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IMPRENSA
Exame
"Na busca sôfrega por crises reais ou imaginárias, a mídia retrata um Brasil distorcido
É um paradoxo dos nossos dias. Num momento em que existe um volume inédito de informações à disposição do público, e em que vigora uma liberdade de informar praticamente ilimitada, é possível que nunca o cidadão brasileiro tenha estado tão mal informado como hoje. É um problema para todo mundo, mas na vida dos negócios é um problema e tanto. Para quem tem a necessidade de decidir, basear-se em informação errada, distorcida, viciada ou simplesmente falsa significa, freqüentemente, tomar decisões equivocadas ou deixar de tomar decisões certas. A conseqüência, na vida real, é a perda de dinheiro, de oportunidades e eventualmente do próprio emprego.
‘Deixei de ler o jornal todo dia quando percebi que a leitura estava me desinformando e atrapalhando o meu desempenho profissional’, diz o presidente de uma seguradora. Por razões óbvias, ele pede para não ser identificado. Tem medo de retaliações. Eis outra característica marcante da imprensa hoje: ela inspira em muita gente medo em vez de admiração. Criticar uma publicação, ou um jornalista, principalmente se quem faz a crítica tem algum tipo de estatura, é receita quase certa para entrar numa lista de ‘inimigos’. Continua o presidente da seguradora: ‘Foi, também, uma recomendação do meu psicanalista. Ler o noticiário, hoje em dia, só serve para aumentar a ansiedade, sem oferecer nenhuma contrapartida útil’.
Como ele, muito mais gente vem se sentindo frustrada com a qualidade da informação que recebe nos jornais, revistas, televisão, rádio, Internet para não falar nas consultorias, departamentos de análise de bancos, institutos de pesquisa econômica, universidades e por aí afora. Recentemente, a Folha de S.Paulo publicou uma sugestiva carta de um leitor. ‘Desculpe, mas acabou a minha capacidade de absorver só notícias negativas. A Folha há muito deixou de praticar um jornalismo investigativo e entrou firme no jornalismo denunciativo, que não leva a nada.’ O leitor estava comunicando a perda da paciência com um determinado tipo de jornalismo. Ele não é o único, nem a Folha de S.Paulo a única publicação a colocar como prioridade de sua estratégia editorial a busca do pior em tudo.
O que está por trás desse fenômeno? Uma pista para compreendê-lo talvez tenha sido dada, de maneira involuntária, pelo jornalista e humorista Ziraldo Alves Pinto, numa entrevista recentemente concedida a jornalistas no programa Roda Viva, das TVs Educativa e Cultura. Jornal, disse Ziraldo, tem que ser de oposição, tanto quanto um sabonete tem que cheirar bem. É um erro formidável. O melhor jornal do mundo, o The New York Times, não é de oposição. (Nem, é claro, de situação.) Jornal, como de resto qualquer outro tipo de publicação, não tem que ser nem contra nem a favor de governos. Tem que ser, isso sim, a favor de seu leitor. Ser a favor do leitor significa, basicamente, dotá-lo de informações e análises que o ajudem a entender melhor o mundo tão complexo que está aí. Isso feito, o leitor estará mais apto a tomar as melhores decisões em qualquer esfera pessoal, profissional ou o que for.
Ninguém está falando que não faz parte do papel da imprensa fiscalizar o governo. O que está em discussão é a tese ziraldiana, tão reveladora da alma da imprensa brasileira, da oposição indiscriminada. Ser contra tudo é igualar tudo, o melhor e o pior, o mais limpo e o mais corrupto dos governantes. Fernando Collor, para ficar apenas num caso, não é igual a Fernando Henrique Cardoso.
A má informação na imprensa brasileira de hoje se manifesta de diversas maneiras, mas seu foco mais visível está na obsessão de apresentar um quadro de catástrofe terminal para a economia brasileira e para o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Desde a crise do México, no final de 1994, o colapso definitivo do país já foi decretado pela mídia pelo menos cinco vezes. O auge foi atingido no começo deste ano, com a desvalorização do real. O noticiário da imprensa, naqueles dias, estava pleno de previsões tétricas. Falava-se, por exemplo, numa inflação de mais de 50% para 1999. (Ela deve ficar em 9%.) Numa queda do PIB de 6%. (O recuo, no ano, deve ser de 1%, e a tendência já é de crescimento.) Num dólar que talvez passasse de 3 reais. (O dólar tem estado consistentemente nas cercanias de 1,80 real.)
O que se via na mídia, enfim, era um panorama de ruínas que a realidade se incumbiu de desmontar. Os prognósticos mais tenebrosos foram atirados ao público naqueles dias tumultuados de todas as formas possíveis pela televisão, pelas rádios, pelos jornais, pelas revistas. (Quem haverá, por exemplo, de esquecer as expressões faciais de pânico indignado de Lillian Witte Fibe no Jornal da Globo?) O ponto é que, como viciados em drogas, muitos jornalistas brasileiros se tornaram dependentes do alarmismo. Resultado: a mídia raramente consegue ver uma nuvem sem logo anunciar uma inundação.
Nesse tipo de anúncio, os jornalistas têm a contribuição milionária de economistas especializados em vaticínios funéreos. É uma fórmula infalível: eles prognosticam o caos e, com isso, conquistam as primeiras páginas. O inverso não é verdadeiro: quem prevê dias ensolarados não é notícia. Jornalistas e economistas acabam formando uma espécie de consórcio que se auto-alimenta e se manipula mutuamente na produção e divulgação de más notícias.
É extraordinária a capacidade da mídia brasileira em dar guarida à produção de um certo tipo de profissional o analista econômico que ganha a vida anunciando o colapso permanente do país, de preferência em inglês. Os economistas americanos Jeffrey Sachs e Rudiger Dornbusch, para ficar em só dois exemplos, tornaram-se clássicos do gênero. Eles prevêem, durante 100% do tempo, que a economia do Brasil (e de outros países de suas agendas) está entre o estado de coma e a morte clínica. Quando acertam na previsão de um desses desastres e, estatisticamente, têm de acertar alguma coisa, já que prevêem que tudo vai dar errado são confirmados na posição de gênios residentes da análise econômica brasileira. Quando erram, e as catástrofes que anunciaram simplesmente não acontecem, jamais ocorre à imprensa dirigir um olhar mais crítico à qualidade dessas previsões. Ela continua, automaticamente, divulgando com destaque tudo que Sachs, Dornbusch e outros dizem. Desde que digam alguma coisa ruim, a publicação está garantida.
Dizer coisa ruim é um passo certeiro para quem quer ver seu nome e suas opiniões na mídia. Nem é preciso ser especialista, na verdade. É um velho vício brasileiro considerar as pessoas que fazem críticas como superiores às pessoas que tentam resolver problemas. Nesse ambiente que premia sistematicamente a indignação, pouco importando se ela se baseia ou não em fatos, tornou-se regra conferir respeitabilidade à opinião desinformada.
A overdose de denúncias, acusações e condenações sumárias resultantes disso acaba por provocar sérias distorções na qualidade de informação que o público recebe. A ler (e ver) o noticiário, parece que toda a realidade econômica e social do Brasil se limita ao desemprego, às invasões do MST e à existência de miseráveis. É uma parte da realidade, mas não o todo. O problema é que essa parte recebe, na mídia, um espaço imensamente superior ao seu real tamanho. E então o leitor, sempre a grande vítima, se vê às voltas com um retrato desfigurado da realidade. Não que a realidade brasileira seja maravilhosa e ninguém diz isso. Ela é apenas diferente da realidade traçada pela mídia.
Hoje, para os órgãos de comunicação, a realidade é só aquilo que aparece na mídia o que está lá existe; o que não está não existe. Isso faz com que o cidadão freqüentemente pergunte a si mesmo se o mundo real é o que lê, vê e ouve na mídia ou é aquele em que ele vive todos os dias.
Atenção: não se está dizendo que o quadro de desgraças ofertado todos os dias na mídia seja inventado. O ponto repita-se é que ele é incompleto. Quando um jornal estampa em sua primeira página uma foto de crianças esfarrapadas cheirando cola, ou uma fila de miseráveis esperando a cesta básica no sertão nordestino, não está utilizando uma fotomontagem. As crianças existem. Os miseráveis existem. Mas ao optar sistematicamente em favor da publicação de cenas assim e ignorar uma infinidade de outras, igualmente reais, mas positivas ou neutras a imprensa transmite a impressão de que só existe esse tipo de realidade patológica no país. A conseqüência é que fatos verdadeiros acabam conduzindo freqüentemente a conclusões falsas.
A outra ponta disso está na cultura geralmente fanática do escândalo, fenômeno que atingiu seu paroxismo com a CPI do sistema financeiro e, logo em seguida, com a divulgação de mais fitas sobre a privatização do sistema de telefonia. No primeiro caso, o da CPI dos bancos, a vítima da informação truncada e da análise apressada não foi apenas o leitor. O ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes foi alcançado por uma furiosa saraivada de denúncias que o correr dos dias transformou em pó. Chico Lopes foi objeto de um linchamento de caráter que hoje, passados quatro meses, não encontra a mínima sustentação no mundo dos fatos concretos. Nesse caso, a imprensa brasileira mostrou que se especializou em confundir a busca de respostas com a busca de culpados.
Isso é claramente percebido nas entrevistas que os jornalistas fazem. Responder às perguntas de um jornalista, hoje, vai se tornando um exercício cada vez mais parecido com uma partida de xadrez, onde é necessário antecipar os três ou quatro lances seguintes do adversário. A pergunta não é simplesmente uma pergunta: muitas vezes é uma armadilha destinada a extrair alguma declaração que será usada contra o entrevistado nas perguntas à frente. A pessoa que está sendo inquirida precisa, assim, calcular cuidadosamente tudo o que diz. Se disser A, será perguntada adiante a respeito de B ou C; se disser Y, abrirá espaço para que lhe perguntem sobre X ou Z, e assim por diante. Será que o público fica mais bem servido quando entrevistas se transformam em interrogatórios?
O fato é que muitos jornalistas, quando se dirigem a alguém, não querem realmente obter uma informação. Querem apenas obter alguma forma de confirmação ou justificativa para aquilo que já decidiram escrever por já terem decidido, interiormente, que sua visão pessoal das coisas equivale à realidade. Declarações, fatos ou números que se contraponham a ela são ignorados; só é levado ao público o que combina com aquilo que o jornalista quer dizer. Particularmente presente nas emissões de rádio e televisão, essa postura vai se tornando cada vez mais comum, também, na imprensa escrita.
Na origem da CPI dos bancos, estava o suposto favorecimento do BC, então sob a presidência fugaz de Chico Lopes, aos bancos Marka e FonteCindam. Esses bancos tinham compromissos em dólar muito acima de sua capacidade de pagamento quando veio a desvalorização do real em janeiro. Ambos não quebraram porque uma decisão da diretoria do BC lhes permitiu saldar as dívidas milionárias a um câmbio já bem abaixo da realidade do mercado.
Às vezes de forma explícita, outras de maneira mais sutil, Chico Lopes apareceu no noticiário como o grande vilão da história. Ele, segundo as primeiras denúncias publicadas, teria vendido, em seu tempo de Banco Central, informações confidenciais a quatro bancos. Até a cifra que cada um deles teria pago (125 000 dólares por mês) foi divulgada. Dois desses bancos seriam exatamente o Marka e o FonteCindam. As acusações, convenientemente, baseavam-se em fontes anônimas. E, quando a mídia tentou apresentar testemunhas capazes de provar os tais pagamentos feitos a Chico Lopes, tudo o que apareceu foram obscuros personagens que não testemunharam nada e disseram, no fundo, apenas ter ouvido falar da história. Nos dias seguintes, também convenientemente, o caso dos 125 000 dólares foi sepultado em cova rasa. Nenhuma investigação a mais, nenhuma satisfação ao público, nenhuma retratação. Simplesmente, a história toda sumiu.
Desde o princípio, essas denúncias sustentadas em fontes que se revelariam frágeis como a convicção de um cínico esbarraram numa questão de lógica básica. Seria a primeira vez que beneficiários de informações confidenciais quebrariam. Nem isso foi suficiente para coibir o frêmito acusatório. Um mergulho nas páginas publicadas então pela imprensa revela muito sobre a maneira como são produzidos e depois manipulados os escândalos. Uma carta de Salvatore Cacciola, dono do Marka, transformou-se numa prova da intimidade que ele tinha com Chico Lopes. A leitura da carta mostrava exatamente o oposto: Cacciola tratava o então presidente do BC por um cerimonioso ‘Francisco’ e deixava evidente a desesperada dificuldade que vinha encontrando para conseguir uma audiência com Lopes, ou, até mesmo, conseguir que ele o atendesse ao telefone. Um comentário casual e irrelevante do ministro Pedro Malan a respeito da saída de Chico Lopes do BC ele disse que só falaria dali a alguns anos sobre o assunto tornou-se também prova da culpa de Chico Lopes. (Mais tarde, Malan explicaria o sentido da frase, mas era tarde demais: o caráter de Chico Lopes já fora linchado.)
Todos os depoimentos dos então companheiros de Chico Lopes no comando do Banco Central na época do socorro ao Marka e ao FonteCindam conduziram a um só ponto. Certo ou errado, o BC temia que a quebra dos dois bancos, num momento de intensa delicadeza como aquele, deflagrasse uma crise sistêmica. Daí a operação de socorro. Especulações sobre a procedência ou não do temor foram feitas em copiosas doses. Mas a palavra definitiva sobre isso coube ao economista e banqueiro Fernão Bracher. Sabe-se, argumentou Bracher, o que aconteceu depois da operação: o dólar não disparou, a inflação não retornou com força, a economia não foi a pique. Mas, concluiu Bracher, não se sabe o que teria acontecido se o Marka e o FonteCindam tivessem naufragado espetaculosamente. Ponto.
No episódio, a imprensa apressou-se em publicar frases bombasticamente vazias como uma do senador João Alberto Souza, o relator da CPI. Segundo ele, os papéis apreendidos no apartamento de Chico Lopes outro absurdo dentro do absurdo seriam capazes de ‘abalar os pilares da nação’. Depois, quando a realidade se mostrou bem menos formidável, Souza baixou o tom: ‘Eu queria que a coisa fosse bem maior, mas não é’.
Outro caso já antológico da cultura de denúncias da imprensa é o do grampo das conversas de altos funcionários do governo a respeito da privatização das estatais telefônicas. Houve, aí, duas ondas. Na primeira, no fim do ano passado, tombaram dois dos melhores cérebros do governo, Luiz Carlos Mendonça de Barros e André Lara Resende. Na época, Mendonça era ministro das Comunicações e Lara Resende, presidente do BNDES. Os diálogos grampeados e editados cuidadosamente pelos grampeadores e nem tão cuidadosamente pelos editores de jornais, telejornais e revistas insinuavam um suposto favorecimento do governo, na privatização das empresas telefônicas, a um consórcio do qual fazia parte o banco Opportunity. Seria essa a lógica das denúncias uma ação entre amigos. No Opportunity, era figura de destaque o economista Persio Arida, amigo pessoal de Lara Resende e de Mendonça de Barros.
Gravar as conversas foi um ato criminoso. E publicá-las? Os diálogos apareceram na mídia de tal maneira fora do contexto que ficou impossível para o leitor depreender o essencial: gente como Mendonça de Barros e Lara Resende se esforçaram, legitimamente, para conseguir o melhor preço. Meses depois, num artigo para o Estado de S.Paulo, Lara Resende refletiu sobre o episódio com doses similares de amargura e brilhantismo. ‘A gravação clandestina e a divulgação de conversas reservadas entre homens públicos, tratando de assuntos públicos, é um ato politicamente covarde, e a sua divulgação sensacionalista, extremamente perigosa’, escreveu ele. ‘Sempre que os direitos individuais são relativizados, em nome de um interesse público supostamente superior, o estado de direito corre risco. A subordinação dos direitos individuais a interesses coletivos esteve sempre associada às maiores atrocidades e aos mais bárbaros regimes deste século.’
Topar tudo para conseguir um suposto ‘furo’ e assim vender mais tem um perverso efeito colateral: a corrosão do caráter do jornalista. Um jovem que chegue a uma redação e seja confrontado com a realidade cotidiana de trapaças de variadas espécies para a obtenção de notícias mentiras sobre a natureza da reportagem para conseguir entrevistas e gravadores escondidos para colher flagrantes, para ficar apenas em dois exemplos é rápida e inevitavelmente engolfado pela frouxidão dos valores. Não é um fenômeno apenas brasileiro. Os tablóides ingleses são notórios mestres no vale-tudo jornalístico. O desencanto com a imprensa local levou o historiador e jornalista inglês Paul Johnson, num episódio que ele relatou em sua coluna na revista Spectator, a fazer o seguinte apelo a jovens estudantes de seu país a quem se dirigiu numa conceituada escola: ‘Não virem jornalistas’.
Na segunda onda dos grampos, trazida pela Folha de S.Paulo, veio à cena o nome do presidente Fernando Henrique Cardoso. A Folha divulgou um conjunto de 46 fitas das quais o fato mais relevante seria o suposto envolvimento pessoal de Fernando Henrique numa manobra destinada a favorecer o Opportunity. Mais uma vez, o que se viu, passado o primeiro estrondo espetacular, é que não havia nenhuma substância real no escândalo. Tanto que a repercussão, fora das páginas da própria Folha, logo morreria. A real novidade, aí, foi a reação de um grupo de leitores da Folha contra a atitude de seu jornal de publicar as gravações criminosas.
Cinco dias depois da divulgação dos primeiros diálogos, a ombudsman do jornal, Renata Lo Prete, dedicou sua coluna semanal ao assunto. ‘Até a noite de sexta-feira, 51 leitores me procuraram para falar sobre a reportagem que revelou o mais completo bastidor da privatização do sistema Telebrás’, escreveu ela. ‘Por diferença de 43 a 8, a maioria condenou a Folha pela divulgação das conversas captadas por grampo telefônico no BNDES.’ A ombudsman listou alguns dos adjetivos empregados pelos leitores para definir a matéria: ‘sensacionalista, infantil, leviana, maldosa, nojenta’.
Na seção de cartas, publicaram-se depoimentos como o seguinte: ‘Podem ser tiradas três conclusões da discretíssima repercussão que o último episódio dos grampos telefônicos teve no país: 1) que o povo brasileiro está cada vez mais criterioso para com os escândalos que lhe são anunciados; 2) que a imprensa não mede conseqüências para atender a sua sanha por maiores vendagens; 3) que o Congresso Nacional é muito mais versado na arte de abafar escândalos do que a Folha na de criá-los’.
A primeira das três conclusões sugeridas pelo leitor deveria ser objeto de demorado estudo por parte dos editores de publicações de qualquer natureza. É possível, sim, que os brasileiros tenham aprendido a discernir o que é escândalo de verdade e o que é escândalo fabricado para aumentar circulações e manter reputações de ‘independência editorial’. Pode ser que a sociedade esteja, nesse ponto, à frente da mídia. É um problema para os leitores, é verdade: eles deixam de se sentir representados pela mídia. Mas é um problema infinitamente maior para a mídia. A falta de sintonia com seu público é fatal. Mata qualquer veículo, ainda que a morte seja arrastada, como é típico na imprensa. A conclusão é inescapável: por mais defeitos que tenha, por mais problemas por resolver que acumule, o Brasil é, hoje, melhor que sua imprensa."
