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MÍDIA & ÉTICA
Folha de S.Paulo

"O ministro Pedro Malan (Fazenda) afirmou ontem em seminário sobre ética no jornalismo que a imprensa só deveria publicar as decisões do governo depois de aprovadas. Malan é contra a publicação de assuntos que estejam em fase de discussão. Segundo ele, há uma ‘demanda alvoroçada’ da imprensa por transmitir processos em andamento. Para Malan, não há razão para que os processos sejam irradiados em tempo real, como se fossem jogos.

O ministro participou de um debate, no BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), sobre ‘‘A ética da informação no mercado do ano 2000’, ao qual compareceram também o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, e o economista André Lara Resende.

Ao ver Lara Resende, Malan fez um desagravo pelo chamado escândalo do grampo telefônico no leilão de privatização da Telebrás, lendo trechos de artigo de autodefesa do ex-presidente do BNDES já publicado pela imprensa.

Convidado para participar de um painel às 16h, Lara Resende chegou antes das 9h, a tempo de ouvir a exposição do ministro da Fazenda, que abriu o evento.

Lara Resende também criticou a atuação da mídia. Disse que há ‘‘um enorme mal-estar’ em relação à imprensa, que, segundo ele, atingiria o público em geral e parte dos profissionais do próprio setor.

O economista ocupava a presidência do BNDES quando a Telebrás foi privatizada, em julho do ano passado. Os telefones da presidência do banco estavam grampeados. Conversas de Lara Resende, do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros e até do presidente Fernando Henrique Cardoso foram interceptadas. Os diálogos revelaram o empenho do governo para que o consórcio montado pelo banco Opportunity vencesse o leilão da Tele Norte Leste (hoje Telemar).

Lara Resende não citou o caso do grampo em sua palestra, mas fez diversas críticas à atuação dos jornais. Para ele, a imprensa vive do ‘‘teatro da crise’ e, na busca por audiência e leitores, transforma jornalismo em espetáculo. Segundo ele, esta modalidade de jornalismo estaria levando o público ao fastio, como na indústria pornográfica.

O seminário foi promovido pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e pela Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas)."

"Malan e Resende criticam a imprensa", copyright Folha de S.Paulo, 14/9/99

 

DIA DA IMPRENSA
Alberto Dines

 

"Imagino que o mesmo aconteceu com milhares de jornalistas: recebemos um monte de cartões coloridos e e-mails animados. Festa é festa, brasileiro não perde uma. Tudo porque no dia 10 de setembro comemorava-se o Dia da Imprensa.

O verbo está no passado porque a efeméride foi revogada mas a alteração, parece, ainda não alcançou os departamentos de Relações Públicas. Nem as redações dela tomaram conhecimento, caso contrário teriam avisado. A inédita supressão num ambiente tão festeiro como o nosso ocorreu no ano passado na Câmara dos Deputados.

Nada contra a imprensa. Nem com o seu legítimo direito comemorativo. O problema é que a data estava errada. No sábado 10 de setembro de 1808 circulava a primeira edição da Gazeta do Rio de Janeiro. Dom João VI, recém-chegado de Lisboa, via Bahia, precisava dar conhecimento de seus atos. E, em função dessa comezinha necessidade, 308 anos depois do Descobrimento, finalmente tivemos o privilégio de ver funcionar uma tipografia e dela sair uma publicação periódica (o primeiro jornal ibero-americano saíra no México, 76 anos antes).

Mas a Gazeta do Rio de Janeiro era, na realidade, o diário oficial (nome adotado posteriormente), fato que deve ter escapado aos legisladores que estabeleceram o Dia da Imprensa. Mas não a alguns jornalistas que sempre reclamaram contra a confusão. Jornalismo é uma coisa, divulgação de atos oficiais, outra - ambos extremamente úteis. A exposição ‘Dom João VI, um Rei Aclamado na América’, recém-inaugurada no Museu Histórico Nacional (Rio) e organizada com o esmero habitual pela Comissão Nacional dos Descobrimentos Portugueses, exibe um exemplar da primeira edição da Gazeta, no qual comprova-se o seu teor.

Quem mexeu-se com mais eficácia para reparar a confusão foi a ARI (Associação Riograndense de Imprensa) porque nossa primeira publicação efetivamente jornalística saiu antes, com data de junho, o Correio Braziliense ou Armazém Literário. Impresso em Londres, escrito por um único jornalista (o gaúcho Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, 1774-1823), o Correio, além de ser o primeiro periódico a circular regularmente na colônia e dirigido ao público brasileiro, é também considerado o primeiro veículo político português. Maçom fugido da Inquisição, Hipólito foi um polígrafo, autêntico intelectual das Luzes. Editou sozinho no exílio, ao longo de quase 15 anos, esse mensário de idéias e inovações científicas que tanto contribuiu para a nossa emancipação e para a abertura política portuguesa (o Dr. Barbosa Lima Sobrinho é o maior especialista na vida e obra do nosso patriarca).

A Câmara aprovou o projeto da bancada gaúcha que propunha a troca do objeto comemorado e a antecipação do Dia da Imprensa para um dia qualquer de junho (impossível precisar quando o Correio começou a circular por aqui). Na última segunda-feira, o presidente da República sancionou a decisão legislativa e o Dia da Imprensa, a partir do ano 2000, incorpora-se às festas juninas: será comemorado no dia 1° de junho.

Nada mudou mas tudo mudou. A partir de agora temos paradigma e patriarca mais edificantes para estudar. E nos inspirar. Temos também o pretexto para sobre nossas complicadas relações com a História e a historiografia. Preferimos as caricaturas. Ou os cartapácios pseudo-científicos, pejados de teorias, incapazes de reviver com um mínimo de competência narrativa qualquer episódio ou figura do nosso passado.

Evaldo Cabral de Mello, ex-diplomata, o mais importante historiador da atualidade, tratou exatamente disso na ousada entrevista que concedeu à Folha de S. Paulo (domingo, 12/9/99, caderno ‘Mais!’) a propósito do relançamento do seu segundo livro (de 1984), O Norte Agrário e o Império (Topbooks). Evaldo não pertence ao bunker acadêmico nem inventa teorias, prefere sujar os dedos com os documentos empoeirados e através deles tirar conclusões. Apresentadas sempre em prosa elegante. Durante um par de anos, encontrei-o na velha Torre do Tombo, aos sábados (dia em que fechava o Consulado brasileiro em Lisboa) cavucando os seus arquivos.

Estamos no limiar da temporada dos 500 anos do Descobrimento e, apesar disso, nossa produção historiográfica a respeito do assunto ainda não deu o ar de sua graça. Quem está conseguindo reavivar o interesse pelo período é um jornalista, Eduardo Bueno, que não trabalha com fontes primárias nem se assume como historiador. Com o tino de narrador, tem feito um excelente trabalho de divulgação através dos seus três livros, um recém-lançado, e, dois deles, longevos best-sellers (Capitães do Brasil, Náufragos, Traficantes e Degredados e A Viagem do Descobrimento, todos pela Objetiva).

A grande verdade é que os Descobrimentos foram transferidos da esfera da história para as páginas de ‘eventos’, badalação. Não porque as comemorações foram entregues ao ministro Rafael Greca, dos Esportes e Turismo, mas porque temos a tradição de não gostar das tradições. Passado, sobretudo aquele que ainda não foi politizado, é para ser enterrado ou gozado.

Prova disso pode ser encontrada na Biblioteca Nacional (Rio), um tesouro documental entrevado pela falta de recursos, pessoal e equipamentos. Nos logradouros mais visíveis das nossas principais cidades contamos o tempo que falta para o Dia D, mas a ninguém ocorreu que antes das festinhas e festanças seria preciso criar as condições técnicas – já não falamos nos estímulos intelectuais – para retomar alguns pontos ainda obscuros em torno dos descobrimentos e dos primeiros anos da colonização. Pesquisadores e historiadores esperam há meses pela liberação das cópias de manuscritos para desenvolver seus trabalhos. O país tem um naipe de historiadores de alto nível, como José Murilo de Carvalho, parados à espera de uma copiadora escangalhada.

