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SIDNEY 2000
Gilberto Dupas

"Guga e a sociedade espetáculo", copyright Jornal da Tarde, 11/09/00

"Pobre Guga. Nosso símbolo mais recente de um Brasil que – apesar de tudo – ainda consegue produzir heróis nacionais juntando improviso, alegria, simplicidade, competência e ironia teve seu sorriso travesso temporariamente apagado. Ele dizia que, pelo amor à Pátria e ao esporte, jogaria em Sydney ‘até pelado’; no entanto, teve de amargar um duro impasse que ameaçou sua presença nos Jogos Olímpicos por conflitos contratuais entre grandes interesses comerciais. O choque entre Diadora e Olympikus abalou o que restava de inocência do herói. Os detalhes são reveladores da dependência do esporte dos milímetros quadrados dos uniformes disputados a tapa por marcas globais. Depois de muitas negociações, a italiana Diadora - que patrocina o Guga e disputa com Nike e Adidas um espaço nas Olimpíadas – avisou que permitiria o uso de agasalho, camisa e calção da equipe brasileira, mas sem o logotipo da Olympikus, patrocinadora oficial do Brasil. A contraproposta foi a marca bordada apenas nas mesmas cores do tecido, quase invisível na televisão. O impasse arrastou-se e um herói impotente teve de ameaçar não mais disputar um ouro para o Brasil. Finalmente, uma solução complicada repôs o bom senso.

Eis aqui um belo exemplo das lógicas complexas – e perversas – deste nosso mundo globalizado. Nele os poderes que atuam sobre o destino individual estão mal identificados, ocultos nas redes multinacionais e grandes organizações internacionais. Com a tecnologia da informação, nunca a tirania das imagens e a submissão ao império das mídias foram tão fortes. Os profissionais do espetáculo ocuparam grande parte da cena e do poder; e a vida nas sociedades contemporâneas se apresenta como uma imensa acumulação dessas representações. Sob todas as suas formas particulares – informação ou propaganda, publicidade ou consumo de divertimentos –, o espetáculo constitui o modelo atual de vida dominante na sociedade. A primeira fase da dominação da economia sobre a vida social acarretou a degradação do ‘ser’ para o ‘ter’. Só restou às grandes massas identificarem-se com quem ‘tem’ – os heróis da mídia – através dos eventos globais e instantâneos, simultaneamente virtuais e reais. Programas de auditório substituem os tribunais, propiciando julgamentos e processos de conciliação e garantindo a esperança do resgate da exclusão pela visualização do prêmio do outro ou de um fugaz minuto de glória. Telefone celular e Internet, símbolos da interconectividade, passam a ser condição de felicidade. O homem volta a ser rei exibindo sua intimidade com a mercadoria ou identificando-se com os novos ícones, heróis da mídia eletrônica transformados eles mesmos em mercadorias, com seus uniformes ou objetos cobertos de marcas mundiais.

Os espetáculos esportivos e seus atletas transformam-se em ídolos e modelos a serviço da grande mídia global. Na recente polêmica sobre a proibição da propaganda de cigarros associada a eventos esportivos, o argumento dos fabricantes era o cancelamento das corridas de Fórmula 1 ou de grandes espetáculos musicais no Brasil. Como se o esporte e a cultura fossem meros reféns de produtos que geram doenças e mortes.

Vivemos um tempo no qual todas as exaltações são ao comércio e ao individualismo. Nele a performance é o valor central, cultua o otimismo e define o lugar social de cada um. É por isso que as grandes doenças estudadas pela psiquiatria hoje são aquelas em que a performance falha. As drogas legais e ilegais oferecem a possibilidade mágica da volta imediata e sem esforço ao bom desempenho. Esse universo de satisfação imediata, da ereção à felicidade ‘quimicamente garantidas’ reduz a importância do que toma tempo e exige esforço e autoconhecimento, com os sacrifícios que isso impõe. A urgência destrói a capacidade de construir e esperar. Bombardeados pela mídia eletrônica que associa a felicidade ao consumo de marcas globais, jovens ricos e pobres – que recebem exatamente as mesmas mensagens – partem para comprar, arranjar ‘a qualquer preço’ ou recalcar essa necessidade inventada por interesses comerciais.

Infelizmente não parece haver muito a fazer. Resta-nos esperar que o talento individual, a criatividade e a flexibilidade e o esforço dos nossos jovens tupiniquins – virtudes que parecem renovar-se eternamente pelo menos nos esportes, na música e na moda – se multipliquem por todos os campos e profissões, mantendo-se objetos de desejo e disputa dos gigantes globais.

