo para ela no futuro. Mas Murdoch não revelou a seus círculos mais íntimos nenhum plano dessa natureza. Murdoch insiste que teve ‘as energias recarregadas’ com o novo relacionamento e diz que ‘os herdeiros terão de fazer o que mando ou me remover do caminho’.

Mesmo Lachlan, numa entrevista durante almoço no salão de refeições reservado da News Corp., procura não dar importância à idéia de ser o herdeiro forçado. Ele e seus irmãos estão muito atarefados na empresa, diz, e ‘não temos tempo para tramar como enterrar a faca nas costas uns dos outros’. O irmão James concorda. ‘Ninguém teria problema com Peter como sucessor.’ Ele e Elisabeth também têm funções importantes na News, embora nenhum dos dois participe do conselho.

Não é de admirar que os Murdochs sejam os primeiros a aplaudir a ascensão de Chernin para o foco das atenções. Sua disciplina organizacional é bem-vinda numa companhia que em 1990 quase desmoronou sob o peso do endividamento geral. Chernin é tido em alta conta nos meios mais bem-informados do setor, por ajudar a ajustar o foco e fazer a integração dos elementos dispersos da companhia, com métodos inovadores. Ajudou, ainda, a tornar mais lucrativos os negócios de TV e filmes, principalmente por ter dado luz verde ao Titanic, o filme que rendeu a maior bilheteria de todos os tempos. Cerca de quatro anos atrás, Chernin, que já foi editor de livros, convenceu Murdoch a gastar US$ 70 milhões para contratar os melhores roteiristas e produtores de Hollywood, incluindo David Kelley, o talento por trás das câmeras em Ally McBeal e The Practice, além de Chris Carter, que expandiu Arquivo X. Resultado: a Fox é atualmente a maior produtora de programas de TV e as receitas estão fluindo copiosamente.

Chernin também se destacou no marketing da empresa em Wall Street, fazendo grande sucesso com platéias de altos investidores. Há duas semanas, em uma conferência de mídia de Merril Lynch, em Londres, disse aos investidores que as vendas de apenas uma meia dúzia de reprises produzirá US$ 1,5 bilhão em lucros nos próximos anos. ‘Meu Deus!’, gritou um membro da platéia. Tendo operado na vasta sombra de Murdoch, Chernin era pouco conhecido em Wall Street até recentemente. Mas, agora, acredita Gordon Crawford, um gerente de investimentos cujo fundo é o terceiro maior acionista da News Corp., ‘é importante projetar a imagem de que a News Corp. não é o espetáculo de um homem só’. ‘Peter merece a atenção’, diz Murdoch. ‘Mostrou ser um líder extremamente capaz, muito hábil no trato com com as pessoas.’

Desde o início, Chernin pareceu destinado a tornar-se o favorito de Murdoch. Logo depois que Barry Diller, o ex-dirigente da Fox, contratou Chernin para administrar a Divisão de Programação de Rede da Fox, Murdoch lançou os olhos sobre ele em um retiro da administração na Califórnia. As habilidades administrativas e o toque pessoal do homem mais jovem ajudou-o a galgar postos dentro da corporação, chefiando a rede e depois o estúdio.

No momento, Chernin está concentrado no próximo vislumbre no olhar de Murdoch: o mercado europeu de televisão. Em dezembro último, Chernin aprovou a transação de US$ 40 milhões da News Corp. para assumir o controle da TM3, um canal a cabo destinado a mulheres na Alemanha com poucos telespectadores e US$ 25 milhões em prejuízos anuais. Em maio, Chernin orientou a TM3 a pagar mais de US$ 400 milhões para conseguir a popular Liga de Campeões da Europa de futebol, aturdindo o país que é grande aficcionado do esporte. Foi uma estratégia inspirada pela compra pela Fox dos direitos de transmissão da NFL por US$ 1,6 bilhão em 1993 - uma medida que ajudou a solidificar a Fox como a ‘quarta rede’."

"Império de Rupert Murdoch já tem sucessor", copyright O Estado de S. Paulo, 12/7/99

 

MÍDIA E DEMOCRACIA
Clóvis Rossi

"A revista britânica The Economist iniciou, no número que está nas bancas, uma série de reportagens que tenta responder à inquietante pergunta do título do primeiro artigo: ‘Há uma crise?’ (da democracia).