O Nascimento da Nação ainda não ocorreu e não será desta vez que ocorrerá. Decididamente não gostamos de História. Ou, o que é pior: não sabemos usá-la."

"História, maneira de usar", copyright Jornal do Brasil, 18/9/99

 

INTERNET
CartaCapital / Lafis

"A Internet é hoje um fenômeno basicamente norte-americano. No final de 1998, estavam nos EUA e Canadá 54% dos 130 milhões de usuários da rede, enquanto 24% ficavam na Europa, 15% na Ásia, 6% na América do Sul e 1% no resto do mundo; os EUA, sozinhos, representavam 90% do comércio eletrônico mundial. Além disso, é um fenômeno elitista: mesmo nos EUA, ainda atinge apenas 15% da sociedade. A 10ª pesquisa do Georgia Institute of Technology (Gatech) < www.gvu.gatech.edu/user_surveys/survey-1998-10/tenthreport.html>, de outubro de 1998, indicou que 88% dos usuários têm no mínimo curso superior incompleto e que sua renda familiar média é quase o dobro da renda mediana norte-americana. Apenas 4,5% dos norte-americanos na Internet são negros, embora estes representem mais de 12% da população total.

Até quando continuará assim? Ninguém pode dizer com certeza. Se acreditarmos na mística dos pioneiros, em poucos anos iremos presenciar uma vasta popularização: a Internet em breve estará conectando cada barraco de favela e se tornando o parlamento de uma democracia direta global e a biblioteca infinita do conhecimento universal.

Expansão elitizada

À primeira vista, as estatísticas da Internet, bem como as previsões das fontes mais sóbrias, sugerem que realmente estamos caminhando nessa direção: desde 1969, a rede, medida segundo o número de hosts (a estatística de mais fácil acesso sobre a Internet), cresceu a uma taxa média de 4,7% ao mês. Não há sinais evidentes de perda de ritmo: no primeiro semestre de 1999, a taxa de crescimento foi de 4,5% ao mês. O Computer Industry Almanac prevê que a Internet deverá atingir 320 milhões de usuários no final de 2000.

Uma extrapolação ingênua concluiria que, nesse ritmo, toda a população do planeta estaria conectada até meados de 2006. Isso, obviamente, é impossível: mesmo nessa data, grande parte dos povos do mundo ainda não terá tido acesso à alfabetização ou a linhas telefônicas. Além disso, expansão não é sinônimo de massificação, muito menos de democratização. A pesquisa do Gatech está mostrando elevação da renda média do usuário (nos EUA, de US$ 52,5 mil em outubro de 1997 e de US$ 53 mil em abril de 1998 para US$ 58,7 mil em outubro de 1998), do número de usuários com curso superior (de 50% na pesquisa anterior para 59%), e até da porcentagem dos usuários de sexo masculino (de 61,3% para 66%).

Para usar o sentido mais convencional do termo elite, o crescimento da Web nos EUA, por paradoxal que pareça, é uma elitização. Há dois ou três anos, o usuário típico da Internet era um jovem de classe média que, por interesse diletante ou por necessidade profissional ou acadêmica, estava bem familiarizado com a informática (embora não fosse necessariamente um hacker). Hoje, esse grupo cada vez mais se torna minoria relativamente a um número bem maior de burgueses bem estabelecidos, de meia-idade [a idade média do usuário norte-americano passou de 34,4 anos em abril de 1998 para 38,5 em outubro e, nessa data, a idade média dos incorporados há menos de um ano era de 41,4 anos], relativamente pouco versados em computadores, que usam a rede não tanto para comunicar-se e informar-se com fins profissionais e acadêmicos ou para divertir-se com games e músicas pirateadas e sim para consumir: esse público aparentemente usa a rede principalmente para informar-se sobre produtos e serviços à venda, embora (por razões de segurança) nem sempre se anime a comprá-los através da Internet.

Papo virtual

No Brasil, segundo pesquisa Datafolha (Folha de S. Paulo, 30/8/1999), em junho de 1999, 8 milhões de brasileiros – 8% dos maiores de 16 anos – se conectavam à Internet; segundo pesquisa Ibope, a Internet atingia 9% dos brasileiros nas regiões metropolitanas, um percentual maior que o da maioria dos países europeus [Na Europa, salvo países escandinavos, a penetração é bem menor: 18% na Suécia, mas 7% no Reino Unido, 4% na Alemanha, 2% na França e 1% na Itália e Espanha – porém, a rede francesa Minitel (irmã mais velha da Internet, menos sofisticada, mas com mais conteúdo local e tradição), serve 14,4 milhões ou 25% da população francesa. Em Hong Kong é de cerca de 16%; em Cingapura, 12%, mas no Japão, só 7% e na maioria dos demais países asiáticos é insignificante. No Canadá e Austrália é da ordem de 10%]. Porém, segundo o Ibope, a renda familiar mediana dos internautas está algo acima de 20 salários mínimos – valor que, se mesmo antes da máxi estava bem abaixo da renda média dos internautas norte-americanos, ainda é mais de cinco vezes maior que a renda mediana do País; embora o número de internautas brasileiros esteja crescendo explosivamente, esse perfil não se alterou significativamente em relação às pesquisas anteriores.

Divisão na rede

Segundo o Datafolha (junho de 1999), a Internet atinge 36% dos brasileiros com renda familiar mensal acima de 20 salários mínimos, mas apenas 2% dos com menos de 10 salários; 35% dos usuários com curso superior, mas apenas 2% dos que têm apenas primeiro grau. Em relação aos EUA, a Internet brasileira parece estar sendo usada mais intensamente como meio de socialização e muito menos como meio de comércio, por usuários mais jovens (média de 27 anos), mas não está claro até que ponto isso representa uma fase anterior de desenvolvimento ou uma característica estrutural – por um lado, a população do Brasil efetivamente é mais jovem e os brasileiros são notoriamente mais comunicativos, por outro, os teleserviços são notoriamente precários e pouco confiáveis, mesmo contatados por meios tão tradicionais quanto telefone e reembolso postal.

Detalhes como esse à parte, a tendência geral parece ser a consolidação da Internet como um veículo predominantemente comercial, voltado para um público de renda alta e educação superior, mas passivo e ingênuo em relação à informática. Isso se casa perfeitamente com o lançamento comercial de ligações mais eficientes que as velhas linhas telefônicas – serviços Internet via cabo ou sem fio, com velocidades a partir de 256 kbps, cinco vezes mais rápidas que os melhores modems telefônicos, como as que começam a ser oferecidos pela TVA (Ajato) e pela Globo (Virtua), para quem quiser pagar instalação, cable modem e assinatura.

Tais meios permitirão projetar sites visualmente muito mais sofisticados, com recursos de segurança mais poderosos e, ao mesmo tempo, muito mais fáceis de localizar, visualizar e utilizar – a história da informática mostra que quanto mais poderosa é a máquina, menos inteligente precisa ser o usuário. Entretanto, tais sites poderão ser praticamente inacessíveis para os usuários de um velho modem de 28 kbps, ao passo que sites feitos para serem visualizados com equipamentos antigos parecerão ridicularmente pobres para os usuários dos novos recursos. Pelo menos por algum tempo, poderá haver uma nítida divisão da Internet entre um serviço comercial e consumista para um público de alta renda e um serviço mais diletante, interativo e comunitário, voltado para um público relativamente restrito de aficionados (o equivalente Web dos radioamadores e das rádios ‘piratas’).

Fracasso

O público de massa, porém, ainda está longe de ser atingido. Os empresários do setor julgaram que o alcançariam rapidamente pela integração da Internet e da TV, via TV interativa. Porém, o primeiro serviço comercial desse tipo, lançado em Hong Kong em março de 1998, tem-se mostrando um fracasso comercial [They Have Seen the Future, and They Aren’t Very Interested, in The Economist, 13/3/99, pág. 71]. Baseado em linhas de telefone, estaria em condições de cobrir até 70% das residências da cidade de 6 milhões de habitantes e, segundo a previsão original, em março de 1999 teria atingido 250 mil assinantes pagando US$ 50 mensais. Entretanto, tinha na realidade apenas 80 mil pagando em média US$ 35, menos da metade do custo real do serviço.