Mas não deixa de ser deprimente perceber como os símbolos mais relevantes da cultura contemporânea vão ficando cada vez mais parecidos com maços de cigarro, latas de cerveja, cartões de crédito e roupas esportivas. Não é à toa que restou a Andy Warrol e Roy Lichtenstein transformá-los em arte. (Gilberto Dupas é coordenador da Área de Assuntos Internacionais do Instituto de Estudos Avançados da USP, professor da FDC no Insead (França) e autor de ‘Ética e Poder na Sociedade da Informação’)"



Rodrigo Bertolotto

"Cerimônia de abertura é planejada para a TV", copyright Folha de S. Paulo, 14/09/00

"Os ensaios da cerimônia de abertura não enganam ninguém: a celebração é feita para a TV e não para as 118 mil pessoas que pagaram R$ 1.300 para estar no estádio Olímpico.

Cada ação é sincronizada com o movimento das câmeras da rede norte-americana NBC, geradora de imagens para o mundo.

A NBC detém os direitos sobre a competição até a edição de 2008. Enquanto Atlanta custou US$ 456 milhões, Sydney-2000 saiu por US$ 715 milhões, pagos ao COI.

De tão confiante na lucratividade, comprou os direitos para Atenas-2004 por US$ 1 bilhão. Já para 2008, a rede do grupo General Electric está disposta a desembolsar US$ 2,3 bilhões.

A TV acaba bancando todos os custos e gera lucro para a emissora e o COI, que o divide com as federações esportivas. Em Atlanta-1996, o ganho girou em torno dos US$ 300 milhões. Espera-se que 3 bilhões de telespectadores acompanhem a festividade desta madrugada."



Marcelo Lojudice

"Lance aposta em edição vespertina para conquistar leitor olímpico", copyright Valor Econômico, 11/09/00

"O jornal Lance, especializado em esportes, vai lançar uma edição extra no início das tardes durante as Olimpíadas. Com isso, o jornal espera diminuir a defasagem de fuso entre a realização dos jogos e as edições matinais dos jornais, que não conseguirão publicar no dia seguinte os resultados da madrugada.

Afonso Cunha, diretor executivo do Lance Multimídia, disse que a edição vespertina deve ter uma tiragem entre 30 mil e 50 mil exemplares. O número exato vai depender do desempenho dos atletas brasileiros.

A tiragem será maior quando o Brasil obtiver bons resultados. O mesmo acontecerá em dia de jogos de esportes populares. ‘Quanto melhor o desempenho do país, maior será o sucesso do jornal’, diz Cunha. Hoje, o Lance vende em média 134 mil exemplares por dia, segundo ele.

Na quarta-feira, às seis horas, o Brasil inicia sua disputa por medalhas em Sidney. É a estréia da seleção feminina de futebol. Na hora do almoço, quando a edição extra começar a chegar às bancas, o leitor já vai poder ler sobre o desempenho da equipe.

Os jornais diários só vão reportar o jogo na quinta-feira, quando o assunto já terá perdido o ar de novidade, à medida em que todos terão visto algo na TV, no rádio ou na internet.

A diferença de 13 horas no fuso horário entre a Sidney e o Brasil deve fazer com que esse exemplo se repita na maioria dos jogos, realizados durante as madrugadas, depois que os jornais diários já fecharam suas edições."



M. L.

"Fuso horário deve beneficiar sites na cobertura", copyright Valor Econômico, 11/09/00

"Segunda-feira, 25 de setembro. O Brasil tem chance de conquistar uma medalha de ouro nos Jogos de Sidney. É a data da final do vôlei de praia masculino.

Porém, excluindo-se os parentes dos atletas e alguns sofredores de insônia, poucos torcedores vão acompanhar o jogo ao vivo. O motivo é simples: a partida será às três e meia da madrugada.

Na terça-feira, os torcedores curiosos irão ávidos ler seu jornal diário em busca do desempenho da dupla brasileira durante a madruga. A busca será frustrante, pois na hora da partida muitos jornais já estavam chegando às bancas e não tiveram tempo de colocar o resultado do jogo em suas páginas de esporte.

O frustrado torcedor liga a TV e nova decepção: não há nenhum boletim falando do assunto. O jeito é ir para o trabalho e procurar a notícia na internet.

É com isso que estão sonhando os sites de esportes que se preparam para cobrir os Jogos de Sidney. Investindo R$ 500 mil cada um para aumentar em 40% o número de acessos ao site, LanceNet e SportsJá apostam em colunistas de peso para se enfrentar durante as Olimpíadas.

Além de sua equipe tradicional, como José Trajano, Juca Kfouri e Flávio Prado, dentre outros, o Lancenet contratou atletas que estão participando dos jogos, como Bernardinho, técnico de vôlei e Lars Grael, iatista.

O SportsJá aposta em ex-atletas internacionais, como Nádia Comaneci (ginástica), Mark Spitz (natação), Clayde Drexler (basquete), e nacionais, como Zico, Paula, Carlão e Ana Paula.

Além da internet, o SportsJá deve invadir a rádio também. O site vai ter um programa na Nova FM comandado por Juarez Soares.

O site deve transmitir os jogos no rádio e na internet simultaneamente. ‘O evento será interativo, com narração, descrição, fotos e bate-papo entre comentaristas e internautas’ diz Luis Giolo, diretor geral do site."



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