O pacote de pesquisas que a revista publica diria que sim. Em um grupo de 18 países ricos, a confiança nos políticos (e nas instituições de modo geral) está declinando a uma velocidade fenomenal.

Um exemplo, entre muitos: nos EUA, até os anos 50 e 60, cerca de 75% dos pesquisados diziam que podiam confiar no governo a maior parte do tempo. Hoje, pouco mais de 10% continuam confiantes a maior parte do tempo.

Mesmo assim, a revista não é pessimista a respeito da democracia, por entender que ela ‘pode estar sendo apenas vítima de seu próprio sucesso’. Como a democracia e a prosperidade andam juntas, no mundo rico, teria crescido a demanda por respostas do Estado, assim como a elevação dos padrões educacionais teria produzido um saudável ceticismo. Sem contar o fato de que, na democracia, o foco da mídia vai para as ‘falhas do governo que, anteriormente, eram mantidas no escuro’.

Muito bem. Dá para concordar com a análise. Mas, se se olhar para o Brasil, a coisa começa a complicar. A descrença nas instituições, por aqui, é idêntica à dos países ricos, sem que se possa usar como explicação o ‘sucesso’ da democracia em promover uma prosperidade generalizada e seus saudáveis efeitos colaterais. Nem por isso é razoável adotar uma atitude pessimista. Novos modos de fazer política, via, por exemplo, organizações não-governamentais e entidades do chamado terceiro setor, podem ser uma boa resposta, aqui como no mundo rico. O jeito tradicional, ao menos no Brasil, é que tem um potencial explosivo, coisa que os partidos parecem não ter percebido."

‘A crise da democracia’, copyright Folha de S.Paulo, 18/7/99

 

PRESIDENTE MULTIMÍDIA
Carolina Briceño

EFE

"Caracas - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, lançou ontem o primeiro número de seu jornal, El Correo del Presidente, convertendo-se no primeiro chefe de Estado ‘multimídia’ do país. Chávez, que é editor-chefe do veículo, coroa dessa forma sua aspiração a estar em evidência em todos os meios de comunicação, depois de ter conquistado o rádio, a televisão e a Internet.

El Correo del Presidente, tablóide de 32 páginas, tem por objetivo divulgar os projetos governamentais e informar o público sobre as ações do governante e de seu gabinete.

A primeira edição do veículo, distribuída gratuitamente nas principais ruas e avenidas do país, traz na capa uma foto de Chávez condecorando um militar, enquanto o restante da publicação no geral refere-se a temas militares, o que faz com que se confunda com um veículo de divulgação ou de propaganda das Forças Armadas. No editorial, Chávez assegura que seu veículo nasceu como ‘um instrumento que não se deixará enganar pelos traidores e hipócritas’, prometendo lutar pela ‘realização de um projeto de mudanças revolucionárias’.

Os 50 mil exemplares do primeiro número serão distribuídos nos próximos dias e em breve o diário passará a ser vendido por 50 bolívares (cerca de US$ 0,50), já que a idéia do presidente é que seja ‘muito barato’, para que todos possam comprá-lo. Segundo os responsáveis pelo Correo, que terá circulação em todo território nacional, o jornal divulgará informações ‘verdadeiras’, que interessam ao grande público - aquelas pessoas que supostamente teriam sido desprezadas pelos demais veículos diários do país.

Segundo oposicionistas, o presidente lançou o periódico para promover os 128 candidatos oficialistas à Assembléia Nacional Constituinte, que será eleita no próximo dia 25.

Observadores políticos ressaltaram que o lançamento do Correo somente satisfaz um capricho do chefe de Estado, que já confidenciara em diversas oportunidades que gostaria de ter trabalhado como jornalista e evidenciara sua grande ‘paixão pelos microfones’.

Tal apreço pelos meios de comunicação levaram Chávez a apresentar um programa de rádio, intitulado Aló, Presidente e transmitido aos sábados pela estatal Rádio Nacional, e o outro na televisão, De Frente com el Presidente, que vai ao ar todas as quintas-feiras, ao vivo, pela rede Venezolana de Televisión. Em ambos, Chávez fala ao telefone, comenta notícias de jornais, divulga sua agenda semanal, faz críticas aos partidos de oposição, canta, conta piadas, promove os candidatos do governo, dá autógrafos e até mesmo tenta resolver os problemas dos que ligam para contar-lhe seus problemas pessoais."