A Hong Kong Telecom, que esperava começar a lucrar com o novo serviço em 2001 (quando deveria ser atingida a marca de 600 mil assinantes), adiou a meta para 2003 e reconheceu que o cardápio de filmes, músicas, corrida de cavalos e karaokê interativos não está sendo suficiente para atrair o público. A empresa tinha optado por priorizar apartamentos de baixa renda porque estão agrupados mais densamente, o que torna as conexões mais baratas, e porque essa camada social tende a ver mais TV. Porém, esse público, que em Hong Kong já dispõe de TV a cabo, não viu vantagens na TV interativa, ao passo que os consumidores de alta renda estão fora de seu alcance por residirem em subúrbios distantes, de baixa densidade demográfica.

Em março de 1999, a Microsoft anunciou que transformaria essa rede em seu principal laboratório de mídia interativa e procuraria resolver seu principal problema técnico: atualmente, a opção de serviço em televisão (preferida pela maioria dos assinantes) não oferece correio eletrônico ou jogos com qualidade de PC, enquanto a opção de serviço Internet em alta velocidade para PCs (que tem apenas 10 mil assinantes) não oferece filmes. Porém, um serviço similar em Cingapura, que já oferece filmes em PCs, tem sido ainda menos bem-sucedido – atingiu somente 14 mil assinantes e decidiu recentemente estender o serviço para aparelhos de TV, porque concluiu que a maioria das pessoas simplesmente não quer ver filmes nos seus PCs.

Espelho

Ao contrário do que geralmente se pensa, a expansão da Internet não tem sido mais rápida que a das mídias tradicionais: em 1921, havia 7 mil rádios nos EUA; em 1928, 10 milhões, uma expansão que a Internet levou nove anos para igualar (de 1983 a 1992, aproximadamente). Portanto, se a expansão da Internet de veículo de comunicação especializado de uma elite tecnológica e intelectual para shopping virtual de uma elite econômica mais ampla e abastada é um movimento já bastante claro, sua transformação num meio capaz de atingir as massas ainda não está à vista. Isso não significa que uma façanha semelhante é impossível para a Internet: o rádio e a TV também foram elitistas antes de chegar ao grande público, mas para isso precisaram não só oferecer serviços gratuitos e receptores baratos, como também encontrar os conteúdos adequados e a linguagem correta – que, no rádio e na TV, foi a linguagem do nivelamento por baixo. No caso da Internet, ainda se pode ter a esperança de que suas possibilidades ilimitadas de segmentação de serviços e programação permitam uma produção, se não de melhor qualidade, pelo menos de maior variedade.

Uma possibilidade, porém, já pode ser descartada desde já: que a Internet possa, por si só, deflagrar uma revolução democrática nas formas de gestão da sociedade. A possibilidade tecnológica de colocar todo o conhecimento do mundo na Internet já existe [Em julho de 1999, segundo Nature, a Web pública continha 800 milhões de páginas somando 6 terabytes de texto, o equivalente ao conteúdo das maiores bibliotecas do mundo (o volume das páginas de acesso restrito é cerca de três vezes maior). Porém, desse conteúdo total, 83% era comercial e 3% pornográfico, contra apenas 6% de caráter educativo e científico, 2% relacionados a organizações civis, 1% a governos e 5% a outros (religiosos, comunitários, de saúde etc.)], bem como a de criar um fórum democrático mundial, mas não existe uma sociedade capaz de tirar proveito dessas possibilidades. Desse ponto de vista, os intelectuais que acreditaram na Web como um meio revolucionário, no estrito senso da palavra, devem estar se sentindo como os dissidentes da Europa Oriental que esperavam que a queda do muro de Berlim trouxesse um florescimento artístico e democrático sem precedentes, mas viram seus povos voltarem as costas à sua proposta de uma nova democracia para correr para os shoppings e cinemas pornográficos, alimentando uma mercantilização da cultura sem precedentes [Ver, por exemplo The Disappearing Czech Intellectual, em The Economist, 21/8/1999, pág. 41]."

"Anti-revolução", copyright Lafis Pesquisa e Investimento em Ações na América Latina/CartaCapital nº 106, 15/9/99.

 

John Barham

Financial Times

"O principal provedor de acesso à Internet do Brasil obteve ontem US$ 100 milhões de um grupo de investidores institucionais, por meio de uma colocação privada de capital comandada pelo banco de investimento Morgan Stanley Dean Witter, de Wall Street.

É a primeira transação desse tipo por parte de uma companhia brasileira da Internet, seguindo-se a uma série de operações semelhantes que envolveram investidores de Wall Street e companhias de menor porte operando no mercado latino-americano de Internet, que vem crescendo rapidamente. Luís Frias, presidente do Universo Online, disse: ‘A intenção da empresa é usar esses recursos para financiar a expansão na América Latina e manter sua posição dominante no mercado brasileiro’. Ele anunciou que o UOL planeja se expandir aos Estados Unidos no ano que vem, para capturar parte do mercado hispânico naquele país.

A transação, na qual o UOL vendeu 12,5% de suas ações, avalia a empresa em US$ 800 milhões. Frias disse que a empresa estava planejando abrir seu capital. As ações restantes são controladas em partes iguais pela Editora Abril, uma das maiores editoras de revistas, e pela maior editora de jornais do país, a Empresa Folha da Manhã, que fundou o UOL em 1996. O banco de investimento Lazard assessorou o UOL e atuou como agente exclusivo de colocação.

Os investidores institucionais que adquiriram ações do UOL incluem Blackstone Capital Partners III, Providence Equity Partners, Credit Suisse First Boston, Deutsche Bank e o Reuters Group, agência de notícias e companhia de mídia. A venda das ações do UOL se segue a uma abertura de capital de alto perfil por parte da StarMedia, sediada em Nova York, que levantou US$ 105 milhões nos mercados de ações em maio a fim de financiar serviços de Internet para atender o mercado latino-americano.

O El Sítio, sediado em Buenos Aires, e a Yupi.com, de Miami Beach, levantaram US$ 57 milhões junto a investidores norte-americanos. Em junho, o El Sítio vendeu 35% de suas ações a um grupo de investidores comandado pelo banco de investimentos Bear Stearns, de Nova York.

Frias diz que o UOL estabeleceu uma divisão internacional sediada em Buenos Aires para oferecer conteúdo em espanhol, para a região. O UOL começará sua expansão internacional pela Argentina, lançando seus serviços no país este mês, e depois se ampliará ao Chile, Colômbia, México e Venezuela.

A empresa planeja abrir escritórios nesses países para fornecer conteúdo local a cada mercado. O UOL informou que abrirá escritórios em Miami e Nova York a fim de coordenar sua entrada no mercado hispânico dos Estados Unidos em 2000. Frias diz que o UOL pretende continuar crescendo organicamente ainda que possa aproveitar oportunidades de aquisição no Brasil e na região, à medida que esses mercados se consolidam.

O UOL enfrentará forte concorrência de empresas norte-americanas da Internet como America Online e Yahoo!, que lançaram ambas serviços latino-americanos. Frias disse que pretende reproduzir a estratégia bem-sucedida que o UOL empregou no mercado brasileiro, onde o crescimento foi conduzido pela oferta de forte conteúdo e serviços locais."

"Grupo brasileiro de Internet levanta US$ 100 milhões em capital", copyright Financial Times/Folha de S.Paulo, 15/9/99. Tradução: Paulo Migliacci

 

Folha de S.Paulo

"O UOL (Universo Online), empresa dos grupos Folha e Abril, anunciou ontem a venda de 12,5% de participação acionária. O acordo permite obter US$ 100 milhões de investidores institucionais liderados pela divisão de ‘private equity’ da Morgan Stanley Dean Witter & Co. Os recursos serão usados para sustentar o crescimento do UOL no Brasil e expandir suas operações na América Latina e no mercado hispânico norte-americano.

Luís Frias, presidente do UOL, declarou que a empresa ‘é hoje a maior operação de Internet na América Latina, não importa qual seja o método usado para medição: assinantes, visitantes únicos, ‘page views’, audiência nas salas de bate-papo, receitas publicitárias ou de comércio eletrônico’. Para Frias, ‘os participantes neste investimento privado estão entre os mais prestigiados do mercado. Agora vamos nos concentrar ainda mais na estratégia de desenvolvimento do portal em espanhol e em continuar construindo o mais sólido negócio de Internet na América Latina’.