"Má notícia é boa notícia", copyright Exame nº 694, 11/8/99
EFEITO-XUXA
José Serra
"Em 1998, o Sistema Único de Saúde realizou 698.439 partos em adolescentes na faixa etária entre 10 e 19 anos. É um número assustador, até porque não revela a realidade completa do drama social e humano que é a gravidez precoce. Nele não estão computados os partos feitos na rede particular e os que ocorreram sem nenhuma assistência. Também não leva em conta os milhares de abortos que certamente são praticados para interromper a gravidez indesejada, a maioria das vezes nas mais precárias condições técnicas e de higiene.
O que mais assusta na estatística do SUS é o fato de que ela inclui 31.857 meninas que se tornaram mães entre os 10 e os 14 anos, idade em que é simplesmente absurda a prática de relações sexuais. Ainda pior: entre 1993 e 1998, houve um aumento de 31% nos partos atendidos pelo SUS nessa faixa que vai até os 14 anos de idade.
Trata-se de mães crianças, na grande maioria pobres, despreparadas para a maternidade sob todos os pontos de vista: material, biológico ou psíquico. Independentemente da classe social a que pertençam, essas meninas interrompem seus projetos de vida antes mesmo de terem completado sua formação. Têm de abandonar a escola, os sonhos, a própria infância e a possibilidade de um desenvolvimento saudável numa fase importante da vida. São pequenas diante de um desafio que é criar um filho e educá-lo e ainda por cima submetem-se a um risco para o qual ainda não estão preparadas.
A grávida adolescente, até os 16 anos, está mais sujeita que as demais a eclâmpsia, anemia, desproporção cefalopélvica, hemorragia, parto difícil e prolongado, enfim, à morte materna. O risco da gravidez precoce estende-se ao bebê, comprovadamente sujeito a maior incidência de baixo peso ao nascer, maior índice de prematuridade e mortalidade infantil mais elevada.
Diante desse quadro, o governo tem a obrigação de agir. É verdade que temos filas nos hospitais, que muitos planos de saúde privados não funcionam bem, que os remédios produzidos e vendidos pelos laboratórios privados estão caros - são problemas difíceis e urgentes que estamos procurando enfrentar. Nada disso, porém, poderia ser uma desculpa para a sociedade se omitir e até ser cúmplice no drama da gravidez precoce.
É obrigação do Ministério de Saúde combater essa absurda realidade, identificando suas diversas causas e propondo à sociedade brasileira sua correção. Se tocar essa ferida, num primeiro instante, causa incompreensões e até manifestações de hostilidade, que se pode fazer? Entre cumprir a obrigação e angariar simpatias, prefiro, sempre vou preferir, a primeira alternativa.
O Ministério da Saúde vai fazer tudo o que for possível para reduzir os índices da gravidez na adolescência no Brasil. Para tanto, junto com o MEC, estamos mobilizando profissionais das mais diversas áreas, com destaque para o pessoal da educação, área fundamental em qualquer proposta de trabalho visando ao adolescente. Profissionais de Saúde, como ginecologistas-obstetras, pediatras, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, receberão treinamento específico sobre o assunto. O desafio é enorme, levando-se em conta que, de acordo com o censo de 1996 do IBGE, o Brasil tem mais de 34 milhões de adolescentes na faixa dos 10 aos 19 anos.
O problema da gravidez precoce, no entanto, tem raízes tão diversas que não basta o esforço do governo para enfrentá-lo. A miséria, a falta de educação básica e a ignorância a respeito das noções de prevenção são as mais importantes, mas não são as únicas. O adolescente é levado à iniciação sexual precoce dentro de um universo que ele não domina totalmente e sob o forte impacto dos meios de comunicação. A mídia - e isso está cientificamente comprovado - é o veículo que mais informa o adolescente sobre sexo e sexualidade.
Uma excelente pesquisa sobre Sexualidade e Plano de Vida, coordenada pela Dra. Albertina Takiuti, junto a 2.337 adolescentes e jovens em São Paulo, alcançou informações preciosas e reveladoras sobre a influência dos meios de comunicação e o comportamento sexual desse público. Nada menos que 79,5% dos pesquisados declararam que filmes e propagandas eróticas veiculados pela televisão influenciam sua atividade sexual. É um resultado ligeiramente superior ao número (77,8%) dos que afirmam que a televisão influencia seu comportamento de maneira geral.
A mesma pesquisa revela: é pela mídia que os adolescentes e jovens tomam conhecimento dos métodos de prevenção da gravidez e das doenças sexualmente transmissíveis. Mais de 90% dos adolescentes pesquisados demonstraram conhecer os recursos mais comuns. No entanto, tanta informação não foi suficiente para fazer com que a maior parte dos sexualmente iniciados fizesse uso dos meios preventivos na primeira relação sexual. Apenas 29,6% declararam ter usado métodos anticoncepcionais na primeira vez.
Tais dados mostram a extraordinária responsabilidade que se coloca diante da mídia. Ela pode transmitir informações úteis e influenciar comportamentos, mas precisa tratar com cuidado especial um público real que é, portanto, mais vulnerável às mensagens que recebe. A capacidade de distinguir entre realidade e fantasia ainda não está totalmente amadurecida nessa fase da vida.
Os veículos de comunicação por vezes transmitem e até exaltam experiências de vida incompatíveis com a realidade da maioria daqueles 34 milhões de adolescentes mencionados acima, nem sempre levando em conta seu contexto individual e social. Podem impulsionar fantasias inatingíveis, sem dar ao adolescente instrumentos para discernir entre o real e o imaginário. É por aí, muitas vezes, que ocorrem a erotização precoce, a iniciação sexual desinformada e a gravidez acidental e indesejada.
Infelizmente, não se trata de suposições infundadas ou de ranço moralista, mas de reflexões embasadas em dados, pesquisas, estudos de especialistas e, fundamentalmente, na realidade das meninas grávidas atendidas pelo SUS.
Precisamos refletir e agir diante disso. Afinal, a vida não é novela nem o mundo é cor-de-rosa para todos."
"Mães-crianças", copyright O Globo, 15/8/98
Fritz Utzeri
"Moloch era um deus da antigüidade ao qual se sacrificavam crianças. O Moloch moderno são os meios de comunicação, notadamente a TV. Voltando a Xuxa, ela não é um ser diabólico, mas vítima e produto de mentes e negócios que ultrapassam em muito sua limitada compreensão da vida, e usam o apelo sexual para tornar as crianças consumidoras de milhares de produtos inúteis e deseducativos. Negócio de bilhões.
Todos nascemos dotados de sexualidade, desde o primeiro dia e a desenvolvemos até depois dos 5 anos, quando começa o que em psicanálise se chama de ‘período de latência’, em que a criança se volta mais para o aprendizado. É o ‘clube do Bolinha’, menino anda com menino e detesta menina e vice-versa. Dura até a puberdade, quando os hormônios se encarregam de recolocar a sexualidade em primeiro plano.
Sexualizar a fase de latência, na qual justamente os programas infantis de TV batem forte, é gerar ansiedade, que leva os pais a não agüentar a pressão e comprar shortinhos que modelam o bumbum de meninas de 8 ou 9 anos! O resultado são ícones de falsa maturidade sexual, como Tiazinha, Carla Perez e outras. As meninas, principalmente de classes mais modestas, sem outra opção, adoram e imitam o comportamento. O momento do sexo é ansiosamente aguardado para imaginar-se adulto e deixa de ser conseqüência natural da maturidade, inversão patológica que contamina toda a sociedade. É aí que se insere o fenômeno da gravidez adolescente a que se refere Serra. Não é só isso, mas já é muito.
Como resultado, qualquer menina mais bonitinha hoje sonha em ser modelo, palavra mágica que garante ascensão social usando o corpo, que passa a ser visto como valor de troca e não mais como fonte de prazer e descoberta. Vemos nas colunas ‘aviões’ de 13, 14 aninhos vestidas (ou nem tanto assim) como mulheres estonteantes, com cabeças ainda infantis e cobiçadas por homens maduros, de 40 e 50 anos. O corpo como valor de troca? Isso é matéria prima da mais velha profissão do mundo e é esse tipo de ideal feminino que a mídia valoriza hoje no Brasil."
"Moloch", copyright Jornal do Brasil, 18/8/98
MÍDIA E ESPETÁCULO
Alberto Dines
"Dez dias depois da badalação armada na mídia para comemorar o primeiro aniversário da sua filha, Xuxa esperneou contra as declarações do ministro da Saúde. Com a sua maravilhosa iracúndia José Serra criticou a exposição exagerada da vida privada da apresentadora que, assim, oferece às legiões de admiradoras, meninas e adolescentes, o mau exemplo da ‘produção independente’ - maternidade autônoma, sem paternidade.
Opções individuais não se discutem, o livre arbítrio é a conquista mais expressiva da humanidade nos últimos dois séculos. Mas, ao optar sem hesitação pelo escancaramento da sua vida particular e, sobretudo, ao subordinar sua intimidade e a da filha aos interesses comerciais, a Sra. Maria da Graça Meneghel deixa de ser uma individualidade para converter-se em negócio. E, como negócio, não pode ficar imune ao escrutínio da sociedade, em especial, no tocante aos métodos e sistemas envolvidos na promoção do produto mais recente da firma.
Aqui, a contragosto, deixamos a agradável companhia de gente tão charmosa para discutir a recente idealização do que se convencionou chamar de iniciativa privada. O mundo dos negócios, de repente, virou sinônimo de paraíso, fábrica de poções mágicas e elixires. Chegamos tardiamente ao capitalismo e como todos os recém-convertidos exageramos na dose da veneração.
O capitalismo especulativo que há 20 anos era anátema nas melhores rodas do mundo empresarial foi canonizado. As dúvidas da nossa mídia em torno da qualificação de George Soros, ora designando-o como mega-investidor ora como mega-especulador, indicam uma ambigüidade mal resolvida por parte de uma sociedade que ainda não consegue distinguir entre o empreendedor e o acumulador de riquezas. Soros, aliás, passa ao largo dessa perplexidade envolvido em portentosos projetos filantrópicos de educação e cultura.
Privatizar e terceirizar virou panacéia para todos os males. Palavra de ordem e dogma. Mas é preciso não esquecer que em muitos casos, a solução virou problema. Veja-se o caso da Vale, processada por abuso econômico. Não há a menor dúvida de que o Estado, em geral, é mau empresário. A recuperação da Embraer aí está para demonstrá-lo. Mas entregar o que era mal gerido pelo poder público a empresas e empresários sem qualificações ou recursos é ainda pior. A recente decisão do BNDES de democratizar o capital das estatais privatizadas convertendo seus trabalhadores em acionistas é a constatação da falência do grande capital no redesenho do Estado.
Herdamos da península ibérica um modelo de civilização barroco no espírito e burocrático na estrutura que está sendo substituído a toque de caixa por um capitalismo sem capitalistas, montado em cima de meros faturadores. Trocamos a capacidade de criar e inovar, marca registrada do alto capitalismo, pela ganância, sinete da baixa pirataria. Ricardo Mansur, o megafalido da Mesbla-Mappin, há dois anos era o golden boy, verdadeiro Midas, hoje é ícone do negocismo ‘friforó’ - free-for-all - que combina a ética do faroeste com a fidalguia da Cosa Nostra. Mas Ricardo Mansur não é aberração isolada, teve ajuda, parceiros, financiadores. É uma escola, paradigma, sistema. E, como ele, há uma dúzia de falidos-bilionários circulando impunes e louvados.
Para que estas reflexões não sejam interpretadas como adesão à megalomania de Itamar Franco - o Sansão antiprivatista que, para evitar a desestatização de Furnas, promete desviar os rios que formam a barragem - aqui vai um lembrete. Um dos movimentos mais consistentes para apressar a lenta distensão empreendida pelo presidente Geisel foi capitaneado pelo Grupo dos Oito, empresários progressistas e sofisticados, comprometidos com o binômio crescimento econômico-normalização política (Severo Gomes, José Mindlin, Antônio Ermírio de Morais, Cláudio Bardela, Laerte Setúbal, Jorge Gerdau, Paulo Villares, Paulo Velhinho).
Outro exemplo de responsabilidade social por parte do empresariado foi a decisão das grandes redes de supermercados de tirar das gôndolas os produtos indevidamente majorados logo após a desvalorização do real. Foi esta vigilância dos distribuidores e não a fiscalização da mídia que conteve o primeiro surto inflacionário.
A lenda de que o Estado é inoperante e corrupto, na realidade, advém do seu relacionamento com a iniciativa privada. E não apenas no âmbito das empreiteiras. Superfaturamento e superdimensionamento de compras acontecem todos os dias, em todos os quadrantes e níveis, sempre em benefício dos fornecedores. Para evitá-los, criam-se procedimentos complicadíssimos que entravam e atravancam o aparelho estatal. De quem a culpa - do Estado ou dos que pretendem lesá-lo?
Esse lúmpen-empresariado vive seduzido pelo jargão e valores disseminados nos seminários com os gurus importados, iludido pelos altos executivos de olho apenas no bônus do fim de ano ou pelos anúncios que ele próprio veicula. Graças a isso, imagina-se na vanguarda do processo de geração de riquezas. Está na retaguarda, sabotando os avanços, trabalhando contra seus próprios interesses.
Exemplo gritante é o processo de nivelamento por baixo ao qual a mídia brasileira foi submetida. Em parte por opção - fruto de uma apressada troca geracional no comando dos veículos. Mas, sobretudo, porque essa busca insensata de escala em detrimento de qualidade tem sido regiamente premiada pelos anunciantes e seus representantes, as agências de publicidade. No exato momento em que caminhamos para concretizar o sonho de uma Rede Pública de TV, montada em torno do eixo TVE-TV Cultura e capaz de criar alternativas ao aviltamento generalizado do processo informativo (ao qual não está alheia a graciosa Xuxa), protestam as entidades empresariais e seus embaixadores: o mercado fugaz e errático quer papar todas as verbas publicitárias, que se dane a sociedade com seus objetivos permanentes.
Depois de amanhã [16/8/99], começa no Rio o Congresso da Associação Nacional dos Jornais para comemorar os 20 anos da sua fundação. Os empresários dos jornais e seus executivos vão discutir os avanços tecnológicos e os desafios atuais. Os leitores modestamente esperam que não esqueçam das suas atribuições como fiscais e expoentes de um capitalismo responsável e renovador. Se tiverem tempo, lembrem-se da Xuxa. Boa sorte."
"Xuxa e o capitalismo", copyright Jornal do Brasil, 14/8/99
Olavo de Carvalho
"‘O autor deste livro é um sujeito cheio de: a) ressentimento e inveja; b) incompreensão dos caracteres da cultura brasileira; c) maquiavelismo autopromocional’. Esse questionário, ao estilo do imposto de renda, abre O Imbecil Coletivo, obra mais famosa do filósofo Olavo de Carvalho.
A brincadeira é uma resposta as inúmeras críticas recebidas pelo livro. Não é para menos: Nos dois volumes de O Imbecil, Olavo de Carvalho ataca com veemência as ‘atualidades inculturais brasileiras’. Inclui-se sob essa denominação a ‘elite intelectual, arrebatada por modas e paixões que a impedem de enxergar as coisas mais óbvias’.
Coordenador do Seminário de Filosofia da Faculdade da Cidade, no Rio de Janeiro, o filósofo conseguiu um êxito raro no mercado editorial: seu O Imbecil Coletivo, apenas três anos após o lançamento, já está em sua sexta edição.
A educação não escapa de suas cogitações. Não poupa críticas a Paulo Freire, às análises marxistas da educação e à ‘educação jornalística’. Mas também propõe mudanças na escola. O interesse dos alunos, e não o programa, determina o que será estudado. Além disso, estudos empíricos da realidade teriam lugar ao lado do estímulo à imaginação.
Educação - Em O Imbecil Coletivo, o senhor fala da ‘educação jornalística’ em oposição à ‘educação humanística’. Poderia precisar melhor a questão?
Olavo de Carvalho - ‘Educação jornalística’ consiste, sumariamente, em selecionar os temas e autores segundo destaque momentâneo que recebem da mídia. Você sabe quem era o autor mais lido e estudado nas nossas escolas secundárias por volta de 1910? Um tal de Pelino Guedes, que o tempo sepultou irremediavelmente, como amanhã sepultará Zuenir Ventura, Frei Betto, Leonardo Boff e todas essas nulidades esplêndidas que, por mero espírito de patota política solidária, o lobby da mediocridade esquerdista impinge aos nossos meninos de escola. Lendo Lima Barreto, nos escandalizamos com o fato de que nossos bisavós pudessem ter dado mais atenção a Pelino Guedes do que a ele. E a atual geração de professores, que prefere Zuenir Ventura a Alberto da Cunha Melo e Caetano Veloso a Bruno Tolentino, será objeto de riso dos nossos bisnetos.
Em contraste com essa educação interesseira e imediatista, o conceito de educação humanística pressupõe um recuo ante a moda presente, um esforço para ver a atualidade na escala de um tempo muito mais longo, em que as ninharias do dia desaparecem sem deixar vestígios.
Educação - Quais possibilidades educativas o senhor vê na televisão?
Olavo de Carvalho - A televisão, como o cinema, só pode ajudar a educação num sentido auxiliar, secundando o ensinamento verbal naqueles campos onde a documentação por imagens seja imprescindível como elemento de prova das afirmações. Mas a tendência hoje é fazer da imagens a parte ativa do ensino, reduzindo a palavra a um comentário auxiliar - e, quando se faz isso, o resultado é o emburrecimento líquido e certo, independentemente de qual seja a matéria ensinada e da qualidade das imagens que a transmitem. Pensar por imagens é para gatos e orangotangos. A imagem estimula a imaginação e produz um sentimento de simpatia ou antipatia, sem passar pela reflexão consciente. A ‘civilização da imagem’ é a civilização da credulidade sonsa.
Estudantes viciados em aprender por imagens perdem toda capacidade e até mesmo todo desejo de compreender: tudo o que querem é obter da maneira mais rápida e impensada um sentimento de concordância com a idéia que lhes é apresentada - e, quando não conseguem sentir essa concordância, produzem a esmo objeções irracionais, que nas suas cabecinhas de melão fazem as vezes de ‘pensamento crítico’. O trabalho dos professores, hoje, consiste apenas em direcionar os sentimentos de hostilidade irracional do aluno contra alvos políticos pré-selecionados.
Educação - Existiria uma função pedagógica da mídia?
Carvalho - Qualquer meio de transmissão de idéias pode ter uma função pedagógica, se aqueles que o dominam assim decidirem. Mas tudo depende do que esses senhores compreendem por pedagogia. Para propagandistas baratos como Leandro Konder, Marilena Chauí ou Emir Sader, pedagogia consiste em suscitar hostilidade contra seus desafetos políticos do momento. Nunca um desses senhores escreveu na imprensa uma linha que não gotejasse ódio político e um grotesco moralismo maniqueísta. Na cabeça deles, se é que têm alguma, isso é pedagogia.