"Presidente da Venezuela lança jornal", copyright Gazeta Mercantil, 6/7/99

 

ECOS DA GUERRA
Alfredo Rainho

"A Revista do Clube Militar de maio aprecia, em editorial, a ação da Otan na Iugoslávia. Escreve que ‘os Estados Unidos fixam-se no argumento pouco transparente do interesse da humanidade. Dizem mesmo que, a partir de agora, a Otan estará sempre presente, onde houver interesse da humanidade.’

Lembra ainda que a Otan atuou sem mandato da ONU e põe em dúvida se essa organização teria mesmo o direito de bombardear um país a título ‘humanitário’. Responde: ‘Não! E se o tentasse estariam suas decisões sujeitas ao veto de alguns de seus membros. Mas, no caso, a Otan está agindo sob influência dominante dos EUA e de forma arbitrária, livre de qualquer possibilidade de controle por veto.’

Observa que ‘o Brasil possui, à altura do Equador, um vasto território que estrangeiros espertos e brasileiros ingênuos há muito tempo denominam de Pulmão do Mundo e Patrimônio da Humanidade. Estrangeiros muito espertos e ambiciosos dizem que o Brasil não tem nem terá condições de o desenvolver e proteger como exige a humanidade!’

O editorial continua lembrando que, em desrespeito ao Direito Internacional e à nossa soberania, ‘forças poderosas poderão nos atacar, sem piedade, sem qualquer aviso, com a justificativa bufa de que tudo é executado para salvar minorias étnicas a quem pomposamente dão o nome de Nações Indígenas.’ Desde há muito a Amazônia é cobiçada por interesses internacionais. O desmatamento e as devastadoras queimadas são motivo de campanhas americanas e européias contra o Brasil. A imolação do índio Galdino, em Brasília, por estudantes universitários confirmou, para o mundo, o tratamento indigno dado à ‘minoria étnica’ índia pelos brasileiros. E isso aconteceu na capital do país, a poucos passos do presidente da República. Em protesto, os britânicos distribuíram cartazes com os dizeres: ‘Proteja a Amazônia. Queime um brasileiro.’ (‘Preserve the Amazon. Burn a Brazilian.’)

Lá fora o problema ianomâni é acompanhado com intenso interesse. Publicam-se mapas do Brasil em que a reserva está separada, sendo demarcada como território ianomâni. Ora, no dia em que um chefe ianomâni ou qualquer cacique de tribo importante viajar para Londres e proclamar um ‘governo no exílio’ de sua tribo, serão criados sérios problemas ao governo brasileiro.

Foi assim que começou com os kosovares: de uma insurreição contra os sérvios, apoiada e financiada do exterior, estabeleceram um ‘governo kosovar no exílio’. Daí foi fácil, mais um passo, recebiam o apoio americano e da Otan para a ‘guerra humanitária’.

Os índios no Brasil são considerados, pelos estrangeiros, como ‘minorias étnicas’. Lamentavelmente, desde o deputado Juruna, não há representante índio no Congresso Nacional. Por outro lado, se exige do índio para obter título de eleitor que adote nome e sobrenome tradicionais, que se chame José ou Antônio e Silva ou Sousa. Seu nome da tribo não é aceito. Entretanto, o filho de um imigrante japonês pode ser registrado com prenome nipônico e manter o nome de família. Também o filho de alemão ou russo. Mas, índio não.

Um problema entre índios e posseiros pode servir de manchete em jornais europeus como ‘Genocídio de índios no Brasil.’ Nossos problemas sociais são graves e antigos. O território é imenso e campeia a corrupção. Seria fácil criar uma situação artificial para servir de pretexto a uma intervenção no Brasil. O Direito Internacional, o conceito de soberania nacional e mesmo a garantia de que um dos 173 países-membros da ONU não pode atacar outro membro estão seriamente ameaçados depois dos bombardeios da Otan nos Bálcãs.

O alerta dos militares brasileiros nesse editorial da Revista do Clube Militar deve ser meditado. Esperemos que nada disso venha a ocorrer, mas não podemos esquecer que o Brasil é por demais vulnerável."

Kosovares e ianomânis", copyright Peru Molhado, de Búzios, RJ

 

Zelimar Brala

"A atuação e as posições da imprensa brasileira em relação aos processos políticos no Sudeste Europeu e à Croácia nos últimos dez anos não diferem substancialmente das dos vários outros meios de comunicação social no mundo.