Para Caio Túlio Costa, diretor-geral do UOL-Brasil, ‘agora a empresa terá condições para enfrentar com mais robustez os desafios do crescimento da Internet’.

Provedor

O UOL (www.uol.com.br) é o maior provedor de conteúdo e de acesso no Brasil, com 1,3 bilhão de ‘page views’ (páginas vistas) no trimestre encerrado em 30 de junho deste ano e cerca de 500 mil assinantes em 106 cidades. Aproximadamente 80% dos usuários de Internet no Brasil visitam o UOL mensalmente, e mais de 30% da base brasileira de assinantes tem acesso à Internet por meio do UOL.

A empresa está iniciando suas operações internacionais, com sede em Buenos Aires, Argentina, neste mês. A empresa pretende lançar operações no México, Chile, Colômbia e Venezuela até o começo do ano 2000. O portal do UOL em espanhol, dirigido ao mercado latino-americano e ao mercado hispânico norte-americano, vai se basear na plataforma exclusiva do UOL e no amplo conteúdo regional, enriquecido por tempero local. Lançado em 1996, o UOL oferece o mais abrangente conteúdo entre os portais latino-americanos.

Investidores

Efetivada a transação, Folha e Abril terão juntas 87,5% do capital da empresa. O grupo de investidores, liderado pela divisão de ‘private equity’ da Morgan Stanley Dean Witter & Co., inclui investimentos significativos da Blackstone Capital Partners III e da Providence. Também participam como investidores Credit Suisse First Boston Garantia, Deutsche Bank Bankers Trust, Hambrecht & Quist, Latinvest e Reuters.

Gustavo Schwed, diretor-executivo de ‘private equity’ para a América Latina da Morgan Stanley Dean Witter, declarou: ‘Estamos muito satisfeitos por ter a oportunidade de investir no UOL e participar do potencial de crescimento da Internet na América Latina. Estamos impressionados com a administração do UOL e sua liderança de mercado’.

A Lazard Frères & Co. atuou como assessor financeiro exclusivo e agente da transação. Segundo o diretor William Araskog, ‘esse acordo de investimento mostra que os investidores estão claramente impressionados pelo marcante sucesso que o UOL atingiu como pioneiro do mercado brasileiro de Internet’."

"UOL obtém US$ 100 mi para expansão", copyright Folha de S.Paulo, 15/9/99

 

TRABALHO EXTRA
Howard Kurtz

The Washington Post

"Washington – Em julho, um repórter do The Wall Street Journal recebeu a informação de que o presidente da Merrill Lynch & Co. estava renunciando, um furo de reportagem fugaz, que quase certamente não duraria até a manhã seguinte. Assim, o site do jornal na Internet divulgou a notícia para seus 300 mil assinantes, explorando a velocidade da rede, que muitas vezes parece deixar os produtos de tinta e papel comendo poeira.

À medida que os recintos jornalísticos no ciberespaço se tornam mais competitivos, os jornais se estão transformando em máquinas de noticiário 24 horas, em parte pedindo a seus jornalistas para fazerem horário dobrado. O resultado tem alterado o tradicional ambiente da redação, que nunca teve de lidar com fechamentos 24 horas. Na semana passada, The Washington Post lançou em seu site o P.M. Extra, uma edição à 1 hora que apresenta uma meia dúzia de notícias de última hora preparadas pelos jornalistas do jornal.

The New York Times planeja pedir à sua equipe para trabalhar no seu ‘mesão de notícias contínuas’, produzindo atualizações on-line a partir de outubro. ‘Isso exige uma grande mudança cultural, porque as pessoas que trabalham para os jornais que saem pela manhã se acostumaram a escrever uma artigo por dia, passando o dia todo reunindo dados e escrevendo o mais próximo do horário do fechamento que conseguem’, disse Bernard Gwetmasn, editor do site do Times. Os jornais estão competindo com uma variedade atordoante de ofertas na Web, muitas fornecendo as últimas notícias da Associated Press ou Reuters, assim como seu próprio material.

Notícia – Em julho, segundo dados da Media Metrix, o site do The New York Times atraiu 2,7 milhões de visitantes, seguido pelo do de USA Today (2,5 milhões), The Post (1,7 milhão), Los Angeles Times (1 milhão) e Wall Street Journal (976 mil). Com as notícias tornando-se uma mercadoria on-line onipresente, os grandes jornais estão tentando ampliar seu alcance, oferecendo notícias ‘com marca registrada’ de sua equipe.

Esses passos na direção de uma cobertura contínua têm sido recebidos com certo ceticismo nas salas de redação do Post e do Times, onde a maioria dos jornalistas não é remunerada pelo trabalho extra."

"Internet muda rotina das redações", copyright O Estado de S. Paulo, 9/9/99

 

IMPÉRIO DA MEDIOCRIDADE
Thomas C. Frank

Le Monde Diplomatique

"Nos Estados Unidos, onde os jornalistas são mais desprezados do que membros de quase qualquer outra profissão, um grupo de pensadores juntou-se para diagnosticar os problemas da indústria e sugerir soluções. As maiores fraquezas do jornalismo, eles concluíram, são ‘elitismo’ e ‘cinismo’, os quais juntos formam um tipo de esnobismo intelectual que leva os repórteres a criticarem muito e acreditarem que sabem tudo. A solução seria o ‘jornalismo público’, uma maneira totalmente democrática de escrever e editar, que afasta as matérias de juízo, as quais estão em favor de determinados grupos, e da interação entre repórter e audiência. Para os leitores europeus, a idéia do jornalismo americano ser crítico é abertamente ridícula; para os americanos, que ainda gostam muito da idéia do jornalismo como um expedicionário da justiça, jornalismo público soa extremamente insensato, um tipo de desarmamento cultural unilateral. Mas é o preço de se salvar a indústria da catástrofe da perda de status.

É impossível duvidar das boas intenções dos jornalistas públicos. Alguns de seus esforços deram sinal de sucesso: The Kansas City Star’s 1995, série sobre o inchaço urbano, é um excelente exemplo de reportagem crítica e centrada na comunidade. Mas considere como os bons sonhos do jornalismo público encaixam-se com a outra tendência de ‘reforma’ jornalística dos anos 90: a subordinação do jornalismo à lógica do mercado. Apesar dos dois movimentos chegarem às suas conclusões por diferentes caminhos, ambos insistem em transformar os jornais em reflexões demográficas de seus leitores, extirpando as diferentes vozes de editores idiossincrásicos. Não é coincidência que Mark Willes, executivo-chefe do grupo Times Mirror e que se auto-proclama um jornalista público, pôde parar com o excelente New York Newsday, mas mescla o departamento de publicidade com a redação no Los Angeles Times. Depois de tudo, elitistas não são aqueles que dirigem o mundo: eles são aqueles que criticam CEOs.

Ao olhar por esse ângulo, é fácil perceber porque o jornalismo público tem um excelente amigo na Gannett Corporation, a maior cadeia de jornais e editora do USA Today (notoriamente o jornal predileto do presidente Bill Clinton). Suas várias publicações são tão bem camufladas na paisagem americana que Gannett, às vezes, parece invisível; é exatamente aí que aqueles que se preocupam com o futuro do jornalismo deveriam estar olhando. Nas mãos da Gannett, o jornalismo público tem tornado-se uma ideologia de poder corporativo – a síntese perfeita entre populismo cultural e depredações corporativas.

Quando figuras do jornalismo denunciam o ‘cinismo’, os jornais da Gannett não são na maioria da vezes o que eles têm em mente. De maneira geral, os produtos da Gannett são cheios de artigos sobre celebridades e fotos de animais, com histórias de uma página sobre como guardar café (manchete recente no Louisville Courier-Journal) ou sobre como evitar machucar-se enquanto se sobe as escadas (Des Moines Register) ou a vida na Casa Branca desde que Clinton arrumou um cachorro (USA Today).