Quando me refiro aos ‘senhores da mídia’, não me refiro aos donos das empresas. Estes são apenas uns covardões e omissos que se deixaram sequestrar pelos comitês políticos a que entregaram suas empresas. O nome Roberto Marinho, hoje, só serve para disfarçar sob uma fachada direitista o poder do lobby esquerdista que domina tiranicamente a Rede Globo.
Educação - Como o senhor considera o uso dos meios de comunicação como material pedagógico?
Carvalho - Os jornais devem ser lidos e analisados em sala de aula, sobretudo para mostrar o quanto mentem. Mas aí há um reparo a fazer: quase todos os instrumentos de análise ideológica foram criados por intelectuais esquerdistas e só servem para desmascarar a ideologia capitalista, nunca para evidenciar a manipulação esquerdista da opinião pública. nesse sentido, o alegado desmascaramento ideológico transforma-se em mascaramento. Ademais, o desenvolvimento da consciência crítica não deve ser prematuro, não deve começar na infância ou na pré-adolescência, quando tudo tem um efeito emocional muito profundo. Nessa fase, o esforço de despertar o espírito crítico só consegue produzir a sua caricatura emotiva, que é o ódio passional e a suspeita irracional contra tudo e contra todos.
Isso seca a alma, produz neuroses sem fim e não tem proveito educativo nenhum. Muitos pretensos educadores, hoje, dedicam-se a produzir isso e nada mais, e se acham grandes benfeitores da humanidade quando conseguem envenenar a alma de um adolescente contra os pais, contra a História, contra tudo, exceto, é claro, contra eles mesmos - os manipuladores bem protegidos atrás de um muro de malícia."
"Os jornais devem ser lidos e analisados em sala de aula, sobretudo para mostrar o quanto mentem", entrevista de Olavo de Carvalho à Revista Educação, copyright Revista Educação, julho de 1999
INTERNET
Rosental Calmon Alves
"Historicamente, muitos criadores de tecnologias não conseguiram antever a utilização futura de suas inovações. Veículo de comunicação que engloba todos os outros, a Internet abre possibilidades inimaginadas, e ninguém é capaz, ainda, de prever com exatidão as mudanças sociais, políticas e econômicas que trará. Em algum momento, a rede poderá levar, por exemplo, ao questionamento da democracia representativa, já que permite a criação de métodos eficazes de consulta direta ao povo. Quem fala sobre o assunto é o jornalista Rosental Calmon Alves, catedrático da Universidade do Texas, EUA, na qual ingressou por concurso público disputado por jornalistas de todo o mundo e onde criou a disciplina de Jornalismo Online. No dia 30 de julho, o professor proferiu, no auditório da Rede Gazeta, palestra sobre Internet e jornalismo.
Você disse que toda vez que surge um veículo novo os outros ficam com medo de ter o mercado tomado. Mas deu exemplos de jornais que passaram a ter mais assinantes a partir do momento em que criaram edições online. Que tipo de atrativo houve? Como terá funcionado?
Rosental Calmon Alves - Quando um meio novo surge, e a cada 20 anos neste século um novo meio de comunicação de massa surgiu nos EUA e depois se espalhou pelo mundo, é como se fosse um terremoto na mídia já existente, porque os outros meios têm de se adaptar, se acomodar, para que todos sigam existindo. A primeira impressão que se tinha, quando o rádio surgiu, é de que mataria o jornal. Depois a televisão surgiu e a impressão é de que mataria o rádio. Foram escritos artigos e livros prevendo isto: não teria sentido você ter rádio se havia rádio com imagem, que era a televisão. Mas a história mostra que ninguém morre. Muda. O rádio, depois da televisão, é completamente diferente de antes da televisão, assim como o jornal está sendo impactado e modificado pela Internet, não só em termos de conteúdo como de forma. Pelo menos para os próximos anos, este fenômeno de ‘midiamorfose’, que é essa adaptação e transformação dos veículos de comunicação, deverá acontecer, e todos, ao contrário do que se diz, vão sobreviver. No médio e no longo prazo, a resposta é: ninguém sabe o que vai acontecer. Há teóricos e especialistas que acham que o tipo de revolução que estamos vivendo hoje é diferente dos momentos de introdução dos outros meios de comunicação. Este meio novo não tem uma característica própria, que o diferencie dos outros. Ele é um meio avassalador, abrangente, tem a capacidade de conter todos os outros meios dentro dele. A dúvida é: estamos apenas diante de um momento em que está aparecendo apenas um meio novo, vai se repetir o que ocorreu antes, os outros vão se adaptar? Ou haverá uma revolução tão avassaladora que todos estes meios vão estar dentro desta plataforma nova? Estamos diante de uma revolução de enormes proporções - a revolução digital, a sociedade da informação que nós estamos criando implica transformações sociais, econômicas, políticas, etc, como a gente não é capaz de imaginar hoje. A Internet abriu - e, mais do que a Internet, a comunicação intermediária por computador - uma possibilidade de acesso à informação que a gente não podia imaginar. Hoje, se você entra na rede mundial, tem acesso a um volume de informações enorme. É tão grande que a gente nem sabe o que isto significa.
E não sabemos também se isto vai ajudar a melhorar a humanidade...
Rosental - ...se isto é uma coisa que beneficia ou prejudica a democracia. O impacto que vai ter, evidentemente, lá na frente, vai ser o questionamento da democracia representativa. Por que você tem uma democracia representativa? Porque era impossível consultar as pessoas, fazer uma assembléia geral do povo a cada vez que tivesse de tomar uma decisão política. Então, o povo elege os representantes. os representantes, em nome dos eleitores, tomam as decisões. Você está entrando numa sociedade em que haverá métodos muito eficazes e seguros de consultar o povo, em que o povo pode ser, cada vez mais, consultado sobre questões objetivas. Pode-se dizer que isto é uma melhoria para a democracia. Pode ser que sim, pode ser que não. A manipulação da massa é uma coisa muito perigosa.
Existe uma história de ficção científica na qual se cria toda uma expectativa a respeito de um homem comum, num determinado dia. É porque ele foi escolhido, como exemplo de cidadão médio, para eleger, teclando no computador, o presidente dos EUA, em nome de todos os cidadãos...
Rosental - Voltando à mídia. É a coisa de querer projetar o futuro com base na realidade que nós temos hoje. Estamos entrando em águas nunca dantes navegadas, em termos tecnológicos. Quando este autor escreveu isto, ele pensou no computador, na tecla de um computador. Dentro de pouco tempo, provavelmente o computador terá um formato completamente diferente do de hoje. Você vai falar com o computador. Você não vai precisar teclar nada.
Dentro deste quadro de jornal online, você acredita que exista uma tendência de extinção do jornal impresso, pelo menos como o conhecemos agora? Acredita que o leitor, que estará em casa, fará sua própria edição? Vai imprimir o jornal na impressora dele?
Rosental - Há várias possibilidades muito concretas em relação a isto. Primeiro, o jornal não vai acabar amanhã. Não vai acabar em vários anos, até porque a tecnologia nova vai demorar a ser boa em relação à tecnologia de você abrir um papel de manhã, em casa. E depois, porque existe o hábito cultural de fazer isto, e os computadores ainda são muito pobres em termos tecnológicos. Ler no computador é muito difícil, muito cansativo, comparado a ler no papel. Em longo prazo, até por uma questão ecológica, o papel vai virar um bem mais caro, mais escasso, porque para fazer papel derrubam-se árvores. E você vai começar a ter este tipo de problema, no longuíssimo prazo. Provavelmente nós não vamos estar vivos quando isto ocorrer. No curto prazo, alternativas para o jornal impresso já estão aparecendo. A Internet é uma alternativa concreta. Estão inventando tecnologias intermediárias, como o papel reutilizável, de maneira que você possa imprimir o jornal na sua casa, num papel que pode ser utilizado de novo. Você lê, bota o papel ali de novo, ele apaga aquela tinta toda e bota outra tinta que o jornal transmite. Qualquer que seja a tecnologia, a função do jornal é disseminar o trabalho intelectual que os jornalistas produziram. Esta função tende a ser cada vez mais valorizada, nesta torre de Babel de informações que se está construindo com a comunicação digital. O papel do repórter, de apurar a matéria e colocar a matéria na mão do leitor, tende a ser cada vez mais valorizado.
Mas isto vai obrigar a uma mudança de perfil do jornalista, em suas habilidades profissionais?
Rosental - Nas habilidades profissionais e na maneira como ele constrói a notícia. A notícia é construída no jornal diferente da revista, do rádio, da televisão. Cada veículo tem o seu código, sua linguagem. A linguagem é muito limitada pelo veículo que a utiliza. Então, esse veículo novo, esse jornal novo, vai ter de encontrar uma linguagem própria, uma maneira de contar a história diferente.
Que não será uma linguagem de lead nem sublead, necessariamente?
Rosental - Não necessariamente. Hoje, a linguagem direta do jornal é considerada a melhor para a Internet. Mas a gente não sabe se você vai ouvir e vai ver, ou se vai ouvir e ler ao mesmo tempo a notícia. Uma coisa importante que está acontecendo hoje é a convergência dos formatos de comunicação. A Internet é o primeiro veículo integrado de comunicação, em que você tem textos, fotos, imagens em movimento, áudio, num veículo só. O jornalista do futuro vai construir a história dele considerando que todos estes recursos novos. Em vez de ele escrever o que uma pessoa falou, pode dar ao usuário a opção de diretamente o que o entrevistado falou. E o usuário terá a opção de ler, ouvir, ver etc.
O jornalista terá de dominar mais tecnologias?
Rosental - Vai ter de se familiarizar muito mais. Acho que durante muito tempo ainda haverá um jornalista meio polivalente, mas com uma especialização. Cada profissional vai ter um forte, ainda. Na nossa geração ainda é difícil que você tenha um jornalista que domine todas as linguagens existentes hoje. Ou você é bom em televisão, ou é bom em jornal, ou rádio. É muito difícil, sobretudo você querer fazer ao mesmo tempo tudo. Mas é muito importante que você saiba como funcionam todos os meios, porque estamos parindo uma nova forma de jornalismo, e esta nova forma é integrada, convergente.
Alguns jornais impressos têm procurado se tornar cada vez mais populares e abrangentes, para obter leitores de várias camadas de renda. Será que a tendência nos jornais online será também esta, ou eles buscarão um público segmentado?
Rosental - Acho que a segmentação é o nome do jogo, agora. Até porque você vê o que está acontecendo com a televisão. A TV a cabo, por assinatura, está se fragmentando, se especializando cada vez mais. Isto está subvertendo as grandes redes, porque está fragmentando sua audiência, e começou a haver momentos em que tem mais gente vendo TV a cabo do que TV aberta. Um lado da Internet que começou a ser valorizado e agora está meio esquecido é o da personalização, que você comentou antes: a possibilidade de programar o veículo para te dar só aquelas informações pelas quais você tem mais interesse. O que é uma coisa muito perigosa. Saiu um pouco de moda porque os leitores acharam um pouco chato isto. Uma das funções do jornal é entender a situação, definir o que é mais importante e dar ao leitor uma coisa mais mastigada. A primeira página reflete um trabalho de produção intelectual de analisar milhares de informações que o jornal recebeu ou buscou, ou descobriu, e dizer ao leitor: isto aqui é o mais importante. Se você faz um jornal muito personalizado, se você dá todo este comando para o leitor, ele perde esta noção. Para qualquer pessoa, hoje, é importante ter uma visão panorâmica do mundo, confiar em alguém, como o jornal, como a fonte de filtragem deste manancial imenso de informações disponíveis para ficar atualizado. Apesar disto, eu vejo a possibilidade de fragmentação. Outra coisa é que todo mundo pode publicar, hoje. É muito fácil você virar jornalista e criar uma publicação qualquer. Se você gosta de bordado, pode criar uma revista online sobre bordados e começar a estabelecer uma rede de pessoas interessadas no assunto. Tudo isto significa fragmentação, pequenas operações, num mundo de milhares de pequenas operações.
O que é básico no perfil do jornalista, hoje, e que permanecerá?
Rosental - Não perder os valores do jornalismo. Ter noção do que é notícia. O patrimônio, a base do jornalista, não muda em nada. A tecnologia é que está simplificando. Não é que jornalista vai ter que virar um cara de computador, um nerd que sabe tudo. Ele vai levar para este novo meio o que já faz no jornalismo impresso. O que não pode é o jornalista do meio impresso hoje fechar-ser para o novo meio. São dois impactos na Internet, hoje. Um, em termos de produto - que produto você pode colocar na Internet que está ganhando audiência e pode vir a ter, ou não, um crescimento explosivo. Eu diria, na pior das hipóteses, ser mais um meio, mais um veículo. Outro impacto é no trabalho do dia-a-dia do jornalista. Um jornalista que não sabe navegar na Internet, hoje, está perdendo um acesso maravilhoso a informações, e o trabalho do jornalista é ter acesso às informações. Este profissional está sendo incompleto. O jornalista de sucesso, seja ele novo ou velho, tem de ter um grau de familiaridade e alfabetização de Internet. Se o velho não tem, o novo tem. Ele já está sendo criado com essa cabeça. No entanto, para meu espanto, eu encontro jornalistas que não fazem nada disto, acham que não é importante. Estão ficando defasados, não só em relação a seus colegas mais jovens, que entram com uma tremenda vantagem, no mercado competitivo como o do jornalismo, como ficam numa desvantagem tremenda em relação à fonte, que tem acesso a todas estas coisas.
Quando as redações foram informatizadas, choveram artigos, crônicas, sobre a dificuldade de alguns largarem a velha Olivetti...
Rosental - Hoje, você entra em escritórios de grandes jornalistas e encontra lá uma máquina, porque o cara gosta. Este apego ao passado tem um limite. O limite é quando a resistência à tecnologia nova prejudica o produto. Hoje, um repórter se negar a entrar na Internet, usar e-mail, usar o computador de forma mais inteligente, resulta num produto de menor qualidade, porque ele tem menor acesso à informação.
Ultimamente, virou moda valorizar não só o profissional mais jovem como aquele que tem no currículo a passagem por muitas empresas. Você disse que trabalhou, durante 23 anos, no Jornal do Brasil. Hoje em dia, isto fica parecendo um pecado.
Rosental - É verdade. Eu fiquei 23 anos no JB, mas tive ciclos de cinco anos. Não fiquei fazendo a mesma coisa durante 23 anos. Passei um tempo na Rádio JB, no exterior, em diferentes países. No fundo, essa valorização de uma variedade de empresas não é pela variedade de empresas, necessariamente, mas é a variedade das funções. A pessoa demonstrou que quis ir para a frente, foi versátil o suficiente para aprender coisas novas. O que é desvalorizado é a falta de ambição profissional e pessoal. Ambição no melhor sentido que esta palavra possa ter. Outra coisa é a flexibilidade. É saber aprender, procurar aprender, se superar, e ser flexível para se adaptar a situações novas. O jornalismo online que está sendo criado no mundo é um laboratório de pesquisa fantástico para isto. Tudo é novo, você pode acertar e errar e tem de saber dar a volta por cima. O jornalismo ficou, durante muito tempo, cristalizado como atividade muito pouco profissional. Hoje, é mais profissional. Numa redação, hoje, um editor também é um gerente. Ele tem de saber que faz parte de uma empresa. Antes, o jornalista era um poeta, filósofo, notívago, e era visto pela empresa como uma coisa de segunda classe - o nosso artista, que está ali, um maluco, que vem aí de noite e faz esse troço -, mas a redação esquecia que por trás disso havia uma empresa, uma estrutura empresarial. Então, a gente achava que era o nosso privilégio: ‘Somos semideuses, criadores da notícia, e não temos nada a ver com esses burocratas’. O leitor era uma entidade vaga e remota na qual a gente de vez em quando pensava. Hoje, se entrou num mundo muito mais profissionalizado, e é bom para a redação, porque do contrário a redação é engolida pelas outras áreas do jornal. Também aparece muita bobagem, muito modismo. Este negócio de dizer que, se ficou em várias empresas, é um valor, pode ser uma bobagem. Cada caso é um caso. O importante, hoje, é você não ser tecnofóbico. Se você vir alguém que diz, ‘ah, esse negócio de computador, ai, meu Deus, disso eu não entendo nada, isto é grego para mim, isto é uma bobagem’. Se eu for editor e algum jornalista disser isto para mim, eu vou mandar demitir o jornalista, ou vou dar uma chance para ele e vou dizer: olha, você tem duas horas para aprender a mexer no computador. Porque todo mundo tem de saber isso, e não tem mistério. Eu nunca fiz curso de computador. Eu aprendi o que eu precisava saber, eu nunca fui micreiro, mas sempre fui um jornalista preocupado com a utilização do computador em meu trabalho. Eu comprei o meu primeiro laptop em 1983. O Jornal do Brasil não tinha nem computador ainda. Eu era correspondente no México e comecei a usar um laptop. Quando fui para a Argentina, em 1985, eu comecei a tentar convencer o jornal a receber minhas matérias via computador por uma questão de economia, porque eu transmitia 6, 8, 10 vezes mais rápido do que o telex. Então, a comunicação era mais barata e mais fácil para eu escrever no computador. Mas é esse tipo de coisa que eu acho que valoriza. Tudo é blá-blá-blá. Internet, tudo é blá-blá-blá. O importante é jornalismo. São os princípios do jornalismo sério, independente, com noção do seu papel social numa democracia, a noção do que é notícia, do que não é, isto não muda. Não pode mudar. É a alma do jornalismo, seja qual for a forma em que ele se dissemine.
Vamos imaginar um veículo da Internet que agregue jornal, rádio e TV. Como será esta redação?
Rosental - Isto já é uma realidade, já há empresas que fizeram isto. O Chicago Tribune destruiu, no ano passado, todas as suas paredes e botou redação de Internet, de jornal, televisão, dentro da mesma redação, mantendo a identidade de cada um veículo, mas trabalhando em comunicação, em sinergia um com o outro.
Fizeram, antes, um trabalho de apoio psicológico e de assistência social aos jornalistas dos diferentes veículos para que não se matassem uns aos outros?
Rosental - (risos) O Chicago Tribune já vem se esforçando nisto há 20 anos. Há 20 anos vem tentando integrar jornal e televisão, por exemplo. É uma empresa que sempre teve um olho nisto. E a Internet é o grande momento para se fazer isto. Quando você tem um conglomerado de mídia, você tem de lembrar que é uma, UMA em caixa alta, empresa multimídia. Uma notícia tem diferentes plataformas. Ainda há muita discussão sobre isto, muita resistência, alguns problemas sindicais, como o temor de que isto pode eliminar funções, empregos, quando, na realidade, até agora, o que se tem visto, é a criação de novos empregos. Todos estes empregos para jornalistas que estão sendo criados na Internet são novos, não existiam antes. Quando eu criei o primeiro serviço de tempo real no Rio, a gente criou empregos novos, no Rio, Brasília e São Paulo. Eram poucos, mas eram jornalistas que antes não estariam trabalhando, se não tivesse isto. O que a gente estava fazendo lá, em 1991? Tentando usar isso, que chamam usina de informação, tentando reinventar o papel do jornal na comunidade. Quer dizer, nosso negócio é informação. Um jornal, hoje, tem a sua edição na Internet, via fax, via pager, via rádio. E a tecnologia aponta para este caminho, para uma integração cada vez maior.