Confrontados com uma realidade complexa, desconhecendo às vezes os fatores e fatos sociais, históricos e até jurídicos, esses meios contribuíram para que se noticiasse no Brasil, no início dos anos 90, relativamente pouco sobre o processo de desintegração da antiga Iugoslávia.

Com os ataques à Eslovênia por parte do Exército, nominalmente federal, mas na realidade controlado pela Sérvia, os leitores e os espectadores brasileiros ganharam mais informações, geralmente providenciadas pelas agências de notícias internacionais, que povoaram as telas e páginas.

À medida que a guerra imposta à Croácia se alastrou, o espaço dedicado e o destaque diminuíram, se comparadas a gravidade e a extensão aos eventos na Eslovênia. Não havia até então - e tal situação persistiu por demasiado tempo - no jornalismo brasileiro uma massa crítica de jornalistas qualificados para, pelo menos em termos gerais, apresentar e interpretar, com a necessária isenção e objetividade, a horrorosa realidade que ocorria na Croácia, ocupada em um terço, já ‘limpado’ das outras etnias, pelo então terceiro maior Exército convencional europeu, controlado pelos sérvios e secundado por forças paramilitares.

Os fatos que envolviam a guerra eram apresentados de forma no mínimo confusa, de modo que a Croácia, vítima da agressão, era várias vezes confundida com o agressor, igualando-se assim o carrasco e a vítima. Ninguém durante todo esse tempo levantou a questão de base jurídica para a atuação dos sérvios. Por outro lado, o povo croata era - e num grande diário carioca infelizmente continua a ser- sistematicamente apresentado como colaboracionista do fascismo e nazismo durante a Segunda Guerra.

Assistia-se na imprensa, por um lado, a muita desinformação e desconhecimento geopolítico do Sudeste Europeu, que levavam a erros grotescos na apresentação das notícias, e por outro, manipulações e inverdades propositais, que criavam um cenário confuso.

Somados, tais fatores constituíam barreiras à motivação do público brasileiro para a compreensão da situação, impedindo uma clara discriminação e distinção das causas e das consequências, dos agressores e dos agredidos, dos culpados e dos justos.

Anos de propaganda e lobby sérvios, aliados à estrutura diplomática da ex-Iugoslávia, bem arquitetada e em pleno funcionamento de que se apoderaram, conquistaram importantes espaços junto à mídia, o que fazia com que os fatos fossem filtrados e apresentados enviesados, segundo seus interesses.

Assim como se apoderaram do nome da Iugoslávia de Tito e de todas as conotações positivas que ela produziu, desde a tradição antifascista até os móveis e imóveis do espólio que a atual Iugoslávia usurpou, embora seja apenas um dos sucessores. Os jornalistas brasileiros lembram-se bem da República Socialista Federativa da Iugoslávia e do marechal Tito, mas a atual Iugoslávia está anos-luz longe dela.

Quando chegou a vez de a Bósnia-Herzegóvina se tornar alvo das ambições sérvias, a confusão propositadamente criada tornou-se ainda maior e, em pleno curso da agressão sérvia, a Croácia passou a ser incorretamente apresentada, muitas vezes, como dona de política expansionista, atuando na conquista de territórios.

Em linhas gerais, a imagem da Croácia que a imprensa passava era negativa. Os horrores da guerra atual que o povo croata sofreu eram diminuídos e neutralizados através de sistemáticas tentativas de imputar uma culpa coletiva para com seus compatriotas judeus e vizinhos sérvios, carregando manchas, falsas e caluniosas, à imagem da Croácia. E como se essa culpa, mesmo se fosse verdadeira, pudesse justificar os crimes sérvios dos anos 90...

A agressão contra a Croácia só pode ser negada por ignorância ou má-fé. Será que alguém pode negar a destruição completa de Vukovar, linda cidade barroca na região oriental croata de Eslavônia, arrasada por inteiro, e as valas comuns que abrigaram cerca de 260 pessoas, que foram tiradas de um hospital e mortas quando o Exército sérvio lá entrou? Ou esquecer Dubrovnik, Cavtat, Split, Sibenik, Zadar..., cidades croatas do litoral adriático bombardeadas pela artilharia sérvia como nos tempos dos bárbaros? E que ninguém ainda foi julgado por esses e outros crimes? O quanto e com que exatidão isso foi noticiado pela mídia?

