SEM-PAPEL?
Ancelmo Gois

"O papel vai acabar?", copyright no. (www.no.com.br), 17/11/00

"Na semana passada, o grupo Suzano reuniu num seminário em São Paulo sábios do Brasil e do exterior para discutirem o futuro do papel. Faz tempo que, por razões ambientais e tecnológicas, muita gente previu o fim do papel. Até agora, a jovem futurologia não passa de uma velha futurologia. Veja o grupo Suzano: as raízes das empresas de Max Feffer estão na celulose. Nos anos 70, o empresário voltou dos EUA impressionado com as sentenças de morte do papel que ouviu. Por via das dúvidas, a Suzano resolveu fabricar plástico - tido, então, como o coveiro do papel no negócio de embalagem. Hoje o setor de plástico do grupo vai muito bem, obrigado - deve gerar um lucro de uns 100 milhões de reais este ano. Mas a área de papel da Suzano vai ainda melhor: aponta para um lucro de 200 milhões de reais."




MAD
Arthur Dapieve

"‘Mad’, número 400", copyright no. (www.no.com.br), 10/11/00

"No próximo dia 14, terça-feira, estará chegando às bancas de jornal dos Estados Unidos a edição número 400 da revista ‘Mad’. Aos 48 anos de idade, sua circulação gira em torno dos 500 mil exemplares mensais, uma marca expressiva, mas muito abaixo da de seus dias de glória, na década de 70, quando chegou a bater nos 2,5 milhões de exemplares. Essa queda frustra a equipe da ‘Mad’, que lamenta que um trabalho tão bom – com paródias de novos filmes e os velhos ‘Spy vs Spy’, por exemplo – não atinja o mesmo número de pessoas de um quarto de século atrás. O trabalho é tão bom, entre outras razões, porque a revista continua sendo escrita e desenhada por lendas como Al Jaffee, Sergio Aragones e Mort Drucker, todos empenhados em manter o nível dos tempos de Harvey Kurtzman (que se afastou da ‘Mad’ em 1956 e morreu em 1993) e Will Gaines (que nunca se afastou da ‘Mad’ até morrer em 1992). Na ‘SF Weekly.com’, o repórter Robert Wilonsky saúda a longevidade da revista ao mesmo tempo que em que reconta a sua heróica saga e observa com um certo distanciamento crítico a sensação de déjà vu que toma quem abre qualquer uma das suas páginas em preto-e-branco. ‘(...) Se você não soubesse, poderia jurar que uma nova edição da ‘Mad’ está preenchida por nada além de reimpressões de velhas edições’, avisa. ‘Lê-la hoje em dia é como caminhar por um museu, com as peças encapsuladas em âmbar.’ A diferença, explica Wilonsky, é que ‘piadas de Frank Sinatra abriram passagem para paródias dos Backstreet Boys, ‘Lolita’ foi chutada para fora por Harry Potter e Batman troca tiros com Pikachu’. Os tempos lá fora, porém, mudaram, de modo que a revista que chegou a ser a segunda em termos de circulação nos EUA – perdendo apenas para a ‘TV Guide’ – hoje se encontra perdida num mar formado por seus próprios subprodutos. Esse, a propósito, é o ponto alto do texto da ‘SF Weekly.com’: reconhecer e hom! enagear a importância da ‘Mad’ para o imaginário cômico americano e, por extensão, mundial. ‘Se é surpreendente que a ‘Mad’ esteja por aí, é apenas porque ela foi há muito suplantada pelas coisas que ela mesma ajudou a criar: sem ‘Mad’, não teria havido ‘National Lampoon’, sem a qual não teria havido Second City, sem a qual não teria havido 'Saturday Night Live', sem a qual não teria havido David Letterman...’, enumera o repórter. ‘(...) Nós vivemos numa cultura da paródia – uma cultura na qual a maioria dos americanos toma conhecimento das notícias através de David Letterman e do ‘Daily Show’, na qual novas propagandas parodiam os próprios produtos que estão empurrando, na qual a ‘Onion’ e a ‘Modern Humorist’ oferecem novas falsas histórias facilmente confundidas com as reais. Assim, a ‘Mad’ não é mais uma leitura requisitada. A aberração se tornou a norma; o palhaço foi cooptado e transformado num homem direito.’ Aqui no Brasil, a nossa versão de Will Gaines, Otacílio Barros! D'Assunção, o Ota, continua mantendo viva a chama da edição nativa da ‘Mad’. Que ela volte às bancas."




JORNALISMO POLÍTICO
Márcio Moreira Alves

"Jornalismo político", copyright O Globo, 12/11/00

"Villas-Bôas Corrêa é o mais antigo analista político em atividade. Começou em 1948, no Governo Dutra, quando o PSD, partido criado pelos interventores nomeados por Getúlio Vargas nos estados, tinha maioria absoluta. Domingo, deu entrevista ao Renato Machado como testemunha visual da História do Brasil. Uma aula agradável e profunda, que deveria ser mostrada em todas as faculdades de comunicação.