Existem pesquisas específicas sobre o perfil do leitor de jornal online?
Rosental - Existem muitas. Mas é difícil ter acesso à maioria delas, porque são informação proprietária, ou seja, informação vendida, e vendida a peso de ouro, porque quem está analisando isto está pondo a mão no futuro. Que existe, existe. Mas a gente tem algumas tendências. Por exemplo: em Vitória, a [provedor] ZAZ sabe o perfil do internauta daqui, sabe a idade que ele tem, o gosto dele, quantos deles lêem jornal, quantos não lêem, isto tudo é muito estudado. Neste momento, o que está acontecendo é que o jornal na Internet está sendo um complemento do jornal em papel, com a vantagem de que, além de ser um complemento positivo para quem já leu o jornal, ele é a única fonte para muita gente que não lê jornal. Por exemplo: o jovem. Jovem não lê jornal, ou lê muito pouco, mas anda pela Internet, numa certa classe social. Então, o jornal está tendo acesso a um leitor que ele perdeu. Nem é que tenha perdido; ele nunca conquistou, na atual geração de jovens. Um grande problema dos jornais impressos do mundo é o envelhecimento do seu corpo de leitores.
Eles até tentam, com os zines...
Rosental - Tentam, mas é muito difícil lançar este produto para jovem, em jornal, e colar. No entanto, o jovem está lá, dedicando horas à Internet. É uma maneira de conectar o jovem ao jornal e de produzir informação na qual ele está interessado. Não adianta a gente achar o que as pessoas querem, as pessoas vão demonstrando e dizendo para a gente o que elas querem.
Dá para avaliar um mercado assim, que no momento parece meio sem limites?
Rosental - É porque nós estamos vendo o começo. Quando a indústria fonográfica foi inventada, o disco era de cilindro, e os inventores, durante muito tempo, achavam que a destinação ideal para isto era a pessoa gravar uma música. Eles não tinham imaginado e só imaginaram quando o mercado começou a demonstrar, que a pessoa queria as mesmas músicas. Foi o mercado que disse: vamos fazer o disco, porque eu não quero gravar. Eu quero comprar gravado. Eu não posso ir ao Rio de Janeiro para aquele concerto no Municipal. Eu quero, aqui em Vitória, comprar o disco que foi feito com aquele concerto. A história da adoção de tecnologia está cheia de exemplos de novas finalidades que os inventores nunca imaginaram que suas invenções teriam. Quando inventaram a xerox, fizeram um estudo de viabilidade econômica do produto - uma pesquisa seriíssima - e o resultado era de que era uma bobagem, ninguém ia adotar. As secretárias todas diziam que papel carbono era melhor do que xerox. A tecnologia do fax, que ficou todo este tempo esquecida, desde os anos 30 existe tecnologia do fax e só agora os japoneses reduziram, o fax deu um salto. No caso do jornalismo pela Internet, a gente ainda está tateando muito sobre qual é a finalidade. A pergunta é: o que podemos fazer na Internet que não podemos fazer no jornal? O que eu, como leitor, acesso na Internet e não acesso no jornal? Eu posso entrar na Internet agora e ver de uma vez quais são as últimas notícias importantes. Eu não posso fazer isso em veículo nenhum. Se eu pegar o jornal agora eu vou ver as notícias importantes ontem à noite. Se eu ligar o rádio agora, posso não ligar na hora certa, em que os caras estão dando as notícias mais importantes. Então, este é o forte da Internet, em termos jornalísticos. Os jornais americanos vinham quebrando a cara até hoje. Os jornais brasileiros faziam um trabalho até melhor sobre isso, em termos de últimas notícias. Agora, eles estão investindo nisto. Muita gente pode dizer que é óbvio. É, mas muita gente não tinha pensado nisso. No passado, a gente achava mais importante produzir um jornal, elaborar um jornal. Agora, eu quero ligar na hora e ver. Você pode ver de uma vez, mudar a qualquer hora. Um dos sites americanos muda de dois em dois ou de três em três minutos. Outra coisa que você não pode fazer no jornal impresso é ler uma notícia, acabar de ler e dizer ‘mas eu quero mais sobre isso’. Isso pouca gente faz na Internet, mas é óbvio que é isso. O repórter sempre reclama do espaço. A primeira coisa que eu fiz quando criamos o JB Online foi dizer para os repórteres: vocês podem escrever quanto quiserem. Pode não sair no jornal impresso. Mas sai na Internet. Como na Internet as pessoas não lêem, elas vêem, pode ser que queiram só umas poucas linhas, mas se for uma matéria que interessa, elas vão querer saber mais. E você tem de estar preparado para dar mais."
"A Internet é um meio avassalador", entrevista a Tanit Figueiredo Mario, copyright A Gazeta, Vitória, 15/8/99
Gonçalo Jr.
"A revolução se avizinha. Desde a última semana de julho os termos ‘alta velocidade’ e ‘banda larga’ começaram a fazer parte em definitivo do vocabulário de quem usa a Internet ou é assinante de TV a cabo. Pelo menos da TVA, que lançou em São Paulo o Ajato, um novo sistema de conexão para a Internet com promessa de trazer resposta aos comandos do internauta até cem vezes mais rápida que o atual sistema de telefonia, conhecido também como banda estreita. Navegar via cabo passa a ser o sonho de consumo de quem era obrigado a esperar minutos e até algumas horas para ter um arquivo disponível na tela de seu computador. É uma tecnologia tão revolucionária que a solução do velho problema da lentidão é algo ínfimo diante de sua capacidade de ajudar a transformar serviços, relacionamentos pessoais e comerciais, educação à distância e consulta a bancos de conteúdo e entretenimento.
A banda larga vai viabilizar de imediato todas as experiências que até o momento funcionam mal pela banda estreita. O site, a partir de agora, poderá ser também narrado, o que servirá para impulsionar serviços interativos a partir da Internet, como telefonia (voz sobre IP), educação à distância e videoconferência. Mas as potencialidades incitam a imaginação quando o assunto é entretenimento. A banda larga permite a transmissão via computador de imagem com qualidade de TV Digital. Se as operadoras de cabo quiserem, logo poderão oferecer ao assinante uma televisão personalizada quanto à programação, na qual o telespectador terá a opção de fazer sua própria grade de programação ou mesmo comprar quantas horas por mês preferir. Por causa da eficiência da banda larga - a mais avançada até o momento - e dos recursos da TV Digital (DTV ou HDTV), que devem se consolidar no mercado nos primeiros anos do próximo século, o assinante poderá acessar o site da programadora e definir quais shows, documentários, programas de auditório, humorísticos ou entrevistas quer ver e a hora em que quer, sem ficar refém do horário fixo das emissoras. Fará isso pela convergência TV-Internet, com um simples controle remoto ou teclado infravermelho (sem fio), racionalizando seu tempo de ver tevê. Outra idéia seria dar a ele a possibilidade de rever programas favoritos, tendo à sua disposição parte ou o todo do acervo do canal. Seria o fim do videocassete e do DVD? Pode ser que não, mas as mudanças de mercado serão significativas. O diretor de Inovação da Globocabo, Arthur Steiner, acredita que isso é possível inicialmente para atendimento regional, uma vez que ficará caro trazer arquivos de fora do país.
Apesar da dúvida da indústria sobre que tipo de aproximação entre TV e Internet será melhor, os esforços para torná-la realidade estão tão próximos do consumidor que no mês passado foi apresentado no Mac World, em Nova York, o Quick Time TV, da Apple, considerado o mais avançado sistema de transmissão e recepção de vídeo pela Internet, inclusive de eventos ao vivo. A tecnologia está sendo considerada uma nova mídia, um híbrido de televisão e Internet. O sistema chega à sofisticação de permitir que qualquer usuário se torne um produtor de conteúdo, transmitindo seu próprio canal de televisão. Funciona, na prática, como a democratização dos recursos da TV pela Internet.
A novidade está sendo divulgada antes mesmo do lançamento mundial da Web TV Plus, da Microsoft, prevista para chegar ao Brasil (e ao resto do planeta) no primeiro semestre do próximo ano, simultaneamente com a versão 2000 do Windows. Enquanto a tecnologia de banda larga da TVA (a NET e a PSINET anunciam seus provedores para este semestre) é uma forma de acesso à Internet que ainda precisa de computador, a Web TV Plus elimina o PC. A empresa responsável pelo produto, que leva o nome da tecnologia - Web TV -, foi criada em 1995. No ano seguinte, ela lançou a Web TV Clássica, de recurso limitado, porque permitia o uso da TV e da Internet pelo televisor separadamente, mas já trazia os recursos do controle remoto e do teclado sem fio por raio infravermelho. Em julho de 1997, começou a ser experimentada a Web TV Plus, que traz a primeira experiência de convergência. No mês seguinte, a empresa foi comprada pela Microsoft.
A interação na Web TV Plus se dá por meio de um sinal de URL com informações sobre o programa que está sendo apresentado. A informação parte do servidor da operadora de TV, que, ao ser captado pelo codificador da Microsoft, coloca na tela o ‘i’ de informação no canto superior direito, avisando que há dados disponíveis sobre o programa que está sendo apresentado. Ao acionar o controle remoto, a tela da TV é reduzida a um quarto, dando espaço ao site do canal. ‘É importante para a própria operadora porque ela leva o assinante para seu site, possibilitando alavancar outros negócios’, observa Renato Cotrim, gerente da Microsoft no Brasil.
Nos Estados Unidos, a empresa cobra US$ 199 pelo codificador com teclado, mais mensalidade de US$ 24,99. O equipamento é ativado na casa do assinante por telefone e traz o inconveniente de precisar da linha todas as vezes em que o ‘i’ for acionado. Enquanto nos Estados Unidos a Microsoft está atuando como prestadora de serviço da Web TV Plus, no Brasil e demais países a empresa vai licenciar o serviço, que poderá ser executado por um provedor normal de Internet ou operadora de TV a cabo. No momento, a Microsoft está conversando com as operadoras de cabo, para que criem conteúdos interativos, e com fabricantes do receptor, como Itautec e Gradiente. Também depende de negociações com licenciadores em potencial.
A Microsoft apresenta a novidade como um importante estímulo para quem acha a Internet um bicho de sete cabeças; e como um indicativo de formato para o futuro da convergência entre Web e TV. Segundo pesquisa própria, por ser a Web TV Plus mais fácil e cômoda de usar, a grande maioria dos seus assinantes atuais não tem PC em casa, e a faixa etária média é superior a 43 anos - diferentemente dos usuários da rede de computador, na maioria jovens. Dos mais de 800 mil assinantes americanos, acima de 50% a acessam todos os dias e 2,5 vezes mais horas que pelo micro. O serviço permite também receber e mandar e-mails e videomails (basta acoplar qualquer câmera de vídeo à TV), participar de ‘chats’ e fazer pesquisas de busca, programar a gravação de shows com até sete dias de antecedência (com a consulta das atrações dos canais pelo site) e consultar informações sobre seu time durante a transmissão de partida de futebol. A empresa também está investindo US$ 400 milhões na Roger Communications, principal rede de cabo canadense, com 2 milhões de assinantes, na qual pretende aprimorar sua TV interativa.
Já a brasileira Itautec/Philco manda para as lojas até o final deste mês a InfowayTV, com tecnologia nacional. Emerson Queiroz, gerente de produto, explica que o aparelho é do tipo ‘3 em 1’. Trata-se de um monitor de PC - que precisa de CPU para conectar à Internet - que transmite sinal de TV de alta qualidade e funciona como ‘receiver double digital’ com conexão para DVD. Um dos recursos permite que o usuário assista TV enquanto aguarda o ‘download’ da web. A novidade será vendida por R$ 5,5 mil.
A banda larga que está chegando ao Brasil virá também por antenas digitais em microondas, como fará a PSINET. Nos casos da TVA e da NET, as duas operadoras estão aproveitando a estrutura de suas redes de cabo - as mesmas por onde são transmitidos os canais de TV por assinatura e que serão utilizadas para implantar a TV Digital. Tecnicamente, até a primeira quinzena de julho os brasileiros só podiam entrar na rede com a ajuda da linha telefônica, cuja faixa estreita permite tráfego reduzido de freqüência. Isso ocorre porque o gargalo na saída faz com que todo o sistema tenha uma limitação homogênea de velocidade em no máximo 33 kbites. Como não existe velocidade garantida na Internet, em média, consegue-se apenas 10 kbites. Por isso, demora-se tanto para que uma fotografia seja configurada na página, fato que limita a experiência de navegação. O cabo, por ter uma faixa larga, elimina o gargalo da telefonia e permite a transmissão de muita informação e com mais velocidade - até 32 vezes mais rápida do que o máximo permitido pelo sistema telefônico. O segredo da banda larga é o ‘cable modem’, uma maquininha poderosa que deve intimidar os internautas num primeiro momento por seu custo de R$ 650. O equipamento funciona ligado ao micro, como um modem comum.
A TVA e a NET utilizam de modo diferente a rede de cabos para seus provedores de banda larga. O da TVA, o Ajato, é unidirecional porque precisa da linha telefônica para fazer a solicitação dos dados (upload), mas o retorno (download) vem por cabo. A operadora investiu aproximadamente US$ 3 milhões no serviço e já conseguiu 500 assinantes em duas semanas. A NET promete um sistema bidirecional. Faz tudo pelo cabo, sem necessidade da linha telefônica. Para isso, gastou quase o triplo da concorrente, cerca de US$ 8 milhões. O serviço, denominado Virtua, vem sendo desenvolvido desde o ano passado, em 300 casas de assinantes da operadora, em Sorocaba, interior paulista. A operadora espera conquistar pelo menos metade do seu milhão de assinantes - número conectado à rede - com o novo serviço.
Como seu produto é unidirecional, a TVA não precisou esperar a regulamentação do serviço pela Anatel, como a NET. A regulamentação pedida pela NET já se arrasta por dois anos e está prevista para ocorrer neste mês. ‘Poderíamos estar oferecendo o serviço desde janeiro de 1997’, diz Arthur Steiner, da Globocabo. As duas operadoras prometem concorrência acirrada pelos assinantes. A TVA planeja para breve jogos interativos entre pessoas de distantes localidades, chats interativos e salas de chats com uma série de elementos de interação, para tornar a conversa mais interessante. Alexandre Annemberg, diretor de Tecnologia e Novos Negócios da TVA, afirma que tecnicamente o fato de o serviço ser biredicional (da NET) não faz a menor diferença para a velocidade que o usuário terá, uma vez que o problema da rapidez é de fora para dentro do computador. Annemberg acredita que o gasto com telefone exigido pelo sistema unidirecional da TVA compensará o custo maior que deverá ser repassado ao consumidor pelo bidirecional. Steiner observa que, pelo sistema unidirecional, o serviço tende a ficar mais caro, por causa do custo da linha telefônica. ‘Nesse caso, a companhia telefônica é a mais beneficiada, porque continua usando o mesmo impulso, mas não congestiona seu serviço.’
Por enquanto, a diferença dos preços anunciados pelas operadoras não deve impressionar os interessados no serviço. O assinante da TVA paga R$ 40 pela instalação, mais R$ 65 por mês. O não assinante paga respectivamente R$ 120 e R$ 79. Em todos os casos, o conforto e a anunciada economia que terá exigem outro investimento do consumidor, a compra do cable modem, cujo preço tem expectativa de redução a médio prazo. Não há alternativa: é como querer assinar TV paga sem ter o televisor em casa. Há a opção de acesso coletivo. Os condôminos (no mínimo 15) podem ter acesso 24 horas por R$ 200 (assinantes ou não), sem precisar adquirir individualmente o cable modem. A NET anuncia que oferecerá seu pacote básico de quatro velocidades (132 kbites) por R$ 69.
Na prática, a entrada do cabo no serviço de acesso à Internet no Brasil é oportuna para ajudar o segmento de TV paga a incrementar sua base de assinantes e, assim, tentar superar seu esforço para sair da crise. ‘À medida que agrega serviços como a Internet, você vai cativando a base de novos assinantes, diminuindo sensivelmente a rotatividade’, reconhece Annemberg. Júlio César Santos, editor da revista Internet Business, concorda que o provedor de alta velocidade está provocando principalmente uma convergência de negócios, como forma de tentar retomar o crescimento do cabo. ‘As operadoras estão também aproveitando a infra-estrutura cara que montaram como forma de gerar novos negócios e receitas.’
A televisão interativa que começa a surgir vive o dilema das mudanças que a revolução tecnológica vem provocando no comportamento do consumidor. Se antes a indústria determinava o comportamento do consumidor, hoje o mercado passou a ditar as preferências de quem compra. A indústria sabe que o consumidor sonha com a interação entre TV de alta definição e a Internet. Tecnologia para isso já existe, mas como fazê-lo? Especialistas dizem que mais importante do que saber se TV e Internet serão um único veículo é conciliar os dois. Há pelo menos três anos, estudos relatados pela revista Business Week indicavam que as pessoas queriam operar seu micro com a mesma facilidade com que lidam com a TV. Partiu-se, então, para a busca de alternativas que ajudasse no acesso à Web a partir do mesmo princípio da transmissão radiotelevisiva, dando origem ao webcasting. A lentidão do serviço, no entanto, não permitiu qualquer evolução no serviço.
Com o avanço de novas tecnologias, a questão continua, muito mais pelas peculiaridades de cada meio. A TV tem uso mais coletivo, familiar; o computador, mais individual, egoísta. O desafio é aproveitar a tecnologia e o apelo de ambos, preservando as identidades. ‘Não falta produto, mas um modelo de negócio. A tecnologia é menos problemática. Busca-se um modelo de operação; podem-se desenvolver conteúdos específicos para isso, até em termos sociais - várias escolas públicas precisam ter esse acesso’, sugere Júlio César Santos. Annemberg acrescenta: ‘Poderíamos lançar algo voltado para o televisor, mas no momento é preciso entender melhor como esse produto vai evoluir. Não está claro se as pessoas estão interessadas em ver seu e-mail na sala de TV ou qual o interesse em assistir a um filme numa pequena tela de computador. É um problema entender a cabeça do consumidor. E ele não sabe direito o que quer’.
A Internet de alta velocidade está inserida na revolução digital que deverá explodir na primeira década do século. Será uma transformação global, implacável e irresistível por sua praticidade e rapidez em negócio e diversão. Os provedores de banda larga colocam o país em sintonia com a alta tecnologia que brota dos laboratórios de conhecimento em todo planeta. Nesse novo tempo - a começar dentro de cinco anos no máximo - espera-se o fim dos navegadores (browsers) e das lentas conexões por telefone. A Internet será diluída por redes de comunicação sem fio (wireless) via satélite, ondas de rádio ou microondas ou rede digital de serviços integrados. Tem início o que especialistas já apelidaram de ‘movimento pós-PC’ ou ‘computação onipresente’.