As horrorosas valas comuns, cuja existência estamos agora a descobrir em Kosovo por meio das redes mundiais de TV, tristemente comprovam que a intervenção militar da Otan foi justificada, apesar de ter vindo com demasiado atraso para 13 mil vidas na Croácia, 240 mil vidas na Bósnia-Herzegóvina e quem sabe quantas mais em Kosovo, para 37 mil mutilados e feridos da Croácia, que sozinha recebeu 700 mil exilados e refugiados.

Comprovando também, tardiamente, que, se a política expansionista do nacionalismo sérvio e a limpeza étnica das populações não-sérvias, executada por Milosevic, presidente acusado de crimes de guerra, tivesse sido detida em Vukovar, provavelmente não teria havido bombardeio a Dubrovnik. E se tivesse sido detida em Dubrovnik, provavelmente não teria havido a guerra na Bósnia-Herzegóvina. E se tivesse sido detida na Bósnia-Herzegóvina, não teriam sido cometidos os horrores da limpeza étnica em Kosovo.

A opinião pública croata procurou inúmeras vezes chamar a atenção do mundo a esse fato. O quanto esse clamor foi atendido, cabe a nós perguntar. Alguns jornalistas, felizmente aqueles que mal distinguem a Eslováquia, a Eslovênia e a Eslavônia, ainda continuam a não contribuir para uma melhor informação do público. (Zelimir Brala é ministro-conselheiro da Embaixada da Croácia em Brasília)."

"Desinformação afetou cobertura no Brasil", copyright Folha de S. Paulo, 4/7/99

 

Dragan Vujnovic
"Os trágicos acontecimentos ocorridos nos últimos meses no território da Iugoslávia têm estado no centro da atenção da mídia internacional, como também nos meios de informação no Brasil. Sendo a agressão por parte da Otan de extrema importância para o contexto internacional, foi abordada com grande atenção, já que gerou fatos inéditos e provocou mudanças importantes em vários âmbitos, como da soberania do Estado, da possibilidade de intervenção, da segurança coletiva, dos direitos humanos, do papel das instituições e dos diversos interesses no sistema internacional.

A cobertura dos acontecimentos na Iugoslávia pela mídia brasileira tem sido elogiável. As bases da agressão e outros acontecimentos, suas origens e razões foram apresentadas com a importância devida, procurando-se mostrar o fundo histórico das questões.

As repercussões da agressão na Iugoslávia têm sido difíceis principalmente para a população civil, que sofreu os maiores impactos, e a mídia brasileira tem dado muita atenção a esse aspecto. Cobrir um conflito armado num canto do mundo distante do país, de maneira objetiva, abrangente e relativamente imparcial para ambas partes do conflito é uma tarefa muito difícil, quase impossível.

Nenhum conflito pode ter só uma face. A mídia brasileira tem tomado muito cuidado em ser relativamente imparcial, mostrando ambos os lados da questão, que são de uma complexidade enorme.

Espaço foi dado para as mais variadas opiniões, oferecendo diferentes aspectos, visões e entendimentos sobre a situação. Vários debates têm sido promovidos, dando espaço para uma compreensão mais profunda das causas e conseqüências dos fatos.

Visões diferentes permitem ao público receber opiniões diversas a respeito do assunto, sem tentar direcionar a opinião pública em uma direção. Este ponto é de extrema importância num mundo dominado pelas tecnologias da comunicação de massa, no qual o papel e o poder da mídia são imensos, especialmente das grandes agências de notícias internacionais, ‘donas das informações’.

O interesse da opinião do público tem sido demonstrado pela participação pública, como a publicação de cartas dos leitores contendo as mais diversas opiniões.

Deve-se ressaltar que a mídia tem mostrado este conflito corretamente, como o primeiro vestígio e, ao mesmo tempo, o gerador de mudanças profundas nas relações internacionais. A queda da influência e do poder da ONU, a questão do futuro comportamento dos EUA e do papel da Otan permanecem polêmicos e levam a diversas questões e temores.