A campanha contra cinismo e a tendência em se fundir criticismo e elitismo repousa sob o coração da ideologia da Gannett. Al Neuharth, o carismático fundador do USA Today, talvez tenha sido o primeiro proeminente dono de jornal na nação a expor cinismo e elitismo como os maiores problemas da indústria. Ele gosta muito de ralhar as elites da mídia em Nova York e Washington pelo seu ‘esnobismo intelectual, pomposidade e arrogância’ de quem ‘pensa que sua missão é acusar e condenar, no lugar de informar e educar’.

USA Today trouxe algo novo – um ‘jornalismo de esperança’, na famosa frase de Neuharth. ‘Não é injunção. Nós não forçamos objetos garganta abaixo.’ Os jornais da Gannett não alarmam, chocam ou usam palavras longas e conceitos difíceis. Eles oferecem ao consumidor um produto prazeroso e homogêneo de lugar para lugar, privilegiando a interação entre o leitor e as ‘boas notícias’.

Nós não devemos reduzir Gannett ao mais baixo denominador comum ou demitir seus executivos por causa de seus gostos grosseiros. Não importa o que digam, USA Today é defensavelmente o jornal nacional mais cuidadosamente editado e o mais refinado. O modo como ele se parece é o resultado de anos de refinamento e planejamento. As coberturas feitas por grupos demográficos, a introdução das cores e o estilo pseudo-interativo, USA Today traçou o caminho que quase todos os jornais no país estão agora seguindo. Indiretamente, Gannett tem um pé no desenvolvimento teórico do negócio: Neuharth é o fundador do Freedom Forum, o qual patrocina painéis de discussão e edita Media Studies Journal.

O estilo Gannett parece ter sido inventado para o lucro. Ao compreender que possuir a franchise em cidades que só possuem um jornal pode ser extremamente lucrativo, a companhia tem procurado, comprado e criado monopólios no país inteiro. Uma vez que o ‘jornalismo de esperança’ necessita de pouco mais que notícias de agências e volta-se intensamente para as notícias locais, ele pode ser feito de maneira barata e com um olho nos anunciantes. Neuharth refere-se a sua empresa como ‘uma máquina que não pára de fazer dinheiro’ e aprobativamente cita os números de Wall Street que determinam Gannett como ‘um monopólio que vive, respira e dorme com os lucros’. Enquanto uma família que possui jornais tem sorte ao ter um lucro de 10% ao ano, Gannett rotineiramente faz quase 30%.

Outra vítima da estratégia da Gannett é o trabalho organizado, cujo salário pode impedir os lucros astronômicos da companhia. Este caso tornou-se o centro das atenções em Detroit, onde Gannett foi provocada por quatro anos de greves de empregados e finalmente aceitou a decisão da corte em favor dos empregados.

USA Today, o produto mais conhecido da Gannett, é explicitamente destinado a homens de negócio em viagem, o material de leitura que as pessoas escolhem entre um encontro de vendas e outro. Mas a mistura que reinou na cultura norte-americana nas décadas de 80 e 90 fez com que USA Today se tornasse o jornal das pessoas, que expressa o sentimento das pequenas cidadelas da nação. Das suas coloridas primeiras páginas ao seu editorial que freqüentemente emprega o ‘nós’, as pretensões populistas são elementos essenciais do estilo da publicação.

Neuharth decidiu, no primeiro dia da publicação, abandonar a história complicada sobre o assassinato do presidente Bashir Gemayel no Líbano, em setembro de 1982, para cobrir a morte de Grace Kelly, a original ‘princesa do povo’, demonstrando assim que ‘USA Today não seria editado para os editores da nação, mas para os leitores da nação’. Gannett emprega pesquisas e ‘observadores de tendências’ para ajudar o jornal a chegar mais perto dos desejos de seu público. Em 1997, em seu relatório anual, Gannett define quais são as característica do jornal não-cínico e não-arrogante: ‘histórias positivas, que contem como o novo desenvolvimento da comunidade tem um efeito positivo nos cidadãos e descrições que contem como donos de negócios locais superaram os obstáculos’.

Depois de analisar a visão da Gannett, não se pode deixar de pensar no tipo de artigos que seriam proibidos: I.F. Stone, por exemplo, ou ainda Upton Sinclair, um dos mais famosos repórteres investigativos que cobriu práticas mal cheirosas nos negócios e na política no começo do século.

‘Nós somos todos repórteres porque cada um de nós conta histórias.’ Este é a introdução para o filme que apresenta o Newseum. Este museu de jornalismo foi recentemente aberto do outro lado da rua, em frente às janelas de vidro da Gannett/USA Today, em Arlington, Virginia. O Newseum é um projeto concebido por Neuharth. Sem surpresas, o Newseum baniu o elitismo do museu tradicional, todo aquele traço formal, a pomposidade, a cerimônia. Suas salas sem teto são cheias de equipamento de vídeo sempre a disposição, tradutores para surdos-mudos e computadores nos quais as pessoas podem praticar reportagem. Títulos com a data de nosso aniversário nos dizem quem somos. A imprensa é nossa companheira, nós aprendemos. A imprensa somos nós. Na verdade, a imprensa é a nossa memória, nosso inconsciente e nossa consciência. Telas espalhadas por toda a parte exibem histórias que nos lembram daqueles momentos jornalísticos – quase todos desastres de um tipo ou de outro – que representam tudo que os americanos têm em comum enquanto uma nação. Walter Cronkite anuncia a morte de JKF na CBS; na ABC temos Frank Reynolds rapidamente perdendo sua coleção de relíquias. Nenhum deles tem muito a ver com o jornalismo, é claro. Isso nos traz uma pergunta: é suficiente cobrir um evento heróico e depois sustentá-lo como causa? Há questões abertas. Não há menções na vasta área da experiência americana – as oito horas de trabalho por dia, o direito dos trabalhadores se organizarem, e outras grandes reformas conseguidas pelos trabalhadores no curso do século. Em que lado estava nossa amigável mídia nesses momentos de briga?

Quanto mais perto alguém chega, mais aparente seus erros se tornam. Há um Centro de Ética onde nós podemos brigar com ‘as difíceis escolhas encaradas pelos jornalistas todos os dias’. Mas isso acaba para se discutir problemas mais imediatos, como fazer acordos com os negócios locais que anunciam no seu jornal. O antigo tema da Imprensa versus Tirania convenientemente vê a ‘liberdade’ como uma coisa espremida entre uma repressão inerente ao Estado e uma liberação inerente às corporações de mídia.

Em uma ponte cinza de concreto entre o Newseum e o prédio do USA Today está o Memorial dos Jornalistas, um monumento de vidro e ferro dedicado aos jornalistas dos meios impressos e televisivos mortos no cumprimento de seus deveres. Ao olhar para a longa lista de nomes, parece impróprio vê-los expostos ali, a dois passos de um prédio que simboliza 30% de lucros, mapas do tempo coloridos e o fim das organizações de trabalhadores. Talvez o Newseum, uma pedra jogada do gigante cemitério do exército americano em Arlington, seja onde os jornalistas americanos foram morrer."

"Nós informamos, você decide. ‘Newseum’ da mediocridade norte-americana", copyright Le Monde Diplomatique, agosto de 1999. Thomas C. Frank é diretor editorial da revista The Baffler, Chicago, e autor de The Conquest of Cool (University of Chicago Press, Chicago, 1997). Tradução: Isabela Nogueira.

 

FOTOJORNALISMO
Rodrigo de Matos

Público

"Jornalistas e fotógrafos de todo o mundo assinaram um protesto contra uma lei francesa que proíbe a publicação de fotografias de vítimas de crimes ou desastres. A lei em causa, actualmente em discussão no parlamento francês, foi criada pela ministra da Justiça, Elisabeth Guigou, e visa actuar contra a publicação de imagens voyeurísticas, ou que ponham em causa a presunção de inocência.

Com votação parlamentar marcada para o próximo mês [outubro], a ‘Lei Guigou’ determina a interdição da publicação de imagens de pessoas algemadas ou vítimas de atentados. Um dos pormenores que tem levantado mais polémica é que a lei inflige uma multa de 100 mil francos (mais de três mil contos) [cerca de 15 mil dólares], por ‘ataque à dignidade humana’, à publicação de uma fotografia sem a permissão pessoal e específica de qualquer pessoa retratada, mesmo que no meio de um grupo. A restrição não só criaria embaraços de ordem prática aos jornais, como daria azo a que qualquer pessoa que se descobrisse retratada num jornal pudesse pedir uma indemnização.