Assim também deverá surgir a casa do futuro, tão fantástica quanto a imaginada por Hanna-Barbera no desenhos dos Jetsons nos anos 60. Os computadores integrarão todos os eletroeletrônicos e seu proprietário por meio de uma mini-rede doméstica ligada à Internet. Mas nenhuma tecnologia parece fascinar mais que a convergência da Web com a TV. E este sonho de consumo está próximo."
"O híbrido dos sonhos", copyright Gazeta Mercantil, 13/8/99
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G. Jr.
"O editor da revista americana Wired, Kevin Kelly, em seu novo livro, Novas Regras para uma Nova Economia - que está sendo lançado no Brasil pela editora Objetiva -, define com precisão as transformações que a alta tecnologia vem promovendo em todos as áreas das relações pessoais, sociais e principalmente comerciais. Segundo ele, assim como em todas as esferas da vida humana, também a economia da era digital é tomada por técnicas complexas, nas quais se inverte a ordem usual e se estabelecem novas leis. ‘Os poderosos vacilam, os outrora confiantes buscam desesperadamente um rumo, e os diligentes têm a chance de comandar.’ Por trás de tudo isso, acrescenta o jornalista, surge uma nova ordem econômica, com suas próprias e distantes oportunidades e seus perigos, começando a remodelar a geografia da riqueza. Segundo ele, prosperarão aqueles que se pautarem pelas novas regras, ficarão para trás aqueles que as ignorarem. ‘Testemunhamos apenas os primórdios da ansiedade, perdas, empolgação e ganhos que muitas pessoas experimentarão conforme o nosso mundo migrar para uma nova economia planetária altamente técnica.’
Um exemplo atual dessa transformação rápida e radical de valores e mercados envolve a polêmica exploração da banda larga para acesso direto à Internet, que começa a entrar em operação no Brasil. A novidade está sendo vista por parte dos profissionais da área como ameaça imediata à sobrevivência dos provedores de acesso, que até há pouco tempo constituíam um dos mais promissores negócios da rede. A discussão está concentrada no fato de que até o momento esses provedores que ligavam o computador do usuário à rede mundial por meio da linha telefônica (banda estreita, considerada lenta) ainda não dispõem de alternativa tecnológica capaz de competir com o sistema de banda larga. Para piorar, as operadoras alegam que o papel de intermediação desempenhado pelos provedores não é necessário no novo formato, porque, no caso do provedor bidirecional, a ligação com a Web passa a ser em tempo integral, dispensando o telefone.
Outra ameaça a esses prestadores de serviço não deve demorar a chegar: as empresas de telefonia como a Telebahia e a Telpe (Pernambuco) já estão experimentando novas tecnologias que permitem acesso rápido à rede sem utilização de provedores e a um preço acessível para o consumidor - hoje essa operação custa R$ 2 mil e, por isso, fica mais em conta para o usuário dividir o custo com outros por meio dos provedores, que cobram uma taxa média mensal de R$ 35. ‘Se os operadores de acesso entrarem no cabo, vão cobrar por um serviço que não prestam para o usuário, e isso não é justo’, afirma Arthur Steiner, diretor de Inovação da Globocabo. A empresa se diz contra a presença dos provedores, pelo menos do modo como atuam hoje.
Este mês de agosto deverá ser decisivo para definir a questão. Como mo a legislação brasileira de TVs a cabo não previa a exploração do acesso à Internet por parte das operadoras pela banda larga, seu funcionamento depende de regulamentação da Anatel, agência do governo responsável pelo funcionamento das telecomunicações no país. A Associação Brasileira de Provedores de Internet (Abranet) está pressionando a entidade para que sejam estabelecidas normas legais que dêem aos provedores o direito de compartilhar a rede de cabos com as operadoras. A Abranet defende que seus associados paguem uma taxa às operadoras pelo uso dos cabos, para que possam fornecer os mesmos serviços a seus clientes.
Para a entidade, como as operadoras trabalham em regime de concessão do governo, a rede de cabo pode ser considerada pública. ‘A concessão se justifica pelo uso do espectro de freqüência, que é limitado. O cabo não precisa de espectro eletromagnético e, portanto, não há necessidade de concessão’, contra-argumenta Alexandre Annemberg, da TVA, que defende o fim da exigência da licença governamental para a exploração de cabo no país. Antonio Tavares, presidente da Abranet, insiste que o serviço de provedor em banda larga só é polêmico para as empresas proprietárias de redes de cabo, uma vez que ‘para nós da Abranet tudo está muito claro e tranqüilo’. Segundo ele, a Lei Geral de Telecomunicações estabelece que as redes públicas têm de ser abertas às empresas prestadoras de serviço de valor agregado, que são, por exemplo, os provedores de acesso à Internet. ‘Acreditamos que a regulamentação em andamento, que será colocada em consulta pública pela Anatel nos próximos dias, certamente vai deixar isto claro para todo o mercado.’ Se as empresas não querem entendê-lo, acrescenta, ou ainda mantêm visão ‘retrógrada’, supondo que é possível o monopólio, agora privado, ‘certamente vão ter muitos problemas’.
Tavares acusa as operadoras de não estarem esclarecendo suficientemente o público sobre seu serviço de acesso rápido via redes de TV a cabo. Primeiro, afirma ele, o que está funcionando atualmente pelo Ajato da TVA é um serviço misto de telefone e cabo que, acrescido aos custos de cable modem e instalação, é muito mais caro que o padrão atual de custos de acesso via provedores convencionais. ‘Por outro lado, porque se trata de uma rede a ser compartilhada, com a utilização e adesão de usuários, o serviço irá se tornar lento gradativamente, trazendo para a realidade a velocidade de acesso, diferentemente do ‘oba-oba’ atual.’ Haveria ainda, em sua opinião, o problema da falta de portabilidade. O presidente da Abranet acrescenta que as TVs a cabo não podem ignorar toda a bagagem que foi desenvolvida pelos servidores a partir de 1995. Esse know-how não desprezível inclui suporte a usuário de Internet, orientação de venda e cobranças e atendimento a grandes clientes. Ou seja, a proposta é que operadores e provedores compartilhem suas experiências.
A discussão sobre a interferência do governo ou não, pela regulamentação do uso da banda larga para acesso à Internet, é mundial. Como mostra a revista americana ‘Broadcasting & Cable’, os provedores de conteúdo temem que as operadoras de cabo acabem dominando o serviço de banda larga e passem a cobrar dos provedores um ‘pedágio’ para sua veiculação. Assim, a mesma pressão que está sendo feita pela Abranet junto à Anatel para abrir a banda larga a todos provedores está ocorrendo nos Estados Unidos. Do outro, as operadoras de cabo alegam que não têm tecnologia para administrar o uso de sua rede pelos servidores e afirmam que não seriam compensadas de maneira justa.
A Globocabo já anunciou que tem interesse em tornar sua via de acesso disponível para provedores de serviços e conteúdos. Do outro lado, teme-se que essa oferta seja limitada e a velocidade restrita em relação aos provedores da própria operadora. Entre as operadoras, teme-se que a interferência da Anatel represente um retrocesso, se ela criar normas protecionistas fazendo os provedores compartilhar o cabo. ‘Estaríamos voltando 50 anos no tempo e repetindo o mesmo erro da Lei de Informática nos anos 80’, diz um executivo. Já Caio Túlio Costa, diretor do Universo Online (Uol), maior provedor brasileiro, parece pouco atualizado com a discussão. Perguntado sobre a reivindicação dos provedores, limitou-se a dizer: ‘Essa é uma falsa questão que está sendo colocada.’
Enquanto isso, existe uma idéia de que não resta outra saída para os provedores senão rever e reformular seu papel no mercado. Uma alternativa seria que elas se tornassem provedores de serviços e conteúdos, o que promete ser a grande revolução da banda nos negócios da rede. Para ter uma idéia, hoje os provedores americanos limitaram em dez minutos a oferta de vídeo ‘streamig’ (imagens digitalizadas em movimento) para que a capacidade de transmissão não entre em colapso pelos usuários. Com a banda larga, deverá haver uma explosão desse tipo de produto. As compradoras de moda pela Internet, por exemplo, poderão escolher suas peças assistindo diretamente aos desfiles.
Negócios possíveis também incluem ouvir rádio com qualidade de som digital. Se isso ocorrer, muitas emissoras de FM tendem a desaparecer, e o sinal do espectro que fora concedido pelo governo poderá ser usado para que os cidadãos de todo o país, por exemplo, substituam relógios por pequenos aparelhos de pulso que recebam transmissão da hora exata. O governo poderá usar o mesmo recurso para acionar iluminação pública e semáforos.
Estima-se que a rede mundial de computadores movimente este ano US$ 340 bilhões, US$ 20 bilhões a menos que a indústria automobilística. Como se isso fosse pouco, a banda larga deve impulsionar o mercado da Internet, promovendo ainda mais transações comerciais e prestações de serviços. Os catálogos com fotos e ilustrações, por exemplo, poderão ser acessados com rapidez, induzindo as compras. De acordo com estudos da Abranet, se em 1995 existiam 250 mil assinantes da Web no Brasil, em 1998 o número pulou para 2,2 milhões em 1998, com crescimento anual de 175%. A expectativa é ultrapassar 4 milhões de usuário até dezembro; 1,6 milhão serão usuários pagantes.
Nesse processo contínuo de mutação da economia, comentado por Kevin Kelly, alguns casos práticos mostram a certeza de que quem não ficar atento às tendências de mercado poderá ficar fora ou ver seu negócio on-line desaparecer em alta velocidade. Um exemplo disso é a produtora multimídia TV1, de São Paulo, que há cinco anos descobriu que o futuro da comunicação não se limitava à produção de comerciais e documentários para TV, como vinha fazendo havia oito anos. Ela passou a perseguir o que apostava ser o cominho de convergência das mídias e, hoje, emprega 60 pessoas, diversificou as atividades e é responsável pela produção e manutenção de site na Internet para quinze grandes empresas brasileiras - entre elas, Antárctica (premiado com IBest 97/98, categoria alimentos e bebidas, júri oficial), Parmalat, Pão de Açúcar (prêmio Ibest 98/99, categoria alimentos e bebidas, júri oficial), Volkswagen, NET Brasil, Light, Sadia, HSBC, Fischer America, NEC, Banco do Brasil e JVC. Além de vídeos institucionais, a produtora faz CD-Rom e esta semana acaba de concluir dois DVDs interativos para empresas, um dos primeiros do país a desenvolver o serviço. ‘Percebemos há muito tempo que a tecnologia estava caminhando de analógica para digital e passamos a nos equipar para tanto’, recorda Sérgio Motta Mello, um dos sócios da produtora.
O gerente de tecnologia da TV1, German Quiroca, acredita que a banda larga tenha potencial de interatividade excepcional para as empresas, como permitir a criação de novos conteúdos, realização de treinamentos interativos, reuniões virtuais e discussões de projetos. Motta Mello exemplifica: ‘Poderemos discutir todas as etapas de produção de um programa de TV por meio virtual e deixar apenas a filmagem para o real’. De acordo com o empresário, sua preocupação é cada vez mais fazer que a produtora ofereça produtos prontos para o novo cenário da convergência dos meios. ‘Nos especializamos em entender a linguagem e os briefings das empresas de forma a traduzi-los em apresentações e conteúdos na forma digital, independentemente de ser vídeo, CD-Rom, site ou DVD.’
Enquanto os provedores buscam conquistar mais assinantes e se adaptar às novidades, o mercado assiste a um crescente interesse na convergência da Web com a TV. No início de julho foi lançado o site ‘TV On Line’, com toda a programação, que também oferece no cardápio a opção de servir para treinamento de executivos ou fornecer reportagens de televisão que o assinante queira rever. No último dia 8 foi lançado também o site ‘Tudo no Ar’, uma espécie de revista eletrônica da Zem Editora, criada para atender a um mercado estimado de mais de um milhão de pessoas, carentes de informações sobre o que está indo ao ar na TV. Ela reúne jornalistas que atuam no mercado de TV há mais de sete anos. A editora publica dois guias de TV por assinatura (TVA e TV Filme). O editor José Eduardo Mendonça diz que a edição eletrônica traz informação ágil, crítica e interativa sobre 90 canais pagos e abertos que atuam no país. As seções sobre TV aberta são atualizadas todas as quintas-feiras. No caso dos canais de TV paga, será possível acessar a programação de qualquer dia do mês em qualquer horário. Assim, o visitante do site poderá se programar.
O formato de ‘Tudo no Ar’ fará ainda mais sentido quando ocorrer maior convergência da TV com a Internet. O serviço parece se encaixar também com a tecnologia da Web TV Plus. A preocupação com a interatividade ajudará nesses aspecto. Para Mendonça, sua revista vai atender por enquanto a duas lacunas no mercado, uma vez que os guias de programação existentes não chegam para todos os assinantes de TV no Brasil e uma vez que os sistemas de satélite não têm publicações com suas programações. Além disso, por uma questão de prazo industrial, as informações destes guias não podem ser atualizadas. Seu investimento, observa, está no futuro. ‘À medida que os canais passam a ser commodities, num universo em que todos estarão à disposição de todas as operadoras não há sentido em dividir um site por operadoras; por isso enfatizamos apenas a programação, independentemente de onde o canal estiver. Várias programadoras ganharão visibilidade junto a públicos que não as conhecem.’
O telespectador, curioso, aguarda que tudo chegue o mais rápido possível a seu controle remoto. Na diversidade dos canais, espera encontrar ainda mais alternativas. Quem não estiver disposto a oferecê-las tende a morrer em breve."
"Como a convergência remodela o mercado", copyright Gazeta Mercantil, 13/8/99
A VOZ DO DONO
Janio de Freitas
"É assim como quem tomasse uma providência banal, nem merecedora de maior divulgação, que o governo dos Estados Unidos decide criar um serviço oficial de notícias para combater reações da opinião pública, lá e no mundo, que se mostre contra intervenções militares e outras operações do poder americano. Temos o que esperar com apreensão, com maus pressentimentos mesmo.
Desde o genocídio que foi a guerra do Vietnã e, ainda mais acentuadamente, desde o esmorecer da Guerra Fria afinal extinta, a opinião pública tomou consciência da desumanidade implícita nas intervenções militares e da costumeira falsidade de suas motivações. É possível que isso tenha contido o ímpeto americano uma ou outra vez, mas não o inibiu: Panamá, Haiti, Granada, Iraque, Iugoslávia, sem contar as muitas intervenções menos demonstradas.
A criação da nova agência - IPI, International Public Information - sugere projetos tendentes a chocar a opinião pública e suscitar reações, muito mais do que aquelas intervenções militares causadoras de algum amargor, mas não de consequências na política ou na sociedade dos Estados Unidos. Nem da Europa, nos dois casos, Iraque e Iugoslávia, em que europeus se sujeitaram à pressão para integrar-se às ações militares.
O caráter do serviço a ser feito pela IPI (o nome lembra, apropriadamente, a agência UPI, peça de destaque na engrenagem da Guerra Fria) já se denota nos setores do governo incumbidos por Clinton de formulá-lo: CIA, FBI, Pentágono e Departamento de Estado. Os jornalistas que viveram as redações no período da Guerra Fria anterior à guerra do Vietnã não vão Ter surpresas com a IPI.
O principal tema do governo dos Estados Unidos é, agora, a América Latina. Região que, depois da Europa, mais sensibiliza a opinião pública americana. Quintal embora, é América ainda. Um governo esperto tomaria precauções para que, passando do discurso à ação, não fizesse disso um problema interno. Ainda mais com tão grande presença índio-latina em sua população."
"Vozes conhecidas", copyright Folha de S.Paulo, 17/8/99
ARTIGO 222
Airton Xerez
"Nestes tempos de internacionalização de valores, hábitos e costumes, a Câmara dos Deputados vem debatendo propostas de mudanças constitucionais no que tange à propriedade e controle das empresas de jornais, de revistas, de rádio e de televisão no Brasil.
A discussão é das mais oportunas e necessárias, tendo em vista que nossa atual Carta Magna consagra, no que concerne a essa delicada questão, conceitos do período entre-guerras, quando, durante do Estado Novo, sentiu-se a necessidade de aumentar o controle sobre a imprensa, o que acabou por precipitar a regulamentação das outorgas de rádio e a criação d censura.
Essas disposições constitucionais não são gratuitas. Ao contrário, decorrem de uma tradição jurídica historicamente fundamentada na percepção do poder da mídia e da necessidade de preservá-la de um controle a partir do exterior.
É por isso que, até hoje, a propriedade dos meios de comunicação permanece nas mãos de brasileiros natos ou naturalizados há, no mínimo dez anos, admitindo-se, quando muito, a participação de empresas nacionais no capital em até 30% do total, mas sem direito a voto.
Tais dispositivos vêm impedindo o ingresso de capital estrangeiro nas nossas empresas jornalísticas e de radiodifusão (leia-se rádio e TV), o que além de não aproveitar uma extensa e qualificada mão-de-obra integrada por jornalistas, fotógrafos, desenhistas, chargistas, cenógrafos, atores etc., impede o aprimoramento dos parques industriais através da absorção de novas tecnologias, isto devido à já comprovada escassez de poupança interna.
O assunto volta a debate, através de comissão especialmente designada pela Câmara dos Deputados. Perseguindo o objetivo de dar nova dinâmica à propriedade das empresas jornalísticas, constatou-se que as grandes redes de TV passaram a representar a partir do início da década de 70 o papel de mantenedoras da unidade territorial, da nossa língua, cultura e tradições, num país amplo e de influências tão diversas.
A TV transformou-se, para nós brasileiros, em fator de integração nacional, proporcionando, em tempo real, que uma informação ou um evento seja visto e apreciado, just in time, em todos os quadrantes do país.
Na maior parte da Amazônia, com seus dois terços do território nacional, milhares de quilômetros de fronteiras remotas e 11 milhões de telespectadores, ela é o único veículo de comunicação social existente.
Com a mesma função integradora, seis milhões de antenas parabólicas encravadas na vastidão territorial brasileira - a captarem as imagens diretamente dos satélites - garantem o direito de todos os brasileiros à própria cultura, dos artistas ao trabalho e do país à sua identidade.
Essa grande quantidade de antenas proporciona acesso livre e gratuito do sinal de TV a 30 milhões de pessoas, metade das quais residente nas mais longínquas e isoladas localidades das áreas rurais do país e que, de outra forma, estaria totalmente isolada na Nação.
A Amazônia é um imenso vazio cheio de riquezas e há muito desperta a cobiça internacional. Ainda agora, os marines preparam-se para fincar pé na Colômbia, país que tem uma fronteira com o Brasil equivalente a quatro vezes a distância entre o Rio e São Paulo.
Acentua-se, por isso, a necessidade de que o sinal de nossa TV continue a transmitir o hino, as tradições e a cultura nacionais, para que a nenhuma de nossas crianças seja dado desconhecer os nossos valores.