É importante entender que a possibilidade de novos conflitos desse tipo é real no mundo de hoje, principalmente na Europa, onde o nacionalismo separatista tem se mostrado uma força poderosa. (Dragan Vujnovic é encarregado de negócios da Embaixada da Iugoslávia em Brasília)"

"Mídia brasileira destacou visões diferentes", copyright Folha de S. Paulo, 4/7/99

 

XUXA JORNALISTA
Elizabete Antunes e Patrícia Kogut

"A chegada da ‘rainha’ abalou a rotina do jornal. De jeans e camisa branca, Xuxa pretendia passar despercebida na redação do Globo e viver um dia como jornalista normal, fazendo laboratório para compor a repórter Nena, sua personagem em ‘Requebra’, filme de Tizuka Yamasaki que será lançado no fim do ano. Mas a estratégia não deu certo: mesmo circulando entre pessoas acostumadas com gente que é notícia, ela fez muito mais sucesso que qualquer jornalista em dia de glória. Deu autógrafos, distribuiu sorrisos e beijinhos. Mas não se deixou perturbar: empunhou papel e caneta e, aproveitando o clima favorável, não parou de fazer perguntas. ‘Onde vocês comem?’, ‘Pode fumar aqui?’, ‘Vocês escrevem o nome ou o apelido das pessoas nos seus cadernos de telefones?’, ‘Pode trabalhar de tênis?’.

Foi a primeira vez que Xuxa entrou numa redação, mas estreou em grande estilo. Convocado pela amiga, o apresentador Luciano Huck, da Rede Bandeirantes, pegou um avião e veio diretamente da Praia de Ondina, em Salvador, onde comandará este mês o ‘H’, para ser entrevistado por ela. Antes do papo dos dois, tudo foi motivo de comentários da apresentadora:

- Quero saber como os jornalistas andam, sentam e se vestem para não fazer nada over.

Xuxa viu como se diagrama a página de um jornal e de que forma as fotografias são digitalizadas.

- Ganhei de você! Tenho 400 fotos! - brincou ela, referindo-se a Luciano, que tem menos imagens suas no arquivo.

Ela também não resistiu ao ver as fotos de Sasha.

- Depois da festa de aniversário dela haverá muito mais aqui - vibrou, apontando para o computador.

De volta ao passeio pelas editorias, ela queria saber mais:

- Vocês ficam o dia inteiro no telefone ou passam mais tempo na rua? É preciso chegar cedo?

Atenta, ela observou ainda a maneira de as pessoas se vestirem para encontrar o figurino certo de sua personagem:

- Pelo que vi, predomina um estilo básico e confortável. Pôr uma minissaia ou um decote não tem muito a ver. E bijuteria em excesso também não. Jornalista faz uma linha mais clean. E todos usam relógio. Agenda e gravador também são indispensáveis.

Xuxa também trocou informações com jornalistas que têm bichos de estimação em casa e moram sozinhos, como Nena.

- Ela terá um gato. É um bichinho do qual eu não gosto muito, mas não quero que a personagem seja parecida comigo. E a sua casa ficará com jornais espalhados pelo chão - disse ela.

Passada a primeira meia hora, Xuxa já se sentiu ‘em casa’. Mas sua curiosidade continuou acesa. Jornalista deve anotar, sem que ninguém perceba, o papo dos vizinhos de mesa num restaurante, se for um ‘furo’?

- Se a informação for boa, pode anotar num guardanapo, discretamente - soprou Luciano.

Em seguida, pronta para começar a entrevista com o amigo, ela se mostrou preocupada em não perder uma declaração:

A minha letra é de criança. Não tem gravadorzinho?

Eu quis fazer o laboratório para não correr o risco de interpretar a Nena de uma maneira exagerada, longe da realidade de uma verdadeira jornalista. Para mim, que não sou atriz, é ainda mais difícil fazer uma pessoa com uma profissão tão diferente da minha. Se eu tivesse que viver uma louca, por exemplo, seria mais fácil porque não haveria comparações. Como a Nena é uma pessoa mais normal, não tenho uma bengala na qual me segurar. Achei os jornalistas todos pessoas muito normais. Tirei todas as minhas dúvidas. Depois de visitar a redação, sei que o mundo da Nena inclui computador, muitos livros, assinaturas de jornais... E acho que ela andará de Fusca, que será apelidado de Ronaldinho: bem redondinho. Eu não sei se a Nena vai ser mística. Talvez tenha plantas em casa. E já vi que não terá problema de ela se envolver com o Daniel (o cantor, que participará do filme). Mesmo com a correria do cotidiano, as pessoas que conheci contaram que dá tempo de namorar e cuidar dos filhos."