A lei veio endurecer a já implacável legislação francesa sobre os direitos de privacidade. Foi a ameaça de prisão e multa de 300 mil francos que convenceu as agências fotográficas a não permitirem, há dois anos, que os jornais publicassem as fotografias da princesa Diana dentro do automóvel, após o desastre que a vitimou.

Se parece haver consenso sobre a utilidade de mecanismos jurídicos que impeçam abusos em casos como este, a nova lei seria de interesse, no mínimo, discutível em alguns outros. Por exemplo, a ‘Lei Guigou’ tornaria impossível a republicação das imagens das vítimas da bomba atómica, em Hiroshima, ou do holocausto nazi. Ou, mais estranho, impediria que fosse publicada a imagem de um adepto de uma qualquer equipa de futebol a comemorar a vitória das suas cores, numa qualquer competição.

Fotojornalistas protestam

As assinaturas de quatro mil profissionais do fotojornalismo foram apresentadas na quinta-feira passada pelo antigo director da revista francesa Paris Match, Roger Thérond, no Festival Visa de imagem, em Perpignan. Intitulada ‘L’Appel de Perpignan’ (‘O Apelo de Perpignan’), a petição é endereçada ao primeiro-ministro e aos presidentes da Assembleia Nacional e do Senado, e contesta duas das disposições da lei. Segundo Thérond, ‘a profissão está em perigo’.

Os jornalistas temem que o Governo venha a privar os franceses de informação disponível a cidadãos de todos os países democráticos, ao dar aos juízes o poder de decidir sobre a legalidade das fotografias noticiosas e de impedir a publicação de fotografias de guerra e violência. A supressão de imagens de pessoas acusadas de crimes ou das suas vítimas também poderia, segundo dizem, encorajar o Estado a encobrir informação.

O diário francês Le Monde, que seria um dos jornais menos afectados pela lei, por muito raramente publicar fotografias, manifestou-se contra a ‘Lei Guigou’. O jornal, de centro-esquerda, disse que a lei que visa prevenir a publicação de imagens que ‘põem em causa a dignidade do indivíduo’ é uma ideia absurda que acabaria por dar à França, o país que inventou a fotografia, a ideia de que coisas más só acontecem no estrangeiro.

O Le Figaro qualificou a lei como ‘perigosa’, argumentando que ela levaria os jornais a ‘descrever uma sociedade sem conflitos, sem tensão e sem vida’.

O semanário Journal du Dimanche, na sua última edição, acusava o Governo liderado pelos socialistas de adoptar uma política de imprensa semelhante à da União Soviética e de outros ‘regimes que quiseram fazer as pessoas felizes à força’."

"Todos contra ‘Lei Guigou’", copyright Público, Lisboa, 12/9/99

 

COBERTURA
Janio de Freitas

"Onde se tem lido, em colunas e páginas de economia, que o dólar caiu porque o mercado se tranqüilizou com a escolha de Alcides Tápias e com a energia de Fernando Henrique Cardoso, leia-se:

– Para baixar 1% no dólar que o ‘mercado tranqüilizado’ mantinha acima de R$ 1,90, o governo lançou R$ 4 bilhões em títulos nos seis dias até anteontem; vendeu no mercado R$ 6,1 bilhões só neste mês, com os juros astronáuticos, e aumentou a dívida em dólares na ninharia de R$ 3 bilhões.

Mais notável é que nem a coleta de números assim tão eloqüentes, como a fizeram os repórteres Marcelo Aguiar e Marcone Gonçalves, evita a referência aos poderes mágicos da indicação de Tápias.

Ninguém nas seções de economia está impedido, no entanto, de se fazer perguntinhas simples como esta: se o governo não torrasse tantos bilhões para diminuir o dólar em minguado 1%, o que teria havido com o dólar? Ou então: se a escolha de Tápias e a suposta energia de Fernando Henrique tiveram mesmo influência tão positiva no tal mercado, por que o governo precisou usar bilhões de dólares para baixar um centavinho no dólar?

Agora é o nome de Tápias, mas todos os dias há outros Tápias, outras supostas energias e outros poderes mágicos. A guerra do ‘jornalismo’ econômico ao leitor é ininterrupta e impiedosa. O leitor/espectador paga para receber jornalismo de economia e recebe economia de jornalismo.

Ala da direita

Estava esquecido o d. Geraldo Sigaud agora morto aos 89 anos. Foi um bispo importante na criação e na ação de uma ala fascistóide da Igreja Católica movida a ódio e determinação persecutória. D. Sigaud foi além da contribuição aos militares e à polícia política na perseguição a leigos: chegou a pedir que o governo expulsasse do país certos padres e bispos.

A propósito, [Carlos Heitor] Cony, em crônica recente sobre a missa por um religioso de outra cepa, ou melhor, por um cristão verdadeiro, d. Hélder, fez uma crítica veemente aos religiosos, ditos progressistas. Teriam se ausentado da cerimônia mandada celebrar pelos conservadores e, nesse radicalismo, reproduziam a causa dos erros da esquerda em geral.

Como não dou as caras em castelos, nem sequer por telefone, faço aqui, e não ao nobre Cony, o que me parece a retificação necessária. Foi o arcebispo de Olinda e Recife, da ala ultraconservadora da Igreja Católica, que se recusou a acompanhar a missa de corpo presente de d. Hélder. Nem quis ele, como seria próprio, celebrar a missa. Chamou o cardeal do Rio para celebrar uma outra, da ala conservadora.

O oposicionista

Se um jornalista usasse tal frase em relação ao governo, Fernando Henrique diria, como faz por muito menos, tratar-se de oposicionismo sistemático, pessoal até: ‘Basta de ineficiência’. A frase é de Fernando Henrique, na reunião ministerial de anteontem. Enfim, um momento de percepção eficiente."

"Os dólares da mágica", copyright Folha de S. Paulo, 10/9/99

 

IDIOSSINCRASIAS
Correio da Cidadania

"Rui Barbosa ironizava assim a consciência conservadora: se o povo pressionar por mudanças, não se pode agir sob pressão; se o povo nada fizer, por que mudar? A mídia está tendo atitude exatamente igual em relação às reformas políticas na Venezuela.

Hugo Chávez, conhecido apenas por ter liderado, anos atrás, um golpe frustrado, em um país que a imprensa olimpicamente ignora, voltou agora à cena política de forma arrasadora: venceu as últimas eleições presidenciais, propôs a redação de um novo pacto constituinte, conseguiu maioria esmagadora nessa Assembléia, e... passou a pôr em prática tudo aquilo que colunistas ‘progressistas’ e os editoriais de jornais ‘democráticos’ propõem diariamente: independência em relação aos centros do capitalismo mundial; melhor distribuição da riqueza; e fim da corrupção.

Para realizar esses objetivos, é preciso modificar a legislação, reestruturar o sistema judicial, refazer o processo eleitoral e legislativo – mudanças que, obviamente, não serão feitas por forças políticas que dominam oligarquicamente essas instituições, e que apóiam a submissão externa, a concentração da riqueza e a corrupção.

Se, no entanto, as instituições forem alteradas, as mudanças podem se tornar reais. Aí a coisa complica: falar em mudanças ajuda a imagem do jornal, mas fazer mudança prejudica os donos dos jornais.

Qual o jeito então de boicotar as mudanças na Venezuela? Lançar a suspeita de que Chávez vai se tornar um ditador populista.

Não é o caso de transformar o presidente venezuelano na liderança nova que o continente está reclamando para superar o seu subdesenvolvimento, pois ainda não dispomos de elementos suficientes para julgar seu comportamento político. Mas é preciso denunciar um tipo de jornalismo que, por temor de que realmente as coisas mudem, apresenta desfavoravelmente o líder de um processo que pode ser altamente relevante para o Brasil e para toda a América Latina."