É por isso, que, num exemplo de brasilidade, essas emissoras de televisão e suas repetidoras na Amazônia iniciam e encerram suas transmissões com o Hino Nacional cantado.
O motivo remonta à década de 60, quando, na fronteira do Brasil com essa Colômbia hoje em ebulição, as mulheres brasileiras iam parir em hospitais colombianos, seus filhos iam estudar em escolas colombianas e lá eram obrigados a cantar o hino colombiano. Estava em marcha a desnacionalização dos nossos irmãos da fronteira.
Hoje, às vésperas do novo milênio, a TV cobre toda a região em tempo real, e quem não tem o seu sinal pode captá-lo através das parabólicas, acessíveis até para as camadas mais pobres, quando usadas de forma condominial, ou seja , com uma servindo a diversas famílias.
Para um país da dimensão do Brasil e de tão grandes variações regionais e de renda, o abençoado sinal de TV, democratizante e igualitário, significa, sobretudo, unidade - palavra que agora ganha importância especial diante da nova relação que se prenuncia sobre os Estados Unidos e a América do Sul.
Diante de todas essas constatações, defenderei intransigentemente que o direito ao controle de empresas de radiodifusão permaneça limitado a brasileiros natos ou naturalizados há no mínimo dez anos, admitindo-se a participação de empresas de capital nacional ou estrangeiro até o equivalente a 30% do capital total. As mudanças constitucionais que a Câmara dos Deputados vem debatendo extrapolam, em muito, uma mera questão de aporte de capital, pois percebeu-se, desde logo, que a matéria envolve a preservação de um sistema de comunicação fundamental e que confunde com a própria essência do país.
Admitamos, é claro, o ingresso saudável de capitais estrangeiros, mas há que se impor salvaguardas que mantenham o controle do setor de radiodifusão em mãos de nacionais. E que não nos chamem de xenófobos, pois estaremos em muito boa companhia, seguindo o exemplo de países como Estados Unidos e Canadá, cujas legislações só admitem o máximo de 20% de capital votante estrangeiro; A França 25%; a Itália, menos de 50%; e o Japão menos de 20%. (Deputado federal pelo PSDB-RJ, presidente da Comissão Especial da Câmara que debate proposta de mudanças constitucionais nos órgãos de comunicação)"
"A TV e a integração nacional", copyright O Globo, 15/8/99
MÍDIA & MERCADO
Gazeta Mercantil
"O empresário brasileiro Mateo Levy acertou, no último fim de semana, com o grupo mexicano MedCom a compra do canal de notícias de língua portuguesa do CBS Telenotícias. Há dez dias, a emissora que emite a programação jornalística em espanhol e português entrou no chamado ‘chapter eleven’, o ‘capítulo 11’, que é o nome dado ao processo de concordata nos Estados Unidos.
Levy ainda não se declara dono do canal porque o negócio, para ser formalizado, depende da anuência do juiz responsável pelo processo de renegociação de dívidas com os credores. Mas já anuncia que tem planos de voltar a programação para a cobertura da economia internacional. O serviço em português e transmitido no Brasil pela TVA e DirecTV. (...) Calcula-se que os passivos totais da empresa, juntando os dois serviços, alcancem os US$ 20 milhões. Na formalização da concordata, os proprietários do CBS Telenotícias (70% do MedCom e 30% do grupo CBS) alegaram que as perdas mensais beiravam US$ 1 milhão. ‘A equipe de jornalistas será mantida e vamos investir para melhorar a programação do canal’."
"Brasileiro compra Telenotícias", copyright Gazeta Mercantil, 3/8/99
Ismael Pfeifer
"O brasileiro dos anos 90 ingressou no mundo novo da tecnologia pelas portas do telefone celular e da Internet. Desdenhou curiosamente o primeiro dos novos símbolos da modernidade a desembarcar por aqui, a TV paga, que já se oferecia ao consumidor a partir em 1990. Uma década depois, as operadoras de televisão por assinatura ainda não saborearam lucros e o volume de assinantes vai fechar 1999 abaixo do volume de clientes da rede mundial de computadores.
A empresa pioneira do setor, a TVA, não alcançou ainda os 400 mil assinantes nos sistemas a cabo e microondas (desistiu recentemente do modelo por miniparabólicas, a DirecTV, vendida à Hughes), enquanto a primeira empresa privada da telefonia celular em São Paulo, a BCP, mal completou um ano de atividade e já superou o milhão de clientes.
(...) Enquanto a telefonia celular tem ampliado a sua base de clientes à velocidade de pelo menos 40% ao ano desde o início da década, e a Internet, mesmo recém-nascida, salta à média de 80% anuais desde 1995, o setor de televisão por assinatura manteve-se praticamente estagnado nos dois últimos anos.
O suficiente para que no final deste ano o número de assinantes de Internet beire os 3 milhões e supere os 2,8 ou 2,9 milhões estimados para a televisão. O volume de celulares explodiu e deve fechar 1999 em 11 milhões de aparelhos. Dos diagnósticos possíveis para o descompasso, o item preço não parece ser o mais relevante. Navegar pela rede mundial de computadores custa hoje ao consumidor um computador de pelo menos R$ 1.300 e uma assinatura de acesso de R$ 30 a R$ 35 para acesso irrestrito. No caso do celular, os aparelhos mais acessíveis, de início na faixa dos R$ 700, hoje custam menos de R$ 300.
A Associação Brasileira de Televisão por Assinatura (ABTA) exibe dados comparativos em que a mensalidade brasileira figura entre as menores do continente americano. São US$ 30 em média, contra US$ 36 na Argentina - onde o sistema é popular - e US$ 39 dos Estados Unidos, cuja audiência das emissoras fechadas já briga com a dos canais abertos. É verdade, no entanto, que em reais as mensalidades têm se mantido em níveis ainda impopulares, entre R$ 60 e R$ 70 para pacotes completos.
Mas para Leila Loria, diretora superintendente da TVA, os fatores mais importantes são outros. ‘O crescimento lento tem muito mais a ver com o conteúdo oferecido pelos pacotes disponíveis. E o problema passa pela língua’, estima. Ela se refere ao fato de a absoluta maioria da programação ofertada pelos serviços de televisão ter origem nos Estados Unidos e Europa, emitido em inglês e, algumas vezes, traduzido para o espanhol - língua entendida como básica para a América Latina.
‘Em nossas pesquisas, o assinante sempre demonstra preferência pelo conteúdo em português, sobretudo o dublado. Rejeita inclusive os legendados’, atesta Leila. Isso está levando, segundo ela, a um esforço para ampliar o volume de programas e filmes traduzidos, mesmo os que chegam em espanhol.
Outro entrave importante ao desenvolvimento da TV paga no país foi o congelamento na concessão de novas licenças para a exploração do serviço. As outorgas foram suspensas nos últimos oito anos, o que restringiu a oferta a pouco mais de cem das 5 mil cidades no país.
Mas o grupo se diz satisfeito com o que obteve desde 1992, quando iniciou operações por cabo, reforçadas nos últimos três anos pela emissão via banda Ku, da Sky (miniparabólicas). ‘Estamos entre os 15 maiores sistemas do mundo em número de assinantes’, diz a nota da Net. Segundo números da Pay-TV Survey, os sistemas Globo de televisão por assinatura teriam, em conjunto, algo em torno de 1,75 milhão de assinantes.
Na mesma direção vai o presidente da Associação Brasileira de Telecomunicações por Assinatura (ABTA), Alexandre Annemberg. ‘Sem novas outorgas, o setor ficou limitado’. Para ele, no entanto, em cidades como São Paulo - que concentra 37% do total de assinantes pelo País - o desenvolvimento foi significativo nas classes A/B. As raras tentativas de incursão pela classe C, como a da operadora Multicanal (comprada pela Net em 97), geraram aumento na inadimplência e resultados nada animadores.
A cambaleante história da TV paga no Brasil inclui, entretanto, erros importantes. ‘As duas grandes operadoras, por exemplo, cabearam as mesmas regiões em cidades como São Paulo. Não há por que haver duas redes sobrepostas. Deviam ter dividido os custos do cabeamento e depois disputar o cliente’, diz Antônio Rosa Neto, consultor de mídia, dono da Dainet. Para ele, o alto endividamento das empresas da área também serviu para conter o crescimento do setor. No Grupo Abril, os passivos elevados empurraram à venda a DirecTV, o braço do sistema em emissão via banda Ku.
Outro dado a ser considerado para explicar o baixo desempenho da TV paga no país é a boa qualidade dos canais abertos, como estima Otávio Jardanovski, diretor executivo da Pay-TV Survey, o mais importante acervo de dados sobre o setor no País. ‘Na Argentina, onde a TV paga deu certo, os canais abertos não chegam aos pés dos nossos’, diz. No país vizinho, há mais de 5 milhões de assinantes, quase a metade do número de domicílios. No Brasil, pouco mais de 5% das famílias têm televisão por assinatura em casa.
(...) Superada a pior etapa, o número de assinantes voltará a crescer rápido, a 50% no ano que vem, para chegar a dezembro de 2000 a 3,8 milhões domicílios. E alcançar os 5 milhões em 2002."
"TV paga não decola e é superada por Internet", copyright Gazeta Mercantil, 3/8/99
Daniele Madureira
"O SBT já decidiu: até 2002 quer toda a produção terceirizada. ‘Não há como fugir, este é o futuro da TV’, decreta seu diretor superintendente artístico, Eduardo Lafon. A segunda maior rede de televisão do país percebeu que não dá para concorrer em produção com a Globo, dona de uma estrutura orçada em US$ 455 milhões. A estratégia é se concentrar na veiculação, levando ao ar atrações que rendam Ibope e anunciantes, e que sejam de 30% a 40% mais baratas que o produto da casa.
Record, Bandeirantes e Cultura estão seguindo a mesma trilha. As três redes devem responder juntas este ano por uma injeção de pelo menos R$ 32 milhões na produção independente. (...) Uma realidade até pouco tempo impensável, segundo o crítico de TV Gabriel Priolli, diretor do Canal Universitário e da TV PUC (Pontifícia Universidade Católica), de São Paulo. ‘As emissoras abertas tinham preconceito em relação à produção independente, e com razão, pois os prazos não eram respeitados e a qualidade deixava a desejar’, diz. (...) ‘As produtoras queriam entrar no mercado de TV, mas seus preços estavam altos. Elas começaram com suporte à produção das redes, mas depois da desvalorização se tornaram mais modestas, o que incentivou o mercado.’
O foco das emissoras na veiculação é uma receita seguida há décadas no mercado norte-americano, onde apenas os noticiários são produzidos dentro de casa. ‘Nos anos 50, as emissoras de TV começaram a roubar parte do público de cinema, e o impasse foi resolvido com um ‘acordo de cavalheiros’: todos os estúdios passaram a ter uma divisão destinada à produção para a TV’, diz Priolli. ‘Uma atitude extremamente coerente, já que o que dá dinheiro é veicular, não produzir.’
A Bandeirantes já percebeu isso. Há dois anos, começou a investir em novas programações para se livrar do estigma de ‘canal do esporte’. Para tanto, adotou o jargão ‘Band, novos caminhos’. (...) A emissora deve investir este ano no mínimo R$ 7 milhões na produção de ‘sitcoms’ pela Columbia, braço de produção e distribuição do grupo Sony, e está otimista com o produto. ‘É uma alternativa pioneira da Band, que lhe garante presença em dramaturgia, já que há estagnação do formato novelas’, diz Teles. (...)
A Band procura reposicionar sua programação, correndo atrás do públicos feminino e jovem - este último, não costumava ligar o canal até a personagem ‘Tiazinha’ aparecer na tela. A aposta em novas atrações só ganhou força depois que a rede fechou acordo com a Traffic em dezembro de 1998, para a produção da grade esportiva. A empresa, especialista em markting esportivo, com forte penetração no mercado latino-americano, comprou os direitos de transmissão dos eventos e vai dividir com a Band a receita publicitária. (...)
A publicidade da TV Cultura também foi incrementada depois que a estatal partiu para a produção terceirizada e a co-produção, principalmente, de documentários e séries especiais. Nos últimos doze meses, a Cultura aumentou seu volume de programação em 10%, chegando a 20 horas diárias. Como resultado, sua receita publicitária cresceu 62%, alcançando R$ 3,9 milhões no primeiro semestre (em todo o ano de 1998, a rede fechou receita de R$ 4,8 milhões). A expectativa é que, este ano, a emissora contabilize R$ 9 milhões em publicidade.
Em agosto, a Cultura fecha contrato com uma produtora internacional para a realização da ‘Ilha Rá Tim Bum’, seu maior projeto, orçado em R$ 6 milhões. ‘Trata-se de um conceito moderno, que todo o mercado pratica’, diz Rogério Brandão, diretor artístico e de programação da emissora. ‘As produtoras têm padrão de qualidade, e proporcionam uma relação custo-benefício para a rede muito mais atraente’, diz. ‘Mas é preciso que a emissora dê as coordenadas do produto, para não descaracterizá-lo.’
Para Eduardo Lafon, do SBT, o avanço da emissora na terceirização vai depender da oferta de produtos por parte das independentes. ‘As produtoras precisam oferecer atrações de acordo com a grade da emissora’, diz. ‘Já recusamos muitos produtos que não se encaixavam em horário.’ Um deles foi a ‘Escolinha do Barulho’, criada pelo ‘sócio’ da casa, Gugu Liberato.
Com a impossibilidade de ver o programa no SBT, Gugu o ofereceu à Record, que o aceitou, fazendo frente à ‘Escolinha do Professor Raimundo’, quadro do humorístico ‘Zorra Total’, da Globo. Produzida pela Câmera 5, toda a receita da atração é dividida entre a produtora, a GPM Participações (empresa de Gugu Liberato) e a União dos Artistas, uma cooperativa dos atores que integram o elenco da ‘Escolinha’.
‘Queremos manter o noticiário e alguns programas de entretenimento, mas são inegáveis as vantagens de uma produção terceirizada: é só dar o perfil do produto e receber uma fita gravada’, diz José Paulo Vallone. Ele não fala à toa: Vallone é dono da JPO Produções, que produz a novela ‘Louca Paixão’, exibida em horário nobre na rede. Depois que incrementou a programação da Record, a receita da JPO cresceu 300%, pulando de R$ 2 milhões em 1997 para cerca de R$ 8 milhões em 1998.
Segundo o diretor da JPO, Rodolfo Silot, a equipe da produtora cresceu 30% no último ano, chegando a 84 funcionários. ‘Até agora, trabalhamos com locação de unidade móvel, mas devemos adquirir equipamentos no próximo ano, o que deve diminuir pela metade o tempo de trabalho’. Ele diz que está em pauta a produção de ‘talk shows’ e minisséries para a Record.
Ganhar o mercado latino-americano é a meta da Columbia, especializada na co-produção em ficção e no licenciamento de formatos, como ‘game shows’ e ‘talk shows’. ‘Na Argentina, a novela já chegou à saturação. Ainda em 1999, começaremos a co-produção de uma série com a Telefé’, diz Iona de Macedo, vice-presidente de produção para a América Lantina.
Em programas jornalísticos e documentários, a GW Comunicação, que faturou R$ 10 milhões em 1998, é uma das maiores fornecedoras. Na TV aberta, mantém negociação com a Band e Cultura. ‘As idéias foram aprovadas, mas é preciso fechar patrocínio para os dois projetos’, afirma o sócio Luiz Gonzales.
Em produção jornalística, outro destaque no mercado de independentes é a TV1, de Sérgio Motta Mello. ‘Só as redes enxutas são competitivas’. (...) ‘A Globo já investiu demais para abandonar a produção’, diz. ‘Seu visão de negócio é abastecer não só o mercado nacional, mas exportar seus principais produtos - as novelas’."
"Produção terceirizada avança nas emissoras de TV", copyright Gazeta Mercantil, 2/8/99
MEMÓRIA
Elio Gaspari
"Entrevista: João Marcos Weguelin, 35 anos, jornalista, autor da página "O Rio de Janeiro Através dos Jornais - 1888-1969" <http://www.alternex.com.br/solidario/rj.html>
O senhor colocou na Internet uma coleção incrível. São 50 títulos com a cobertura que os jornais deram a acontecimentos relevantes da vida nacional. Vai da assinatura da Lei Áurea ao sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969. O senhor copiou o equivalente a um livro de 300 páginas. O que o levou a ter uma trabalheira dessas?
João Marcos Weguelin - O gosto pela história e o interesse de publicar um livro com esses textos. Ofereci o manuscrito a diversas editoras, mas até agora ninguém se interessou. Foram dois anos de trabalho, consultando coleções de 62 jornais na Biblioteca Nacional. Aprendi muito. Pude perceber a excelente qualidade da imprensa no início do século. Eram textos narrativos, com cuidado literário. A inauguração da avenida Central, hoje Rio Branco, em 1905 e a morte de Olavo Bilac, em 1918, são exemplos de um bom estilo e de curiosidade. A última frase do poeta, por exemplo: "Dêem-me Café! Quero Escrever!". Depois desse trabalho todo, entre ficar com o texto na gaveta e compartilhá-lo com quem quiser lê-lo, achei melhor colocá-lo na Internet. Em pouco mais de um ano ele foi consultado 14.886 vezes.
Quais são os episódios que mais lhe impressionaram, cuja leitura o senhor recomenda?
Weguelin - A cobertura da Passeata dos 100 mil, de 1968, é um bom documento. Gosto muito do noticiário da derrota do Brasil na Copa de 1950, pela emoção e pela dramaticidade. Um clima de fim de mundo. Pela precisão, é um prazer a leitura do primeiro vôo São Paulo-Rio, pelo piloto Edu Chaves, em 1914. Ao longo de toda a seleção há também uma amostra da maneira como a imprensa enterra os mortos famosos. Do barão do Rio Branco a Vargas, passando pelo bandido Mineirinho, assassinado em 1952. É interessante ver como as reportagens narraram a morte de um bandido famoso, mostrando que, na realidade, mataram-no quando estava encurralado atrás de um ônibus.
O senhor recebeu alguma ajuda? Aceita anexar textos ao seu arquivo?
Weguelin - Fiz tudo sozinho. Meu interesse foi divulgar o livro que gostaria de publicar. Seria boa idéia se outras pessoas quisessem transmitir outras reportagens. É um material muito rico, de consulta difícil, pois são poucas as bibliotecas que guardam coleções de jornais. Em muitos casos, sobrevivem num estado que torna difícil a consulta. Se algum professor estiver interessado no projeto, é só escrever. Mando o disquete de graça. Fiz essa oferta a 80 colégios do Rio e só um professor se interessou. Era do Veiga de Almeida, na Barra. Eu fui lá entregar o disquete pessoalmente."
Da coluna de Elio Gaspari, copyright Folha de S.Paulo/O Globo, 15/8/99
CONTROLE
Jornal do Brasil
"São Paulo - A polícia do estado de São Paulo retirou da Internet cerca de 40 páginas nas quais, de alguma forma, se fazia apologia ao crime. As páginas censuradas, segundo confirmou ontem o Departamento de Comunicação Social da Polícia Civil, foram elaborados por internautas brasileiros e incentivavam o homossexualismo, o bestialismo e o terrorismo. Também ensinavam a preparar atentados, falsificar cartões de crédito, ‘clonar’ telefones celulares, ‘roubar’ sinais de televisão a cabo ou destruir bens públicos.