Segundo Villas-Bôas, a mudança da capital para Brasília contribuiu para a decadência do jornalismo político. Primeiro, porque nem todos os grandes repórteres vieram para cá. Carlos Castelo Branco veio, virou ator político e fez história. Villas ficou no Rio e continua um espectador privilegiado. Segundo, porque os parlamentares perderam poder, sobretudo após o golpe militar de 1964. Ao acompanhar as suas atividades, os jornalistas não têm mais a impressão de acompanhar o desenrolar da História. Ao longo da ditadura, as fontes passaram a se concentrar no Executivo. Saber o que os parlamentares queriam ou faziam deixou de ser importante.

A crise do petróleo de 1973, segundo Villas, fez com que a grande imprensa fechasse as suas sucursais fora do eixo Rio-São Paulo-Brasília. Diz ele:

- A verdade é que a imprensa deixou de cobrir o Brasil. Uma prova é a ascensão de Fernando Collor. Se tivéssemos ainda sucursais já não digo em Maceió, mas na região, teríamos sabido com antecedência o que fez como prefeito e como governador de Alagoas. E ele não teria sido eleito. Outra prova é a surpresa que tivemos com a CPI do Narcotráfico. Os deputados demonstraram que havia no país gigantescas quadrilhas envolvendo deputados, policiais, juízes, enfim, o aparelho do Estado, e nós não sabíamos de nada.

Talvez a expansão da Internet cubra esta lacuna. Villas acha que a imprensa poderia manter correspondentes virtuais, que ganhassem um salário simbólico e fossem de fato remunerados por produção. Caso as matérias que enviassem fossem publicadas, ganhariam. Se não fossem, não receberiam nada. Este sistema, aliás, já funciona há muitos anos no jornal de maior circulação da França, o ‘Ouest-France’.

Villas-Bôas Corrêa acha que o país piorou muito quanto ao funcionamento das instituições e que a qualidade da representação parlamentar decaiu. Conta:

- No Rio, vivíamos o encanto da oratória dos parlamentares. Não há hoje, no Congresso, quem se compare com os grandes oradores do passado em cultura e eloqüência: Carlos Lacerda, Afonso Arinos, Vieira de Mello, Capanema e tantos outros. Os parlamentares de hoje são menos preparados.

Neste ponto, acho que mestre Villas está totalmente errado. Quanto às instituições, felizmente não vivemos mais sob a ameaça de golpes militares. Seria impossível ouvir de um parlamentar, sobre a eleição de um presidente, o que ouvimos de Carlos Lacerda sobre Juscelino:

- Juscelino não será eleito. Se for eleito, não tomará posse. Se tomar posse, não governará.

Desse susto nos livramos. Logo, apesar das suas imperfeições, especialmente no Judiciário - que continua a defender os seus privilégios com unhas e dentes e a dar mau exemplos à cidadania -, é possível dizer que as instituições funcionam melhor.

Em relação ao Congresso, é verdade que não temos oradores comparáveis aos do passado, nem ninguém com a cultura de Afonso Arinos ou Aliomar Baleeiro. Nem por isso piorou a representação popular. Temos, hoje, muitas mulheres parlamentares, alguns negros, alguns líderes sindicais. Temos muitos especialistas em economia e, no passado, havia só um ou dois. O conjunto da Câmara reflete mais fielmente o povo brasileiro e os seus interesses. No que Villas-Bôas tem razão é quanto à ética. Os grandes políticos da sua geração deixaram pobres a vida pública. Hoje, é raro aquele que pode abrir o seu sigilo bancário e justificar o patrimônio. Uma opulência como a de Jader Barbalho nunca se vira antes. A corrupção, realmente, permeia todos os poderes, estimulada pela impunidade.

Villas-Bôas acha que a cobertura política atravessa ainda uma fase de transição. Fez um rasgado elogio ao meu trabalho de acompanhamento das políticas públicas, o que muito me comoveu e inflou o meu ego. Agradeço, mas acho que a transição já foi feita em Brasília. Eu também sou saudosista dos textos do Castelinho, do próprio Villas, do Otto Lara Resende. Mas isso, talvez, seja saudades da juventude. Temos sempre a impressão de que as coisas eram melhores quando éramos jovens. Não eram. Melhores éramos nós. Não me lembro, entre os colegas dos tempos antigos, quem entendesse, por exemplo, de economia como a Míriam Leitão, a Cláudia Safatle, o Joelmir Beting ou a Maria Clara Prado. Esquecíamos o que Napoleão sabia - o ouro é o nervo da guerra.

A verdade é o que dizia Voltaire:

- A juventude é um bem precioso demais para ser desperdiçado nos jovens."



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