Editorial ‘Mau jornalismo’, copyright Correio da Cidadania <www.correiocidadania.com.br>, 7/9/99

 

LINGUAGEM
Pedro Gomes

"Os manuais de redação, hoje obrigatórios nos principais jornais brasileiros, representam um avanço na correção gramatical e estilística dos textos produzidos para o leitor. Mas há resultados adicionais que não podemos esquecer, referentes a uma linguagem mais comprometida com a ética, a boa educação e a responsabilidade da imprensa.

Existe o vezo, mesmo nos jornais de primeira classe, de tratar pejorativamente atitudes e movimentos do jogo democrático que são de absoluta normalidade. A partilha de cargos entre os partidos que dão sustentação política e parlamentar ao Governo é com freqüência carimbada de loteamento, barganha, butim, toma-lá-da-cá, apontando-se todo o processo como um simples e desprezível arranjo fisiológico. Por que não enxergar com olhos realistas as composições ministeriais levadas a cabo sob a pressão de legítimos interesses políticos-partidários? Pois é de uma evidência solar que a classe e a atividade políticas estão intimamente associadas à idéia do exercício do poder. Nenhum partido apóia candidatos a postos executivos por mero diletantismo. A divisão do bolo é um pré-requisito das alianças eleitorais que não precisa estar escrito nos códigos do sistema representativo nem escondido do julgamento público.

Também se usa linguagem ácida para mudanças que ocorrem nos quadros dirigentes do país. Uma expressão muito em voga é a fritura de ministros, presidentes de empresas estatais, de bancos oficiais etc. O pior, porém, é quando se compara a demissão a uma perda de emprego. O símile jocoso não faz o menor sentido, e transmite aos espíritos indefesos a impressão de que os ocupantes de cargos-chave do governo se encontram ali pelo apetite de abocanhar uma fatia bem remunerada do poder, uma sinecura e respectivas mordomias. Ora, o habitual é que o exercício de funções públicas relevantes, por natureza temporárias, represente um sacrifício profissional e financeiro para os seus titulares. E de que emprego estão precisando empresários, banqueiros, diplomatas, políticos com mandato, advogados de nomeada, ruralistas e quem mais se afasta da iniciativa privada para os desafios e tormentas das incumbências do Estado?

A polícia sempre reage ou reprime com violência. Este é um invencível cacoete da reportagem policial. Certamente o exercício desnecessário ou abusivo da violência costuma acontecer contra assaltantes, distúrbios de rua, manifestações de protestos, arrastões, traficantes baseados nas favelas, motins penitenciários etc., mas esse procedimento está longe de constituir uma regra pétrea. Nem os policiais são formados e treinados para tratar com luvas de pelica os que perturbam a ordem, nem é verdade que sejam sistematicamente os brutais agressores de pessoas inocentes. A TV nos mostra a todo momento PMs e guardas municipais atacados por paus, pedras e bombas, e mesmo assim são acoimados de truculentos quando reagem. Ninguém contabiliza os policiais mortos em ação, nem os que se suicidam pelo estresse e pelos baixos salários. O público conhece apenas as estatísticas dos que se tornaram corruptos e criminosos.

E há o vício das generalizações negativas. Todos os hospitais públicos estão desaparelhados e desfalcados de médicos e medicamentos, e tratam desumanamente quem lhe bate às portas. Todas as penitenciárias não passam de depósitos promíscuos de presos e não se dá ao menos o desconto de que são destruídas por esses mesmos presos a cada rebelião. No entanto, nas redes hospitalar e carcerária do país existem estabelecimentos modelares e regimes prisionais modernos e decentes.

Não é todo déficit que justifica o rótulo de rombo. Não é todo estado da Federação, ou todo órgão público em difícil situação financeira, que deve ser considerado falido. O índice de uma Bolsa de Valores não despenca quando cai 0,5%, nem o país vai para o fundo do poço quando o seu PIB fica eventualmente abaixo de zero. Se a taxa de juros é excepcionalmente de 40% no mês de janeiro, não há por que precipitar uma projeção para o ano inteiro, impondo curva ascendente ou cristalização a um valor por natureza variável e sujeito a declínios e acomodação, conforme temos visto ultimamente."

"Linguagem dissonante", copyright O Globo, 7/9/99

 

ARTIGO 222
Chico Araújo

"Brasília – O parecer da Comissão Especial da Câmara que discute a emenda constitucional sobre a propriedade de empresas jornalísticas e de radiodifusão no País só deverá ser votado a partir de terça-feira. A emenda prevê a abertura ao capital estrangeiro, no limite de até 30%, das empresas jornalísticas e de radiodifusão.

A votação foi adiada porque o deputado Gilmar Machado (PT-MG) pediu vistas do parecer do relator da emenda, deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Com esse pedido, a votação fica suspensa por duas sessões. Existem hoje, no Congresso, duas propostas de emenda constitucional, uma delas abrindo o mercado de comunicação ao capital estrangeiro e outra que possibilita a propriedade dessas empresas por entidades filantrópicas.

Ao pedir vistas do parecer, o deputado Gilmar Machado alegou que não tem sentido a Câmara aprovar a emenda quando o Congresso começa a discutir a nova Lei de Comunicação do País. O ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, tem a tarefa de elaborar a proposta dessa nova lei.

Outros cinco deputados endossaram o pedido do petista. Machado também propôs o retardamento da votação dizendo não estar convencido dos argumentos do relator Henrique Eduardo Alves. ‘Nós, do PT, queremos discutir com mais profundidade essa matéria’, explica Machado. O PT tem quatro deputados na comissão, que é formada por 31. Para o deputado, não está claro no parecer como ocorrerá a entrada do capital estrangeiro nas empresas. Já o deputado Walter Pinheiro (PT-BA) fala em ‘cláusulas de barreiras’ para controlar a entrada desses capitais.

Em seu parecer, Henrique Alves estipulou que as pessoas jurídicas podem ter até 30% de participação no total do capital das empresas de radiodifusão, com direito a voto. Os 70% restantes teriam, obrigatoriamente, de ficar nas mãos de brasileiros natos ou naturalizados há mais de 10 anos. A esses caberia, de fato, o controle efetivo da empresa. Já no caso das empresas jornalísticas (jornais e revistas), as restrições são menores. O relator exige apenas que 70% do capital votante pertença, direta ou indiretamente, a brasileiros natos ou naturalizados há mais de 10 anos.

Atração – A proposta de emenda constitucional que admite, em até 30%, a participação de sócios estrangeiros nas empresas jornalísticas e de radiodifusão pode ser muito atrante para os investidores internacionais. ‘Nos jornais, por meio de acordos de acionistas, esses 30% podem ser transformados em 100%’, explica João Caio Goulart Penteado, sócio do escritório Goulart Penteado, Iervolino & Lefosse Advogados, especializado em direito empresarial.

Ele afirma que é ‘evidente’ que os órgãos formadores de opinião são bons negócios para os investidores estrangeiros. ‘Mesmo as empresas que enfrentam grandes dificuldades financeiras são atraentes porque elas também podem ser vistas como as portas de um mercado politicamente e estrategicamente interessante.’

O advogado Manuel Alceu Affonso Ferreira diz que o projeto avança, ‘ainda que timidamente’, em relação às regras atuais. Mas, ele critica a diferença de tratamento entre as empresas de radiodifusão e as estritamente jornalísticas. A proposta do deputado Henrique Eduardo Alves prevê que o controle efetivo das empresas de radiodifusão deve pertencer exclusivamente a brasileiros natos ou naturalizados há dez anos.

‘É errado supor que a radiodifusão deva merecer um tratamento diferenciado porque provoca uma atitude meramente receptiva do espectador, ou que os jornais alcancem público mais culto, ou ainda, que seja necessário garantir mercado de trabalho apenas aos radialistas brasileiros’, alerta Affonso Ferreira. Ele explica que as diferenças entre jornais, revistas e emissoras são insuficientes para justificar tratamentos constitucionais distintos. (Colaborou Arnaldo Galvão)"

"Adiada votação de emenda sobre capital estrangeiro", copyright O Estado de S. Paulo, 26/9/99

 

LEI SÉRGIO MOTTA
Jailton de Carvalho

"Brasília – O projeto da lei de comunicação eletrônica de massa, preparado pelo falecido ministro Sérgio Motta, está circulando em caráter extra-oficial no Congresso Nacional. O texto, que está sendo revisto pelo atual ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, estabelece restrições que visam a impedir formação de monopólio no setor de rádio e televisão, reduz os poderes do Ministério das Comunicações, fortalece a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e abre caminho para o fim do programa Voz do Brasil.