A polícia, que teve conhecimento do conteúdo ilegal das páginas graças a denúncias de diferentes usuários da Internet, identificou os provedores que mantinham as páginas na rede e os obrigou a retirá-las do ar. Os provedores de Internet, que alegaram desconhecer o conteúdo das páginas, também foram informados de que estavam obrigados a identificar os usuários que elaboraram as páginas e que alugaram os espaços.
‘Os provedores não colaboraram. Muitos alegam que não podem oferecer informações sobre seus clientes sem autorização de um juiz. Eles não podem manter em sigilo essas informações’, adverte o detetive da Polícia Civil Mauro Marcelo de Lima, pioneiro no Brasil na investigação de crimes na Internet. ‘Apenas alguns provedores aceitam colaborar diante de uma petição judicial ou da polícia porque suas políticas são de impedir que a rede se converta em um espaço para atividades criminosas’, explica.
Diante da falta de colaboração, os investigadores conseguiram identificar os verdadeiros autores de apenas dez das páginas censuradas. A maioria dos usuários brasileiros da rede que fazem apologia ao crime na Internet utiliza provedores de outros países. Mauro Marcelo de Lima revelou que a maioria dos identificados é de menores de idade que ‘cometem os crimes sem saber da gravidade dos casos’."
"Polícia de SP retira 40 páginas da Internet", copyright Jornal do Brasil, 5/8/99
Folha de S.Paulo
"O STF (Supremo Tribunal Federal) cassou ontem [4/8/99] uma norma do Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990, que autorizava a suspensão temporária, por ordem judicial, da publicação de jornais e revistas e da programação de rádio e televisão. A norma permitia que fosse suspensa a publicação de jornais e revistas por dois números ou a programação de rádio e televisão por dois dias como punição por divulgação de nome, foto e qualquer dado que permitisse a identificação de menores acusados de cometer crime.
Não foi contestada, na ação, a possibilidade de a Justiça aplicar multa e determinar a apreensão de publicação que contenha informação expondo crianças ou adolescentes. A ação havia sido pedida pela ANJ (Associação Nacional de Jornais).
Ontem, o presidente da ANJ, Paulo Cabral, criticou a exigência do diploma de jornalista para o exercício da profissão. Cabral esteve em audiência com dirigentes da SIP (Sociedade Interamericana de Imprensa) na Câmara. A SIP defendeu ontem o fim da Lei de Imprensa.
O presidente da entidade, Jorge Facestto, afirmou que não há delito de imprensa que não possa ser punido pela legislação brasileira. A entidade pediu a revogação da lei atual, sem a votação do novo projeto de Lei de Imprensa."
"Cai norma que suspendia publicações", copyright Folha de S. Paulo, 5/8/99
CENSURA
Jean-Pierre Thibaudat
"Quando um jornal russo afirma que a censura o está estrangulando, é inquietante. Quando todo um grupo de mídia nacional - rádio, televisão, jornais - convoca uma coletiva de imprensa, como fez na semana passada o grupo Media-Most, para denunciar as pressões da administração presidencial, é preocupante, mesmo que o protesto exprima o ponto de vista de um só grupo.
Mas, quando 14 diretores de Redação de jornais pertencentes a grupos diferentes - logo, representando tendências distintas - enviam uma carta aberta ao presidente Boris Ieltsin, como fizeram na semana retrasada, dizendo que a liberdade de expressão está ameaçada na Rússia e que o país vive uma situação anormal no que diz respeito à imprensa, o problema passa a ser de Estado.
Da mesma forma que na Europa, onde as democracias já são maduras, na Rússia, com sua democracia ainda incipiente, a proximidade de eleições sempre é um bom barômetro com o qual medir a liberdade e a independência da imprensa.
A Rússia terá eleições legislativas em dezembro deste ano e eleição presidencial no verão de 2000. É nesse contexto que se confrontam dois grupos. Um deles é liderado por Vladimir Gusinski, na direção do holding Media-Most, que controla a emissora privada NTV, a rádio Echo de Moscou, o semanário Itogui, o jornal Segodnia e outros.
O outro é chefiado por Boris Berezovski - é o grupo Logovaz, que controla parcialmente a emissora pública ORT, o semanário Ogoniok e o jornal Nezavissimaia Gazeta, além de 15% do semanário Kommersant.
Gusinski apoia a possível candidatura do atual prefeito de Moscou, Iuri Lujkov, nas próximas eleições presidenciais. Berezovski defende a família Ieltsin. O chefe da administração presidencial, Alexander Volochine, desempenha um papel de peso na disputa. Ele acusa a NTV de utilizar informações para extorquir dinheiro e afirma que a emissora privada recebeu substancial ajuda financeira do Estado.
Vale notar que a estatal do gás, Gazprom, tem 49% das ações da NTV e que o governo realiza manobras com vistas a retomar o controle da Gazprom, para controlar a NTV.
Os 14 diretores de Redação escreveram ao presidente: ‘Políticos de alto escalão exercem pressões sobre a mídia e os jornalistas. Para isso, utilizam-se de sua influência e até mesmo do nome do presidente russo, e isso em período de pré-campanha eleitoral’.
O primeiro dos políticos de alto escalão é Volochine, agindo em nome próprio. Ontem seu assessor Serguei Zverev anunciou sua demissão, acusando Volochine de ser ‘uma presença nociva ao país e funesta para o presidente’.
O apelo ao presidente Ieltsin lançado pelos 14 jornais é com certeza uma maneira de marginalizar Volochine - mas será que alguém acredita que o presidente ignorava os atos de seu chefe de administração? Será que um presidente que não sabe o que faz seu chefe de administração ainda pode servir de garantia? Na época de Stálin, dizia-se que ele não sabia o que estava acontecendo, que a culpa era de seus assessores. Ieltsin ainda não respondeu à carta aberta."
"Órgãos de mídia russos reclamam de censura", copyright Libération/Folha de S.Paulo, 8/8/99, tradução de Clara Allain.
TV ALELUIA
Elvira Lobato
"O procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, determinou a abertura de inquérito policial para investigar a informação de que a Igreja Universal do Reino de Deus possui duas empresas em paraísos fiscais no exterior - Investholding e Cableinvest - para bancar parte de seus investimentos no Brasil.
A existência das duas empresas foi noticiada pela Folha no último dia 18. Em ofício ao ministro José Carlos Dias (Justiça) na sexta-feira, Brindeiro disse que há suspeita de crime contra o sistema financeiro (evasão de divisas) e a ordem tributária (sonegação fiscal). No mesmo dia, Brindeiro despachou mais três ofícios. O primeiro foi endereçado ao diretor-geral da Polícia Federal, Agílio Monteiro Filho, requisitando a abertura do inquérito pela superintendência da PF em São Paulo.
Os outros dois ofícios comunicavam a decisão ao presidente do Banco Central, Armínio Fraga Neto, e à chefe da Procuradoria da República no Estado de São Paulo, Janice Agostinho Ascari.
Procurada pela Folha, a Igreja Universal não quis se manifestar sobre a decisão de Brindeiro.
Após um mês de investigação, a Folha comprovou que as duas empresas registradas em paraísos fiscais remeteram pelo menos US$ 18 milhões para o Brasil, entre 92 e 94. O dinheiro entrou pelo Uruguai, onde os dólares eram trocados por moeda brasileira, para dificultar o rastreamento.
A TV Record do Rio de Janeiro foi adquirida em 92, em nome de seis membros da Igreja Universal. Como eles não tinham recursos para assumir o compromisso (equivalente a US$ 20 milhões, na época), a emissora foi paga com supostos ‘empréstimos’ da Investholding e da Cableinvest . Em 96, a emissora foi transferida para bispos da cúpula da igreja.
As provas de que a Investholding e a Cableinvest são vinculadas à Igreja Universal do Reino de Deus estão nos arquivos do BC e da Junta Comercial de São Paulo. Segundo a Junta Comercial, as duas empresas são representadas no Brasil por Alba Maria da Silva e Osvaldo Sciorilli, executivos da Universal em São Paulo.
Entre os documentos obtidos pela Folha, há papéis indicando que o sócio controlador da Investholding seria o bispo Marcelo Bezerra Crivella, sobrinho de Edir Macedo, fundador e principal líder da igreja, que mora nos EUA. O comprovante de que a Investholding está ativa foi enviado por fax, ao jornal, pelo Registry of Companies (departamento de registro de empresas) de Cayman. Por sua vez, registros do Banco Central mostram que a empresa possui 46% do capital da financeira Credinvest - Crédito, Investimento e Financiamento, que igualmente pertence à Universal. A Investholding e a Cableinvest aparecem como sócias, diretas ou indiretas, de mais duas empresas da igreja de Edir Macedo: Unimetro Empreendimentos e Cremo Empreendimentos."
"PF investigará empresas da Universal", copyright Folha de S. Paulo, 10/8/99
Kennedy Alencar
"Os lobbies da bancada evangélica e de três grandes redes de TV tentam moldar o relatório da emenda constitucional que abre o setor de comunicação ao capital estrangeiro.
A proposta, que tramita na Câmara, deve dar uma injeção de capital aos grupos nacionais, especialmente aos endividados. Há ainda o interesse de empresas brasileiras em se capitalizar para expandir atividades.
Hoje, apenas pessoas físicas brasileiras são legalmente donas de meios de comunicação. Nunca despertou interesse um dispositivo da lei que permite a empresas jurídicas nacionais uma participação de 30%, sem direito a voto. A bancada evangélica, que controla cerca de 60 votos na Câmara, pressiona para que entidades sem fins lucrativos possam ser proprietárias de emissoras de TV e rádio. O lobby atende especialmente à Igreja Universal do Reino de Deus, liderada pelo bispo Edir Macedo. A Igreja Universal é dona da Rede Record.
Com a medida, igrejas evangélicas poderiam usar o dinheiro arrecadado dos fiéis para comprar emissoras de rádio e TV. Esse expediente já vem sendo adotado, mas há questionamento jurídico sobre a origem e a tributação dos recursos. Reportagem da Folha em 18 de julho revelou que a TV Record do Rio foi comprada com dinheiro que veio de empresas sediadas em paraísos fiscais e que pertencem à Igreja Universal. O caso será investigado.
O relator da emenda, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), resiste à proposta: ‘Além da impossibilidade de comprovação da origem dos recursos, há aqueles que argumentam que a competição é desleal. Ocorre uma doação sobre a qual não incide imposto para uma atividade que é explicitamente lucrativa e comercial’.
A outra disputa de bastidores foi travada entre a Rede Globo, o SBT e a Rede Bandeirantes. A Globo sempre foi contrária a dar direito a voto ao sócio estrangeiro. O SBT e a Bandeirantes defendiam a idéia por entender que ela tornaria a parceria mais atraente para o capital externo.
A Globo apelou a exemplos de disputas nos bastidores da telefonia para conseguir a adesão das duas redes à sua tese. Sócios estrangeiros estariam jogando pesado para tirar a influência de grupos brasileiros nas empresas de telecomunicações que foram privatizadas recentemente.
O relator Alves, cuja família é dona de um grupo de comunicação no Rio Grande do Norte, ainda não se decidiu pela questão. ‘A princípio, julgo forte o argumento de que o direito a voto fortalece o interesse do capital estrangeiro em vir para o Brasil’, diz. Rádios e TVs deverão ter regras diferentes das de jornais e revistas. O relator alega que fará a diferenciação porque as rádios e TVs são concessões do poder público.
O limite de participação de capital externo no setor de tele e radiodifusão deve ser de 25%. Apenas empresas de sociedade comercial, nacionais e estrangeiras, poderão ser proprietárias. Se admitir pessoas jurídicas, o relator abre a brecha para entidades sem fins lucrativos (leia-se: lobby evangélico). Na mídia impressa, o sócio estrangeiro poderá ter até 49% do capital. A participação será aberta a qualquer empresa jurídica, nacional ou estrangeira.
O relatório exigirá reciprocidade dos outros países. Ou seja: grupos estrangeiros terão participação no mesmo percentual que exigem em seus países, desde que não sejam ultrapassados os limites da legislação brasileira. A proposta precisa ser aprovada por 16 dos 31 votos da comissão especial da Câmara. Como é emenda constitucional, necessita ser votada em dois turnos na Câmara, com quórum mínimo de três quintos. Depois, a emenda segue para o Senado, onde se submete ao mesmo trâmite. O interesse dos grupos nacionais e estrangeiros deve fazer com que a votação seja concluída ainda neste semestre."
"Evangélicos fazem lobby sobre o capital estrangeiro em TVs", copyright Folha de S. Paulo, 10/8/99
CONCORRÊNCIA
Luiz Garcia
"A imprensa americana, segundo os ingleses da revista The Economist, treme de medo de morrer duplamente atropelada. De um lado, pelo crescimento dos sites de anúncios classificados na Internet; de outro, pelos serviços noticiosos on line.
É morte com data marcada: três anos, segundo avaliação apresentada num convescote de donos de jornais, por Andy Grove, da Intel, a maior fabricante de microprocessadores do mundo. Por que os editores imaginaram que um industrial da informática entende mais do futuro da imprensa do que eles é um mistério. Mas parece que a maioria acreditou que, sem mudanças drásticas, a imprensa diária, tal como existe hoje, não passará de 2002. O prazo, naturalmente, varia de país para país; depende do ímpeto da Internet em cada um.
A Economist torna a ameaça mais sinistra ao lembrar que o número de leitores de jornal está em queda nos EUA (67% da população lia um jornal por dia em 1977: hoje são 51%). A revista argumenta que a Internet acabará imbatível na produção de notícias, principalmente por dispensar pesados investimentos em rotativas e outras máquinas. E ganhará a batalha pelos classificados graças à eficiência dos sistemas de busca nos computadores. Para quem gosta dessas tolices lingüísticas, os classificados da Internet teriam grande achabilidade.
A nuvem parece preta, mas algumas janelas podem ser rasgadas nela. Interessa, por exemplo, discutir a técnica de profecias. O maior expert pós-bíblico na área foi Nostradamus, criador de fórmula imbatível: não previu coisa alguma para enquanto estivesse vivo e usou uma linguagem simbólica que permite adaptar qualquer profecia a praticamente qualquer fato. Seus imitadores contemporâneos não tomam esses cuidados. Um retrato do ano 2000 traçado em 1980 por cientistas da maior seriedade incluía: fábricas espaciais instaladas entre a Terra e a Lua, operadas por robôs; o represamento dos rios Congo e Amazonas para produzir fantástica quantidade de energia hidrelétrica na América do Sul e na África; mineração do fundo dos oceanos e da superfície da Lua; automóveis elétricos dominando os transportes desde 1995.
Talvez a única atitude sensata sobre profecias seja profetizar que a maioria não se concretizará.
(...) Todos esses argumentos aplicam-se ao calvário da imprensa, que enfrenta cassandras pela terceira vez. Já foi condenada à morte quando surgiram as redes de emissoras de rádio (que, houve quem garantisse, fariam desaparecer também as escolas primárias) e, depois, com o nascimento do jornalismo de televisão. Ambas as vezes o susto foi seguido por movimentos de adaptação não muito radicais e finalmente pela convivência mutuamente compensadora. Desta vez, é preciso não comprometer a análise da situação pondo no mesmo saco a informação oferecida pelo jornal e a informação disponível na Internet.
De saída, seria erro primário confundir a incontestável popularidade do computador doméstico e pessoal com o seu incerto desempenho como substituto do jornal diário e da revista semanal. É claro que um serviço on line com notícias permanentemente atualizadas, se ainda não é, já deveria ser imbatível na oferta de itens com cotações de bolsa, condições meteorológicas e registros sumários de fatos em andamento. Tudo bem: essas informações não são o prato forte do jornalismo impresso desde o nascimento do seu irmão radiofônico. Além dessa reserva de mercado, pela Internet podem chegar ao público amostras dos acontecimentos do momento, destinadas a abrir o apetite do telespectador do noticioso de televisão da noite e do leitor do jornal do dia seguinte. No qual o leitor (como já acontece) freqüentemente será remetido a sites da Internet.
Nesse cenário - que não é problema e sim a repetição dos precedentes - o suposto rival se revela parceiro, precisamente porque não veio para substituir, como lâmpada elétrica em relação ao lampião, e sim para se instalar em terreno próprio. Também a achabilidade, mais estabelece caminhos independentes do que rotas de colisão. O formato de um jornal, diferentemente de um site, leva o leitor a encontrar o que ele não espera, o que não sabia que lhe interessava.
Entender essa característica é fundamental para compreender a importância da mídia impressa como instrumento de cidadania. O jornal, do jeito que ele é hoje, conduz o leitor não apenas àquilo que lhe dá prazer ou vantagem mas também ao que é importante para ele como membro da sociedade. Nada como a grande estrada da rede para ajudar o cliente a encontrar cabeleireiro para o seu poodle ou bibliografia para sua tese de doutorado. E nada como um jornal para surpreendê-lo com o que andam fazendo seus representantes nos centros de poder do país, ou com o anúncio de um produto que ele nem sabia que precisava tanto.
Assim, e como nas duas outras mortes anunciadas, é possível - neste texto não seria de bom tom arriscar profecias - que em vez de massacre ocorra uma forma de casamento entre esses fornecedores de produtos superficialmente parecidos e substancialmente diferentes."
"O terceiro anúncio fúnebre", copyright O Globo, 3/8/99
E$PORTE$
J. Hawilla
"Durante dez anos, o empresário paulista José Hawilla ganhou a vida como ‘latinha’ - apelido dado aos repórteres de rádio que, de microfone em punho, entrevistam os jogadores de futebol no gramado. Hoje, ele é o rei do marketing esportivo no Brasil. Sua empresa, a Traffic, teve um faturamento de 100 milhões de reais em 1998. Pretende triplicá-lo neste ano. Ela detém os direitos de televisão e comercialização da Copa América, da Copa Mercosul e de outros lucrativos torneios sul-americanos. É também a atual dona da programação de esportes da TV Bandeirantes. Entre outros feitos, J. Hawilla, nome profissional que adotou, foi o intermediário do fabuloso contrato de patrocínio da Nike com a seleção brasileira, o que lhe garantiu uma comissão de 10 milhões de dólares, e da compra do departamento de futebol do Corinthians por um grupo americano de investimentos. ‘Faço negócios mais pelo desafio do que pela necessidade de ganhar dinheiro’, diz ele, que recentemente emprestou 300 mil reais, do próprio bolso, a seu clube do coração, o América de São José do Rio Preto (SP).
Veja - Como o senhor conseguiu dar esse salto na vida, tornando-se o número 1 nos negócios esportivos do Brasil?