"Aprendiz de jornalista", copyright O Globo, 11/7/99

 

LABORATÓRIO
Tereza Halliday

"Meninos, eu vi! Um curso profissionalizante tão rigoroso e competente que os seus concluintes são disputados por empregadores e o diploma é galardão no currículo, para o resto da vida. Seu corpo docente demonstra respeito pelo aluno cobrando-lhe implacavelmente o pleno uso de sua inteligência e criatividade. Uma escola onde estudar vem em primeiro lugar.

Vi, sim, na Universidade Colúmbia em Nova Iorque, onde acabo de assistir a seminário sobre jornalismo contemporâneo, encomendado pela revista Imprensa para premiar os dez estudantes vencedores do concurso ‘Jornalistas do Futuro’. O programa incluiu também visitas a empresas de comunicação como The New York Times, Bloomberg, Starmedia, The Village Voice e o Channel 13, estação de TV não-comercial, de alto gabarito.

Da mesma forma que Direito e Medicina em todas as universidades dos Estados Unidos, Jornalismo na Universidade Colúmbia é curso de pós-graduação. O candidato apresenta diploma de bacharel em qualquer área do conhecimento e é submetido a exame de currículo, de interesses culturais e objetivos de vida; teste de conhecimento de personalidades e eventos atuais dos EUA e do mundo; e julgamento de sua aptidão para expressar idéias coerentemente por escrito. Este último é o critério que recebe maior peso. Quer se especialize em jornalismo impresso, quer escolha teleradiojornalismo ou jornalismo on line, precisa saber escrever bem - de maneira clara, enxuta e substanciosa. Antes mesmo de ter aulas de estilo jornalístico.

Excelência e profissionalismo são valores inquestionáveis nessa Graduate School of Journalism, fundada em 1912 por Joseph Pullitzer, em cuja memória foi instituído o ‘Oscar’ do jornalismo americano - o prêmio Pullitzer. Sua meta era dar à ‘arte do jornalismo’, status de especialidade cientificamente regida por critérios de sistematização, objetividade e fidedignidade. O site desta escola na Internet é <www.jrn.columbia.edu>.

O nascimento de um jornalista competente em Colúmbia é precedido de nove meses de gestação. Neste curso de mestrado exigentíssimo, o aprendiz deve completar 30 créditos e um projeto final, de jornalismo investigativo. Cumpre carga pesada de leituras e redações, acrescida de todas as pressões dos prazos de entrega de matérias jornalísticas, na vida real da profissão. Durante 36 semanas, que incluem muitos fins de semana comprometidos com o trabalho, o mestrando está continuamente ocupado - nas ruas como repórter, nas oficinas de redação e estúdios da faculdade, ou na biblioteca central do campus, cujo acervo chega a sete milhões de volumes. Entre os motivos para expulsão sumária do curso ou cassação de diploma estão: produzir matéria jornalística com dados falsos, inventar citações, cometer plágio, descumprir prazos de entrega de trabalhos, e apresentar o mesmo trabalho em duas disciplinas distintas sem o consentimento de ambos os professores.

Em Colúmbia, encontrei uma jovem brasileira que passou pelo crivo rigoroso da seleção ao mestrado em jornalismo e continuava cumprindo satisfatoriamente todas as exigências do programa. Ela é um símbolo. Não existe nada de inferior nos cérebros dos estudantes brasileiros. O que os estraga é uma mentalidade presente em muitas universidades nossas, responsável pelo desperdício de tantas mentes. Com raras e honrosas exceções, alunos e professores compactuam com ela.

Dentro desta mentalidade, não se cobra o uso pleno dos neurônios dos estudantes, ou por medo de formar competidores ou para não perder futuros eleitores; costuma-se tratá-los como coitadinhos que não precisam ir mais além, pois ‘somos terceiro mundo’; fecha-se os olhos para a mistura deletéria da ‘Lei de Gérson’ com a ‘Lei do Menor Esforço’, que tem aprimorado nossos 500 anos de atraso; os professores mais dedicados e exigentes são antipatizados e patrulhados como ‘maus colegas’, porque puxam o nível do ensino para cima. Além disto, a vida no campus é mais cheia de ‘eventos’ do que de estudo.

O desperdício de mentes é uma das coisas mais funestas que se pode fazer a uma geração e a um país. Quem viver, verá. Já estamos vendo."

"Desperdício de mentes", copyright Diário de Pernambuco, 8/7/99



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