‘O projeto, muito bem elaborado pelo Sérgio Motta, fortalece o Poder Executivo diante do empresariado’, afirma Daniel Herz, editor da revista Acessocom.com e especialista no assunto. Segundo Herz, a lei teria a curto prazo pouco impacto sobre o mercado, mas no futuro reforçaria o poder de intervenção do governo, em casos de irregularidades ou concentração econômica no setor de comunicação. ‘Proprietários de emissoras de rádio e televisão, que têm ampla liberdade de ação, estariam com a espécie de espada no pescoço’, disse.

Redes – Um dos pontos mais polêmicos do projeto é o que estabelece que uma só pessoa física ou empresa não poderá ‘controlar ou operar’ emissoras de televisão que, em conjunto, cubram mais de 30% dos domicílios do país com aparelhos de TV. Ou seja, o sinal de transmissão de uma emissora ou rede deverá abranger extensão inferior a um terço do território brasileiro. A medida, se cumprida, dificultaria a expansão de empresas de comunicação com alcance nacional, como a Rede Globo, entre outras emissoras.

O projeto proíbe também que uma única pessoa física ou empresa controle mais de 20% das emissoras de rádio AM e FM de uma mesma localidade. A proposta impede ainda a concentração, em um só dono, de uma emissora de TV a cabo com uma emissora MMDS ou com uma TV de sinal aberto. Também não seria permitido o acúmulo de qualquer dessas modalidades de emissora com uma empresa de telefonia fixa.

A proposta consagra ainda a Anatel como órgão regulador das atividades de radiodifusão. A Anatel seria responsável pela formulação da política nacional de telecomunicações e pela fiscalização de todo o setor. Uma das propostas de Sérgio Motta é o fim da obrigatoriedade da retransmissão de programas de informação dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Se a idéia for levada adiante, as emissoras de rádio não serão mais obrigadas a transmitir a Voz do Brasil, criado por Getúlio Vargas na ditadura do Estado Novo.

A lei preparada pelo ministro Sérgio Motta vinha sendo guardada a sete chaves pelo Ministério das Comunicações. Há duas semanas, o texto chegou a um restrito grupo de deputados e senadores. Esses parlamentares, interessados em abrir o debate à opinião pública, se queixam da demora do Ministério das Comunicações em fazer a revisão e remeter a versão definitiva do projeto ao Congresso.

Segundo o senador Pedro Simon (PMDB-RS), o projeto da lei de comunicação de massa já deveria estar em discussão na Câmara dos Deputados. ‘O projeto não foi lançado ainda porque a lei é mais complexa do que, inicialmente pensei’, afirmou Pimenta. O ministro disse ainda que ignora a versão divulgada extra-oficialmente. (Colaborou Mônica Tavares)"

‘Comunicação em debate’, copyright Jornal do Brasil, 3/9/99

 

JORNAIS & PRÊMIOS

Nota do O.I.: O Globo e Correio Braziliense receberam prêmios importantes da Society for News Design, na mesma data e na mesma cidade, mas nenhum mencionou o outro em suas matérias.

O Globo

"A Society for News Design (SND) anunciou ontem que O Globo ganhou duas medalhas de ouro e duas de prata no concurso internacional The Best of Newspaper Design (O Melhor do Design em Jornais). O Globo foi o único jornal brasileiro a ganhar medalhas de ouro [grifo do O.I.] Em março, a sociedade anunciou que o jornal ganhara 15 prêmios de design gráfico, mas não divulgou a premiação das medalhas, o que foi feito ontem, no congresso da entidade, realizado este ano em Copenhague, na Dinamarca. Os 21 jurados analisaram 13 mil páginas de jornais de 50 países, entre eles o americano The New York Times, o britânico Daily Telegraph e os espanhóis El Pais e El Mundo.

O Globo ganhou as medalhas de ouro com ‘Quem tem medo do branco’, capa do Segundo Caderno, de Luiz Noronha e Télio Navega, sobre a peça ‘Arte’, dirigida por Mauro Rasi, e a Bienal de São Paulo; e a capa ‘Motor do soul’, do Segundo Caderno, com ilustração de Cláudio Duarte. A caricatura de Gore Vidal, em capa do Prosa & Verso, feita por Lula, e a capa ‘Arte e Tentação’, do Segundo Caderno, com ilustração de Cruz, ganharam prata.

O Globo já havia conquistado outros onze prêmios [Grifo do O.I.]: nove prêmios de excelência gráfica e dois ‘best of show’ (melhores da mostra).

Esta foi a quarta vez que O Globo participou do concurso da Society for News Design, entidade com sede nos EUA. Na estréia, em 1996, o jornal obteve a medalha de prata pela primeira página da paz, sobre a manifestação contra o fim da violência no Rio. Esta capa também ganhou o Prêmio Esso de Criação Gráfica. No ano seguinte, foram mais três prêmios de excelência gráfica. Em 1998, O Globo conquistou quatro prêmios.

Este ano, a Society for News Design premiou a primeira página ‘Rio entra em colapso’ e capas do Segundo Caderno, do Jornal da Família, do caderno Morar Bem, do suplemento especial sobre maio de 68, além de infográfico publicado na Editoria Internacional (sobre a guerra do Iraque) e de ilustração para a capa do caderno Prosa & Verso."

"O Globo ganha ouro e prata por design gráfico", copyright O Globo, 11/9/99

 

Correio Braziliense

"Foi uma noite histórica para o jornalismo brasileiro. O Correio Braziliense recebeu oficialmente ontem, em Copenhague, na Dinamarca, o prêmio World’s Best Designed Newspaper (Jornal de Melhor Design do Mundo), conferido pela Society For News Design (SND – Sociedade para o Design Jornalístico). Organização internacional, com sede nos Estados Unidos, há 20 anos a SND escolhe os melhores jornais de todo o mundo, avaliando não apenas a qualidade gráfica, mas também o conteúdo informativo – até os textos são examinados pela comissão julgadora.

O prêmio, considerado o Oscar da imprensa, nunca havia sido conquistado antes pelo Brasil. [Grifo do O.I.] O júri incluiu o Correio entre os 17 diários mais bem desenhados do mundo, equiparando-o ao New York Times e a outras famosas publicações internacionais, como o Die Woche (Alemanha) e Daily Telegraph (Inglaterra).

O Correio também ganhou três prêmios de Excelência Gráfica com as edições especiais sobre os 50 anos da Declaração dos Direitos Humanos, a morte de Frank Sinatra e o escândalo sexual envolvendo o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton. O jornal conquistou, ainda, uma medalha pela capa da edição sobre a violência urbana, de março de 1998.

Na solenidade de entrega dos prêmios, o Correio foi representado pelo seu presidente, jornalista Paulo Cabral de Araújo, e pelo editor executivo Francisco Amaral, que é o responsável pelo consagrado projeto gráfico implantado no jornal em 1994. (...)

Respeitada em todo o planeta, a SND tem mais de 2.600 membros espalhados por 48 países. A Sociedade reúne designers, fotógrafos, artistas gráficos, diretores de arte, estudantes e integrantes de faculdades de design, editores e ilustradores de jornais, revistas e páginas de Internet. Nesta 20ª edição do concurso, 291 jornais de todo o mundo inscreveram 13.089 trabalhos publicados durante o ano de 1998. Dezesseis jurados se reuniram entre os dias seis e oito de fevereiro em Syracuse, estado de Nova York. A competição foi dividida em categorias, como fotografia, design de página, matérias especiais, coberturas especiais, tópicos especiais e design de cadernos.

Outros jornais que receberam o prêmio da SND: The New York Times (Estados Unidos), Daily Telegraph (Inglaterra), Die Zeit (Alemanha), Tomskaya Nedelya (Rússia), Le Soleil (Canadá), Diário de Notícias (Espanha), Die Woche (Alemanha), El Correo (Espanha)." [Grifo do O.I.]

"Correio recebe prêmio histórico", copyright Correio Braziliense, 11/9/99



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