Hawilla - Com muito trabalho e um certo dom para a coisa. Depois de fazer carreira no rádio, fui para a TV Globo. Eu era seu chefe de esportes em São Paulo quando, em 1979, fui demitido por participar de uma greve de jornalistas. Como me colocaram numa espécie de lista negra, ninguém quis me dar emprego. Eu acabei sendo recontratado, mas vi que era a hora de montar um pequeno negócio. Com três sócios, comprei a Traffic, empresa modesta que explorava propaganda em pontos de ônibus. Resolvi expandi-la com uma atividade que era pouco conhecida: a venda de placas de publicidade em estádios. Comecei comprando os espaços do estádio de São José dos Campos, no interior paulista. Deu certo. Cheguei a ter a exclusividade de 25 campos de futebol.
Veja - Os anunciantes compram placas porque elas ficam numa posição estratégica do campo, que a TV é obrigada a mostrar. E de graça. Não se trata de uma publicidade pirata?
Hawilla - Quando a TV compra os direitos de transmissão de um jogo, sabe que, junto com ele, terá de mostrar a publicidade estática. É algo transparente. Na Copa do Mundo, os estádios devem ser entregues limpos para a Fifa, que vende os direitos à empresa de marketing esportivo ISL. Acontece o mesmo na Fórmula 1. O macacão dos pilotos parece uma folha de classificados, com dez ou doze anúncios estampados. Só estão ali para aparecer na televisão, que tem plena consciência disso.
Veja - Não está havendo exagero na publicidade esportiva? Hoje colocam anúncio até nos bonés dos atletas, que não os tiram da cabeça se há uma câmara por perto.
Hawilla - Não posso ser contra a publicidade, pois vivo disso. Mas é inegável que há um excesso. Esses bonés são, decididamente, um horror. Na camisa do Corinthians, a marca do fabricante do material esportivo aparece seis vezes. Propaganda de tal tipo é poluidora e não dá retorno ao cliente. Cabe aos clubes coibi-la. A dificuldade é que eles são geridos por amadores. Desde meus tempos de repórter combato esse amadorismo retrógrado. A administração do futebol tem de ser profissionalizada. Todos os seus problemas vêm daí.
Veja - Que problemas são esses?
Hawilla - Em decorrência do amadorismo dos dirigentes, há falta de organização, não existe um calendário definido para as competições e nossos estádios são uma vergonha.
Veja - Os estádios são tão ruins assim?
Hawilla - São péssimos. Não têm estacionamento, o policiamento é deficiente, a comida é horrível e os banheiros, além de imundos, vivem alagados. O torcedor senta em cimento sujo e molhado. Deveria ficar em cadeiras, como no cinema ou no teatro. No Maracanã, até pouco tempo atrás, quem ia para a geral ficava em pé e não enxergava direito o gramado. No Morumbi, você paga por sua numerada e encontra sempre alguém já sentado nela. O torcedor, que deveria ser recebido com tapete vermelho, é maltratado desde o momento em que entra na fila para comprar o ingresso. Pior de tudo, ele jamais é visto como cliente. O futebol brasileiro permanece na idade da pedra.
Veja - Não é um exagero? O Brasil é tetracampeão mundial e tem alguns dos maiores craques do planeta.
Hawilla - Dentro do campo. Fora do campo é um atraso. O presidente da AFA, a associação de futebol da Argentina, Julio Grondona, um dos dirigentes mais influentes do mundo, costuma dizer o seguinte: ‘No dia em que o futebol brasileiro se organizar, todos nós, em qualquer campeonato, vamos disputar o segundo lugar’. Insisto que a questão central é a profissionalização. Ainda estamos engatinhando.
Veja - Engatinhando?
Hawilla - E como. Nosso futebol desconhece seus números. Ninguém sabe, por exemplo, quantas garrafas de refrigerante ou sanduíches são vendidos durante as partidas. Não se conseguiu medir o PIB do futebol. A Fifa estima que o futebol movimenta 250 bilhões de dólares por ano no mundo inteiro. Fala-se que o Brasil é responsável por uns 3 bilhões de dólares. Se for, é uma ninharia. Mas trata-se de um chute. Ou seja, o futebol brasileiro ignora o potencial de riqueza que possui. Por essa razão, nossos melhores jogadores, como Ronaldinho, Rivaldo, Roberto Carlos e tantos outros, estão no exterior. A verdadeira profissionalização faria com que eles não saíssem daqui.
Veja - Na Europa eles ganham muito mais. Algum clube brasileiro poderia pagar o que Ronaldinho ganha na Itália?
Hawilla - Ele ganha 6 milhões de dólares por ano. Acho pouco.
Veja - Seis milhões de dólares por ano é pouco?
Hawilla - Muito pouco. Nos Estados Unidos, segundo um levantamento que fizemos, há dezenas de jogadores de beisebol que recebem acima de Ronaldinho. Na lista dos esportistas mais bem pagos do mundo, encontramos jogadores de basquete, pilotos de Fórmula 1, pugilistas e golfistas, mas ninguém do futebol. Há quem ache um absurdo o salário dos craques. Não é. Eles levam milhões de pessoas aos estádios, garantem audiências extraordinárias nas transmissões e dão um grande retorno aos anunciantes porque vendem produtos.
Veja - E os craques que estão no Brasil?
Hawilla - Marcelinho, do Corinthians, recebe 120 mil reais por mês. Ele merece muito mais. É ídolo de primeira grandeza de um clube que, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Ibope para o jornal Lance!, tem 17 milhões de torcedores no Brasil. Digamos que fosse feito um recenseamento nesse universo e chegássemos a uma lista de 1 milhão de corintianos com poder de compra. Poderíamos criar um mailing e oferecer produtos diretamente a eles, com a marca Corinthians. É o que ajuda a encher de dinheiro clubes como o Manchester United, da Inglaterra, que no ano passado vendeu 43 milhões de dólares em artigos licenciados. O Flamengo, que tem a maior torcida do Brasil, vendeu míseros 300 mil dólares.
Veja - No mês passado, o fundo de investimento americano Hicks, Muse, Tate & Furst, HMTF, numa transação intermediada pela Traffic, tornou-se o dono, até 2009, do futebol do Corinthians. O que acontecerá nesse time?
Hawilla - Uma revolução. A HMTF buscava oportunidades de negócio no esporte sul-americano. Fui procurado por seus sócios, que tinham interesse em comprar minha empresa. Vendi 49% das ações, fiquei com os 51% restantes e mantive a gestão. Eu os aconselhei a investir no futebol, iniciando pelo Corinthians, o clube mais popular de São Paulo. A HMTF comprou a gestão financeira de seu departamento de futebol. Foi um projeto que criei, negociei e entreguei pronto. Os americanos pagarão todas as despesas e receberão todas as receitas, repassando 15% dos lucros para o clube.
Veja - Quinze por cento, para quem tinha tudo, é um bom negócio?
Hawilla - Excelente. Nunca aconteceu nada melhor no futebol brasileiro. Será a solução de todos os problemas do Corinthians. Foram pagas suas dívidas, no valor de 28 milhões de reais. Será construído um estádio multiuso com 45 mil lugares, em cadeiras confortáveis. Já estamos procurando um local adequado. Custará 100 milhões de reais. Faremos um centro de treinamento e montaremos um superesquadrão. Num primeiro momento, foram comprados, por 45 milhões de reais, os passes de oito jogadores, entre os quais os artilheiros Luizão e Edílson, o meio-campista Vampeta, o goleiro Dida e o zagueiro João Carlos, craques de seleção brasileira. O Corinthians não desembolsou nada.
Veja - Quais serão os próximos negócios no mercado do futebol?
Hawilla - Estamos quase fechando os entendimentos com o Cruzeiro, de Belo Horizonte, dentro do mesmo modelo. Outros grupos negociam com clubes como Flamengo, Grêmio de Porto Alegre e São Paulo.
Veja - Se for acertado com o Cruzeiro, dois clubes que disputam o campeonato brasileiro pertencerão ao mesmo dono. Isso não cria uma questão ética, já que, em tese, um time poderia ajudar o outro?
Hawilla - Que questão ética? Entregar uma partida? Não há essa possibilidade. Você acha que alguém chegaria para um jogador ou técnico e diria ‘vamos perder’ ou ‘escale os reservas’? Uma empresa que investe milhões e milhões de dólares num negócio de tal porte sabe que, para ele dar certo, tem de ter, antes de mais nada, seriedade e credibilidade. O risco de manipulação inexiste.
Veja - Não deveria ser criado um órgão normativo, como a Anatel na área das telecomunicações, para regular as novas relações que o esporte passou a ter?
Hawilla - Acho que sim, deixando o Estado de fora. Seria conveniente que esse papel fosse exercido pelas próprias partes envolvidas.
Veja - O deputado federal Eurico Miranda, vice-presidente do Vasco da Gama, afirmou que o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, seria seu sócio na Traffic. Essa acusação tem fundamento?
Hawilla - É uma completa leviandade. Minha empresa presta serviços à CBF desde 1983, jamais sofrendo nenhum tipo de reparo. Construí minha vida trabalhando honestamente. Essa afirmação, sem o menor fundo de verdade, obteve destaque porque uma parte da imprensa tem preconceito contra quem ganha dinheiro no futebol. Para ela, o lucro é uma coisa feia.
Veja - O senhor intermediou o contrato pelo qual a Nike patrocina a seleção brasileira por dez anos, no valor de 200 milhões de dólares. Uma certa cláusula de confidencialidade, a de número 20, provoca celeuma até hoje. Do que se trata exatamente?
Hawilla - Cada parte do documento firmado com a Nike tem um título, prazo, vigência e assim por diante. Um desses títulos é a palavra ‘confidencialidade’, que os advogados americanos fazem questão de colocar. A cláusula impede que as partes tornem pública uma improvável discussão em caso de rompimento. A celeuma é fruto de desconhecimento. Qualquer pessoa pode ler o contrato. Ele está registrado em cartório e é público. Trata-se do maior patrocínio da história do futebol mundial. Renderá, em média, 20 milhões de dólares por ano à CBF. O da seleção italiana com a Kappa e o da seleção alemã com a Adidas são de menos de 7 milhões cada um.
Veja - A Nike passou a ter direito de promover cinco amistosos por ano da seleção brasileira. Não é demais?
Hawilla - Quem recomendou ao presidente da CBF que aceitasse esse item fui eu. Quero confessar aqui que foi um exagero. É muito jogo. A seleção brasileira não pode expor-se tanto, sem contar seus demais compromissos. Estou negociando a revisão dessa cláusula. Espero diminuir o número para duas ou três partidas anuais.
Veja - Sua empresa assumiu o controle da programação esportiva da TV Bandeirantes por quatro anos. É possível enfrentar a TV Globo nesse campo?
Hawilla - Sim, sempre que tivermos eventos exclusivos. A Bandeirantes nos tem apoiado muito nisso. Ganhamos da Globo há poucos dias, quando exibimos a final de vôlei masculino entre Brasil e Cuba nos Jogos Pan-Americanos. Ocorre que os direitos de transmissão são a parte mais cara da história. Vamos gastar com eles neste ano 60 milhões de reais.
Veja - O senhor prefere Luciano do Valle, da Bandeirantes, ou Galvão Bueno, da Globo?
Hawilla - Ambos são grandes comunicadores. Mas, nos jogos da seleção brasileira, a empatia da Globo é muito forte. Ela foi conseguida pelos méritos de Galvão Bueno. Existem os formadores de opinião e os formadores de audiência. Os formadores de opinião podem não gostar desse estilo. Mas os formadores de audiência são os torcedores. E eles adoram.
Veja - Futebol na televisão é um evento jornalístico ou um show?
Hawilla - É um show, um programa de entretenimento.
Veja - Isso permite que os narradores sejam parciais?
Hawilla - Eles devem ser imparciais. Em jogos da seleção, porém, é preciso estimular o telespectador. A transmissão se dirige aos brasileiros, não aos adversários.
Veja - Mas o torcedor não quer informação e isenção?
Hawilla - Informar é com o repórter. Comentar é com o comentarista. O papel do narrador é o do animador de auditório. Sem deixar de ser honesto e dizer o que aconteceu, ele tem de torcer pelo Brasil. Do contrário, perde telespectadores. E não pode, na abertura da transmissão, dizer que o jogo vai ser ruim. Quem ouve isso muda de canal.
Veja - O senhor não fazia a mesma coisa em sua época de rádio?
Hawilla - É verdade, cansei de fazer. Foram besteiras de juventude. Eu às vezes até tinha razão, pois fui escalado para muito jogo chato, mas como profissional não tinha esse direito."
"Jogada de milhões", entrevista de J.Hawilla a Carlos Maranhão, copyright Veja, 11/8/99
MASS MEDIA
Dominique Wolton
"A comunicação de massa encontra em Dominique Wolton um especial defensor. O ensaísta francês considera que ela está essencialmente ligada à emancipação do Ocidente e aos processos democráticos. Para ele, constitui um paradoxo das elites intelectuais defender a democracia, mas desprezar o rádio e a televisão, como diz na entrevista abaixo.
Wolton, nascido em 1947, é pesquisador no CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), em Paris, onde dirige o Laboratório de Comunicação e Política e a revista Hermes: Cognição, Comunicação e Política. Entre seus livros recentes, estão Internet et Après? (Internet e Depois?, 1999), Penser la Communication (Pensar a Comunicação, 1998) e Eloge du Grand Public (Elogio do Grande Público, 1992).
Folha - Gostaria que o senhor falasse das principais mudanças introduzidas pela comunicação no decorrer do século 20.
Dominique Wolton - A comunicação é indissociável do movimento de emancipação dos indivíduos, da liberdade de consciência, da liberdade de palavra: não existe democracia sem liberdade de informação e de comunicação. Existem portanto dois movimentos paralelos, um que é de ordem cultural e outro, de ordem política. O interessante é analisar como esses dois movimentos se articularam na democracia de massas. Não podemos pensar na emancipação do Ocidente sem pensar no rádio e na televisão. Sou um dos raros pesquisadores favoráveis à comunicação de massas por considerar que está associada à democracia. A crítica que eu faço aos intelectuais é que eles são pela democracia de massas, mas paradoxalmente desprezam o rádio e a televisão.
Folha - Esse desprezo não estaria ligado ao fato de que eles não sabem fazer uso dos meios de comunicação de massas?
Wolton - Essa é a tese otimista. Acho que as elites são sobretudo elitistas e se sentiram despossuídas pelo rádio e pela televisão. Acharam que a cultura de massas ia colocar em questão a cultura do livro, o que não é verdade. Cada uma dessas culturas desempenha um papel. O desafio é ligar a democracia de massas à comunicação de massas. Nós precisamos nos perguntar quais são as informações, os divertimentos, os jogos, a cultura que devemos dar às pessoas para que elas se sintam simultaneamente consumidoras, cidadãs, membros de uma coletividade nacional...
Folha - Foi exatamente o que aconteceu durante a Copa do Mundo.
Wolton - Claro. A função principal da mídia é estabelecer o laço social. A mídia é hoje o único recurso por meio do qual as pessoas sentem que pertencem a uma comunidade nacional.
Folha - A manipulação da informação moderna supõe um conjunto de mecanismos de aprendizagem complexa e de adaptação rápida e não está ao alcance de todos. Por isso mesmo pode criar um conflito violento na sociedade, pode engendrar grandes tensões. Como o senhor vê isso?
Wolton - As desigualdades sociais reaparecem na comunicação. Por isso eu sou favorável, do ponto de vista teórico, à mídia de massas, porque aí a mesma mensagem é enviada a todo o mundo. Isso não basta para chegar a uma igualdade social, mas tem a vantagem de fazer com que todos participem da mesma coisa. Por isso eu temo, na evolução dos sistemas audiovisuais, a tendência agora existente de considerar que o rádio e a televisão são meios de categoria menor e que todos os programas interessantes deveriam aparecer na mídia temática. Isso é perigoso, porque tudo que é cultural não será mostrado ao povo. Então nós teremos um sistema de comunicação com duas velocidades, um para os pobres e outro para os ricos. A história do rádio e da televisão até agora felizmente evitou isso. O que interessa é justamente o leque de programas, ou seja, você tem numa semana 60 programas, você só está interessado em 10, mas os outros 50 programas existem paralelamente e têm tanta legitimidade quanto os que você quer ver. O interesse de um jornal é que a gente tem tudo no mesmo dia. Você está interessado só no esporte, mas de repente você descobre outra coisa porque ela está no jornal. É preciso dar o máximo de informação a todo o mundo, e cada um que fique com o que quiser.
Folha - Os EUA difundem, sob todas as formas possíveis, a sua retórica, os seus comportamentos, os seus problemas, a sua violência compulsiva... Eles absorvem as grandes culturas da civilização ocidental e liberam uma energia caótica nos domínios cultural e moral por intermédio dos meios de comunicação. Como se opor a tal poder?
Wolton - A comunicação é o problema mais sério do próximo século. A questão toda é a regulamentação. Os americanos dizem que é preciso desregulamentar. Querem isso para difundir livremente a cultura americana. Ora, a resistência das identidades nacionais é fundamental. A Europa reivindica a ‘exceção cultural’, a revalorização do direito autoral, a regulamentação das indústrias, a preservação do serviço público. O risco de que a Europa perca a sua identidade não existe porque a Europa é muito mais antiga do que os EUA, mas a dominação pode ocorrer. O risco não é grave para a Europa, mas é para as outras áreas culturais do mundo, a África, a Ásia, a América Latina, que têm menos recursos técnicos e culturais para resistir.
Folha - As grandes civilizações - chinesa, indiana, muçulmana - não estão ameaçadas no que diz respeito à perda da identidade cultural, devido à tradição, à demografia e à proteção linguística. A Europa parece estar mais sujeita à descaracterização do que a Ásia.
Wolton - A força da globalização é tal que mesmo as grandes civilizações estão ameaçadas. São as mesmas mensagens audiovisuais que circulam.
Folha - Mais ameaçadas do que a Europa?
Wolton - Sim, porque nós, europeus, somos pequenos, mas temos dez línguas. Portanto o problema da comunicação e das diferenças culturais nós conhecemos. Não nos entendemos mesmo entre nós. A gente se entende para fazer a Europa econômica. Agora, para chegar à Europa política é muito difícil. E será ainda mais difícil chegar à Europa cultural. Acho que a batalha da Europa contra os EUA vai ser útil para o mundo inteiro.
Folha - Mas a Europa pode se tornar presa dos EUA devido à sua riqueza material.
Wolton - É bem por isso que os EUA querem ter a mão posta sobre a Europa. Porque para a indústria da comunicação americana nós somos o primeiro mercado do mundo: 360 milhões de habitantes, com um alto nível de vida e um bom nível cultural, é um mercado formidável. Quanto mais rapidamente nós obrigarmos os americanos a aceitarem as identidades das outras culturas, mais rapidamente salvaguardaremos a possibilidade de uma comunidade internacional respeitosa das diferenças.
Folha - E o senhor acaso acha que o Brasil pode desempenhar um papel importante contra a dominação americana?
Wolton - Essencial. Vocês são muito numerosos, vocês são multirraciais, têm uma inteligência extraordinária da comunicação. Na América Latina, o Brasil equivale à Europa. Há uma incrível inteligência acumulada no Brasil.
"Os meios democráticos", entrevista de Dominique Wolton a Betty Milan, copyright Folha de S. Paulo, 15/8/99
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